CTLF Corpus de textes linguistiques fondamentaux • IMPRIMER • RETOUR ÉCRAN
CTLF - Menu général - Textes

Pereira, Bento. Regras Gerays, breves, & comprehensivas da melhor ortografia – T01

| Table des matières | Fiche | Texte |

[Regras gerays de ortografia]

Primeira parte
Das regras cõmuas â lingua Latina,
& Portugueza.

Regra I.
Para se escrever letra grande.

Escrevese com letra grãde no principio
todo o nome proprio, & sobrenome
de homem, & mulher, v.g.
Lourenço Lobo, Maria da Sylva, posto
que os tays sobrenomes se tomem de
nomes appellativos, como sam Lobo, &
Sylva
.

Do mesmo modo tem letra grande
todo o nome proprio, ou seja de Reyno
& Provincia, como Portugal, Andaluzia,
ou de cidade, & villa, como Lisboa,
Madrid
; ou de monte, como Olympo; ou
de rio, como Tejo; ou de fonte, como
Arethusa; ou de mez, como Ianeyro; ou
de Deos & Deosa da gentilidade, como
Iuppiter, Venus, &c. E géralmente
8para se escrever com letra grande, se
chama nome proprio todo o que só pode
competir a huma pessoa, ou cousa.

Advirtase que a regra procede nam
só nos nomes proprios substantivos, se
nam tambem nos adjectivos & quaysquer
que delles se derivam, & trazem origem.
v.g. Romanus a Roma, Lusitanus
a Lusitania, Olympicus ab Olympo.

Tambem se pode escrever com letra
grande o nome appellativo de alguma
grande dignidade, como Pontifice, Rey,
& os nomes de sciencias, & artes nobres,
como Theologia, Filosofia, Rhetorica.

Alem do sobredito, se deve escrever
com letra grande & capital todo o principio
da escritura, & qualquer periodo,
ou clausula que se sigua depoys de acabar
outro periodo ou clausula precedente
em ponto final, ou interrogativo,
que se escreve assim? ou admirativo,
assim!

Item se escreve com letra capital o q̃
vay escrito depoys da figura chamada
9cóma, quando se passa de huma sentença
a outra, v.g. Job. 10. Dicam Deo:
Noli me condemnare. Ou quando se passa
de huma pessoa a outra: como no
Evang. Dixit autem quidam: Ecce
mater tua
. O que mays claro se mostrarâ
da regra 9 & 10.

Regra 2
Para se nam dobrar a letra nem no principio,
nem no cabo da dicçam.

NEm na lingua Latina, nem na Portugueza
podemos dobrar letra
consoante no principio, ou no fim do
vocabulo. A razam he: porque toda a
consoante deve ferir alguma vogal, ou
pertencerlhe de algum modo: & quando
duas consoantes saõ as mesmas; v.g.
ll. ss. RR. se se puzerem no principio da
dicçam, nestas palavras llamentatio, ssalus,
RRex
a primeyra nam tem letra vo
gal que ferir, nem a que se ajuntar: & se
se puzerem no cabo da dicçam. v.g. quall
ja a ultima consoante nam tem vogal q̃
10ferir, nem letra a que pertencer, ou se
ajuntar.

Se fallarmos em poder começar dicçam
alguma por vogal dobrada, ou acabar
em vogal dobrada, digo que nam
pode ser na lingua Portugueza. conforme
á regra 6. que daremos na terceyra
parte das regras. Da qual regra tambem
se colherá o que se pode dizer da lingua
Latina.

Regra 3.
Para quando se ha de escrever
m. ou n.

A Regra geral que comprehẽde assim
o Latim, como o Portuguez,
he, que antes de b. p. m. sempre se deve
escrever m. & antes das mays letras, se
escreve n.

Para a primeyra parte da regra quãto
ao escrever do m. exemplos do Latim
sejam, Ambulare, importunus, immitis.
Exemplos do Portuguez, Embravecer,
immovel, impar
.

Para a segunda parte da regra, quanto
ao escrever do n. exemplos parte Latinos,
11& parte Portuguezes, sejão, Trõco,
pondo, confio, angustia, enleado, anno,
enregeládo, insinuado, entesado
. Nos quays
vemos o n. escrito antes do c. d, f. g. l.
n, r. s. t.

Tiramse desta regra os compostos
deste adverbio Bem, & desta proposiçam
circum, como sam, Bemestreado,
bemquisto, circumferencia, circumflexo
,
Alem dos quays se tira, comigo, comtigo,
comsigo
.

Regra 4.
Da composiçam das palavras.

COmo as linguas Latina, & Portugueza
tenham entre si grande semelhança,
& algũas vezes identidades
com as palavras Latinas & Portuguezas
fazem composiçam as preposiçoens, &
particulas seguintes: A, ab, abs, ad, an,
can, de, des, dis, en, ex, in, inter, ob, per, pro, pros, re, se,
sub trans, sobre
.

Exemplo das Latinas sejam, Amovere, abominari,
abstinare, advertere, annullare, concipere, delere
destruere, displodere, enchiridion, expugnare, invi
dere, interpellare, obsidere perrumpere, procurare,
postponere, repugnare, separare, subire, trasferre
.12

Exemplos das Portuguezas sejam,
Acometer, Absolver, Abster, Admirar,
Annullar, Condescender, Declinar, Desfazer,
Dispor, Enlaçar, Exaggerar, Intentar,
Interromper, Obstar, Perseguir,
Proceder, Pospor, Reprovar, Separar, So
stabelecer, Transportar, Sobrestar
.

Regra 5.
Para a analogia & ethymologia, ou
origem das palavras.

ESta regra tem duas partes, hũa da
analogia, que he a conveniencia &
porporçam das palavras: & outra da
ethymologia, ou origem das mesmas pa
lavras, & huma & outra parte tem lugar
na lingua Latina, & Portugueza.

Quanto +a primeyra, assim como os
Latinos dizem: Vestimentum, vestire, vestitus.
Dizem: vendere, venditus, vẽditio.
Dizem Gemer, gemitus, guardãdo sempre
a proporçam dos derivados: assim
os Portuguezes devemos dizer Vestidura,
vestir, vestido
, & nam como alguns
vistidura, vistir, vistido. Devemos dizer
13vender, vendido, venda. E nam como ou
tros, vinder, vindido. Devemos dizer gemer,
gemido
. E nam gimer gimido: tercey
ro
, & nam tirceyro: tesouro, & nam tisouro.

Do mesmo modo dizem os Latinos
Pomarium, devemos dizer Pomar, &
nam Pumar. Dizem elles Petere, petitio,
petens
: nós devemos dizer Pedir, petiçam,
pedinte
; & nam como alguns, Pidir,
pitiçam, pidinte
.

Quanto â segunda parte da ethymologia,
ou origem, sempre devemos trabalhar
pola investigar, & saber: porque
da fonte ou raiz dos vocabulos bem sabida
depende o bom fallar, & bom escrever.

Nos Latinos bem se vé, que do verbo
legere, se deriva lectus, lectio. Do verbo
audire, se deriva auditus, auditio. Das
palavras manus, & missio, traz sua origem,
& composiçam manumissio.

Os Portuguezes tambem devemos
fallar, & escrever conforme â origem &
composiçam de nossas palavras. E assim
14nam devemos escrever memposteyro, senam
mamposteyro: porque este vocabulo
significa homem posto da mam de alguem,
para algum negocio, na forma q̃
dizemos manteudo, o que estâ teudo, &
sustentado da mam de alguem.

do mesmo modo nam devemos dizer
farropea, senam ferropea, porque se
compoem, & vem de ferro, & pea. Nam
devemos dizer manto bernio, senam
manto bybernio, que quer dizer manto
de Hybernia Ilha, por outro nome Irlanda.
Porque nós nam chamamos aos
Hybernios, Bernios, como nem aos Italianos,
Talianos.

Nem me digam, que isto se faz pola
corrupçam dos vocabulos accomodados
á nossa lingua. Porque huma cousa
he corromper o vocabulo accomodandoo
â propriedade & modo da lingua,
como de defensio nome Latino fazemos
defensam: & esta corrupçam he boa &
necessaria; outra cousa he corromper
por ignorancia da origem dos vocabulos;
& esta corrupçam offende muyto
15orelhas dos doutos, & polidos Como
quando se diz enxucassam, por execuçam,
socresto
por sequestro, rendiçam por
redempçam, Alicornio por Vnicornio
sorodio
, por serodio, atambor por tambor.

Ao que devem acudir os doutos, fazendo
muyto por atalhar a tal corrupçam,
reduzindo as palavras á sua origem.

Regra 6.
Para a divisam das dicções, & syllabas
no fim da regra.

Quando duas consoantes estám entre
duas vogays, & se ha de partir
a palavra, por nam caber na regra, ficara
humas das tays consoantes com a vogal
antecedente, & outra irá com a vogal
seguinte: v.g. no Latim il-laqueare, no
Portuguez af-feyçoar.

Desta regra se tiram os vocabulos q̃
depoys de s. levam c. m. p. q. t. as quays
letras juntam a si o s. v. g. no Latim
Na-scor, co-smus, horre-sco, cri-spus, ulciscor,
pa-stor, ca-stus
.16

No Portuguez Nas-cer, Cos-me, ca-sta,
e-squadra, pa-stor
.

E do mesmo modo as que antes de
m. n. levam g. as quays o levam traz si:
v.g. Au-gmento, di-gno, ma-gno.

Toda a letra muda que vay antes de
liquida, & a restringe a si, pertence com
ella á vogal seguinte, que fere v.g. no
Latim tene-brae, salu-bris. No Portuguez.
A-brir, af-fligir.

Se ouve huma só consoante entre
duas vogays, a tal consoante irá sempre
com a syllaba seguinte, ainda que essa
consoante seja aspirada: como no Latim
A-mor, At-thenae. No Portuguez,
ba-nho, ba-talha.

No meyo do vocabulo deve a syllaba
terminarse em b. c. d. f. g. p. s. t. dobrandose
qualquer destas letras v.g. Abbade,
ac-celerar, ad-diçaõ. af-feyçoar, aggravar,
op-posiçam, pas-so, got-ta
. E em L
M.R. seguindose qualquer consoante.
v.g. Al-ma, pom-ba, ar-te, fal-so, cam-po,
par-te
.

Quando a dicçam for composta de
17preposições, ou particulas compositivas,
pela mór parte sam de huma só syllaba,
sempre ao dividir, sarám com as
letras com que entráram na composiçam:
v.g. no Latim Con-stituere, re-stituere,
prae-scribere, de-scendere, ap-pellare
.
No Portuguez Con-stituir, re-stituir, prescrever,
de-scender, ap-pellar
. O que se
farâ, ainda que a derradeyra letra da
preposiçam, ou particula compositiva
esteja convertida em outra letra por
causa da composiçam, v.g. no Latim apparare,
an-notare
. No Portuguez, ap-parelhar,
an-notar
.

Regra 7.
Para a abbreviatura das dicções.

SAm usadas & muytas vezes necessarias
para a presteza no escrever as
abbreviaturas. Porq̃ servem de poupar
tempo & papel.

Na lingua Latina se usaram: porque
em lugar de Senatus, Populusq> Romanus,
punham os Latinos, S. P. Q. R. em
18lugar de Caius Iulius Caesar, punham
C. Iul. Caes. Por Quintus Fabius Maximus,
Q. Fab. Max
. Por Marcus Tullius
Cicero, M. Tul. Cic
. Por verbi gratia v.g.

Do mesmo modo por evitar prolixidade
de escritura, costumavam escrever
seus numeros por notas, na forma seguinte.

Unidade. I. II. III. IIII. V. VI. VII.
VIII. IX.

Dezena. X. XX. XXX. XL. L. LX.
LXX. LXXX. XC.

Centena. C. CC. CCC. CCCC. D.
DC. DCC. DCCC. DCCCC.

Milha. M. IIM. IIIM. IIIIM. VM.
VIM. VIIM. VIIIM. IXM.

Dezena de m. XM. XXM. XXXM.
XLM. LM. LXM. LXX.
LXXXM. XCM.

