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Aulete, Francisco Júlio Caldas. Grammática Nacional – T01

| Table des matières | Fiche | Texte |

[Grammatica nacional]

Introducção

1 As linguas formam-se de palavras e de phrases, portanto
estudar uma lingua é estudar palavras e phrases.

As palavras são aggregados de sons ou de signaes graphicos
representando uma noção ; assim o estudo das palavras divide-se
em duas partes : estudo da formação material das palavras,
e estudo da formação logica das palavras.

As palavras quando se representam por meio dos sons
chamam-se palavras falladas ; quando se representam por
meio de signaes graphicos ou letras, palavras escriptas. As
primeiras são percebidas pelos ouvidos, as segundas pelos
olhos, ou pelo tacto se estão figuradas em relevo.

I. — Palavras

A) Formação material das palavras

2 As palavras são falladas ou escriptas.

a) Palavra fallada

3 Palavra fallada é uma syllaba ou mais representando
uma noção.

4 Syllabas são os elementos de que se formam as
palavras falladas, os quaes são vozes e articulações.

5 As vozes que existem na lingua portugueza dividem-se
em oraes e nasaladas ; — as oraes são : á, a, é, ê ,
e, i, ó, ô, u
 ; as nasaladas : an, en, in, on, un.

6 Estas vozes costumam-se agglutinar duas a duas e pronunciarem-se
com uma só prolação de voz — e chamam-se por
isso diphtongos ; os que existem na lingua portugueza são :
ái, áu, âu, éi, éo, êu, ie, iu, óe, ôi, ôo, ão, ãe, ẽe, õe, ũi.

7 As articulações que existem na lingua portugueza são :
b, c, d, f, g, j, l, m, n, p, r, rr, s, t, v, x, nh, lh.

As palavras formadas de uma só syllaba denominam-se
monosyllabos ; exemplo : fé, cruz. Mas nem todas as syllabas
3são palavras. Disyllabos são as formadas de duas
syllabas ; exemplo : livro, alma ; — trisyllabos são as
formadas de tres syllabas ; exemplo : verdade, virtude ; —
polysyllabos as formadas de muitas syllabas ; exemplo :
immortalidade, constitucionalidade.

b) Palavra escripta

8 Palavra escripta é uma ou muitas letras reunidas
exprimindo uma noção. As palavras escriptas formam-se de
letras.

9 As letras são os signaes graphicos com que se representam
as vozes ou as articulações. Classificam-se em
vogaes e consoantes.

10 As vogaes são as letras com que se figuram as
vozes ; — as concoantes são as letras com que se figuram
as articulações.

11 As letras vogaes que existem na lingua portugueza,
são : a, e, i, o, u, y. As consoantes são : b, c, d, f, g ,
h, j, k, l, m, n, p, q, r, s, t, v, x, y, z
.

12 A collecção de todas as letras denomina-se abecedario
ou alphabeto. A ordem das letras vulgarmente
adoptada é a seguinte : a, b, c, d, e, f, g, h, i, j, k, l ,
m, n, o, p, q, r, s, t, u, v, x, y, z
.

Interrogatorio

De que são formadas as linguas ? — O que são palavras ?
— Como se divide o estudo das palavras ? — O que são palavras
falladas ? — O que são palavras escriptas ? — Por que
orgão são percebidas as palavras falladas ? — Por que orgão
são percebidas as palavras escriptas ? — Por quantos modos
podem ser percebidas as palavras ? — O que é palavra fallada
ou proferida ? — As palavras falladas de que se formam ?
— O que são syllabas ? — De quantas vozes se compõe
a lingua portugueza ? — Diga-as todas. — Quantas são
as vozes que entram na composição das palavras portuguezas ?
— Quantos são os diphtongos que entram na composição
daspalavras portuguezas ? — Diga todos que existem
na lingua portugueza. — Diga as articulações que existem na
lingua portugueza. — O que é monosyllabo ? — O que é disyllabo ?
4— O que é trisyllabo ? — O que é polysylabo ? — O que
é palavra escripta ? — De que se formam as palavras escriptas ?
— O que são letras ? — Como se classificam ? — O que são
vogaes ? — O que são consoantes ? — Quantas são as vogaes
que existem na lingua portugueza ? — Diga as consoantes que existem
na lingua portugueza. —O que é abecedario ou alphabeto ?
— Diga a ordem vulgarmente adoptada nos ebecedarios ou alphabetos.

B) Formação logica das palavras

13 As palavras consideradas logicamente, isto é, pela significação,
formam-se de tres elementos : radicaes,
suffixos e prefixos.

O estudo rigoroso dos radicaes, dos prefixos e suffixos é de
grande importancia para os que a desejam escrever com correcção
e clareza. Não se sabe bem a significação de uma palavra,
nem o seu rigoroso emprego, emquanto se não conhece a
origem dos seus radicaes. Assim como ha difficuldade em tratar
com uma pessoa que apenas se conhece de vista ; egual
embaraço encontra quem tem de empregar um termo de que
se ignora a filiação.

Dos tres elementos de que se formam as palavras o mais
importante é o radical ; porque é este que contém o sentido
principal ; os prefixos e os suffixos são as particulas que se
juntam no principio ou no fim dos radicaes para lhe determinar
ou modificar a significação, juntar alguma idéa de relação
ou suavisar-lhes a pronuncia. Os philologos para dar
uma idéa da dependencia que estes elementos teem entre si,
costumam empregar o seguinte simile : Comparam o radical a
uma bengala sem castão nem ponteira ; chamam castão ao
prefixo e ponteira ao suffixo.

14 Radical é a syllaba ou syllabas que exprimem
de um modo vago a idéa fundamental da palavra.

15 Suffixos são as particulas que se accrescentam no
fim dos radicaes ; — prefixos são as que se juntam no
principio.

Exemplos

Rosaros-a ; — ros radical, a suffixo.

rosalros-al ; — ros radical, al suffixo.5

sabiamentesab-i-a-mente ; — sab rad., i suff., a suff.,
mente suff.

justo, justajus-to, just-a ; — just radical ; o a suffixos.

desajustardes-a-just-ar ; — des perf., a perf., just rad.,
ar suff.

desajustadissimodes-a-just-a-d-i-ss-imo ; — des perf., a perf.,
just rad., a suff., i suff., ss suff.,
imo suff.

16 As palavras, em quanto á sua formação, dividem-se
em palavras primitivas, derivadas, subderivadas
e compostas.

17 As primitivas são as palavras fundamentaes de
que se formam todas as mais palavras.

18 Derivadas são as formadas directamente das primitivas.

19 Subderivadas são as formadas das primitivas
por intermedio das derivadas.

20 Compostas são as formadas de duas ou mais palavras
inteiras, que se costumam tambem empregar separadamente.

Exemplos

Pal. prim. | Pal. deriv. | Pal. subderiv. | Pal. comp.

Pedra / pedreira | pedreirinha | pedra-hume
pedregulho | pedregulhento | pedra-infernal
pedreneira | empedrenir | pedra-bazar
pedregoso | pedregosissimo | pedra-lipes
empedrar | desempedrar | pedra-liós, etc.

Quaes são os elementos logicos de que se formam as palavras
consideradas segundo a sua significação ? — O que são
radicaes ? — O que são suffixos ? — O que são prefixos ? — Exemplifique.
— O que são palavras primitivas ? — O que são palavras
derivadas ? — O que são palavras subderivadas ? — O que são
palavras compostas ? — Exemplifique.

II. — Phrases

21 Quem falla ou escreve affirma ou nega alguma cousa.

22 A’s palavras com que se affirma ou nega alguma coisa
chama-se oração ; exemplos :6

Portugal é livre

Analyse

Estas palavras constituem uma oração, porque affirmam ser
Portugal um povo livre.

D. Pedro v não foi venturoso

Analyse

Estas palavras constituem uma oração, porque negam a
D. Pedro V a qualidade de ser venturoso.

23 A uma ou mais orações, formando um sentido inteiro,
chama-se periodo ; um ou mais periodos representando
o pensar completo sobre qualquer assumpto denomina-se
discurso.

Um discurso póde ser formado de um só periodo, e este
de uma unica oração ; portanto uma simples oração póde
ser um discurso completo.

O exemplo : D. Affonso Henriques foi o primeiro rei de
Portugal
, é um discurso formado de um só periodo, e este
de uma única oração.

24 A oração é formada de tres elementos : sujeito,
verbo e attributo.

25 Sujeito é o nome que designa a pessoa ou a coisa,
da qual outra coisa é affirmada ou negada. Exemplo :

D. Luiz é um monarcha illustradissimo

D. Luiz é o sujeito, porque representa o nome da pessoa
de quem se affirma a qualidade da ser um monarcha illustradissimo.
— Sujeito é a resposta que se ha de dar á seguinte
pergunta : quem ? que ? feita juntamente ao verbo e
ao attributo ; v. g. Quem é um illustradissimo monarcha ?
Resposta : D. Luiz. Logo D. Luiz é o sujeito.7

26 Attributo é o nome que designa a coisa que é
affirmada do sujeito.

No exemplo citado : D. Luiz é um monarcha illustradissimo,
as palavras um monarcha illustradissimo são o attributo.
— Attributo é a resposta que se ha de dar á seguinte
pergunta : o que se affirma ou nega do sujeito ? v. g. o que
se affirma de D. Luiz
 ? — Resposta : ser um monarcha illustradissimo.
Logo monarcha illustradissimo é o attributo.

27 Verbo, como elemento da oração, é a palavra que
representa a affirmação ou a negação.

No exemplo citado : D. Luiz é um monarcha illustradissimo,
a palavra é representa o verbo, porque exprime a affirmação.

28 O sujeito, o attributo e o verbo podem
ser formados de uma ou mais palavras. Quando são formados
de uma só palavra chamam-se simples, quando
são formados de duas ou mais palavras que lhes inteiram
a significação, complexos ou compostos.

Exemplos

A terra é espheroidal.

D. Manuel filho de d. João ii foi na verdade o mais
ousado iniciador dos commettimentos maritimos do seu seculo.

Analyse

A terra… sujeito simples
é… verbo simples
espheroidal… attributo simples

D. Manuel filho de D. João II… sujeito complexo
foi na verdade… verbo complexo
8o mais ousado iniciador dos commettimentos maritimos do seu seculo… attributo complexo

29 Complemento é uma ou mais palavras que se
juntam a outras para lhes inteirar a significação ; exemplos :

Mez de Maria, copo de prata, café com leite, oiro sem
liga, D. Pedro IV outorgou a Carta Constitucional em 1826.

30 Quando o sujeito é formado de dois ou mais termos,
representando individuos distinctos, denomina-se sujeito
composto. Estes termos acham-se sempre separados por
alguma d’estas particulas (claras ou subentendidas) e, nem ,
seja, quer
 ; exemplos :

Alexandre Herculano, e Latino Coelho são os grandes reformadores
da prosa portugueza.

Nem João de Barros nem o Padre Antonio Vieira foram
poetas.

Analyse

Alexandre Herculano, e Latino Coelho… sujeito composto
são… verbo
os grandes reformadores da prosa portugueza… attributo complexo

Nem João de Barros nem o Padre Antonio Vieira… sujeito composto
foram… verbo
poetas… attributo

31 Quando o attributo é formado de dois ou mais termos,
representando coisas distinctas, denomina-se attributo
composto. Estes termos acham-se sempre separados por
alguma d’estas particulas e, nem, ou, exemplos :9

Affonso de Albuquerque foi o mais honrado vice-rei da
India, e o mais esforçado capitão do seu tempo.

O christianismo não é contrario á liberdade nem ao progresso.

Todos os entes da natureza são animaes, vegetaes ou mineraes.

Analyse

Affonso de Albuquerque… sujeito
foi… verbo
o mais honrado vice-rei da India, e o mais esforçado capitão do seu tempo… attributo composto.

O christianismo… sujeito
não é… verbo negativo
contrario á liberdade nem ao progresso… attributo composto

Todos os entes da natureza… sujeito complexo
são… verbo
animaes, vegetaes ou mineraes… attributo composto

32 Ha palavras que por si só representam uma oração
completa, exemplos : vivo, escrevo.

Analyse

Qualquer d’estas palavras é uma oração. Vivo, quer dizer
eu affirmo de mim, na actualidade, o acto de viver. Escrevo,
quer dizer eu affirmo de mim na actualidade que pratico
o acto de escrever ou affirmo de mim a qualidade de saber
escrever. O sujeito e o verbo estão representados nos
suffixos verbaes, o, o, que querem dizer eu na actualidade
affirmo de mim as idéas representadas pelas raizes viv e escrev.
10Viv
, significa a idéa vaga de viver. Escrev, exprime
egualmente a idéa vaga de escrever.

O professor ha de continuar estes exercicios apresentando
pequenas orações para os alumnos se habituarem a distinguir
com facilidade os elementos da oração.

33 O sujeito, o attributo e o complemento de uma oração
podem ser outras orações, e denominam-se por isso sujeito
oracional, attributo oracional, complemento
oracional, exemplos :

Queremos ser livres foi o grito geral dos nossos primeiros
paes.

Bartholomeu Dias foi quem descobriu o Cabo de Boa Esperança.

Pedro Nunes foi o sabio que em Portugal fez o mais util
descobrimento mathematico.

Analyse.

Queremos ser livres… sujeito oracional
foi… verbo
o grito geral… attributo
dos nossos primeiros paes… complemento do attributo

Bartholomeu Dias… sujeito
foi… verbo
quem descobriu o Cabo de Boa Esperança… attributo oracional

Pedro Nunes… sujeito
foi… verbo
o sabio… attributo
que em Portugal fez o mais util descobrimento mathematico… complemento oracional do attributo

34 As orações que entram na formação de um periodo,
11em relação umas ás outras, dividem-se em fundamentaes
e subordinadas.

35 As fundamentaes são as que contém o sentido
principal do periodo.

36 As subordinadas subdividem-se em integrantes
e complementares.

37 Integrantes são as que estão servindo de sujeito
ou de attributo ou de complemento objectivo a outra oração.
— Complementares são as que se empregam
para inteirar o sentido de outra oração, ou de algum dos
seus elementos.

Directorio

O professor escolherá trechos faceis, e ordenará aos alumnos
que os analysem :

Exemplo

É o idioma de um povo a mais eloquente revelação da sua
nacionalidade e da sua independencia.

Na linguagem andam vinculadas as suas grandezas e as
suas gloriosas tradições. A alteração viciosa e irracional da
sua indole propria testifica a irrupção de idéas e de costumes
peregrinos, que vieram corromper e desluzir o caracter primitivo
da nação. Em todos os povos policiados os annaes da
litteratura correm parallelos aos fastos da vida nacional. Com
as mais notaveis glorias da navegação e da espada se ajustaram
as mais altivas galhardias da linguagem portugueza.

Quando o genio emprehendedor da nossa antiga gente amadureceu
para a conquista e senhorio do Oriente, a linguagem ,
de inculta e balbuciante que havia sido nos primeiros
seculos da monarchia, fixou-se em formas elegantes e arrojadas
nos cantos heroicos de Camões.

Latino CoelhoDiscursos Academicos.

Analyse.

Este trecho contém seis periodos.12

1.° Periodo

É o idioma de um povo a mais eloquente revelação da sua
nacionalidade e da sua independencia.

Este periodo é formado de uma única oração, cujos elementos
são os seguintes :

O idioma de um povo… sujeito complexo
é… verbo
a mais eloquente revelação da sua nacionalidade e da sua independencia… attributo composto e complexo.

2.° Periodo

Na linguagem andam vinculadas as suas grandezas e as
suas gloriosas tradições.

Este periodo é formado de uma única oração :

As suas grandezas e as suas gloriosas tradições… sujeito composto
andam… verbo
vinculadas na linguagem… attributo

3.° Periodo

A alteração viciosa e irracional da sua indole propria testifica
a irrupção de idéas e de costumes peregrinos, que vieram
corromper e desluzir o caracter primitivo da nação.

Este periodo contém duas orações : uma fundamental e
outra complementar.

Oração fundamental

A alteração viciosa e irracional da sua indole propria… sujeito
testifica… verbo contendo em si o attributo
13a irrupção de idéas e de costumes peregrinos… complemento composto do attributo

Oração complementar

que… sujeito
vieram corromper e desluzir… verbo e attributo composto
o caracter primitivo da nação… complemento do attributo.

4.° Periodo

Em todos os povos policiados os annaes da litteratura correm
parallelos aos fastos da vida nacional.

Este periodo contém uma unica oração cujos elementos são
os seguintes :

os annaes da litteratura… sujeito
correm… verbo
parallelos aos fastos da vida nacional… attributo e complemento
em todos os povos policiados… outro complemento

Interrogatorio

O que é fallar ? — O que é oração ? — O que é periodo ? —
O que é discurso ? — Quantos são os elementos de uma oração ?
— Diga-os. — O que é sujeito ? — O que é verbo ? — O que
é attributo ? — Exemplifique os tres elementos de uma oração.
— O que é sujeito simples ? — O que é verbo simples ? O
que é attributo simples ? — O que é sujeito complexo ? —
O que é verbo complexo ? — O que é attributo complexo ? —
O que é complemento ? — O que é sujeito composto ? — O que
é attributo composto ? — O que é sujeito oracional ? — O que
é attributo oracional ? — O que é complemento oracional ? —
Uma palavra póde por si constituir uma oração ? — Cite
exemplos. — As orações como se dividem ? — como se subdividem
as subordinadas ? — O que são orações integrantes ? — O
que são orações complementares ?14

Definição da grammatica e divisão
do seu estudo

38 Grammatica é o estudo que ensina a fallar e a
escrever bem.

39 O estudo da grammatica divide-se em quatro partes,
a saber : Lexicologia, Syntaxe, Prosodia e
Orthographia.

40 Lexicologia tracta da classificação das palavras,
das suas modificações e da sua origem.

41 Syntaxe tracta da formação do periodo.

42 Prosodia tracta de representar com correcção as
palavras falladas.

43 Orthographia tracta de representar com correcção
as palavras escripas.

Advertencia. — O estudo da prosodia e da orthographia
deve-se fazer praticamente logo desde a primeira lição de
grammatica ; mandando o professor ler 10 linhas, com toda a
correcção e esmero, a cada alumno, em seguida dictal-as-ha,
para elles as escreverem de cór. Com estes simples exercicios
os alumnos achar-se-hão habilitados, quando chegarem
ao fim d’este compendio, a pronunciar e orthographar correctamente
a sua lingua. Na Selecta Nacional encontrará o professor
trechos apropriados para estes exercicios ; v. gr. :

Arranca o estatuario uma pedra d’essas montanhas, tosca ,
bruta, dura, informe ; e depois que desbastou o mais grosso ,
toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem ;
primeiro, membro a membro, e depois feição por feição ,
até á mais miuda ; ondeia-lhe os cabellos, alisa-lhe a testa ,
rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a bocca, avulta-lhe
as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe
as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos :
aqui desprega, alli arruga, acolá recama ; e fica um homem
perfeito, e talvez um santo que se póde pôr no altar.
(Selecta Nacional.)15

Parte primeira
Lexicologia

44 O estudo da lexicologia tracta da classificação das
palavras, das suas diversas modificações, e da sua origem.

I. — Classificação das palavras

45 As palavras classificam-se em palavras variaveis
e em palavras invariaveis.

As palavras variaveis subdividem-se em substantivos,
pronomes, adjectivos, artigos e verbos. (1)1

As palavras invariaveis subdividem-se em adverbios,
preposições, conjuncções e interjeições.

A) Palavras variaveis

a) Substantivo

46 Substantivo é o nome das pessoas ou das coisas.

47 Os substantivos dividem-se : em substantivos proprios
e communs.

48 Substantivo proprio é a palavra com que se individualisa
uma determinada pessoa ou coisa.

49 Substantivo commum é a palavra com que se nomeia
qualquer pessoa ou coisa de uma classe, ou a totalidade
dellas.16

Quando o substantivo commum representa a totalidade dos
individuos de uma classe ou parte d’ella, disse-se que está tomado
em accepção collectiva ; exemplo : Em poucos seculos
o homem não caberá em toda a terra
. N’este trecho o vocabulo
homem está tomado em accepção collectiva, isto é, representa
a totalidade dos homens. — O homem tem duas mãos ; n’este
exemplo o substantivo commum homem significa cada homem,
cada individuo da especie humana.

Ha substantivos que são sempre collectivos ; taes são :
povo, rebanho, exercito, congregação, regimento, etc.

Directorio

O professor apresentará trechos classicos para os alumnos
dizerem os substantivos que n’elles encontram ; exemplo :

Morreu enfim o papa Clemente XI em o do corrente pelas
9 horas da manhã ; celebraram sua morte os validos com
sentimento, os demais com alvoroço, uns pelas novidade, outros
pela esperança, etc.
(Selecta Nacional, p. 274.)

Interrogatorio

De que tracta a lexicologia ? — Como se classificam as palavras
que ha na lingua portugueza ? — Como se subdividem
as variaveis ? — Como se subdividem as invariaveis ? — O que
é substantivo ? — Como se dividem os substantivos ? — O que
são substantivos proprios ? — O que são substantivos commmuns ?
— O que são substantivos collectivos.

b) Pronome

50 Pronomes são as palavras com que se representam
as pessoas grammaticaes.

Em grammatica as pessoas dividem-se em tres categorias.
Pessoas da primeira pessoa ; — pessoas da segunda pessoa ; pessoas
da terceira pessoa.

A primeira pessoa é a que falla no discurso ; — a segunda
pessoa é aquella com quem se falla ; — terceira pessoa é a de
quem se falla.

51 Os pronomes dividem-se : em pronomes da primeira
pessoa, da segunda pessoa, e da terceira
pessoa.17

52 Os pronomes que existem na lingua portugueza
são :

Pronomes da primeira pessoa

Eu, nós, me, mim, nos, commigo, comnosco

Pronomes da segunda pessoa

Tu, vós, te, ti, vos, comtigo, comvosco

Pronomes da terceira pessoa

Elle, ella, elles, ellas, se, si, comsigo, lhe, lhes ,
o, a, os, as, lo, la, los, las

53 Os grammaticos classificam de pronomes as palavras
que, quem, qual, quaes, onde, isto, isso, aquillo e chamam-lhes
pronomes relativos.

Os pronomes nos, vos, lhe, lhes, quando concorrem com os
pronomes lo, la, los, las, o, a, os, as, combinam-se da seguinte
maneira :

nos lo… no-lo | vos lo… vo-lo
nos la… no-la | vos las… vo-las
nos los… no-los | lhe o, lhes o… lh’o
nos las… no-las | lhe os, lhes os… lh’os
vos la… vo-la | lhe a, lhes a… lh’a
vos los… vo-los | lhe as, lhes as… lh’as

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos apontarem
os pronomes e os substantivos que n’elles houver ; exemplo :

Deus será comnosco e com ella ! — Mas não : Telmo não
lhe diz nada por certo ; eu já lhe asseverei — e acreditou-me
— que a mãe estava melhor, que tu ias logo ve-la… etc.
(Selecta Nacional, p. 301.)18

c) Adjectivo

54 Adjectivo é a palavra que se juncta aos substantivos
para exprimir com mais exacção a pessoa ou
coisa de que se trata.

55 Os adjectivos dividem-se em qualificativos e
determinativos, e estes em possessivos, demonstrativos,
relativos e numeraes.

1 Qualificativos são os que exprimem as qualidades
ou as propriedades das pessoas ou das coisas. Exemplos :

Branco, azul, grande, pequeno, pesado, solido, terno ,
amavel, justo, espiritual, immortal, etc.

2 Possessivos são os que determinam os substantivos,
mostrando a pessoa ou a coisa a que pertencem.

Os principaes adjectivos possessivos que existem na lingua
portugueza são os seguintes :

meu… meus | sua… suas
minha… minhas | nosso… nossos
teu… teus | nossa… nossas
tua… tuas | vosso… vossos
seu… suas | vossa… vossas

3 Demonstrativos são os que determinam os substantivos
pelo logar que occupam em relação ás pessoas
grammaticaes.

Os principaes demonstrativos que existem na lingua portugueza
são :

aquelle, aquella, aquelles, aquellas
este, esta, estes, estas
esse, essa, esses, essas

4 Relativo é o que determina os substantivos, referindo-os
á pessoa grammatical de que se falla. O adjectivo
relativo que existe na lingua portugueza é

cujo, cuja, cujos, cujas19

5 Numeraes são os que exprimem a relação entre a
unidade e a quantidade. Os numeraes subdividem-se em definidos
e indefinidos, e ordinaes. Definidos
são os que representam um numero certo ; taes como : um ,
dois, tres
, etc. — indefinidos os que representam um
numero incerto ; taes como : uns, alguns, muitos, etc ; — os
ordinaes são os que estabelecem a ordem da successão
das idéas ; taes como : primeiro, segundo, terceiro, etc.

Os substantivos empregam-se em accepção determinada ou
indeterminada ; exemplos :

A senhora de manto preto entrou na sala — Uma senhora
de manto preto entrou na sala.

Na primeira oração o substantivo commum senhora está empregado
em accepção determinada ; na segunda em accepção
indeterminada. Os grammaticos chamam no primeiro caso aos
vocabulos o, a, adjectivos articulares ou simplesmente
artigos ; — e no segundo aos adjectivos um, uma, adjectivos
indeterminados.

Directorio

O professor apresentará trechos apropriados oara os alumnos
dizerem os adjectivos e os substantivos que contém ;
exemplo :

A figura alta, a cabeça nobremente modelada e similhante
á de um senador romado de grave auctoridade ; os olhos penetrantes
e sagacissimos ; a fronte larga e abobadada ; os cabellos
desalinhados e artisticos ; o peito amplo ; altiva
a projectação do vulto, quando parecia accommetter o adversario… etc.
(Selecta Nacional, d. 104.)

Interrogatorio

O que é adjectivo ? — Cite alguns exemplos. — Como se
dividem os adjectivos ? — O que são adjectivos qualificativos ?
— Exemplifique. — O que são adjectivos possessivos ? — Exemplifique.
— Diga os principaes que existem na lingua portugueza.
— O que é adjectivo demonstrativo ? — Exemplifique.
— O que é adjectivo relativo ? — O que são adjectivos numeraes ?
— Exemplifique. — O que é adjectivo indeterminado ?
— O que são adjectivos articulares ?20

d) Artigo

56 Artigo é uma pequena palavra que mostra que o
nome a que se juncta está tomado em accepção determinada ;
exemplos :

O homem é mortal — O homem virtuoso e sabio é respeitado
— O homem contemporaneo que mais tem illustrado a
sua patria é Alexandre Herculano.

N’estes exemplos as palavras o, o, o, que precedem os tres
substantivos homem, são artigos ; porque mostram que estes
termos estão tomados em accepção determinada.

57 Os artigos que existem na lingua portugueza são os
seguintes :

o, a, os, as, el.

58 Os artigos quando vem junctos ás particulas a, de ,
em, per
, tomam as seguintes fórmas :

a o… ao | em o… no | de o… do | per o… pelo
a os… aos | em os… nos | de os … dos | per os… pelos
a a… á | em a… na | de a… da | per a… pela
a as… ás | em as… nas | de as… das | per as… pelas

O artigo el só se emprega com o nome rei, do seguinte
modo :

el-Rei, del-Rei, a el-Rei, etc.

