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Oliveira, Bento José de. Nova Grammatica Portugueza – T03

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[Nova grammatica portugueza]
Appendice

Orthometria portugueza

Orthometria é a parte da petica, que tem por objecto a medição
do verso.

Poetica é a arte, que dirige o genio na composição de qualquer
poesia.

Poesia é a linguagem da paixão e da imaginação viva e animada,
ordinariamente subjeita a medida regular. Diz-se poeta o
que fala esta linguagem ; e poema toda a composição poetica.

O discurso póde ser expresso ou em prosa ou em verso.

Prosa é a phrase corrente e solta, isto é, que não está, como
o verso, subjeita a certo número de syllabas, nem a determinada
ordem de accentos e consonancias.

Verso ou metro é um ajunctamento de palavras, e algumas vezes
uma palavra só, com certo número de syllabas, e determinada
ordem de accentos predominantes (1)1, d’onde resulta uma cadencia aprazível.

Os versos portuguezes distinguem-se :

1.° pelo número de suas syllabas ;

2.° pela posição do último accento predominante ;

3.° pela melodia ou cadencia final.

I. Dos versos portuguezes, considerados quanto ao número das
syllabas, podêmos fazer treze especies, a saber :

Primeira. Versos de quatorze syllabas com accento predominante
na 6a e 13a.

Exemplo : « O saber, a virtude, o valor, a probidáde,
Os homens engrandéce, em paz governa o múndo. »111

Segunda. De treze syllabas, ou alexandrinos, com accento na
6a e 12a.

Ex. : « Se a fortuna um diadêma em teu berço ha lançádo,
D’esse dom casuál não me atrahe o esplendôr :
Tens mais rico diadêma, eterno conquistádo ;
Quem mede em ti o sábio, esquece o imperadôr. »

Terceira. De doze syllabas, ou de arte maior, com accento na
5a e 11a.

Ex. : « De espigas e pálmas c’roemos a enxáda,
Morgado e não pêna dos filhos d’Adão ;
Mais velha que os scéptros, mais util que a espáda,
Thesouro é só élla, só élla é brazão (1)2. »

Quarta. De onze syllabas, ou hendecasyllabos (2)3, com accento
na 6a e 10a, ou na 2a, 6a e 10a ; ou na 3a, 6a e 10a ; ou
na 2a, 4a, 8a e 10a.

Ex. : « Que da occidental práia lusitâna. »
« As ármas e os barões assignaládos. »
« E também as memórias gloriósas. »
« Nuvem cerráda do feróz Mavórte. »
« Salvár a glória da nação latína. »

Quinta. De dez syllabas, com accento na 3a, 6a e 9a.

Ex. : « Vem, ó dôna das gráças e flôres,
Volve ao mundo teu mágo calôr ;
Nos que fógem d’amôr, gera amôres
Nos que a amôres se dão, cria amôr. »

Sexta. De nove syllabas, com accento na 4a e 8a ou na 3a

Ex. : « Acompanhai meu vão lamento,
Auras ligeiras que passais !
Tu, caro a amôr, doce instrumento,
Casa c’os meus, teus frouxos ais. »112

Septima. De oito syllabas, ou redondilha maior, com accento
na 2a e 7a, ou na 3a e 7a, ou na 4a e 7a.

Ex. : « Que irá dizendo o Mondêgo
A susurrár nesta arêa ?
Que lhe responde da margem
O sinceirál, que a sombrêa (1)4 ? »

Oitava. De septe syllabas, ou heroico quebrado ou menor, com
accento na 6a.

Ex. : « Salve florinhas simplices
Que em dita me egualaes.
Bellas sem artifícios,
Felizes sem rivaes. »

Nona. De seis syllabas, ou redondilha menor, com accento na
2a e 5a, ou na 3a e 5a.

Ex. : « No espáço mesquinho
Da vida mortál,
O bem só se sônha
Mas sente-se o mál. »

Decima. De cinco syllabas, ou quebrado de cinco syllabas, com
accento na 1a e 4a, ou na 2a e 4a.

Ex. : « Da meiga infancia
Lédo surrir
Fóge c’o tempo,
Não tórna a vir. »

Undecima. De quatro syllabas, ou redondilha menor, com accento
na 3a.

Ex. : « De amor fóge
Coração,
Não te arróje
Num vulcão. »113

Duodecima. De tres syllabas, ou trissyllabos, com accento
na 2a.

Ex. : « Aqui
A flôr
Surri
Amôr. »

Decima terceira. De duas syllabas ou dissyllabos, com accento
na 1a.

Ex. : « D’homem
Só
Tende
Dó. »

II. Quanto á posição do último accento predominante são os
versos – inteiros ou graves, se têm o accento na penultima, e
tantas syllabas, quantas designa o seu nome ; agudos, se o têm na
última, e uma syllaba de menos ; e esdruxulos, na antepenultima,
e uma syllaba de mais.