Centena de m. c. cc. ccc. cccc. D.Dc.
Dcc. Dccc. Dcccc.

Conto. M. iim. iiim. iiiim. vm. vim.
viim. viiim. ixm.

Na lingua Portugueza tambem usamos
de abreviaturas, servindonos do
19til. Como quando queremos dizer, sentença,
Gonçalvez, Fernandez, Martinz,
Rodriguez
; escrevemos, snçã, Glz, Frz,
Miz, Roiz
, pondolhe til.

Tãbem usamos de abbreviaturas sem
til, & mais notorias, & usadas sam:
por vossa Magestade. V. Mag. por vossa
Alteza. V. A. por vossa Excellẽcia V. E.
por vossa Senhoria, V. S. por vossa merce
V. m. por elRey nosso Senhor ElR.
N. S. por author A. por reo R. sempre
com letras grandes.

Nas partes onde senam admitte o
uso de huma só letra, poremos mays, v.
g. em lugar de sua magestade delRey
Dom Afonso nosso Senhor, poremos,
SMag. delR. D. Ao N.S.

Do mesmo modo para abbreviar os
numeros na nossa lingua, os poremos
na forma seguinte.

Unidade. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9.

Dezena. 10. 20. 30. 40. 50. 60. 70. 80. 90.

Centena. 100. 200. 300. 400. 500.
600. 700. 800. 900.

Milhar. 1000. 2000. 3000. 4000. 5000.
206000. 7000. 8000. 9000.

Dezena de m. 10000. 20000. 30000.
40000. 50000. 60000. 70000. 80000.
90000.

Centena de m. 100000. 200000.
300000. 400000. 500000. 600000.
700000. 800000. 900000.

Conto. 1.000000. 2.000000. 3.000000.
4000000. 5.000000. 6.000000.
7.000000. 8.000000. 9.000000.

Regra 8.
Para usarmos de virgula, ponto & virgula;
& dous pontos:

Desta varinha torta que nesta forma
pomos, & chamamos virgula,
por outro nome Incisio, & meyo ponto,
usamos para distinguir o escrito, &
respirar quando lemos: porque nella
descançamos para dizer mays.

O mais commum, & ordinario uso
da virgula, he depoys do verbo com seus
casos, a saber no fim de cada oraçam.
21v.g. Qui amat Deum, amat proximum.
Quem ama a Deos, ama ao proximo.

Poemse depoys da conjunçam, antes
de relativo: v.g. Ille veré est prudens, &
sapiens, qui ex toto corde Deum collit
. A
quelle he verdadeyramente prudente,
& sabio, que de todo seu coraçam honra
a Deos.

Tambem se poem depoys de nomes
adjectivos, quando em hum mesmo caso
concorrem muytos. v.g. Qui voluerit
esse veré nobilis, esse debet probus, prudens,
constans, liberalis
. Quem quizer
ser verdadeyramente nobre, deve ser
bom prudente, cõstante, liberal. O mesmo
lugar tem entre varios substantivos:
v.g. Virtutes morales súnt quatuor Prudentia,
Iustitia, Temperantia, Fortitudo
.
As virtudes morays sam quatro, Prudencia,
Justiça, Temperança, Fortaleza
Tambem depoys de verbos simplezes
sem caso v.g. Peccavi cogitando, loquendo,
operando
. Pequey cuydando, fallando,
obrando.

Mayor difficuldade he explicar outra
22parte da regra, & dar differença entre
o uso do ponto & virgula, & o de
dous pontos. Quanto ao uso de ponto,
& vîrgula a que chamamos colon imperfectum,
idest membro imperfeyto, entam
se darâ, quando nam baste a virgula,
nem convenha poremse dous põtos:
o que acontece quando fecha sentença
imperfeyta. v.g. neste exemplo: Ignoravi
olim; sed modó cognosco
. Antigamẽte
ignorey; mas agora conheço, E tem lugar
entre palavras, & sentẽças cõtrarias
v.g. Multum distant onerare; exonerare ;
laetari; tristari. Muyto distam carregar;
descarregar: alegrarse; entristecerse.

Quanto a dous pontos, a que chamamos
colon perfectum, idest membro perfeyto,
entam usamos delles, quando temos
chea a sentença sem ficar mays q̃
dizer. E assim a razam de se chamar mẽbro
perfeyto, he por ser parte do periodo,
o qual como corpo he clausula, ou
materia particular acabada.

Pelo que bem se deyxa ver a differença
que tem este membro perfeyto
23do imperfeyto, a saber ponto, & virgula,
o qual deyxa suspenso o sentido: por
nam estar dito quanto baste, até se ouvir
a parte da sentença que se segue.

Usamos tambem de dous pontos,
quando allegamos palavra de outro. v.
g. Dicebat Horatius: Nihil est ab omni
parte beatum
. Dizia Horacio: Nenhũa
cousa ha de todo perfeyta. Do mesmo
modo quando prometemos dizer alguma
cousa: v.g. Direy ao que me amaldiçoar:
Huyve como lobo; mas nam me
morda como cam
.

Regra 9.
Para usarmos de ponto final de sinal interrogativo,
& admirativo, & de
parenthesis.

POmos ponto final no fim da sentença,
ou razam, quando está de
todo perfeyta, & concluida: & nam
deyxa o entendimento suspenso. Pelo
que sempre se deve pór, quando se fecha
perfeytamente aquella sentença, q̃
24chamamos periodo, circulo, clausula:
depois da qual (como dissemos na regra
I.) sempre poremos letra grande

Sinal interrogativo he hum s. ás avessas
na parte superior: o qual na parte
inferior tem hum ponto nesta forma?
usamos deste sinal quando perguntamos
alguma cousa: v.g. Si tot alios cognoscis,
cur te ipsum ignoras? Si aliena appetis,
cur tu non conservas?
Se conheces
a tantos, porque a ti mesmo nam sabes?
Se desejas o alheyo, porq̃ nam conservas
o teu? E sempre depoys de interrogaçam
se escreve letra grande, como se
mostra nos exemplos.

Sinal admirativo he huma risca direyta
sobre hum ponto, nesta forma !
Delle usamos para significar espanto,
ou indignaçam: v.g. quando fallando
com Deos dizemos: Quam admirabile
est nomen tuum in universa terra!
E quãdo
fallamos com os Iudeos, dizemos: O
stulti, & tardi corde ad credendum!
Sempre
depoys de admiraçam, se escreve
letra grande.25

O sinal significativo de parenthesis,
sam dous semicirculos nesta forma ()
entre os quays incluimos algumas palavras,
que tiradas do que dizemos, nam
fica imperfeyta a razam.

Porque parenthesis significa o mesmo
que interposiçam de palavras alheyas
daquella clausula, em que se interpoem:
como quando dizemos: Peccator
(si non corrigatus) procul dubio damnabitur
.
O peccador (se senam emendar)
sem duvida será condenado. Item
quando se allega algum author: v.g. Beata
erit respublica [ut dicebat Plato] in
qua vel Reges philosophentur, vel philosophi
regnent
. Bemaventurada será a
republica (dizia Platam) na qual ou os
Reys filosofem, ou os Filosofos reynem
Seja outro exemplo para o mesmo uso
de parẽthesis: Liber liberis (dicebat Plato
lib. 7 Epist.] chariores tanto esse oportet,
quanto filij mentis praestant filijs corporis
.
Os livros (dizia Platam liv. 7. Epist)
emporta sejam tanto mays amados
que os filhos quanto os filhos do
26entendimento levam ventagem aos filhos
do corpo.

Regra 10.
De outros sinays importantes ao
bom escrever.

ALem dos sobreditos, ha outros sinays,
que se chamam Divisam,
Angulo, paragrafo, Apices, Hyphen, Meyo
circulo, Asterisco, Obelisco, & Brachia
,
cuja declaraçam he a seguinte.

Divisam se usa com este sinal - quando
no fim da regra acerta de vir algum
vocabulo, que por nam caber nella, se
parte, para se acabar na regra seguinte:
& o tal sinal se poem no fim da regra
nesta forma - mostrando que o vocabulo
nam estâ acabado.

Angulo he hum sinal desta figura ʌ
o qual denota faltar alguma cousa no
escrito, quando nos esquecemos de palavras:
27v.g. se dissermos, ElRey Dom
filho delRey D. Joam IV.
Affonso VI. ʌ he hum dos magnifico
& felices Reys do mundo.

Paragrafo, que por outro nome se
chama Artigo, ou Aforismo, he hum sinal
nesta fòrma, §, o qual se poem nam
entre huma clausula & outra, senaõ entre
hum tratado & outro, ou entre huma
materia & outra diversa, & sempre
se poem no principio de cousa dividida.

Apices por outro nome Diresis, ou Cimalha,
sam dous pontos, que usamos
por sobre a vogal, que queremos dividir
da outra immediata, & pronunciar
dividida, v.g. nestas palavras, Saúde,
Alaúde, Poéta
. E no Latim Aér, Israel,
E isto particularmente se faz nos
nomes que se equivocam com os diptongos,
para que se entenda que nam
sam diptongos, & que cada huma daquellas
vogays faz por sy syllaba particular.

Hyphea significa ajuntamento, he hum
28sinal desta figura -v. do qual usamos em
dous casos primeyro, quando se ajuntam
em hum corpo duas dicçoẽs diversas
ficando huma só v.g. passa-v.tempo,
guarda-
v.porta. Segundo, quando por
erro escrevemos huma palavra com as
syllabas separadas, & queremos emendar
o erro, denotando que he só. v.g.
Confi-v-do. Pelo contrario ha outra figura
chamada desuniam, que he esta n,
& serve de emendar erros apartando as
letras, ou dicçoens, que deviam escreverse
apartadas: a mesma força de Hyphen
tem este sinal - como se ve neste
nome menor-idade.

Meyo circulo tem esta figura) & serve
quando glossamos algum author, para
com elle dividirmos as palavras com q̃
o explicamos, pondoo nesta forma) &
sempre depoys delle se escreve letra
grande.

Asterisco he huma estrellinha desta forma
* que serve ou de notar falta de palavras
em algum author, ou de notar as
que sam dignas de ponderaçam.29

Obelisco significa ponta pequena de
espeto, ou seta, & poemse nesta forma
I> para significar palavras, ou versos
adulterinos de algum author. He sinal
cõtrario ao Asterisco: porq̃ este designa
os bons, & o Obelisco os maos,

Finalmẽte Brachia chamam os Gregos,
& nós syllaba breve ao sinal feyto
nesta forma, v, com o qual mostramos
ser breve a vogal sobre que se poem:
porque sendo longa tem outro significado,
& se deve notar com a figura do
accento circunflexo, ou com accento
acuto, v.g. no Latim Occîdo penultima
breve significa cair, & Occido penultima
longa significa matar.

No Portuguez esta palavra Cágado
com a penultima breve significa hum
animal aquatico, que os Latinos chamam
testudo, & com a penultima longa,
tem bem diversa signicafiçam.30

Segunda parte
Das regras so tocantes
â lingua latina.

1. Nunca se escreve letra consoante
dobrada senam entre
duas vogais, tirãdo nos compostos desta
preposiçaõ Di, & E, & se depoys della
se seguir f. porque entam o tal f. serâ
dobrado, ainda que despoys delle se sigua
consoante: ut diffringo, effluo, &c.

2 Todos os verbos compostos da
preposiçam ab, & de outro verbo, que
comece por consoante, tem duas consoantes
depois da letra A. ut Affero, Alluo,
Aggredior, appello
. Aonde se deve
advertir que muytos & graves Authores
com elegancia em lugar da primeyra
consoante usam d. v.g. adfero, adluo,
adgredior, adpello, &c
.

3 Todos os compostos desta preposiçam
Di, se depoys della se seguir f,
ou s, tem estas consoantes dobradas, ut
differo, difficilis, disseco, differo.31

4 Com tudo os verbos que depois
do Di, tem l, ou outra qualquer consoante,
nam a tem dobrada, ut diluo, dilanio,
dilucido, digredior
.