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos dizerem
os substantivos, os pronomes, os adjectivos e os artigos que
contém ; exemplos :

Estava um dia o Senhor sentado no templo, defronte do
gazophylacio, que era uma caixa onde se lançavam as esmolas
para a fabrica do mesmo templo : vinham muitas pessoas
ricas e botavam quantidades grossas. Veiu depois uma
21pobresinha viuva e lançou dois ceitis de cobre. Julgou o Senhor
que esta era opportuna occasião para dar doutrina a
seus discipulos. Convocou-os e lhes disse : De verdade vos
affirmo que esta pobre viuva lançou mais que todos os outros.
(Selecta Nacional, p. 3.)

Interrogatorio

O que é artigo ? — Exemplifique. — Diga os artigos que
existem na lingua portugueza. — O artigos quando vem juntos
ás particulas a, de, em, per, como se constroem ? — Com
que palavra se emprega o artigo el ?

e) Verbo

59 Verbo é a palavra com que na oração se affirma
ou nega alguma coisa ; v. gr.

Camões é o primeiro poeta portuguez.

Quando o verbo contém além da affirmação a coisa affirmada
ou parte d’ella chama-se attributivo ou adjectivo ; v.
gr. vivo, escrevo. Guttemberg inventou a arte de imprimir no
anno de 1453
. Já vimos (32) como os verbos vivo e escrevo
contém em si o attributo. Agora accrescentaremos que o
verbo descobriu n’esta oração contém em si parte do attributo.
A outra parte está expressa pelas demais palavras que
completam a oração.

60 Quando o verbo exprime só a affirmação chama-se
substantivo ou verbo simples. Tal é o verbo ser.

O verbo ser exprime algumas vezes além da affirmação a
existencia, n’esta accepção tambem se empregam outros verbos.
22taes como : estar, andar. Exemplos : sou doente, estou doente ,
ando doente
.

O verbo sou exprime a affirmação e uma existencia permanente,
- estou exprime a affirmação e uma existencia temporaria ;
ando exprime a affirmação de uma existencia ainda
mais transitoria.

61 Quando o verbo contém em si, além da affirmação o
attributo, denomina-se attributivo ou verbo
adjectivo.

62 Os verbos tambem se subdividem em transitivos
e intransitivos.

63 Transitivos são os que necessitam de um objecto
sobre que a acção do verbo seja exercida.

O objecto sobre que a acção do verbo transitivo é exercida
chama-se complemento objectivo. É a resposta
que se ha de dar á pergunta dirigida ao sujeito e ao verbo
attributivo, que pessoa ou pessoas, que coisa ou coisas ?

64 Intransitivos são os que representam simplesmente
um estado, ou uma acção que não passa do sujeito
que a exerce.

Os verbos transitivos e os intransitivos distinguem-se
facilmente uns dos outros, fazendo-se ao sujeito e
ao verbo a seguinte pergunta : que pessoa ou pessoas, que
coisa ou coisas
 ? Se no periodo ha palavra que responda a
esta pergunta é transitivo, se não ha é intransitivo ; exemplos :

O que diffama uma menina honesta commette uma grande
perversidade — Jesu Christo amava muito as creanças — Castilho
nasceu em 1800 — Camões morreu no anno de 1580.

Analyse

diffama… verbo transitivo ; porque o sentido da oração a que
este verbo pertence não póde ter logar sem se lhe
juntar um complemento objectivo, que neste exemplo
são as palavras uma menina honesta.23

commette… verbo transitivo ; porque o sentido da oração a que
este verbo pertence não póde ter logar emquanto
se não juntar o complemento sobre que a acção
d’este verbo se ha de executar, que é a phrase
uma grande perversidade.

amava… verbo transitivo ; porque o sentido da oração a que
pertence este verbo não póde ter logar emquanto
se não juntar o complemento que lhe pertence,
que é as creanças.

nasceu… verbo intransitivo ; porque representa um acto que
não passa do sujeito ; se se perguntar ao sujeito
e ao verbo que pessoa ou coisa, isto é, se se perguntar
á phrase — Castilho nasceu, que pessoa ou
coisa ? e como no periodo não ha resposta a esta
absurda pergunta, deve-se concluir que o verbo é
intransitivo.

morreu… verbo intransitivo ; porque representa um acto que
não passa do sujeito ; portanto se se perguntar á
phrase — Camões morreu, que pessoa que coisa ?
a resposta não póde ter logar, porque a pergunta
é absurda ; logo o verbo morreu é intransitivo.

Quasi todos os verbos transitivos podem usar-se intransitivamente,
e vice-versa ; portanto, antes de se analysar qualquer
trecho, deve-se estudar bem o sentido em que está empregado
o verbo para se poder classificar de transitivo
ou de intransitivo ; exemplos :

Judith adormeceu Holofernes, e logo que elle adormeceu
decepou-lhe a cabeça — Alexandre Magno cortou o nó gordio
— A espada da justiça corta com dois gumes.

adormeceu… verbo transitivo ; porque n’esta oração significa a acção
empregada para fazer adormecer alguem.

adormeceu… verbo intransitivo ; porque n’esta phrase exprime o
acto de adormecer.

cortou… verbo transitivo ; porque n’esta phrase significa acção
de separar ou dividir alguma coisa.

corta… verbo intransitivo ; porque n’esta oração exprime o
estado da espada, isto é, que tem fio por ambos
os lados da lamina.24

65 Quando se emprega um verbo sem sujeito ou agente
determinado, denomina-se verbo impessoal ; exemplos :

Em 1755 houve em Lisboa um grande terremoto — Na
morte de Christo choveu e trovejou por modo nunca visto —
Disse-se que o mundo ha de ser todo christão.

N’estes exemplos os verbos houve, choveu e trovejou são
impessoaes ; porque não teem sujeito determinado ; — disse-se
é impessoal porque não tem o agente determinado.

66 Os verbos, emquanto à sua significação, dividem-se
em activos, passivos e neutros.

Chama-se verbo activo o que representa uma acção, de
que o sujeito é a o agente.

Chama-se verbo passivo o que representa uma acção,
em que o sujeito é o paciente, e o agente está representado
por um complemento.

Chama-se verbo neutro o que representa um estado
ou um acto, em que o sujeito nem é agente nem paciente,
exemplos :

D. João II matou o duque de Vizeu — O abominavel tribunal
da inquisição foi abolido em 1820 — No grande terremoto
de 1755 queimaram-se muitos documentos importantes
— O infante D. Fernando padeceu muito no seu longo captiveiro
de Ceuta — D. Affonso I viveu 74 annos.

matou… verbo activo ; porque o sujeito é tambem o agente da acção.
foi abolido… verbo passivo ; porque o sujeito é ao mesmo tempo o paciente da acção.
queimaram-se… verbo passivo ; porque o sujeito é o paciente.
padeceu… verbo passivo ; porque o sujeito é o paciente.
viveu… verbo neutro ; porque o sujeito nem é agente nem paciente.

67 Quando os verbos transitivos teem por paciente um
pronome representando o proprio sujeito, denominam-se
verbos pronominaes.25

Os verbos pronominaes subdividem-se em reflexivos e
reciprocos.

Os reflexivos representam uma acção praticada pelo
sujeito e recebida por elle mesmo, isto é, quando o sujeito
é agente e paciente do mesmo verbo.

Os reciprocos representam acções praticadas por differentes
individuos e mutuamente recebidas por elles mesmos,
isto é, quando são mutuamente pacientes uns dos outros ; ex. ;

D. João I de Portugal de Castella havia muito
que se accommettiam com varia fortuna, até que em 1438
em batalha decisiva, em que se declarou vencido o rei de
Castella, foram firmadas pazes perpetuas entre as duas nações.

Analyse

se accommettiam… verbo pronominal reciproco ; porque representa
acções praticadas pelos dois monarchas, e recebidas
mutuamente por elles mesmos.

se declarou… verbo pronominal reflexivo ; porque representa
uma acção praticada pelo sujeito, rei de Castella,
e recebida por elle mesmo.

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos, depois
de os explicarem, dizerem os verbos que n’elles existirem ;
exemplo :

Estava santo Efrem em uma pousada cozinhando suas pobres
viandas ; e logo uma mulher que morava na vizinhança
metteu os olhos pela janellinha, que ficava fronteira e pouco
distante, e perguntou por graça se lhe faltava alguma coisa.
— Sim, falta, respondeu o santo, tres ladrilhos e um pouco
de lodo para entaipar essa janella.
(Selecta Nacional, p.11.)

Interrogatorio

O que é verbo ? — O que é verbo simples ou verbo substantivo ?
— Quaes são os verbos simples que existem na lingua
portugueza ? — O que é verbo attributivo ou adjectivo ?
26— Como se subdividem os verbos portuguezes ? — O que são
verbos transitivos ? — O que são verbos intransitivos ? — Como
se distinguem os verbos transitivos dos intransitivos ? — Com
os verbos transitivos póde-se sempre formular uma phrase
em que sejam empregados intransitivamente ? — Os intransitivos
podem-se tambem empregar transitivamente ? — Exemplifique
— O que são verbos impessoaes ? — Exemplifique —
O que é verbo activo ? — O que é verbo passivo ? — O que
é verbo neutro ? — Exemplifique. — O que são verbos pronominaes ?
— Como se podem subdividir ? — O que é verbo reflexivo ?
— O que é verbo reciproco ? — Exemplifique.

B) Palavras invariaveis

a) Adverbio

68 Adverbio é uma palavra que se juncta ao verbo
para lhe precisar a significação, e aos adjectivos para os
graduar ; exemplo :

Repousa lá no céo eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
(Camões.)

N’este versos ha quatro adverbios ; são os seguintes :

… adverbio, porque está precisando mais o verbo
repousa ; junctando-lhe uma idéa de logar.

eternamente… adverbio ; porque está esclarecendo mais o mesmo
verbo, junctando-se a idéa da natureza da
duração.

… adverbio ; porque está determinando mais o verbo
viva ; accrescentando-lhe uma idéa de logar.

sempre… adverbio porque está precisando mais o mesmo
verbo viva, junctando-lhe uma idéa de tempo.

O padre Vieira é o mais eloquente prosador portuguez.

mais… adverbio ; porque está graduando a significação
do adjectivo eloquente.27

69 Os adverbios dividem-se, emquanto á sua forma, em
adverbios primitivos, derivados, e locuções
adverbiaes.

70 Os adverbios primitivos que existem na lingua
portugueza são os seguintes :

cá | cerca | sempre | melhor
lá | diante | cedo | peor
alli | onde | ainda | não
ahi | agora | assaz | nunca
aqui | hoje | tanto | jámais
acolá | hontem | tão | assim
áquem | depois | quanto | certo
além | amanhã | quão | talvez
avante | logo | muito | só
perto | já | mui | bem
longe | tarde | mais | mal, etc.
algures | então | menos

71 Adverbios derivados são os formados de um adjectivo
e do suffixo mente (modo, maneira). Taes como :
sabiamente, alegremente, claramente.

Tambem se costumam empregar os adverbios sem a terminação
mente, v. g. : fallou claro, fallou baixo, etc.

72 Locuções adverbiaes são o ajunctanento de
duas ou mais palavras fazendo as vezes de um adverbio :
taes são :

sem cessar | ao longe | de subito | pouco a pouco
sem parar | ao perto | de pressa | por aqui
sem duvida | ao redor | de repente | por alli
sem falta | de improviso | a miudo | por acolá, etc.

Os grammaticos costumam classificar os adverbios pela sua
significação ; da seguinte maneira :

De logar. : cá, lá, alli, aqui, ahi, acola, áquem, além, etc.

De tempo : agora, hoje, hontem, amanhã, logo, já, tarde ,
cedo
, etc.28

De quantidade : assaz, menos, muito, totalmente, grandemente ,
plenamente
, etc.

De comparação ou graduação : melhor, peor, mais ,
menos, tão, tanto
, etc.

De negação : não, nada, nunca, nullamente, de nenhum
modo
, etc.

De duvida : talvez, póde ser, etc.

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos apontarem
os adverbios que n’elles houver ; exemplos :

Quem dá muito acanhadamente, obriga pouco ; quem dá
pouco magnificamente, obriga muito.
(Fr. Jacinto de Deus.)

Cá e lá mais fadas ha.
(Adagio Portuguez.)

Interrogatorio

O que é adverbio ? — Exemplifique. — Como se subdividem
os adverbios ? — O que são adverbios primitivos ? — O que são
adverbios derivados ? — O que são locuções adverbiaes ? —
Cite exemplos. — Ha adjectivos que façam as vezes de adverbios ?
— Cite alguns exemplos. — Os adverbios costumam nomear-se
pela sua significação ? — Exemplifique.

b) Preposição

73 Preposição é uma particula que liga as palavras
e mostra a relação que teem entre si ; exemplos :

Corôa de oiro, penso em ti, gósto de estudar de noite

de… preposição ; porque liga o substantivo oiro ao nome
corôa, e mostra a relação que ha entre estes dois
vocabulos, isto é, a materia de que é feita a corôa.29

em… preposição ; porque liga o verbo penso ao pronome ti,
e mostra a relação da pessoa sobre a qual se pratica
a acção de pensar.

de… preposição ; porque liga o verbo gósto ao verbo estudar,
e mostra a relação do objecto do meu gôsto.

de… preposição ; porque liga estudar a noite, e mostra
a relação do tempo em que gosta de estudar.

As palavras ligadas pelas preposições chamam-se : ás
primeiras regentes, e ás segundas regidas.

Nos exemplos citados as palavras corôa, penso, gósto, são
regentes, as palavras oiro, ti, estudar, são regidas.

Assim a palavra corôa rege a palavra oiro por intermedio
da preposição de ; penso rege o pronome ti por intermedio
da preposição em ; gosto rege o verbo estudar por intermedio
da preposição de.

Vulgarmente costuma-se dizer que tal palavra é regida por
tal preposição. Esta expressão abreviada quer dizer por intermedio
de tal preposição.

74 As preposições que existem na lingua portugueza
são as seguintes :

a | para | até | ante
em | com | entre | perante
de | sem | sobre | contra
por | traz | após | diante

75 Ha palavras que fazem as vezes de preposições ; são
as seguintes :

conforme | concernente
depois | durante
excepto | mediante
segundo | salvo
visto | tocante

76 Ha palavras reunidas que fazem as vezes de preposições ;
chamam-se por isso locuções prepositivas.
As mais frequentes são as seguintes :30

após de | além de | atravez de
por diante de | ao redor de | á excepção de
abaixo de | em torno de | em favor de
cêrca de | por dentro de | longe de, etc.
por fóra de | em circumferencia

Os grammaticos dividem as preposições pela sua significação ;
do seguinte modo :

De logar : em, entre, sobre, sob, ante, etc.

De tempo : antes de, depois de, durante, etc.

De excepção ou separação : sem, excepto, fóra ,
salvo
, etc.

De opposição : contra, apezar, não obstante, etc.

O dividir as preposições pela significação, limitando-lhe
o numero das classes, é um grave erro. O que convem é
que o alumno, quando analysa, mostre as palavras que a
preposição liga, e a relação que significa n’esse passo.

O que dizemos das preposições é egualmente applicavel
á classificação, pelo significado, das conjuncções, dos adverbios
e das interjeições, adoptada geralmente pelos grammaticos.

Directorio.

O professor apresentará trechos para os alumnos apontarem
as preposições que n’elles houver ; exemplos :

A ignorancia de si e do mundo é no menino uma coisa
graciosa, no velho uma coisa tremenda ; no menino é a escuridão
em que se esconde o germen da alvorada, no velho
é a primeira treva da noite, que de minuto para minuto se
engrossa, se esfria, se povoa de medos e phantasmas. Grande
desengano para os vaidosos do seu entendimento ! Como se o
entendimento fosse mais nosso ou mais privilegiado, que a
formosura, que a saude, que a força, que a riqueza, que a
fama !
(Selecta Nacional, p.99.)

Interrogatorio

O que é preposição ? — Exemplifique. — Como se chamam
as palavras ligadas pelas preposições ? — Exemplifique. —
31Como se dividem as preposições em relação á sua formação ?
— O que são preposições essenciaes ? — O que são preposições
accidentaes ? — O que são locuções prepositivas ? — Exemplifique
umas e outras. — Como se costumam nomear as preposições ?
— Cite alguns exemplos.

c) Conjuncção

77 Conjuncção é a palavra com que se ligam as
orações e os seus membros, mostrando a relação que teem
entre si ; exemplos :

O rustico, porque é ignorante, vê que o ceo é azul ; mas
o philosopho, porque é sabio, e distingue o verdadeiro do
apparente, vê que aquillo que parece ceo azul, nem é azul ,
nem é ceo.
(Vieira.)

Analyse

porque… conjuncção ; pois liga a oração fundamental o
rustico vê que o ceo é azul, á oração complementar
é ignorante ; mostrando ao mesmo tempo
uma relação de causa.

que… conjuncção ; porque liga a oração o ceo é azul
ao verbo .

mas… conjuncção ; porque liga a oração o philosopho
, etc., á oração anterior.

porque… conjuncção ; porque liga a oração é sabio ao sujeito
philosopho.

e… conjuncção ; porque liga a oração é sabio á oração
distingue o verdadeiro do apparente.

que… conjuncção ; porque liga o complemento objectivo
aquillo á oração o philosopho vê.

nem… conjuncção ; porque liga a oração não é azul á
anterior.

nem… conjuncção ; porque liga a oração não é céo á
oração anterior parece céo azul.

78 As conjuncções que existem na lingua portugueza
são as seguintes :32

e | mas | nem | assim
se | senão | pois | porque
ou | porém | logo | todavia
que | tambem | como | portanto

79 Ha palavras que fazem as vezes de conjuncções ;
taes são :

Quer, qual, quem, seja, já, supposto, etc.

80 Quando se reunem duas palavras para fazer as vezes
de conjuncções, denominam-se locuções conjunctivas ;
taes como :

isto é | por fim | sem que | ainda assim
em fim | afim que | bem como | ao contrario
de resto | outrosim | assim como | em conclusão
de feito | pelo que | por exemplo | etc.

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos apontarem
as conjuncções que n’elles houver ; exemplo :

Ensinar ignorantes é vestir nús, dar vista a cegos e falla
a mudos ; porque a sciencia é o ornato da alma, luz do entendimento
e lingua do discurso.
(Bluteau.)

Interrogatorio

O que é conjuncção ? — Exemplifique. — Diga as que existem
na lingua portugueza. — Nomeie algumas palavras que
costumam fazer as vezes de conjuncções. — O que são locuções
conjunctivas ? — Exemplifique.

d) Interjeição

81 Interjeição é uma especie de grito exprimindo
um sentimento vivo e subito ; exemplo :33

Levantando a voz bradou : olá ! olá ! gente da minha guarda !
(m. Bernardes.)

82 As interjeições mais vulgarmente empregadas na lingua
portugueza são as seguintes :

oh ! | êh ! | hû ! | chio ! | chó ! | hein !
ah ! | ih ! | up ! | psio ! | olé ! | apage !
ai ! | ó ! | hui ! | irra ! | olá ! | caspite !
eh ! | hou ! | tá ! | apre ! | eia ! | oxalá !

83 Ha palavras que accidentalmente fazem as vezes de
interjeições ; taes como :

viva ! | bem ! | caluda ! | adeus.
vamos ! | bravo ! | silencio ! | parabens.
animo ! | bravissimo ! | misericordia ! | não.
coragem ! | arreda ! | Jesus ! | sim.

84 Ha phrases que fazem as vezes tambem de interjeições,
e denominam-se por isso locuções interjectivas ;
taes como :

praza aos céos ! | Maria Santissima !
aqui d’el-rei ! | ai de mim !
grande Deus ! | o da guarda !
meu Deus ! | t’arrenego !

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos apontarem
as interjeições que nelles houver ; exemplos :

Oh ! se os livros fallassem quantas ignorancias haviam de
dizer que consultam com elles de noite, os que de dia se publicam
grandes letrados !
(Antonio Vieira.)

Anciado o nobre conde se approxima
Do leito…Ai ! tarde vens, auxilio de homem.
34Os olhos turvos para o céo levanta ;
E já no arranco extremo : — Patria ! ao menos ,
Juntos morreremos… E expirou co’a patria.
(Garret.)

Se é tão grande a alegria dos navegantes, quando tendo
escapado das tempestades e dos corsarios, ouvem dizer : terra ,
terra ! Que alegria será dos que agora padecem quando ouvirem
dizer : céo ! céo !
(Antonio Vieira.)

Mette a mão á espada, avança ao inimigo, começa a cortar
orelhas. Diz-lhe o Senhor : Tá, Pedro, embainha a espada.
(Antonio Vieira.)

A est’outra barca me vou.
Hou da barca ! para onde is ?
Ah ! barqueiros, não me ouvis ?
Respondei-me. Hou lá ; Hou !
Por Deus ! aviado estou.
(Gil Vicente.)

Ai ! ai ! ai d’aquelle ! por quem na religião se introduzir
vaidade ou propriedade !
(M. Bernardes.)

Interrogatorio

O que é interjeição ? — Diga algumas interjeições das mais
vulgares da lingua portugueza. — Ha palavras que accidentalmente
façam as vezes de interjeições ? — Diga algumas.
— Ha phrases que façam as vezes de interjeições ? — Como
se denominam ? — Diga algumas.

II. — Modificações das palavras

85 As palavras primitivas são em geral constituidas
por um radical e um suffixo.35

Os radicaes são na sua maioria pequenas syllabas, e não
ainda palavras. São uma especie de grito, de interjeição, significando
uma noção vaga e indeterminada. Para se constituirem
em palavras é necessario junctar-lhes um suffixo, que
lhes fixe a significação, e lhes determine a classe de palavras
a que hão de pertencer ; exemplo : am é um radical
significando vaga e indeterminadamente uma noção de amor,
não é ainda palavra. Se se lhe ajunctar alguns dos seguintes
suffixos or ou ar, passará a ser no primeiro caso um substantivo,
no segundo um verbo. Aos suffixos que constituem
as palavras primitivas, chamam-se suffixos caracteristicos.
Das palavras primitivas, formam-se as derivadas e
as subderivadas, accrescentando-lhes outra categoria de
suffixos que se denominam suffixos de formação ou simplesmente
formatrizes ; exemplo : amoroso. Este adjectivo
é derivado do substantivo primitivo amor, accrescentando-se-lhes
o suffixo formatriz oso, que quer dizer cheio ; portanto
amoroso significa cheio de amor. Amorosissimo, palavra subderivada ;
forma-se do adjectivo derivado amoroso e do suffixo
issimo, que significa muito, isto é, o grau superlativo. Amorosissimamente,
outra palavra subderivada ; forma-se do adjectivo
subderivado amorosissimo, e do suffixo mente, que significa
modo, maneira. Portanto este adverbio subderivado
quer dizer de um modo muito cheio de amor.

Além dos suffixos caracteristicos e formatrizes ha mais tres
categorias de suffixos : suffixos de concordancia, — suffixos
de regencia, — e suffixos euphonicos.

Os suffixos de concordancia servem simplesmente para ligar
as palavras ; — os suffixos de regencia servem para ligar
as palavras e mostrar a relação que teem entre si. Na lingua
portugueza só os pronomes pessoas admittem esta classe de
suffixos. — os suffixos euphonicos para suavisar a aspereza
que os radicaes muitas vezes apresentam quando se lhes junctam
os suffixos formatrizes ; exemplo : mãe, mãesinha, a letra
z é um suffixo euphonico ; inha, suffixo formatriz.

N’este breve compendio só nos occupamos dos suffixos de
concordancia, de regencia e dos formatrizes que
se referem aos graus.36

A) Suffixos de concordancia

86 Concordancia em grammatica é a faculdade
que as linguas teem de ligar as palavras por meio das terminações.

87 As concordancias são de duas especies : concordancia
de nomes e concordancia de verbos.

a) Suffixos de concordancia dos nomes

88 As concordancias dos nomes dividem-se em concordancias
de genero e em concordancias de numero.

O genero humano e uma grande parte dos animaes dividem-se
naturalmente em machos e femeas. A propriedade
que os nomes teem para mostrar a differença dos sexos, mudando
de suffixo, denomina-se genero.

Não tendo os entes inanimados sexo, parece que ás palavras
que os representam não se devia assignalar genero ;
comtudo, por analogia, os substantivos que terminam como
os nomes dos entes machos, denominam-se masculinos ; os
substantivos que terminam, como os nomes dos animaes femeos,
chamam-se femininos ; exemplos : pereiro, pucaro, espinho,
são masculinos ; pereira, pucara, espinha são femininos.
Se os nomes veem de vocabulos estrangeiros, conservam
o mesmo genero da lingua d’onde procedem.

Generos

89 Generos são a faculdade que algumas linguas
teem de mostrar pela mudança da terminação a differença
dos sexos.

90 Os generos dividem-se em masculinos e femininos.
São palavras masculinas as que representam
os animaes machos, ou que acabam em terminações
masculinas. São palavras femininas as que representam
animaes femeos ou as que acabam em terminação feminina ;
exemplo :

O Castilho, a Castilho — carneiro, ovelha — sobrinho, sobrinha
— o pianista, a pianista — o capellista, a capellista
37— Lisboa — Guadiana — legião — religião — planeta — cometa
— porta — systema — dilemma — pero, pera — o sapato ,
a sapata — o poço, a poça — o cura, a cura.

Analyse

O Castilho… substantivo proprio masculino pela significação ;
porque é o nome de um homem.

a Castilho… substantivo proprio feminino pela significação ;
porque é o nome de uma mulher.

carneiro… substantivo commum masculino pela significação ;
porque é o nome de um animal
macho.

ovelha… substantivo commum feminino pela significação ;
porque é o nome de um animal femeo.

sobrinho… substantivo commum masculino pela significação ;
porque é o nome de um homem
representado pelo gráo de parentesco.

o capellista… substantivo commum masculino pela significação ;
porque é o nome de um homem
representado pelo nome da profissão.

Lisboa… substantivo proprio feminino pela significação ;
porque é o nome de uma cidade (1)2 e o nome commum cidade é feminino.

Guadiana… substantivo proprio feminino pela significação ;
porque é o nome de um rio, e o
nome commum rio é masculino.

legião… substantivo commum feminino pela etymologia (2)3.38

planeta… substantivo commum masculino pela etymologia (1)4.

systema… substantivo commum masculino etymologia (2)5.

sapato… substantivo commum masculino pela terminação ;
porque o suffixo o é masculino.

sapata… substantivo commum feminino pela terminação ;
porque o suffixo a é feminino.

91 As terminações com que na lingua portugueza se designa
os generos são as seguintes : para representar o genero
masculino o, u, or, ez, ão ; para representar o genero
feminino a, an.

92 Regra geral. Os nomes terminados em o formam o
feminino mudando esta lettra para a. Os terminados em u ,
ôr, êz, ês
ajunctando-se-lhes simplesmente um a. Os terminados
em ão mudam para an ou ao. Todas as mais terminações,
em relação aos generos, são invariaveis ; exemplos :

Amigo, amiga ; justo, justa ; gato, gata ; nu, nua ; peru ,
perua ; escriptor, escriptora ; cantor, cantora ; amador, amadora ;
portuguez, portugueza ; inglez, ingleza ; allemão, allemã
ou allemoa ; irmão, irman ; o interprete, a interprete ;
o capitallista, a capitalista ; o javali, a javali ; o commensal ,
a commensal ; homem gentil e estimavel, mulher gentil
e estimavel.

