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Andrade, Jerónimo Emiliano de. Primeiros elementos da grammatica portugueza – T01

| Table des matières | Fiche | Texte |

Primeiros elementos
da
grammatica portugueza

Prolegómenos (1)

Que he Grammatica Portugueza?

Grammatica Portugueza he a arte de fallar, e escrever
sem erros a lingua Portugueza (2).

De que partes consta?3

Consta de Etymologia, Syntaxe, Prosodia, e Orthographia.

De que serve a Etymologia?

A Etumologia ensina a natureza, e propriedade
das palavras.

A Syntaxe?

A Syntaxe a compor a oração.

A Prosodia?

A Prosodia, ou a Orthoepía, a bem pronunciar os
sons articulados.

A Orthographia?

A Orthographia a escrever com acerto.

Parte primeira
Da etymologia (3)

§ 1°
Das palavras em geral, e do artigo e nome
em particular

Que são Palavras?

Palavras são certos sons articulados, com que exprimimos
os sentimentos da nossa alma.4

A que se reduzem?

Reduzem-se a Artigos, Nomes, Verbos e Particulas (4).

Que he Artigo?

Artigo he uma voz que por si só nada significa;
mas posto antes de algum nome, restringe e determina
a sua significação: vg. Pedro recebeu os livros (5).5

Quaes são os principaes?

Os Artigos principaes são O, Os, masculinos, e
A, As, femininos (6).

Que he Nome?

Nome he uma voz, com se dão a conhecer as
coisas: vg. Homem, Justo.

Como pode ser?

Pode ser Susbstantivo, ou Adjectivo.

Que he Substantivo?

Substantivo he aquelle, que significa uma coisa
sem dependência d’outra: vg. Céu, Terra.

Adjectivo?

Adjectivo aquelle, que significa uma coisa com
dependencia d’outra: vg. Bom, Excellente (7).6

§ 2°
Das divisões do Substantivos, e suas propriedades.

Como he o Substantivo?

O Nome Substantivo ou he Proprio, ou Appellativo (8).7

Que he Nome Proprio?

Proprio he aquelle, que compete á uma só pessoa,
ou coisa: vg. Romulo, Téjo.

Appellativo?

Appellativo, ou commum, o que compete a muitas:
vg. Homem, Arvore (9).

Quaes são as propriedades dos Substantivos?

As propriedades dos Substantivos Portuguezes
8são o Genero, e o Numero (10).

Que he Genero?

Genero he a classificação dos nomes em Masculinos,
e Femininos (11).

Que nomes são Masculinos?

São masculinos os nomes, que significam macho,
e que antes de si admittem os Artigos O, ou Os,
9vg. O Homem, Os Homens (12).

Femininos?

Femininos os que significam femea, e que antes
de si admittem os Artigos A, ou As: vg. A mulher:
As mulheres
(13).

Que he Numero?

Numero he a differente terminação dos nomes,
com que se indicam uma ou muitas coisas.

Como pode ser?10

O Numero ou he Singular, quando indica uma
só coisa: vg. Arvore, ou Plural, quando indica muitas:
vg. Arvores (14).

§ 3°
Das divisões do Adjectivo, e suas propriedades.

Como pode ser o Adjectivo?

O Adjectivo pode ser Positivo, Comparativo, Superlativo,
Pronome, e Participio.

Que he Positivo?

Positivo he aquelle, que exprime a coisa simplesmente
sem fazer comparação, nem dar preferencia:
vg. Bom, Sabio.

Comparativo?

Comparativo aquelle, que exprime a coisa fazendo
comparação, e dando preferencia: vg. Melhor,
Peior
(15).11

Superlativo?

Superlativo aquelle, que exprime a coisa no
maior gráu da sua significação: vg. Optimo, Sapientissimo (16).

Pronome?

Pronome he huma voz, que se põe em lugar de nome:
vg. Eu, Este, Aquelle.12

Como pode ser?

O pronome pode ser Pessoal, Possessivo, ou Relativo.

Que he Pronome Pessoal?

Pessoal he aquelle, que designa a pessoa, que representa
no discurso: vg. Eu, Tu, Elle (17).

Possessivo?13

Possessivo o que mostra a possessão de alguma
coisa: vg. Meu, Teu, Seu.

Relativo?

Relativo, ou Conjunctivo, o que traz á memoria o
14nome antecedente: vg. Que, Cujo, Qual, Quem (18)

Participio?

Participio he uma voz verbal, que exprime a coisa,
declarando juntamente o tempo, em que ella se
exercita: vg. Louvando, Louvado.

Quaes são as propriedades dos Adjectivos?

Os Adjectivos Portuguezes ou são de uma só forma:
vg. Agradavel; ou de duas: vg. Justo, Justa,
15ou de tres: vg. Todo, Toda, Tudo (19).

§ 4°
Da formação do plural dos Nomes

Como formam o plural os Nomes acabados em
vogal?

Os Nomes acabados em vogal formam o plural
acrescentando-se-lhes um s: vg. Casa, Casas; Fonte,
Fontes; Lei, Leis; Livro, Livros; Tribu, Tribus
.

Os acabados em ã?

Os acabados em ã seguem a mesma regra posto
que alguns grammaticos mudam o ã em ans: vg.
Maçã, Maçans; Lã, Lans.

Em ão?16

Os acabados em ão mudam o ão em ões: vg. Lição,
Lições
(20).

Em al, ol, ul?

Os acabados em al, ol, ul, mudam o l em es,
vg, Sal, Saes; Caracol, Caracoes; Azul, Azues (21).

Em el?

Os acabados em el mudam o el em eis: vg. Bacharel,
Bachareis
. (22)

Em il?

Os acabados em il mudam o l em s: vg. Buril,
Buris
(23).

Em m?

Os acabados em m mudam o m em ns: vg. Homem
17Homens; Fim, Fins.

Em r, s, ou z?

Os acabados em r, s, ou z, acrescentando-se-lhes
um es; ou z: vg. Pezar, Pezares; Paz, Pazes (24).

§ 5°
Do Verbo, suas divisões e propriedades.

Que he Verbo?

Verbo he uma voz com que se mostra a existencia
de algum Predicado no Sujeito da Oração: vg.
Sou vivente; Sou mortal (25).

Como podem ser?

Os Verbos Portuguezes podem ser Auxiliares,
Adjectivos, Regulares, e Irregulares (26).18

Que são Verbos Auxiliares?

Auxiliares são aquelles que juntos com os Participios
dos Verbos Adjectivos, formam varios tempos, e
vozes tanto activas como passivas: vg. Tenho louvado;
Fui louvado
.

Quaes são os principaes?

Os principaes Auxiliares são Ser, Ter, Haver, Estar (27).

Que são Verbos Adjectivos?

Verbos Adjectivos são os que encerram em si mesmo
o Predicado que annunciam no Sujeito: v.g.
Vivo, que val o mesmo que dizer: Sou vivente (28).

Como podem ser?19

Podem ser Transitivos ou Intransitivos (29).

Que he Verbo Transitivo?

Transitivo he aquelle, cuja significação se emprega
20fóra do Sujeito: v. g. Pedro ama a virtude (30).

Intransitivo?

Intransitivo aquelle, cuja significação se não emprega
fóra do Sujeito: v. g. Antonio dorme (31).

Regular?

Regular he aquelle que segue as regras geraes das
Conjugações.

Irregular?

Irregular o que não as segue (32).

Quaes são as Conjugações regulares?

As Conjugações regulares são tres: a primeira termina21

o Infinito em ar: v. g. Louvar: a segunda em er:
v. g. Entender: a terceira em ir: v. g. Partir.

Quaes são as propriedades dos Verbos?

As propriedades dos Verbos são os Modos, Tempos,
Numeros, e Pessoas, por onde se conjugam, como
se mostra nas seguintes Taboas (33).

Taboa I.
Conjugação dos verbos auxiliares

Modo indicativo

Tempo presente (34)

tableau S. | eu | sou | tenho | hei | estou | tu | es | tens | has | estás | elle | he | tem | ha | está22

tableau P. | nós | somos | temos | havemos | estamos | vós | sois | tendes | haveis | estais | elles | são | têem | hão | estão23

Preterito Imperfeito

tableau S. | eu | era | tinha | havia | estava | tu | eras | tinhas | havias | estavas | elle

tableau P. | nós | eramos | tinhamos | haviamos | estavamos | vós | ereis | tinheis | havieis | estaveis | elles | eram | tinham | haviam | estavam

Preterito Perfeito

tableau S. | eu | fui | tive | houve | estive | tu | foste | tiveste | houveste | estiveste | elle | foi | teve | esteve24

tableau P. | nós | fomos | tivemos | houvemos | estivemos | vós | fostes | tivestes | houvestes | estivestes | elles | foram | tiveram | houveram | estiveram

Preterito mais que perfeito

tableau S. | eu | fôra | tivera | houvera | estivera | tu | fôras | tiveras | houveras | estiveras | elle

tableau P. | nós | fôramos | tiveramos | houveramos | estiveramos | vós | fôreis | tivereis | houvereis | estivereis | elles | fôram | tiveram | houveram | estiveram

Futuro

tableau S. | eu | serei | terei | haverei | estarei | tu | serás | terás | haverás | estarás | elle | será | terá | haverá | estará

tableau P. | nós | seremos | teremos | haveremos | estaremos | vós | sereis | tereis | havereis | estareis | elles | serão | terão | haverão | estarão

Tempo Condicional

tableau S. | eu | seria | teria | haveria | estaria | tu | serias | terias | haverias | estarias | elle

tableau P. | nós | seriamos | teriamos | haveriamos | estariamos | vós | serieis | terieis | haverieis | estarieis | elles | seriam | teriam | haveriam | estariam25

Modo imperativo

Futuro

tableau S. | sê | tu | tem | … | está | P. | sêde | vós | tende | havei | estai

Modo conjunctivo

Tempo presente

tableau S. | eu | seja | tenha | haja | esteja | tu | sejas | tenhas | hajas | estejas | elle

tableau P. | nós | sejamos | tenhamos | hajamos | estejamos | vós | sejaes | tenhais | hajais | estejais | elles | sejam | tenham | hajam | estejam

Preterito

tableau S. | eu | fosse | tivesse | houvesse | estivesse | tu | fosses | tivesses | houvesses | estivesses | elle

tableau P. | nós | fossemos | tivessemos | houvessemos | estivessemos | vós | fosseis | tivesseis | houvesseis | estivesseis | elles | fossem | tivessem | houvessem | estivessem

Futuro

tableau S. | eu | for | tiver | houver | estiver | tu | fores | tiveres | houveres | estiveres | elle26

tableau P. | nós | formos | tivermos | houvermos | estivermos | vós | fordes | tiverdes | houverdes | estiverdes | elles | forem | tiverem | houverem | estiverem

Modo infinito

Impessoal

tableau ser | ter | haver | estar

Pessoal (35)

tableau S. | ser eu | ter eu | haver eu | estar eu | seres tu | teres tu | haveres tu | estares tu | ser elle | ter elle | haver elle | estar elle

tableau P. | sermos nós | termos nós | havermos nós | estarmos nós | serdes vós | terdes vós | haverdes vós | estardes vós | serem elles | terem elles | haverem elles | estarem elles

Participio do presente

tableau sendo | tendo | havendo | estando

Participio do preterito (36)

tableau sido | tido, | a | havido, | estado27

Taboa II
Conjugação dos verbos regulares

Modo indicativo

Tempo presente (37) (38)

tableau 1ª conjugação | 2ª conjugação | 3ª conjugação | S. | eu | louv-o | entend-o | part-o | tu | louv-as | entend-es | part-es | elle | louv-a | entend-e | part-e28

tableau P. | nós | louv-amos | entend-emos | part-imos | vós | louv-ais | entend-eis | part-is | elles | louv-am | entend-em | part-em

Preterito imperfeito (39)

tableau S. | eu | louv-ava | entend-ia | part-ia | tu | louv-avas | entend-ias | elle

tableau P. | nós | louv-avamos | entend-iamos | part-iamos | vós | louv-aveis | entend-ieis | part-ieis | elles | louv-avam | entend-iam | part-iam

Preterito Perfeito (40)

tableau S. | eu | louv-ei | entend-i | part-i | tu | louv-aste | entend-este | part-iste | elle | louv-ou | entend-eu | part-iu29

tableau P. | nós | louv-ámos | entend-emos | part-imos | vós | louv-astes | entend-estes | part-istes | elles | louv-aram | entend-eram | part-iram

Preterito mais que perfeito (41).

tableau S. | eu | louv-ára | entend-era | part-ira | tu | louv-áras | entend-eras | elle

tableau P. | nós | louv-áramos | entend-eramos | part-iramos | vós | louv-áreis | entend-ereis | part-ireis | elles | louv-áram | entend-eram | part-iram30

Futuro (42)

tableau S. | eu | louv-arei | entend-erei | part-irei | tu | louv-arás | entend-erás | part-irás | elle | louv-ará | entend-erá | part-irá

tableau P. | nós | louv-aremos | entend-emos | part-iremos | vós | louv-areis | entend-ereis | part-ireis | elles | louv-arão | entend-erão | part-irão

Tempo Condicional (43).

tableau S. | eu | louv-aria | entend-eria | part-iria | tu | louv-arias | entend-erias | part-irias | elle

tableau P. | nós | louv-ariamos | entend-eriamos | part-iriamos | vós | louv-arieis | entend-erieis | part-irieis | elles | louv-ariam | entend-eriam | part-iriam31

Modo imperativo

Futuro (44).

tableau S. | louv-a tu | entend-e | part-e

tableau P. | louv-ai vós | entend-ei | part-i

Modo conjunctivo

Tempo presente (45).

tableau S. | eu | louv-e | entend-a | part-a | tu | louv-es | entend-as | part-as | elle

tableau P. | nós | louv-emos | entend-âmos | part-âmos | vós | louv-eis | entend-ais | part-ais | elles | louv-em | entend-am | part-am

Preterito (46).

tableau S. | eu | louv-asse | entend-êsse | part-isse | tu | louv-asses | entend-esses | part-isses | elle | entend-esse32

tableau P. | nós | louv-assemos | entend-essemos | part-issemos | vós | louv-asseis | entend-esseis | part-isseis | elles | louv-assem | entend-essem | part-issem

Futuro (47)

tableau S. | eu | louv-ar | entend-er | part-ir | tu | louv-ares | entend-eres | part-ires | elle

tableau P. | nós | louv-armos | entend-ermos | part-irmos | vós | louv-ardes | entend-erdes | part-irdes | elles | louv-arem | entend-erem | part-irem

Modo infinito (48)

Impessoal

tableau louv-ar | entend-er | part-ir33

Pessoal

tableau S. | louv-ar eu | entend-er eu | part-ir eu | louv-ares tu | entend-eres tu | part-ires tu | louv-ar elle | entend-er elle | part-ir elle

tableau P. | louv-armos nós | entend-ermos nós | part-irmos nós | louv-ardes vós | entend-erdes vós | part-irdes vós | louv-arem elles | entend-erem elles | part-irem elles

Participio do Presente (49)

tableau louv-ando | entend-endo | part-indo34

Participio do preterito (50)

tableau louv-ado, a | entend-ido, a | part-ido, a35

Taboa III
Das desinencias da conjugação dos verbos regulares (51)

Primeira conjugação | Segunda conjugação | Terceira conjugação

Dos verbos acabados em AR Dos verbos acabados em ER Dos verbos acabados em IR

Tempo presente

tableau s. o as a | p. amos ais am s. o es e | p. emos eis em s. o es e | p. imos is em

Preterito imperfeito

tableau s. ava avas ava | p. avamos aveis avam s. ia ias ia | p. iamos ieis iam s. ia ias ia | p. iamos ieis iam36

Preterito perfeito

tableau s. ei aste ou | p. ámos astes aram s. i este eu | p. emos estes eram s. i iste iu | p. imos istes iram

Preterito mais que perfeito

tableau s. ára áras ára | p. áramos áreis áram s. era eras era | p. eramos ereis eram s. ira iras ira | p. iramos ireis iram

Futuro

tableau s. arei arás ará | p. aremos areis arão s. erei erás erá | p. eremos ereis erão s. irei irás irá | p. iremos ireis irão

Tempo Condicional

tableau s. aria arias aria | p. ariamos arieis ariam s. eria erias eria | p. eriamos erieis eriam s. iria irias iria | p. iriamos irieis iriam37

Modo Imperativo

tableau s. a | p. ai s. e | p. ei s. e | p. i

Modo conjunctivo

Tempo presente

tableau s. e es e | p. emos eis em s. a as a | p. amos ais am s. a as a | p. amos ais am

Preterito

tableau s. asse asses ase | p. assemos asseis assem s. esse esses esse | p. essemos esseis essem s. isse isses isse | p. issemos isseis issem

Futuro

tableau s. ar ares ar | p. armos ardes arem s. er eres er | p. ermos erdes erem s. ir ires ir | p. irmos irdes irem38

Modo infinito

Impessoal

tableau ar | er | ir

Pessoal

tableau s. ar eu ares tu ar elle | p. armos nós ardes vós arem elles s. er eu eres tu er elle | p. ermos nós erdes vós erem elles s. ir eu ires tu ir elle | p. irmos nós irdes vós irem elles

Participio presente

tableau ando | endo | indo

Participio preterito

tableau ado, a | ido, a39

Exemplos dos Participios Regulares e Irregulares

Absolver, Absolvido, Absolto: Acceitar, Acceitado,
Acceito: Affligir, Affligido, Afflicto: Cobrir, etc. Cobrido,
Coberto: Enxugar, Enxugado, Enxuto: Morrer,
Morrido, Morto
. Os da segunda fórma são mais
uns Adjectivos verbaes, que Participios.