5 Todos os compostos da preposiçam
De, nam tem letra dobrada, depoys
della, ut deficio, delitesco, &c.

6 Todos os compostos da preposiçam
E, se seguir f. se o tal f, será dobrado
ut effluo, efficio, effringo.

Mas os que depoys de E, tem l, ou
outra letra, nam a tem dobrada: ut Eluo,
eluceo, egredior, &c
.

7 Todos os compostos da preposiçam,
Com, tem letra dobrada, quando
o m se come, porque entam o tal m. passa
para outra consoante: ut colluceo, colloco
&c
.

8 Se quando se segue l. em os compostos
da dita preposiçam Com, se dobra
o l. comendose o m. ut Collacrymor,
colligo, collido
, porém qualquer outra
consoante, que se sigua, nam se dobra,
ut consurgo, conquiro.

9 Quando nos compostos da preposiçam
32in segue l. o tal l. se dobra, comendose
o n. ut illuceo; porem qualquer
outra consoante que se seguir nam
se dobra, ut inservio.

10 Se nos compostos da proposiçam
per se seguir l. o tal l. será dobrado,
quando se comer o r, ut pelliceo. O contrario
se entende nas outras consoantes,
ut persisto, pertimesco, &c.

11 Das regras sobreditas se collige,
que só a consoante l, nas vozes compostas
da proposiçam con, in, per, se dobra
comendose a ultima letra da proposiçam.

12 Os compostos da proposiçam,
sub. se seguirem as consoantes c. f. g.
serâm dobradas comendose o b. ut succumbo,
suffero, suggero
; outra qualquer
consoante nam se dobra, ut subijcio,
subjecto, sublevo
.

13 Os cõpostos da proposiçam ob. mudaõ
o b. na letra q̃ se segue, & então a tal
letra he dobrada, ut offero, offundo; daqui
se tiram, obruo, observor, obluctor, obsto,
obtimeo, obdo
, & todos os que depoys do
33b. tem d. l. r. s. t. v. os quays nam tem letra
dobrada, nem perdem o b. Tambem
se tiram operio, omitto, oportet, os quays
perdem o b. sem terem letra dobrada.

14 Todos os compostos da preposiçam
prae. tem o E diptongo, tirando
premo, is, pretium, preces, presbyter, precor,
aris
, com seus compostos, prehendo
is
, com seus compostos.

15 Antes do s. naõ se escreve E, se
depois delle se se seguir consoante: ut
spondeo, spero, species, tiramse aestus, esto,
esca, aesculus
, com seus compostos.

16 Escrevemse com hum só s, os
nomes numerays, que se acabam em simus,
ut sentesimus, vigesimus
.

17 Escrevemse com hum só l, os
nomes da primeyra declinaçam acabados
em ela, ut querela loquela.

18 Os superlativos em limus, se es
crevem com dous ll ut facillimus, simillimus,
posto que facilis, & similis tem
hum sô l.

19 Se no cabo da regra nam couber
algum nome, ou verbo, porseha no
34cabo da regra hum sinal que chamam,
reclamo desta maneira, Anto- E na seguinte
regra nius.

20 Nos verbos compostos acabareys
a regra na preposiçam, & começalaeys,
com o verbo, ut conscribo, no cabo
o con, & no principio o scribo. O s. nam
se aparta do t. nem do c. v.g. Prae-sto,
coa-ctus
. E isto tambem usam graves
Authores na Lingua Portugueza, v.g.
con-stante, contra-cto, acabando a regra
em con- E começando a outra em
stante: acabando em contra- & começando
a outra em cto: & assim vemos
que nos caracteres impressos sempre
andam juntos o s, com o t.v.g. st, & o c.
com o t.v.g.ct.

21 Nũca se poem ponto sobre o y.

22 No Latim nunca se poem rabisca
debaxo do c.

23 Sempre se escreve t, quando a
prenunciam soa c. ou s. ut vitium, tirando,
quando os nomes se derivam de
outros, que necessariamente se escrevẽ
com c. v.g. felicium, porque vem de felices,
35que se escreve com c. o mesmo se
ve nestas palavras supplicium, simplicium,
porque nascem de supplex, & de
simplex Esta letra x. quando estâ entre
duas vogays tem força de c. s. v.g.
saxum, dixi, &c. que se ham de ler como
se fosse sascum, dicsi, &c.

22 Ha muita distinçam entre si, &
sim; porque si na lingua Portugueza he
o mesmo que sui sibi, se no Latim: & sim
he o mesmo que ita, maximé; vesse esta
distinçam neste exemplo. Pedro diz q̃
sim quer isto para si &c. Tambem se ha
de escrever assim, & nam assi, pela mesma
razam.

Terceira parte
Das regras so tocantes
â lingua Portugueza.

Regra 1.
Fundamental, que como fundamento dá
principio as mais.

Para que guardemos certeza, ou
verdade em nossa escritura, assim
36devemos escrever, como pronũciamos,
& pronunciar como escrevemos. D'outra
maneyra serâ nosso escrever mentiroso.
Porque se mente no fallar, quem
falla contra o q̃ entende, tambem mente
no escrever, quem escreve contra o q̃
pronuncîa. E o bom Portuguez para ser
totalmente verdadeyro, deve ter verdade
no escrever, como a tem no fallar.

Sirvanos de exemplo o mesmo verbo,
escrevo, o qual sendo no Latim scribo,
lhe acrescentamos o e, & mudamos o
b. em v. porque pronunciamos as tays
letras no escrevo. Polo que nunca se devem
acrescentar letras que se nam pronuncîem
como alguns mal acrescentam
e. no nome Fee, avendo de escrever
Fá, & o. no nome poo, avendo de
escrever pó.

Regra 2.
Para se escrever com distinçam.

Devese guardar alguma diversidade
no escrever dos vocabulos, q̃
37tendo as mesmas letras, tem diversa significaçam,
ou diversa toada. Porque de
outro modo faltando a distinçam averá
confusam v.g. para distinguirmos o
nome renuncia do verbo na terceyra
pessoa do prezente do indicativo renuncîa,
devemo de lhe por accento acuto
ou circunflexo na penultima longa.
E assim escreveremos:
Boa he a renuncia q̃ue faz Pedro, o qual
renuncía a sua Conezia em Paulo
. Do
mesmo modo distinguiremos o nome
esta do verbo está. se dissermos: esta mulher
está douda
. A mesma distinçam poremos
entre o nome nó, & a preposiçam
no, quando dissermos, Day hum
nó no cordel
. A mesma entre o verbo do
presente do indicativo da terceyra pessoa
do plural, tóstam v.g. com fogo, & o
nome tostam moêda.

Pela mesma maneira distinguiremos
em muytos verbos, os preteritos dos
futuros nas terceyras pessoas do plural
como Partiram de preterito, & partiràm
de futuro: & tirarseha a equivocaçam
38das cartas, em que se escreve por
nova.

Partiram as náos Sabbado, de preterito,
ou partirám as naos Sabbado, de futuro:
pois se tira pondose o accento na
penultima, ou na ultima.

O nome duvida, com a penultima
breve, para se distinguir da terceyra
pessoa do presente do indicativo do
verbo duvidar, se devisará com accento
posto no verbo como quãdo dissermos
Nam tem duvida aquillo em que Pedro
duvida
.

Regra 3.
Para escrevermos as palavras que sam
jũtamente Latinas, & Portuguezas:
& as que sam Latinas
aportuguezadas.

As palavras, que sam totalmente
Latinas, se devem escrever totalmente
com as mesmas letras: como terra
massa, syllaba
. Poys he bem que assim
como em todo as tomamos com tudo
o que trouxerem, as conservemos.39

Salvo se no nosso pronunciar mudarem
o som, como coro, no Latim chorus,
nam se ha de escrever com h. choro: porque
entam significa pranto, & nasce do
verbo chorar: nem Parocho, senam Paroco:
nem charidade, senam caridade: cono
nem Cherubim, senam Querubim.
Do mesmo modo, nam Monarcha, nem
Monarchia, senam Monarca, Monarquia.
Porque o cha cho che chi tem no
Portuguez diverso som do ca, co que,
qui
.

Conforme â regra geral seguiremos
o dobrar das letras, quando o Latim as
dobrar, v.g. poremos Aggravar aggravo,
exaggerar, exaggeraçam
; porque o
Latim escreve Aggravare, aggravatio,
exaggerare, exaggeratio
.

Entendese a regra quando as palavras
sam Latinas, sem mudança alguma,
porque se mudarmos qualquer syllaba,
ou letra, com a tal mudança as devemos
escrever. v.g. tem o Latim scribo, stella,
mulier
: nós porque temos escrevo, estrella,
mulher
, lhes acrescentamos & mudamos
40as letras que nellas se vem accrescentadas,
& mudadas.

Assim mesmo nas que tomamos, &
accõmodamos á nossa lingua aportuguezandoas,
devemos escrevelas com
tal diversidade, que em todo o possivel
lhe conservemos as letras, que trouxeram,
v.g. diz o Latim defensio, diremos
nós defensa, ou defensam com s, sendo
que em outras totalmente nossas pomos
ç. v.g. corrença, avença.

Nas semelhantes, que tomamos do
Latim, em que elle usa de t, pomos nós
ç. v.g. diz o Latim gratia, presentia, dolentia,
diremos nós graça, presença, dolença.

Noutras q̃ acabam em tia como Patientia,
clementia, violentia
acabamos
nôs em cia, Paciencia, clemencia, violencia.

As que nascẽ do Latim sendo aportuguezadas,
& jâ diversas no som, &
pronuncia, conforme a tal diversidade
se devem escrever, & pronunciar: v.g.
tem o Latim Doctor, Doctus, rector, collector,
41praefectus, affectus
, nós dizemos
Doutor, Douto, Reytor, Colleytor, Perfeyto,
effeyto, affeyto
.

Nas que se duvida, se se escreverám
com s. ou com z. por fazerem estas duas
letras quasi o mesmo som, seguiremos
o Latim: polo que diremos uso, &
nam uzo, porque o Latim escreve usus,
Diremos applauso, & nam applauzo, diremos
causa, & nam cauza, porque o
Latim escreve applausus, causa, &c.

Podese duvidar se hemos de escrever
Philosophia, ou Filosofia, ortograephia,
ou ortografia? Estas palavras sam Gregas,
& assim o Latim porque as tomou
do Grego, as escreve com ph mas, nam
estranharey, antes me accõmodarey a
quem aportuguezandoas as escrever
chãmente, Filosofia ortografia, como
tambem Felippe, & nam Phelippe. Porq̃
jâ vem de longe, & nam sam Latinas,
senam alatinadas.

Nam devemos escrever com diptõgo
os nomes que tomamos do Latim, &
nelle se escrevem com diptongo, como,
42edificio, estio, herdeyro, pena, feno, Ethiopia:
aos quays o Latim escreve com diptongo,
Ædificium, aestas, haeres, poena,
faenum, Æthiopia
. Porque ao Portuguez
bastamlhe os seus diptongos, &
nam lhe convem os alheyos. O que melhor
se verá na regra 5.

Com tudo nam reprovarey os que
escreverem com diptongo alguns nomes
proprios Latinos, ou Gregos menos
usados: para que assim melhor se conheçam,
como Oedipo, Oenome, Ælio.

Nam me parece mal tomarmos dos
Gregos a sua letra K. porém só para escrevermos
duas dicçoẽs, que dos mesmos
Gregos tomamos, quays sam, Kirios,
Kalendas
.

Regra 4.
Para escrever os nomes no plural.

OS nomes ou acabam em letra vogal,
ou em letra consoante. Quanto
aos que acabam em vogal, se acabam
43em a, ou sejam monosyllabos, ou polisyllabos,
tem o plural em as, ut pá, pás,
fama famas
. Se acabam em e. tem o plural
em es. pé, pés, polé, polés.

Se acabam em i, tem o plurar em ins,
ut robi, robins, ou em iys, robiys.

Se acabam em o, tem o plural em os,
ut pó, pós, pano panos.

