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Gandavo, Pero de Magalhães. Maneira de escrever e orthographia da lingua Portuguesa – T01

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[Regras que ensinam a maneira de escrever e orthographia da lingua Portuguesa…]

Prologo ao lector.

Huã das cousas (discreto
& curioso lector) que
me pareceo ser muy necessaria
& conueniente
a toda pessoa que escreue,
saber bem guardar a orthographia,
pondo em seu lugar as letras &
os accentos necessarios que se requerem
no discurso das escripturas. E
porque nesta parte os mais dos Portugueses
saõ muy estragados & viciosos,
& com innumeraueis erros
que cometem, corrompem a verdadeira
pronunciação desta nossa linguagem
Portuguesa, quis fazer estas
regras da orthographia a rogo de algũs
amigos, as quaes trabalhey por
comprehender em breues palauras
5com a menos difficuldade que pude,
pera com ellas aproueitar a toda pessoa
que as quiser seguir. Porem hase
de entender que minha tenção não
foy fazellas, senão pera os que não são
latinos. E por esta razão quis nellas
vsar de algũs exẽplos, pera que assi ficassem
mais claras, & cõ menos trabalho
fossem entẽdidas de qualquer
pessoa ainda que nam tenha (como
digo) inteligencia de latim. Porque
se meu intento fora sómente aproueitar
com ellas aos grammaticos, ouuera
os taes exẽplos por escusados: pois
estâ claro não serem necessarios senão
a estes que escassamente sabem que
cousa he nome, & que cousa he verbo.
Os quaes ainda que tenhão muita
6experiencia de escreuer, não poderão
deixar de cair em muitos erros,
se não teuerem algũas regras
que nesta parte os allumiem. E allem
da orthographia que nas presentes
se pode comprehender, ha
muitos vocabulos em que se comette
vicio, & são tantos que seria cousa
muy comprida querer aqui exprimir
& tratar de raiz como se hão
todos de escreuer. Porque hũs se escreuem
com c, outros com s, &
outros com z : cada hum em fim
segue sua origem, & assi hũs per
descuido, & outros por não saberem
latim (que he a fonte donde
manou a mayor parte destes
nossos vocabulos) costumão
7trocar muitas vezes hũas letras por
outras, o que realmente se nam pode
fazer sem offenderem â pronunciação
desta nossa linguagem. E se os
Portugueses nisto quisessem aduertir
com diligencia mostrandose hũ pouco
mais curiosos desta arte de que tão
pouco se prezão, não aueria pela ventura
tantos que praguejassem desta
nossa lingua : porque com saberem
bem escreuer, saberião bem pronunciar
os vocabulos, & com os saberem
bem pronunciar, ficaria a mesma lin
gua parecendo melhor aos naturaes
que a professam. Por onde não auia
de auer pessoa que se prezasse de si, q̃
não trabalhasse por saber algũ latim,
que nisso consiste o falar bem Portugues:
8& desta maneira facilmẽte euitarião
todos estes erros, & serião perfectos
em guardar a orthographia cõ
forme â ethymologia & pronunciação
dos vocabulos

De como se ha de fazer
differença na pronunciação de algũas
letras em que muitas pessoas
se costumão enganar.

As letras
que se costumão muitas ve
zes trocar hũas por outras,
& em que se cometem
mais vicios nesta
nossa linguagem, são estas que se seguem,
9conuem a saber, c, s, z, & isto nace
de não saberem muitos a differença que
ha de hũas ás outras na pronunciação.
E assi ha nesta parte erros tão manifestos,
& tambem recebidos de algũas pessoas,
que cuidão que dous ss, em meyo
de parte, tem muito mais semelhança de
z, que de c, no que totalmente se enganão,
porque dous ss, tem mais semelhança
de c, que de z, assicomo remissão,
profissão, &c. E hum mais de z, que de
c, (digo em meyo de dição entre duas
vogaes) assicomo, casa, peso, &c.
que se esteuer diante consoante ainda que
seja em meyo de parte, hum sô terà a
mesma força que tem dous, assicomo
defensão, descanso, curso, &c. Enfim
10que esta letra s, em principio de dição,
& em meyo diante consoante,
& em meyo dobrado entre duas vogaes,
sempre tem hũa mesma força & se
pronuncia de maneira que parece ter mais
semelhança de c, que de z, & em
meyo singello entre duas vogaes mais de
z, que de c, (como ja tenho dito.)
Mas ainda que isto assi pareça, nem
por isso terão licença de pôr c, em lugar
de s, nem s, em lugar de z, nem
z, em lugar de s, nem s, em lugar de
c, porque na verdade seria corromperem
a verdadeira pronunciação dos vocabulos,
& muitas vezes significar hũa
cousa por outra, assicomo, passos que
se escreuem com dous ss, quando significão
11os que se dão com os pês, & paços quando
se entendem pellas casas reaes com c. E
outros algũs nomes & verbos ha, que não
tem outra differença na significação, se não
escreuerem se com s, ou com c, ou com z,
assicomo cozer que se escreue com z,
quando he por cozinhar algũa cousa em
fogo, & coser com s, quando he por coser
com agulha. Tambem ceruo se escreue
com c, quando he pelo veado, & seruo com
s, quando se entende pelo escrauo. E assi
tambem cella com c, quando se toma pelo
aposento do religioso, & sella com s,
quando significa a que se poem no cauallo.
E porque de todas estas diuersidades de vocabulos
que ha em nossa lingua, se não podem
fazer regras geraes pera se conhecer
com que letras se hão de escreuer, he forçado
12que todos os escriuães que nesta parte
quiserem ser perfectos, tenhão algum
conhecimento de latim, ou ao menos conheção
a differença que ha na pronunciação do
c, ao s, & do s, ao z, porque se cairem
nella, com mais facilidade poderão vedar
muitos erros conforme ao sentido da orelha
que nesta parte não he pouco fiel. E
pera saber como se ha de fazer esta differença,
entendam que quando pronunciarem
qualquer dição com c, hão de fazer
força com a lingua nos dentes debaixo de
maneira, que fique algum tanto a ponta
dobrada pera dentro, & quando for com
s, porão a lingua mais folgadamente pera
cima que fique soando a pronunciação á
maneira de ossuuio de cobra, que esta foy
a causa porque os Antiguos formàram o s,
13da feição da cobra, & o c, à maneira
de meyo circulo que fica dobrado semelhante
à lingua quando o pronuncia. Quanto
esta letra z, composerão os Gregos de duas
letras, conuem a saber, do s, & do
d, & assi a pronunciação della não he outra
cousa, senão a de hum s, carregado
por respecto daquelle d, que lhe formão
diante, o qual d, não deixa soltar a lingua
tão liuremente como quando o mesmo
s, per si se pronuncia. Assi que esta &
todas as mais letras inuentaram os mesmos
Antiguos sapientissimamente, porque
cada hũa tem a forma conforme à
natureza & semelhança de
sua pronunciação.14