Excepções

mestre | mestra
poeta | poetisa / poeta
propheta | prophetisa

hespanhol | hespanhola
juiz | juiza
bom | boa
um | uma39

monge | monja
elephante | elephanta / elephoa
sacerdote | sacerdotiza
barão | baroneza
ladrão | ladra
judeo | judia
sandeu | sandia
avô | avó
réo | ré
meu | minha
teu | tua
seu | sua
zagal | zagala

algum | alguma
eu / só / cortez / montez | invariaveis
imperador | imperatriz
embaixador | embaixatriz
actor / actriz | actora
motor / motriz | motora
prior / prioreza | priora
dois | duas

Muitos dos nomes que teem na penultima syllaba a voz ó,
mudam-na para ó ; exemplos :

Glorioso, gloriósa ; formoso, formósa ; virtuoso, virtuósa ;
torto, tórta.

Os nacionaes podem empregar a seguintes regra para conhecer
o genero dos substantivos : junte-se-lhes o artigo ou
um adjectivo variavel na terminação masculina ; se repugnar
ao ouvido esta juncção deve-se concluir que é feminino, senão
repugnar é masculino ; exemplos : o substantivo mulher
é feminino, porque não de póde dizer o mulher, bom mulher,
sem repugnar a um ouvido nacional ; — homem é masculino,
porque se póde dizer sem repugnancia do ouvido :
o homem, um bom homem.

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos dizerem
o genero de todos os nomes que n’elles houver ; exemplo :

N’aquelle paiz, seja qual fôr o seu gráo de civilisação e
poderio, onde fallece o amor da patria, onde os vicios mais
hediondos vivem á luz do sol, onde a todas as ambições é
licito pretender e esperar tudo, onde a lei, atirada para o
charco das ruas pelo pé desdenhoso dos grandes, vae lá servir
de joguete ás multidões desenfreadas, onde a liberdade
40do homem, a magestáde dos principes, e as virtudes das familias
se converteram em tres grandes mentiras, ha ahi uma
nação que vae morrer. A providencia que o previu, suscita
então outro povo, que venha envolver aquelle cadaver no sudario
dos mortos. Pobre, grosseiro, não numeroso, que importa
isso ? Para pregar as taboas de um ataúde qualquer
pequena força basta.

(A. Herculano, Hist. de Port.)

Numero

93 Numero é a faculdade que os nomes teem de poder
representar por meio da terminação se se trata de um
individuo ou de muitos.

94 Os numeros são dois : singular e plural. —
O singular exprime a unidade ; — o plural exprime
mais de uma unidade.

95 Quando o nome com a terminação do singular exprime
plural chama-se collectivo.

96 Regra geral. O plural dos nomes forma-se accrescentando-se-lhes
um s se terminam em vogal, e es se terminam
em consoante ; exemplos :

Alma, almas ; obra, obras ; lebre, lebres ; javali, javalis ;
lobo, lobos ; nu, nus ; flor, flores ; rapaz, parazes.

Excepções

Os terminados em ão mudam para ões ; exemplos :

Oração, orações ; coração, corações.

Os terminados em l perdem o l e junta-se-lhes es, ou simplesmente
s ; — es se terminam em al, ol, ul e simplesmente
s se terminam em il longo ; exemplos :

Sal, saes ; sol, soes ; sul, sues ; animal, animaes ; farol ,
faroes ; azul, azues.

Se terminam em el ou il breve mudam para eis ; exemplos :

Annel, anneis ; papel, papeis ; util, uteis ; facil, faceis ;
reptil, repteis ; juvenil, juvenis.

Os terminados em vozes nasaladas representadas por m,
seguem, emquanto á pronuncia, ainda a regra das palavras
41acabadas em vogal ; porém, orthographicamente, mudam o n
em m ; exemplos :

Imagem, imagens ; jardim, jardins ; som, sons ; atum, atuns.

Os acabados em s são invariaveis : exemplos :

O caes, os caes — o lapis, os lapis — o arraes, os arraes
— o alferes, os alferes — o pires, os pires.

Os nomes na lingua portugueza, acabam em vogal, ou em
alguma das seguintes consoantes : l, m, n, r, s, z. Os que
acabam em outra consoante, formam o plural accrescentando-se-lhes
simplesmente um s ; exemplos :

Almanak, almanaks . David, Davids — Judith, Judiths
— Job, Jobs — Nazareth, Nazareths.

Alguns nomes não teem plural, taes são : isto, isso, aquillo ,
ninguem, alguem, outrem, tudo, eu
(pronome).

Outros não teem singular ; taes como : as cocegas, as lampas ,
as endoenças, as côrtes
(na accepção de parlamento),
as páreas, as férias (na accepção de dias feriados), os viveres ,
as costas
(na accepção da parte do corpo assim denominada),
as errata (porque esta palavra é já plural pela
etymologia).

Muitos dos nomes que teem a voz ô na penultima syllaba,
mudam-na para ó ; exemplos :

Glorioso, gloriósos ; virtuoso, virtuósos ; côrpo, córpos ;
fôgo, fógos.

Palavras que fazem o plural por modo differente
das regras que ficam estabelecidas

Deus | deuses
mal | males
consul | consules
allemão | allemães
cão | cães
capellão | capellães
capitão | capitães
escrivão | escrivães
pão | pães
tabellião | tabelliães
truão | truães

chão | chãos
christão | christãos
grão | grãos
irmão | irmãos
mão | mãos
meão | meãos
pagão | pagãos
são | sãos
vão | vãos
cidadão | cidadãos
sachristão | sachristães42

Palavras que podem formar o plural por dois
modos differentes

aldeão | aldeões | aldeães
ancião | anciões | anciões
charlatão | charlatões | charlatães
deão | deões | deães
guardião | guardiões | guardiães
villão | villões | villãos
zangão | zangões | zangãos
real | réis | reaes
cal | cales | caes
simples | simples | simplices
calis | calis | calices

Directorio

O professor apresentará trechos para os alumnos dizerem
o numero de todos os nomes que n’elles houver ; exemplos :

O viandante, que debaixo de sol ardente caminhou todo o
dia por charneca sáfara e erma, se ao cair do sol descobre
abrigada á sombra de algum rochedo uma bonina solitaria ,
pára e contempla com um sentimento de jubilo a pobre flor ,
que em variegado jardim lhe seria importuna por singela e
campesina. No meio dos furores da guerra e dos calculos
ambiciosos da politica, um affecto que surge puro e desinteressado ,
é a bonina da solidão.
(A. Herculano.)

b) Suffixos de concordancia dos verbos

97 As concordancias dos verbos dividem-se em concordancias
com o sujeito, e em concordancia com os outros
verbos que entram no mesmo periodo.

Uns e outros suffixos estudam-se por meio das conjugações.
Conjugação é a ordem logica e symetrica que se
adoptou para melhor se poderem decorar as differentes terminações
dos verbos.43

Os verbos dividem-se em tres grandes grupos
com relação ao modo porque se conjugam. Formam o primeiro
grupo os que terminam o infinito em ar ; são o maior
numero ; e denominam-se verbos da primeira conjugação. Formam
o segundo grupo os que terminam o infinito em er ;
este grupo contém menor numero de verbos, e denominam-se
verbos da segunda conjugação. Formam o terceiro os verbos
que fazem o infinito em ir ; o numero d’estes é ainda
menor, e denominam-se verbos da terceira conjugação.

Ha alguns verbos que nas suas differentes linguagens não
seguem todos os paradygmas da conjugação a que pertencem.
Aos que os seguem chamam-se regulares e aos que
os não seguem irregulares.

98 As conjugações que existem na lingua portugueza
dividem-se em conjugações regulares e irregulares.

Conjugação dos verbos regulares

1.ª Conjugação | 2.ª Conjugação | 3.ª Conjugação

Modo indicativo

Presente
(Presente absoluto)

Sing. | Am o | Tem o | Ábr o
Am as | Tem es | Ábr es
Am a | Tem e | Ábr e

Plur. | Am amos | Tem emos | Ábr imos
Am aes | Tem eis | Abr is
Am am | Tem em | Ábr em

Preterito imperfeito
(Presente relativo a uma época)

Sing | Am ava | Tem ia | Abr ia
Am avas | Tem ias | Abr ias
Am ava | Tem ia | Abr ia

Plur | Am avamos | Tem iamos | Abr iamos
Am aveis | Tem ieis | Abr ieis
Am avam | Tem iam | Abr iam44

Preterito perfeito
(Preterito absoluto)

Sing | Am ei | Tem i | Abr i
Am aste | Tem este | Abr iste
Am ou | Tem eu | Abr iu

Plur | Am ámos | Tem emos | Abr imos
Am astes | Tem estes | Abr istes
Am aram | Tem eram | Abr iram

Preterito mais que perfeito
(Preterito relativo a outro preterito)

Sing | Am ára | Tem êra | Abr ira
Am áras | Tem êras | Abr iras
Am ára | Tem êra | Abr ira

Plur | Am áramos | Tem eramos | Abr iramos
Am áreis | Tem ereis | Abr ireis
Am áram | Tem eram | Abr iram

Futuro
(Futuro absoluto)

Sing | Am ar ei | Tem er ei | Abr ir ei
Am ar ás | Tem er ás | Abr ir ás
Am ar á | Tem er á | Abr ir á

Plur | Am ar emos | Tem er emos | Abr ir emos
Am ar eis | Tem er eis | Abr ir eis
Am ar ão | Tem er ão | Abr ir ão

Futuro condicional
(Futuro relativo a uma época passada)

Sing | Am ar ia | Tem er ia | Abr ir ia
Am ar ias | Tem er ias | Abr ir ias
Am ar ia | Tem er ia | Abr ir ia

Plur | Am ar iamos | Tem er iamos | Abr ir iamos
Am ar ieis | Tem er ieis | Abr ir ieis
Am ar iam | Tem er iam | Abr ir iam45

Modo imperativo (deprecativo)

Sing. | Am a | Tém e | Ábr e

Plur. | Am ae | Tem ei | Abr i

Modo subjuntivo

Presente

Sing. | Am e | Tem a | Ábr a
Am es | Tem as | Ábr as
Am e | Tem a | Ábr a

Plur. | Am emos | Tem amos | Abr âmos
Am eis | Tem aes | Abr aes
Am em | Tem am | Ábr am

Preterito

Sing. | Am asse | Tem esse | Abr isse
Am asses | Tem esses | Abr isses
Am asse | Tem esse | Abr isse

Plur. | Am assemos | Tem essemos | Abr issemos
Am asseis | Tem esseis | Abr isseis
Am assem | Tem essem | Abr issem

Futuro

Sing. | Am ar | Tem er | Abr ir
Am ares | Tem eres | Abr ires
Am ar | Tem er | Abr ir

Plur. | Am armos | Tem ermos | Abr irmos
Am ardes | Tem erdes | Abr irdes
Am arem | Tem erem | Abr irem

Modo infinitivo

Infinito impessoal

Am ar | Tem er | Abr ir46

Infinito pessoal

Sing. | Am ar | Tem er | Abr ir
Am ares | Tem eres | Abr ires
Am ar | Tem er | Abr ir

Plur. | Am armos | Tem ermos | Abr irmos
Am ardes | Tem erdes | Abr irdes
Am arem | Tem erem | Abr irem

Participio presente
(Gerundio)

Am ando Tem endo Abr indo

Participio passado
(Supino)

Am ado Tem ido Abr ido ou abert o

Participio passivo

Plur. | Am ado | Tem ido | Abr ido ou abert o
Am ada | Tem ida | Abr ida ou abert a

Sing. | Am ados | Tem idos | Abr idos ou abert os
Am adas | Tem idas | Abr idas ou abert as

Conjugação dos verbos irregulares

Modo indicativo

Presente
(Presente absoluto)

Sou | Tenho | Hei
És | Tens | Has
É | Tem | Ha
Somos | Temos | Hemos
Sois | Tendes | Heis
São | Têem | Hão47

Preterito imperfeito
(Presente relativo a uma época passada)

Era | Tinha | Havia
Eras | Tinhas | Havias
Era | Tinha | Havia
Eramos | Tinhamos | Haviamos
Ereis | Tinheis | Havieis
Eram | Tinham | Haviam

Preterito perfeito
(Preterito absoluto)

Fui | Tive | Houve
Foste | Tiveste | Houveste
Foi | Teve | Houve
Fomos | Tivemos | Houvemos
Fostes | Tivestes | Houvestes
Foram | Tiveram | Houveram

Preterito mais que perfeito
(Preterito relativo a outro preterito)

Fora | Tivera | Houvera
Foras | Tiveras | Houveras
Fora | Tivera | Houvera
Foramos | Tiveramos | Houveramos
Foreis | Tivereis | Houvereis
Foram | Tiveram | Houveram

Futuro
(Futuro absoluto)

Serei | Terei | Haverei
Serás | Terás | Haverás
Será | Terá | Haverá
Seremos | Teremos | Haveremos
Sereis | Tereis | Havereis
Serão | Terão | Haverão48

Futuro condiconal
(Futuro relativo a uma época passada)

Seria | Teria | Haveria
Serias | Terias | Haverias
Seria | Teria | Haveria
Seriamos | Teriamos | Haveriamos
Serieis | Terieis | Haverieis
Seriam | Teriam | Haveriam

Modo imperativo (deprecativo)

Sê | Tem | Ha
Sêde | Tende | Havei

Modo subjunctivo

Presente

Seja | Tenha | Haja
Sejas | Tenhas | Hajas
Seja | Tenha | Haja
Sejâmos | Tenhâmos | Hajâmos
Sejais | Tenhais | Hajais
Sejam | Tenham | Hajam

Preterito

Fosse | Tivesse | Houvesse
Fosses | Tivesses | Houvesses
Fosse | Tivesse | Houvesse
Fossemos | Tivessemos | Houvessemos
Fosseis | Tivesseis | Houvesseis
Fossem | Tivessem | Houvessem

Futuro

For | Tiver | Houver
Fores | Tiveres | Houveres
For | Tiver | Houver
Formos | Tiverm | os | Houvermos
Fordes | Tiverdes | Houverdes
Forem | Tiverem | Houverem49

Modo infinitivo

Infinito impessoal

Ser | Ter | Haver

Infinito pessoal

Ser | Ter | Haver
Seres | Teres | Haveres
Ser | Ter | Haver
Sermos | Termos | Havermos
Serdes | Terdes | Haverdes
Serem | Terem | Haverem

Participio presente
(Gerundio)

Sendo | Tendo | Havendo

Participio passado
(Supino)

Sido | Tido | Havido

Participio passivo

Tido | Havido
Tida | Havida
Tidos | Havidos
Tidas | Havidas

Nota. — Quando um verbo é irregular na 1.ª pessoa do
presente do indicativo, communica essa irregularidade a todas
as linguagens do presente do subjunctivo ; exemplo : Medir faz
na primeira pessoa do presente do indicativo meço, e no presente
do subjunctivo meça, meças, meça, meçamos, meçaes ,
meçam
.50

Quando é irregular nas segundas pessoas do presente do
indicativo, communica essa irregularidade ao imperativo ;
exemplo : Fugir, faz nas segundas pessoas do presente do indicativo
fóges, fugis ; e no imperativo fóge, fugi.

Quando é irregular na terceira pessoa do plural do preterito
do indicativo, communica essa irregularidade ao preterito
mais que perfeito do indicativo e ao preterito e futuro
do subjunctivo ; exemplo : Trazer, faz na terceira pessoa do
plural do preterito trouxeram, e no preterito mais que perfeito
trouxera, trouxeras, trouxera, trouxeramos, trouxereis ,
trouxeram
 ; e no preterito do subjunctivo trouxesse, trouxesses ,
trouxesse, trouxessemos, trouxesseis, trouxessem
 ; e no
futuro trouxer, trouxeres, trouxer, trouxeramos, trouxereis ,
trouxeram
.

Exceptuam-se os verbos saber, querer, ser, estar, ir, haver,
que no presente do indicativo fazem sei, quero, sou ,
estou, vou
, e no presente do subjunctivo saiba, queira, seja ,
esteja, vá, haja
.

Estas observações facilitam muito a conjuigação dos verbos
irregulares. O professor mandará conjugar aos alumnos integralmente
os principaes verbos irregulares que se seguem,
fazendo-lhes notar estas observações.

Dar

Presente | Dou, dás, dá, damos, dáes, dão.
Pret. perf. | Dei, déste, deu, démos, déstes, deram.
Pres. do subj. | Dê, dês, dê, demos, deis, deem.

Estar

Presente | Estou, estás, está, estamos, estaes, estão.
Pret. perf. | Estive, estiveste, esteve, estivemos, estivestes, estiveram.
Pres. do subj. | Esteja, estejas, esteja, estejamos, estejáes, estejam.

Caber

Presente | Cáibo, cábe, cábe, cabemos, cabeis, cábem.
Pret. perf. | Coube, coubeste, coube, coubemos, coubestes, couberam.51

Dizer

Presente | Digo, dizes, diz, dizemos, dizeis, dizem.
Pret. perf. | Disse, disseste, disse, dissemos, dissestes, disseram.
Futuro | Direi, dirás, dirá, diremos, direis, dirão.
Condiconal | Diria, dirias, diria, diriamos, dirieis, diriam.
Part. pass. | Dito.

Fazer

Presente | Faço, fazes, faz, fazemos, fazeis, fazem.
Pret. perf. | Fiz, fizeste, fez, fizemos, fizestes, fizeram.
Futuro | Farei, farás, fará, faremos, fareis, farão.
Condicional | Faria, farias, faria, fariamos, farieis, fariam.
Part. pass. | Feito.

Poder

Presente | Pósso, pódes, póde, podemos, podeis, pódem.
Pret. perf. | Pude, podeste, pôde, podemos, podestes, poderam.

Pôr

Presente | Ponho, pões, põe, pomos, pondes, põem.
Pret. imperf. | Punha, punhas, punha, punhamos, punheis, punham.
Pret. perf. | Puz, pozeste, poz, podemos, pozestes, pozeram.
Part. pres. | Pondo.
Part. pass. | Posto.

Querer

Presente | Quero, queres, quer, queremos, quereis, querem.
Pret. perf. | Quiz, quizeste, quiz, quizemos, quizestes, quizeram.
Pres. do subj. | Queira, queiras, queira, queiramos, queiraes, queiram.

Saber

Presente | Sei, sábes, sábe, sabemos, sabeis, sábem.
Pret. perf. | Soube, soubeste, soube, soubemos, soubestes, souberam.
Pres. do subj. | Saiba, saibas, saiba, saibâmos, saibaes, saibam.52

Trazer

Presente | Trágo, trazes, traz, trazemos, trazeis, trazem.
Pret. perf. | Trouxe, trouxeste, trouxe, trouxemos, trouxestes, trouxeram.
Futuro | Trarei, trarás, trará, traremos, trareis, trarão.
Fut. Condic. | Traria, trarias, traria, trariamos, trarieis, trariam.

Valer

Presente | Válho, váles, vále, valemos, valeis, válem.
Pret. perf. | Vali, valeste, valeu, valemos, valestes, valeram.

Ver

Presente | Vejo, vês, vê, vemos, vêdes, vêem.
Pret. perf. | Vi, viste, viu, vimos, vistes, viram.
Part. pass. | Visto.

Ir

Presente | Vou, váes, váe, vamos ou imos, ides, vão.
Pret. imp. | Ia, ias, ia, iamos, ieis, iam.
Pret. perf. | Fui, foste, foi, fomos, fostes, foram.

Pres. do subj. | Vá, vás, vá, vamos, vádes, vão.
Fut. do subj. | For, fores, for, formos, fordes, forem.
Part. pres. | Indo.
Part. pass. | Ido.

Vir

Presente | Venho, vens, vem, vimos, vindes, veem.
Pret. imperf. | Vinha, vinhas, vinha, vinhamos, vinheis, vinham.
Pret. perf. | Vim, vieste, veiu, viemos, viestes, vieram.
Part. pres. | Vindo.
Part. pass. | Vindo.

Os verbos terminados no infinito em ear tomam um i euphonico
na primeira, segunda e terceira pessoa do singular,
e na terceira do plural do presente do indicativo, e communicam
esta irregularidade ás mesmas pessoas do presente do
subjunctivo ; exemplos : Semear, faz no presente do indicativo
semeio, semeias, semeia, semeamos, semeaes, semeiam, e no
presente do subjunctivo semeie, semeies, semeie, semeemos, semeeis ,
semeiem
 : — pentear faz penteio, penteias, etc.53

Tambem com os verbos requerer e crer se emprega um i
euphonico na primeira pessoa do presente do indicativo e
nas linguagens do presente do subjunctivo.

Se os verbos terminam em iar é erro metter um e euphonico
antes do i, como os indoutos praticam ; exemplos : Negociar
faz negocio e não negoceio ; alumiar faz alumio e não
alumeio ; criar faz crio e não creio, etc.

Os verbos terminados em uir não admittem i euphonico
no presente do indicativo, como usam os indoutos ; por
exemplo : annuir deve conjugar-se annuo e não annuio ;
construir, construo e não construio.

A conjugação do presente do indicativo nos verbos cujo
radical contém na ultima syllaba alguma das vozes simples
â, ê, e, ô, o mudam estas vozes para sons abertos em todas
as pessoas do singular e na terceira do plural ; exemplos :
Fallar faz no presente do indicativo fallo, fallas, falla, fallamos ,
fallaes, fallam ; começar
faz começo, começas, começa ,
começamos, começaes, começam ; rolar
faz rólo, rólas, róla ,
rolamos, rolaes, rolam ; tocar
faz tóco, tócas, tóca, tocamos ,
tocaes, tócam
, etc. Exceptua-se demolir que faz demulo, demóles ,
demóle
, etc. ; — seguir que faz sigo, segues, ségue, etc. :
receber que faz recebo, recébes, recebe, etc.

Ha verbos que são só irregulares orthographoicamente, com o
fim de não soffererem alteração na sua conjugação oral ; taes
são : os verbos cujos radicaes terminam por algumas d’estas
articulações, g, c ; ás quaes é necessario fazer-lhes as modificações
precisas para conservarem sempre o mesmo valor ;
exemplos : pagar faz pague, pagues, etc., paguei, pagaste,
etc. ; fugir faz fujo, fóges, fóge ; distinguir faz distingo, distingues,
etc. ; peccar faz pequei, peccaste, peccou, etc. ; obedecer
faz obedeço, obedeces, obedece, etc.

Verbos defectivos

99 Quando um verbo não tem todas as linguagens denomina-se
verbo defectivo.

Duas causas podem dar logar a essas defectividades, o
desuso e a significação ; exemplos : Os verbos compellir, discernir ,
brandir
, só se empregam nas linguagens em que
entra i, pois não se usa dizer compello, compelles, etc., discerno ,
discernas
, etc. Supprem-se estas defectividades por
54linguagens de outros verbos que tenham proximamente a
mesma significação ; v. g. Discernir pelo verbo distinguir ,
classificar
, etc., e compellir pelo verbo obrigar, forçar, etc.

Os verbos ser, ir tambem são verbos defectivos, porque
a sua conjugação é formada de differentes verbos, representados
pelos seus diversos radicaes.

O verbo poder não tem imperativo ; porque não se pode
dizer senão figuradamente, póde, podei. O verbo morrer
em accepção figurada se póde conjugar na primeira pessoa do
preterito perfeito, etc.

Ao contrario dos verbos defectivos, ha verbos que possuem
differentes formas para a mesma linguagem ; taes são : o
verbo ir que no presente do indicativo póde ser conjugado
por duas maneiras differentes : vou, vaes ou is, vae ou i, vamos
ou imos, vades, ou ides ; Aprouver, que pode conjugar
o preterito de duas maneiras diversas : aprouve, aprouveste ,
aprouve, aprouvemos, aprouvestes, aprouveram
 ; — ou
aprazi, aprazeste, aprazeu, aprazemos, aprazestes, aprazeram.

Ha muitos verbos na lingua portugueza que tem tambem
duas formas differentes para representar o participio passado,
uma regular e outra contracta ; exemplos :

Abrir | abrido | aberto
Acceitar | acceitado | acceito
Cobrir | cobrido | coberto
Eleger | elegido | eleito
Entregar | entregado | entregue
Extinguir | extinguido | extincto
Frigir | frigido | frito
Gastar | gastado | gasto
Imprimir | imprimido | impresso
Juntar | juntado | junto
Matar | matado | morto
Pagar | pagado | pago
Romper | rompido | rôto
Soltar | soltado | solto, etc.

Linguagens compostas

100 Chama-se linguagem ás differentes fórmas que
toma o verbo na sua conjugação.55

101 As linguagens dos verbos são simples ou compostas.
Chamam-se simples quando são formadas por
uma só palavra, — compostas quando são constituidas
por duas ou mais palavras empregadas separadamente.

As principaes linguagens compostas que existem na lingua
portugueza formam-se com alguns dos seguintes verbos :
ter, haver, andar, ser ou estar, e o verbo que se pretende
conjugar ; exemplos :

Conjugação do verbo « amar » com todas as suas linguagens
compostas com os verbos « ter » e « haver »

Presente

Amo
Amas
Ama
Amamos
Amaes
Amam

Pres. composto do pres.

Tenho ou hei amado
Tens ou has amado
Tem ou ha amado
Temos ou havemos amado
Tendes ou haveis amado
Tem ou hão amado

Futuro composto do presente

Tenho ou hei de amar
Tens ou has de amar
Tem ou ha de amar
Temos ou havemos de amar
Tendes ou haveis de amar
Tem ou hão de amar

Preterito imperfeito

Amava
Amavas
Amava
Amavamos
Amaveis
Amavam56

Pret. comp. do pret. imp.

Tinha ou havia amado
Tinhas ou havias amado
Tinha ou havia amado
Tinhamos ou havíamos amado
Tinheis ou havieis amado
Tinham ou haviam amado

Fut. comp. do pret. imp.

Tinha ou havia de amar
Tinhas ou havias de amar
Tinha ou havia de amar
Tinhamos ou haviamos de amar
Tinheis ou havieis de amar
Tinham ou haviam de amar

102 Todos os mais tempos simples teem egualmente dois
preteritos e dois futuros compostos, formados pela mesma
maneira.

Conjugação dos verbos passivos

O idioma portuguez não possue linguagens simples para
representar a voz passiva ; suppre-as por linguagens compostas
formadas com os verbos ser, estar ou andar e o participio
passivo do verbo que se pretende conjugar ; exemplo :

Conjugação da voz passiva do verbo « amar »
com « ser », « estar » ou « andar »

Modo indicativo

Presente

Sou ou estou ou ando amado ou amada
És ou estás ou andas amado ou amada
É ou está ou anda amado ou amada
Somos ou estamos ou andamos amados ou amadas
Sois ou estais ou andais amados ou amadas
São ou estão ou andam amados ou amadas

Imperfeito

Era ou estava ou andava amado ou amada
Eras ou estavas ou andavas amado ou amada
Era ou estava ou andava amado ou amada
57Eramos ou estavamos ou andavamos amados ou amadas
Ereis ou estaveis ou andaveis amados ou amadas
Eram ou estavam ou andavam amados ou amadas

103 Todas as mais linguagens passivas d’este verbo se
conjugam do mesmo modo.

A conjugação passiva tambem admitte as linguagens compostas
com os verbos auxiliares ter ou haver, v. gr. :

Tenho ou hei sido ou estado ou andado amado ou amada
Tens ou has sido ou estado ou andado amado ou amada
Tem ou ha sido ou estado ou andado amado ou amada
Temos ou havemos sido ou estado ou andado amados ou amadas
Tendes ou haveis sido ou estado ou andado amados ou amadas
Teem ou hão sido ou estado ou andado amados ou amadas

104 Os verbos nas terceiras pessoas, tendo o agente
indeterminado, podem apassivar-se com o pronome se, que
perde a qualidade de pronome para designar simplesmente
a passibilidade dos verbos. Ha verbos que pela sua significação
são passivos, não obstante conjugarem-se pela voz
activa ; taes são : padeço, soffro, etc.