Advirtase que muytos que acabam
em o, & nam tem accento longo na primeira
syllaba do singular, o tem na primeyra
do plurar, como Ovo, óvos, osso,
óssos, povo, póvos, porco, pórcos
.

Se acabam em u, tem o plural em us,
Mú, Mús, perú, perûs
.

Quanto aos que acabam em consoante,
devese advertir, q̃ os nomes Portuguezes
commumente nam acabam
em b. c. d. f. g. n. p. q. t. x. mas acabam em
l. m. r. s. z.

A cada huma destas cinco consoantes
em que costumam acabar, poremos
detraz sua vogal, para lhe darmos seu
plural.

Se fallamos da letra l. & acabamos o
44singular em al, tem o plural em ays, Animal,
animays, curral, currays
. Se em el,
o tem em eys, Lambel, lambeys Se em il,
o tem em iys. Gomil, gomeys. Se em ol, o
tem em oys. Caracol, caracoys. Se em ul,
em uys. Paul, pauys.

Se fallamos da letra m, & dos que acabam
em am, cõmumente tem o plural
em oẽs, como Trovam, trovoẽs, padram,
padroẽs, peyam, peyoẽs, esquadram esquadroẽs,
tostam, tostoẽs
. Tiramse alguns q̃
tem o plural em aẽs, como cam caẽs, escrivam,
escrivaẽs, capitam, capitaẽs,
pam, paẽs, massapam, massapaẽs, Alemam,
Alemaẽs, gaviam, gaviães rufiam,
rufiaẽs
.

Tambem se tiram outros que tem o
plural em aõs, como Cortezam, cortezaõs,
cidadam, cidadaõs, villam villaõs,
Christam, Christãos, irmão, irmaõs,
mam, mãos, sam, saõs, vam vaõs, pagam,
pagaõs, frangam, frangaõs, zangam,
zangaõs
.

Os acabados em em, tem o plural em
ens, como homem homens, palafrem palafraens.
45Os acabados em im tem o plural em ins
como Marfim, marfins, fraldelim, fraldelins.
Os acabados em om tem o plural
em ons, como bom bons. Os acabados
em um tem o plural em uns, como debrum,
debruns
.

Se fallamos da letra r. & dos que se acabam
em ar, tem o plural em ares, como
Pomar, pomares, se em er, tem o plural
em eres, como Mulher mulheres. Se
em ir, em ires, como Martyr Martyres.

Se fallamos da letra s. nam consta de
certo acabar nome Portuguez em s salvo
dissermos acabam ẽ es, conves, envés,
revés
. & entam faram no plural conveses
enveses, reveses
: ou em is: como gis, & fará
gizes: ou em os, como cos, & farâ coses:
ou em us como cuscus, & fará cuscuses.
Porem melhor serâ acabalos em z. & dizer
convéz, convézes, envéz, envézes,
revèz, revézes, giz, gizes, cóz, cózes,
cuscuz, cuscuzes
.

Se fallamos da letra z. os acabados
em az, tem o plural em azes, como paz
pazes
. Os em ez, tem o plural em ezes, como
46fez, fezes. Os em iz tem izes, codorniz,
cordonizes
. Os em oz tem em ozes,
Foz, fozes. Algeróz, algerózez
. Os em
uz tem em uzes, como carafúz, carafúzes.

Advirtase que ha huns nomes Portuguezes
anomalos, dos quays se pode
dizer que nem tem singular, nem plural,
ou q̃ nelles tudo he singular & plural
ou quays se acabam em s: v.g. migas,
pas, andas ciroulas, layvos
.

Regra 5.
Para os diptongos.

DIptongo, quãto se colhe da ethymologia
& significaçam desta
mesma palavra Grega, val o mesmo q̃
conglutinaçam de duas vogays, que
guardam a mesma força em huma só
syllaba.

Pelo que visto termos conhecido q̃
cousa seja diptongo, nam he possivel tenhamos,
& conheçamos algum diptongo
47na lingua Portugueza, senam quando
virmos conglutinaçam de duas vogays
unidas em huma syllaba.

O que posto, eu só acho no Portuguez
haver tres generos de diptongos,
debaxo dos quays estám varias especies.
Porque só nos ditos generos acho
uniremse duas vogays em huma syllaba.

O primeiro genero he quando se dâ
uniam da vogal y. com algũas das outras
vogays, ou se ponha antes, ou depoys
della: da qual anteposiçam, ou
posposiçam resultam varias especies de
diptongos, que postas por exemplos
declararám a regra. v.g.

Quando se junta y. cõ a. ou se poem
antes ya, como na palavra arrayal, ou se
poem depoys ay, como na palavra pay.

Quando se junta com e. & se poem
depoys ey como na palavra Rey, ley &c.

Quando se junta com o como na palavra
boy, foy.

Quando se junta com i, se poem depoys
iy, como nas palavras Robiys BoRiys.48

Quando se junta com u. uy, como nas
palavras fruyto, muyto, &c.

Donde se vê que das diversas combinaçoẽs
referidas, nascem diversas especies
de diptongos explicadas.

O segundo genero de diptongos he
quando se dá uniam da vogal u. com
alguma das outras vogays, ou se ponha
antes, ou depoys della: da qual anteposiçam,
ou posposiçam resultam varias especies
de diptongos, que postas por exemplos
declararám a regra, v.g.

Quando se junta u. com a. ou se poem
antes ua. como na palavra igual, ou
se poem depois au. como na palavra
causa.

Quando se junta com e. ou se poem
ante ue. como na palavra baque, ou se
poem depois eu. como na palavr deu,
posto que muitos doutos escrevem deo
idest dedit.

Quando se junta com i, & se poem
antes ui. como na palavra daqui.

Quando se junta com o. ou se poem
49antes uo. como na palavra loguo, como
algũs escrevem; ou se poem depoys, ou
como nas palavras Moucho, outorgo.

O terceyro genero de diptongos he
quando duas vogays, ou sejam da mesma,
ou de diversa especie, fazem entre
si conglutinaçam em hũa syllaba por
força do til, que se poem atãdo ambas,
& assi debaxo deste genero haverá tantas
especies, quãtas forem as combinaçoẽs
que acharmos, & nos servirám de
exemplos.

V.g. em vogays do mesmo genero unidas
com til, irmãas, maçãas, posto q̃
alguns Doutores escrevem com hũ só a
& com til maçãs, irmãs. Em vogays de
diverso genero unidas com til, tostoẽs,
escrivaẽs
.

Nas ditas palavras achamos diptongos,
porq̃ he certo q̃ de cada hũa combinaçam
das ditas vogays assim unidas,
v.g. ãas, aẽs, oẽs, resulta huma só syllaba,
& polo conseguinte tantas especies de
diptongos, quantas saõ as combinaçoẽs.50

Regra 6.
Para o dobrar das letras, ou sejam vogays,
ou consoantes.

Quanto ás vogays, pode ser regra
geral, que nenhuma vogal se dobra,
sendo do mesmo genero, & qualidade,
& pertencendo ao mesmo vocabulo.

Digo (do mesmo genero, & qualidade)
porque na pajavra mentiys he diversa
qualidade o i. do y. Digo (pertencendo
ao mesmo vocabulo) porq̃ quãdo
dizemos vendoo idest, vendo a elle,
ou amavaa idest, amava a ella, nam se
dobram as tays vogays, mas juntamse
os artigos, os quays nam pertencem aos
vocabulos, compondo com elles hũa
dicçám.

Quanto âs consoantes, he certo que
x. z. nunca se dobram: porq̃ em si tem
força & equipolencia de dobradas.

Para se dobrarem r, & s, pode servir
51de regra a orelha, se for delicada. Porq̃
cada huma das tays letras dobrada faz
diverso som do que singela. Dobrada
pronũciase com som forte, singela com
som fraco. O que bem se conhece ouvindo
amara do verbo amar, & amarra
do verbo amarrar.

O mesmo he no s porque diversamẽte
soa caso idest acontecimento, do que
casso, vaso de cobre.

Advertimos porém que em dous casos
que estas letras se nam dobram, tem
força & pronunciaçam de dobradas.

Primeyro, quando se poem no principio
da dicçam, v.g Rapaz, saude. Segundo,
quando se poem no meyo da
dicçam, nam se pondo entre duas vogays,
v.g. Tenro, defensa.

Mayor difficuldade de dar regra para
se dobrarem as mays consoantes, particularmente
quando a mesma pronuncia
& som corresponde assim ás dobradas,
como ás singelas, o que se vé na palavra
fallar, porque do mesmo modo
soa com dous ll, do que com hum só
52falar.

Mas antes de chegarmos a esta difficuldade,
se no som ouver diversidade,
se poderâ dar a regra seguinte. Digo po
ys he força dobrarense as consoantes,
quando ellas padecem divisam no som,
como na palavra accento, onde a syllaba
ac no som se aparta do cento. Porque de
outro modo essa palavra accento se nam
pronunciaria diversa do nome assento.

Quando fazemos composiçam totalmente
Portugueza com a letra a. formando
alguns verbos de nomes, nam
pede a orelha & uso, que se dobre a cõsoante
immediata á letra a. pelo que dizemos
de manso amansar, de pedra apedrejar,
de noyte anoytecer, de cabo acabar,
de proveito aproveitar, de puro apurar.

Alguns ha em os quays mays o uso q̃
a orelha nos ensina que dobram a letra,
como sam os que tem f. depoys da letra
a. particularmente seguindose vogal v
g. Afforar, affinar, affagar.

Quanto aos mais, aonde nada do sobredito
53se ve, eu lhe nam sinto outro
remedio, senam regularemse pela regra
cõmunissima terceyra que temos dado,
& abrange a todas, & quaysquer consoãtes,
a saber, que se as dicçoẽs forem
Latinas, ou deduzidas por algũa via do
Latim, se ponham dobradas, ou singelas
conformandose com a Latinidade,
v.g. Affinidade com affinitas, Aggravar,
com aggravare, communicar com
communicare, & assim dos mays.

Pela mesma regra se ha de escrever:
elle, delle, aquelle, porq̃ o Latim escreve
ille. Na mesma conformidade amasse,
lesse, ouvisse, fosse
. Porque o Latim tem
amasset, legisset, audisset, fuisset.

Devemos escrever com simplez s. o
se, que ajuntamos ao verbo, para o fazer
passivo v.g. vejáse, leyase, oussase.
Porque esta junto do se, he totalmente
nossa, & nam Latina, nem ha razam de
dobrar o s.54

Regra 7.
Para se usar na escritura das letras consoantes,
que sendo diversas, tem
semelhante toada.

Acho duas esquipaçoẽs de letras,
que sendo na figura bem diversas
sam na toada bem semelhantes. A primeyra
esquipaçam consta de tres c. s. z.
consta a segunda de duas. g. j.

Quanto á primeyra, a letra c. & a letra
s. tem quasi a mesma toada. quando
se juntam com e. i. porque a mesma toada
faz serám escrito com s. do que cerám
escrito com c. do mesmo modo Cidade,
& Sidade. Sinco, & cinco. Polo que
necessitam de regra para sabermos o
uso das tays letras.

A mim me nam occorre outra regra,
senam a geral q̃ tenho dado, de tomarmos
do Latim as letras para as palavras
q̃ do Latim nos vieraõ. Polo q̃ escreveremos
cebola, & cidade, cõ c. porq̃ o Latim
escreve cepe, & civitas: escreveremos
Senado, sinete, porq̃ o latim escreve
55Senatus, sigillum.

E quando as palavras sejam Portuguezas
sem trazer origem alguma do
Latim, teram c. se acabarem em ece, sendo
verbos, amanhece, anoytece, & tambem
se acabarem em ice sendo nomes
ladroice, parvoice. Para os mays eu nam
vejo outro remedio, senam de consultar os
Vocabularios.