Das letras com
que se escreue, & syllabas que se
formão dellas.

Nesta arte do escreuer ha vinte
letras, ou vinte & hũa com este y grego,
a fora h, que lhe não chamão os Latinos
letra, senão aspiração. Destas vinte & hũa,
são seis vogaes & quinze consoantes. As
vogaes são estas, a, e, i, o, u, y. As consoantes
as mais que restão. E quantas vogaes teuer
hũa dição, de tantas syllabas sera. Saluo quãdo
acontecerem duas vogaes juntas, estas duas
não terão mais que hũa sô syllaba : quero
dizer que aquelle u, que se segue sempre diante
q, & algũas vezes diante g, que não
se conte por vogal, nem se faça menção, se
não da outra vogal que se segue diante delle.
E assi tambem quando j, ou v, seruirem
15de consoantes, nam se entenderão então
por vogaes. As syllabas são estas que se
seguem, & destinguem se desta maneira
que neste vocabulo significo con, ue, ni, en,
te. Finalmente que hũa syllaba não he mais
que hum som que se faz com a voz como
cada hũa destas que atras ficam destintas.
Tambem he necessario saber fazer todas
estas letras grandes (ou maiusculas por
melhor dizer como lhe chamão os Latinos)
pera vsarem dellas (como a diante direy)
nas partes onde forem necessarias.
As quaes se fazem desta maneira seguinte.
A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M,
N, O, P, Q, R, S, T, V, X, Z, Y.16

Dos lugares onde se hade
vsar destas letras maiusculas, &
das pausas & distinções que se requerem
no discurso das escripturas.

Em principio de regra quando
se começar a escreuer algũa
cousa, sempre se vsarà
de hũa letra destas maiusculas.
E no discurso da escriptura auerá tres
maneiras de distinções, pera que o lector
saiba melhor pausar & entender o sentido
da sentença, ou clausula, conuem a saber,
auerá virgula, dous pontos : hum
ponto. (da maneira que fica significado)
Da virgula se vsarà quando quiserem destinguir
17hũa parte da outra indo proseguindo
pela sentença adiante todas as vezes que
for necessario. Dos dous pontos em algũs
lugares, onde se fezer mais pausa. De
hum ponto no fim da clausula, onde se acaba
de concluir algũa cousa. E logo a diante
do mesmo ponto a primeira letra que
se seguir serà maiuscula : porque hum ponto
sô tem mais força que dous, & os dous
mais que a virgula. E assi todos os
nomes proprios, & sobrenomes de homẽs,
ou de molheres, & nomes de cidades, de
villas, ou de lugares, de reinos, prouincias,
nações, & rios, & de nomes exquisitos
de animaes, ou bichos feroces, & os
doze meses do anno, tambem se
escreuerão com letra maiuscula.18

Do que se poem
per parenthesis.

Quando se offerecer em
algũa parte da escriptura dizer algũa
cousa fôra da sentença, que
muitas vezes se não escusa pera ornamento,
& declaração do que se escreue, pôr
seha entre dous meyos circulos (desta maneira.)
Todauia não sera muita lectura,
porque se não embarace o lector, nem perca
o tino da sentença ou pratica que leua
enfiada. A isto chamão os Latinos Parẽthesis,
o qual ainda que se não lea, nem
por isso fica o proposito, & sentido da
pratica desatado, como em algũas partes
no discurso da presente escriptura se pode
ver.19

Do que se ha de pôr com interrogação.

Quando for necessario
escreuer algũa cousa em que
se faça algũa pregunta a modo
de exclamação, ou de
qualquer maneira que seja, no fim della
se porà hum ponto, & junto delle hum
risco reuolto pera cima, como se pode ver
neste exemplo que se segue. Ha pela ventura
cousa no mundo que o homem com a
industria não alcançe ? A isto se chama interrogação,
a qual sempre se ha
de vsar desta maneira que
digo nas partes semelhantes.20

Dos sinaes que se
hão de vsar quando se não acabar
a dição no fim da regra, &
de como se ha de fazer esta diuisaõ.