Taboa IV.
Conjugação dos verbos irregulares nos tempos em
que se afastam da regra geral

Verbos Irregulares da primeira Conjugação.

Dar — M Ind T pres. Dou, das, dá, damos, dais,
dão. Pret perf Dei, déste, deu, démos, déstes,
deram. Pret mais que perf. Dera, deras, dera, deramos,
dereis, deram. M Conj pret. Désse, désses,
désse, déssemos, désseis, déssem. Fut. Der, deres,
der, dermos, derdes, derem.

Ficar — M Ind Pret perf. Fiquei, ficaste, etc.
M Conj T Pres. Fique, fiques, fique, fiquemos, fiqueis,
fiquem. Deste modo se conjugam todos os Verbos,
que terminam o Infinito em car, mudando o c em
qu quando depois de c se segue e.

Julgar — M Ind pret perf. Julguei, julgaste, etc.
M Conj T pres. Julgue, julgues, julgue, julguemos,
40julgueis, julguem. E assim os Verbos acabados em
gar acrescentando-se um u depois do g, quando se
lhes segue e.

Mediar e Premiar tomam um e antes do i no Pres
do Ind e Conj: v. g. Medeio, Premeio, etc. Nomear
toma um i no Pres do Ind e Conj: v. g. Nomeio, etc.

Verbos Irregulares da segunda Conjugação.

Caber — M Ind T Pres. Caibo, cabes, etc. Pret
Perf
. Coube, coubeste, coube, coubemos, coubestes,
couberam. Pret mais que Perf. Coubera, couberas,
etc. M Conj T pres. Caiba, caibas, caiba, caibamos,
caibais, caibam. Pret. Coubesse, coubesses, coubesse,
coubessemos, coubesseis, coubessem. Fut. Couber,
couberes, couber, coubermos, couberdes, couberem.

Dizer — M Ind T pres. Digo, dizes, diz, dizemos,
dizeis, dizem. Pret Perf. Disse, dissestes, disse, dissemos,
dissestes, disseram. Pret mais que perf. Dissera,
disseras, dissera, disseramos, dissereis, disseram.
Fut. Direi, dirás, dirá, diremos, direis, dirão. T Condic.
Diria, dirias, diria, diriamos, dirieis, diriam. M
Conj T Pret
. Diga, digas, diga, digamos, digaes, digam.
Pret. Dissesse, dissesses, dissesse, dissessemos,
dissesseis, dissessem. Fut. Disser, disseres, disser, dissermos,
disserdes, disserem. Part do pret. Dito, a.

Eleger — M Ind T Pres Elejo, eleges. M Conj
T pres
. Eleja, elejas, eleja, elejamos, elejaes, elejam.
41Part do pret. Elegido, a: Eleito, a.

Por esta forma se conjugam os Verbos terminados
em ger mudando o g em j nas vozes em que se
segue a ou o.

Fazer — M Ind T pres. Faço, fazes, etc. Pret
Perf
. Fiz, fizeste, fez, fizemos, fizestes, fizeram. Pret
mais que Perf
. Fizera, fizeras, fizera, fizeramos, fizereis,
fizeram. Fut. Farei, farás fará, faremos, fareis,
farão. T Condic. Faria, farias, faria, fariamos,
farieis, fariam. M Conj T pres. Faça, faças, faça,
façamos, façaes, façam. Pret. Fizesse, fizesses, fizesse,
fizessemos, fizesseis, fizessem. Fut. Fizer, fizeres,
fizer, fizermos, fizerdes, fizerem. Part do Pret. Feito,
a.

Lêr — M Ind T Pres. Leio, lês, etc. M Conj T
Pres
Leia, leias, leia, leiamos, leiaes, leiam. Do mesmo
modo se conjuga o verbo Crer.

Perder — M Ind T Pres. Perco, perdes, etc. M
Conj T Pres
. Perca, percas, perca, percamos, percaes,
percam.

Poder — M Ind T Pres. Posso, podes, etc. Pret
Perf
. Pude, pudeste, pôde, podemos, pudestes, poderam.
M Conj T Pres. Possa, possas, possa, possamos,
possais, possam. Pret. Pudesse, pudesses, podesse,
podessemos, podesseis, podessem Fut. Puder, puderes,
puder, pudermos, puderes, puderem Part do
Pret
Podido.42

Requerer — M Ind T Pres. Requeiro, requeres,
requer, requeremos, etc.

Saber — M Ind T Pres. Sei, sabes, sabe, sabemos,
sabeis, sabem Pret Perf Soube, soubeste, soube, soubemos,
soubestes, souberam Pret mais que Perf. Soubera,
souberas, etc. M Conj T Pres. Saiba, saibas,
saiba, saibamos, saibais, saibam. Pret. Soubesse, soubesses,
soubesse, soubessemos, soubesseis, soubessem.
Fut. Souber, souberes, souber, soubermos, souberdes,
souberem.

Trazer — M Ind T Pres. Trago, trazes, traz, trazemos,
etc. Pret Perf Trouxe, trouxeste, trouxe, trouxemos,
trouxestes, trouxeram. Pret mais que Perf.
Trouxera, trouxeras, etc. Fut. Trarei, trarás, trará,
traremos, trareis, trarão, T Cond. Traria, trarias, traria,
trariamos, trarieis, trariam. M Imp Traze tu,
trazei vós. M Conj T Pres. Traga, tragas, traga, tragamos,
tragaes, tragam. Pret. Trouxesse, trouxesses,
trouxesse, trouxessemos, trouxesseis, trouxessem Fut
Trouxer, trouxeres, trouxer, trouxermos, trouxerdes,
trouxerem.

Valer — M Ind T Pres. Valho, vales, val, ou vale,
valemos, valeis, valem. M Conj T Pres. Valha, valhas,
valha, valhamos, valhaes, valham.

Vêr — M Ind T Pres. Vejo, vês, vê, vêmos, vêdes,
vêem Pret Perf. Vi, viste, viu, vimos, vistes, viram,
Pret mais que Perf. Vira, viras, etc. M Conj
43T Pres. Veja, vejas, veja, vejamos, vejais, vejam. Pret
Visse, visses, visse, vissemos, visseis, vissem. Fut. Vir,
vires, vir, virmos, virdes, virem.

Verbos Irregulares da terceira Conjugação.

Affligir — M Ind T Pres, Afflige, affliges, etc. M
Conj T Pres
. Afflija, afflijas, afflija, afflijamos, afflijaes,
afflijam. Deste modo se conjugam os Verbos acabados
em gir mudando o g em j nas vozes em que
se segue a ou o.

Dormir — M Ind T Pres. Durmo, dormes, etc. M
Conj
T Pres. Durma, durmas, durma, durmamos,
durmaes, durmam.

Induzir — M Ind T pres. Induzo, induzes, induz,
induzimos, induzis, induzem. Do mesmo modo se
conjugam os Verbos Conduzir, Luzir, Produzir, e
Reluzir.

Ir — M Ind T pres. Vou, vás, vai, vamos, ides,
vão. Pret Imperf. Ia, ias, ia, iamos, ieis, iam. Pret
perf
. Fui, foste, foi, fomos, fostes, foram. Pret mais
que perf
Fôra, fôras, etc. Fut Irei, irás, irá, iremos,
ireis, irão. T Cond Iria, irias, iria, iriamos, irieis, iriam.
M Imp Vai tu, ide vós M C T pres Vá, vás, va,
vamos, vades, vão Pret Fosse, fosses, fosse, fossemos,
fosseis, fossem Fut For, fores, for, formos, fordes,
forem.44

Ouvir — M Ind T pres Oiço, ouves, ouve, ouvimos,
ouvis, ouvem M Conj T pres Oiça, oiças, oiça, oiçamos,
oiçais, oiçam.

Pedir — M Ind T pres peço, pedes, pede, pedimos,
pedis, pedem. M Conj T pres peça, peças, peça,
peçamos, peçais, peçam. Do mesmo modo o Verbo
Medir, mudando o d em ç quando se lhe segue o
ou a.

Rir — M Ind T pres. Rio, ris, ri, rimos, rides,
riem M Imp Ri tu, ride vós M Conj T pres Ria, rias,
ria, riamos, riais, riam.

Sair — M Ind T pres Saio, saes, sae, saimos, sais,
saem M Conj T pres Saia, saias, saia, saiamos, saiais,
saiam. Do mesmo modo Cair, e seus compostos
Descair e Recair.

Servir — M Ind T pres Sirvo, serves, etc M Conj
T pres Sirva, sirvas, sirva, sirvamos, sirvais, sirvam.
Do mesmo modo Vestir, Mentir, Ferir, Seguir, Sentir,
e seus compostos.

Subir — M Ind T pres Subo, sobes, sobe, subimos,
subis, sobem M Imp Sobe tu, subi vós Do mesmo
modo Acudir, Bulir, Consumir, Construir, Cobrir,
Cuspir, Descobrir, Destruir, Engulir, Fugir,
Sacudir, Sumir, Tossir
.

Vir — M Ind T pres Venho, vens, vem, vimos
45vindes, vem Pret Imperf Vinha, vinhas, vinha, vinhamos,
vinheis, vinham. Pret perf Vim, vieste, veiu,
viemos, viestes, vieram Pret mais que perf Viera,
vieras, etc. M Imp Vem tu, vinde vós M Conj T pres
Venha, venhas, venha, venhamos, venhais, venham
Pret Viesse, viesses, viesse, viessemos, viesseis, viessem
Fut Vier, vieres, vier, viermos, vierdes, vierem
Part do pres Vindo Part do pret Vindo, a. Do mesmo
modo Avir, Convir, e Desconvir.

Os Verbos acabados em guir, em que o u mal se
percebe perdem o u antes de a ou o: v. g. Distinguir,
Distingo, Distinga
, etc. Ao contrario outros conservam
sempre o u quando este se pronuncía com toda
a sua força: v. g. Argüir, Annûir: pois diz-se Argüo,
Annüo
.

Conjugação do verbo Pôr (52)

Modo indicativo

Tempo presente

tableau S. | ponho | pões | põe

tableau P. | pomos | pondes | põem46

Preterito imperfeito

tableau S. | punha | punhas

tableau P. | punhamos | punheis | punham

Preterito perfeito

tableau S. | puz | puzeste | poz

tableau P. | puzemos | puzestes | puzeram

Preterito mais que perfeito

tableau S. | puzera | puzeras

tableau P. | puzeramos | puzereis | puzeram

Futuro

tableau S. | porei | porás | porá

tableau P. | poremos | poreis | porão

Tempo Condicional

tableau S. | poria | porias47

tableau P. | poriamos | porieis | poriam

Modo imperativo

tableau S. | põe | ponha

tableau P. | ponde | ponham

Modo conjunctivo

Tempo presente

tableau S. | ponha | ponhas

tableau P. | ponhamos | ponhais | ponham

Preterito

tableau S. | puzesse | puzesses

tableau P. | puzessemos | puzesseis | puzessem

Futuro

tableau S. | puzer | puzeres

tableau P. | puzermos | puzerdes | puzerem

Infinito

pessoal

tableau S. | pôr | pôres

tableau P. | pôrmos | pôrdes | pôrem48

participio do presente

tableau pondo

participio do preterito

tableau posto, a

NB. — Não he preciso dar de cór a Taboa 3ª,
basta que os Mestres façam conjugar de viva voz aos
seus Discipulos todos estes verbos por inteiro, notando-lhes
os tempos e vozes, em que elles se apartam
da regra geral.

§ 6°
Das particulas

Que são particulas?

Particulas são certas palavras indeclinaveis, que
postas na oração servem para differentes fins.

Em que se dividem?

Dividem-se em Preposições, Adverbios, Conjuncções,
e Interjeições (53).49

De que serve a Preposição?

A Preposição posta entre duas palavras mostra a
relação de complemento, que a segunda tem com a
primeira: v. g. Campo de Antonio (54).

O Adverbio?

O Adverbio junto ao Nome, ou Verbo, mostra o
modo da sua significação: v. g. Fallou eloquentemente (55)50

A Conjuncção?

A Conjuncção une entre si as partes da Oração
v. g. Pedro e Paulo são bons homens (56).

A Interjeição?

A interjeição exprime varios affectos da nossa alma:
v. g. Ai! Ah! Oh!51

Parte segunda
Da Syntaxe

§ 1°.
Da Oração em geral.

Que he Oração?

Oração he huma união de palavras com que se
exprime algum pensamento.

Quaes são suas partes essenciaes?

Suas partes essenciaes são o Sujeito, o Verbo, e
o Predicado; porém pode conter ainda varios Accessorios
e Complementos.

Que he Sujeito?

Sujeito he aquillo de que se affirma, ou nega alguma
coisa (57).

Predicado?

Predicado o que se affirma ou nega do Sujeito:
52v. g. A virtude he amavel: A virtude he o Sujeito,
he o Verbo, e amavel o Predicado (58).

Quando vem expressos estes tres termos?

Estes tres termos só vem expressos, quando na
Oração se usa do Verbo Ser: com os Verbos Adjectivos
o Predicado vem sempre occulto; porque se inclue
no Verbo: v. g. Pedro vive: pois he o mesmo
que dizer: Pedro he vivente.

Que são accessorios?

Accessorios são quaesquer nomes, que se ajuntam
a outros para explicarem a sua significação:
v. g. Pedro he homem sabio e virtuoso (59).

Complementos?

Complementos são as palavras que completam a
significação d’outras.

Como podem ser os Complementos?

Os Complementos podem ser Objectivos, Terminativos,
53Restrictivos, e Circumstanciaes (60).

Que he Complemento Objectivo?
Complemento Objectivo he aquelle que mostra o
objecto, em que se emprega a significação do Verbo
Transitivo: v. g. Pedro ama a virtude (61).

Terminativo he o que termina a significação de
alguma palavra relativa: Congruente á natureza,
Dei um livro á Pedro
(62).

Restrictivo?

Restrictivo aquelle, que posto depois de um Substantivo
lhe restringe a significação: v. g. Campo de
Antonio
(63).54

Circumstancial?

Circumstancial o que exprime alguma circumstancia
da Oração; v. g. Leio com grande cuidado (64)
.55

Como podem ser as Orações?

As Orações podem ser Simplices, Compostas, Regulares,
Figuradas, Principaes, e Subordinadas.

§ 2°
Das Orações Simplices, Compostas e Regulares.

Que he Oração simples?

Oração simples he aquella, que consta de um só
Sujeito, e Predicado: v. g. Pedro he vivente.

Composta?

Composta a que tem muitos Sujeitos, ou muitos
Predicados.

Regular?

Regular a que tem expressas todas as suas partes,
exactamente concordadas, e collocadas, segundo
a ordem grammatical.

Que são partes concordantes?

Partes concordantes são o Artigo, e o Adjectivo
com o seu Substantivo em genero, e numero: v. g.
O homem virtuoso: A mulher virtuosa: e o Verbo
com o seu Sujeito em numero e pessoa: v. g. Antonio
dorme
.

Que he ordem grammatical?

A ordem grammatical he pôr o Sujeito em primeiro
lugar com tudo o que lhe pertence, e depois
o Verbo com os seus complementos, collocando-se
56as palavras regentes antes das suas regidas, os Adjectivos
depois dos seus Substantivos, e guardando-se
em tudo a ordem natural.

Que são partes regentes?

São partes regentes todas as palavras de significação
transitiva, que depois de si pedem Complemento:
v. g. os Verbos Transitivos, os Participios, e
Adverbios
d’elles derivados, os Adjectivos verbaes, e
a Preposição (65).

Regidas?

Regidas todas aquellas, que servem de Complementos
a outras, e algumas vezes Orações inteiras:
v. g. Quero que estudes.

§ 3°
Da Oração Figurada.

Que he Oração figurada?

Oração figurada he aquella, que he formada por
meio de certas figuras, que parecem contrarias ás
regras da Grammatica.57

Quaes são as figuras?

As figuras da Syntaxe são a Ellipse, a Syllepse,
e o Hyperbato (66).

Que he Ellipse?

Ellipse he quando para não fazer a Oração fastidiosa
se occultam uma, ou mais palavras de facil
intelligencia: v. g. Donde vens? De Lisboa? (67).58

Syllepse?

Syllepse, ou Synthese, he quando o Adjectivo não
concorda rigorosamente com o seu Substantivo, ou
o Verbo com o seu Sujeito; mas com a idéa, que
concebemos: v. g. Dos soldados parte morreram:
59parte ficaram feridos (68).

Hyperbato?

Hyperbato he quando para fazer a Oração mais
clara e harmoniosa, se inverte a ordem grammatical
60das palavras: v. g. Vagando andava a fama já pela
cidade
. A ordem era: A fama andava já vagando
pela cidade
(69).61

§ 4°
Da Oração Principal, e Subordinada.