B) Suffixos da formação das palavras
derivadas

Suffixos dos graus

105 Graus são a propriedade que os nomes teem pelo
accrescentamento de um suffixo de augmentar ou diminuir
a sua significação.

106 A lingua portugueza só possue suffixos para representar
os graus augmentativos, diminutivos
e superlativos.58

a) Grau augmentativo

107 O grau augmentativo fórma-se em geral com
os suffixos ão ou aço ; exemplos :

Chave, chavão ; — fivela, fivelão ; — valente, valentão ; moço ,
mocetão ; — mulheraça ; — fumaça ; — ricaço ; — peccadoraço, etc.

b) Grau diminutivo

108 O grau diminutivo fórma-se em geral accrescentando-se-lhe
alguns dos seguintes suffixos inho ou
zinho, ito, êto, ôto, ulo e ico ; exemplos :

Livro, livrinho, livrito ; — chave, chavinha ; — ave, avezinhas ;
— irmão, irmãozinho ; — cabra, cabrita ; — luz, luzita ;
— camisa, camisita ; — camara, camarote, camarotezinho ;
— pequeno, pequenote, pequenota ; — pequenito, pequenita ;
— ilha, ilhota ; — filho, filhote, filhota ; — abano ,
abanico ; — Anna, Annica ; — febre, febricula ; — monte, monticulo ,
montinho ou montezinho, etc.

c) Grau superlativo

109 Os graus superlativos formam-se accrescentando-se
o suffixo imo, precedido do suffixo euphonico iss,
e com alguns adjectivos com o suffixo euphonico érr, com
os adjectivos terminados em l pode-se deixar de empregar
o suffixo euphonico iss ; exemplos :

Justo, justissimo ; — alegre, alregrissimo ; — Fragil, fragilimo ,
fragilissimo ; — agil, agilimo, agilissimo ; — senil, senilimo ,
senissimo ; — gentil, gentilimo, gentilissimo ; — salubre ,
saluberrimo, salubrissimo ; — aspero, asperrimo, asperissimo ;
— celebre, celeberrimo, celebrisismo ; — acre, acerrimo ,
acrissimo ; — prospero, prosperrimo, prosperissimo.

110 Ha alguns adjectivos que fazem o grau superlativo
59por uma palavra differente, além de o formarem com a
terminação issimo ; taes são :

mao | malissimo | pessimo
pequeno | pequenissimo | minimo
grande | grandissimo | maximo
bom | bonissimo | optimo
alto | altissimo | supremo
baixo | baixissimo | infimo

d) Dos graus de comparação

111 Para representar os graus de comparação não possue
a lingua portugueza suffixos. Suppre esta defectividade
pelos adverbios comparativos tão, mais, menos, ou por outras
palavras equivalentes. Quando se compara uma coisa
com outra, necessariamente ha de resultar uma das seguintes
coisas, — ou uma ser egual a outra, ou superior,
ou inferior. D’aqui vem a divisão dos graus de comparação
em comparativos, de egualdade, de superioridade
e de inferioridade ; exemplos :

A rosa é tão bella como a tulipa — A rosa é mais bella
que a violeta — O cravo é menos bello que a rosa.

112 Ha em portuguez adjectivos comparativos tomados
directamente da lingua latina ; taes são :

melhor | posterior | inferior
peor | ulterior | exterior
maior | citerior | junior
menor | superior | senior
anterior60

Parte segunda
Syntaxe

113 A syntaxe trata de exprimir por meio de palavras
os juizos, isto é, de construir as expressões com
que se affirma ou nega alguma coisa.

Se n’essas expressões se conservam todas as palavras e pela
mesma ordem com que na mente se formulou o pensamento,
disse que essas construcções são feitas conforme a syntaxe regular
ou natural. Porém se supprimem algumas palavras ou
se affastam da ordem natural, ou se substituem por outras,
com o fim de tornar o periodo mais breve ou mais expressivo
ou mais harmonioso, disse-se então que essas construcções
são formadas segundo a syntaxe figurada.

114 A syntaxe divide-se em syntaxe regular ou
natural, e syntaxe figurada.

A) Syntaxe regular

115 A syntaxe regular tracta de ligar as palavras
que entram no discurso, segundo a ordem logica que lhes
deu o espirito.

As palavras na formação dos periodos acham-se tão dependentes
entre si, como as syllabas na constituição dos vocabulos.
Os meios porque as palavras mostram a sua dependencia
são tres : pelas terminações, pelas preposições e pela
collocação.

As palavras ligadas pela terminação chamam-se concordantes
e concordadas ; — as ligadas por meio das preposições
regentes e regidas ; — as ligadas por meio do
logar que occupam apostantes e apostas.

116 A syntaxe regular divide-se em syntaxe de
concordancia, de regencia e de collocação.61

a) Syntaxe de concordancia

117 Regra geral. Os adjectivos e os artigos concordam
com os seus substantivos em genero e numero.

Nas ficções fabulosas ha heroes furiosos, mas não ha heroes
estupidos.
(Ribeiro de Macedo.)

118 O relativo cujo, cuja, cujos, cujas, concorda com o
substantivo, a que se junta, em genero e numero, e não
com o substantivo a que se refere. A sua significação é
de que, de quem, do qual, dos quaes, da qual, das quaes ;
exemplos :

N’esta real academia, cuja alma é a verdade, e cuja empresa
é restituir tudo.
(Rafael Bluteau.)

Escassamente se acha egreja em seu reino, cujos calices ,
cujos ornamentos não sejam dadiva de el-rei D. Sancho.
(D. Rodrigo da Cunha.)

119 É frequente encontrar nos classicos este relativo
em accepção interrogativa ; exemplos :

Eu em Lisboa ha cinco dias, sem vêr ao meu padre N.
Cuja é a culpa ? Pela culpa perguntarei, cuja é ? pela pena
não ; que essa sem duvida sei, que é minha.
(D. Francisco Manuel, Cartas.)

Perguntou mais o Senhor : Cuja era aquella imagem ? E
cujo nome escripto nas letras ?
(Vieira, Serm.)

Cujas são tantas conquistas no Oriente ? Cujas as armas
que navegam e cobrem aquelles mares ? Cujos os portos que
se enriquecem com os commercios e tributos, que o Indo e o
Ganges só pagavam ao Tejo ?
(Vieira, Serm.)62

O professor apresentará phrases em que o vulgo com mais
frequencia se engana no emprego d’este adjectivo ; taes são :
recebi do sr. F. a quantia de nove mil réis, cuja quantia
me emprestou
, etc. ; o sr. F. o cujo é meu amigo, etc. Estas
phrases devem-se corrigir da seguinte maneira : a qual
quantia
 ; — o sr. F. que é meu amigo, etc.

Em seguida apresentará outros passos em que esteja viciado
o emprego d’este relativo, para os alumnos ficarem
bem conhecendo o seu recto emprego ; taes como :

Santo Iago de cuja nação fosse não nos consta.
(Leão, Descrip. de Portug.)

Deve-se corrigir de que nação fosse.

Apresentaram-se estes delineamentos da sua imaginação ao
senhor, de cujo ha de ser o edificio.
(João de Barros, Dec.)

Deve-se corrigir cujo ha de ser.

O professor advertirá que os indoutos erram vulgarmente
concordando os adjectivos com o genero da palavra do tratamento,
em vez de o concordarem com o sexo da pessoa
a quem se dirigirem ; exemplo : Fallando a um homem costumam
os indoutos dizer : vossa excellencia, vossa senhoria
é tão bondosa
 ; em vez de tão bondoso. O seguinte trecho
póde servir para modelo do bom emprego d’esta concordancia.

O que agora representamos, senhor, prostrados todos os
religiosos d’estas missões aos reaes pés de Vossa Magestade ,
é que seja Vossa Magestade servido de mandar acudir-nos.
(Antonio Vieira.)

O professor advertirá que a pessoa que falla, quando refere
a si algum adjectivo, deve concordal-o com o seu proprio
genero, e não com o da pessoa a quem se dirige ; por
63exemplo : Se é homem quem falla deve dizer : fico-vos muito
obrigado, muito agradecido
, etc. ; se é mulher ha de espressar-se
d’esta fórma : muito obrigada, muito agradecida, etc.
Tambem é erro, fallando mulher a homem, dizer : não
senhora, sim senhora
, e vice-versas. Corrigem-se estas phrases
dizendo : não senhor, sim senhor, se é a homem que
se dirigem ; sim senhora, não senhora, se é a mulher.

120 O relativo que póde ser empregado como sujeito,
ou como complemento objectivo.

Quando o relativo que está empregado como complemento
objectivo, deve-se collocar immediatamente depois d’elle o
sujeito. Não se lhe dando esta ordem ficará ambiguo o periodo ;
exemplo :

Não ha nodoas que não possam lavar as lagrimas.
(Froes Figueiredo, Queixas.)

Este passo póde-se corrigir de alguma das seguintes maneiras :

Não ha nodoas que as lagrimas não possam lavar.
Não ha nodoas que não poddam ser lavadas pelas lagrimas.

121 Quando o relativo que está precedido de uma oração
do verbo ser, na qual o attributo é um substantivo, o
relativo não se refere ao substantivo mais proximo, mas
sim ao sujeito. Desejando-se que se refira ao attributo emprega-se
o relativo quem ; exemplos :

Eu fui aquelle que préguei os primeiros annos do reinado
de Vossa Magestade… Eu sou o mesmo que torno a prégar
hoje o fim dos mesmos annos.
(Vieira, Sermões.)

Eu sou uma dona que venho aqui.
(João de Barros, Clarim.)64

Eu fui quem pregou os primeiros annos. — Eu sou quem
torna a prégar hoje o fim dos mesmos annos.

Eu sou agora que fallo ; — eu sou agora quem falla.

122 O relativo que refere-se sempre ao substantivo mais
proximo, portanto é erro empregal-o referindo-o a outro ;
exemplos :

Aquelle delicado principe trazia as mãos cheias de chagas
e ampolas, que em outro tempo costùmavam ser beijadas
de muitos nobres.
(Leão, Descrip. de Portug.)

N’este passo o relativo que, refere-se grammaticalmente
a chagas e ampolas. Fica correcto construindo-se da seguinte
maneira :

Aquelle delicado principe trazia cheias de chagas e ampolas
as mãos, que em outro tempo costumavam ser beijadas
de muitos nobres.
A vida que passava (o infante D. Fernando) era rezar
todo o tempo, com os joelhos ambos em terra, em que fez
tão grandes callos como se fôra um camello.
(Leão, Descrip. de Portug.)

N’este passo o relativo em que refere-se grammaticalmente
ao substantivo terra ; porque é o que está mais proximo.

Este logar ficaria correcto alterando a ordem das palavras ;
pela seguinte maneira :

A vida que passava (o infante D. Fernando) era rezar
em terra todo o tempo, com os joelhos ambos, em que fez
tão grandes callos como se fôra um camello
.

Os bons escriptores não duvidam alterar a ordem natural
das palavras para não faltarem a este preceito grammatical ;
exemplo :

A mordaça da lingua malédica deita-se-lhe por dentro,
65consumindo e apartando com a presença de Deus os maus
pensamentos, que no coração teem a sua origem.
(M. Bernardes, Florestas.)

N’este exemplo o substantivo pensamento está depois das
palavras com a presença de Deus, para que o vocabulo pensamento
fique immediatamente precedendo o relativo que.

Tambem se evita esta difficuldade substituindo-o pelo relativo
qual, quaes ; exemplo :

Pouco depois se lhe pozerem diante tres mudos, pedindo-lhe
por acenos remedios para os seus trabalhos, os quaes o
santo lhes deu tocando com os dedos na lingua.
(Chronica de Cister.)

123 O relativo o qual, a qual, os quaes, as quaes, emprega-se
quando se pretende pôr bem em relevo o substantivo
a que se refere ; exemplos :

Quem não associa uma saudade a este nome singelo (Humboldt),
o qual na sua modestia designava um espirito que
parecia predestinado para as glorias da sciencia.
(Latino, M. da Acc.)

Mandámos por dois dos nossos visitar e convidar para a
festa as amaveis senhoras, cuja é a Lapa, os quaes na quinta
que por cima fica teem seu perpetuo domicilio.
(Castilho, Primavera.)

124 O relativo quem actualmente só se emprega referido
a pessoa ou pessoas, e significa homem que, que homem ,
homens que, que homens
 ; do mesmo modo que alguem ,
ninguem
significam algum homem, nenhum homem ; exemplos :

Não falta quem por quatro dias de rico compre ignominia ,
que nenhum tempo apaga.
(Sousa, Doming.)66

A’ verdade se sujeita quem do vicio se aparta.
(Roboredo, Gramm.)

Quem não sabe que as virtudes moraes consistem n’um
certo meio, do qual em passando dão em vicios ?
(M. Benpoades, Luz.)

125 O relativo quem emprega-se como sujeito ou como
complemento ; quando se emprega no primeiro caso, é necessario
que não haja na oração, antes do verbo, outro
termo, que possa servir de sujeito, aliás torna-se o periodo
amphibologico. Para evitar essa ambiguidade é necessario
collocar immediatamente ao relativo o verbo ;
exemplo :

Quem Deus cuida enganar contra si obra.
(Foeoeioa, Poemas.)

Este logar deixa de ser amphibologico, se se construir da
seguinte maneira :

Quem cuida enganar Deus contra si obra.

126 Quem, qual, empregam-se tambem como adjectivos
demonstrativos, em vez de este, esse, aquelle ; exemplos :

Quem lhe dava uma ovelha, quem um carneiro, quem um
novilho.
(Malaca Conquistada.)

Qual do cavallo voa que não desce
Qual c’o cavallo em terra dando, geme
Qual vermelhas as armas fez de brancas ,
Qual c’o pennacho do elmo açoita as ancas.
(Camões, Lusiadas.)

127 O artigo concorda com o substantivo que determina
em genero e numero ; exemplos :67

Os pregadores são as sentinellas da Egreja, os templos as
suas fortalezas, as guaritas d’estas fortalezas os pulpitos.
(Vieira, Sermões.)

128 O artigo emprega-se com quaesquer palavras, phrases,
ou orações tomadas em accepções substantivas ; exemplos :

O gemer nas dores não é imperfeição, mas é maior perfeição
não gemer.
(Vieira, Sermões.)

O « não posso » dos negligentes e « o não quero » dos contumazes
valem quasi a mesma coisa.
(Manuel Bernardes.)

E quem tem a culpa de toda esta mudança tão damnosa
ao bem publico ? — As delações, as suspensões, as irresoluções ,
o hoje, o amanhã, o outro dia, o nunca dos vossos Quandos.
(Vieira, Sermões.)

129 O adverbio onde emprega-se com frequencia em accepção
relativa, e algumas vezes tambem os demonstrativos
este, esse, aquelle ; exemplos :

Chegou a um logar saudoso, onde as aguas de um pequeno
ribeiro se mettem em o mesmo rio.
(Mariz, Dialogos.)

130 O verbo concorda com o seu sujeito em numero e
pessoa ; exemplos :

A caridade é lingua universal.
(Manuel Bernardes.)

Boas letras, senhor, não são baixeza.
(Ferreira, Poemas.)

131 Quando o sujeito é composto o verbo vae ao plural,
68isto é, quando representa differentes individuos e de
cada um se affirma ou nega a mesma coisa ; exemplos :

O recolhimento e a modestia são a casca da continencia, e
a fructa sem casca facilmente se corrompe.
(Bernardes, Luz e calor.)

A mansidão, a suavidade de humor são virtudes mais raras
que a castidade.
(Bernardes, Luz e calor.)

Assim Saul, como David debaixo do seu saial eram homens
de tão grandes espiritos como logo mostraram suas
obras.
(Vieira, Sermões.)

O destruir e o edificar são dois argumentos do
poder.

132 Ha sujeitos compostos sob a forma de complexos,
isto é, quando da palavra regente e regida se affirma a
mesma coisa como individuos distinctos ; exemplos :

José de Mello com seu primo Estevam da Cunha, Antonio
de Mello e Castro, muitos nobres e os populares convocados
por Nicolau da Maia aguardam impacientes que um tiro de
pistola, disparado do palacio, lhes dê o signal de travarem
tambem a lucta.
(Selecta Nacional, p. 69.)

133 Ha sujeitos que são compostos só emquanto á forma,
e não emquanto á significação, isto é, não exprimem
individuos differentes, são uma especie de symnonimia para
melhor expressar a idéa do sujeito ; são como retoques de
pintura para se conhecer bem a idéa do sujeito ; n’este
caso o verbo vae ao singular ; exemplos :

A sede e o desejo de dinheiro nunca se farta.
(B. Pereira, Phrases portuguezas.)69

O logro e a posse de todos os bens do mundo sem a graça
de Deus é nada.
(Bernardes.)

134 As phrases um e outro, nem um nem outro, levam
o verbo ao plural ; exemplo :

Desde aquelle ponto em diante, um e outro eram seus filhos
e um e outro entre si irmãos.
(Vieira, Sermões.)

135 A conjuncção ou quando está servindo de copulativa
leva o verbo ao plural ; quando é dijunctiva leva o verbo
ao singular ; exemplos :

Nunca Alexandre ou Cesar nas confusas
Guerras o estudo deixam grande espaço ;
Que as almas jámais d’elle são escusas.
(Camões, Rimas.)

136 Se o sujeito composto está resumido por alguma
palavra no singular, taes como : tudo, ninguem, etc., o
verbo vai ao singular ; exemplo :

O oiro, os diamantes e as perolas, tudo é terra e da
terra.
(Vieira, Sermões.)

137 As phrases um dos, uma das, levam o verbo ao
plural, quando concorda com os substantivos a que se referem
os artigos compostos dos, das ; e conserva-se no singular
quando se refere ao adjectivo um, uma ; exemplos :

O Douro é um dos rios de Portugal que entram no mar.
(Leão, Descrip. de Port.)

Cosme Gonçalves, que é um dos que estiveram ao conselho.
(Historia Tragica.)70

Um dos capitulos da lei de Deus que mais deve consolar
a um christão, é, etc.
(Paiva, Sermões.)

Um dos maiores males que se póde fazer a um reino é ,
ou desenganar, ou encurtar ou afrouxar as esperanças dos
homens ; porque é tirar-lhes o principal cabedal de que se
sustentam.
(Paiva, Sermões.)

138 Quando o sujeito é composto de differentes pessoas
o verbo vae ao plural concordando com a pessoa mais nobre ;
exemplos :

Eu e tu estamos bons.
Eu e elle estamos bons.
Eu e vós estamos bons.
Eu e elles estamos bons.
Eu, tu e elle estamos bons.
Eu, vós e elles estamos bons.

Tu e elle estaes bons.
Tu e elles estaes bons.
Tu e vós estaes bons.
Tu e tu estaes bons.
Elle e elle estão bons.
Elle e elles estão bons.

O que nem eu nem tu negaremos bem, ainda que tu e Pedro
o tivesseis negado, e Paulo e Antonio louvados o neguem.

(Roboredo.)

Nós estavamos minha prima e eu assentados.
(Euphrosina.)

Se tu e elle vos enfadaes.
(Euphrosina.)

Em grammatica disse-se que a primeira pessoa é mais nobre
que a segunda, e que a segunda mais nobre que a terceira.

139 O pronome eu é masculino quando representa pessoa
do genero masculino, e feminino quando exprime pessoa
do genero feminino. Este pronome não tem plural ;
porque ninguem possue outro eu com que forme plural.

140 Nós emprega-se para representar um sujeito da
primeira pessoa com outro ou outros da segunda ou terceira.
Tambem se emprega para representar simplesmente
71um sujeito do singular ; n’este caso é singular logico e
plural grammatical ; exemplos :

Nós não somos bastante para confiadamente louvar.
(Fernão Lopes, Chronica de D. João.)

Varão santo, porque o communicamos muitos annos e fomos
muito seu devoto.
(Diogo do Couto, V. de D. Paulo.)

Verbos impessoaes

141 Ha verbos impessoaes que só se empregam na terceira
pessoa do singular, e outros só na terceira do plural ;
exemplos :

Ha, parece, é necessario, chove, troveja, neva, etc. Dizem ,
contam, referem, etc.

Em maus caminhos ha maus encontros.

(Bernardes, Luz e calor.)

Querendo sujeitar estes verbos á forma theorica da oração,
tem de se lhes attribuir um sujeito grammatical, que pode
ser algùm dos seguintes termos (o que mais convier) ; o homem ,
os homens, o mundo, o tempo, o espaço, a vida, a sociedade
,
etc.

142 Os verbos que se empregam auxiliarmente com o
verbo haver em accepção impessoal, tomam a mesma natureza
impessoal ; exemplos :

Nem por isso deixa de haver outros meios custosos de advertir.
(Vieira, Cartas.)

Repugna haver em uma alma no mesmo tempo duas consolações
contrarias
.
(H. Pinto, Dialogos.)72

Desenganem-se os idolatras do tempo passado, que tambem
no presente pode haver homens tão grandes como os que já
foram, e ainda maiores.
(Vieira, Sermões.)

143 Os verbos impessoaes dizer, contar, referir, etc.
quando se empregam em accepção passiva só se podem
usar no singular apassivados como particula se ; v. g.
Diz-se, conta-se, refere-se, etc.

Erram aqui vulgarmente os indoutos no emprego do verbo
haver quando é impessoal, v. g. hão homens, houveram homens,
etc., em vez de : ha homens, houve homens.

Não menos censuravel é o vicio contrario, isto é, empregar
o verbo haver como invariavel quando é auxiliar ;
exemplo :

Ver-se-ha primeiro as náos mais excellentes
Correr nas salas ondas á porfia.
(Barreto, Eneida.)

Deve-se corrigir ver-se-hão.

Este verbo haver, quando não é auxiliar, é um verbo
transitivo, e significa sempre possuir e não existir. As phrases
citadas não são idiotismos, como alguns pretendem, sim
simples phrases ellipticas ; v. g. o mundo ha ou tem homem
o mundo houve ou teve homens
, etc.

Infinito pessoal e impessoal

144 A linguagem do infinito pessoal emprega-se quando
forma por si oração com sujeito proprio ; porque seguem
regra geral, que é concordar com o seu sujeito. Em todos
os mais casos emprega-se o infinito impessoal ; exemplos :

Trabalha, meu filho, para agradarem tuas obras a Deus.
(Mendes Pinto.)

É muito proprio das mulheres o sair para verem e serem
vistas.
(M. Bernardes.)73

Os seguintes logares são errados :

Os moradores salvaram no sertão as vidas, faltando-lhes
valor para se defender ou morrer em suas casas.
(Jacinto d’Andrade.)

Deve-se corrigir defenderem ou morrerem.

Mandou dois talões a espiar o porto e sondar o rio e ver
o surgidoiro.
(Mendes Pinto.)

Deve-se corrigir expiarem, sondarem e verem.

Forçarás as pedras a vos fazer a vontade.
(Gabriel Ulyssipo.)

Deve-se corrigir a vos fazerem a vontade, porque o sujeito
d’este verbo é pedras.

O que se lhes não pode defender com a artilheria por trabalhar
cobertos.
(Andrade, Vida de D. João.)

Deve-se corrigir por trabalharem cobertos.

E folgarás de veres a policia
Portugueza na paz e na milicia.
(Camões, Lusiadas.)

Deve-se corrigir folgarás de ver, porque o verbo ver constitue
com o verbo folgar uma linguagem composta.

Verdade sem trabalhares e padeceres não a verás tu jamais
com teus olhos.
(M. Bernardes, Luz e calor.)74

Algumas nações, forcejando pacificamente por obterem o
progresso, haviam-se abstido de se associarem ao movimento
revolucionario da Europa.
(A. Herculano.)

Estes dois exemplos são correctos.

Oh ! Se os livros fallassem, quantas ignorancias haviam
de dizer, que consultam com elles de noite os que de dia se
publicam grandes letrados.
(Vieira, Sermões.)

N’este exemplo o verbo dizer está correctamente empregado ;
porque por si não forma oração, mas faz parte de
uma linguagem composta.

Já no seu tempo se queixava Seneca da vã curiosidade
dos homens. Aprendemos a disputar, dizia o philosopho, e
não aprendemos a viver !
(Rafael Bluteau.)

Outras nações souberam tirar as consequencias justas, e
vieram associar-se pacificamente ao gremio das sociedades
livres.
(A. Herculano.)

Estes dois exemplos são correctos, porque os infinitos disputar ,
viver
e tirar não formam por si orações.

a) Syntaxe de regencia

145 A syntaxe de regencia é a parte que ensina a
ligar as palavras por meio das preposições.

As palavras regidas conjunctamente com as preposições que
as ligam ás palavras regentes denominam-se complementos.

Os complementos dividem-se em complementos objectivos,
terminativos, completivos, explicativos,
75restrictivos, e circumstanciaes. E estes podem ser
de differentes classes : de causa efficiente, de modo, de tempo ,
de logar, de causa, de natureza, de materia
, etc.

Complemento objectivo

146 Os complementos objectivos ligam-se aos verbos
transitivos pela preposição a, clara ou occulta ; exemplos :

O Ministro que não tem qualidades proporcionaes ao governo
que se lhe dá, desacredita ao principe pela eleição ,
desauctorisa o logar pela pessoa, e arruina os vassallos com
o governo.
(Ribeiro de Macedo.)

A ingratidão perverte o juizo, perturba a razão, cega o
entendimento, e corrompe a vontade.
(Heitor Pinto.)

Convidava o Papa algumas vezes ao Arcebispo a jantar.
(Sousa, Vida do Arcebispo.)

A primeira resolução de David quando viu a Saul só e
sem defensa, foi cosel-o alli ás punhaladas.
(Vieira, Sermões.)

147 Os pronomes me, te, se, nos, vos, empregam-se para
representar o complemento objectivo e algumas vezes o
terminativo ; exemplos :

Melhorou de fortuna o vosso maior amigo e ao outro dia
já vos olha com outros olhos, já vos ouve com outros ouvidos ,
já vos falla com outra linguagem, o que hontem era
rosto hoje é semblante. Pois, meu amigo, que mudança é
esta ? Quem vos trocou as feições ?
(Vieira, Sermões.)

As religiosas do mosteiro callingonense, afim de se segurarem
dos barbaros na pureza, se cortaram os narizes.
(B. Telles, Chronicas.)76

Não ha quem emprehenda tirar-me a vida a David.
(Feijó, Quadros.)

Já te não peço a vida, só queria
Que a de Hero me salvasses.
(Camões.)

148 O pronome se emprega-se tambem para exprimir
que o verbo a que se ajunta representa um acto natural
ou independente da vontade da pessoa a quem se attribue ;
exemplos : anda-se, vive-se, vegeta-se, etc.

Vendo que a armada se saia para o mar.
(Gaspar, Lendas.)

Despontou o botão ! cresceu ! entreabriu ! corou ! desapertou-se !
desdobrou-se de todo ! eis a flor ! Nunca a planta pareceu
tão maravilhosa ! nunca se mostrou assim amavel !
(Castilho, Noções Rudimentares.)

149 Por analogia emprega-se esta particula para representar
a voz passiva ; exemplo :

Não basta que as coisas que se dizem sejam grandes, se
quem as diz não é grande.
(Vieira, Sermões.)