Notese que o ti dos Latinos, mudamos
em ci. Porque elles dizem clementia,
nós clemencia: elles negotium, nós
negocio. Assim como o que elles acabam
em sio, acabamos nós em sam. Dizem divisio,
nós divisam, dizem defensio, nós
defensam, dizẽ cõclusio, nós cõclusam. Tirase
passio, porq̃ dizemos payxam cõ x.

cotejemos agora o s, com o z. as quays
letras muytos confundem, nam sabendo
quando usarám de huma, & quãdo
de outra. Regra para distinçam seja
applicar a que demos para o c. & s. a
saber que escreveremos com s. & nam
com z. os vocabulos Portuguezes, quando
os Latinos donde nascem, tem s. &
56nam z. E assim porque o Latim tem
mensa escreveremos nós mesa, & nam
meza: porque o Latim tem casa, nam
escreveremos nós caza, senam casa, caseyro,
casamento
, &c.

Poremos com tudo z. em varios vocabulos
Portuguezes, guardando as regras
seguintes.

Primeira: quando os tays vocabulos
nascem de nomes Latinos acabados em
x. como de pax escreveremos paz, de
fex, fez, de Perdix, perdiz, de vox, voz,
de lux, luz.

Segunda: Nos nomes patronimicos,
como de Fernando, Fernandez, de Rodrigo,
Rodriguez
.

Terceira: Em nomes proprios de
naçoens, que acabam em ez, como Portuguez,
Ingrez, Irlandez, Escocez, Francez,
Genovez
.

Quarta: Em muitas pessoas dos verbos
fazer, trazer, dizer, como faz, traz
diz, fazia, trazia, dizia
.

Quinta: Nos nomes femininos acabados
em eza, como avareza, fraqueza
57rudeza, cainheza
.

6 Em todos os acabados em az, ez,
iz, oz, uz
, que tem accento na ultima,
v.g. Rapaz, enxadrez, chafariz, albernóz,
alcatrúz
.

7 Nestes nomes numerays dez, onze,
doze, treze, quatorze, quinze, dezaseys,
dezasete, dezoyto, dezanove, duzẽtos,
trezentos
. Mas quatrocentos até
mil, escrevemse com c.

Alem do sobredito, todas as vezes q̃
o nome no singular se acaba em letra
consoante tendo antes della esta vogal
e. se se pronunciar com accento agúdo
na ultima syllaba, serâ s. ha outros nomes
que tem e. na ultima que nam necessitam
de accento acuto porq̃ a syllaba
nam fere tanto: & basta acabar em z.
exemplo dos primeiros sam garoupés,
convés, envés, revés
. Exemplo dos segundos
sam Enxadrez, endez, vez, pez,
mez, Marquez
.

Para se saber quays sam os nomes q̃
no plural acabem em s. a saber as, es,
is, os, us, vejase a regra 4.58

Quanto â segunda esquipaçam das
duas letras g. j. tem estas duas consoantes
a mesma toada, quando se juntam
com duas vogays e. i. porque na orelha
a mesmo toa ge, do que je, & o mesmo
gi, do que ji. Sam com tudo muy differentes
no toar quando se juntam com
a, o, u. Porque bem diverso som faz ga,
go, gu
, do que ja, jo, ju.

Pelo que nesta segunda junta para
se haver de escrever ga, ou ja go, ou jo.
gu, ou ju, só pode servir de regra a boa
orelha.

Na primeira junta está toda a difficuldade,
quãdo hemos de escrever ge,
gi
, quando je, ji. Sirva de regra a geral,
que devemos seguir o Latim, quando
delle trazem origem nossas palavras; v.
g. diz o Latim jejunium, nós jejum: diz
o Latim ingenium, nós engenho. Diz origo,
nós origem: diz regere, nós reger: &
conforme a esta regra diremos gente,
fugir, rugir, imaginar
.

Porém se mudarmos no nome Latino
a vogal v.g. e. em o. ficando a mesma
59toada, he força mudar a consoante, assi
como tem o Latim Georgius, nós porq̃
mudamos o e. em o. para no modo possivel
conservarmos a toada, escrevemos
Iorge.

Porque o Latim tem gigas, dizemos
nós gigante. Porque o Latim nam começa
palavra por ji, nem nós a começamos,
mas dizemos ginete, ginjas.

Os nomes acabados em em devemse
escrever com g, v.g. Pagem, bagagem,
lavagem, ervagem, fogagem, ferrugem,
penugem, babugem
. Mas nos verbos
se porá j. Sobejem, festejem, envejem. Porque
estes & outros semelhantes o tem,
ainda quando se junta com a, sobejar,
festejar
.

Nas outras palavras que nam se contem
debaxo da regra, como se ha de ser
Herege, ou Hereje. Vejamse os Vocabularios.60

Regra 8.
Para escrevermos aspiraçam, ou h.
na lingua Portugueza.

H. Para com os Gregos & Latinos
nam he letra, mas he aspiraçam,
que se junta ás letras, para modificar,
ou espertar a pronuncia, dando força á
vogal proxima. Tem muita valia na
lingua Castelhana, servindolhe de f. nas
palavras que com elle antigamente pronunciavam.
Pois dizendo noutro tempo
Fazenda, Fijo, Fidalgo, Faro, agora
dizem Hazienda, hijo, hidalgo, haro.

Na lingua Portugueza em que escrevemos
a tal aspiraçam antes de vogal, &
depoys de consoante imitando aos Latinos,
nam tem tanta força. Porque escassamente
a sentimos pronunciando,
Henrique, Homem, herdeiro, honrado,
Rhetorica
, ou pronunciando Enrique,
omem, erdeyro,onrado, retorica
. Pelo que
nam condenarey aos que faltarem no
61pór da tal aspiraçam nos nomes q̃ já os
Latinos tomâram dos Gregos, como
sam Philosophia, Theologia, escrevendo
Filosofia, Teologia, conforme ao que advertimos
na Regra 3.

A terceyra pessoa do singular do
presente do indicativo de sum, es, fuit,
sempre se escreve com h He para se distinguir
de e. conjunçam: nam condenarey
a quem puzer é com accento circunflxo,
ou acuto, em lugar de ha.

O verbo anomalo ir, de eo, is, sendo
q̃ em todos os tẽpos de todos os modos
se conjuga sem h. no principio, com tudo
se escreve cõ elle nos preteritos imperfeitos
do indicativo, conjũctivo, infinitivo,
assim: hia, como hia, q̃ hia.

Nam condeno aos que escrevem com
h. o verbo anomalo haver, guardandolhe
a origem de habeo, es, mas os q̃ o escrevem
sem h. em muytos tẽpos, & pessoas,
só lho devem pór na segunda &
terceyra pessoa do singular do presente
do indicativo, conjunctivo, & infinitivo,
& na terceyra do plural do mesmo
62tempo, & modo, v.g. has, ha, ham.

Sentimos com mais clareza esta aspiraçam
nas interjeyçoẽs que denotaõ alegria,
temor, & espanto. Como quãdodizemos
há, há. significando alegria:
quando a pomos diãte da vogal dizendo
ah, ah. significando temor, ou quando
dizemos oh, oh. denotando espanto.

Vsamos tambẽ de h. sem vermos força
algũa de aspiraçam, em tres termos
differentes, quays sam ch, lh, nh. onde
experimentamos tres diversas pronũciaçoẽs
proprias da nossa lingua, q̃ os
Latinos nam conhecéraõ. Pelo que venho
a crer q̃ o h. para com os Portuguezes
hũas vezes he aspiraçam, como a
dos Latinos; outras he verdadeyra letra
cõ a qual sem aspirarmos, distinguimos
as tres referidas pronũciaçoẽs sentindo
bem diversa toada no cha, lha, nha.

Dõde advirtamos, q̃ se o Latim poẽ
aspiraçam depois do c. como em charitas,
chorus
, & outras semelhantes, nós a
nam ponhamos: porq̃ assi fugiremos a
toada diversa do latim, q̃ no Portuguez
63faz charidade, choro. Pois bẽ se ve a diversidade
q̃ entre as nossas palavras ha,
de caco, a cacho: de marca, a marcha, &
assim digamos caridade, coro.

Pelo que para conformarmos nossa
toada com a Latina, do cha, cho, & chu
dos Latinos, tiraremos o h. & em lugar
do seu che, & chi, poremos que, & qui:
E assim dizendo elles chelidonium, diremos
nós quelidonio, dizendo elles Monarchia,
diremos nós Monarquia.

O lha, lhe, lhi, lho, lhu. he tam proprio
dos Portuguezes, q̃ com os Castelhanos
o pronunciarem, fogem de o escrever.

Suprem elles o h. com o segundo l.
escrevendo dous ll: & dizendo nós Castelhanos,
escrevem elles Castellanos.

Tambem o mudam em j. v.g. dizemos
nôs trabalho, dizem elles trabajo: dizemos
semelhança, dizem elles semejança.

Do dito nasce, que por fugirem de
nós, fogem tambem dos Latinos, quando
estes escrevem dous ll. v.g. dizem os
Latinos Tullius, syllaba, elles tiram hum
l. escrevendo Tulio, sylaba: porq̃ a lhe
64porem dous ll. ficariam soando o que
para nós soariam Tulhio, sylhaba.

He tambem muy proprio dos Portuguezes
escreverem h. depoys de n.
como nha, nhe, nhi, nho, nhu, v.g. nos vocabulos
Manha, pinheyro, grunhir, penhor,
nenhum
.

E para que os Castelhanos sempre
fujam de nós, em lugar do h. que elles
pontualmente pronunciam, poem depoys
do n. hum til, ou outro n. porque
podendo por ninho, poem, niño, ou
ninno.

Notece que se ha de escrever aspiraçam
antes so ypsillon Grego no principio
dos vocabulos: v.g. Hydropico, hypocritá.

Regra 9.
Para conhecermos os accentos, & viraccentos,
& usarmos delles.

Accento val o mesmo que o tom
que damos ás syllabas em cada
dicçam, levantando, abatendo, ou pronunciando
65sem abater, & sem levantar.

Pelo que os accentos sam tres, a saber,
agudo, grave, circunflexo. Agudo
he o que levanta mays a voz, & tem esta
figura á. grave he o que abaxa, & se poem
assim à, circunflexo participa de
ambos, & se poem nesta forma â.

Do accento acuto usam os Latinos,
(como se ve em todos os Annays, &
Breviarios bem correctos) em toda a
syllaba predominante de qualquer dicçam,
que passe de duas syllabas, porque
as dicçoẽs monosyllabas, ou dissyllabas
no Latim nunca tem accento acuto
& no Portuguez o tem se se equivocam
com outras semelhantes palavras, pola
regra geral que temos dada. Chamase
syllaba predominante aquella que soa
mays, ou levanta mays o som, como rgora
nesta dicçam Creator, claro estâ
que o a. soa mays, poys o a. he ali a letra
predominante, & sobre este á se ha de
por accento acuto, escrevendo creátor,
pietátes, &c
.

Porem ha se de advertir que nam he
66o mesmo ser syllaba predominante, que
ser syllaba longa, porque pode a syllaba
ser breve, & ser predominante, & como
tal ha de ter accento acuto, v.g. matéries
tem aquelle primeyro e breve, & cõ
tudo ha se de escrever matéries com accento
acuto, porque o e ali he syllaba
predominante; o mesmo vemos nesta
Dóminus que tem aquelle o breve, &
com tudo por ser letra predominante
tem accento acuto.

Do accento grave usam os Latinos
para distinçam das palavras, quando
huma palavra se equivóca com outra,
v.g. optimé pode nascer de optimus, &
pode ser adverbio, poys quando he adverbio
tem accento grave desta maneyra
óptimé & sic in caeteris.

E he regra geral que deste accento se
nam usa senam nas ultimas para semelhantes
distincçoẽs. E sempre semelhantes
ultimas sam na pronunciaçam
breves, porque tambem he regra geral,
que nenhuma palavra Latina tem na
ultrma syllaba pronunciaçam longa,
67donde vem que erram os que dizem
aliás quando he adverbio com pronũciaçam
longa. E nasce este erro de nam
conhecerem os accentos, que se os conhecessem
veriam que era accento grave,
o qual deprimit, & nam acuto, o
qual attollit, & só se poz, nam para alterar
a pronunciaçam, senam para que
saybam que nam he alias nome derivado
de alius, senam que he aliás adverbio.
Do mesmo accento grave usamos
nos adverbios que se equivocam com
preposiçoens, v.g. cúm, prope, quando
sam adverbios.