Que he Oração principal?

Oração principal he aquella, que por si pode
subsistir, e fazer sentido independente d’outra: v. g.
Pedro he sabio.

Subordinada?

Subordinada a que depende d’outra para subsistir,
e fazer sentido: v. g. Os homens, se são virtuosos,
aborrecem os vicios
.

Qual he o caracter das Principaes?

O caracter, ou signal das Principaes he serem
annunciadas com linguagens indicativas, ou imperativas,
sem alguma particula, que lhes suspenda o
sentido.

Qual he o caracter das Subordinadas?

O carcater das Subordinadas he serem sempre
formadas com linguagens conjunctivas, ou com algum
pronome relativo, ou particula, que lhes suspenda
o sentido.62

Como podem ser as Subordinadas?

As Subordinadas podem ser Incidentes, Condicionaes,
Causaes, Circumstanciaes, ou Integrantes.

Que he Oração Indicente?

Incidente he aquella que he formada com algum
Pronome relativo: v. g. Alexandre, que foi filho de
Filippe
(70).

Condicional?

Condicional a que he formada com alguma Particula
condicional: v. g. Os homens, se são virtuosos.

Causal?

Causal a que he formada com alguma Particula
causal: v. g. Leio, porque me quero instruir.

Circumstancial?

Circumstancial a que exprime alguma circumstancia
de tempo, modo, ou de lugar: v. g. Quando
Abraham tinha cem annos de idade nasceu-lhe seu
filho Isaac
.

Integrante?

Integrante a que serve á outra de Complemento,
e parte grammatical: v. g. Quero que me ames.

§ 5°
Da Analyse Grammatical.

Que he Analyse Grammatical?63

Analyse Grammatical he a divisão das partes componentes
de qualquer periodo para serem bem examinadas
e conhecidas.

Que he periodo?

Periodo he uma, ou mais Orações, que fazem
um sentido perfeito. Termina sempre por um ponto
final.

Como pode ser o periodo?

O Periodo he simples quando consta de uma só
Oração: e composto quando consta de mais.

Como pode ser analysado?

Pode ser analysado em quanto á Etymologia, e
em quanto á Syntaxe ou Ideologia.

Que he Analyse Etymologica?

A Analyse Etymologica consiste no conhecimento
da natureza das palavras, de que o periodo he
composto (71).64

Ideologica?

A Ideologica, ou de Syntaxe, na distincção das
Orações, e exame de cada uma das suas partes.

Como se pode conhecer o numero de Orações
de qualquer periodo?

Para se conhecer o numero de Orações, que se
encerram em qualquer Periodo, contar-se-hão os
Verbos, que nelle se acharem fóra do Infinito, quantos
Verbos se encontrarem, outras tantas serão as
Orações.

Como se conhecem as Orações de Verbo occulto?

Encontrando-se porém algumas palavras, que se
não possam accommodar aos Verbos existentes, he
signal de existir alguma Oração elliptica, cujo Verbo
se deve entender em conformidade do sentido.

Que se deve examinar em cada Oração?

Em cada Oração deve-se examinar a sua natureza
65o seu Sujeito, Verbo, Predicado, Complementos
e Acessorios, se os tiver (72).

Que se deve fazer sendo a Oração figurada?

Sendo a Oração figurada reduzir-se-ha á Syntaxe
Regular, supprindo-se as palavras, que estiverem occultas
por Ellypse, regulando-se as concordancias
feitas pela Syllepse, e passando os Hyperbatos á ordem
grammatical.

Exemplo pratico da analyse, e regencia grammatical
da Lingua Portugueza

De pouco se contenta a natureza,
Quem nisto bem olhassem certifico
Que não fugisse tanto da pobreza.

Diogo Bernardes egloga III

Analyse dos periodos.

Neste periodo, ou Terceto Poetico, ha quatro Verbos
66do modo finito, e por isso mesmo as quatro Orações
seguintes: 1ª De pouco se contenta a natureza.
Quem nisto bem olhasse: 3ª Certifico: 4ª Que
não fugisse tanto da pobreza
. A primeira he Principal:
a segunda Incidente: a terceira Principal: a quarta
Integrante, servindo de complemento objectivo ao
Verbo certifico.

Analyse e regencia das Orações.

De he uma preposição. Pouco he um adjectivo de
duas formas, regido da Preposição de e servindo
substantivadamente de Complemento terminativo ao
Verbo contenta (No rigor grammatico concorda em
genero, e numero com o substantivo numero occulto,
formando esta construcção: De pouco numero
de coisas se contenta a natureza
). Se he uma das
formulas do Pronome reciproco Se servindo de Complemento
objectivo ao Verbo contenta. Contenta he
o Verbo contentar da primeira conjugação, está na
terceira pessoa do singular, do presente do indicativo,
concordando com o seu Sujeito natureza em numero
e pessoa. A he um Artigo feminino, concordando
com natureza em genero e numero. Natureza he
um substantivo feminino do singular, servindo de Sujeito
ao Verbo contenta. Quem he um Pronome relativo
substantivado, servindo de Sujeito ao Verbo olhasse
(No rigor grammatico val o mesmo que dizer o homem
que
). Nisto he uma dicção figurada composta
da Preposição em, e da terminação substantivada do
67Pronome Este, servindo de Complemento circumstancial
de lugar regido da mesma preposição em, Bem
he um adverbio. Olhasse he o Verbo olhar da primeira
conjugação, está na terceira pessoa do singular
do Preterito do Conjunctivo, concordando com o seu
Sujeito quem em numero e pessoa. Certifico he o
Verbo certificar da primeira conjugação: está na primeira
pessoa do singular do presente do Indicativo,
concordando com o seu Sujeito occulto eu, Que he
uma Conjugação. Não he um Adverbio. Da he uma
dicção figurada composta da preposição de, que rege
o Substantivo pobreza, e do Artigo feminino a,
que concorda com o mesmo Substantivo pobreza em
genero e numero. Pobreza, he um Substantivo feminino
regida da Preposição de, servindo de Complemento
circumstancial ao Verbo fugisse. — A ordem
grammatical deste periodo he a seguinte: A natureza
contenta-se de pouco numero de coisas, o homem
que olhasse bem nisto, ou isto, eu certifico-me que não
fugisse tanto da pobreza
.

Quando nos periodos houverem muitos Sujeitos,
e um só Verbo no singular, entender-se-ha tantas
vezes o Verbo, quantos os Sujeitos, que estiverem
sem elle. Exemplo.

A Ceres he devida a sementeira:
As rosas ao verão: a Flora as flores:
A Bacho a vide: a Pallas a oliveira.

Ferreira, Egloga XI.68

Supprem-se as Elipses, e reduzem-se as Orações á
sua ordem grammatical deste nodo: A sementeira
he devida a Ceres: as rosas são devidas ao verão: as
flores são devidas a Flora: a vide he devida a Bacho:
a oliveira he devida a Pallas
. Sem esta reducção
grammatical jámais poderemos conhecer bem
o sentido das Orações, que encontrarmos.69

Parte terceira
Da Prosodia.

§ 1°
Das Lettras, sua divisão e pronunciação.

Que he Prosodia?

Prosodia, por outro nome Orthoepia, he a parte
da Grammatica, que ensina a bem pronunciar os
sons articulados.

Como se consegue a boa pronunciação?

Para se conseguir a boa pronunciação he necessario
conhecer o som das lettras, a qualidade das
syllabas, os accentos das palavras, e as figuras de
dicção.

Que he lettra?

Lettra he um signal, com que se representam os
sons, e articulações das palavras.

Que lettras formam o nosso alphabeto?

As lettras, que formam o nosso alphabeto são A,
B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, N, O, P, Q, R,
S, T, U, V, X, Y, Z
, (73).70

Que caracteres se usam assim?

Além destas ainda se usam certos caracteres compostos,
ou prolações, que valem uma única lettra: v.
g. Ch, Lh, Nh, Ph, Ps, Rh, Th (74).

Como se dividem as lettras?

As lettras dividem-se em Vogaes, e Consoantes.

Que são Vogaes?

Vogaes, por outro nome Vozes Oraes, são aquellas,
que por si só fazem som: v. g. A, E, I, O, U, Y.

Consoantes?

Consoantes, ou Consonancias, as que só fazem
som juntas ás vogaes: v. g. todas as demais mencionadas
no alphabeto (75).71

Como he o som das Vogaes?

O som das vogaes he sempre o mesmo no I, e U;
nas outras soffre differentes variações.

Qual he o som do A?

O som do A, umas vezes he aberto: v. g. : outras
fechado: v. g. Mas.

Do E?

Igualmente o E, umas vezes he aberto: v. g. :
outras fechado: v. g. ; outras mudo: v. g. Se: outras
ambiguo, soando como i: v. g. a conjunção E,
72e outras composto soando como ei: v. g. Céa.

Do O?

Do mesmo modo o O umas vezes he aberto: v. g.
Avó: outras fechado: v. g. Avô: e outras ambiguo
soando como u: v. g. Filho (76).

Que se forma das Vogaes?

Das Vogaes formam-se as Nazaes, e os Ditongos.73

Que he Vogal Nazal?

Vogal Nazal he quando, depois de qualquer Vogal,
se segue M, ou N, expresso, ou marcado com
um til: Am, ã, ão, (77).

Ditongo?

Ditongo he o ajuntamento de duas vogaes, formando
quasi um único som: v. g. Ai, Ao.

Como são os Ditongos?

Os Ditongos podem ser Oraes, ou Nazaes, segundo
as vogaes, de que forem compostos.

Qual he a pronunciação das consoantes?

A pronunciação das Consoantes he Bê, Cê (pronunciando-se
como Quê), Dê, Fê, Guê, Kê, Jê, Lê,
Mê, Nê, Pê, Qê-u, Rê, Sê, Tê, Vê, Xê, Zê, (78).74

A das Prolações?

A Prolação Ch umas vezes sôa como X; v. g.
Chave; outras em vozes Gregas como Q; v. g. Cherubim;
as demais pronunciam-se: Lhê, Nhê, Phê, (como
Fê) Psê, (como Sê) Rhê (como Rê) Thê.

Que se forma de todas essas vozes e consonancias?

De todas estas vozes, e consonancias se formam
quasi mil e oitocentas syllabas, e com estas mais de
quarenta mil palavras de que consta o Vocabulario
Portuguez.

§ 2°
Das syllabas, seu valôr, e quantidade.

Que he syllaba?

Syllaba he qualquer vogal, ou ditongo só por si,
ou unido a uma, ou mais consoantes: v. g. A, Ao, Ba.

Que consoantes se unem ás vogaes?

A qualquer vogal, ou ditongo pódem unir-se até
tres consoantes: v. g. Flôr.

Que mudança soffrem as lettras na formação das
syllabas?

A formação das syllabas muitas lettras se tornam
liquidas, isto he, perdem todo, ou metade do
seu som; e outras mudam inteiramente de valor (79).75

Que lettras perdem todo o seu som?

Perdem todo o som: 1° o U depois de G, e Q,
seguindo-se-lhe immediatamente E, ou I: v. g. Guerra,
Guia, Que, Aqui
: 2° qualquer consoante, quando
he dobrada no meio da palavra, que ambas se
pronunciam como se fossem uma única: v. g. Aggravo:
3° o C antes do T, e o P antes de C, S, ou T,
que ficam inteiramente mudas: v. g. Sancto, Percepção,
Psalmo, Optimo
, que se pronunciam Santo,
Perceção, Salmo, Otimo
.

Que lettra perdem metade do seu som?

Perdem metade do seu som o R, quando vem entre
vogaes, ou quando forma syllaba com outras consoantes:
v. g. Féro, Grave: e o L, M, N, e o mesmo
R, quando são feridos por alguma vogal, ou consoante
antecedente: v. g. Alma, Blasonar, Amparo,
Antigo, Argola
.

Que lettras mudam inteiramente de som?

Mudam inteiramente de som o C, quando vem antes
de E, I, ou quando he marcado com cedilho, que
se pronuncia como S: v. g. Cégo, Circulo, Cabeça.
Açucar: o G antes de E e I, que val por J: v. g.
Gesto, Gigante: o S, que entre vogaes val por Z, v. g.
76Reserva: o X que umas vezes conserva o seu som natural:
v. g. Paixão; e outras val por Is, Cs, e Ss: v. g.
Exemplo, Sexo, Syntaxe, que se pronunciam Eixemplo,
Secso, Syntasse
: e o Z, que val sempre por
S, quando he final nas palavras: v. g. Capaz, Feliz.

Como são as syllabas?

As syllabas em relação á sua quantidade podem
ser Longas, Breves e Communs (80).

Que he syllaba longa?

Syllaba longa he aquella, em cuja pronunciação
se gastam dois tempos: v. g. Páz.

Breve?

Breve aquella, em que se gasta um só: v. g. Mas.

Commum?

Commum a que uma vez gasta um, outra dois tempos:
v. g. Academia, ou, segundo outro, Académia.

Quaes são as syllabas Longas?

São Longas todas as syllabas formadas com vozes
abertas ou fechadas, ou com qualquer Nazal, ou
Ditongo: v. g. Tafetá, Pregár, Morgado, Louvado,
Ancião, Função
.77

As breves?

São Breves as formadas com vozes mudas ou ambiguas:
v. g. os Artigos O, A, Os, As, e os Pronomes
Me, Nos, Te, Vos, Se, Lhe, Lhes (81).

As Communs?

São Communs as formadas com as vogaes I, e U,
as quaes uma vezes são longas, outras breves, segundo
o uso da Lingua.

§ 3°
Das palavras e seus Accentos.

De que syllabas constam as Palavras?

As Palavras portuguezas podem constar de uma
até nove syllabas v. g. Flôr, Incomprehensibilidade.
Como se chamam?

As de uma só syllaba chamam-se Monosyllabas,
as de duas Dissillabas, as de tres Trissylabas, e as
demais Polysyllabas.

Como se pronunciam?

Para serem bem pronunciadas he preciso dar-lhes
o devido Accento.

Que he Accento?

Accento he a maior ou menor elevação da voz,
com que se devem pronunciar as syllabas.78

Como pode ser?

O Accento pode ser Agudo (´), Grave (`), ou Circumflexo
(^) (82).

Que he Accento Agudo?

Agudo he o que fere a vogal fortemente, abrindo
o seu som: v. g. .

Grave?

Grave he o que fere a vogal branda, e ligeiramente:
v. g. .

Circumflexo?

Circumflexo o que fére a vogal fortemente, mas
fechando-a, v. g. Avô.

Que se forma n’elles?

No Agudo, e o Circumflexo forma o Accento Predominante (83).79

Que he Accento Predominante?

Accento Predominante he a syllaba, que em qualquer
palavra se fere com mais força para firmar a
pronunciação (84).

Em que lugar se deve pôr?

Este nunca pode ter lugar senão em uma das tres
ultimas syllabas de qualquer palabvra, isto he, ou
na ultima, ou na penultima, ou na antepenultima.
80Para traz nunca pode passar.

Que palavras tem Accento Predominante na ultima?

Tem Accento Predominante na ultima, todas as
palavras acabadas em vozes abertas: v. g. Tafetá,
Libré, Mercê, Avó, Avô
: as acabadas em I, U, ou
Vogal Nazal: v. g. Aqui, Crú, Irmã, Vintém: as acabadas
em qualquer ditongo: v. g. Pae, Irmão, Tostão:
e as acabadas no singular em L, R, S ou Z:
v. g. Coral, Prazer, Feliz, Chafariz (85).

Na antepenultima?

Tem Accento Predominante na antepenultima todas
as palavras exdruxulas, isto he, de tres syllabas,
que tiverem a ultima, e penultima breves: v. g. Magna,
Nevoa, Taboa
: todas as formas dos Verbos acabados
em Mos, que não forem as do Presente, e
do Preterito Perfeito: v. g. Amávamos, Amássemos,
81e todos os Superlativos: v. g. Optimo, Brevissimo (86).

Na penultima?

Terão Accento na penultima todas as demais, que
não pertencem ás duas regras antecedentes: v. g.
Voto, Virtude, Humanidade; e destas he o maior
numero das palavras portuguezas.

§ 4°
Das Figuras de Dicção.

Que são figuras de Dicção?

Figuras de Dicção são certos modos de escrever,
e pronunciar as palavras accrescentando, diminuindo,
ou invertendo algumas lettras para as tornar mais
faceis, e harmoniosas na pronunciação.

Quaes são as figuras de Dicção?

As Figuras de Dicção mais ordinarias, e usadas
dos Prosadores são a Prothese, a Aphérese, a Syncope,
a Apócope, a Synalepha, e a Metáthese.

Que he Próthese?82

Próthese he quando se accrescentam algumas lettras
no principio de uma palavra: v. g. Amostraram
em lugar de mostraram (87).

Aphérese?

Aphérese he quando se tiram lettras do principio
de uma palavra: v. g. Maginação em lugar de Imaginação.

Syncope?

Syncope he quando se tiram lettras do meio de
uma palavra: v. g. Esprito em lugar de Espirito (88).

Apócope?

Apócope he quando se tiram lettras no fim de uma
palavra: v. g. Mui em lugar de Muito (89).83

Synalépha?