Quando no fim de
algũa regra se não acabar
a dição de escreuer por não
caber na mesma regra, pôr
seha junto da parte que fica
escripta dous sinaes desta maneira = que
significão irse acabar a outra parte que
resta no principio da regra que se ha de
seguir. Porem hase de ter aduertencia
que em semelhantes lugares nunqua se parta
syllaba pelo meyo ainda que pareça ser
necessario partir se pera igualdade da escriptura:
21porque não se sofre estar a consoante
em hũa regra, & a vogal na outra,
digo quando ambas se ajuntão que fazem
hũa syllaba. Saluo esta letra s, nunqua
se apartará de p, nem de t, ainda que
pareça que se parte a syllaba pelo meyo, assi
como, estes vocabulos que se seguem & outros
semelhantes, quando se ouuesse de partir
a syllaba que está antes do s, por não
caberem na regra, diuidirsehião desta maneira,
re= sponde, de= spacho, hone= stidade,
con= stranger, &c. Finalmente que
sempre andará o s, pegado no p, & no t,
pera perfectamente se auer de escreuer.

E tambem esta letra c, pelo conseguinte
em tal caso nunqua se apartará do t, assi
como, san= cta, conje= ctura, vi= ctoria,
&c. Ainda que nesta nossa linguagem pela
22corrupção dos vocabulos, vsão muito poucas
vezes, ou quasi nunqua de c, ante t : mas
quando o vocabulo o tem de sua origem, &
assi inteiramente foy vsurpado do latim pera
nosso vso, não sera desnecessario, nem
inconueniente vsallo (como algũs querem dizer)
antes vsandose (como digo) nos taes
vocabulos, sera muita perfeição : porq̃ quanto
mais chegarmos ao latim estes & outros
quaesquer vocabulos latinos que corruptamente
vsamos guardandolhes fielmente sua
orthographia, tanto sera nossa lingua mais
polida, & ficara nesta parte mais singular,
& appurada que as outras.

E assi tambem
quando em algum vocabulo se dobrar a
consoante, quero dizer quando duas letras
semelhantes esteuerem entre duas vogaes,
ou ẽtre vogal & cõsoante, assicomo, approuo,
23affligo, asseguro, &c. & que cada hum
dos taes vocabulos se haja de diuidir por
não caber na regra, nunqua a consoante
se apartará da vogal que está antes della :
& assi não auendo lugar em que possa caber
mais do vocabulo que a syllaba que
está ante das duas consoantes, hũa dellas ficará
no fim da regra junto da vogal que lhe
antecede, & a outra que resta responderá
no principio da regra á outra letra &
ás mais que adiante se seguirem, assi como,
ap= prouo, of= ficio, neces=
sidade, & outros infinitos a
que sempre em semelhantes
lugares
se ha de guar
dar esta regra.24

Dos accentos que
se hão de vsar em algũas letras, ou
vocabulos que teuerem duuidosa
a significação.

Quando este articulo a, ou
as, se ajuntar a algũs nomes femeninos,
a que se concede ou
nega algũa cousa, terá hum accento em
cima, assicomo, à vossa geração se deue
esta honra, ás cousas diuinas se ha de ter
grande acatamento, &c. Enfim que assi
como dixeramos, ao, ou aos em nomes masculinos,
assi diremos à, ou âs, com este
accento em cima em nomes femininos : saluo
quando se ajuntar a algũs nomes proprios,
não sera necessario vsar se deste accento
nelle ainda que sejão femeninos, porque
25se dixessemos, a Lixboa se deue esta
honra, està claro não ter alli este a, necessidade
de accento, pois se não deue vsar se
não quando a pronunciação carrega nelle
da maneira que nos exemplos acima fica
declarado onde se denota com o tal accento
o mesmo que outros denotão com dous aa,
não sendo a meu juizo necessario mais que
hum sô, vsando se nelle deste accento que digo.

E assi tambem quando se ouuer de vsar
desta letra o, em algũa inuocação, pôrseha
com hum accento em cima, assicomo. Vos ô
poderoso Senhor valeinos, ô grão Rey ajudainos,
&c. Tambem ha muitos verbos
que não se sabe se falão do tempo passado,
se do por vir : & pera se tirar esta duuida,
quando falarem do tempo passado, se porá o
accento na penultima, que não he a derradeira
26syllaba, senão que esta antes della, assicomo,
alcançára, louuára, agradecéra, &c.
E quando falarem do por vir, pôr se ha na
vltima desta maneira, assicomo, alcançará,
louuoará, agradecerá, &c. E estes
verbos & todos os mais no plurar, quando
falarem do passado que fezerem o accento
na penultima se escreuerão com m, assicomo,
alcançaram, louuaram, &c. E quando
falarem do futuro que fezerem o accento
na vltima, se escreuerão com ão, assicomo,
alcançarão, louuarão, &c. Ou tambem
se podem escreuer com m, quer falem
do passado quer do por vir, distinguindo
esta duuida com os mesmos accentos da
maneira que acima digo. Alem destes
ha outros muitos vocabulos, em que he
27necessario vsarse deste & doutros accentos,
pera que melhor se saibão pronunciar,
& entender a significação delles. Mas por
agora não quis tratar aqui, senão destes
em cuja significação pode auer duuida não
se vsando do tal accento que acima fica declarado.

Das letras super
fluas que se hão de vedar nas partes
onde não forem necessarias.

Nunqua em principio
nem em cabo de dição, se vsa
rá de duas letras semelhantes,
nem ainda no meyo,
saluo quando a origem do vocabulo as pedir,
ou quando algum nome ou verbo for
28composto como adiante se dira.

Em nenhũa dição diante consoante se
seguirão nunqua dous rr, porque sera
grande vicio, assicomo, Anrique, honra,
&c. que se escreuem com hum sô r, &
não com dous como muitas pessoas costumão:
porque hum r, diante consoante tem
tanta força como em principio de dição, &
por isso he desnecessario nas taes dições vsarem
de dous, senão de hum sô.