O accento circunflexo, quando se
poem na segunda syllaba tem a mesma
força que o accento acuto, porque do
mesmo modo attollit sonum; só tem
esta distinçam que mays ordinariamẽte
se usa delle quando a ultima syllaba
he breve, v.g. Pietâte tem accento circunflexo,
porque tem a ultima breve,
& Pietátes tem accento acuto, porque
tem a ultima longa. Isto se vé nos Missays,
& Breviarios bem correctos.68

Usamos tambem deste accento circunflexo
nos ablativos em a. principalmente
quando atraz lhe nam fica preposiçam,
exemplo seja: Emi librum unciá;
mas advirtase, que como ja dissemos,
ainda q̃ este accento circunflexo
esteja nestes ablativos, nam altèra, nem
alevanta a pronunciaçam, pela regra
geral que temos dado que nenhuma
palavra Latina tem no fim a pronunciaçam
longa.

O que temos dito dos accentos he
principalmente para uso da lingua Latina,
& para perfeyçam della. & devem
ser muyto advertidas estas regras que
sobre os accẽtos aqui advertimos, porque
pela ignorancia que ha em conhecer
estes accentos, sam raros os q̃ saybam
escrever certo na lingua Latina.

Vamos agora ao uso destes accentos
na lingua Portugueza, delles devemos
usar nas palavras, que sendo diversas se
escrevem com as mesmas letras, para
com elles significarmos haver diversidade:
v.g. escreveremos com accento
69agudo na penultima, a pessoa de preterito
plusquam perfeyto amára, léra ouvîra,
& quando for futuro, lho poremos
na ultima, amará lerá ouvirá.

O mesmo usaremos nos nomes onde
for necessario distinguir, como nesta
palavra cór, por vontade, a qual notaremos
com accento agudo, para distinçam
de cor idest color. Assim mesmo
no verbo fazer quando usarmos da terceyra
pessoa do preterito fez distinguindoo
do nome féz por borra.

Quanto â segunda parte da regra
viraccento a que os Gregos contam entre
os mays accentos, & chamam Apostropho,
nam he em rigor accento mas
he só nota da vogal que se tira do fim
da dicçam, pela figura que Gregos, &
Latinos chamam synalepha, & se usa
quando huma dicçam acabada em vogal
se encontra com outra, que começa
por vogal. E este Apostropho, se poem
assim d'ouro, d'arroz, d'óvos.

Poemse este viraccento ou Apostropho
de necessidade no verso, para se e
70vitar o hiato, ou abertura da boca. Tam
bem na prosa usam os Portuguezes frequentemente
de apostropho, ou viraccento,
quando a proposiçam de se junta
ás dicçoẽs que começam por vogal,
& assi escrevem d'Evora, d'Elvas, d’
armas
. E nesta forma devem escrever,
& não confundir as palavras, como alguns
fazem escrevendo douro, delvas,
darmas
: & cada vez mays confundem,
como dizendo: Nam mouves: nam touço:
havendo d’escrever, Nam m'ouves ?
Nam t'ouço

Assim que sempre poremos este viraccento
sobre a derradeyra consoante
da dicçam ficando em lugar da vogal
nesta forma d' m' r' t’

Advirto porem que nam he necessario
usar de viraccento nas palavras que
jà pelo uso sempre pronunciamos como
se foram huma só, & nunca como
duas v.g. Nesta, desta: porque nós nunca
dizemos Na esta, de esta: & assim nam
he escrever necessario n'essa, d'esta. Sò
poremos o viraccento nas que padecem
71huma, & outra pronunciaçam como
d'Evora d'Elvas d'armas, & em
semelhantes.

Regra 10.
Para usar de til.

Til, que alguns querem signifique
titulo, nam he letra, mas he huma
linha breve, ou abreviaturas, q̃ pomos
sobre as dicçoẽs, com que supprimos
algũas letras.

He força que algumas vezes na escritura
Portugueza usemos de til, para
nos conformarmos com a nossa segunda
regra que demos no principio de
toda a boa ortografia, a saber, que sempre
poremos diversidade em palavras
que tem diversa significaçam.

Daqui nasce devermos usar de til,
quando escrevemos mãos, idest manus,
para distinçam de mâos, idest iniqui:
porque d'outro modo ficarám estas palavras
confundidas.

Grande he a cõtenda entre os peritos,
se hemos de usar de aõ, se de am, ou
72seja os nomes Perdigaõ, Perdigám, ou
nos verbos amaraõ, amarám. Nam me
atrevo a condenar o vulgar modo de
escrever aõ usado de muytos: mas sou
de parecer que usemos de am. Porque
alem do aõ demandar diversas pronũcias,
por razám do ao junto com til, q̃
tem força de m. & fica soando aom, se
usarmos de m, nos assemelharemos
aos Latinos, os quays assim nos nomes,
como nos verbos poem am musam, legebam,
& na particula Nam que significa
porque. E ja que delles tomamos as
palavras, he bem que tomemos o escrevelas:
principalmente q̃ os que escrevem
com ao til aõ, estam expostos como
ja dissemos, a grande confusam porque
ou seja v.g. entraram de preterito, ou
entrarám de futuro, tudo escrevem cõ
ao til aõ; mas os q̃ usam de am no preterito
poem accento na penultima, entraram
no futuro poem o accento na
ultima entrarám como ja temos advertido.

E nesta forma semelhantes aos Latinos
73melhor responderemos â ordinaria
objecçam que poem os Castelhanos á
nossa lingua, tachandoa de grosseyra,
dãdonos em rosto cada dia com os nossos,
ão, aõ, que elles adelgaçam, pondo
n, em lugar de m. para acabarem assim
mays suave, & agudamente em an: por
que nós dizemos amam, elles dizem
aman.

Respondemoslhe logo, que nisso nos
ficamos parecendo mays aos Latinos
do que elles se parecem. Porque se os
Latinos acabavam frequentemẽte seus
vocabulos de toda a sorte em am, v.g.
Musam, famam, amabam, legebam, coram,
nós assim queremos acabar, para
ficarmos mays semelhantes a Latinos,
particularmente Romanos, do que aos
Castelhanos.

Quanto mays, que ja antigamente
ouve esta objecçam, que punham os
Gregos aos Latinos, tachãdoos de grosseyros
por na forma sobredita acabarẽ
seus vocabulos. Aos quays respondeo
acertada, & elegantemente Quintiliano.
74lib. 12. cap. II. Non possumus (diz elle)
esse tam graciles: sinus fortiores: subtilitate
vincimur: valeamus pondere
. Isto
mesmo podemos responder a nossos emulos.
Confessamos que os Castelhanos,
nesta parte, sam mays delgados, &
sotiys no seu fallar, mas nôs assim no obrar,
como no fallar, somos mais fortes,
& graves do que elles.

Nem pareça a alguns singular esta
minha opiniam: pois he do P Antonio
Velez no seu cõmento, & se guarda nas
impressoẽs da arte mays correctas: &
varoẽs peritissimos na lingua materna
assistindo a suas impressoẽs, a praticaram,
quays sam os Padres Ioam de Lucena.
Balthezar Telez, & Manoel Mõteyro:
he tambem de varios outros insignes
nas letras humanas, que consultey.

Vsaremos mais do til aonde for precisamente
necessario, como em varios
nomes, que tendo toada de a & de m,
em nenhuma destas letras acabaõ, como
Irmãa femea para distinção de Irmam
75macho, maçãa, avelãa, lãa, menhãa,
Christãa
, para distinçam de Christam.
Os quays tambem no plural recebem
til: irmãas, maçãas, avelãas, lãas, menhãas,
Christâas
: posto que alguns doutos
escrevem com hum só a. Irmã, menhã,
irmãs, menhãs
: como tambem, outros
só no plural, quays sam irmãos,
Christãos, escrivaẽs
: porque he necessario
til com que atem as duas vogays
em huma syllaba.

Querem outros, que nos sobreditos
nomes irmãa, maçãa, se deve por hum
a com accento acuto irmá, maçá: mas
enganamse: porque entam confundirseam
estes nomes cãa, & lãa, com os
adverbios , & : os quays só ficam
distinctos escrevendose, & dizendose:
cá está a cãa: lá está a lãa. Pondose os
dous aa com til. E noto que til tẽ força
de m. Donde quem puzer sobre hum
a til v.g. Irmã, nam a fica distinguindo
de Irmam.

Estes nomes huma, alguma, nenhuma,
tambẽ se podem escrever com til, hũa
76algũa, nenhũa
: porque o til lhes serve
de m.

Vsamos tambem de til nas abbreviaturas,
como em lugar de Fernandez ad
extensum, pomo Frz. em lugar de Gonçalvez
pomos Glz, em lugar de Rodriguez
pomos Ruiz, com til.

Regra 11.
Para se usar das letras i. u. quando sam
vogays, & quando sam
consoantes.

Nam obstante dizerse vulgarmente
que qualquer destas letras i. u.
hũas vezes he vogal, & outras consoante:
eu tenho por melhor dizer que
nam sam só duas, senam quatro as tays
letras: poys cada huma dellas tem diversa
natureza, & sempre se deve escrever
com diversa figura.

Quanto ás primeyras, digo que sam
duas diversas letras, i. vogal, & j. consoante,
á qual podemos chamar je. Porq̃
77i, vogal alem de ter figura diversa, faz
syllaba, como nestas palavras ira, imagem.
& j. consoante alem de ter diversa
figura, poys he rasgado, tem diversa natureza,
q̃ he ferir a vogal seguinte, como
se ve nestas palavras, jasmim, jejuar,
jarro
. Notese, que quando he em
principio de algum nome proprio he
I. grande, & nam tem ponto, como tem
quando he j. rasgado, ou quando he i.
pequeno.

Donde mays me contenta este nosso
uso em darmos diversa figura ao i. vogal
& ao j. consoante rasgandoo, do que o
uso dos Latinos, que dam a mesma figura
a i. vogal, & a i. consoante: como se
ve nesta palavra iudicio, sendo letras de
diversa natureza. Porém ja hoje os Breviarios
bem correctos usam de j. rasgado,
quando he consoante.

E daqui entenderemos tambem a distinçaõ,
que ambas estas letras, a saber
j. rasgado, & i. vogal tem do ypsilon
Portuguez y. Porque conforme á regra
que démos, como o nosso ypsilon
78seja hum modo de vogal nam sufficiente
a fazer syllaba: poys sempre se ajunta
com vogal, com a qual compoem huma
só syllaba, v.g. pay, mãy, claramente
se fica distinguindo do i. que he vogal
completa: o que se mostra nas palavras
cayado, caido: & tambem se fica distinguindo
do j. rasgado que he consoante
como se vé na palavra cajado, & este exemplo
mostra ao olho esta nossa doutrina,
poys sendo tam diversa cousa cajado,
cayado, & caido
, só se diversifiçam pela
diversidade dos j. y. i.

Disse [do ypsillon Portuguez) porq̃
o ypsillon Grego, como baste a fazer syllaba
v.g. nas palavras Hydropicus, mysterium,
só na figura se distingue do nosso
i. vogal.

Quanto ás outras letras u. vogal e v.
consoante, â qual podemos chamar ve,
digo pola razam assima dita, que sam
como duas letras realmente distinctas,
nam só na natureza: poys huma he vogal
que per si voga, & faz soido a modo
de bramido de lobo u. & outro consoante
79que varîa o soido junta ás vogays
vas, ves, viste, vou, vulto: senam tambẽ
na figura: poys a vogal sempre se deve
escrever assim u. & a consoãte assim v.

Digo (sempre) porque alguns só a
escrevem no principio, & nam no meyo.
v.g. nestas palavras viuer, valuerde:
sendo que para se guardar perfeyta distinçam,
assim no principio, como no
meyo se deve por nesta figura v. porq̃
se em ambos os lugares he consoante,
em ambos deve ter figura de consoante,
qual he a que puzemos. Polo que se
escreverâ viver, valverde. &c.