Synalépha he quando a vogal final de uma palavra
se absorve, começando a palavra seguinte tambem
por vogal: v. g. D’outro em lugar de De outro (90).84

Metáthese?

Metáthese, ou Transposição, he quando se trocam
ou accrescentam algumas lettras no fim de uma palavra,
para que esta harmonize, e faça boa consonancia
com a palavra, que se lhe segue: v. g. Amal-o,
Dispol-as
em lugar de Amar-o, Dispor-as (91).85

Parte quarta
Da Orthographia.

§ 1°.
Dos differentes caracteres das lettras e seus usos.

Que he Orthographia?

Orthographia he a parte da Grammatica, que ensina
a escrever com acerto.

Que se trata nella?

Nella se trata da differente forma, e uso das lettras,
da escripturação das palavras, sua divisão no fim
das regras, e pontuação.

Como se formam as lettras?

As lettras formam-se em caracteres maiusculos, isto
he, e minusculos grandes e pequenos.

Quando usaremos de lettra grande?

Usaremos de lettra grande no principio de qualquer
escripta: depois de ponto final, Interrogativo,
ou Admirativo: depois de dois pontos, quando se segue
alguma sentença, ou dito de alguma pessoa: v. g.
Disse o Senhor: Faça-se a luz. No principio dos nomes
86Proprios, e dos Appellativos, quando significam
titulos de honra, e de dignidade, applicados a pessoas
particulares: v. g. Rei, Principe, Desembargador:
no principio dos nomes Adjectivos derivados dos
Proprios: v. g. Lisbonense, Conimbricense: e no principio
de qualquer verso nas obras Poeticas.

Das lettras pequenas?

Fora destes casos sempre usaremos de lettras minusculas.

§ 2°
Da escripturação das palavras.

Como devem ser escriptas?

As palavras devem ser escriptas segundo o uso
dominante. A Orthographia sobre este objecto só offerece
algumas regras imperfeitas, relativas ás lettras
e syllabas, que se confundem, e causam embaraço
na escripturação (92).87

Que lettra se confundem na escripturação?

Confundem-se na escripturação o E quando tem
o som de I: v. g. Pedro e Paulo: e o O, quando se
pronuncia como ou, ou u: v. g. Avô, Anno.

Que lettras causam embaraço?

Causam igualmente embaraço na Orthographia
o uso dos caracteres, e Prolações Gregas, das consoantes
dobradas n’uma mesma palavra: o C, quando
tem o som de S: o G, quando se pronuncia como J:
o H, quando inteiramente he mudo: o M, quando
tem o som de N: o S, quando se pronuncia como
Z: o X, quando tem o som de S, Is, Cs, ou Ch: o
Z, quando se pronuncia como S: e o uso de til.

Como differençaremos o E do I, e U do O?

Differençaremos o E do I, e U do O nos Verbos
variando a mesma palavra para outra formação, em
que a voz ambigua passe a ser uma das abertas: v.
88g. para sabermos se devemos escrever Cear ou Ciar,
Suar
ou Soar mudaremos estas vozes para o
presente do Indicativo, formando Ceio, e Cio, Suo, e
Sôo, e logo veremos a vogal com que se deve escrever
nas demais formas destes verbos (93).

Como os differençaremos no fim?

O som surdo do U na ultima syllaba das palavras
escrever-se-ha com O: v. g. Antonio, Marcos, Assiduo.

Quando usaremos dos caracteres Gregos?

Só usaremos dos caracteres, e Prolações Gregas
89K, Y, Th, Ph, Rh, Ch, Ps, em vozes de origem Grega:
v. g. Kalendario, Lyra, Antipathia, Aphorismo,
Rhethorica, Monarchia, Psalterio
(94).

Quando dobraremos as consoantes no meio das
palavras?

No meio das palavras dobrar-se-ha sempre o R,
quando vier entre vogaes, e se pronunciar com som
forte: v. g. Ferro. Do mesmo modo o S, em todos os
Superlativos acabados em ssimo: v. g. Amantissimo,
Doutissimo
; e nos Preteritos do Conjunctivo: v. g.
amasse, ouvisse. Porém os outros casos, em que dobra
o mesmo S, e as outras Consoantes só se podem
conhecer com o uso, e lição dos livros (95).90

Quando usaremos do C e do S?

No principio das palavras escrever-se-hão sempre
com S, as syllabas Sa, So, Su: v. g. Sapato, Sorda,
Sumo
; porém no fim usaremos do Ç, sendo este antecedido
de alguma Vogal: v. g. Ameaça, Cortiça,
Feitiço
, e do mesmo modo em quasi todos os nomes
acabados em ção, cia, cio: v. g. Oração, Prudencia,
91Obrepticio (96).

Que palavra escrevemos com G e J?

Escrevemos com G todas as palavras, que principiarem
pelas syllabas Ge, Gi: v. g. Gesto, Gigante. Igualmente
todos os nomes, que acabarem em Gem:
v. g. Carruagem, Estalagem; porém sendo linguagens
dos verbos, que fazem o Infinito em jar usaremos do
j: v. g. Festeje, Festejem (97).

Quando usaremos do H?

Do H, quando he inteiramente mudo, só usaremos
nas palavras derivadas do Latim para mostrar
a sua primitiva origem, e significação: v. g. Habil,
Habitação, Habito
(98).

Quando usaremos do M?

O som de N antes de B, P, M, sempre se escreverá
com M: v. g. Ambos, Tempo, Immortal.

Quando do S?92

O som de Z entre vogaes ordinariamente se escreve
com S: v. g. Desunião, Riso (99).

Quando usaremos do X?

No principio só usaremos do X nas palavras de
origem Mourisca: v. g. Xacôco, Xadrez, Xarope, e
no meio, quando vem depois da syllaba En, ou Ditongo:
v. g. Enxugar, Paixão, Peixe, Trouxa (100).

Quando usaremos do Z em lugar de S?

Usaremos do Z em lugar de S nos finaes das palavras
do singular, quando forem Predominantes: v.
g. Capaz, Mez, Feliz.

De que serve o til?

O til serve de supprir o M ou N, principalmente
em todas as Vogaes, e Ditongos Nazaes: v. g. Irmã,
Irmão, Cidadão
(101).93

§ 3°
Da divisão das palavras no fim das regras.

Como se dividem as palavras?

As palavras simplices dividir-se-hão sempre pelas
suas syllabas: v. g. qua-li-da-de, e as compostas pelas
juncturas da sua composição: v. g. Ante-Manhã,
Contra-Tempo, Mal-feitor
(102).

Como se dividem tendo duas Consoantes?

Havendo no meio dellas duas Consoantes iguaes,
a divisão se fará entre uma e outra: v. g. Ap-pel-lo,
94Ag-gra-vo.

Como se divide o U liquido?

O U liquido depois de G, e Q, sempre acompanha
a Consoante antecedente, e a vogal seguinte: v.
g. Gui-a, e não Gu-ia.

Como se divide o G, o M, o C, e o P antes de
outras consoantes?

O G antes de M, e N, o M antes de N, o C e P
antes de T, sempre acompanham a vogal seguinte:
v. g. Au-gmen-to, Di-gno, Da-mno, San-cto, O-pti-mo.

§ 4°
Da Pontuação.

Que he pontuação?

Pontuação são certos signaes, com que se dividem
os periodos.95

Quaes são os signaes mais ordinarios?

Os mais ordinarios são a Virgula, o Ponto e Virgula,
os Dois Pontos, o Ponto Final, o Ponto Interrogativo,
o Ponto Admirativo, e o Parenthesis.

De que serve a Virgula?

A Virgula divide as Orações de sentido imperfeito,
os Adjectivos, quando muitos se reunem a um só
Substantivo, e os Substantivos quando se ajuntam
por meio de alguma conjuncção clara ou occulta: v.
g. O homem sa-bio, prudente, e virtuoso só procura
o bem, e foge a tudo que lhe pode ser funesto
(103).96

O Ponto e Virgula?

Usa-se do Ponto e Virgula antes das particulas
adversativas e causaes: v. g. mas, porém, porque;
ainda que; posto que
.

Os Dois pontos?

Os Dois Pontos dividem alguma Oração de sentido
perfeito, quando se lhe segue outra, que com ella
tenha alguma relação, ou similhança: v. g. Os bons
não peccam; porque amam a Deus: os maus peccam;
porque o não temem
. Põr-se ainda antes do dito,
ou sentença de algum auctor: v. g. Diz Virgilio:
A fortuna ajuda os audazes
.

O Ponto Final?

O Ponto Final marca o complemento do periodo:
v. g. Alegro-me com a vossa saude.

O Ponto Interrogativo?

Usa-se do Ponto Interrogativo, quando perguntamos
alguma coisa: v. g. Donde vens? Para onde vas?

O Ponto Admirativo?

Do Ponto Admirativo, quando queremos mostrar
admiração, alegria, ou indignação: v. g. Infeliz! Até
onde vos levou a discordia! Quão justo he Deus
!

O Parenthesis?

O Parenthesis serve de dividir algumas palavras,
ou Orações, que tiradas do contexto em nada prejudicam
o sentido do discurso: v. g. Feliz a republica
(dizia Platão) onde os reis forem philosophos, ou os
philosophos reis
.

De que usamos ainda?

Além destes signaes usamos ainda da Risca de
97União (-) e do Viracento (’).

De que serve a Risca de União?

A Risca de União no fim das regras, divide a palavra,
e une-a á regra seguinte, e depois dos Verbos
separa os Pronomes Encliticos, que se pronunciam
com os mesmos Verbos: v. g. Louve-me, Louvar-te-has,
Louvar-nos-emos
. Serve ainda mais de unir
duas palavras a uma só: v. g. Passa-tempo, Guarda-roupa.

O Viracento?

O Viracento, ou Apostrophe mostra a suppressão
da vogal final, quando se usa da Synalepha: v. g.
D’Oração em lugar de De Oração.

§ 5°
Appendice sobre as regras da Calligraphia.

Que he Calligraphia?

Calligraphia he a arte de formar com clareza e
elegancia os caracteres litteraes.

Como se formam as lettras?

As lettras fomam-se com riscos, ou linhas rectas
e curvas
.

Quaes são os primeiros exercicios Calligraphos?

Os primeiros exercicios calligraphicos consistem
na formação das partes elementares das lettras, isto
he, na formação de linhas rectas verticaes inclinadas,
já com hastes e farpas, já sem ellas, e na formação
de curvas tanto para o lado direito, como para o esquerdo.98

Como se formam as linhas?

Os Mestres darão aos seus dicipulos os exemplares
destas linhas, formadas ao principio com a
penna de lapis, para que elles as esclareçam com
tinta, e lhes ensinarão ao mesmo tempo a commoda
composição do corpo, e o bom uso dos instrumentos
da escriptura.

Que se faz com essas linhas?

Firmes e desembaraçados os meninos na formação
das linhas, passarão a ligal-as em lettras inteiras
por meio de travados até saberem bem formar
todas as do alphabeto tanto maiusculas, como minusculas.

Como se começará nos exercicios de lettra?

Nos exercicios de lettra começar-se-ha pelo Bastardo
Largo
, passando-se successivamente ao Bastardo
Menor
, depois ao Bastardinho, ou Letra Diplomatica,
e em fim á lettra cursiva, a mais difficil
pela maior ousadia, e variedade de rasgos, e pennadas,
que admitte.

Que se faz com essas lettras?

Sabendo-se a formação das lettras ajuntar-se-hão
em syllabas, as syllabas em palavras, e estas em regras,
guardando-se a proporção e distancia, que deve
haver de lettra a lettra, de palavra a palavra, e
de regra a regra.

Como se consegue a direitura das regras?

A direitura das regras consegue-se ao principio
por meio de regrados horisontaes de lapis, e depois
por pautados de tinta, que se mettem por baixo do
99papel, em que se ha de escrever.

Como se ganha a belleza e elegancia da lettra?

Ganhar-se-ha a belleza e elegancia de lettra pela
imitação d’optimos traslados, ou exemplares: advertindo-se
que a melhor lettra he aquella, que mais
promptamente se lê, e que são viciosos quaesquer
talhos, ou adornos que impedem a sua facil leitura.
Feja-se a Instrucção Regia para os Mestres de Primeiras
Lettras de 28 de Setembro de 1824, donde
todas estas regras foram extrahidas.

Fim100

(1) Prolegómenos são as primeiras noções preparatorias
de qualquer sciencia: vg. a sua definição, objecto,
fim e partes componentes
.

(2) Arte he tudo aquillo, que dá regras, e preceitos
para se fazer alguma coisa. Recebe o nome de sciencia,
quando suas regras são claras e evidentes. Em toda a arte
ha sempre um objecto, e fim. Objecto he aquillo sobre
que versam as regras d’arte. Fim o que della se espera.
A Grammatica he a arte; porque dá regras e preceitos
para bem fallar. Seu objecto são as palavras, e as
lettras; e o seu fim fallar, e escrever sem erros. A palavra
Grammatica deriva-se do Grego Gamma, que significa
lettra ou litteratura.

(3) As partes da Grammatica não são outra coisa mais,
que a divisão de suas regras em quatro classes separadas
para melhor se entenderem suas doctrinas. A Prosodia
naturalmente devia ser a primeira; comtudo nas escolas
com razão se principia pela Etymologia; porque esclarece
as outras partes.

(4) Todas as palavras, de que usamos, se incluem nestas
quatro classes, e todo o fundamento da Grammatica
he sabel-as conhecer, e distinguir. As definições, que
se seguem, são a conhecer suas differentes naturezas; porém
os principiantes carecem ser coadjuvados com as explicações
de viva voz de seus mestres. O methodo mais
curto, e facil he costumar desde logo os meninos ao uso
de algum Diccionario da lingua, marcando-lhes em
qualquer livro alguns periodos portuguezes, cujos termos
elles tirem, e se vão habituando ao conhecimento
dos differentes vocabulos, que encontram.

(5) Faz differença dizer: Pedro recebeu livros, ou Pedro
recebeu os livros
. Do primeiro modo a palavra livros
he tomada em toda a sua generalidade, e do segundo
significa certos livros determinados. Usaremos pois do
Artigo antes dos Appellativos, só quando os tomarmos em
sentido definido, e determinado, e não em sentido indefinido,
e indeterminado. Ommittil-o hemos igualmente antes
dos mesmos Appellativos, quando estes são precedidos
de algum Pronome, ou Nome determinativo de quantidade:
vg. Meu Pai, Vossa Mãi, Muitos homens, &c., e
quando são accessorios vocativos: vg. Senhor, ouvi os
nossos rogos
. O mesmo acontece com os Nomes Proprios;
porque a sua propria significação os determina, e se
muitas vezes dizemos o Camões, o Ebro, o Tejo, entende-se
o poeta Camões, e os rios Ebro e Tejo. Os artigos
servem ainda de mostrar o genero, e o numero dos Nomes,
e de substantivar os Adjectivos, os Verbos, as Particulas,
as Lettras, e ainda orações inteiras como se verá
na Syntaxe. Estando só na Oração fazem as vezes de
Nome: vg. Os bens do corpo, e os da fortuna. O Artigo
Os faz as vezes de bens.

(6) Os Artigos O, A, servem com Nomes do singular,
e os Os, As, com Nomes do plural. Além destes Artigos definidos,
que mostram a coisa sem sentido individual, e
determinado, ha outros indefinidos, que mostram a coisa
em sentido individual; mas vago, e indeterminado,
quaes são Um, Uma, Uns, Umas, quando não são numeraes:
vg. Um homem de côrte: Uma mulher de educação.

(7) Apenas se diz Céu, Terra, logo se entende o que
he, sem dependencia de alguma outra palavra. Porém
quando se diz Bom, Excellente, he preciso acrescentar
qual he a coisa Boa e Excellente de que se falla, e nisto
consiste a differença do Substantivo, e do Adjectivo.
O primeiro significa uma coisa como Subsistente por si
mesma, e o segundo exprime uma qualidade, que subsiste
em algum sujeito, donde resulta que podendo estar
só na Oração, o Adjectivo nunca ali pode existir sem
algum Substantivo claro, ou occulto, com quem concorde.

(8) Os Grammaticos ensinam outras muitas especies
e formas de Substantivos, as quaes pertencendo tambem
em grande parte aos Adjectivos, se põem aqui em separado.
Chamam-se Primitivos os nomes, que não nascem
d’outros da nossa lingua: vg. Terra, Mar, Pedra, &c. —
Derivados, os que nascem dos Primitivos v.g. Terreno,
Maritimo, Pedregoso
. Entre os Derivados se comprehendem
os Gentílicos ou Nacionaes, que declaram a nação,
ou a patria de cada um: vg. Portuguez, Lisbonense; Patronímicos,
os que antigamente designavam filiação:
vg. Alvares, Fernandes, em lugar de filho de Alvaro, filho
de Fernando
, e depois passaram a ser appellidos hereditarios,
e proprios de certas familias: — Diminutivos
os que diminuem a significação dos seus Primitivos: vg.
Filhinho, Filhinha, Moço, Moçinha, ou Moçasinha, Jornada,
Jornadinha
: — e os Augmentativos, que augmentam
a significação de seus Primitivos vg. Valentão, Soberbão.
São Collectivos os nomes, que no singular significam
multidão: vg. Nação, Povo, Exercito, &c. — Numeraes
Cardeaes
ou Absolutos, os que significam numero
sem alguma relação: vg. Um, Dois, Tres: — Numeraes
Ordinaes
os que mostram ordem, e collocação de umas
coisas a respeito d’outras: vg. Primeiro, Segundo, Terceiro,
&c.: — Partitivos os que significam parte de um
todo: vg. Um terço, Um quarto, Um quinto: — Verbaes
os derivados de algum verbo: vg. Admirador, Admiravel:
Compostos os que se compõem de duas ou mais
palavras: vg. Uso-fruto, Lugar-tenente, Gentil-homem,
Gira-sol, Contra-tempo
&c.