Outras impropriedades de letras se vsão
em algũs nomes, que são tão bem recebidas
& acceitas na terra, como se as teuessem
de sua origem, os quaes são estes,
& costumão se escreuer desta maneira á
imitação dos Gregos, X p̃o, Ihũs, Xpão,
Xpuão, espriuão : auendo se de escreuer
destoutra, Christo, Iesus, Christão, Christouão,
29escriuão. E ainda que destas duas
maneiras se vse, & a pronunciação toda
seja hũa, todauia como eu digo sera melhor
vsado, pois estas são as letras de sua natural
origem com que se deuem escreuer.

De como se haõ de
escreuer os nomes & verbos
compostos.

Todos os nomes & ver
bos que forem compostos destas
letras, a, i, o, di, a pri
meira que se seguir diante
de qualquer dellas, sera
dobrada. De a, assicomo, affirmo, accidente,
asseguro, &c. De i, assicomo, illustre,
innumerauel, irrigular, &c. De o, assicomo,
30officio, oppressão, offendo, &c. De
di, assicomo, differente, dissimular, difficuldade,
&c. E pelo mesmo caso que esta
regra se guarda em o latim, se deue tambem
guardar com a mesma fidelidade nesta
nossa linguagem.

Da pronunciação
G.

Sempre diante g, se
seguirá u, ante e, & ante
i, quando se pronunciar com
força, assicomo, guerra, san
gue : guitarra, guia, &c. E se não
teuer este u, ante e, & ante i, terá
a pronunciação desta maneira,
31gente, geração : fugida, regimente,
&c. E quando diante g, se seguir
a, ou o, nunqua se porà u, assicomo Gonçalo,
gozo, braga, lugar, &c. Saluo
quando for necessario a pronunciação gostar
delle, assicomo, igual, guarda, lingua,
&c.

Das partes a que
se ha de ajuntar esta
aspirção H.

A esta letra a, se ajuntarà
h, quando for verbo,
que significar auer algũa
cousa, quer com elle
se affirme quer se negue,
assicomo, ha muitos annos que vi foão, não
32ha impedimento de ninguem, &c.

E assi tambem ao mesmo a, se ajuntará
h, quando com elle significar algũa exclamação,
então neste lugar se porá h, diante,
assicomo. Ah desauentura tão grande.
Ah campos Lusitanos suspiray, &c.

Tambem a esta letra e, se ajuntará h,
quando for verbo, que significar ser algũa
cousa, quer negando quer affirmando, assi
como, he muito meu amigo. não he quem
parecia, &c. E isto não porque o tenha de
sua origem, mas pera com elle denotar que
he verbo como digo, & não conjunção. Posto
que tambem costumão algũas pessoas
por escusar este h, no tal verbo, escreuello
somente com hum accento em cima desta
maneira é. Finalmente que de qualquer destas
se pode vsar. Mas porque com este accento
33he muito pouco vsado, & muitas
pessoas o auerão por nouidade, ignorando
pela ventura o que o tal accento denota,
pareceme que sera mais acertado & melhor
escreuello com h, por ser pelo costume
mais claro & facil a todos, que destoutra
maneira que digo (saluo meliori iudicio.)

E pelo conseguinte he necessario vsar
se tambem deste h, em algũs vocabulos ainda
que de si o não tenhão, não porque seja
necessario a pronunciação gostar delle, mas
por razão de se entenderem, & significarem
melhor, conforme ao vso desta nossa
linguagem, assicomo, hum, hũa, hia, hi.
Porem tirando estes, muy raramente, ou
nunqua teremos necessidade em principio
de dição, vsar mais delle, saluo em algũs
vocabulos que o teuerem de sua origem,
34assicomo, homem, honra, honestidade, historia,
&c.

De que maneira
& em que lugares se ha de vsar
desta letra I, & onde ha
de ser grego.

Esta letra I, se ha de
escreuer de tres maneiras,
& de cada hũa se ha de
vsar nas partes onde for necessario,
conuemasaber, j,
comprido, y, gregro, i, pequeno. Deste j,
comprido se vsarà, quando seruir de consoante,
quer em principio de dição, quer em
meyo, assicomo, jornada, sobeja, &c. Este y
grego se seguirá sempre ẽ meyo de dição, q̃ndo
35acontecer entre duas vogaes, & nunqua te
ra pronunciação de consoante, assicomo, joya,
mayor, moyos, &c. E noutra nenhũa
parte se deue vsar, nem sera sofriuel, saluo
se for em cabo de dição diante vogal,
assicomo, Rey, darey, foy, muy, &c. que
parece bem em semelhantes lugares, & não
offende â pronunciação da linguagem. Não
trato dos vocabulos que o tem de sua origem,
porque esses de seu se está não lho negarmos
quando se offerecerem, & nos vierem
á noticia. E posto que aja opiniões de
algũas pessoas que sô nos taes vocabulos q̃
o teuerem de sua origem se ha de vsar delle,
não faltão outras muitas (cujo parecer
he digno de grande authoridade) que affirmem
auerse de vsar deste y, nos lugares q̃
digo, ainda que o não tenhão de sua origẽ,
36assi pela necessidade que nesta nossa linguagem
temos delle, como por estar ja tão bem
recebido pelo costume, que pareceria estranho
querer vedallo, mayormente sendo tão
necessario como digo nas partes semelhantes.

Este i, pequeno seruirá sempre em todas
as mais partes que se offerecer.

Dos lugares
onde se ha sempre de seguir
M.