Esta regra assim posta & guardada
servirá muyto para tirar confusoẽs no
Latim, & no Portuguez. Porque se virmos
escrito vivo, & uivo, diremos do
primeyro que he verbo viver, & do se
gundo que he nome, que significa o
bramido do lobo, & nasce do verbo uivar.
Verdade he que conforme a regra
12. se lhe ha de por y. uyvar, uyvo.

Seguindo esta regra escreveremos
uva, & nam vua, uvre, & nam vure, Lavra,
80& nam Laura.

E tambem no Latim se entenderâ
que Solui com u vogal he preterito de
Soleo, & Solvi he preterito de solvo:
que calui he preterito de caleo, & calvi
de calvo, is. Volui de volo, & volvi de
volvo.

Desta maneira ficarám as ditas palavras
distinctas, & ficará conforme esta
regra com a segunda que puzemos por
principio da boa ortografia, q̃ he escrever
em ordem a melhor distinguir:
& d'outro modo tudo ficará confuso.

Regra 12.
Para quando devemos usar do nosso
ypsilon Portuguez, & quando
do ypsilon Grego.

Todas as vezes que a letra i. se poem
antes, ou depoys de vogal, &
ella em si nam he consoante, nem sufficiente
a fazer syllaba, se escreve y. & he
o nosso ypsilon Portuguez: v.g. Rey,
81Ley, Pay
, & o mesmo se deve guardar
nos plurays; v.g. Reys, Leys, Pays, O
mesmo no meyo das palavras, como,
Mayo, Payo, Cayado, Pereyra. O mesmo
nas ultimas, v.g. Mortays, andays, sereys.

Para melhor se entender esta regra,
disse (se poem antes ou depoys de vogal)
porq̃ he necessario, q̃ cô essa vogal
componha hum diptongo Portuguez
como se ve nas vozes dos exemplos, &
nos q̃ atraz puzemos para explicaçaõ
da regra 5. dos diptongos.

Disse (& ella em si nam he consoante]
porque se for consoante, se escreverâ
por j rasgado: como Cajado, vejo.
Disse (nem sufficiente a fazer syllaba)
porque se bastar a fazer syllaba, escreve
i. pequeno ordinario, ou seja a
syllaba ultima do vocabullo, como, vi,
corri
: ou seja alguma do meyo, como
caido, combalido.

Servirâ a guarda desta regra, para se
evitar muyta cõfusam nas palavras Portuguezas:
como claramente se ve nestes
tres vocabulos, cayado, cajado, caido, como
82ja mostramos na regra 11. as quays
alguns confundẽ com o mesmo i sẽdo
que com y cayado significa o que está
branqueado com cal, & com j. cajado
o baculo do pastor: & com i pequeno
caido o que está derrubado.

Vesse tambẽ a necessidade do ypsilon
na palavra joya, a qual se em lugar
do ypsilon tiver i. ou j farâ muyto diversa
pronunciaçám joia joja. Tambem
na palavra veyo: que se em lugar do y.
admittir i. ou j. ficarâ bem diversa, &
sem elle, será veo, ou de chapeo, ou de
freyra.

Bem pode tambem a letra y ser perfeyta
vogal, & fazer syllaba, quando se
puzer nas palavras tomadas dos Latinos,
& Gregos: v.g. Syllaba, Sylva, estylo.
Mas este ypsilon he propriamente o
que chamamos Grego, diverso do Portuguez.
Porque o Portuguez sempre
se junta â letra vogal com a qual faz
syllaba prefeyta, o q̃ nam tem o Grego.

Notese que sobre o y nam se poem
ponto, como ja advertimos.83

Regra 13.
Para se usar do ç, que tem plica
por bayxo.

Ainda que a letra ç. com plica, como
a que puzemos, faz muy differente
som do de c. sem plica, quando
se junta com as vogays, a, o, u, que tem
entam força de q. com tudo o mesmo
som faz com plica & sem ella, quando
se junta com e, i, & entam nam se lhe
deve por plica, poys he escusada.

A primeyra parte se deyxa bem ver
na diversidade destas palavras Barca,
& barça, forca, & força, capa, & çapa,
copa, & çopa ; cuba, & çuba
.

A segunda parte do que dissemos, se
conhece nestes vocabulos ceyra, cingir,
os quays do mesmo modo soam, como
se lhe puzessem ç. cõ plica çeyra, çingir,
polo que nem só he escusado porselhe,
mas he erro.

Porém porque toda a difficuldade
84estâ em saber discernir conhecendo
quando se escreverâ o c. plicado. & quãdo
dous ss, visto terem estes dous modos
a mesma toada: a primeyra & geral
regra seja, recorrer á Latinidade, de modo
que quãdo os Latinos ferirem com
s. as vogays, o, u, nam usaremos ç. senam
de s, & assim escreveremos massa,
poys assim a escrevem os Latinos, &
nam maça, escreveremos passo, & nam
paço, Consul, & nam Conçul.

Se forem palavras totalmente Purtuguezas,
no principio se escreveram
com ç, v.g. çapa, çotam, & tambem no
meyo caçaca, caçote, ou nas ultimas dos
nomes acabados em aça, eça, iça, oça,
uça
, como sam ameaça, cabeça, cortiça,
carroça, carapuça
. E o mesmo dos semelhantes
acabados em o. como andaço.

O mesmo dos acabados em ança, ença,
inça, onça, unça
, v.g. fiança, avença,
distrinça, gerigonça, junça
. O mesmo
quando semelhantes acabam em ço, como
ripanço, lenço, painço, esconço, ou em
u. como buço.85

O mesmo quando acabam em árça,
erça, orça, urça
, como farça, verça, corça,
camurça
, ou em o como cadarço,
berço, corço, masturço
. O mesmo dos
acabados em çam como raçám, ouçam.

Advirtase porem que se de algum
modo trouxerem origem do Latim, se
escreverám com s. Polo que nam se escreverá
çugidade senam sugidade. Porque
vem de sordes. Nam se escreverá
verço, senam verso, porque vem de versus:
nem defença, senam défensa, porq̃
vem de defensio, nem poçam, senam possam,
porque vem de possum. Sempre se
escreverá sam, ou nome, ou verbo: porque
nome vem de sanus, verbo vem de
sunt.

Regra 14.
Quando se usará das vozes
per, por, pelo polo.

Grande confusám se acha vulgarmente
no uso destas vozes per, &
86por
, tomandolhe huma em lugar da outra,
sendo que sam differentes na natureza,
& signifiicaçam.

Sam duas preposições, que nos vieram
dos Latinos per, & por preposições
que tem diversa significaçaõ, & pedem
diverso caso.

Assim que usaremos da preposiçam
per & nam da preposiçam pro quando
quizeremos significar o meyo de mostrar,
ou fazer alguma cousa, como quãdo
dizemos: Eu vos mostrarey per razões
evidentes
. Este livro foy composto per
Virgilio
. Porque diz o Latim, Ego tibi
ostendam per rationes evidẽtes
. Hic liber
fuit compositus per Virgilium
. E o mesmo
em tudo o mays que com a preposiçam
per dizem os Latinos.

Porém do nosso por devemos usar
em lugar da preposiçam Latina pro v.g
quando dizemos Eu vos tenho por amigo.
Esta Cidade está por elRey Trocayme
este cavallo por outro
. Porque nestas
orações usam os Latinos do seu pro v.g.
Habeo te pro amico. Haec civitas stat pro
87Rege
. Cõmuta mihi hunc equum pro alio.
Donde será abuso dizer, Eu vos tenho
per amigo. Esta cidade está per elRey
.
Trocayme este cavallo per outro.

Tambem algumas vezes se poem a
mesma preposiçam por em lugar da Latina
propter, como se ve nestes exemplos,
Por haver grande tempestade, nam
navego. Farey isto por Pedro vosso amigo
.
Dizem os Latinos: Propter magnam
tempestatem, quae datur, non navigo
.
Faciam hoc propter Petrum amicum
tuum
.

Verdade he, que quando usamos da
preposiçam por em lugar de propter lhe
ajuntamos frequentemente esta palavra
amor, ou causa. v.g. Por amor das
neves, nam passo os Alpes. Por amor dos
Turcos, nam passo o mar
. Que vem a ser:
Por causa das neves. Por causa dos Turcos.
Vsamos deste rodeyo para nos explicarmos.
Porque nam tem a lingua
Portugueza voz que totalmente exprima
a preposiçam Latina propter.88

A mesma ordem devemos guardar
no uso das ditas preposiçoẽs, quando a
fim de melhor toada, ajuntamos por aos
artigos o. a. mudando o r. em l. & assim
dizemos Polo amor de Deos. Pola
honra
.

E do mesmo modo ajuntamos o per
aos tays artigos o. a. dizendo Pelo caminho.
Pela terra. E porque da composiçam
feyta de por com o. ou com a.
mudando o r. em l. nasce Polo, Pola: &
da composiçam de per com o. ou com
a. mudando o r. em l. nasce Pelo, Pela,
claramente se colhe, que se devem
escrever com l. singelo, o
qual succede em lugar
do r.89

Duas reformaçoens.

Divididas em varias taboas, para o
bom fallar, & efcrever.

Reformaçam. I.

Em ordem a emendar & melhorar
palavras, que a ignorancia
do vulgo corrompeo

Taboa I.
Para emendar.

Erradas. | Emendadas.

A

Acipreste, dignidade. | Arcipreste
Adayam, | Deam, ou Dayam.
agabar, | gabar.
alanterna, | lanterna.
Alicornio, | Vnicornio.
90Alifante, | Elefante
apoupar, | poupar.
aquolâ, | acola.
assima, | acima.
astim de terra, | hastim
Astrolomia, | Astronomia
atrair, | atrahir.
atras, | atraz.
avaluar, | avaliar.
avaluaçám, | aváliaçam.
Avangelho, | Evangelho.
avoar, | voar.
Auto, | por conveniente apto.

B

Barrer, | Varrer.
Bisconde, | Vizconde.
bitalha, | vitualha.
Boutiçar, | baptizar
Boutiço, | Baptismo

C

Cançar, | Cansar.
cançaco, | cansaço.
calidade, | qualidade.
91cantidade, | quantidade.
caronica, coronica, | chronica.
cauza, | causa.
chançarel, | chanceller.
cileyro, | celleyro.
cinquo, | cinco.
coadrar, | quadrar.
Collector, | Colleitor.
compeçar, | começar.
compeço, | começo.
comiçou, | começou.
concurdir, | concluir.
co elle, | com elle.
conselho, por povo, | concelho.
consinar, | consignar.
coronica, | chronica.
couza, | cousa.
Creligo, | Clerigo.
crelesia, | cleresia.
custume, | costume

D

Deus, | Deos.
des, | dez.
dezcançar, | descansar.
92despeçome, | despidome.
devino, | divino.
dinoyte, | de noyte.
Docto, | Douto.
Doctor, | Doutor.

E

Effecto, | Effeyto.
Elrey, | elRey, ou ElRey.
emprovecer | empobrecer.
emssima, | emcima.
enxerca, | enxerga.
enxucaçám, | execuçám.
enxucatar, | executar.
Era, herva. | Hera.
Esprital, | Hospital.
esprito, | espirito.
estiba, | estima.
estibar, | estimar.
estranjeyro, | estrangeiro.
estromento, | instromento.
estrever, | atrever.
estribuidor, | distribuidor.
estribuiçam, | distribuiçam.93

F

Farnesia, | Frenesia.
farnetego, | frenetico.
farropea, | ferropea.
fogir, | fugir.
Frol, | Flor.
Frolido, | Florido.
Fugareyro, | Fogareyo.

G

Gimer, | Gemer.
Gimido, | Gemido.

H

Hirege, | Herege.
Ho, artigo, | O.

I

Iazmim, | Iasmim
Ihesu, | Iesu.
Impunar, | Impugnar.
Increo, | Incredulo.
Injenho, | Engenho.
Intellucutoria, | Interlocutoria.
94Ioys | Iuiz.