(9) O Universo he um composto de individuos innumeraveis.
Não podendo os homens dar a cada coisa um
nome proprio e particular, inventaram os Appellativos
para com um mesmo termo designarem muitos individuos
ligados entre si por alguma qualidade commum. A
esses nomes Appellativos ou Logicos chamam Universaes,
e nelles incluem os Generos, e as Especies.

(10) A maioria dos Grammaticos acrescentam aqui a
declinação por casos á maneira dos nomes Latinos. Esta
doctrina he inteiramente absurda, e com ella a Grammatica
Portugueza se torna um cahos inintelligivel para
os que ignoram a lingua Latina. Todos os nossos nomes
são indeclinaveis, a unica variação, ou declinação, que
se encontra nos Substantivos, são suas terminações numericas,
com que mostram o singular e o plural: vg.
Homem, Homens; e nos Adjectivos além destas mesmas
terminações numericas, ainda alguns delles têem terminações
genericas, com que designam o genero masculino
e feminino: vg. Justo, Justa: Justos, Justas. Quando
pois dissermos que alguma palavra he declinavel, ou
indeclinavel, só queremos dizer que tem, ou não terminações
numericas, e genericas.

(11) A classificação dos nomes em masculinos e femininos
propriamente só pertence aos nomes de animaes.
Todos os seres, que não têem sexo deveriam ser
arranjados n’uma clase, ou genero neutro. Porém o uso
da nossa lingua não admitte este genero, e todos
os seus nomes se tomam ou como masculinos, ou como
femininos. Os Grammaticos reputam o genero masculino
mais nobre, que o feminino.

(12) Para se conhecer o genero dos nomes Portuguezes
inanimados, não he preciso recorrer á sua terminação,
como na lingua Latina. Os artigos, que se lhes ajuntam,
bastam para lhes declararem o genero. Na falta do Artigo
poderemos usar de algum Adjectivo de duas formas: vg.
Claro, Clara, e ajuntal-o a qualquer Substantivo, cujo
genero ignoramos, e assim saberemos, por exemplo,
que dia he masculino, e agua feminino; pois segundo
o uso da nossa lingua dizemos: Dia claro, Agua clara,
e não Dia clara nem agua claro.

(13) Além dos nomes masculinos e femininos temos
ainda alguns, a que os Grammaticos chamam Communs
de dois
vg. Artifice, Guarda, Vigia, Martyr, &c., porque
são communs a ambos os generos, e admittem antes
de si tanto os Artigos masculinos, como os femininos;
por exemplo: O santo martyr: A santa martyr.
Do mesmo modo chamam Epicenos aquelles que debaixo
de um só genero, e artigo significam macho e femea:
vg. O Crocodilo, A Aguia, O Pardal. Para differençar
estes animaes, em quanto ao sexo, costumamos ajuntar-lhes
o seu nome promiscuo vg. O Crocodilo macho:
O Crocodilo femea
.

(14) Nem todos os nomes portuguezes gozam de ambos
os numeros. Carecem de singular os seguintes nomes:
Alviçaras, Andas, Exequias, Primicias, Sevicias.
Carecem de plural todos os nomes Proprios: vg. Cezar,
Cicero, Lisboa
. E os numeraes de Um para cima: vg.
Dois, Tres, Quatro, &c.

(15) Na lingua portugueza só os seguintes comparativos:
Anterior, Ceterior, Exterior, Inferior, Maior, Melhor,
Menor, Peior, Superior, Ulterior
, que todos se derivam
do Latim; e para os supprir juntam-se aos positivos
os adverbios Mais ou Menos vg. Justo, mais Justo,
ou menos Justo.

(16) Exceptuam-se os Superlativos Maximo, Minimo,
Optimo, Pessimo, Summo, Infimo, Supremo, Pauperrimo
(ou Pobrissimo), Celeberrimo (ou Celebradissimo),
Asperrimo (ou Asperissimo), Integerrimo (ou Inteirissimo)
que vieram do Latim, a fora os que estão em parenthesis.
Todos os mais Superlativos formam-se da maneira
seguinte:

Os Positivos de duas formas acabados em o, a, formam
o Superlativo mudando o o em issimo, e o a em
issima: vg. Justo, Justa: Justissimo, Justissima. Tira-se
Máu, Má que fazem Malissimo, Malissima. Os acabados
em ão, ã, mudam o o em nissimo, e o a em nissima:
vg. São, Sã: Sanissimo, Sanissima. Tira-se Christão,
ã
, que faz Christianissimo, Christianissima. Os acabados
em m, a, mudam o m em nissimo, o a em nissima,
vg. Bom, Boa: Bonissimo, Bonissima. Os Positivos
de uma só forma acabados em e mudam o e em
issimo, issima vg. Prudente: Prudentissimo, Prudentissima.
Tira-se Nobre, que faz Nobilissimo, Nobilissima; e
Humilde, (antigamente Humil, ou Humilde) que faz Humilimo
ou Humilissimo. Aos acabados em l, acrescenta-se-lhes
as syllabas, issimo, issima, vg. Fertil: Fertilissimo,
Fertilissima
. Tira-se Fiel, que faz Fidelissimo,
Fidelissima
; e Infiel, que faz Infidelissimo, Infidelissima.
Os acabados em z, mudam o z em cissimo, cissima:
vg. Capaz, Capacissimo, Capacissima. Pode formar-se
ainda o Superlativo de qualquer Positivo, ajuntando-se-lhe
o adverbio Muito, ou Grandemente: vg.
Muito Justo ou Grandemente Justo.

A seguinte tabella fará comprehender aos principiantes
quaes são os Superlativos e Comparativos, que
da Lingua Latina passaram para a Lingua Portugueza, e
que são os unicos que esta hoje tem propriamente seus,
apezar da sua forma ser Latina.

tableau superlativos | comparativos | positivos | maximo | maior | grande | minimo | menor | pequeno | optimo | melhor | bom | pessimo | peior | máu | extremo | exterior | externo | antiquissimo | anterior | antigo | infimo | inferior | postremo | posterior | supremo | ou | summo | superior | ultimo | ulterior | ceterior

(17) Os pronomes Pessoaes Eu, Nos, designam a
primeira pessoa, isto he, a que falla: Tu, Vos, a segunda,
com quem se falla: Elle, Ella, Elles, Ellas, a terceira,
de quem se falla. A primeira pessoa he mais nobre, que
a segunda, e a segunda, que a terceira. Estes mesmos
Pronomes, e o Reciproco Se recebem variações mui notaveis
no singular, e plural, conforme os differentes officios,
que prestam na oração, as quaes se mostram na
seguinte Taboa:

Variações no Singular

Sendo Sujeito da Oração
Eu… Tu… Elle… Ella…

Sendo Complementos de algum Verbo
Me… Te… Lhe, ou O… Lhe, ou A… Se

Sendo Complementos da Preposição Com
Migo… Tigo… Elle… Ella… Sigo

Sendo Complementos d’outras Preposições
Mim… Ti… Elle… Ella… Si

Variações no Plural

Sendo Sujeitos da Oração
Nós… Vós… Elles… Ellas…

Sendo Complementos d’algum verbo
Nos… Vos… Lhes, ou Os… Lhes, ou As… Se

Sendo Complementos da Preposição Com
Nôsco… Vôsco… Elles… Ellas… Sigo

Sendo Complementos d’outras Preposições
Nós… Vós… Elles… Ellas… Si

Eu, e Tu, são sempre sujeitos em qualquer oração;
porém Nós, Vós, Elle, Ella, Elles, Ellas, somente o
são, quando antes de si não têem Preposição; pois tendo-a
servem de Complementos conforme a natureza das
Preposições. O Reciproco Se nunca figura de Sujeito:
suas formas servem para o singular e plural. As formas
O, A, Os, As, são sempre complementos objectivos;
Lhe, Lhes, complementos terminativos; Me, Te, Nos,
Vos, Se
, umas vezes são complementos objectivos, outras
terminativos, segundo a natureza dos verbos, a que
se ajuntam. Para mais energia da oração muitas vezes
se repetem os mesmos Pronomes: vg. Pedro mata-se a
si mesmo
.

(18) Estes quatro Pronomes Relativos recebem ainda
o nome de Conjunctivos; porque atam as orações á
frente das quaes se acham com a antecedente, fazendo
dellas parte, ou como Incidentes, ou como Integrantes.
O Pronome Quem ordinariamente só se diz de pessoas,
ou de coisas personificadas: vg. Pedro foi quem fez isto.

(19) São de uma só forma os Adjectivos acabados
em e, al, el, il, ar, az, iz, oz: como Grave, Celestial,
Amavel, Facil, Exemplar, Capaz, Feliz, Veloz
, e os
cinco Adjectivos Afim, Cortez, Montez, Ruim, e Grão
abreviado de Grande. Têem duas os acabados em o, ez,
el, or, u
e um: vg. Justo, Justa; Portuguez, Portugueza;
Hespanhol, Hespanhola; Credor, Credora; Crú, Crúa;
Cabrum, Cabrua
. Os de tres formas são os seguintes:
Este, Esta, Isto; Esse, Essa, Isso; Aquelle, Aquella, Aquillo;
Todo, Toda, Tudo; Nenhum, Nenhuma, Ninguem
,
ou Nada; Algum, Alguma, Alguem, ou Algo; Outro,
Outra, Outrem
, ou Al. Os de uma só forma servem
para o masculino e feminino: os de duas a primeira serve
para o masculino, e a segunda para o feminino; os
de tres a primeira serve para o masculino, a segunda
para o feminino, e a terceira he uma das difficuldades
Grammaticaes. A solução mais facil he reputal-a uma forma
substantivada do genero masculino applicavel a coisas
masculinas e femininas.

(20) Exceptuam-se os pluraes Christãos, Cortezãos,
Grãos, Irmãos, Mãos, Orphãos, Orgãos, Bençãos, Cidadãos,
que acabam em ãos, e Allemães, Cães, Capellães,
Escrivães, Tabelliães, Pães, que acabam em ães.

(21) Exceptuam-se Mal e Consul, que fazem no plural
Males e Consules.

(22) Em alguns classicos apparece Melles plural de
Mel.

(23) Exceptuam-se Agil, Docil, Esteril, Facil, Habil,
Util, e seus compostos, que mudam o il em eis: vg. Ageis,
Doceis, Estereis, Faceis, Habeis, Uteis.

(24) Exceptuam-se Alferes, Arraes, Caes, Lestes, Ourives,
Pires
, e Prestes, que no plural conservam a mesma
terminação do singular; e Simples, e Calix, que fazem
no plural Simplices e Calices.

(25) Sobre a definição do Verbo discordam muito os
Grammaticos. Uns a restringem á acção e paixão: outros
á affirmação; outros á existencia. A definição proposta
he a que mais se ajusta com a significação, e uso
dos mesmos Verbos.

(26) Esta divisão do Verbo he mais conforme á razão
Grammatical, e aos usos da nossa lingua, do que a vulgar
adoptada sem maior exame das Grammaticas Latinas,
que dividem o Verbo em Activo, Passivo e Neutro.
Na lingua Portugueza quasi todos os Verbos Adjectivos
são activos, isto he, significam a acção que alguem faz.
As vozes passivas, que exprimem a paixão, que alguem
recebe, são suppridas, e compostas do Verbo Ser ou Estar,
e do Participio do Preterito dos Verbos Adjectivos,
como adiante se verá. Supprem-se ainda ajuntando o reciproco
Se ás terceiras pessoas dos Verbos Adjectivos:
v.g. Estima-se a virtude: aborrecem-se os vicios: que val
o mesmo que dizer: A virtude he estimada; os vicios são
aborrecidos
. Não havendo pois Verbos Passivos não podem
haver Verbos Neutros, isto he, Verbos que não são
nem activos nem passivos.

(27) Podem contar-se ainda entre os Auxiliares os 3
Verbos de movimento Andar, Ir e Vir; v.g. Ando escrevendo:
Venho de escrever: Vou escrever
.

(28) A differença entre os Verbos Auxiliares e Adjectivos
he que os primeiros exprimem a existencia de um
Predicado que não declaram: v.g. Pedro he; e os segundos
a existencia de um Predicado que fecham e declaram
na sua propria significação: v. g. Pedro vive; pois val o
mesmo que dizer: Pedro he vivente. Os Verbos Adjectivos
propriamente fallando não são mais que uma reducção,
ou expressão abreviada do Verbo Ser, e de um Adjectivo,
que lhes serve de Predicado, d’onde derivam o
nome.

(29) Entre os Verbos Adjectivos distinguem ainda os
Grammaticos os Frequentativos, os Inchoativos, os Reciprocos,
os Pessoaes, os Impessoaes, os Simplices, e os
Compostos. — Frequentativos são os que significam a repetição
frequente da acção significada; v. g. Espicaçar,
Espesinhar
. Destes ha mui poucos em nossa lingua. Nós
os supprimos servindo-nos do verbo Andar, como auxiliar,
e do Participio dos Verbos, que queremos fazer
Frequentativos: v.g. Ando lendo: Ando pensando. — Inchoativos,
os que significam o principio de qualquer acção:
v. g. Adormecer, Acordar, supprem-se do mesmo
modo com o Verbo Ir, como auxiliar: v. g. Vou aquecendo:
Vou aproveitando
. — Reciprocos, por outro nome
Reflexivos ou Pronominaes, os que exprimem uma
acção, que recae na pessoa que a faz. Estes Verbos são
sempre acompanhados dos Pronomes Me, Te, Se: v. g.
Abstenho-me: Compadece-te: Gloria-se. — Pessoaes, aquelles,
que só se empregam em todas as pessoas. — Impessoaes,
aquelles, os que se empregam nas terceiras pessoas: v. g.
Chove: Troveja. — Simplices, aquelles, que constam de
uma só parte elementar: v. g. Dizer, Fallar. — Compostos,
os que constam de mais: v. g. Maniatar, Mallograr,
Contraminar
.

(30) Os Transitivos ou são activos só: v. g. Amo: ou
Relativos só: v. g. Depondo: ou Activos Relativos ao mesmo
tempo: v. g. Dou. No primeiro caso regem um complemento
objectivo: no segundo um complemento terminativo;
e no terceiro dois complementos, um objectivo
e outro terminativo, como se verá na Syntaxe.

(31) Distinguiremos os Verbos Intransitivos dos Transitivos,
servindo-nos da pergunta: Quem? ou O que? Os
primeiros não soffrem tal pergunta: os segundos não só
a soffrem, mas ainda a exigem: v. g. Amo. A quem?
A Deus. Estimo. O que? A virtude. Ao contrario quando
digo: Brinco, Corro, Salto, ninguem tem direito para
perguntar: O que? ou A quem?

(32) São Irregulares ou Anomalos: — 1° os Verbos
Abundantes, isto he, que abundam em linguagens: v. g.
os Verbos que formam dois Participios do Preterito, como
Affligir, Affligido e Afflicto: — 2° os Verbos Defectivos,
isto he, os que lhes faltam vozes: v. g. os Verbos
Impessoaes: — 3° os Verbos, que mudam as lettras
radicaes, que são immudaveis nos Verbos Regulares: v. g.
Pedir, Peço: — 4° os que perdem algumas lettras, ou
syllabas em muitas linguagens: v. g. Dizer, Diria: 5°
os que em fim terminam as pessoas de differente
modo: v. g. Induzo, Induzes, Induz &c.

(33) Modos são as quatro differentes maneiras com que
os Verbos exprimem a sua significação: v. g. pelo Indicativo
mostram a coisa affirmativamente: pelo Imperativo
mandam que se faça: pelo Conjunctivo mostram a coisa
com dependencia d’outra: e pelo Infinito mostram-na
indeterminadamente. Em geral diz-se que o Verbo está no
modo Finito, quando suas vozes estão fora do Infinito.
Seus Numeros são o Singular e o Plural; e Pessoas as
terminações que as indicam.