Chamou o Bispo D. João d’Albuquerque, D. Diogo de Almeida
Freire, ao doutor Francisco Toscano, chanceller-mór
do reino, a Sebastião Lopes Lobato, seu ouvidor geral, e a
Rodrigo Caminha, vedor da fazenda, aos quaes entregou o
estado com a paz dos visinhos, assegurada sobre tantas victorias.
(J. d’Andrade, Vida de D. João.)

Houve em Agrigente um cego astutissimo, e que pelo tinó
sabia as estradas de toda aquella ilha, de modo que servia
de guiar aos mais passageiros.
(M. Bernardes, Floresta.)77

150 Tanto erro é deixar de empregar a preposição
a quando da sua omissão resulta ambiguidade, como usar
d’ella contra a pratica dos bons escriptores ou quando modifica
o sentido do verbo ; exemplos :

Ama o povo o bom rei e é d’elle amado.
(Antonio Ferreira, Poemas.)

N’este exemplo fica-se em duvida qual dos dois termos
povo ou o bom rei é o sujeito da oração.

Quero ás flores, quero as flores. — Quero ás flores significa
amo, estimo as flores ; — quero as flores exprime o desejo de
possuir flores.

Complemento terminativo

151 O complemento terminativo é regido por intermedio
das preposições a ou para, e exprimem a pessoa ou a
coisa a que se dirige a acção do verbo ; exemplos :

Se mandou sepultar nas ondas do oceano, encommendando
aos ventos levassem á sua patria as ultimas vozes com que
d’ella se despedia.
(Vieira, Sermões.)

Servir a Deus bem pode ser, e é bem que seja ; mas servir
a Deus e ao dinheiro juntamente é impossivel.
(Vieira, Sermões.)

Complemento completivo, explicativo, restrictivo
e circumstancial.

152 Os complementos completivos, explicativos,
restrictivos e circumstanciaes pedem
diversas preposições e podem-se juntar a substantivos, a
adjectivos, a verbos e adverbios ; exemplos :78

Copo de cristal, util a, fiel a, convidado a, conforme com ,
sair de, fugir de, differentemente de, anteriormente a, relativamente
a, independentemente de, etc.

A mesma palavra, segundo se emprega com preposição ou
sem ella, toma diversas significações ; exemplos : tirar a espada
tirar pela espada, ou tirar da espada
, etc. — Tirar a
espada significa desarmar-se, largar a espada ; — tirar pela
espada
ou da espada significa desembainhar a espada, empunhal-a,
etc.

153 O complemento circumstancial de causa efficiente
representa-se pelas preposições por ou de ; exemplo :

Manuel Falcão foi ferido de uma bombarda em uma
perna.
(Gaspar Correa, Lendas.)

Querendo mudar esta oração para a activa, o objectivo
passa para sujeito, e o sujeito a complemento objectivo ; da
seguinte maneira : Uma bombarda feriu Manuel Falcão em
uma perna
.

As preposições que se hão de empregar com cada um
d’estes complementos só se aprendem com o uso e com a
leitura dos bons modelos litterarios, e consultando os melhores
diccionarios nacionaes.

154 Dois ou mais verbos ou adjectivos podem ter um
ou mais complementos communs ; exemplos :

Manda vir cheiros, joias, galas, espelhos ; — veste, compõe ,
enriquece, esmalta os cabellos, a garganta, o peito, as
mãos.
(Vieira, Sermões.)

Quando os verbos ou os adjectivos pedem preposições diversas,
não é permittido empregar um complemento commum ;
v. gr. :

Muito bom é que v. ex.ª chame vingança ao silencio com
que eu recebi, e me conformei com o meu castigo.

(Vieira, Sermões.)79

Este trecho deve-se corrigir do seguinte modo : Muito bom
é que v. ex.ª chame vingança ao silencio com que eu recebi
o meu castigo e me conformei com elle
.

b) Syntaxe de collocação

155 A syntaxe de collocação trata de dispôr as palavras
e as orações segundo a sua ordem logica.

A ordem logica da collocação das palavras e das orações
consiste em juntar immediatamente ás orações e ás palavras
regentes as suas regidas ou determinadas.

156 A syntaxe de collocação divide-se em duas partes :
collocação de palavras, e collocação de orações.

Collocação das palavras

157 As orações devem-se em geral começar pelo sujeito ;
exemplos :

A prata é um metal perfeito.
(Andrade Machado.)

A Samaritana sabia de certo que Christo era o Messias.
(Antonio Vieira.)

158 Nas orações interrogativas, mandativas e interruptas
(em que se referem as palavras de alguem) o sujeito
colloca-se em geral depois do verbo ; exemplo :

Juras ? — perguntou de novo Beatriz.
Juro. Mas o que juro eu ?
80Oh ! Vasco, Vasco ! dizia ella, cobrindo de beijos e de lagrimas
a mão que o cisterciense tinha sobre a cruz.
(A. Herculano, Monge de Cister.)

159 Nas orações do gerundio é mais conforme como
dizer nacional collocar o sujeito depois do verbo ; exemplos :

Ouvindo isto o P. Christovam tomou depressa a porta
porque não podia reprimir o riso.
(M. Bernardes, Floresta, 4, 385.)

Trabalhando sempre Fr. Estevam viveu vida muita ***
e acabou sanctamente.
(Sousa, Domingos.)

160 Em seguida ao sujeito deve-se collocar o verbo
apoz elle o attributo ; exemplo :

A gloria é uma planta de tal casta, que se quer regada
com suor.
(Manuel Bernardes Luz, 256.)

A opulencia é esponja que se seva na substancia da nobreza.
(Arte de Furtar.)

Lopo de Sousa, irmão de Fr. Luiz de Souza, ficou cativo
na batalha de Alcacer.
(Garrett.)

Na collocação do verbo ha grandes liberdades na lingua
portugueza, como se verá na syntaxe figurada.

161 Os complementos collocam-se junto das palavras
que os regem ; exemplos :

O clamor dos pobres é o oprobio dos ricos.
(Manuel Bernardes, Luz e calor.)81

O ar puro e livre de todos os vapores sulphorosos e inflamaveis
não altera a prata.
(Andrade Machado, Manual.)

Os nossos ficaram pelejando com os Mouros de barba a
barba.
(Diogo do Couto V. de D. Paulo.)

162 Quando algum dos termos da oração é composto devem-se
dispor os seus elementos pela graduação das suas
significações ; exemplos :

A sabedoria e a virtude não se deixam em testamento ,
porque se levam ; e nós todos a mantarmo-nos pelo que se
ha de deixar.
(Antonio Vieira.)

Vereis a um d’estes, quando ainda se conta no numero
dos vivos, descorado, pallido, macillento, mirrado ; as faces
sumidas, os olhos encovados, as sobrancelhas caidas, a cabeça
derrubada para a terra, a estatura toda do corpo encurvada ,
acanhada, diminuida.
(Vieira, Sermões.)

163 Os substantivos ou as palavras que lhes são equivalentes
collocam-se na oração segundo o papel que representam.
Porém se se empregam como expressões exclamativas,
ou vocativas, collocam-se junto do termo com
que tiverem mais immediata relação.

Ajudai-me, Senhor, depressa, que a vida se vae passando
e as sombras da tarde crescem.
(M. Bernardes, Paraiso.)

164 As variações pronominaes me, te, se, etc. pospõe-se
aos verbos no modo indicado ; excepto nas linguagens
dos futuros ou se alguma palavra collocada antes do verbo
as attrahir ; taes como : quem, que, se, já, não, nem, etc.
exemplos :82

Dizei á rainha, nossa Senhora, que se me não quiz vêr
por meus peccados que Nosso Senhor me verá porque faz verdade
e justiça.
(Gaspar Correa, Lendas.)

165 Com os futuros do indicativo em rei, e ria, podem
collocar-se estes pronomes no meio dos seus componentes
da seguinte maneira :

Amar-me-hei | Amar-me-hia
Amar-te-has | Amar-te-hias
Amar-se-ha | Amar-se-hia
Amar-nos-hemos | Amar-nos-hiamos
Amar-vos-heis | Amar-vos-hieis
Amar-se-hão | Amar-se-hião

Falla pouco e bem ter-te-hão por alguem.
(Arraes, Dialogos.)

166 Estas variações pronominaes com as linguagens do
subjunctivo collocam-se antes do verbo ; exemplo :

Nunca te appliques a cargo desigual a teus hombros.
(B. Pereira, Gramm.)

Se te fizeres mel comer-te-hão as moscas.
(Bluteau.)

167 Os adjectivos podem-se usar antepostos ou pospostos
aos substantivos.

168 Antepõem-se :

1.° Os qualificativos quando exprimem qualidades essenciaes
ou demasiadamente conhecidas ; exemplos :

O odorifero rosmaninho ; — o elastico marfim ; — o piedoso Enéas.
83Já a vista pouco a pouco se desterra ,
D’aquelles patrios montes que ficavam ;
Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
De Cintra, e n’ella os olhos se alongavam ;
Ficava-nos tambem na amada terra
O coração, que as magoas lá deixavam ;
E já depois que toda se escondeu ,
Não vimos mais, emfim, que mar e ceo.
(Camões, Lusiadas.)

Tristes paes, tristes mães, a quem a morte
Os dias enluctou, impia roubando
Os caros filhos que choraes ainda :
Em vós me vejo, e como vós carpindo ,
Aos vossos corações meus ais, meu pranto
Com estes carmes funebres envio.
(Gonçalves Magalhães, Obras Poeticas.)

2.° Os determinativos ; exemplos :

Como poderia vêr aquelles olhos
Cerrados para sempre ? como aquelles
Cabellos já não de ouro, mas de sangue ?
Aquelles brancos peitos transpassados
De golpes tão crueis ?
(Ferreira, Poemas.)

Abre os teus labios, brasileiro Vate ,
Ungidos pelo amor sagrado immenso
Do teu epico berço : canta o Nauta
Que as virgens ondas perlustrando ousado
Foi um mundo buscar mudando a face
Da renascida Europa, burilando
No mappa das nações novos imperios.
(Porto-Alegre, Colombo.)

169 Pospõem-se :

Os qualificativos quando representam as qualidades das
coisas, com o fim de as distinguir de outras similhantes ;
exemplos :84

Inclina a cabeça á dôr penosa ,
Qual no ramo do tronco dividido
Languida e triste fende murcha rosa.
(Sa de Menezes.)

Estas regras de collocação podem deixar-se de observar
em verso, quando a harmonia assim o exigir ; porém
na prosa o não guardarem quasi sempre dá um carater potencioso
á locução.

170 Ha adjectivos que mudam de significação pelo facto
de se anteporem ou posporem ao substantivo que modificam ;
exemplo :

certa coisa / coisa certa | sancto padre / padre sancto
certo facto / facto certo | pobre homem / homem pobre
forte agua / agua forte | triste hômem / hômem triste

Alguns auctores tem querido distinguir os adjectivos meu ,
teu, seu
, etc., quando são possessivos, de quando são rellativos,
collocando aquelles antes do substantivo e estes depois
mas esta pratica não tem sido geralmente seguida : exemplos :

Um principe estrangeiro bem poderà ser nosso rei, mas
vae grande differença de ser nosso rei a rei nosso.
(Vieira, Sermões.)

Moysés fallando com Deus chama-lhe o povo nosso, com
quem o queria interessar no perdão e consideração de coisa
sua.
(Vieira, Sermões.)

171 O artigo colloca-se antes dos substantivos ou dos
seus equivalentes, quer sejam simples palavras quer orações
substantivadas. Se antes do substantivo ha algum
adjectivo ou adverbio o artigo precede estes ; exemplos :

E o ceo, e as estrellas, e os astros fulgentes
São velas, são tochas, são vivos brandões.
85E o branco sudario são nevoas algentes ,
E o crepe que o cobre são negros vulcões.
(Gonçalves Dias.)

É o trigo o primeiro dos grãos cereaes pela abundancia
de farinha util que produz e pelas superiores qualidades
alimenticias do pão que d’ella se fabrica.
(Ferreira Lapa, Techonologia.)

Se nós bem considerarmos o que somos, e o em que nos
havemos de tornar, não ha duvida, senão que melhorariamos
nossas consciencias.
(Heitor Pinto, T. I, D. 6, C. 3.)

172 Os adverbios collocam-se segundo o papel que representam
na oração. Se estão servindo de complementos
de qualidade, de logar, de tempo, etc. devem-se juntar
antes ou depois do termo a que pertencem. Se estão empregados
para graduar ou exprimir negação, duvida, admiração,
etc. devem-se então collocar antes dos termos que
modificam ; exemplos :

Acolá Izabel, aqui Izabel, acolá uma corôa, aqui outra
corôa ; acolá um corpo morto e todo corrupto, aqui outro
corpo morto, mas incorruptivel e como immortal.
(Vieira, Sermões.)

O logar mais santo e mais sagrado do templo de Salomão
era o chamado Sancto Sanctorum. Alli estava a Arca do
Testamento, alli as tábuas da lei, alli a vara de Moysés ,
alli a Urna do mánná, alli sobre as azas de cherubins o
propiçiatorio, em que Deus assistia e fallava.
(Vieira, Sermões.)

173 Se o adverbio modifica toda a oração, começa-se
por elle ; ou colloca-se depois da primeira palavra ; exemplo :86

Ordinariamente quem tem muita espada tem pouca lingua.
(Vieira, Sermões.)

Depressa, não passe a flor do tempo, coroemo-nos de rosas
antes que murchem.
(M. Bernardes.)

Cuidais, por ventura, que é algum ecco imitador d’aquella
voz do deserto ? Suspeitaes, acaso, que é algum som parecido
com aquella trombeta do céo, que inspirava penitencia aos
ermos e ás cidades ? cuidaes, finalmente, que é algum justo
que vem edificar-nos com a doutrina ou com a pessoa ?
(Chagas, Sermões.)

174 A preposição colloca-se antes das palavras regidas.
Se estas estão modificadas por algum artigo, adjectivo ou
adverbio precede estes termos ; exemplos :

O dominio do mundo não consiste em o possuir, consiste
em o pisar.
(Vieira, Sermões.)

Terra em que eu nasci, como sois bella !
Como és formoso, oh ceo do Guanabára !
Mais azul do que as pennas d’araruna !
E a vós eu vólto, e vos saudo em frente ,
D’uma recente, pranteada campa !
(Gonçalves Magalhães, Obras Poeticas.)

175 As conjuncções collocam-se entre as orações e entre
os elementos dos termos compostos que os ligam ; exemplos :

Pedi e recebereis, buscae e abrir-vos-hão.
(Bernardes.)

O rustico, porque é ignorante, vê que o ceo é azul ; mas
o philosopho, porque é sabio, e distingue o verdadeiro do
87apparente, vê aquillo que parece ceo azul, nem é azul
nem ceo.
(Vieira, Sermões.)

176 Quando a conjuncção é formada de vozes abertas,
ou de muitas syllabas é mais conforme com o dizer nacional,
não abrir por ellas a oração, mas collocal-as depois
das primeiras palavras ; exemplos :

Tal foi a origem d’este livro. A sua sorte, porém, devia
ser diversa da que eu previra,
(Herculano, Historia.)

Seguro, emfim, no dominio da Hespanha.
(Idem.)

É, pois, para lançar os alicerces.
(Idem.)

177 As interjeições collocam-se juncto da palavra que
dominam. Se abrangem toda a oração collocam-se no rosto
d’ella : exemplo :

Antoniò de Faria dando a isto um grande grito a modo
de espanto, disse : tá, tá, tá, não quero saber mais.
(F. M. Pinto, Pregrinações.)

Ai de mim ! que morro se a não acho. Ai de mim ! perdida
sou se lhe não descubro o fogo vivo, em que meu coração
está ateado.
(Bernardes, Paraiso.)

Alerta ! Alerta ! — Sus ! que o prisioneiro
Já lá fugindo sae ,
Porém baldio esforço ! Incendio arteiro
Lavrando em tudo vae !
(Norberto de Sousa E Silva, Modulações Poeticas.)88

Collocação das orações

178 Quando o periodo é composto de duas ou mais orações
fundamentaes, estas devem-se collocar pela sua ordem
chronologica ou pela graduação das suas significações ;
exemplos :

Os avós foram máos, os filhos são peiores e os netos serão
pessimos.
(Vieira, Sermões.)

Abre, desce, olha, geme, abraça e chora.
A malfadada Ignez na sepultura.
(Camões, Lusiadas.)

179 Quando alguma das orações fundamentaes contém
orações integrantes ou complementares devem-se estas collocar
nos logares que lhe pertencem, segundo o elemento
de oração que representam ; exemplos :

Queremos ser livres foi o grito de nossos primeiros paes.

Todas as coisas que são sob o sol, passam.
(M. Bernardes.)

No primeiro exemplo a oração integrante queremos ser livres
é o sujeito da oração fundamental foi o grito de nossos
primeiros paes
 ; portanto deve-se começar por ella. — No segundo
exemplo a oração que são sob sol é uma oração complementar
do sujeito todas as coisas ; portanto deve-se collocar
immediatamente a elle.

180 Estas leis de collocação são algumas vezes alteradas
quando se oppõe ás leis da harmonia.

181 As leis da harmonia são as seguintes :

1.° Deve-se collocar alternadamente as palavras compridas
89com as curtas por tal forma que o periodo se torne
cadente.

2.° Deve-se evitar a secuencia de palavras representadas
pelas mesmas vozes ou pelas mesmas articulações.

3.° Deve-se procurar encerrar o periodo pelo termo que
fôr mais expressivo ou sonoro.

4.° Deve-se procurar que as pausas em que o periodo
se divide sejam proximamente eguaes, e nunca que excedam
o tempo que pode durar a respiração ; exemplo :

Se vencendo a Maura resistencia ,
A morte sabes dar com fogo e ferro ;
Sabe tambem dar vida com clemencia
A quem para perde-la não fez erro.
(Camões, Lusiadas.)

5.° Qualquer vicio contrario ás leis da euphonia deve
ser banido da boa escripta.

6.° O melhor modo de estudar a harmonia do periodo
portuguez é lendo expressivamente exemplos bem escolhidos.
Esta regra que é verdadeira para adquirir a medição
e cadencia do verso, é tambem applicavel á prosa. Portanto
o professor deve apresentar aos alumnos trechos bem
cadentes e melodiosos para que elles os leiam reiteradas
vezes, para assim habituarem o ouvido á medição da prosa
portugueza ; taes como :

Eu hei de morrer na paz, dizia o rei Josias, seguro estou
na guerra. Cerram n’isto os esquadrões, trava-se a batalha,
voam as settas ; senão quando uma d’ellas atravessa pelo coração
a Josias, e caiu morto.
(Vieira, Sermões.)

O rustico, porque é ignorante, vê que o ceo é azul ; mas
o philosopho, porque é sabio, e distingue o verdadeiro do
apparente, vê aque aquillo que parece ceo azul, nem é azul,
nem é ceo.
(Idem.)90

Como as grandes associações da riqueza material, cujos
montes de oiro seriam fracamente productivos se não negociassem
com o governo, porque só o grande consumo do
Estado póde dar emprego a tamanhos cabedaes ; assim são
as academias, bancos de riqueza intellectual, cujos vastos
depositos precisam ser explorados e negociados em grande
para darem cento por um como a semente da parabola.
(Garrett, Elogios historicos.)

Só a palavra nas artes, a que é materia prima, falla ao
mesmo tempo á phantasia e á razão, ao sentimento e ás
paixões ; só ella Pygmalião prodigioso esculpe estatuas, que
vão saindo vivas e animadas do tronco ou da pedra, onde
as delineia e arredonda o seu buril ; só a palavra, mais fecunda
do que Zeuzis, sabe desenhar e colorir figuras e paizes,
com que se illude e engana a vista intellectual ; só a palavra,
mais audaz do que o Ictinos e os Callicratis, traça,
dispõe, exorna e arremessa aos ares monumentos mais nobres
e ideaes que o Parthenon de Athenas ; só a palavra
mais commovedora e persuasiva do que o pléctro dos Orpheus,
encadeia á sua lyra magica estas feras humanas ou deshumanas,
que se chamam homens arrebatados e enfurecidos
nas mais treculentas allucinações.
(Latino Coelho, Disc. Acad.)

O talento que brilha, allumia e aquece, é fogo : e o poeta
do coração é como o facho temperado de resinas aromaticas
acceso no meio do Templo grande, faz vêr maravilhas ; levanta
com seus misticos perfumes os pensamentos ; patenteia
o que quer que seja da Divindade ; ajuda e encaminha as
creaturas para as altas veredas espirituaes, mas ardendo para
tão sanctos e proveitoos fins, a si mesmo se consome, e se
dissipa.
(Castilho, Disc. Acad.)

c) Syntaxe figurada

183 A syntaxe figurada ou idiomatica tracta das irregularidades,
que todos os idiomas possuem, contrarios ás leis
geraes da Grammatica, as quaes teem por fim tornar os periodos
mais breves, mais energicos e mais harmoniosos.91

184 Estas irregularidades denominam-se construcções figuradas,
ou figuras grammaticaes, e tem nomes diversos.

185 As figuras grammaticaes dividem-se em tres cathegorias :

de brevidade
de energia
de harmonia.

Brevidade

As figuras de brevidade teem por fim evitar o tedio, o
aborrecimento que resulta do emprego ou repetição de termos
que facilmente se subentendem, os quaes segundo a syntaxe
regular ter-se-hiam de referir no periodo.

Estas figuras fundam-se na imaginação arrebatada do homem,
na impaciencia do seu espirito, no desejo vehemente de chegar
com rapidez á conclusão do raciocinio ou do quadro
que se pretende descrever.

Ellas concorrem não menos para a clareza do periodo ;
porque um discurso desembaraçado de todas as palavras
superfluas torna-se mais lucido e comprehensivel.

Toda a palavra quer seja das principaes, quer das secundarias
póde ser supprimida, quando da sua omissão não resulte
offensa á lei fundamental da escripta, a clareza.

Esta suppressão póde ser tal que as palavras omittidas
sejam em muito maior numero que as que se acham expressas.

186 As figuras de brevidade tem por fim aligeirar o periodo
de todas as palavras que facilmente podem ser subentendidas.

187 As figuras de brevidade dividem-se em ellipse,
zeugma e syllepse.

Ellipse

188 Chama-se ellipse á suppressão de uma ou mais
palavras n’um periodo, com o fim de o tornar mais breve
ou mais energico ; sem todavia faltar á lei fundamental
da arte de escrever, a clareza.92

189 Esta figura emprega-se com quaesquer elementos
do periodo ou partes d’elle.

Sujeito

190 Quando o sujeito é um pronome pessoal, eu, tu ,
elle, nós, vós, elles
, deve-se supprimir ; exemplo :

Ouve, vê, e cala levarás vida folgada.
(Adagio Portuguez.)

Excepções :

1.° Quando a energia da phrase o exige ;

2.° Quando ha contraposição ou comparação de pessoas ;
exemplos :

Tu, Annaz, Ministro aleivoso, peitaste a Judas com dinheiro.
Tu. Caiphaz, sacrilego pontifice, agenciaste e subornaste
as falsas testemunhas que me accusaram. Tu, Pilatos ,
infeliz politico, antepozeste a amizade de Cezar á graça de
Deus.
(Raphael Bluteau.)

Se serviste a patria que vos foi ingrata, vós fizestes o que
devieis, ella o que costuma.
(Vieira, Sermões.)

As seguintes phrases são viciosas : elle chove, elle neva ,
elle faz frio
, etc. Devem-se corrigir da seguinte maneira :
chove, neva, faz frio, etc. As seguintes são ainda mais censuraveis,
porque são grosseiros solocismos : eu admira-me ,
eu pareceu-me, eu lembrame
, etc. Devem corrigir-se do seguinte
modo : admira-me, pareceme, lembra-me, etc.

É vulgar nos primeiros monumentos litterarios da lingua
achar empregados superfluamente os pronomes pessoaes ; dizemos
superfluamente porque na maioria das linguagens portuguezas
a forma pessoal está representada pelo suffixo verbal ;
exemplo :93

Eu te digo irmão que eu pedi este logar á rainha, e não
m’o entregou ; porque ella estava torvada, e as coisas não
se faziam á sua vontade.
(Portugaliae Monum.)

Verbo

191 O verbo suprime-se nas orações exclamativas, axiomaticas,
nas divisas, nos proverbios ; porque o vigor, a
energia d’estas composições provém principalmente da sua
concisão ; exemplo :

Que trafego ! que lida ! que auxilios mutuos ! que dependencias
reciprocas ! que deversidade de gostos ! de occupações !
de productos !
(Castilho, Noções Rudim.)

Que exemplo a futuros escriptores.
(Camões, Lusiadas.)

Os animaes todos tem suas virtudes ou vicios naturaes ;
o leão generoso ; a serpente astuta ; o lobo foraz ; o cervo
ligeiro ; o jumento soffredor do trabalho.
(Vieira, Sermões.)

Resignação contra a adversidade. — Mais figado e menos
pulmões.

192 Nas orações comparativas supprime-se o verbo no
segundo termo da comparação ; exemplo :

Jeremias tão bom era no carcere, como no pulpito ; Job
tão bom no mudar, como no seu palacio.
(Vieira, Sermões.)

193 Nas orações de gerundios formadas pelo gerundio
composto costuma-se supprimir a parte auxiliar, conservando
só o participio ; exemplos :

Perguntados os Espartanos porque não muravam as suas
94cidades, respondiam : os nossos muros (apontando para os
feitos) são estes.
(Vieira, Sermões.)

Riantes, um dos sete sabios da Grecia, perguntado qual
era o animal mais venenoso respondeu, que dos bravos o
tyranno, dos mansos o adolador.
(Vieira, Sermões.)

Ouvidos os homens e os anjos quem resta para ouvir, senão
unicamente a Deus.
(Vieira, Sermões.)

Attributo

194 No attributo supprime-se sempre a parte que é a
repetição do sujeito ; exemplos :

Nas doutrinas de opinião talvez sejam licitas as concessões ;
nas materias de facto seriam absurdas.
(Herculano, Historia.)

Este trecho redigido segundo a syntaxe regular deve-se
construir da seguinte maneira :

As concessões nas doutrinas da opinião talvez sejam concessões
licitas ; as concessões nas materias de facto seriam
concessões absurdas.

Complemento objectivo

195 Os complementos objectivos cognatos supprimem-se
sempre excepto se ha a accrescentar alguma circumstancia
especial ; exemplos :

O menino lê ; isto é, o menino lê leitura. O menino estuda ;
isto é, o menino estuda o estudo ; choveu muita chuva
de pedra ; viveu vida alegre.

196 Nos complementos objectivos complexos supprime-se
95a parte regente, quando é um termo generico ; exemplos :

Dê-lhe de comer, dê-lhe de beber ; isto é, dê-lhe alguma
coisa de comer, dê-lhe alguma coisa de beber.

197 Abusa-se muito do emprego dos pronomes me, te ,
se, lhe, nos, vos, lhes
 ; este abuso ainda se torna mais censuravel,
quando se lhes junta as variações a mim, a ti, a
si
, etc. A regra é supprimil-os quando a clareza ou a energia
da phrase não os exige ; exemplo :

Bem me parecia a mim que quando os doutos e persumidos
perguntam não é para saber senão para tentar.
(Vieira, Sermões.)

Do artigo

198 O artigo, sempre que a clareza da phrase não o
exige, deve-se supprimir, principalmente, juncto aos determinativos ;
v. gr.

O meu pae, o meu tio, a minha mãe, etc. ; basta dizer :
meu pae, meu tio, minha mãe, etc.

Entregarei minhas filhas quando der a alma a Deus, respondeu
a desesperada mãe.
(Mamede Consciencia.)