Exemplos

Inteiro ou grave | As armas e os varões assignaládos.
Agudo | Vasco da Gama o forte capitão.
Esdruxulo | Salve, florinhas simplices.

Como o accento na penultima é um dos principaes fundamentos
da melodia dos versos portuguezes, d’aqui vem que, para esta
se não alterar, têm os esdruxulos uma syllaba de mais, e os agudos
uma de menos ; como acabamos de ver nos exemplos anteriores.

III. Quanto á melodia ou cadencia final, são os nossos versos
tambem soltos ou rimados, conforme terminam em vocabulos consoantes
ou não.

Rima é a conformidade dos sons finaes de dous ou mais versos.
A rima diz-se consoante, quando guarda conformidade em
todas as letras desde a vogal accentuada até ao fim das palavras,
em que terminam dous ou mais versos : como – certeza e firmeza,
gloria
e memoria, mundo e profundo : e diz-se toante ou assoante,
quando se contenta só com a conformidade nas vogaes, como
mando e casto, cha e mortal, horrifico e sanctissimo. A rima
toante está em completo desuso.114

A rima consoante divide-se em encadeada, emparelhada e interpolada.

A encadeada é quando a dicção final de um verso rima com
uma ou mais dicções do meio do verso seguinte.

Ex. : « Que alegre campo e praia deleitosa,
Que saudosa faz esta espessura !
A formosura angelica serena
Da tarde amena, etc. »

« Outros hásteas de settas delgaçando,
Trabalhando, cantando, etc. (1)5 »

A emparelhada é quando os finaes de dous ou mais versos consecutivos
rimam um com o outro.

Ex. : « Inimiga não ha tão dura e fera
Como a virtude falsa da sincera (2)6. »

A interpolada é quando dous ou mais versos, que rimam entre
si, são permeiados de um até seis versos de rima differente.

Ex. : « A vida assim, o futuro
Sempre assim como hoje é
Este presente ! Tem fé,
Que eu tenho, e vou seguro
Neste amor tão vivo e puro,
Que sorvo nos labios teus ;
Em fim vivemos ; vivamos ;
E assim um dia subamos
A ajoelhar aos pés de Deus (3)7 ! »

Vejam-se os exemplos nos poetas.

Contagem das syllabas no verso

No verso não se contam por syllabas todos os sons, em que as
palavras se podem dividir, mas omittem-se uns, absorvem-se ou
contrahem-se outros, que em rigor grammatical formam syllabas
distinctas ; do que resulta achar-se em um mesmo verso maior número
de syllabas grammaticaes, que de metricas.

São portanto na medição do verso mui frequentes as figuras
115que alteram os sons das palavras, taes são – a synerese, dierese,
synalepha, dialepha, crase
e ecthlipse ; de que já tractámos no seu
respectivo logar.

Sirva de exemplo, e ao mesmo tempo de exercicio, a seguinte
estancia de Camões (1)8 :

Põe-me onde se use toda a feridade
Entre leões e tigres, e verei
Se nelles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei :
Alli co’o amor intrinseco, e vontade
Naquelle por quem mouro, criarei
Estas reliquias suas que aqui viste,
Que refrigerio sejam da mãe triste.

Que se mede assim :

tableau 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | põe | m’on- | de | s’u | se | to- | dá | fe- | ri- | da- | en- | tre | le- | ões | e | ti- | gres | ve- | rei | nel- | les | a- | char | pos- | so | a | pi- | e- | qu’en- | pei- | tos | hu- | ma- | nos | não | chei | al- | li | co’a- | mor | in- | trin- | se- | co | von- | ta- | na- | quel- | le | por | quem | mou | ro | cri- | es- | tas | re- | li- | quias | su- | as | qu’a- | qui- | vis-te | que | fri- | ge- | rio | jam | da | mãe | tris- | te.

Para a medida do verso ser mais melodiosa concorre muito a
cesura, isto é, a partição que se faz da palavra, que tem accento
na penultima, junctando a sua última syllaba á primeira da palavra
seguinte.

Ex. : E não d’agrés-te avê-na ou frau-ta rúda.

Hemistichio é a metade de um verso.

Licenças poeticas

As figuras que os poetas empregam para modificar os vocabulos,
alterando já as letras, já a quantidade das syllabas, costumam
chamar-se licenças. D’estas tambem já tractámos acima nos numeros
152 até 157.

Fim.116

1(1) Vêde na Prosodia, n.° 165, o que é accento predominante.

2(1) Os versos da 1a, 2a e 3a especie, ou já estão inteiramente em
desuso, ou são pouco usados.

3(2) Os hendecasyllabos tambem se chamam grandes ou heroicos, quando
narram gloriosos feitos de heroes, ou empreza heroica felizmente concluida.

4(1) Os versos da 7a até 13a especie têm o nome commum de pequenos,
e tambem de lyricos, por serem aptos para se cantarem ao som de musica
instrumental.

5(1) Camões.

6(2) O mesmo.

7(3) Sr. J. de Lemos.

8(1) Lus., cant. 3.°, est. 129.