(34) A maneira de estudar estas Conjugações, que aqui
se ajuntam para mais facilidade, he dar cada Verbo
em separado: v. g. aprendendo toda a conjugação do Verbo
Ser pela primeira columna, e depois passar aos outros
pela mesma ordem. Os principiantes se exercitarão uns
com os outros, fazendo sobre qualquer linguagem as seguintes
perguntas, por exemplo: Eu sou: E que tempo
falla? Em que pessoa? Em que numero? Em que modo
?
&c. Todos estes quatro Verbos Auxiliares são de
grande uso na lingua Portugueza, e convém conhecer as
differentes maneiras com que são empregados. — O Verbo
Ser entre os Verbos goza de um lugar mui distincto.
Chamam-lhe Verbo Substantivo, porque he o unico, que
sempre exprime simplesmente a existencia do Predicado
no Sujeito da proposição. Os outros Auxiliares algumas
vezes se tomam como Activo Transitivos ou Intransitivos:
v. g. Tenho dinheiro: Estou em pé: Haverei esta divida:
e só no serviço de Auxiliares perdem a sua propria
e natural significação para exprimirem os varios estados
de existencia ou começada, ou continuada, ou acabada
debaixo dos quaes se pode considerar um objecto.
Porém o Verbo Ser nunca muda da sua primeira significação.
Com elle se podem supprir todos os outros Verbos,
e a elle se reduzem todas as orações em ultima analyse
logica. Junto aos Adjectivos Verbaes fórma todos
os tempos, e vozes activas, que se exigirem: v. g. Sou
louvado: Sou vivente: Sou admirador
: e junto aos Participios
do Preterito dos Verbos Adjectivos fórma, e suppre
todos os Verbos Passivos, de que carece a nossa lingua:
v. g. Sou louvado: Sou applaudido. — O Verbo Estar
tem quasi o mesmo uso, e amplitude. Com o Participio
do presente de qualquer Verbo Adjectivo fórma
todos os tempos e vozes activas: v. g. Estou lendo: Estou
estudando
; e com o Participio do Preterito fórma
muitos tempos e vozes passivas: v. g. Estou ferido: Estou
desenganado
. — Do mesmo modo os outros Verbos
Auxiliares Ter e Haver, juntos ao Participio do Preterito
dos Verbos Adjectivos formam muitos tempos e vozes
activas: v. g. Tenho louvado: Houvera louvado: e passivas
acrescentando-se-lhes o Participio do Verbo Ser:
v. g. Tenho sido louvado: Houvera sido applaudido &c.
Estes mesmos Verbos Auxiliares se combinam, e auxiliam
uns aos outros de tantas maneiras, que muitas vezes
são Auxiliares de si mesmos: v. g. Tenho tido: Hei
de haver
&c. Todas estas combinações são para a nossa
lingua fontes de riqueza, d’onde lhe advém uma copia indizivel
de expressões sempre variadas, e cheias de energia.

(35) O Infinito Pessoal he um idiotismo só proprio
da lingua Portugueza, com que se evitam muitos equivocos,
quando o Sujeito do Infinito he differente do Sujeito
do Verbo Finito Regente: vg. Creio termos sido
enganados: Julgo seres sabedor
. Na primeira oração,
se estivesse ter em lugar de termos, não se saberiam
quem eram os enganados, e na segunda se estivesse
ser, igualmente não saberiamos quem era o sabedor.

(36) Estes quatro Participios do Preterito Sido, Havido,
Tido, Estado
, nunca se empregam na Oração como
Verbos Adjectivos; mas sempre juntos com
o Auxiliar Ter: vg. Tenho sido: Tenho havido: Tenho tido:
Tenho estado
. Neste uso só o primeiro he auxiliar,
e os outros auxiliados.

(37) O Tempo Presente não só exprime a coisa que
se faz no tempo em que se falla: vg. Louvo:
mas ainda o que se costuma fazer: posto que se
não faça naquelle instante: vg. Estudo Grammatica.
Mostra igualmente coisas verdadeiras segundo todos os
tempos: vg. Deus he omnipotente: O homem he mortal;
e para mais energia muitas vezes se põe em lugar do
Preterito: vg. Não acabava quando uma figura se nos
mostra no ar robusta e valida
. Sendo precedido da
Conjuncção Se recebe a significação do Preterito, e algumas
vezes do Futuro: vg. Se meu pai chega, que diria?
— Se Pedro vem, que fará? — Isto he: Se meu
pai chegasse, que diria? — Se Pedro vier, que fará
?

(38) A divisão formada com risco nas vozes dos Verbos
não he porque assim se escrevam estas palavras;
mas para se differençarem as lettras radicaes, que nunca
mudam nos Verbos Regulares, das desinencias proprias
de cada modo, tempo, numero, e pessoa. Por
meio destas desinencias he mui facil conjugar qualquer
Verbo Regular: vg. Louv-ar mudando o ar, em o, as,
a, amos, ais, am fica Louvo, Louvas, Louva, Louvamos,
Louvais, Louvam
, e assim nas outras vozes.

(39) Este Preterito he assim chamado; porque significa
uma coisa passada; mas incompleta: vg. dizendo-se
Louvava, diz-se o que se fez sem declarar, se foi
completo o louvor que se fazia. Muitas vezes declara uma
coisa como presente no tempo, em que outra se fez:
vg. Eu dormia quando chegaste.

(40) O Preterito Perfeito exprime uma acção absolutamente
completa: vg. Alexandre venceu a Dario.
Forma-se ainda outro Preterito Perfeito composto do
Verbo Ter, e do Participio do Preterito de qualquer
Verbo Adjectivo: vg. Tenho louvado: Tens louvado, &c.

(41) Este Preterito chama-se mais que perfeito; porque
denota uma coisa já feita antes d’outra que se fez:
v. g. Pedro accusaou Antonio; porque este lhe roubára varios
dinheiros
. Com as vozes deste Preterito formam
desnecessariamente muitos Grammaticos o Preterito
Imperfeito e mais que Perfeito do Conjunctivo. Todas
as linguagens Indicativas se tornam Conjunctivas, isto
he, subordinadas, quando se lhes ajuntam algumas particulas,
que lhes suspendam o sentido: vg. Se amas a
Deus, cumpres o primeiro dever do Christianismo
. He
mais usado e expressivo o Preterito mais que Perfeito
composto do Ter, e do Participio do Preterito de qualquer
Verbo Adjectivo: vg. Eu tinha louvado: Tu tinhas
louvado
, &c.

(42) O Futuro mostra uma coisa que está por vir.
As segundas, e terceiras pessoas exprimem algumas vezes
linguagens Imperativas: v.g. Não levantarás falsos
testemunhos
. Forma-se tambem um Futuro composto do
Verbo Ter, e do Participio do Preterito de qualquer
Verbo Adjectivo: v. g. Eu terei louvado: Tu terás louvado,
&c.

(43) O Tempo Condicional declara uma coisa, que
seria, ou havia de ser, realizando-se alguma condição,
v. g. Iria comvosco se pudesse.

(44) As vozes Imperativas denotam um mandado presente,
e uma execução futura, e d’aqui procede a divergencia
entre os Grammaticos, attribuindo uns estas
linguagens ao Presente, e outros ao Futuro.

(45) Com o Presente do Conjunctivo muitas vezes se
mostra o Futuro: vg. Duvido que chegue antes do meio-dia:
isto he, Duvido se chegará
. As terceiras pessoas
exprimem ainda muitas linguagens Imperativas:
vg. Seja a justiça a regra da vossa conducta.

(46) Com as vozes deste Preterito se pode mostrar o
Passado, o Presente e o Futuro, conforme as palavras
que se lhes ajuntarem: vg. Desejava que chegasse hontem,
que chegasse agora, ou amanhã
.

(47) O Futuro do Conjunctivo mostra uma coisa que
ha de acontecer; porém com duvida, e quasi sempre he
precedido das Particulas Se ou Quando: vg. Aprenderás
se fores applicado: Medita quando leres
.

(48) O Infinito propriamente não he modo do Verbo,
diz o conde de Tracy, he o seu nome, ou um substantivo
ou o Verbo no modo Substantivo; assim como o Participio
he o mesmo Verbo no modo Adjectivo. Na oração
quer venha de per si, quer acompanhado de seus complementos
sempre serve, e faz as vezes de Substantivo.

(49) Este Participio he indeclinavel, e tem dois usos
na nossa lingua, ou compõem linguagens activas com o
Auxiliar Estar: vg. Estou lendo: Estou cogitando, ou
serve de complemento circunstancial de modo ou de
causa
: vg. Zombando se diz verdades. Tito enchendo os
homens de beneficios, se tornou as delicias do genero humano
.
O seu Substantivo ordinariamente vem occulto,
quando he o Sujeito da oração, a que se ajunta; porém
deve estar expresso, quando he diverso: vg. Conhecendo
todos quanto val o tempo, poucos ha que o não desperdicem
.
Entre os Participios do Presente muitos erradamente
contam os Adjectivos verbaes acabados em nte: vg.
Amante, Vivente, Pedinte. Similhantes nomes conservam
quasi sempre a natureza de Adjectivos, e raras vezes
participam da regencia dos Verbos donde nascem;
pois dizendo-se: Amante da virtude, e Pedinte da esmola:
não se pode dizer Amante a virtude: Pedinte a esmola.

(50) Os Participios do Preterito servem: 1° de formar
linguagens passivas, juntos com o Verbo Ser: — 2° linguagens
activas juntos aos Verbos Ter e Haver, e neste
uso são activos indeclinaveis: vg. Eu tenho louvado: nós
temos louvado
: — 3° de Adjectivos verbaes, concordando
com os seus Substantivos em genero e numero: vg.
Lugar povoado: — 4° de Nomes substantivados por meio
de algum artigo: vg. O povoado: um agasalhado gostoso.
Muitos Verbos formam dois Participios do Preterito, um
inteiro e regular, o outro contrahido, e irregular: como
se vê dos exemplos a pag. 40.

(51) Os professores farão decorar esta tabella aos seus discipulos a fim de lhes facilitar
a conjugação de qualquer verbo regular indicando o verbo pelo seu Infinito.

(52) Alguns Grammaticos chamam a este verbo irregular
de todas as conjugações por não pertencer a nenhuma
das tres regulares. Outros Grammaticos fazem
deste verbo uma quarta conjugação cujo infinito acaba
em ôr, e conjugam por ella os seus compostos que são:
Antepôr, Compôr, Contrapôr, Depôr, Descompôr, Dispôr,
Expôr, Impôr, Indispôr, Intrepôr
ou Entrepôr,
Oppôr, Pospôr, Prepôr, Presuppôr, Propôr, Repôr,
Sobrepôr, Sotopôr, Suppôr, Transpôr
.

(53) Além destas ha ainda outras Particulas Syllabicas,
que só servem de se juntarem a outras palavras,
formando com ellas uma só, ou para mudarem a sua significação:
v. g. Infeliz, em que a Particula In, muda a
significação de Feliz ou para as tornarem mais harmoniosas,
e faceis de pronunciar: v. g. as Particulas Go, Co,
que sempre se ajuntam aos Pronomes, que designam a
primeira, e segunda pessoa, e ao Reciproco Se, quando
estes são complementos da Preposição Com: v. g. Commigo,
Comtigo, Comsigo, Comnosco, Comvosco
. Na palavra
Rei quasi sempre nos servimos do artigo Hespanhol El
formando uma só palavra: v. g. El-Rei, Del Rei.

(54) As palavras de significação relativa para
formarem uma idéa completa tem necessidade, que se lhes ajunte
o nome da coisa a que dizem relação. As Preposições
são as que ligam esta idéa complementar, e por isso
se reputam partes conjunctivas da Oração. São regentes,
e ao mesmo tempo regidas. Os nossos Grammaticos
contam na Lingua Portugueza até quarenta Preposições:
destas só se podem reputar como taes as seguintes dezesseis:
A, Ante, Após, Até, Com, Contra, De, Desde, Em,
Entre, Para, Per, Por, Sem, Sob
, e Sobre. Todas estas
Preposições exprimem differentes relações, e circumstancias
conforme as palavras a que se ajuntam, como se
verá na Syntaxe.

(55) Os Adverbios são umas palavras ellipticas ou umas
reducções, e expressões abreviadas de uma Preposição
com o seu complemento: v. g. Obrar prudentemente;
he o mesmo que dizer: Obrar com prudencia. Uns
são de affirmar: v. g. Sim, Certamente; outros de negar:
v. g. Não; outros de lugar: v. g. Ahi, Ali; outros de tempo:
v. g. Agora, Hoje: outros de mostrar: v. g Eis: outros de
qualidade: v. g. Bem, Sabiamente; outros de quantidade:
v. g. Mais, Menos, Apenas. Na Lingua Portugueza a cada
passo encontramos Substantivos, e Adjectivos adverbiaes,
isto he, fazendo as vezes de Adverbios: v. g. Fallar
alto, baixo, rijo
, isto he, Em tom alto, baixo, rijo. Comprar
barato, caro
, isto he, em preço barato, caro. Encontram-se
ainda muitos Adverbios compostos e sobre
compostos: v. g. Donde, Até aqui, Antehontem, Tresantehontem,
&c., e muitas phrases, ou formulas adverbiaes:
v. g. A’s claras, A’s escuras, De improviso, Em continente.

(56) As Conjuncções umas são Copulativas: v. g. E,
Tambem
: outras Disjunctivas: v. g. Ou, Nem: outras Causaes:
v. g. Pois, Porque: outras Conclusivas: v. g. Logo,
Portanto
: outras Adversaivas: v. g. Mas, Porém: outras
Condicionaes: v. g. Se, Senão, &c.

(57) O Sujeito de qualquer Oração quasi sempre he
um Substantivo com Artigo, sendo Appellativo, ou sem
elle sendo Proprio; comtudo muitas vezes serve de Sujeito
uma Oração inteira: v. g. He util que estudes: ou
um Verbo no Infinito: v. g. O saber he o principio, e a
fonte de bem escrever
: ou um Adjectivo substantivado,
por meio do Artigo: v. g. O justo sempre he digno de
respeitos
: ou qualquer palavra, ou letra tomada substantivadamente:
v. g. ONDE he um Adverbio: A he uma lettra
vogal
.

(58) O Predicado ordinariamente he um Adjectivo;
v. g. Pedro he vivente: ou um Appellativo adjectivado pela
ausencia do Artigo: v. g. Pedro he homem. Pode ser ainda
uma Oração inteira, ou qualquer palavra, ou lettra tomada
adjectivamente.

(59) Os accessorios juntos ao Pronome Tu chamam-se
Vocativos, e são sempre antecedidos da Interjeição O,
clara, ou occulta. Esta, quando o Pronome está occulto,
serve de dar a qualquer nome a determinação de segunda
pessoa, e por isso taes Accessorios sempre vem unidos
ao Verbo na segunda pessoa: v. g. Céus, ouvi nossos
rogos
: val o mesmo que dizer: Vós, Céus, ouvi nossos rogos.

(60) Os Complementos Objectivos são os Accusativos,
ou Pacientes dos Verbos Activos dos Latinos, os Terminativos,
os Dativos de attribuição, os Restrictivos, os
Genitivos de possessão, e os Circumstanciaes, pelos Latinos
chamados Ablativos, os casos regidos de Preposição.
Muitas vezes servem de Complementos orações inteiras.

(61) Este Complemento ordinariamente se colloca depois
do seu Verbo, antecedido de alguns dos artigos geraes,
quando se dirige a coisas, e da Preposição A, quando
se dirige a pessoas: v. g. Louvo a Deus. Algumas vezes
vem só de per si, quando se mostram coisas indeterminadas:
vg. Dei livros: — Recebi dinheiros.

(62) O Complemento Terminativo pode ser regido das
Preposições A, Para, Por, De, Com, Contra: v. g. Entregou-se
á virtude. — Presta para muito. — Troquei oiro
por prata. — Lembro-me de ti. — Reconciliou-se com
seus inimigos. — Conjurou-se contra a patria.

(63) O Complemento Restrictivo he sempre regido da
Preposição De.

(64) As Circumstancias da Oração exprimidas por
Complementos circumstanciaes são a Materia regida da
Preposição De: v. g. Escudo de cobre: — a Causa regida
d’A, De, ou Por: v. g. Morreu á fome; Chora de gosto:
Trabalha por premio
: — o Modo regido de A, Com, De,
Em
, ou Por: v. g. Veiu á cavallo: Escreve com cuidado:
Vestiu-se de gala: Está em seu juizo: Veiu por procurador
:
— o Tempo regido d’A, De, Desde, Em, ou Por:
v. g. A’ uma hora: Veiu de noite: Desde a madrugada:
Em dois mezes: Por um anno
: — o Lugar onde regido
d’A, Ante, Apos, Em, Sob ou Sobre: v. g. Encontraram-se
á porta: Ante o Juiz: Estava após elles: Em Lisboa:
Sob o meu signal: Sobre a mesa
: — o Lugar para onde
regido d’A, Após, Para: v. g. Foi á igreja: Hia após elles:
Foi para a quinta
: — o Lugar donde regido de De,
Desde
: v. g. Venho de casa, Desde o rocio: — o Lugar
por onde
regido d’Em ou Por: vg. Anda em Lisboa ou
por Lisboa: — o Instrumento e o Ajuntamento regido de
Com: v. g. Com a espada: O pai com o filho: — o Preço
regido d’A, Em, ou Por: v. g. A tostão: Avaliado em
duas moedas: Por uma moeda
: — o Fim regido de Para:
v. g. Estudo para saber: — o Principio ou parte donde
alguma acção procede
, regido de De, ou Por: Procede
de Francisco: Foi morto por Pedro
: — a Opposição
regida de Contra: v. g. Contra Francisco: — a Exclusão
regida de Sem: v. g. Sem prudencia: e o Excesso regido
d’Em: v. g. Excede em valor. — O Lugar, e o Tempo
muitas vezes se tomam virtualmente, isto he, como
se fossem: v. g. Está na missa: No reinado d’El-Rei
D. José houve em Lisboa um horrivel terremoto
.