Ante p, m, b, sempre se escreuerá
m. Ante p, assicomo,
imperio, companhia, emparo,
&c. Ante m, assicomo, immenso, summo,
immortal, &c. Ante b, assicomo, Ambrosio,
37ambição, embargo, &c. E noutra
nenhũa parte se seguirá ante consoante se
não n.

De como se ha de
vsar desta letra R.

Quando em meyo de
dição a pronunciação desta
letra r, for dobrada, sempre
se escreuerá com dous
rr, assicomo, terra, socorro,
ferro, &c. Saluo diante consoante se
seguirá hum só (como ja tenho dito) ainda
que pareça que a pronunciação pede dous,
assicomo, tenro, genro, &c. porque se
não sofrem duas letras semelhantes diante
consoante.38

Nunqua se vsará deste R, maiusculo em
meyo de parte algũa, nem ainda em principio,
como vsão muitos, saluo nos lugares onde
se ouuer de vsar de letra maiuscula como
a tras deixo declarado.

De como se ha de
vsar desta letra V.

Sempre em principio de qual
quer dição se vsarà deste v,
meão, & em meyo sempre
sera u, pequeno, ainda que
sirua de consoante, assicomo, viuua, viuer,
&c.

Outras regras não sinto ao presente que aqui
possa trazer, nem de que deua mais particularmente
fazer menção, porq̃ meu intẽto
39não foy tratar aqui, senão destas que boamente
se podessem entender dos que não sabem
latim pera com ellas euitar algũa parte
dos muitos vicios & barbarismos que nesta
nossa linguagem se cometem. E por
isso pretendi ser nellas facil, &
passar por tudo isto com
breuidade.

Fim.40

[Dialogo em louuor da lingua Portugesa]

Seguese hvm
Dialogo em defenfaõ da lingua Portuguesa,
sobre a qual tem disputa hum Portugues
com hum Castelhano, onde por
se tratar defla materia vsa ca
da hum de sua lingua
gem na maneira
seguinte.

Interlocutores.
Petronio. | Portugues.
Falencio. | Castelhano.

[Petronio]

Pet. Lembrame, senhor
FaIencio, que os dias
passados nos achamos
em casa de Flaminio
nosso amigo,
41onde reuoluendo certos liuros de
diuersas linguagẽs, a que menos
vos quadrou & mais vituperastes,
foy efta nossa Portuguesa de
que todos praguejaes, sendo ella
em si tão graue & tão excellente
assi na prosa como no verso que só
a latina lhe pode nesta parte fazer
ventagem . Quisera logo então
(como sabeis) prouaruos esta ver
dade, & moftraruos per razões
claras quanto esta nossa excede á
vossa: mas porque o tempo nem
o lugar erão pera efta disputa, não
fomos com ella mais por diante.
Pelo que assentamos (se vos lembra)
de concluir esta questão o
primeiro dia que nos vissemos.42

[Falencio]

Falen. Por cierto señor Petronio que
no es poco de agradecer el amor
que en esso mostrais a vuestra naturaleza.
Porque siendo essa opinion
tan contraria de todos, y
conoscida vuestra lengua por la
mas tosca y grossera del mundo,
quereis defenderla y sustentar el
contrario : lo que yo creo que
que no sera, sino con algunas apparentes
razones, o argumentos
sophisticos de que suelen vsar
los hombres sabios & de buenos
ingenios para que se juzguen por
buenas y verdaderas sus opiniones.

[Petronio]

Petro. Pouca necessidade tenho eu
senhor Falencio, de buscar pera
43esta disputa argumentos dessa qua
lidade, auendo tantas & tão verdadeiras
razões que nesta parte
me fauorecem & com verdade
posso alegar. Mas ja que temos
mouida esta questão, & o tempo
nos dá lugar pera a concluir, agora
vos peço me digais, qual he a razão
que tendes pera julgar por tosca,
& grosseira esta nossa lingua,
que em estremo folgarey de a ouuir?

[Falencio]

Fal. La causa señor Petronio, de vue
stra lengua ser juzgada por essa
(no solo de todas las naciones del
mundo, mas aun de los mismos
Portugueses que la posseen) es por
que en su principio como se puede
44ver enel lenguaje de algunas historias
y chronicas antiguas de Por
tugal, vsauan muchos vocabulos
muy differentes y improprios de
su natural signifícacion y origen.
Y despues conosciendo los hombres
por el tiempo adelante la impropriedad,
y poca policia deste
lenguaje, vinieron poco a poco appurando
lo con diriuar y componer
vocabulos de diuersas lenguas
ayuntando los ala suya : y ansi
con fauor delas agenas supplieron
muchos defectos que ella en si tenia.
Por dõde se no puede llamar
verdadero Portugues es que agora
en estos tiempos vsais, sino el antiguo
que en principio se vsaua,
45como ya tengo dicho. Y por esso
con razon llaman todos a esta len
gua barbara, que en la realidad
dela verdad lo es, pues de si es tan
pobre, y tan poco polida, que
sin ayuda delas otras quedaria tan
ruda y tosca, que en estos tiempos
no se poderia oir, ni aun entender
delos mismos Portugueses:

[Petronio]