Vãos em seus pensamentos, perturbados em seus conselhos ,
enganados em seus juizos, cegos em seus caminhos.
(Heitor Pinto, Dialogos.)

Sempre que a suppressão do artigo possa produzir ambiguidade
ou mudança de sentido é erro omittil-o ; exemplos :

Ministro de Estado, em vez de Ministro do Estado. Estar
em campo, em vez de estar no campo. Deputado a cortes ,
em vez de deputado às cortes.96

D’estes nomes gregos e latinos não trataram.
(Barros, Grammat.)

Deve-se corrigir : d’estes nomes os gregos e os latinos não
trataram
.

199 Se os artigos a que pertencem os substantivos
tomados em accepção contraposta não se deve suppor
artigo ; exemplo :

Aqui tendes diante de vossos olhos o bem e o mal ,
e o fogo, a vida e a morte.
(M. Bernardes.)

Preposição

200 As preposições, quando não são necessarias à
clareza do discurso, supprimil-as é concorrer para a
brevidade e energia do periodo ; exemplo :

Ouvistes ou lestes alguma hora caso similhante.
(Vieira, Sermões.)

Se Christo dissera tenho sêde, cuidando que lhe
dar agua, era pedir allivio.
(Vieira, Sermões, 2, 336.)

Por sua morte succedeu seu filho Bernam Soltan
jactava preceder de sangue real.
(Couto, Decadas.)

O amor nasce nos olhos, e quem o pintou com olhos
tapados devia ser cego.
(Vieira, Sermões.)

Pediu Moysés a Deus que se dignasse mostrar-lhe
gloria.
(Bernardes, Sermões.)97

Nas seguintes fora melhor não supprimir as preposições.

Eis aqui um velho que até nos seus dilirios havia que
aprender.
(M. Bernardes, Floresta.)

Tambem contaram da maneira que se perdeu o junco.
(Mendes Pinto, T. I, c. 26.)

Estendeu a mão até o leproso.
(Vieira, Sermões.)

201 Nos complementos de tempo e de espaço, costumam-se
omittir as preposições ; exemplos :

Esta tarde vou a Cintra. — Caminhei tres horas, etc. No primeiro
exemplo está supprimida a preposição em, e no segundo
a preposição por.

202 Ha phrases interjectivas ou fragmentos de orações,
tão commummente empregadas, que seria censuravel completal-as,
porque perderiam a energia que lhes resulta da
sua consisão, sem nada ganharem em clareza e energia ;
taes são :

A Deus — Basta. — Sim. — Não. — Eis-alli. — Eis aqui.
— Porque ? — Que ? etc.

Zeugma

203 Chama-se zeugma á suppressão de termos que
segundo as leis da syntaxe regular tinham de ser repetidos
em differentes logares do periodo.

204 A zeugma é a figura mais frequentemente empregada,
e a que mais concorre para aligeirar o periodo.
A falta de seu emprego daria em muitos casos batologias
insupportaveis ; exemplo :

Os homens honrados são sempre pela verdade, e em toda
a parte a louvam, defendem e favorecem.
(Arraes, Dialogos.)98

Restituindo os termos que se acham supprimidos, este trecho
ficará construido pela seguinte maneira :

Os homens honrados são sempre pela verdade, e em toda
a parte os homens honrados a verdade louvam, e os homens
honrados em toda a parte a verdade defendem, e em toda a
parte os homens honrados a verdade favorecem.

205 A zeugma emprega-se com todos os elementos
do discurso e com todas as differentes especies de palavras ;
exemplos :

A virtude louvada vive, e cresce.
(Arraes, Dialogos.)

Isto é, a virtude louvada vive, e a virtude louvada cresce.

A memoria de Deus é saude e limpeza da alma.
(Bernardes, Sermões.)

Isto é, A memoria de Deus é saude da alma, a memoria
de Deus é limpeza da alma
.

O professor apresentará aos alumnos grande copia de exemplos
d’esta figura para completarem, e exercitarem-se na analyse
logica ; taes como :

Não ha modo de mandar ou ensinar mais forte e suave
que o exemplo.
(Bernardes, Floresta.)

As plantas, rios, flores, prados, fontes ,
Cada um com lingua muda ao sol fallava.
(Ulyssea.)

Para o varão forte todo o mundo é patria, para o perfeito
tudo é desterro.
(Bernardes, Luz.)

Morreu affogada em nuvens de fumo e abrasada em ondas
99de chammas aquella desgraçada victima da vaidade, superstição ,
e hypocrisia.
(Bernardes Floresta, I, 133.)

206 Esta figura não se deve empregar quando tornar o
discurso amphibologico, ou menos energico ; v. gr.

Sendo perto da noite o capitão chamava o mestre e piloto.
(Gomes de Brito, Hist. Patria.)

Fica-se em duvida se o mestre e o piloto é um só homem
ou dois.

Quem obrigou aos discipulos de Christo a comer as espigas ,
servindo-lhes as mãos juntamente de fouce, e eira, e
trilho, e mó, e amassilho e forno, e meza ? claro é que foi
a fome.
(Bernardes, Flor. 5, 58.)

Obedecendo aos imperios d’aquella voz, o céo, o inferno ,
o purgatorio, o olympo, o mar, a terra abrir-se-hão em um
momento as sepulturas, e apparecerão no mundo os mortos
vivos.
(Vieira, Sermões.)

Nunca d’estas guerras se tirou outro effeito mais, que o
repetido desengano de que as nações nheengaibas eram inconquistaveis ,
pela ousadia, pela cautella, pela astucia, e
pela constancia da gente, e mais do que tudo pelo sitio inexpugnavel ,
com que as defendeu e fortificou a mesma natureza.
(Vieira, Cartas, T. 2, car. 2.)

Syllepse

207 Chama-se syllepse ás construcções que para aligeirar
o periodo não seguem as leis da concordancia da
syntaxe regular.

As concordancias que são empregadas em virtude d’esta
figura são as seguintes :100

1.° Se o sujeito é composto, isto é, se representa individuos
distinctos o verbo vae ao plural.

2.° Se concorrem sujeitos de differentes pessoas o verbo
vae ao plural concordando com a pessoa mais nobre.

D’estas duas regras já se tratou na syntaxe de concordancia.

3.° Se o sujeito é collectivo e o que se affirma é de cada
individuo e não da totalidade o verbo vae ao plural.

4.° Se concorrem muitos substantivos representando pessoas
de differentes generos, e o adjectivo fôr commum a todos
elles vae ao plural na terminação masculina.

5.° Se os substantivos representam coisas em vez de pessoas
a regra é ainda a mesma ; excepto se não exprimem idéas
distinctas, mas são uma especie de symnonimia para melhor
precisar a idéa que se deseja expressar.

6.° Se no periodo ha termo que facilmente lembre o substantivo
com que os adjectivos concordam podem-se supprir ;
exemplos :

Encaminhemos tambem o gado que balando ao redor a
nós parece que condemnam já nosso descuido.
(Oriente Lusitano.)

Dentro em poucos dias estavam em Roma grande numero
de procelanas de toda a sorte.
(Sousa, V. do Arcebispo.)

E como a gente de todas aquellas hostes tinham pouca noticia
da fortuna.
(Brito, H. Tragica.)

Ditosa condição, ditosa gente
Que não são de ciumes offendidas.
(Camões, Lusiadas.)

D’esta arte a gente força e esforça Nuno
Que com lhe ouvir as ultimas razões
Removem o terror frio importuno ,
Que gelados lhe tinha os corações.
(Camões, Lusiadas.)101

Aqui dos scitas grande quantidade vivem, que antigamente
grande guerra tiveram.
(Paiva, Sermões.)

Contra o nascimento do sol havia gente branca, que navegavam
em náos como aquellas.

Toda essa cleresia tinham tochas accesas nas mãos.
(Rezende, Chr. de João 2.°)

A bestaria não quedavam de atirar aos nobres.
(Fernão Lopes.)

O cedro, o carvalho e o pinheiro são altos.

Mui similhante ao Goanitas que com o vestido e calçado
rotos.
(A. Leite, Hist. da Lapa.)

O manteu e roupeta que trazia além de rotos por mais de
uma parte estavam no ultimo fio de velhos e gastados.
(Sousa, V. do Arcebispo.)

Mas já o planeta que no ceo primeiro
Habita cinco vezes apressada.
(Camões, Lusiadas.)

N’este exemplo o adjectivo apressada concorda com o substantivo
lua que é o nome do planeta a que o poeta se refere.

Xavier entre tantas desconfianças não vacillava na que
tinha em Deus.
(Vieira, Sermões.)

Imitar a virgem e aos santos nas suas virtudes é a melhor.
(Ayres, Metamorphoses.)

Longe está das virtudes quem cuida que a tem.
(Idem.)102

Deverei assim a V. senhoria a liberdade, que não é improprio ,
as possa dar, quem as pode tirar.
(D. Fr. Manuel, Cartas.)

E tu nobre Lisboa que no mundo
Facilmente das outras és princeza.
(Camões, Lusiadas.)

O adjectivo outras concorda com o substantivo cidades.

Energia

As convicções profundas, e o enthusiasmo obrigam muitas
vezes o homem a abandonar as leis da syntaxe regular, para
communicar á palavra a vida arrebatada do seu espirito,
as paixões do seu coração.

Tres são os modos, porque esses sentimentos se revelam na
grammatica.

Primeiro. — Repetindo as idéas fundamentaes, ou emphaticas,
já pelos mesmos ou differentes vocabulos, já ampliando-as
por meio de complementos que em outro logar
seriam reprehensiveis.

Segundo. — Collocando o vocabulo que contém a idéa fundamental
no rosto do periodo ou no principio das orações
fundamentaes ou encerrando-as por elle ; porque estes são os
logares do periodo em que as palavras mais impressionam o
orgão da audição.

Terceiro. — Substituindo o vocabulo proprio por outro de
differente classificação grammatical, mas que o espirito considera
mais energico e expressivo.

As figuras de energia dividem-se em tres classes : Pleonasmo,
Hyperbato, e Enalage.

Pleonasmo

207 Pleonasmo é a repetição de uma idéa dentro
do mesmo periodo pelo mesmo vocabulo ou por outro ou
ampliando-a por complementos que em outro logar seriam
desnecessarios.103

Canção, canção de morte era esta sua
Que em som carpido aos montes repetia.
(Garrett.)

Oh ! moradores do Maranhão, quanto eu vos podera agora
dizer n’este caso. Abri abri estas entranhas ; vêde, vêde este
coração.
(Vieira, Sermões.)

Ainda não, Vasco ; ainda não ! É outra coisa só que tenho
a pedir-te. Nunca mais esta bocca se abrirá para te importunar :
nunca mais… É pela salvação de nossa mãe que t’o
peço. Jura-m’o, jura-m’o.
(Herculano, Cister.)

Um dos maiores males que se podem fazer a um reino é
ou desenganar, ou encortar, ou affrouxar as esperanças dos
homens ; porque é tirar-lhe o principal cabedal de que se
sustenta.

Caindo (o conde d’Abranches) de cançado proferiu contra
os que o feriam : Fartar, fartar villanagem.
(Ineditos d’Academia.)

Repousa lá no ceo eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
(Camões.)

Nas audiencias ahi era eu homem, ahi era a sua total desesperação.
(D. Fr. Manuel, Apologos.)

Ao avarento não lhe peço nada nem lhe aconselho que dê
a outrem, nem lhe louvo o não dão a ninguem, e assim nem
lhe minto nem o molesto.
(Rodrigues Lobo.)

Este crucifixo vio-o eu com os meus olhos, e está hoje em
dia n’aquelle mosteiro.
(Heitor Pinto.)104

Onde ha vergonha e honra não se pode affirmar senão o
que se vê com os olhos, ou se ouve de dignos de fé.

Quanto sobe violentamente o querer para cima, tanto desce
sem querer o poder para baixo.
(Vieira, Sermões.)

Eu, que cair não pude n’este engano
Que é grande dos amantes a cegueira
Encheram-me com grandes abondanças
O peito de desejos e de esperanças.
(Camões, Lusiadas.)

Tambem se empregam palavras repetidas para representar
o grau augmentativo, ou as locuções onomatopicas ; exemplos :

A substancia mais intima d’esta alma, enredada nas vibras
d’este coração, sonhada nas dolorosas vigilias de noites e noites.
(A. Herculano, Monge de Cister.)

O dia escoava-se como o fio de agua que goteja, goteja ,
goteja na funda rocha, e perdia-se na immensidade do que foi
o nada a que chamam passado.
(Idem.)

O monge, cujo corpo, cujo olhar, cuja dextra pareciam os
de uma estatua, crê sentir bater com mais força o coração
de Beatriz.
(Idem.)

Nos ribeiros — peitos n’agua ,
Chape chape, a vadear !
Nas defezas dos vallados
Up ! salto — e a galgar.
(Garrett.)

Sempre que o pleonasmo não serve para dar energia ao
periodo, ou exprimir grau augmentativo, ou tornar a expressão
onomatopica o seu emprego será censuravel ; v. gr.

Mais melhor, mais peor, muito infinito, subir para cima ,
descer para baixo, fato feito, facto acontecido, uma rapariga
moça, circulo redondo, etc.105

Tambem não são menos censuraveis os pleonasmos de phrases ;
v. gr.

Maria sairá pela fresca, mas se não sair, é por que fica
— Os pardaes comeram todo o trigo que quizeram, o que não
quizeram não comeram.

Para distinguir mais o termo que se deseja tornar saliente
empregam alguns autores pequenas particulas expletivas
que servem unicamente para fazer demorar a voz e não
se ligar a palavra que se deseja pôr em relevo com a immediata
o que teria de succeder sem este artificio.

Talvez acertou a dizer o rustico o que tinha dito Salomão ;
mas no rustico não merece, ouvidos em Salomão é oraculo.
(Vieira, Sermões.)

Outras vezes tambem as particulas expletivas collocam-se
no rosto de um conceito para chamar a attenção sobre elle ;
exemplos :

Que grandes são os dias que se passam bem.
(Vieira, Sermões.)

Que, enfim, onde ha mulheres gemem menos os enfermos.
(Sousa, Doming.)

Em verso é permettido introduzir no periodo não só particulas
expletivas, mas vocabulos inteiros de duas e mais syllabas
com o fim de encher o verso.

Estes termos são chamados entre os poetas cunhas ou verbos
de encher
 ; é sempre defeituoso o seu emprego e em
prosa são intoleraveis ; v. gr.

Notando o estrangeito modo e uso.
(Camões, Lusiadas.)

Mas porém, de pequenos animaes.
(Idem.)106

Os livros de sua lei, preceito ou fé.
(Camões.)

Escarlata purpurea, cor ardente ,
Escarlata pano de fina lan carmesim.
(Idem.)

Hyperbato

209 Chama-se hyperbato á collocação de *****
ou de palavras contraria ás leis da syntaxe regular, com
o fim de tornar o periodo mais pintoresco, mais ****
ou mais harmonioso ; exemplos :

No ultimo dia de agosto, sobre a tarde, corre
claro e sereno sè toldára subitamente o ceo.
(Luiz de Sousa.)

Muitas vezes entrando pelos ouvidos duas verdades
pela boca uma mentira.
(Vieira, Sermões.)

Frei Thomaz é toiro velho, arrimado a um canto ,
ninguem se lhe atreve, com os olhos faz guerra, $$$cho
pavor, despeja-se-lhe a praça e se ha quem
não dá carreira que não faça sangue.
(Sousa, Doming.)

Estranhas praias ignoradas gentes
Barbaros cultos vi.
(Garrett.)

O rosto leve-o comprido, o nariz afilado e assaz.
(Brito, Monarchia Lusitana.)

Tristes pobrezas ninguem as deseje ;
Cegas riquezas ninguem as procure ;
N’um meio honesto está a felicidade.
(Ferreira, Poemas.)107

Abalam o peito estas palavras lastimosas e enchem os olhos
de lagrimas.
(Arraes, Dialogos.)

Vãos são todos os homens em que não ha sciencia de Deus.
(Heitor Pinto.)

Muitas vezes se quiz queixar justamente, mas sempre lhe
apagou as palavras na garganta ou no respeito ou a violencia.
(Vieira, Sermões.)

Nas tromentas da malidicencia o mais tranquillo e abrigado
porto é o silencio.
(Bluteau, Sermões.)

A mais dura coisa que tem a vida é chegar a pedir e
depois de chegar a pedir ouvir um não.
(Vieira, Sermões.)

Só é verdadeiro senhor da fazenda, quem sabe dar e repartir ;
escravos são d’ella os que a fecham e enthesouram.
(Luiz de Sousa.)

Ao redor, atraz, e adiante, iam numerosas turbas de bramenes
e sacerdotes, e feiticeiros, voseando, e fazendo varios
esgares e momos e ridiculos torcimentos de todo o corpo.
(Bernardes, Flor. 2. 123.)

Ha coisa mais formosa, ha coisa mais util, ha coisa mais
necessaria no mundo que a luz ? — Pelo contrario ha coisa
mais horrendam ha coisa mais inutil, ha coisa mais cheia de
inconvenientes que as trevas ?
(Vieira, Sermões.)

As armas e o varão canto piedoso.
(Barreto, Eneida.)108

Este verso ficaria mais intelligivel e harmonioso se se
construisse da seguinte maneira :

Eu canto as armas e o varão piedoso.

O seguinte não é menos defeituoso pela má collocação dos
seus termos.

E quando se não veja ainda comido
D’esses cães a quem adora e consomido.
(Camões.)

Enalage

210 Chama-se enalage á substituição de uma palavra
por outra de differente classificação grammatical, ou de
uma linguagem verbal por outra isto com o fim de tornar
o periodo mais energico ; exemplos :

Adjectivos por substantivos

O justo, o bello, o perfeito, o bom, o derradeiro, o ultimo ,
o meu, o teu, o seu
. Effectivamente estes termos tem
mais vigor, que os substantivos que representam ; a justiça ,
a belleza, a perfeição
, etc. ; porque as terminações masculinas
dão mais energia á phrase.

Não quiz acceitar por se vêr no ultimo da vida.

Justiça é dar cada um o seu, o premio e honra ao bem
pena e castigo ao mau.
(Jacintho, Brachylogia.)

A esta difficuldade de distinguir o necessario do superfluo
accresce outra que é de negar o superfluo, e illicito, se nós
não negarmos tambem em parte no licito, e necessario.
(Bernardes, Floresta.)

Participios por substantivos

Agasalhado, povoado, guizado, olhada, quebrada, obrigada ,
chamada, comida
, etc. Estes termos são effectivamente
109mais breves e expressivas que os substantivos que, lhes correspondem
agasalhamento, povoação, olhadura, quebradura ,
abrigadoiro, chamamento, alimentação
, etc.

Infinitos impessoaes por substantivos

O cantar, os cantares ; o tanger, os tangeres ; o comer, os
comeres
 ; estes termos correspondem aos substantivos, a cantiga ,
as cantigas ; a canção, as canções ; a tocata, as tocatas
 ;
a alimentação, as alimentações.

O nascer do sol, o pôr da lua são phrases mais energicas
do que o nascimento do sol, o occaso da lua. Prompto no
dizer
é uma locução mais energica do que está prompto na
dicção
.

Homem muito prompto no dizer e largo na eloquencia.
(Heitor.)

Orações inteiras ou fragmentos por substantivos

Estes não possos que muitas vezes são finos não queros.
(Chagas, Sermões.)

Entre os homens o melhor despacho das petições é : como
pede. No tribunal de Deus muitas vezes é o contrario. Deus
nos livre de um como pede de Deus.

Substantivos proprios por substantivos communs

Eram continuo emulo dos Antonios, dos Hilarios, dos Paulos ,
dos Arsenios e Marios.
(A. Pereira.)

Dai-me um rei brando, affavel, prudente, e dar-vos-hei
andar rodeado de Catões, Fabricios, Scipiões, Pompeos, Ciceros ,
Senecas.
(Vieira, Sermões.)

D. Joanna Duqueza de Borgonha, sua terceira neta, mulher
110de Philippe, o das mãos brancas, duque d’aquelles estados.
(V. de Alvares Pereira.)

Este mundo é um mar e esta vida viagem, e no ceo temos
as nossas Indias chegar alli é salvar-se.
(Bernardes.)

As palavras invariaveis em vez de substantivos

Os porques, os contras, etc. ; em vez de as causas, as contrariedades,
etc.

Nem a Deus nem aos que estão em seu logar se podem perguntar
os porques, obedecel-os sim, muda e cegamente.
(Vieira, Sermões.)

Substantivos communs em vez de adjectivos

Cessou a tempestade ; porque subitamente ficou o vento
calma, e o mar leite.
(Vieira, Sermões.)

Mulher anjo, mulher demonio, homem heroe, em vez de
mulher angelica, mulher demoninhada, homem heroico. Augusto
é um Golias um Hercules, em vez de gigante, athleta.

O homem no fallar nem ha de parecer estatua nem bonifrate.
(R. Lobo.)

Adjectivos e substantivos em vez de adverbios

Mal poderá mandar quem primeiro não souber obedecer.

Era já muito noite.
(D. N. de Leão.)

Fallar de coração, | cordealmente
Fallar de improviso, | improvisamente
Fallar de repente, | repentinamente
Fallar de vagar, | vagarosamente.
111Demasiado conhecido, | demasiadamente conhecido.

Em socego, | socegadamente.
Por necessidade, | necessariamente.
Com aviso, | avisadamente.

Primeira membro a membro, depois feição por feição.
(Vieira, Sermões.)

Fallar breve, resumido, substancial, e resoluto.
(Idem.)

Os adjectivos assim empregados dão mais vigor á phrase,
que esta propriedade tem as terminações masculinas.

Adjectivos numeraes determinativos em vez dos indeterminativos

Já lh’o tenho repetido mil vezes, em logar de muitas vezes.

Adverbios por conjuncções e vice-versa

Agora lhe pergunta pelas gentes
De toda a Hespanha ultima onde mora ;
Agora pelos povos seus visinhos ;
Agora pelos humildes caminhos.
(Camões, Lusiadas.)

Que todos á uma apparecem vestidos, quando de verão ,
quando de inverno.

Até Christo teve sua conveniencia em não haver papel e
tinta na sua accusação ; porque ao menos não pagou as
custas.
(Antonio Vieira.)

Linguagens verbaes por outras

Manda vir cheiros, joias, galas, espelhos ; veste, compõe ,
enriquece, esmalta os cabellos, a garganta, o peito, as mãos.
(Vieira, Sermões.)112

Toma Abrahão ao filho, leva-o ao monte, ata-o, põr-no
sobre a lenha, tira pela espada. Basta, diz Deus, já estou
satisfeito ; não perdoaste a teu filho, e quizeste-o sacrificar
por amor de mim claro está que me amas mais a mim que
a elle.
(Vieira, Sermões.)

Euphonia

211 As figuras de euphonia denominam-se figuras de
dicção ; e tambem se empregam com o mesmo fim algumas
vezes as de brevidade e as de energia.

As figuras de euphonia fundam-se no gosto instinctivo que
o homem tem para a musica e na faculdade de se poder enthosiasmar
e arrebatar por ella.

212 As figuras de dicção devidem-se em tres classes :
figuras de augmento, figuras de diminuição, e
figuras de aliteração.

As figuras de augmento subdividem-se em Prothese,
augmento no principio ; — Epenthese augmento no meio ;
- e paragoge augmento no fim.

Exemplos de Protheses

Acypreste, cypreste ; atambor, tambor ; abaixar, baixar ;
assentar, sentar ; abobada, bobada ; alliança, liança ; espirito ,
sprito
 ; e a uma grande parte dos adverbios simples a que se
junta um a euphonico : apos, aca, aqui, atraz, ahi, acerca ,
ainda, aonde
, etc.

Exemplos de Epentheses

Fonte-z-inha, fontinha ; pedra-z-inha, pedrinha ; mali-g-no ,
malino ; g-u-lutão, glutão
, etc.

Exemplos de Paragoges

Altiveza, altivez ; surdeza, surdez ; pertenace, pertenaz ;
calice, calix ; fugace, fugaz ; simplice, simples, etc.113

Quando o augmento provem da desagglotinação de um
diphthongo formando duas syllabas toma o nome de dierése ;
exemplos : tra-i-ção, sa-u-da-de, em vez de trai-ção, sau-da-de,
etc.

As figuras de diminuição dividem-se em apherese, diminuição
no principio ; — syncope diminuição no meio ;
- apocope diminuição no fim.

Exemplos de aphereses.

Imigo, inimigo ; tysica, phtysica ; tericia, etericia ; mano ,
irmano, irmão ; nina, menina ; chegar, achegar
, etc.

Exemplos de apocope

Cru, cruel ; dó, dor ; galan, galante ; architecto, architetor ;
etc.

Esta figura emprega-se tambem com os adverbios em mente
e com os superlativos em issimo, quando concorrem dois
ou mais seguidos ; conservando estas terminações só nos ultimos
com os nomes compostos, porque se suppre o s nos
primeiros termos ; exemplos :

Assim o intenderam tão politica como militarmente.
(Vieira, Sermões.)

Admiravel e subtilissimamente se explicou o mesmo S. João.
(Idem.)

Que dirão a isto os todo-poderosos do mundo.
(Vieira, Sermões.)

Exemplos de syncopes

Sec’lo, seculo ; dino, digno ; pod’roso, poderoso ; vigaria ,
vigararia ; sirgueiro, serigueiro ; tramella, taramella ; termo ,
termino ; remi, redmi
, etc.114

Tambem se emprega esta figura nas linguagens verbaes terminadas
em z e se a ellas tem de se seguir o pronome lo ,
la
, porque perdem o z ; v. gr. fi-lo, qui-lo, di-lo, etc. Tambem
com as linguagens verbaes terminadas em r se tem de
empregar o mesmo pronome lo ; v. gr. ama-lo, teme-lo ; com
os verbos em zer, nas linguagens dos futuros do indicativo
em rei e ria costuma-se não só supprimir o r mas tambem
toda a syllaba ; exemplos : farei, faria, trarei, traria, etc.,
em vez de fazerei, fazeria, e trazerei, trazeria que não se
usa.

Quando estes mesmos verbos se empregam com o pronome
lo, la, constroem-se da seguinte maneira : tra-lo-hei, tra-lo.hia ;
fa-lo-hei, fa-lo-hia ; di-lo-hei, di-lo-hia ; em vez de trazer-lo-hei ,
trazer-lo-hia ; fazer-lo-hei, fazer-lo-hia ; dizer-lo-hei ,
dizer-lo-hia
.

Quando a palavra perde a ultima voz para se elidir
na voz inicial da palavra immediata, denomina-se synalepha ;
exemplos :

D’Almeida, d’Africa, d’elle, do, da, c’o, co’a, etc.

Costuma-se supprimir em algumas phrases familiares o s
final quando se lhes segue r ; porque a aproximação d’estas
articulações produz grande aspereza ao ouvido portuguez ;
v. gr.

Dé réis, em vez de dez réis ; má raios fulminem a hypocrisia
e a calumnia
, em vez de maus raios fulminem a
hypocrisia e a calumnia
.

Quando se contrae duas syllabas n’uma, ao contrario da
diérese, denomina-se sincrese ; exemplos :

Tão, tanto ; mui, muito ; grão, grande ; são, sancto ; você ,
vossa mercê ; vós’ellencia, vossa excellencia ; Sanct’elmo ,
Sancto Anselmo ; ú, onde
, etc.