(65) Os Verbos Intransitivos só podem reger um Complemento
objectivo similhante sempre acompanhado de
algum accessorio circumstancial: v. g. Pedro dormiu um
somno mui aprasivel
. Os Transitivos sendo só activos pedem
um Complemento objectivo diverso: v. g. Amo a
virtude
: sendo só relativos um Complemento terminativo:
v. g. Dependo de Deus: sendo activos relativos dois
Complementos um objectivo, e outro terminativo: v. g.
Dei um livro a Pedro.

(66) Se a Oração fosse sempre composta com todo o
seu rigor e exactidão grammatical, muitas vezes se tornaria
enfadonha pela multidão de palavras, de que seria
sobrecarregada, suas concordancias se fariam em muitas
occasiões impossiveis, e ficaria quasi sempre aspera, e desagradavel
ao ouvido, quando na collocação das palavras
seguissemos impreterivelmente a ordem natural. Para
obviar estes inconvenientes he preciso occultar-lhe muitas
vezes todos aquelles termos, que são de facil intelligencia,
formar suas concordancias por certas leis particulares,
e transpor as palavras de maneira, que formem uma
pronuncia suave e harmoniosa, e d’aqui procedem as
figuras acima mencionadas. As outras que a estas se ajuntam,
como bem reflecte Sanches em sua Minerva livro
4°, só são partos monstruosos dos Grammaticos.

(67) N’este exemplo ha duas Orações e ambas ellipticas.
Na primeira falta-lhe o Sujeito, e na segunda o Sujeito,
e o Verbo. Supprem-se d’este modo: Tu donde
vens? Eu venho de Lisboa
. Por esta figura quasi sempre
se occulta o Sujeito da Oração, quando este he da primeira,
ou segunda pessoa; porque logo se entende do
Verbo: v. g. Desejo que tenhas saude: isto he, Eu desejo
que tu tenhas saude
. Occulta-se ainda sendo da terceira,
quando he o mesmo da Oração antecedente, ou quando
o Verbo por si o demostra: v. g. Chove, relampeja, troveja,
em que se entende o Céu, o Ar, &c. Igualmente occulta-se
o Verbo, quando este he o mesmo da Oração
antecedente, ou quando o Sujeito o dá a conhecer: v. g.
Antes morte, que vida vergonhosa: isto he, Antes haja
morte, que haja vida vergonhosa
. Occultam-se tambem
os Substantivos, quando os Adjectivos os dão a conhecer:
v. g. Os mortaes: Os christãos: Os infieis: entende-se:
homens: e as Preposições de facil intelligencia: v. g. Sabbado
fui á igreja
: isto he, Em sabbado. Acabada a
funcção retirei-me
: isto he, Com a funcção acabada, retirei-me.
O uso tem auctorizado muitas phrases ellipticas,
que se supprem do seguinte modo: v. g. Bons dias! entende-se:
te dê Deus. Bem vindo
! entende-se: sejas. A
Deus
! Entende-se: peço que te guarde. Até logo: entende-se:
eu te espero. Ai de mim! Ai de ti! entende-se:
Ai fallo de mim! Ai fallo de ti! Creio que sabes: isto
he, Creio isto, que he, sabes. Depois que partiste: isto he,
depois do momento que partiste. Posto eu á mesa deu
meio dia
: isto he, Estava eu posto á mesa, quando o relogio
deu signal do meio dia. Ouvi missa em S. Gonçalo,
isto he, na igreja de S. Gonçalo
. Nestas phrases interrogativas:
Quanto custa este livro? Como vão as coisas?
Aonde vais? Porque? Sempre se entende uma phrase
imperativa: v. g. Diz-me o preço por quanto… O modo
como … O logar… A razão porque
… &c. Deste modo
se podem supprir outras Orações similhantes.

(68) No exemplo proposto claramente se vê, que nem
o Verbo morreram concorda com o Sujeito nem o Adjectivo
feridos com o seu Substantivo; mas com os soldados,
que se concebem comprehendidos no Substantivo
parte. A concordancia regular do Adjectivo suppõe
um só Substantivo na Oração, e a do Verbo um só Sujeito.
Porém tendo muitas vezes um mesmo Adjectivo
de concordar com dois, ou mais Substantivos de differentes
generos e numeros, e um Verbo com muitos Sujeitos
de differentes numeros e pessoas, em todos estes casos
he impossivel formar-se a concordancia no seu rigor
grammatical, e por isso se usa de Syllepse. As regras
que o uso tem estabelecido na pratica desta figura são as
seguintes: 1° Concorrendo muitos Sujeitos de differentes
pessoas do Singular, o Verbo irá ao plural; porque
muitos singulares formam plural, e concordará com a
pessoa mais nobre: v. g. Eu e tu estamos bons. Tu e Tulia
estaes bons
. A nossa liberdade, honra e vida estão em
perigo
. 2° Depois de um Substantivo Collectivo Partitivo
do singular, sendo seguido da Preposição De, e de
um nome do plural, o Adjectivo e Verbo concordarão
com o plural, e não com o singular: v. g. no exemplo acima
mencionado: Parte dos soldados ficaram feridos. 3°
Concorrendo o Verbo Haver Impessoal na significação
de existir, ou outros, que o determinem ao Infinito, podem
estes estar no singular e os seus Sujeitos no plural,
tomados collectivamente: v. g. Ha tempos: Houve
muitos homens: Haverá cem annos: Pode haver alguns:
Acontece haver pessoas
: &c. 4° Quando o Adjectivo depois
de dois ou mais Substantivos do singular he Predicado,
vai com o Verbo ao plural concordando em genero
com o Substantivo mais nobre: v. g. O marido e a mulher
são generosos
. 5° Quando o Adjectivo he opposto a
muitos Substantivos de significação quasi synonima, concorda
com o ultimo de qualquer genero, que seja: v. g. O
amor, e a amizade verdadeira
. 6° Se os Substantivos
estão no plural, o Adjectivo concorda com o mais proximo,
ou este lhe fique atraz, ou adiante: v. g. Seus temores
e esperanças eram vãs
: ou Eram vãos seus temores, e
esperanças
. 7° Se um Substantivo está no singular, e
o outro no plural, o Adjectivo ordinariamente concorda
com o do plural, em genero qualquer, que este esteja: vg.
As fazendas, e o dinheiro eram muitos. 8° Aos nomes
de tratamentos politicos ainda que sejam femininos,
deve-se-lhes ajuntar depois o Adjectivo na terminação
masculina, se se applica a homens: v. g. Sua Magestade
foi servido
. 9° Quando se usa dos pluraes Nós, Vós, em
lugar dos singulares Eu, Tu, os Verbos concordam com
elles só no plural; mas os Adjectivos, que concorrem,
se põem no singular; v. g. Sem estudardes nunca sereis sabio.

(69) Desta figura usam com mais liberdade os Poetas,
que os Prosadores; comtudo ainda mesmo em prosa ha
phrases, que se não podem exprimir bem senão por meio
de inversões: v. g. Que disciplina pode estabelecer em
seu exercito um General, que não sabe regular a sua vida
?
Como poderá ou exercitar, ou acalmar em seus soldados
differentes paixões, conforme he preciso, quem
não he senhor das suas
? Reduzi estas Orações, e outras
similhantes á sua ordem directa, e grammatical, e perderão
não só a sua força; mas ainda o sentido, e muitas
vezes ficarão amphibologicas, e ambiguas. O uso he tão
poderoso, que já tem feito como naturaes muitas expressões
figuradas, e assim dizemos: Alguns livros tenho: Ha
muitos soldados: Ha poucos viveres
: e não Tenho livros
alguns: Soldados muitos ha: Viveres poucos ha
.

(70) As Orações Incidentes são sempre explicativas,
ou restrictivas do sentido de alguma palavra da Oração
Principal
, e ainda mesmo de uma Oração Subordinada.

(71) Nada ha mais facil que este conhecimento, quando
os Principiantes se recordem que todas as palavras
Portuguezas se reduzem a Artigos, Nomes, Verbos e
Particulas, e se lembrem das definições, e regras dadas
na Etymologia para se conhecer esta distincção. A difficuldade,
que pode occorrer, he em algumas palavras
ambiguas, que se confundem com outras: v. g. conhecer
quando A he Preposição, Artigo, ou Pronome: quando
O, Os, As, são Artigos ou Pronomes: quando Se, e
Que são Conjuncções, ou Pronomes, &c. Porém, as posições
destas palavras, e seus differentes officios na Oração
mostrarão suas naturezas. Causam ainda embaraço
certas abreviaturas da nossa Lingua, isto he, certas palavras,
que se incorporam com outras, formando uma
única: v. g. a Preposição De, que, seguindo-se-lhe algum
dos Artigos O, A, Os, As, ou algum dos Pronomes
Este, Esse, Elle, se escreve Do, Da, Dos, Das, Deste,
Desse, Delle
, em lugar de De-o, De-a, De-os, De-as, De-este,
De-esse, De-elle
. O mesmo acontece aos Pronomes
Me, Te, Lhe, quando se lhes segue algum dos Pronomes
O, Os, A, As, que se contraem em uma só palavra:
v. g. Mo, Mos, Ma, Mas, To, Tos, Ta, Tas, Lho,
Lhos, Lha
, e assim quando dizemos: deram-no:
deram-to: deram-lho
: he o mesmo que dizer: deram me o:
deram-te-o
: todas estas abreviaturas, e outras similhantes
serão explicadas na Prosodia, quando se tratar das
figuras da Dicção.

(72) O Verbo he a chave, com que podemos entrar
neste exame da Oração: v. g. Pedro em Coimbra emprestou
um livro a Francisco para o estudo
: Perguntando a
nós mesmos: Quem emprestou? Onde emprestou? Que
emprestou? A quem emprestou? Para que fim emprestou?
Logo se descobre que Pedro he o Sujeito, em Coimbra,
o complemento circumstancial de lugar, um livro,
o complemento objectivo do Verbo emprestou, a Francisco
o complemento terminativo, e para o estudo o
complemento circumstancial do fim para que, e deste
modo nas outras circumstancias ocorrentes.

(73) Dos 25 caracteres, de que se compõe o nosso alphabeto,
o H só he lettra, e forma som depois de L, ou,
N: v. g. Lhe, Nhe, fora destes casos he inteiramente muda
e inutil. As lettras C, K, Q, não são mais que uma
única, representada por tres signaes differentes. O mesmo
se pode dizer do I, e Y. Ao contrario apenas temos
cinco Lettras Vogaes, e com ellas exprimimos um grande
numero de vozes differentes, como adiante se verá.
Esta imperfeição do nosso abecedario he a primeira fonte
das difficuldades invenciveis, que encontramos na nossa
Prosodia e Orthographia.

(74) Exceptuando as prolações Lh, e Nh, todas as
outras devem ser contadas no n° das lettras inuteis. Alguns
modernos têem pretendido desterral-as da nossa
Orthographia; porém o uso tem sempre triumphado da
reforma intentada!

(75) A divisão das Consoantes em Mudas, e Semi-vogaes,
ensinada por muitos Grammaticos, he inteiramente
estranha á nossa Lingua. Chamam Mudas a todas aquellas
lettras, que se pronunciam accrescentando-se-lhes
um e adiante v. g. Bê, Cê, Dê, &c.: — e Semi-vogaes,
aquellas, que se pronunciam, com dois ee, um antes outro
depois: v. g. efe, ele, eme, ene, erre, esse. Porém
entre nós nenhuma d’estas lettras he Semi-vogal, senão
porque erradamente as pronunciamos conservando-lhes
a nomenclatura romana. Porquanto quando com ellas
formamos alguma syllaba, dizemos, v. g. fá, fé, &c. e
não efá, efé, &c. A vogal antecedente não tem algum uso
na nossa pronuncia, e por isso sua denominação deve
ser reformada, como adiante se dirá. Com mais exactidão
os modernos as dividem segundo as suas articulações,
em Labiaes puras: v. g. B, M, P; porque se pronunciam
comprimindo mais, ou menos os beiços: Labiaes
Dentaes
: v. g. F, V; porque a sua pronuncia depende
dos labios e dentes: Linguaes Gutturaes: v. g. C, G, Q;
porque dependem da lingua e garganta: Linguaes Dentaes:
v. g. D, F, porque dependem da lingua e dentes:
Sibilantes: S, Z; pelo assobio, que formam na pronuncia:
Chiantes: v. g. J, X; pelo estridor, que causam quando
se proferem: e Nazaes: v. g. N. Nh; porque se pronunciam
pelo nariz. O R he Lingual Palatal Tremolante
pela tremura, que forma na pronunciação.

(76) Se o nosso abecedario he defeituoso pelas lettras,
que tem inuteis, muito mais o he pelas necessarias, que
lhe faltam e pelo abuso extravagante, com que as confundimos.
Por exemplo não só pela falta, que temos de
carateres vogaes, exprimimos com a lettra A duas vozes
differentes, e com o E tres; mas ainda confundimos
muitas vezes o mesmo E com o I, e com o Ditongo Ei,
e o O com o U, e com o Ditongo Ou. O único meio,
que temos de conhecer este differente valor das nossas
Vogaes, são os accentos, quando elles vêem expressos,
ou o uso vivo da lingua, quando as palavras são vulgares
e triviaes. Fora destes casos estamos inteiramente
entregues aos caprichos do erro e da ignorancia. A unica
regra, que sobre este particular nos dá a Prosodia,
limita-se tão somente aos nomes portuguezes, que têem
dois OO no singular, um fechado na penultima, e outro
mudo na ultima. Estes geralmente no plural mudam
o O fechado em aberto: v. g. Fôgo, Fógos; Fôrno, Fórnos;
exceptuando-se os pluraes: Barrôcos, Bôjos, Bôlos,
Côco, Chôros, Côlos, Côxos, Ferrôlhos. Fôjos, Fôrros,
Frôxos, Gôrdos, Gôstos, Gôzos, Lôbos, Môxos, Môços,
Môlhos
, (de prato), Nôjos, Pôios, Rôdos, Rôlos, Sôldos,
(paga), Sôlhos, Sôrvos, Tôlos, Trôcos, Vôdos, que conservam
o mesmo valor do singular.

(77) Til he um signal orthographico equivalente a um
m, ou n. colloca-se sobre a Vogal, a que pertence alguma
destas Consoantes, e a torna Nazal, lançando-se o
seu som pelo nariz.

(78) Por meio desta denominação, e nomenclatura,
das Consoantes, todas as Nações civilisadas têem facilitado
os methodos de soletrar, de syllabar, e de ler em
que os meninos em nossas escolas tanto tempo gastam
com muito trabalho, e pouco fruto. As Instrucções Regias
de 28 de Setembro de 1824, dirigidas aos Mestres
de Primeiras Lettras, positivamente ordenam este mesmo
methodo; porém infelizmente ainda he mui vulgar a antiga
nomenclatura das pretendidas Semi-vogaes efe, ele,
eme
, &c. em que se dá ás lettras um valor, e som, que
ellas não têem em nossa Lingua; e que só serve de embaraçar
e confundir os Principiantes. Tanto custa desarraigar
os antigos prejuizos!

(79) Nesta util, e extravagante metamorphose das lettras
na formação das syllabas consiste a principal origem
dos embaraços, que encontramos na Prosodia, e Orthographia
da nossa lingua. E para lamentar que as artes de
lêr, e de escrever, as mais uteis, e necessarias, que se
podem propôr á Infancia, e que mais se deviam facilitar,
estejam sobrecarregadas de tantas difficuldades peniveis,
e superfluas. Comtudo sempre têem sido mal recebidos
os que n’esta parte pertenderam alterar os usos estabelecidos,
e a falta de observancia destas regras he geralmente
reputada como rudeza, e falta de instrucção.

(80) Quantidade he a medida da duração, que damos
á pronunciação de qualquer syllaba. Esta, como observa
Jeronymo Soares Barbosa, he toda relativa, bem como
he a das notas da Musica, em que uma não he mais
longa senão comparada com outra, que he o de menos. Por
exemplo, quando na palavra Trégua dizemos que a primeira
syllaba he longa, e gasta dois tempos, isto se entende
só em relação ás duas seguintes, que se pronunciam
com mais brevidade.

(81) He mui facil, e seguro o conhecimento da
quantidade das syllabas portuguezas, conhecendo-se, se as vogaes,
que as formam, exprimem vozes abertas, ou mudas.
As abertas são sempre longas, e as mudas breves.
Porém, quando duvidamos, ou ignoramos o som das vogaes,
todas estas regras se tornam inuteis.

(82) Não tendo nós tantas lettras vogaes quantas as
vozes, que exprimimos, he necessario usar dos Accentos
para com elles mostrarmos o som das syllabas, de
que nos servimos. O Accento Agudo marca as vozes abertas,
o Circumflexo as fechadas, e o Grave as mudas.
Este ultimo vem sempre occulto, excepto quando sem
elle a palavra se confunde com outra. Deste modo pois
se supprem as vogaes, que faltam em nosso alphabeto, e
conseguiriamos a verdadeira pronunciação, se os nossos
Diccionaristas fossem mais exactos em accentuar as palavras,
não deixando sua pronuncia entregue aos desvarios
da ignorancia.