Petro. Nessa opinião não consentirey
eu, nem vos senhor Falencio
deuieis de ir com ella mais por diante:
porque aueis de saber que
esta nossa lingua foy inuentada
como forão as outras linguas. E
se algũa nesta parte a fauoreceo
foy a Latina, da qual todos eftes
46nossos vocabulos, ou a mayor par
te delles trazem sua origem. E
assi a linguagem que nesse antiguo
tempo se vsaua neste nosso
Portugal a que vos chamais tosca
& ruda, está claro em muitos
vocabulos ser mais chegada ao la
tim que esta que agora vsamos:
porque hoje em dia ha neste Reino
lugares onde ainda se vsa delles
como antiguamente . Pelo
que se póde affirmar com verdade
q̃ não era outra cousa esta maneira
de falar senão hũ latim corrupto.
Mas como a gẽte pelo tẽpo
a diãte fosse ẽ crecimẽto, & os homẽs
teuessẽ necessidade de exercitarẽ
esta lingua ẽ varios negocios,
47tada vez a forão mais appurando
descobrindo nella outros vocabulos
que ainda que não saõ latinos
como estes antiguos que atras
deixamos, todauia soam melhor
aos ouuidos da gente polida,
& saõ mais proprios & accomoda
dos pera significarem aquillo que
queremos, que outros que aja em
nenhũa lingua. Ora naquelles em
que seguimos o latim, não ha
que reprehender, pois claramente
se vé que quanto mais a elle
nos chegamos, tanto melhor parecem
& mais authorizada fica
nossa linguagem. Pela qual razão
se não pode negar ser este o natural,
& verdadeiro Português que
48agora vsamos : no qual se desapassionadamente
quiserdes pôr os olhos,
& notar a ethymologia & significação
de algũs vocabulos desta nossa
lingua, achareis que em muitas
partes faz ventagem á vossa, como
logo vos posso moftrar em hum
nosso vocabulo que agora me lembra
(allem doutros muitos que aqui
não alego por escusar proluxidade)
& he que dizemos olhar, &
vós mirar : pois se o instrumento
com que vemos chamamos olhos,
com razão dizemos olhar & vós cha
maislhe ojos, & dizeis mirar. O qual
verbo não pode ser conueniente,
nem conforme a sua significação,
sem dizerdes ojar, ou chamardes
49aos olhos miros. Outras muitas
impropiedades de vocabulos ha desta
maneira em vossa lingua que
muy raramente ou nunqua se acharão
na nossa. E allem disso outros
temos cá de que vos lá careceis, sem
os quaes não podeis por nenhum
modo bem explicar aquillo que elles
significão, conuemasaber, dizemos
geito, saudade, lembrança, praguejar,
enxergar, agasalhar, &c. E
nos não carecemos daquelles com
que vós quereis significar estes & os
mais que ha. E por todas estas razões,
& outras muitas que alegarey,
não se pode a esta nossa lingua chamar
pobre nem grosseira, pois na
realidade da verdade o não he, nem
50pessoa que sentir bem della auera
que tal confesse.

Falencio.

Bein se señor Petronio, que siempre
en vuestras razones y argumentos
os aueis mostrado hombre de
grande ingenio : mas aun que conel
pretendais escreuer las mias, no dexaré
de sustentar esta opinion de
vuestra lengua ser la que digo, hasta
no ver contra rny otras mas vrgentes
que me obliguen a confessar
el contrario. Y por esso os suplico me
digais ya q̃ ella es tan dilicada y excelẽ
te como dezis, y tiene tãta grauedad ẽ
51su estylo : qual es la causa porque
todas las naciones del mundo la aborrecen
tanto, y la tienen en tan
poco.

Petronio.

A causa desse aborrecimento, & desprezo
(ou por melhor dizer inueja)
fenhor Falencio, naceo de ella
ser em si tão diffícultosa, que de marauilha
vimos estrangeiro algum que
a podesse bem tomar, ainda que neste
Reino andasse muitos annos, &
trabalhasse pela imprender quanto
humanamente fosse possiuel. E daqui
vem a todas as nações aborrecerem
na tanto, & não na poderem
52gostar, por lhes ser (como digo) tão
pouco facil, & de tão ruim desistão.

Falencio.

Luego si assi es, muy mejor es la
Castellana y mas vtil a todos : pues
no hay nacion enel mundo que no
la tome con mucha facilidad, y la
tenga en mucho mas estima que la
vuestra, la qual con razon se deue
llamar grossera y tosca, ya que es tan
escabrosa y difficil de tomar, que no
aprouecha a nadie el vso della sino a
sus naturales.

Petronio.

Antes hũa das prouas que eu tenho
53de ella ser melhor, & muito mais
delicada que a vossa, he por essa
difficuldade que vós lhe achais, porque
vemos por experiencia que quãto
as cousas em si saõ melhores, &
mais excellentes, tanto he mais trabalhoso
& difficil ao homem alcançallas.
Quanto mais se esta nossa
lingua fora difficultosa por causa de
ser barbara, & grosseira, de crer he,
que a mesma difficuldade tiueramos
em tomar as outras linguas, que
tem os estrangeiros em tomar a nossa.
Mas pela contrario he ella tal,
& de tanta preminencia, que a todos
os naturaes habilita & dispoem
de maneira, que em pouco tempo
& com muita facilidade (como claramente
54se vé por experiencia) tomão
qualquer lingua estranha, &
nisto fazem ventagem a codas as ou
tras nações.

Falencio.

Esso no niego yo, ni dexo de
conoscer, señor Petronio, la razon
que en essa parte teneis: porque he
visto muchos Portugueses en Castilla
hablar nuestra lengua, como si
fuera de su naturaleza suya. Y en
Italia por el consiguinte algunos vide
que en ella no diffirian delos
mismos italianos. Mas esso tambien
se puede refirir a sus buenos
55buenos ingenios y habilidades que
tienen de su naturaleza, y no ala dispusicion
de su lengua.

Petronio.

Dizeime senhor Falencio, se hum
homem não for bom musico, & teuer
ruim vóz, por muito habil, &
sentido que seja, poderá bem contra
fazer a outros quaesquer musicos
que ouça?

Falencio.

Esso mal podra ser, si el no tiene boz
que le ayude.

Petronio.