Aliteração

213 Aliteração é a troca de vozes e de articulações
115por outras vozes ou articulações, e tambem passando
o accento tonico de uma syllaba, para outra syllaba.

Exemplos de vozes

Soube em vez de sabi, que não se usa ; témes, téme, em
vez de temès, teme, que não se diz ; accademia, em vez de
accadémia ; ambrosía em vez de ambrósia que se não diz.

Exemplos de articulações

Meço, peço, faço, digo, trago, etc. em vez de medo, pedo ,
dizo, trazo
, que não se usa. As armas que se pronuncia do
seguinte modo a-zarmas, etc.

A maioria d’estas figuras de dicção empregam-se principalmente
em verso.

Vicios de euphonia

214 Os vicios de euphonia são hiato, cacophato,
homonismo e disonancia.

215 O hiato é a monotonia que resulta da successão
de vozes da mesma natureza. — Quando essas vozes não
são successivas mas interrompidas denominam-se ecco ;
exemplos :

Minh’alma lá m’a tens, tenho cá a tua.
(Ferreira, Poemas.)

Tanto mais vale o engenho se arte se ata.
(Idem.)

Outros novos Parnasos por cá affamam.
(Idem.)

As lanças de ferro não são tão penetrantes como os
lanços de ouro.
(M. Bernardes.)116

Na fusta de que era capitão um fuão Leitão, caiu da mão
a um soldado uma panella de polvora.
(Diogo do Couto.)

Animando-se uns aos outros com corações de leões bravos.
(Idem.)

216 Cacophato é o vicio que resulta da aproximação
de articulações, que produzem palavras estranhas ao periodo,
ou sons asperos ; exemplos :

Qu’inteiro e todo está em todas as partes.
(Ferreira, Poemas.)

Elle se offerece a se dar em arrefens.
(Duarte Nunes de Leão, Descripção de Portugal.)

Um ingrato pedindo apara com uma mão á fonte e com
a outra a intupe.
(Bernardes, Luz.)

Ruem por terra as emperradas portas,
Das Eolias horrisonas masmorras,
Que um fero encontrão rugindo arromba
A caterna dos Euros.
(Bocage.)

217 Homonismo é o emprego proximo ou immediato
de palavras com a mesma pronunciação. Quando é a
mesma palavra que se repete denomina-se repetição ;
exemplos :

Desmaia repentinamente de um desmaio de que veio a fallecer.

Quem me te tirar tire-me a vida.
(Ferreira Poemas.)117

Entre logares circumvisinhos á cidade de S. João Cristovam
de Alagôa da ilha de Tenariffe.
(Luso Marianno.)

O cavallo do criado do filho do general do exercito de
Portugal.

Esta vida, que hontem foi, e amanhã não poderá ser, e
que já hoje vae passando, que é mais, que uma flor que se
murcha
 ? Que é mais, que uma luz que se apaga ? e que é
mais
, que uma sombra que fóge ?
(Chagas, Sermões.)

218 Disonancia ou monophonia é o vicio que
resulta da accumulação n’um periodo de sons ou de articulações
da mesma natureza ; v. gr.

O termo d’este imperio encheu a terra.
Amargas ancias causa amar ingratas.
Vi poderios mil cair no olvido.
Com que com minha honra escuse o damno.

Mortos e vivos misturados, uns sem pernas, outros sem
braços, outros com as entranhas passadas com tamanhos e
tão vivos gemidos e ancias.
(Diogo do Couto.)

219 Agumas vezes estes vicios de euphonia tornam-se
effeitos de estylo, quando são empregadas com o fim de
tornar o periodo onomatopico.

Todos sabem que ha vocabulos que teem immediata relação
com a idéa que representam, isto é, que possuem um certo
accordo entre a parte material e a psychologica.

Por exemplo, o periodo em que predomina a voz a é
mais apropriado para exprimir paixões animadas, quadros
claros, acções francas e rasgadas.118

O periodo em que predomina a voz i é mais proprio
para exprimir sentimentos retraidos e suspiros intimos. Que
o periodo em que predomina o som ó, exprime com mais
vigor as paixões fórtes, o ódio, a cólera. Finalmente aquelle
em que predomina a voz u, as dores fundas, as scenas lugubres.
Accrescentaremos tambem que nas articulações se dá
esta mesma tendencia. Periodo em que predomina a articulação
r representa melhor scenas retumbantes, ruidosas. Aquelle
em que predomina a articulação m, sentimentos maviosos, de
mimo, de amisade, de meiguice ; exemplos :

As armas e os varões assinalados ,
Que d
a occidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
P
assaram inda além da Trapobana.
(Camões, Lusiadas.)

Alma minha gentil que te partiste.
(Idem.)

Tristes paes, tristes mães, a quem a morte
Os d
ias enlutou, impia roubando
Os caros f
ilhos que choraes ainda.
(Magalhães.)

Ao crebo som do lugubre instrumento
Com tardo pé caminha o delinquente
,
Um Deus consolador, um Deus clemente
he inspira, lhe vigora o soffrimento
.
(Bocage, Sonetos.)

Lacera-se o vulcão que abafa os tumulos ;
Abram-se os tempos de saturnea terra.
(Porto-Alegre, Colombo.)119

Parte terceira
Orthographia

220 A orthographia é a parte da grammatica que
ensina a representar as palavras por meio das letras e dos
signaes de escripta convencionados.

Ha tres systemas de orthographia : orthographia phonetica,
orthographia etymologica e orthographia usual.

Orthographia phonetica consiste em representar as palavras
tal qual se pronunciam, devendo existir para cada voz
e para cada consonancia signaes proprios, de modo que elles
representem verdadeiramente as palavras. Este systema orthographico
teria uma unica regra — pronunciar bem e escrever
conforme a pronunciação.

Orthographia etymologica consiste em representar as
palavras do mesmo modo que se escrevem na lingua d’onde
se tomam. Este systema é tão impraticavel em todo o seu
rigor, como é o systema de orthographia phonetica. Teria uma
só regra — escrever as palavras conforme se representam na
lingua ordinaria.

Orthographia usual consiste em escrever as palavras conforme
o uso dos escriptores contemporaneos mais cultos e
acceitos. O systema que a rasão aconselha é seguir a orthographia
usual. E quando haja divergencia entre os escriptores
deveis preferir a etymologia.

221 Os preceitos, mais geraes, que se podem dar sobre
a orthographia são os seguintes :

1.° As palavras derivadas e subderivadas escrevem-se
com as mesmas letras com que se representam as palavras
d’onde se formam : v. gr. peccadores, este termo escreve-se
com dois cc ; porque o vocabulo primitivo peccado d’onde
se forma tambem os tem. Abbadia escreve-se com dois
bb, porque vem da palavra abbade.

Convem advertir que nem todas as palavras derivadas se
formam directamente da palavra primitiva nacional ; que algumas
120ha que vieram para a lingua portugueza já formadas,
e portanto conservam a orthographia com que foram introduzidas
no nosso idioma ; v. gr. o adjectivo humano escreve-se
com u não obstante o vocabulo homem escrever-se com
o. Amabilissimo e não amavelissimo, porque não se formou
de amavel, mas veio directamente do latim em que se escreve
com b.

2.° Antes de b, m, p, escreva-se m, quando esta letra
representar voz nazalada ; v. gr. ambos sempre immaculados.

3.° Nunca se comece palavra por ç, mas sim por s ; v.
gr. sapato, somno.

Não se deve nunca cedilhar o c antes de e, i, y. Este
erro é tido hoje por muito grosseiro.

4.° As consantes dobram-se nos seguintes casos.

B, d, g, nas palavras abbade, abbreviar, sabbado, adduzir ,
addir, agglutinar, aggredir, suggerir
e nas derivadas d’estas.

C, f, l, m depois das primeiras syllabas que começam por
oc, ef, dif, af, suf, il, im ; exemplos : occasião, effeituar ,
differir, offerecer, suffragio, illudir, immortal
. Exceptuam-se
oceano, ocio, oco, oculo, ocre, imagem, imitar, ira, iris.

As outras palavras que restam, que se escrevem com letra
dobrada devem-se catalogar e copiar uma e muitas vezes. É
este o processo mais facil de as estudar. Quando porém ao
correr da penna não houver certeza se se deve empregar
letra dobrada, não se duplique ; porque esta falta não é tão
grande, como o erro contrario. Finalmente, o grande meio
para fazer rapidos progressos em orthographia é ler sempre
com muita attenção, pronunciando esmeradamente todas as
syllabas. Quem pronuncia bem, orthographa em geral bem.

Dos signaes orthographicos

222 Os signaes orthographicos que existem na lingua
portugueza são os seguintes : virgula (,) — ponto e virgula
121( ;) — dois pontos ( :) — ponto final (.) — parenthese
(()) — ponto admirativo ( !) — ponto interrogativo ( ?) — reticencia
(…) — aspas ( ») — travessão (-) — apostropho
(‘) — dierese (¨) — traço de união (-) — cedilha (,) — til
(~) — accento agudo (´) — accento circumflexo (^) — accento
grave (`).

223 Virgula, este signal emprega se :

1.° Para separar os differentes termos do sujeito, do attributo
ou do complememto quando são compostos, e os
verbos coordenados. Quando porém, o ultimo termo é separado
por alguma d’estas conjuncções e, nem, ou, supprime-se
a virgula n’esse termo.

2.° Para separar as orações ou as phrases com que se
interrompe o periodo.

3.° Tambem para separar as palavras empregadas em
apostrophe ; exemplos :

Annibal, Alexandre, Cesar e Napoleão foram os maiores
generaes que tem havido no mundo.
(Latino Coelho.)

Já no seu tempo se queixava Seneca da vã curiosidade dos
doutos : Aprendemos a disputar, dizia o philosopho, não
aprendemos a viver.
(Bluteau.)

224 O ponto e virgula emprega-se para separar
as orações fundamentaes com as suas integrantes e complementares.

225 Os dois pontos empregam-se :

1.° Para separar citações.

2.° Depois de uma oração a que se segue outra que a
desenvolve.

3.° Antes ou depois de uma oração que é seguida ou
precedida de uma enumeração.

226 O ponto final emprega-se para mostrar que o
periodo terminou, ou que a syllaba ou letra a que se junta
representa uma palavra em breve.122

227 A parenthese emprega-se para isolar as palavras
com que algumas vezes se interrompem os periodos ;
exemplos :

Tres sortes de pessoas são infelizes na lei de Deus ; o que
não sabe e não pergunta, o que sabe e não ensina, o que ensina
e não faz.
(Bernardes.)

No jardim do mundo são as promessas como aquelas flôres
que nas trevas se abrem lisongeiras, e ao nascer do sol
se fecham esquivas : tão proprio é da adversidade ensinar
piedades e da prosperidade inculcar tyrannias.
(Bluteau, Prosas.)

Disse um ancião do ermo : « Assenta comtigo não fazer jámais
mal a proximo algum, senão que has de ter para com
todos corações puros.
(Idem.)

A nuvem tem relampago, tem trovão e tem raio, relampago
para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o
coração : com o trovão assombra, com o raio mata.
(Vieira, Sermões.)

228 O ponto admirativo emprega-se para significar
que a phrase a que se junta a este signal exprime
admiração, dor, ou um sentimento subito e forte. Quando
se pretende exaggerar estes sentimentos, póde-se empregar
dois ou mais pontos admirativos.

229 O ponto interrogativo emprega-se depois
das palavras ou orações cuja fórma é interrogativa.

230 A reticencia ou pontinhos serve para exprimir
uma viva agitação do espirito, ou que no discurso
se supprime uma ou mais palavras ou letras.

231 As aspas ou virgulas dobradas empregam-se
para assignalar as palavras que se citam.123

232 O travessão emprega-se para separar as fallas
dos differentes interlocutores ; e tambem para mostrar que
as palavras por elle indicadas se devem lêr em tom diferente ;
exemplos :

Ha coisa mais formosa, ha coisa mais util, ha coisa mais
necessaria no mundo que a luz ? Pelo contrario, ha coisa
mais horrenda, ha coisa mais inutil, ha coisa mais cheia de
inconvenientes que as trevas ?
(Vieira, Sermões.)

Mas moura emfim nas mãos das brutas gentes ,
que pois eu fui…E n’isto de mimosa
o rosto banha em lagrimas ardentes.
(Camões, Lusiadas.)

233 Apostropho é um signal que se emprega para
indicar a suppressão de uma vogal ; exemplos : d’aquelle ,
d’Almeida, est’outro, indif’rente
.

234 Diérese é um signal que serve para indicar que
duas vogaes não formam diphthongo. Hoje o mais vulgar é
accentuar a vogal que tem o som mais forte ; da seguinte
maneira : alaúde, saída.

235 Traço de união é um signal que serve para
mostrar que duas ou mais palavras se devem considerar
como sendo uma só ou que se hão de pronunciar ligadas ;
exemplos : agua-ardente, dar-te-hei.

236 Serve tambem para indicar que a palavra não coube
toda n’uma linha, e que continua na immediata. Não se
deve nunca partir uma palavra senão por syllaba inteira.
Quando porém a palavra é composta deve-se proferir dividil-a
pelos seus componentes em vez de attender sómente
á sua pronunciação ; exemplos : des-humanidade, in-hospito ,
o não de-shumanidade, i-nhospito
.

237 A cedilha é um signal que collocado debaixo da
letra c antes de a, o, u, lhes dá o valor de s ; exemplo :
esperança, alvoroço, açucena.124

238 O til é um signal que collocado sobre as palavras
indica que se supprimiu uma ou mais letras ; exemplo :
sñr., orações. O seu emprego mais geral, actualmente, é
para reprezentar a nazalidade dos diphthongos ão, ões, ães ;
exemplos : coração, tabelliões, corações.

239 Accento grave é um signal que collocado sobre
as vogaes a, e, o, serve para representar as vozes á ,
é, ó
 ; exemplos : árido, fé, pó, séde, avó, arámos.

240 Accento circumflexo é um signal que collocado
sobre as vogaes a, e, o, serve para representar as
vozes â, ê, ô ; exemplo : orâmos, sêde, avô.

241 Accento agudo ou breve é um signal que
collocado sobre as vogaes a, e, o, serve para representar
as vozes à, è, ò ; exemplos : amàrão, aligèro, altilòco. Este
accento é pouco usado, prefere se accentuar a syllaba longa,
do seguinte modo : alígero, altíloco.

242 O uso tem admittido empregarem-se unicamente os
accentos quando da sua omissão resultar duvida sobre o
modo de prosodiar as palavras ; exemplos : Pará, para, ávo ,
avó, avô, antídoto
.

Exercicios

O estudo da orthographia só se aprende praticando, e praticando
muito. O professor dividirá este estudo em tres ordens
de exercicios : exercicios oraes, exercicios de copia,
exercicios de dictação.

Primeiro exercicio. — O professor dará aos alumnos palavras,
para elles dizerem de cór com que letras se escrevem.
Este exercicio tambem se ha de fazer por escripto.

Segundo exercicio. — O professor apresentará trecho para
os alumnos copiarem em casa ou na escola, recommendando-lhes
que antes de os escreverem os leiam duas ou tres vezes
attentamente, para que se lhes fizem na memoria as letras
com que se escrevem. O professor depois os interrogará
oralmente sobre a orthographia das palavras d’esse thema,
que lhe parecerem mais difficeis, para se certificar se os alumnos
as ficaram sabendo escrever de cór.125

Parte quarta
Prosodia

243 A prosodia trata principalmente da correcta accentuação
das palavras.

244 As syllabas que entram na composição das palavras,
em quanto á sua pronunciação, dividem-se em syllabas
predominantes e predominadas.

245 As predominantes são aquellas em que a voz
mais se demora ; e as predominadas são aquellas que
se pronunciam com rapidez para a voz repousar nas predominantes
ou tonicas.

246 Quando as palavras tem o accento tonico ou predominante
na ultima syllaba denominam-se palavras graves ;
v. gr. oração, immortal.

247 Quando as palavras tem o accento tonico na penultima
denominam-se agudas ; v. gr. alma, virtude.

248 Quando as palavras tem o accento tonico na antepenultima
denominam-se esdruxulas : v. gr. candido ,
vertice
.

A maioria das palavras portuguezas são agudas ; as graves
são em menor numero ; e ainda em menor as esdruxulas.

Regras capitaes

(a) As palavras acabadas nas vozes a, e, o, tem em geral
o accento tonico na penultima syllaba ; v. gr. caridade ,
esmola, estudo
.

(b) As terminadas em vogal nazal ou diphthongo ou em
n, z, ou em al, el, ol, ul, e grande parte das terminadas
em il, tem o accento tonico na ultima syllaba ; v. gr. irman ,
irmão, rapaz, amor, oral, Raphael, anil
.

(c) As terminadas em issimo, e os adjectivos terminados
em aco, ico, ica, uco tem o accento na antepenultima, como
tambem um grande numero de palavras derivadas do grego
e do latim ; exemplo : amabilissimo, etc.126

(d) Estas regras tem grande numero de excepções.

O professor limitará o estudo d’esta parte da grammatica
a mandar lêr com todo o esmero exemplos bem escolhidos,
fazendo mesmo recitar alguns de cór. Lêr bem é fallar bem.
Quem se habituou a pronunciar com correcção os pensamentos
alheios, adquire facilidade de exprimir os proprios com
egual correcção e primor. O professor ha de exigir que o
alumno recite as lições sempre com grande naturalidade e
intonações proprias ; prohibindo o deploravel costume com
que em geral nas escolas se recitam as lições, cantarolando.

Additamentos

Vicios da linguagem

249 Chamam-se vicios da linguagem ás construcções
contrarios ao uso dos doutos, e á indole da lingua,
podendo não serem oppostos ás leis da grammatica geral.

Os vicios de linguagem são : provincianismo, corruptellas,
plebeismo, estrangeirismo, archaismo.

250 Provincianismo é o modo particular de dizer
de uma provincia, contrario ao fallar da côrte ; exemplos :

A’iágua em vez de a agua ; bejo em vez de vejo ; razom
em vez de razão ; ágóra, járdim, jánélla em vez de agora ,
jardim, janella
, etc. — procuri, falli, stimavle, beba-le, diga-le ,
pedir-le, — mê pae, sê tio
em vez de procurei, fallei ,
estimavel, beba-lhe, diga-lhe, pedir-lhe, meu pae, seu tio
, etc.

251 Corruptellas são os modos de dizer das classes
ignorantes contrarios ás regras da grammatica.

Pés para que te quero em vez de pés para que vos quero.

252 Quando a corruptella está por tal modo generalisada,

que não ha meio de prescindir d’ella, denomina-se
idiotismo. Os idiotismos são promettidos no estylo familiar
e corrente.127

Eu è que sou, tu é que és, nós é que somos, vós é que sois ,
elles é que são
, etc., em vez de tu és que és, nós somos
que somos, vós sois que sois, elles são que são ; — eu gosto
muito de si
em vez de eu gosto muito de v. ex.ª, de v.
senhoria, do senhor, de vossemecê, de vós, de ti.

253 Plebeismo são phrases ou termos empregados
pelas classes ignorantes, e que não são admittidos no estylo
culto nem mesmo familiar ; taes como :

Cortar-se em vez de furtar ; coisas e loisas em vez de
e outras coisas ; raspar-se em vez de retirar-se ; reinadio em
vez de folgasão ; e muitos e muitos que o decoro da escripta
impede de nomear.

254 Estrangeirismo é o termo ou phrase introduzido
na lingua contrario ao modo de dizer nacional. O
estrangeirismo toma differentes nomes segunda a lingua
d’onde é tirado. Assim chama-se gallicismo á phrase
ou vocabulo tirado do idioma francez. Grecismo se é
vocabulo ou phrase trazido do grego. Latinismo se é
phrase ou termo tirado da lingua latina. Italianismo
se é do idioma italiano.

Quando o estrangeirismo é necessario por não haver vocabulo
nacional que lhe corresponda toma o nome de neologismo.
Mas para ser incorporado na lingua e se nacionalisar
é mister que se sujeite ás leis analogicas da formação
das palavras ; aliás ter-se-ha de escrever em gripho para indicar
a sua natureza peregrina.

255 Archaismo é o termo ou phrase que caiu em
desuso. O archaismo para ser novamente empregado é necessario
previamente definil-o, e dar-lhe uma fórma moderna
quando a que tiver fôr já absolecta.

256 Solicismo é a expressão contraria ás leis de
concordancia ou de regencia ; exemplos :

Outro estudante do meu tempo passando parte de uma noite
128de inverno em casa de um amigo, choveu tanta agua, e cresceu
com tanta furia o Mondego, etc.
(R. Lobo.)

N’este exemplo falta o verbo do sujeito outro estudante.

Temos respondido e justificado a causa com a declaração
dos textos.
(Vieira, Sermões.)

Deve-se corrigir : Temos respondido á causa e justificado
a com a declaração dos textos
. Este erro é muito vulgar.

Tambem a troca de preposições é solicismo vulgar ; v. gr.
passar com a espada em vez de á espada. — Disse em mim
mesmo
, em vez de comigo mesmo, etc. O seguinte logar é
tambem mui reprehensivel solecismo ; Haja vista ao procurador
da corôa
, em vez de haja vista o procurador da corôa.

Não é menos vulgar erro o emprego do verbo haver no
plural quando está tomado em accepção impessoal, v. gr.
hão homens, houveram homens, etc. em vez de ha homens ,
houve homens
.

257 Barbarismo é a pronunciação estrangeirada e
contraria ao uso nacional.

258 Syllabada é o erro que se commette quando se
não dá o accento tonico na syllaba, em que a pratica dos
doutos o admitte, v. gr.

Coléra, em vez de cólera ; aureóla, em vez de auréola,
etc.

Formação das palavras

259 As palavras formam-se applicando um ou mais sons
para representar a idéa que se deseja expressar.

As primeiras palavras, diz a Sagrada Escriptura, foram
ensinadas por Deus ao primeiro homem. Depois á porporção
que as necessidades do homem cresceram foram-se inventando
129outras. Uma grande parte crearam-se por imitação,
outras procurando assimilhar o som que as coisas, que
ellas tinham de representar, produziam ; a estas chamam-se
onatopicas. Depois combinadas entre si as palavras já
existentes se compozeram outras, que se chamam derivadas,
estas ultimas são as que constituem hoje a grande
maioria dos vocabularios modernos.

A fraqueza da memoria e a extensão dos conhecimentos
humanos, que dia a dia se vão ampliando, teem levado o homem
a empregar para representar as novas noções os mesmos vocabulos
já existentes. D’isto resulta terem as mesmas palavras
diversas accepções, as quaes se dividem em tres cathegorias :
etymologicas, translatas e figuradas, v. gr.
o vocabulo chão etymologicamente significa o mesmo que
plano, superficie horisontal ; em accepção translata exprime
o mesmo que solo, por exemplo : o chão da vinha, em vez
de o solo sa vinha ; em a accepção figurada exprime o
mesmo que sincero, verdadeiro ; v. gr. homem chão, em vez
de homem sincero, verdadeiro ; tambem em accepção figurada
se applica para denotar o canto em que a voz pouco se
eleva. De terem os vocabulos diversas accepções resulta haver
dois e mais termos para representar a mesma idéa. Esses
termos que exprimem proximamente a mesma idéa chamam-se
symnonimos.

Os vocabularios das linguas modernas como já se disse
(num. 16 e 85) dividem-se em palavras primitivas, derivadas,
subdirivadas e compostas. Agora diremos como se formam
as palavras derivadas por meio dos suffixos e dos perfixos.

Palavras derivadas formadas por meio de suffixos

260 Os suffixos dividem-se em suffixos substantivos,
adjectivos, verbaes, adverbiaes.

Suffixos substantivos

261 Os suffixos substantivos subdividem-se em collectivos,
abstractivos, activos, de acção e effeito e de logar.

262 Os principaes suffixos collectivos são : al, edo, ada ,
aria, ena, éssimo
 ; exemplos :130

laranja | laranj’-al
fava | fav’-al
hervilha | hervilh’-al
cereja | cerej’-al
salgueiro | salgueir’-al
rosmaninho | rosmaninh’-al
sobro | sobr’-al
oliva | oliv’-al
rosa | ros’-al
parreira | parreir’-al
ginja | ginj’-al
pinho | pinh’-al
junco | junc’-al
castanha | castanh’-al
figueira | figueir’-al
castanho | castanh’-edo
arvore | arvor’-edo
oliva | oliv’-edo
figueira | figueir’-edo
vinho | vinh’-edo
rosa | ros’-edo
lage | lag’-edo
rocha | roch’-edo
cabra | cabr’-ada
ovelha | ovelh’-ada
arco | arc’-ada
balaustre | balaustr’-ada

banca | banc’-ada
boi | boi-ada
vacca | vacc’-ada
carneiro | carneir’ada
gaiato | gaiat’-ada
osso | oss’-ada
ramo | ram’-ada
caixeiro | caixeir’-ada
livro | livr’-aria
moiro | moir’-aria
cavallo | cavall’-aria
infante | infant’-aria
casa | cas’-aria
frade | frad’-aria
confrade | confr’-aria
sacco | sacc’-aria
dez | dez-ena
vinte | vint’-ena
quinze | quinz’-ena
quarenta | quarent’-ena
cento | cent-ena
dez | d’-éssimo
onze | on-d-éssimo
vinte | vi-g-éssimo
trinta | tri-g-éssimo
cento | cent’-éssimo
mil | mil’-éssimo

263 Os suffixos abstractivos são : ez, eza, dade, ança ,
ancia, encia, ice, ude, ura, ismo
 ; exemplos :

bom | bom-dade
divino | divin’-dade
claro | clar-i-dade
barbaro | barbar-i-dade
cruel | cruel-dade
mal | mal-dade
atroz | atroc-i-dade
honesto | honest-i-dade
honra | honra-dez
solido | solid’-ez

polido | polid’-ez
arido | arid’-ez
rigido | rigid’-ez
languido | languid’-ez
mudo | mud’-ez
surdo | surd’-ez
bravo | brav’-eza
agudo | agud’-eza
aspero | asper’-eza
lindo | lind’-eza131

puro | pur’-eza
firme | firm’-eza
grande | grand’-eza
esperto | espert’-eza
avaro | avar’-eza
rico | riqu-eza
vigilante | vigil’-ancia
elegante | eleg’-ancia
constante | const’-ancia
fragrante | fragr’-ancia
ignorante | ignor’-ancia
arrogante | arrog’-ancia
abundante | abund’-ancia
alliar | alli’-ança
segurar | segur’-ança
esperar | esper’-ança
andar | and’-ança
bonançar | bom’-ança
usar | uz’-ança
prudente | prud’-encia
indulgente | indulg’-encia
contingente | conting’-encia
menino | menin’-ice
bernardo | bernard’-ice
quixote | quixot’-ice
rato | rat’-ice
rabula | rabul’-ice

freire | freir’-ice
pateta | patet’-ice
calvo | calv’-ice
solicito | solicit’-ude
jovem | juven-t-ude
longe | longi-t-ude
lato | lati-t-ude
largo | larg’-ura
bravo | brav’-ura
formoso | formos’-ura
liso | lis’-ura
terno | tern’-ura
brando | brand’-ura
fresco | fresc’-ura
farto | fart’-ura
doce | doç’-ura
orgão | organ’-ismo
idiota | idiot’-ismo
grego | grec-ismo
egoista | ego’-ismo
maquina | maquin’ismo
catholico | catholic’-ismo
christo | christian’-ismo
judaico | juda-ismo
pagão | pagan-ismo
sebastianista | sebastian-ismo
platonico | platon-ismo

264 Os suffixos de acção, effeito, golpe ; são os seguintes :
ção, mento, ido, ida, ada ; exemplos :

coroa | coroa-ção
adorar | adora’-ção
nutrir | nutri’-ção
adoptar | adop’-ção
inspeccionar | inspec’-ção
reduzir | redu-c-ção
lezo | lez’-ão
forma | forma-ção
conspirar | conspira’-ção
arma | arma-ção
arma | arma-mento

receber | receb’-i-mento
cumprir | cumpri’-mento
pagar | paga’-mento
alojar | aloja’-mento
ferir | feri’-mento
cozer | cozi-mento
romper | romp’-i-mento
zunir | zun’-ido
bramir | brami’-ido
rugir | rug’-ido
latir | lat’-ido132

zumbir | zumb’-ido
gemer | gem’-ido
correr | corr’-ida
fugir | fug’-ida
investir | invest’-ida
bater | bat’-ida
pedra | pedr’-ada

pau | pau-l-ada
estoque | estoc’-ada
dente | dent’-ada
chibata | chibat’-ada
faca | fac’-ada
cabeça | cabeç’-ada
punhal | punhal-ada

265 Os suffixos que representam o que exerce alguma
profissão, ou officio, ou que segue alguma ordem de doutrinas,
são os seguintes ario, eiro, eira, ante, ente, inte, or ,
ista, ado, ão, oa, an
 ; exemplos :

lapida | lapid’-ario
usufructo | usufructu-ario
mandato | mandat’-ario
estatua | estatu’-ario
concessão | concession’-ario
botica | botic’-ario
secreto | secret’-ario
bibliotheca | bibliothec’-ario
nota | not’-ario
servente | servent’-u-ario
arrendar | arrendat-ario
relojo | relojo-eiro
sapato | sapat’eiro
cabelleira | cabelleir-eiro
pente | pente-eiro
ferro | ferr’-eiro
bolacha | bolach’-eira
cosinha | cosinh’-eira
lavar | lava-d-eira
barba | barb’-eiro
seara | sear’-eiro
linho | linh’-eira
marmello | marmell’-eiro
pero | per’-eiro
pera | per’-eira
azinho | azinh’-eiro
laranja | laranj’-eira
ginja | ging-eira
rosa | ros’-eira

comedia | comedi’-ante
andar | and’-ante
trinchar | trinch’-ante
negociar | negoci’-ante
amar | am’-ante
farça | farç’-ante
escrever | escrev’-ente
intender | intend’-ente
pretender | pretend’-ente
temer | tem’-ente
reger | reg’-ente
pedir | ped’-inte
ouvir | ouv’-inte
constituir | constitu’-inte
examinar | examina’-d-or
comprar | compra’-d-or
orar | ora’-d-or
atirar | atira’-d-or
solicitar | solicita’-d-or
guardar | guarda’-d-or
bordar | borda’-d-or
ouvir | ouvi’-d-or
inventar | invent’-or
douto | dout’-or
escripto | escript’-or
receptar | recept’-or
pintar | pint’-or
esculptura | esculpt’-or
defender | defens’-s-or133

orgão | organ-ista
flauta | flaut’-ista
flor | flor-ista
piano | pian’-ista
rebeca | rebequ-ista
real | real-ista
luterano | luteran’-ista
calvino | calvin’-ista

letra | letr’-ado
enviar | envi’-ado
jurar | jura’-do
delegar | deleg’-ado
empregar | empreg’-ado
escrever | escriv’-ão
tabella | tabel’-i-ão
sacristia | sacrist’-ão.