(83) O Accento Predominante, recahindo sempre n’uma
syllaba aguda ou circumflexa, torna o seu som mais
intenso, e forte: v. g. a palavra Pégáda tendo a primeira,
e segunda agudas, o som da segunda he mais forte,
e intenso por ser o Accento Predominante. Seria a desejar
um signal proprio para os Accentos Predominantes.
Havendo em muitas palavras algumas syllabas agudas e
circumflexas, sem serem Predominantes, os signaes usuaes
tornam-se equivocos, e produzem erros feissimos.

(84) Nenhuma palavra, que por si só faça corpo, pode
jamais pronunciar-se sem que tenha um Accento Predominante.
Sem elle todos os nossos vocabulos feiamente
se tornariam uma enfiada de syllabas soltas, monotonas,
e desligadas. Comtudo exceptuam-se desta regra as palavras
Encliticas, que se acostam a outras no fim para
com ellas serem pronunciadas debaixo do mesmo Accento:
v. g. as Particulas Co, Go, que se ajuntam aos Pronomes
Migo, Nosco, Tigo, Vosco, Sigo: e os Pronomes
Me, Nos, Te, Vos, Se, O, A, Os, As, Lhe, Lhes, que se
ajuntam aos Verbos: v. g. Louvo-me, Louvamo-nos, Louva-te,
Louva-vos, Louva-se, Louva-o, Louva-lhe
, &c. Nenhuma
destas palavras tem Accento Predominante; porque
por si só não fazem corpo, e só se pronunciam juntamente
com outras.

(85) Excepções. 1° Das palavras acabadas em I, U,
e Vogal Nazal, tiram-se Quasi, Tribu, Benção, Frangão,
Sotão
, e todas as formas dos Verbos em ão como Louvam,
Louvaram, Louvariam
: (excepto as do futuro). 2°
Das acabadas em Em tiram-se Homem, Ordem, Imagem,
e todas as formas dos Verbos acabados em em como
Louvem, Louvarem, Temem, Partem. 3° Das acabadas
em L, R, S, tiram-se Tentugal, Setubal: os Adjectivos
em vel, ul, il: v. g. Admiravel, Consul, Docil, Aljofar,
Ambar, Assucar, Nectar, Martyr, Alferes, Calis, Herpes,
Ourives, Simples
, com todos os Patronimicos em es:
v. g. Domingues, Fernandes, &c., os quaes todos tem
Accento na penultima.

(86) Tem a ultima e penultima breves os nomes acabados
em ancia, encia, uncia, ario, erio, irio, iria, orio,
e seus pluraes: v. g. Arrogancia, Obediencia, Renuncia,
Formulario, Ministerio, Martyrio, Giria, Adjutorio:
e do mesmo modo os nomes acabados em aveis,
eveis, iveis, oveis, uveis: v. g. Amaveis, Indeleveis, Inauferiveis,
Immoveis, Voluveis, cuja syllaba predominante
he a antepenultima.

(87) Usamos da Prothese nos Pronomes O, Os, A,
As
, accrescentando-se-lhes antes um n, quando vem depois
das vozes dos Verbos acabados em ão, ou em: v. g.
Amam-no, Louvaram-na, Temem-no, Defendem-nos; em
lugar de Amam-o, Louvaram-a, Temem-o, Defendem-os,
cuja pronuncia não soffre a nossa Lingua.

(88) Por meio da Syncope formamos muitas abreviaturas
dentro das palavras, principalmente em algumas
vozes dos Verbos Dizer, Fazer, Haver, Jazer, Trazer:
v. g. Dirte-hei, Farte-hei, Trarte-hei, Diria, Faria,
Traria, Hemos, Hei, Hia, Hiamos; em logar de Dizer-te-hei,
Fazer-te hei, Dizeria, Fazeria, Trazeria, Havemos,
Haveis, Havia, Havia-mos. Pela mesma figura dizemos
ainda São em lugar de Sancto, Mór em lugar de
Maior, &c.

(89) O principal uso d’Apócope entre nós he
quando na oração concorrem muitos Adverbios acabados em
mente cujas syllabas só se dizem no ultimo: v. g. Breve,
sabia, e elegantemente
, e não Brevemente, sabiamente,
e elegantemente
.

(90) A euphonia, isto he, a suavidade do som, obriga-nos
muitas vezes a usar da Synalepha, sem a qual
frequentemente a nossa pronunciação se tornaria dissonante,
aberta, e difficultosa. He tão trivial entre nós esta
figura, que em muitas palavras até já tem passado á
escriptura usual, formando-se de duas uma única: v. g.
quando a Preposição De vem antes dos Artigos geraes,
ou dos Pronomes demonstrativos, formamos delles uma
única palavra, e dizemos, e escrevemos Do, Da, Dos,
Das, Deste, Delle, Daquelle, Disso, Daquillo
, em lugar
de de o, de a, de os, de as, de este, de elle, &c. O mesmo
acontece quando vem antes de algum Adverbio,
que comece por vogal: v. g. dantes, daqui em logar de
de antes, de aqui. Quando aos Pronomes Me, Te, Lhe,
se seguem os Pronomes O, Os, A, As, igualmente se
contrahem, formando uma só palavra: v. g. Mo, Mos,
Ma, Mas, To, Tos, Ta, Tas, Lho, Lhos, Lha, Lhas
;
em logar de me o, me os, me a, me as, te o, te os, &c.
Em similhantes abreviaturas sempre se comprehendem
dois Pronomes, e assim quando dizemos: deram-mo, entregaram-to,
prometteram-lhos
&c. he o mesmo que dizer:
deram isto a mim: entregaram isso a ti: prometteram
isso a elles
.

(91) A Metáthese he uma das figuras de Dicção, que
mais coopera para a facilidade da pronunciação. Muitas
vezes he preciso trocar, e accrescentar alguma lettra no
fim d’uma palavra: para que esta faça boa sonancia com
as seguintes, e assim o praticamos em muitos casos: 1°
Em todas as vozes dos verbos acabados em S, ou R,
em que mudamos estas lettras finaes em L, seguindo-se-lhes
os Pronomes: O, Os, A, As, v. g. Nós defendemol-o,
em lugar de Nós defendemos o. 2° A Preposição
Em perde muitas vezes o E pela figura Aphérese,
e muda o M em N quando se antepõe aos Artigos A,
As, O, Os, Um, Uma, Uns, Umas
, encorporando-se essas
duas palavras n’uma única: v. g. No, Na, Nos, Nas,
Num, N’uma, N’uns, N’umas
, em lugar de Em-o,
Em-os, Em-a, Em-as, Em-um, Em-uma
, &c. 3° O
mesmo acontece quando esta Preposição se antepõe aos
Pronomes Elle, Este, Esse, Aquelle, Isto, Isso, Aquillo:
v. g. Nelle, Neste, Nesse, Naquelle, Nisto, Nisso, Naquillo,
em lugar de Em elle, em este, &c. 4° As Preposições
Per, e Por, antes dos artigos geraes, e Pronomes
demonstrativos mudam quasi sempre o R em L:
v. g. Pelo, Polo, em lugar de Per-o, Por-o. Advirta-se
que quando escrevemos: v. g. Amam-no, Temem-na o
n ajunta-se ao Pronome; porque o modifica, e não se
põe em logar de outra consoante; porém quando escrevemos:
v. g. Amal-o, Louval-o; o L fica unido ao Verbo,
pois lhe pertence por ser a lettra, em que foi mudado
o R.

(92) O melhor methodo, com que se pode ensinar
aos principiantes a Orthographia usual das palavras, he
mandar-lhes copiar alguns logares de qualquer livro impresso
com boa Orthographia, e costumal-os a repararem
nas lettras, com que cada palavra se escreve. Depois
deste exercicio os Mestres lhes dictarão de viva voz algumas
cartas, ou outro qualquer genero de escripto para
que elles por si mesmo os escrevam, esclarecendo-os
em suas duvidas, e ensinando-lhes o uso das lettras
maiusculas, e das regras de boa pontuação. He preciso
notar-se que no estudo da Grammatica Portugueza não
se póde sar um unico passo sem o soccorro do Diccionario
da Lingua. Este he o único livro, que os Meninos
commodamente podem consultar em suas duvidas orthographicas,
e sem elle jamais poderão conhecer a natureza,
o uso, e a significação das palavras. Os mesmos sabios
não o pódem dispensar: comtudo infelizmente em
nossas escolas não tem algum uso, e até muitos o suppõem
inutil á mocidade. A vista pois de uma tal incuria
não deve admirar o atraso, que observamos nos meninos
a este respeito, as poucas luzes grammaticaes,
que elles ganham nas escolas de primeiras lettras, e a
ignorancia, em que ficam por toda a vida, quando depois
não cursam outros estudos.

(93) Em muitos casos se confunde o som do E e I,
nem temos regra alguma para distinguirmos esta duas
lettras, senão recorrendo ao Vocabulario da Lingua. Esta
confusão he muito notavel nas palavras, que começam
pelas syllabas De, Des, En, Es, que muitas vezes
se confundem na pronuncia com as syllabas Di, Dis,
In, Is
; e assim em vez de se dizer, e escrever: Defamação,
Desconfiança, Enxada, Experteza
, diz-se, e escreve-se
vulgarmente: Difamação, Disconfiança, Inxada,
Isperteza
. Ao contrario em logar de Diligencia,
Discipulo, Induzimento, Isenção
, algumas vezes se diz:
Deligencia, Descipulo, Enduzimento, Esenção. As syllabas
Es, e Ex, no principio das palavras tambem se
confundem no som.

Quem ouve pronunciar, por exemplo, a palavra Exepto
não sabe se a primeira syllaba se escreve com Es,
ou Ex. He preciso fazer este aviso aos principiantes a
fim de se não enganarem na Orthographia de similhantes
palavras.

(94) Esta regra encerra a grande diffuculdade de não
se poderem conhecer as palavras, que são de origem
Grega, senão pelo uso e lição dos livros. O mesmo inconveninente
se encontra n’outras combinações de consoantes
estranhas ao nosso orgão, e que só se usam para
mostrar a origem Latina de muitas palavras. Por exemplo,
as combinações Ct, Gm, Gn, Mn, Pt, cuja primeira
lettra ordinariamente não tem alguma pronuncia
em nossa Lingua: v. g. Acto, Augmento, Ignacio,
Damno, Corrupto
, que se pronunciam Ato, Aumento,
Inacio, Dano, Corruto
.

(95) Uma das maiores difficuldades da nossa Orthographia
he a das consoantes dobradas no meio das palavras,
derivadas das Latinas. Os Latinos dobravam-nas,
diz Jeronymo Soares Barbosa; porque as pronunciavam
ambas; nós porém pronunciamol-as como se fossem uma
só. Logo pela pronunciação, excepto o R, não podemos
saber quando havemos dobral-as senão pelo uso,
e lição dos livros. Muitos Orthographos têem dado d’ellas
longas listas; porém sendo mui difficil conserval-as
de memoria, o principal livro que se deve consultar sobre
este objecto he o Diccionario da Lingua. Para as do
principio póde dar algum soccorro a observação das Preposições
Ad, Con, In, Ob, e Sub pelas quaes começam
infinitas palavras compostas, que derivamos do Latim.
A Preposição ad muda o d em c, f, g, l, ou p, se a palavra,
a que se ajunta, principia por alguma destas lettras:
v. g. acceitar, affectar, aggravar, allegar, applacar.
O N das Preposições Con, e In, se muda em M antes
d’outro: v. g. Commodo, Immovel: e o B das Preposições
Ob, e Sub em P antes d’outro: v. g. Opportuno,
Supposto
.

Toda a palavra, que principia por Di, E, O, e Su, seguindo-se-lhe
immediatamente F dobra esta consoante:
v. g. differir, effeituar, offender, suffocar. Porém todas
estas observações só podem ser uteis aos que tiverem
conhecimento da Lingua Latina. Segundo a Orthographia
presentemente recebida nenhuma lettra Vogal, ou Consoante
se deve dobrar no principio, e fim das palavras,
excepto quando formam duas vozes differentes: v. g. arrazôo,
môo, vôo
, &c.

(96) Excepções. Das partes acabadas em ção tira-se
Accessão, Comprehensão, Discussão, expulsão, impressão,
missão, oppressão, pensão, remissão, sucçessão,
transmissão, versão, &c. que se escrevem com s. Do
mesmo modo dos nomes acabados em eça tira-se abbadessa,
condessa, depressa, expressa, promessa, remessa,
travessa, que se escrevem com dois ss.

(97) Excepções. Das palavras principiadas por ge tira-se
Jejum, Jerarchia, e seus derivados, Jeroglyphico, Jeronymo,
Jesus
, e poucas mais.

(98) Por esta regra hoje geralmente se escreve Um,
E’, Sair, Baú
, sem h; porque nenhuma destas palavras
o tem no Latim.

(99) Excepções. Tiram-se desta regra todas as linguagens
dos Verbos Fazer, Dizer, Prazer, Trazer, os pluraes
dos nomes acabados em Z: v. g. Cruz, Cruzes, Nozes,
Rapaz, Rapazes
, e os nomes femininos acabados em
eza: v. g. Avareza, Belleza, Dureza, &c. que sempre se escrevem
com Z ainda que vem entre vogaes.

(100) Ainda se usa do X no meio de algumas palavras
v. g. Axioma, Bexiga, Caixa, Debuxo, Enxó, Freixo,
Graxa, Hexametro, Influxo, Lixo, Maxima, Nexo,
Orthodoxo, Peixe, Queixa, Rouxinol, Sexo, Vexar, e os
seus derivados. Temos tambem alguns nomes acabados
em X para conservarem a sua origem Latina: v. g. Appendix,
Duplex, Indix, Simplex, e poucos mais. Neste
caso o X tem o valor de S.

(101) Sobre o uso do til tem havido algumas variações.
Ainda hoje disputam os nossos Grammaticos se as palavras
Portuguezas, acabadas em am devem ser escriptas
com am, ou com Ditongo ão. Os antigos ensinaram que
se deviam escrever com am todas aquellas, que acabam
em som breve, ou debil: v. g. Amam, Ensinam; e com
ão as que acabam em som forte e agudo: v. g. Dicção,
Paixão
, e as vozes do futuro nos verbos: v. g. Amarão,
Ensinarão
. Prevaleceu depois a opinião de todas se escreverem
com ão formando os accentos a differença. Por
exemplo, pondo accento antes do Ditongo quando acabassem
em som breve: v. g. Amárão; e no mesmo Ditongo,
quando acabassem em som forte: v. g. Amarão. Com
tudo vai prevalecendo hoje o antigo uso.

(102) A divisão das palavras compostas algumas vezes
se torna embaraçada, quando os termos são compostos
das particulas Latinas prefixas De, In, Ob, Pre, Re, seguindo-se
adiante dellas a lettra S. Segundo a soletração
usual, a lettra final das ditas particulas liga-se ao S immediato,
e por isso vulgarmente se pronuncia, e se separa a
palavra deste modo: Cons-truir, Des-truir, Ins-culpir, Obs-truir,
Pres-crever, Res-ponder
, sendo certo que deste
modo se separa o S radical, que no Latim pertence ás
palavras, donde estas portuguezas foram derivadas: v. g.
Strúere, Scúlpere, Scribere, Spondére. Com tudo segundo
a judiciosa observação de Constancio, não ha erro nesta
divisão; mas tão somente a contracção de duas syllabas
n’uma. Pois na Lingua Portugueza, continua o mesmo auctor,
os Verbos Construir, Destruir, Insculpir, Obstruir,
Prescrever, Responder
, e outros similhantes equivalem
a Con-estruir, De-estruir, In-esculpir, Ob-estruir, Pre-escrever,
Re-esponder
, &c. e assim reunindo, e partindo
Cons, Des, Ins, Obs, Pres, Res, não fazemos mais do que
contrahir Co-es, De-es, In-es, Ob-es, Pre-es, Re-es. Deste
modo pois fica tirado todo o embaraço que podiamos encontrar
em muitas palavras alatinadas, e a regra da sua
divisão simplificada, e reduzida á divisão das syllabas.

(103) Excepções. Não se deve usar de Virgula entre
a Oração Integrante, e aquella a que esta serve de parte
Grammatical, e assim escrevemos: Quero que me ames:
e não Quero, que me ames. Igualmente não se dividem
os Substantivos, que se ajuntam a qualquer nome
Proprio para lhe servirem de sobrenomes; v. g. Marco
Tullio Cicero
. Muitos presentemente não põem alguma
Virgula antes das Conjuncções E, Nem, Ou, Como, Que,
e outras similhantes excepto quando as palavras, e phrases,
que ellas atam, excedem a medida commum de uma
pausa ordinaria. Dizem que em similhantes casos as
Virgulas são desnecessarias; porque as mesmas Conjuncções
servem de separação: com tudo este uso he inteiramente
contrario á pratica de todos os antigos escriptores
Latinos, e Portuguezes.