Pois de crer he, que se os Portugueses
teuerão ruim lingua, & fora tão grosseira
como dizem, que não contrafezeram
com ella também as outras
56linguas, nem lhes aproueitára nesta
parte seu bom ingenho.

Falencio.

Pues señor Petronio, ya que essa gra
cia es attribuida a la capacidad de vuestra
misma lengua, y por virtud
della sois tan habilissimos en tomar
las agenas, qual es la causa porque
los mismos Portugueses siendo ella
suya la desdeñan, y por su boca confiessan
ser ella la mas tosca y barbara
del mundo?

Petronio.

A isso vos respondo, senhor Falencio,
que esta nação Portuguesa pela mayor
parte, he mais affeiçoada ás cousas
dos outros Reinos, que ás da sua
mesma natureza, cousa que se não
57acha nas outras nações: porque todas
engrandecem sua lingua, & fazem
muito pelas cousas que quadrão
nella, sós os Portugueses parece
que negão nesta parte o amor á na
tureza. E daqui vem a muitos dizerem
mal de sua lingua, & consentirem
na opinião dos estrangeiros, o q̃
realmente se póde attribuir mais a
ignorancia, que a razão algũa que a
isso os moua. Porem os homẽs de
bom juizo que bem a sentem, não
podem deixar de engrandecer muito,
& confessar comigo que a ella se
deue mais louuor que á vossa.

Falencio.

Creo yo señor Petronio, que deuen
58ser muy pocos o quiça ningunos,
los que quieran assentir con
vós en essa opinion. Porque hombres
Portugueses muy principales y
de grandes ingenios, escriuieron, y
aun oy dia escriuen sus obras en Castellano
por ser lenguage mas appazible
y dulce, y sonar mejor a los
oydos que la vuestra : y esto es tan
notorio y manifiesto, que hasta los
niños vuestros naturales conoscen y
confiessan esta verdad.

Petronio.

Não he bastante razão essa que alegais
pera que vossa lingua por esse
respecto mereça ser prefirida á nossa,
59Porque aueis de saber que cada lingua
per si tem hum estylo mais proprio,
& em que melhor parece, como
he, a Grega nos versos, a Latina
nas orações, aToscana nos sonetos,
a Portuguesa nas comedias em prosa
& no verso heroyco, a Castelhana
nas trouas redondas & garridas que
naturalmente parecem feitas & inuentadas
pera ella. E daqui veo a
muitos Portugueses vendo quã bem
parecia neste estylo, & que nella se achaua
mais facilmẽte cõsoantes pera
verso, exercitarem na por seu passatempo
em eglogas, canções, elegias,
& cantos pastorijs que faõ materias
leues, & accomodadas ao estylo da
mesma lingua. Mas cousas graues,
60& de importancia, não me dareis ne
nhum Portugues antiguo nem moderno
que as tratasse nem escreuesse
em vossa lingua . E se quereis saber
quam pouca necessidade temos
della, vede o estylo das comedias &
dos versos do nosso verdadeiro portugues
Francisco de Sâ de Miranda,
que foy o primeiro que nesta nossa
Lusitania o descubrio com tamanha
admiração, que de todos em geral
ficou confessada esta verdade. Vede
a Asia daquelle famoso & excellente
escriptor Ioam de Barros que por
ella em Veneza está prefirido a Ptolomeu.
Vede a primeira & segunda
parte da Imagem da vida Christãa
daquelle doctissimo varão Frey Hector
61Pinto que agora em nossos dias
sahio a luz : Vede o estylo da linguagem
de Lourenço de Caceres, de Frã
cisco de Moraes, de Iorge Ferreira,
de Antonio Pinto, & doutros illustres
varões que na prosa tanto se assinalaram,
descobrindo com seus ingenhos
peregrinos o segredo da graui
dade & fermosura deste nosso Portu
gues. Pois se no verso heroyco vos
parece que a vossa lhe pode fazer ven
tagem : vede as obras do nosso famo
so poeta Luis de Camões de cuja fama
o tempo nunqua triumphará, vede
a brandura das daquelle raro espirito
Diogo Bernardez: vede finalmẽ
te as do doctor Antonio Ferreira de q̃
62o mundo tantos louuores canta : &
em cadada hum destes autores achareis
hum estylo tão excellente, & tão
natural & accomodado a esta nossa
lingua, que forçadamente aueis de
vir a deceruos de vossa opinião, &
confessar comigo ser ella indigna
desse nome que vos lhe dais. Pois
se quereis ver a lingua de que he
mais vizinha, & donde manou,
lede a arte da grammatica da lingua
Portuguesa que o mesmo Ioam
de Barros fez, & o mesmo podeis
ver no liuro da antiguidade de Euora
de Mestre Andre de Resende,
onde claramente se mostra, que cõ
pouca corrupção deixa de ser Latina.
63Enfim que se algũa com razão se pode
chamar barbara he a vossa, a qual
toma da lingua Arabia, & a mayor
parte dos vocabulos falais do papo
com aspiração : & assi fica hũa linguagem
imperfecta, & mais corrupta
do que vos dizeis que a nossa he.

Falencio.