266 Os suffixos de logar onde se guarda ou pratica alguma
coisa, são os seguintes : ário, ária, orio, oiro, eiro ,
eira
 ; exemplos :

arma | arm’-ario
sancto | sanctu-ario
epistola | epistol’-ario
herva | herb’-ario
receita | receit’-u-ario
abêcêdê | abeced’-ario
reliquia | relic’-ario
droga | drog’-aria
corda | cord’-o-aria
hospede | hosped’-aria
armar | arma’-ria
livro | livr’-aria
vacca | vacc’-aria
secreto | secret’-aria
relojo | relojo-aria
chapeu | chape’-l-aria
carvão | carv’-o-aria
orar | ora’-t-orio
dormir | dormi’-t-orio
lavar | lava’-t-orio

escripto | escript’-orio
carta | cart’-orio
laborar | labora’-t-orio
lavar | lava’-d-oiro
enxugar | enxuga’-d-oiro
embarcar | embarca’-d-oiro
respirar | respira’-d-oiro
beber | bebe’-d-oiro
baba | baba-d-oiro
tinta | tint’-eiro
assucar | assucar-eiro
sal | sal-eiro
picada | picad’-eiro
faca | faqu-eiro
chá | cha-l-eira
café | café-t-eira
chocolate | chocolat’-eira
amaçar | amaça’-deira
pedra | pedr’-eira
frigido | frigid’-eira

Suffixos adjectivos

267 Os suffixos adjectivos são os seguintes : al, il, ar ,
ado, ido, oso, iço, fero, fico, vel, ivo, ense, ano, ez, esco
,
exemplos :

fluvio | fluvi’-al
morto | mort’-al

vito | vit’-al
campo | camp’-al134

semana | seman’-al
anno | ann’-u-al
divino | divin’-al
natura | natur’-al
infante | infant’-il
mulher | mulher-il
senhor | senhor-il
familia | famili-ar
palma | palm’-ar
solo | sol’-ar
branco | branque-ado
azul | azul-ado
barba | barb’-ado
toga | tog’-ado
doirar | doir’-ado
bronzear | bronze’-ado
querer | quer’-ido
aborrecer | aborrec’-ido
comprometter | compromett’-ido
pedir | ped’-ido
remir | rem’-ido
render | rend’-ido
animo | anim’-oso
rigor | rigor’-oso
cheiro | cheir’-oso
inveja | invej’-oso
ambição | ambic’-i-oso
insidia | insidi’-oso
monstro | monstru’-oso
brio | bri’-oso
harmonia | harmoni’-oso
quebrado | quebrad’-iço
molhado | molhad’-iço
frequentado | frequentad’-iço
enfermo | enferm’-iço
atirado | atirad’-iço
mover | move’-d-iço
pegar | pega’-d-iço
morte | mort’-i-fero
peste | pest’-i-fero
honor | honor-i-fero
magno | magn’-i-fico

prol | prol-i-fico
estimar | estima’-vel
amar | ama’-vel
louvar | louva’-vel
comparar | compara’-vel
amigo | amiga-vel
fundir | fund’-i-vel
fugir | fugi’-vel
pensar | pensa’-t-ivo
facultar | faculta’-t-ivo
augmentar | augmenta’-t-ivo
diminuir | diminu’-t-ivo
despresar | despresa’-t-ivo
foro | for’-ense
Athenas | athen’-i-ense
Evora | ebor’-ense
Lisboa | lisbon-ense
Porto | port’-u-ense
Faial | faial-ense
Paris | paris-i-ense
Africa | afric’-ano
provincia | provinc’-i-ano
Troia | troi’-ano
Castella | castel’-h-ano
parrochia | parrochi’-ano
Roma | rom’-ano
Italia | itali’-ano
Hollanda | holland’-ez
França | franc’-ez
Portugal | portug’-u-ez
Noruega | norueg’-u-ez
China | chin’-ez
cavalheiro | cavalheir’-esco
frade | frad’-esco
burla | burl’-esco
pedante | pedant’esco
parente | parent’-esco
louvar | louva’-t-ivo
sensivel | sensi’-t-ivo
constituir | constitui’-t-ivo
amante | amant’-ivo
fugir | fugi’-t-ivo135

Suffixos verbaes

268 Os suffixos verbaes são os seguintes : ar, er, ir ,
ear, inhar, itar, izar, ficar, ecer
.

claro | a-clar’-ar
escrever | escrev-inh-ar
telegrapho | telegraph-ar
escova | escov-ar
ouro | d-our-ar
cobre | cobr-ear
pente | pent-ear
voz | voz-ear
perna | es-pern-ear
prata | prat-ear
branco | branqu-ear
claro | clar-ear
basto | bast-ear
dormir | dorm-itar
seculo | secul-ar-izar
popular | popular-izar
immortal | immortal-izar
fertil | fertel-izar
martyr | martyr-izar

forte | fort-i-ficar
recto | rect-i-ficar
modo | mod-i-ficar
classe | class-i-ficar
plano | plan-i-ficar
claro | clar-i-ficar
santo | santi-ficar
manhã | a-manh-ecer
claro | es-clar-ecer
escuro | escur-ecer
grande | en-grand-ecer
nobre | en-nobr-ecer
dormir | a-dorm-ecer
flor | flor-ecer
rico | enriqu-ecer
pobre | empobr-ecer
maduro | a-madur-ecer
flor | flor-ir
tosse | toss-ir

Suffixo adverbial

269 O suffixo adverbial que existe na lingua portugueza
é mente ; exemplos :

justo | justa-mente
sabio | sabia-mente
adverbial | adverbial-mente

elegante | elegante-mente
douto | douta-mente
triste | triste-mente

Palavras derivadas formadas por meio de prefixos

270 Os principaes prefixos que existem na lingua portugueza
são os seguintes :

A as. — Denota o uso, o emprego ou imitação da idéa
representada pelo radical. Em todas as mais accepções
136é o prefixo ab ou ad, perdendo por apocope o
b ou d. Esta voz emprega-se tambem como prefixo
euphonico, podendo-se em muitos casos usar d’ella ou
deixar de usar. Exemplos : a-botoar, a-baetar, a-cariciar,
a-brazar, a barracar, a destrar, a brandar, a-feminado,
a-francezado, a-ssegurar, a-macacado, a damado,
as-salariar, a-metade, as-sobiar, a-bobeda, as-sombrar,
a-juntar.

A. — Privativo sem, não. Exemplos : a-nonymo (sem nome),
a phonia (sem voz), a pathia (sem padecimento),
a-philogistico (o que arde sem chama), a-tomo (o que
se não pode dividir), a-trophia (sem nutrição), a-cephalo
(sem cabeça), a-mnestia (não lembrar).

Ab, abs, as, au, a. — Exprime o ponto de partida, a
separação sem envolver idéa de continuação, de movimento.
Da idéa de separação nasce a de despreciação ,
destruição
. Exemplos : ab-dicar, ab-jecção, ad-judicar,
ab-jurar, ab-negar, ab-ominar, ab-orrecer, ab-ortar, ab-renunciar,
ab-stracto, ab-surdo, ab-uso, as-sacar.

Ad, ac, af, ag, an, ap, ar, as, at, a. — Exprime
o movimento tendente, a approximar-se uma coisa de
outra coisa, a ligarem-se. Significa precisamente a idéa
opposta a representada pelo prefixo ab. N’esta mesma
significação applica-se methephoricamente ás coisas
immateriaes. Da idéa de ajuntamento nasce outra accepção
que tem este prefixo a de designar o grau augmentativo.
— Exemplos : as-sistir, as-sumir, a-barcar,
a-bordar, a-braçar, at-tingir, at-trair, as-signalar, as-signar,
as-somar, as-saltar, at-tentar, at-tenuar, as-sentar,
as-sestar, as-siduo, ac-celerar, ac-cender, ac-climar,
ac-comodar, ac-cumular, ac-cusar, al-liviar, al-liar,
ag-glomerar, ag-glutinar, ag-gravar, al-legar, al-liciar,
ad-ágio, ad-dição, ad-dir, ad-duzir, ad-equar,
ad-herir, a-diar, ad-dicção, ad-jectivo, nan-nexar, ad-judicar,
ad-ministrar, ad-moestar, ad-querir, ad-scripto,
af-fectuar, af-filiar, af-fixar, af-fluir, af-frontar.

Ante, ant, anti. — Situação anterior ; v. gr. ante-camara,
ante-braço, ante-deluviano, ante-muro, ante-passados,
137ante-pôr, ante-cipar, ante-ver, ante hontem,
ante-data.

Anti, ant. — Situação fronteira, d’esta significação etymologica
passou a significar contra, opposição, ou o
que tem qualidades ou virtudes contrarias á idéa representada
pelo radical
 ; v. gr. anti-poda, anti-phonia,
anti-these, anti-pathico, anti-papa, ant-agonista, anti-ministerial,
anti-febril, anti-liberal, anti-doto.

Circum, circun, circu. — A’ roda, em torno ; v.
gr. circum-screver, circum-ferencia, circum-ambiente,
circum-gyrar, circum-loquio, circum-navegador, circum-valação,
circum-visinho, circum-stancia, circum-star.

Com, com, co, cor, cum. — Companhia, reunião. A
cooperação para se effectuar a acção representada pelo
radical. Da idéa de companhia resulta a da communidade ,
participação, adherencia
. Da idéa de cooperação
nasce a de intensidade, e a de grau augmentativo, equivalente
aos vocabulos mais, muito, bem, completamente.
Exemplos : com-binar, com-bater, com-meçar, com-medir,
com-mensurar, com-panheiro, con-discipulo, con-temporaneo,
con-terraneo, com-mandar, com-mercio,
com-mentar, com-mutar, com-mi-go (com-mim com),
a-com-panhar, com-paginar, com-mover, com-mum,
com-padre, con-duzir, com-pellir, com-pendiar, com-petir,
com-pôr, com-prir, com-pro-metter, com-provar,
con-certar, co-efficiente, co-evo, co-gitar, co-herente,
co-hibir, co-lector, cor-regir, com-correr, cum-prir,
cum-plir.

Contra. — Em frente, e por analogia a idéa de opposição ,
hostilidade, qualidades ou virtudes contrarias á
idéa do radical
. Este prefixo é synonimo de anti ;
exemplos : contra-muro, contra-mina, contra-pôr, contra-bateria,
contra-prova, contra-revolução, contra-bando,
contra-dicção, contra-facção, contra-fazer, contra-mandar,
contra-marchar, contra-veneno.

De.- Exprime o movimento da saida de um ponto encaminhando-se
para outro em todas as direcções ; denotando
138alguma das seguintes idéas : do lugar da saida,
do espaço precorrido, do logar para onde, o fim ou
tendencia da acção. Este prefixo não é symnonimo de
ab e de ex ; o prefixo ab expressa a idéa de saida envolvendo
só remotamente alguma relação accessoria ;
e o segundo exprime simplesmente a idéa de separação.
Toma ás vezes um s euphonico des, outras muda
o e em i, (di). Ex : de-mandar, de-marcar, de-mover,
de-bandar, de-bandar, de-bellar, de-cair, de-cantar, de-clinar,
de-correr, de-dicar, d--luir, di-lir, de-lisar, de-longar,
de-molir, de-finhar, de-gollar, de-liberar, de-linquir,
de-clamar, de-dignar-se, de-ferir, de-fraudar, de-screver.

Des, de. — Exprime algumas vezes as mesmas relações
do prefixo dis ; mas o seu principal emprego é para
denotar a acção em contrario que se acha representada
pelo radical. Exemplos : des-habitar, des-abrigar,
des-a-botoar, des-a-cautellar, des-acompanhar, des-humano,
de-gelar, de-formar, des-aggravar, des-armar.

Di, dis. — Este prefixo é homonimo do prefixo de movimento
dis, di ; mas a sua accepção e etymologia
é diversa. Significa bis. Exemplos : di-cordio, di-édro,
di-gramma, di-lemma, di-thongo, dis-ticho.

Dis, di, de. — Separação completa. Este distingue-se do
prefixo de, em denotar separação completa. Exprime
a idéa contraria representada pelo prefixo com. Parece
involver a idéa de dualidade, de divisão em partes,
e por analogia, destruição ou negação. Exemplos : dis-criminar,
dis-cutir, di-erese, dis-junctivo, di-ferir, dis-pôr,
di-minuir, di-missão, des-juntar, di-fundir, dis-seccar,
di-mittir, di-forme, dif-ficil, di-fundir, de-lapidar,
di-manar, dis-sipar, di-stilar, dis-trahir.

Ex, es, e. — Fóra, alem de, movimento de tirar. O prefixo
contraposto a este é en. Metaphoricamente applica-se
a expressar a idéa de elevação, superioridade,
que se deduz da idéa de tirar de baixo para cima.
Antes de b, d, g, l, m, n este prefixo perde o x.
Exemplos : ex-pellir, ex-torquir, e-mancipar, ex-asperar,
139e-mendar, ex-pectorar, e-liminar, e-locução, e-gresso,
e-leger, ex-cellente, ex-tensivo, es-clarecer.

In, im, en, em, il, ir. — Situação interior ou de
collocação em algum logar, juntando algumas vezes a
idéa de fixidade ; v. gr. en-terrar, em-beber, em-barcar,
en-cerrar, en-carcerar, em-balsemar, im-pilhar,
im-plantar, em-plumar, im-por, em-massar, en taipar,
en-gulir, embolsar.

Este prefixo é homonimo de outro da mesma fórma
que exprime não, sem ; exemplos : in-util, in-tacto,
im-material, im-mortal, im-palpavel, im-penitente, in-peccavel,
i-gnorar, il-legal, il-liquido, il-liso, ir-racional,
il-limitado, im-menso, i-gnobil, i-nepto, in-nato,
im-berbe.

Ob, oc, of, op. — Situação fronteira, caminhar em frente,
ou para o lado ou para o longe. De significar a
idéa de estar uma coisa perante outra passou por analogia
a exprimir a idéa de opposição, resistencia, hostilidade.
Este prefixo expressa a relação de uma coisa
estar sobre outra, e d’esta accepção etymologica
vem o exprimir ainda hoje a idéa accordo, affecto ,
sujeição
 ; exemplos : oc-currer, ob-jectar, ob-lação,
ob-liquar, ob-literar, ob-rigar, (ob-ligar), ob-firmar,
ob-secrar, ob-servar, of-ferecer, ob-descer, ob-star, ob-vio,
oc-cupar, of-fender.

Para, par. — Ao lado ; v. gr. para-lella, pará-grapho,
pará-bola, para-goge, para-metro, para-nomasia, para-nympha,
pará-phrase, para-sita.

Per, pr, pro. — Antes, situação anterior, referida a
logar ou a tempo e por translação preeminencia, preferencia ,
grau augmentativo
 ; exemplos : pre ambulo,
pre facio, pre-venda, pre-distinado, pre-posição, pre-vio,
pre-segiar, pre-maturo, pro-gramma, pro-blema,
pro-sperar, pro-clamar, pro-consul, pro ficiente, pro-minento,
pro-fussão, pro-lixo, pre-eminente, pre-clarissimo.

e-lucidar, es-torcar, e-norme, e-minente, ex-abundante,
ex acerbar, es-cavar, ex-citar, ex-pulsar, e-merito.
140Per. — Atravez de, de lado ao lado. D’esta accepção se
deduz, as duas significações que tambem possue, a de
destruição e a de intensidade correspondendo aos vocabulos
muito, inteiramente. Exemplos : per-longar, per-furar,
per-seguir, per-ceber, per-cutir, per-fazer, per-judicar,
per-tinaz (muito tenaz), per-necioso, per-enne,
per-inclitico, per-fumar, per-jurar, per-ovar, per-petuar,
per-secutar, per-sistir, per-suadir, per-turbar,
per-verter.

Sub, sob, so, su, us. — Debaixo, dentro ; d’esta accepção
passou a significar inferioridade não só nas
coisas physicas, mas nas moraes e sociaes ; exemplos :
sub-metter, sub-jugar, sub-lunar, sub-ordinar, sub-rogar,
sub-stancia, sub-terrar, sub-delegado, sub-dito,
sub-emphyteuta, sub-entender, sub-verter, sob poder,
so-braçar, so-pear, so pezar, so-terrar.

Super, sobre, sobr. — Sobre, em cima. D’esta accepção
passou a denotar superioridade, supremacia. Este
suffixo exprime a relação opposta a sub ; exemplos :
super-ficie, sobre-mesa, sobr’-ancelha, sobre-loja, sobre-pôr,
sobre-escrever, sobre-olhar, sobre-vivente,
sobre-tudo, super-venção, super-a-dito, super-abundancia.

Trans, tran, tras, tra. — Além. A passagem de um
logar para outro, mutação de forma ou de ser. Equivale
tambem a apoz de. É algumas vezes symnonimo de
ultra, Exemplos : trans-cender, trans-alpino, tras-bordar,
tra-duzir, tran-screver, trans-eunte, trans-ferir,
trans-figurar, trans-lucido, trans-formar, trans-gredir,
trans-ladação, trans-parente, trans-mutar, trans-migrar,
trans-pôr, tras-passar.

Alem d’estes prefixos simples ha prefixos compostos, cuja
significação facilmente se deduz dos seus elementos,
são os seguintes : ext-ra, in-fra, in-ter, in-tro, en-tro, en-tre ,
pre-ter, re-tro, re-do, re-dre, re-ta, su-ter
.

É necessario não confundir as palavras compostas com
as derivadas, tomando o primeiro termo por prefixo, ou o
141ultimo por suffixo. Exemplos : ana-tomia (atravez- divisão,
sciencia, que trata da estrutura dos corpos organicos), anglo-mania,
astro-nomia (astro-lei, sciencia que trata dos
astros), autó-grapho (pelo mesmo-escripto, papel escripto
pela propria mão do auctor), bem-dizer, boni-ficar, bis-syllabo
(duas-syllabas, vocabulo formado de duas syllabas),
decá-logo (dez-discursos, os mandamentos da lei de Deus),
eco-nomia (bem-governar) equi-distante (egual distancia),
chrono-logia (tempo-discurso, sciencia que trata do computo
dos tempos), cosmo-graphia (mundo-descripção, sciencia
que trata da descripção do mundo), eu-phonia, (bem-voz,
parte da grammatica que trata de tornar agradavel a
pronunciação das palavras), geo-graphia (terra-descripção,
sciencia que trata da descripção da terra), hydro-fobia
(agua-aversão), hygro-metro (humidade-medida, instrumento
para medir a humidade da atmosphera), hom-onimo
(similhante-nome, palavra similhante ou egual em quanto
á sua pronunciação) metró-poli (mãe-cidade, cidade principal),
mal-dizente, mono-pólio (um só vender), mon-archia
(um só governo de um homem só), orthographia
(recta-escripta), ortho-logia (recta-leitura, arte de
ler bem), prot-agonista (primeiro combatente, o principal
personagem de um drama), pseudo-catholico (falso-catholico),
pseud-ónimo (falso nome), semi-circulo (meio-circulo),
sesqui-pedal (um e meio pé), theo-logia (Deus-sciencia),
thermó-metro (quente-medida, instrumento para medir o
grau de calor), tetra-syllaba (quatro-syllabas), uni-pessoal
(uma pessoa), zoo-logia (animaes sciencia).

O professor para exercitar os alumnos no conhecimento
das differentes accepções que tem os prefixos e suffixos
que entram na composição das palavras, e ao mesmo tempo
para os exercitar no estudo dos symnonimos, deverá
apresentar radicaes modificados com differentes prefixos e
suffixos ; taes como : de-forme, in-forme (negativo), informe
(do verbo informar), com-forme, dis-forme, multi-forme,
uni-forme, re-forma, trans-formar, meta-morphose, a-morpho,
etc. — Am-ante, am-a-vel, am-ant-é-t-ico, am-i-go, am-i-g-avel,
am-or-oso, am-or-os-i-ss-ima-mente, etc. — Flor-ir,
a-flor-ar, flor-i-fero, flor-ista, flór-a, flor-inha, flor-z-inha,
flo-rão, flor-esc-encia, flor-ejar, flor-ita, flor-i-fero, flor-ear,
flor-ec-i-mento, flor-ente, flor-ent-i-ss-imo, flór-eo, flor-esta,
flor-est-al, flor-ida-mente, etc. — Dormir, a-dorm-ecer, dorm-ente
142dorm-ida, a-dorm-ec-i-mento, a-dorm-entar, dormid-oiro,
a-dormir, dorm-i-dor, dorm-i-l-ão, dorm-i-nhoco,
dorm-i-t-ivo, dorm-i t-orio, dorm-itar.

Affixos euphonicos

Os affixos euphonicos tem por fim evitar as cacophonias
que resultam da aproximação desagradavel de certos sons.
É tão repugnante ao homem a concorrencia dos sons desharmoniosos
que elle na maior parte dos casos antepõe ás
leis da grammatica as da euphonia.

Esta é a origem das irregularidades que se notam na formação
do plural dos nomes, na dos generos, na dos graus,
na conjugação dos verbos, e nas construcções syntaticas.

Tão reprehensivel é antepôr ás leis da grammatica a
euphonia, como não ter em nenhuma conta a harmonia
e o arredondamento do periodo. Na conciliaçaõ das regras
da grammatica com as da harmonia do periodo está a arte
de escrever correcta e elegantemente. Quem não souber
grammatica não poderá nunca escrever correctamente, quem
não tiver bom ouvido não poderá nunca escrever com elegancia.

Ha duas qualidades de euphonia, a euphonia do verso,
e a euphonia da prosa. A primeira é mais exigente e tem
portanto mais liberdades que a segunda. Nas figuras de
dicção se tratou de uma e outra.

Agora acrescenta-se sómente a seguinte observação :

Os prefixos que terminam em consoante mudam em
geral para a consoante inicial do radical a que se junta
e outras vezes supprimem-na ; exemplos : ad-clamar, ac-clamar ;
ad-firmar, af-firmar ; ad-gregar, ag-gregar ; ad-liviar,
al-liviar ; ad-nexar, an-nexar ; ad-propriar, ap-propriar ;
ad-remetter, ar-remetter ; ad-setear, as-setear ; at-tenuar,
at-tenuar ; ex-lidir, e-lidir ; ex-mittir, e-mittir ; ex-vasão,
e-vasão ; etc.

As principaes letras que se mettem de premeio entre o
radical e os suffixos para tornar mais harmonioso o vocabulo
são as seguintes : i, e, d, t, n, l. O principal prefixo
euphonico é a.143

Analyse

270 A analyse divide-se em tres partes : 1.° analyse de
sentido ; 2.° analyse lexicolica ; 3.° analyse syntasica. Estas
tres classes de analyse subdividem-se em dois graus :

1.° grau

1.° Analyse de sentido : o alumno deve explicar
o sentido do periodo, devendo-se para isso escolher periodos
curtos e muito faceis.

2.° Analyse lexicologica ou etymologica :
o alumno ha de classificar as palavras ; dizendo se são substantivos,
adjectivos, verbos, ou palavras invariaveis. Sendo
substantivos ou adjectivos, o numero e o genero. Sendo
verbos o modo, o tempo, o numero e a pessoa, e a que
conjugação pertencem. Depois dirá as palavras que são primitivas,
as que são derivadas, e as que são compostas.

3.° Analyse syntactica : o alumno ha de dividir
o periodo em orações ; dizendo quaes as fundamentaes ou
absolutas, quaes as integrantes, quaes as complementares.
Depois os elementos de cada uma das orações, isto é, sujeito,
verbo, attributo, o complemento objectivo, o terminativo
e os circumstanciaes.

2.° grau

1.° Analyse de sentido : os alumnos devem explicar
o sentido do periodo, e a accepção mais commum
dos vocabulos que entram n’elle.

2.° Analyse lexicologica : os alumnos hão de
classificar as palavras, dando a razão, porque assim o fazem.
Se são palavras primitivas ou derivadas. Nas derivadas
distinguir os elementos radicaes, quaes os suffixos, quaes
os prefixos.

3.° A analyse de syntactica : o alumno ha de
dividir o periodo em orações e estas nos seus elementos,
referindo as leis de concordancia e regencia e collocação,
que ligam estes membros entre si.144