Pues señor Petronio, ya que con el
arteficio de vuestras razones quereis
ahogar, y confundir las mias, y pien
sais quedar vencedor, y triumphar
de my opinion : agora os quiero pro
uar en como la nuestra lengua es mas
propinqua al latim que la vuestra,
con algunos vocabulos que aqui
offereceré, conuieneasaber . Dezis
hontem, nos hayer, el latin heri.
64Dezis engenho, nos ingenio, el latin
ingenio. Dezis dores, nos dolores, el
latin dolores. Dezis cores, nos colores,
el latin colores. Dezis calmas,
nos calores, el latin calores. Dezis pai
xões, nos passiones, el latin passiones.
Dezis pessoa, nos persona, el latin per
sona. Enfim otros muchos vocabulos
ha en nuestra lengua, que differen
muy poco, o quasi nada dela la
latina, delos quales la vuestra es muy
remota, como en estos os tẽgo mostrado.
Pues como la lengua Latina
sea madre delas otras lenguas, y mas
copiosa y excellente de todas quantas
hay (como sabemos) aquella q̃ mas
semejãte y propinqua fuere a ella, essa
serâ mejor y mas singular q̃ las otras.65

Petronio.

Se cõ essa razão vos parece, senhor
Falencio, que tendes concluido, ainda
vos prouarey que a nossa he mais
chegada ao latim que a vossa, como
se pode ver em outros muitos vocabulos
nossos de que a vossa tambem
se desuia : algũs delles são estes que se
seguem . Vos dizeis lengua, nos lingua,
o latim lingua. Dizeis pluma,
nos penna, o latim penna. Dizeis tẽ
prano, nos cedo, o latim cito. Dizeis
lexos, nos longe, o latim longe. Dizeis
años, nos annos, o latim annos.
Dizeis daño, nos damno, o latim dãno.
Finalmente que se quantos me
occorrem vos quisesse aqui dizer, seria
cousa infinita de nunqua acabar,
66porq̃ (como digo) a mayor parte dos
vocabulos pronũciaes cõ aspirações,
por onde fica vossa lingua muito ma
is remota, & desuiada do latim que a
nossa: & se não vedeo nestes que ago
ra vos direy. Vos dizeis hembra, nos
femia, o latim femina. Dizeis hierro
nos ferro, o latim ferro. Dizeis hiel,
nos fel, o latim fel. Dizeis hado, nos
fado, o latim fato. Dizeis huir nos fugir,
o latim fugere. Dizeis hazer, nos
fazer, o latim facere. Pois daqui pode
is inferir quanto melhor, & mais gra
ue he a nossa lingua: & se quiserdes sa
ber quanto nesta parte excede não só
mente á vossa, mas ainda ás outras de
q̃ não tratamos, a este proposito vos
contarey, que hum dia em Paris se acháram
67nũa certa parte homẽs de diuersas
nações, os quaes vierão a disputar
de suas línguas, & cada hũ fez
versos em latim buscando vocabulos
mais semelhantes á sua, & nenhũa se
achou que mais participasse do latim
que a nossa: porque dez ou doze versos
se fezerão, q̃ não descrepão da lingua
Latina cousa algũa, nem da Portuguesa:
dos quaes me lembrão estes
que se seguem.

O quam diuinos acquiris terra triumphos,
Tam fortes qui nos alta de sorte creando.
De numero sancto gentes tu firma reseruas.
Per longos annos viuas tu terra beata.
Cõtra non sanctos te armas furiosa Paganos.
Viuas tu semper gentes mactando feroces,
Quae ethiopas Turcos fortes ludosos dás saluos.
De Iesu Christo sãctos mõstrãdo Prophetas
.68

Ficarão todos tão enleados quando
nestes versos virão a perfeição desta
lingua, que não podéram deixar de a
confessar por melhor, & mais chegada
ao latim de todas. E assi tambem
vós senhor Falencio, diuieis de cair na
conta, & acabar de conhecer que por
todas as vias he ella mais polida & del
gada que a vossa.

Falencio.

Aunque con todas essas razones os
paresca que aueis prouado fuerça cõtra
las mias, con todo esso no creo señor
Petronio, que totalmẽte sean bastantes
para deshazer my opinion.
Porque supuesto que en essos versos
69se muestre vuestra lengua tan cerca
del latin, tambien se de espacio pensassemos
en la nuestra, podria ser que
hallassemos vocabulos con q̃ hiziesse
mos otros tantos, o mas en nuestro
lenguaje, y tan latinos como essos q̃
aueis alegado.

Petronio.

Mão me parece, senhor Falencio, que
sera possiuel achardes vocabulos tão
perfectamente latinos nem que tão
bem pareção em vossa linguagem, q̃
vos síruão p̲a versos desta qualidade.

Falencio.

Y que razon aura, señor Petronio,
para que tan perfectamẽte los no hallemos
en la nuestra, auẽdo entre am
bas d̅ vna ala otra tan poca differẽcia?70

Petronio.

Porque alem de as aspirações q̃ vsais
vos corromperem (como ja disse) a se
melhança que a vossa lingua podia
ter com a Latina, tendes nella muitas
syllabas que se dobrão per duas letras
vogaes, que o latim nem nós nunqua
vsamos: como he, tierra, fuerte, muer
te, fuerte, luengo, cierto, & outros in
finitos vocabulos, nos quaes a nossa
segue o latim, & não descrepa delle
cousa algũa, & a vossa totalmente pa
rece que nelles se esmerou em se desuiar
delle, como se desta maneira ficasse
mais perfecta.

Falencio.

Ora senhor Petronio, vos lo teneis
muy bien hecho, y hasta aqui disputado
71sabiamente como hombre de
grande ingenio, y que no dessea poco
engrandecer las cosas de su naturaleza.
Y por esso demos fin a nuestra di
sputa, y seamos amigos como siempre
lo fuimos, que lo demás poco nos
importa.

Petronio.

Dessa maneira, senhor Falencio, ja q̃
contra minhas razões não tendes ma
is q̃ arguir, & o campo fica por meu,
demos por concluida nossa questão,
que isto he tarde, & vãose fazẽdo horas.
Por isso não me detenho mais, fi
quaiuos embora que outro dia nos veremos.

Fim.72