L

Lingujem, | Linguagem.

M

Mai, ou May, | Mãy.
mancipado, | emancipado.
Manicordio, | Monocordio.
manifico, | magnifico.
manincolizado, | melanconizado.
Memposteyro, | Mamposteyro.
meo, idest dimidium, | meyo.
mercaderia, | mercadoria.
meudeza, | miudeza.
meza, | mesa.
milhor, | melhor.
milhoria, | melhoria.
monipodio, | monopolio.
mouro, idest deyxo a vida, | morro.

N

Negrigente, | Negligente.
Negrigencte, | Negligencia.
Nunqua, | Nunca.95

O

Obscuro, oscuro, | escuro.
obscurecer, | escurecer.
obsequias, | exequias.
orijem, | origem.
oucioso, | ocioso.

P

Pera, preposiçam | Para
perluxidade, | proluxidade.
pessuir, | possuir.
pesoa, | pessoa.
picissam, | procissam.
pidir, | pedir.
piqueno, | pequeno.
pidinte, | pedinte.
pireyra, | pereyra.
pitiçam, | petiçam.
picado, | peccado.
pollo que, | pelo que.
Precissam, | Procissam.
precurador, | procurador.
precuraçam, | procuraçam.
pregũtar, pregũta, | pergũtar, pergũta.
96Preymatica, | pragmatica.
Priol, | Prior.
Prometor, | Promotór.
prifeyto, | perfeito.
prove, | pobre.
prumagem, | plumagem.
pruvico, | publico.
pruvicar, | publicar.
pumar, | pomar.
pumareyro, | pomareyro.
Purtugal, | Portugal.

Q

Qua por quia, | Ca.
qua adverbio local. | ca.
quantia, | contia.
quiça, | quiçais.
quomo, | como.

R

Rector, | Reytor.
Rediçam de cativos, | Redempçam.
Resido, | Residuo.
Rindeyro, | Rendeyro.
97Rodeo, | rodeyo.
Rolaçam, | Relaçam.

S

Sambixuga, | sanguixuga.
Samos, | somos.
Sohido, | soido.
Solorgiam, | Cirurgiam.
Solorgia, | Cirurgia.
Sorodio, | serodio.
Sospeyçam, | suspeyçam.
Sospeyto, | suspeyto.
Souza, | Sousa.
Spuma, | escuma.
Spumar, | escumar.
Star, stado, | estar, estado

T

Teima do prégar, | Thema.
Theor, | teor.
Theudo, mantheudo, | teudo, mãteudo.
Tirseyro, | terceyro.
Tisouro, | thesouro.
Titor, tituria, | tutor, tuturia.
Trelado, | traslado.
98Tres, | trez.
Tribulo, | thuribulo.

Tromento, | tormento.

V

Veador, | Vedor.
Veya i. vena, | Vea.
Vinder, vindido, | vender vendido,
Vistir, vistido, | vestir vestido.

Taboa 2.
Para melhorar.

A

Toleradas. | Melhoradas.

Abayxar, | abaxar.
Affecto, | affeyto.
Agardecer, | agradecer.
Agoa, | agua.
Aguudo, | agudo.
Aguulha, | agulha.
Ajuntar, | juntar.
99Alcorcovado, | Corcovado.
alheo, | alheyo.
almario, | armario.
aliviar, | alliviar.
Almazona, | Amazona.
alvidrar, | arbitrar.
alvidro, | arbitro.
amparar, amparo, | emparar, emparo.
antre, | entre.
arrecear, | recear.
atromentar, | atormentar.
assi, | assim.
assinte, | acinte.
avorrecer, | aborecer.

B

Bayxo, | baxo.
Bitualha, | Vitualha.

C

Certesa, | certeza.
cheo, | cheyo.
Coresma, | Quaresma.
criaçam, criar, criatura, | creaçam, crear, creatura.100

D

Dedo meyminho, | dedo miminho.
desenvergonhado, | desavergonhado
dezembargo, | desembargo.
dezempedido, | desempedido.
despoys, | depoys.
diferentes, | differentes.
diphtongo, | diptongo.
disforme, | deforme.
divido, | devido.
duresa, | dureza.
editos, | edictos.
emmendar, | emendar.
empedir, | impedir.
emportar, | importar.
enfatiosi, | emfyteusi.
enfatiota, | emfiteuta.
exprimentar, | experimentar.

F

Ferrugem de chaminé. | felugem de fuligo.
fes, fas, faser, | fez, faz, fazer.
filosomia, | fysionomia.
101Fogir, | Fugir.
Freyma, | Fleuma, Flegma.
Fruto, | Fruyto.

H

Haver, | Aver.

I

Iasmim, | Gesmim.
Igoal, | igual.
Jngulir, | engulir.
Ioelhos, | giolhos.

L

Lingoa, lingoado, | lingua linguado.
Loguo, | logo.

M

Magestade, | Majestade.
Menagem, | Homenagem,
menhãa, | manhãa.
meudo, meudeza, | miudo, miudeza.
mialheyro, | mealheyro.
minino, | menino.
Molher, | Mulher.102

N

Nacer, | Nascer.

O

Ocaziam, | Occasiam.
Ontem, | Hontem.
Orta, ora. | horta, hora.

P

Pesoa, | pessoa.
pirolas, | piloras, ou pilulas.
praceyro, | parceyro.
pregunta, preguntar, | pergũta, pergũtar.
proluxidade, | prolixidade.
proluxo, | prolixo.

R

Rabiscar, rabisco, | Rebuscar, Rebusco.
Receo, | receyo.
Reyma, | reuma.
Reposta, | resposta.
Reveria, | revellia.
Rezam, | razam.
Rossio, | ressio.103

S

Psalmo, | Salmo.
Si, | Sim.
Sinco, | cinco.
socresto, socrestar, | sequestro, sequestrar.
Sofrimento, sofrer, | soffrimento soffrer
Solemne, | solenne.
Sogeytar, | sujeytar.
Somana, | semana.
Sospiros, | suspiros.
Sospeytar, | suspeytar.
Soprir, | supprir.

T

Testemunho, | testimunho.
Tabaliam, | Tabelliam.
Tibiesa, rudesa, | tibieza, rudeza.

Tudo, e todo, sam nisto distinctos,
tudo tomase mays substantiva & neu­
tralmente: porque dizemos tudo quanto
ha
, & nam dîzemos tudo mundo, nem
tudo o homem: dizemos porem Todo
o mundo todo o homem
.

V

Vicerey, Vizerey, Visorey.

Vitoria, vitorioso, Victoria victorioso.

Reformaçam segunda

Em ordem a distinguir alguns
vocabulos.

Taboa. I.
De palavras que tendo diversa significaçam,
só se distinguem no escrever,
por hũas terem letra singela,
outras dobradas.

A

Atraz, adverbio retró, | Attraz verbo attrahir.

B

Barata, de pouco preço | Baratta bicho.
Bota de calçar, | Botta de vinho.
Botar lançar, | Bottar a cor, ou agudeza.

C

Capa os boys, verbo, | cappa, vestido.
Caro, q̃ muito custa. | Carro de boys.
Caso acontecimento]
Caso com mulher] | Casso, i. Irrito.
Cera de mel. | cerra, fecha.
Cometa, meteoro. | Cometta, verbo.
Coro, da Igreja. | corro dos touros.

E

Encerar com cera, | encerrar, fechar
105Fero, cruel. | Ferro, metal.
Fôra, adverbio local. | Forra, livre.

M

Mascara, | figura fingida.
Mascarra, | de carvam.
Meses do anno. | Messes do campo.
Moleyra do moinho, | molleyra da cabeça
Molinhar, moer. | mollinhar chover.

P

Peco, nescio. | pecco, faço peccados.
pena, castigo. | penna, pluma de aves
pero por pomo. | perro por cam.
Pólo, | por Ceo, ou noyte.
pollo, | animal pequeno.
presa | a que está em prifam.
pressa, | idest celeritas.

R

Revelar, descubrir. | Rellevar, rebellar.

S

Saca, tira para fora. | Sacca, sacco grande.
Seram, | tempo de tarde.
Serram, | serra pequena.

V

Velo, tu vides? | Vello de lãa.
Velar de noyte. | Vellar a Freyra
Vso, costume. | Vsso animal.106

Taboa 2.
Das palavras que tendo diversa significaçam,
só podem ser distinctas, & conhecidas
pola diversidade do accento.

A

Acêrto, dou no fito. | Acerto, caso.
Amára, preterito. | amará, futuro.

B

Baya, cor. | Baîa, enseada.
Besta, alimaria. | Bésta, arma.

C

Céo empyreo, | ceo à noyte.
cópo de beber, | copo de lãa, ou algodam.
cór, vontade. | cor, color.
córte, curral. | Corte de Rey.

G

Gósto, verbo. | Gosto, nome.

M

Mólho de cravos. | Molho de coelho

P

Péga, de boys. | Pega, ave.
Pégo do rio. | Pego ave.
Péso em balança. | peso com que pesam.
Pésame a carga. | pesame, tenho pesar.
Póde, de presente. | pode de preterito.
Porem, verbo. | porém, adverbio.
107Prégar no pulpito. | Pregar o prego.

S

Sayo, vestido. | Saio, verbo.
Sé, Sedes. | Se, conjunçam.
Sêsta, hora aestus. | Sesta idest sexta.
Sóldo, moeda. | Soldo, estipendio.

V

Véo, toucado. | Veo, ou veyo, he vindo.

Taboa. 3.
Das palavras que tendo diversissima significaçam,
tem pequena diversidade
no escrever.

A

Abraço cõ os braços. | Abraso cõ fogo.
Acamar o pam, | açamar os porcos.
Aço, ferro fino. | asso a carne.
Acoutar, ir ao couto. | açoutar, castigar.
Actor, ou Autor | que demanda.
Auctor, ou Author | da obra.
Acude, verbo. | Açude de moinho.
Amegeas, marisco. | amexeas, fruyta.
Assas a carne, verbo. | assas, adverbio.

B

Barca, q̃ navega. | barça de palha.
Braça, medida. | Brasa, carvam aceso.108

C

Caçar animays. | casar os homens.
Caça de animays. | casa para morar.
Cayado, branqueado. | cajado, bordam.
Cal, branca. | qual, homem.
Canto, faço | melodia.]
Canto, cantiga] | Quanto, nome relativo
Canto, esquina)
Ce | adverbio de acenar.
Se, | particula condicional.
Ceda | de porco, ou de cavallo.
Seda | que vestimos.
cegar dos olhos. | Segar o pam.
cella de Frade. | Sella de cavallo.
celleyro de trigo. | selleyro q̃ faz sellas
ceyo, idest caeno. | Seyo de Abraham.
cerrar com fecho. | serrar com serra.
cerra, idest fecha. | serra de serrar, ou montanha.
cervo, Veado. | Sorvo, cativo.
cesta, vaso de vime. | Sesta, idest sexta.
cevo, comida. | Sevo, gordura de animal.
cinto que cinge. | Sinto, tomo pena.
como, mastigo. | como, adverbio.
concelho, | ajuntamento do povo.
conselho, | dos Sabios.
109Coso o pano. | cozo a carne.

E

Empoçar, | meter no poço.
Empossar, | meter de posse.
Era de annos. | hera, herva.
Era | verbo substantivo.

F

Força Fortaleza. | forca do ladram.
Forçado, | que padece força.
Forcado, | pao de duas pontas.
Franca, liberal. | França, provincia,

I

Incerto, duvidoso. | Inserto, enxerido.

L

Laço, armadilha. | lasso, froxo.
Liço de tear. | liso, sem aspereza.
Louça de barro. | lousa armadilha.

M

Massa de ferro, ou pao. | Massa de farinha.
Marqueza, | dignidade,
Marqueza, | nome proprio.
Meça, verbo de medir. | Mesa, para comer.
Moça, que serve. | móssa de espada.

O

Ouço o que falla. | ouso, atrevome.

p

Paço, casa real. | passo de cinco pés.
110Parceyro, | companheyro.
praceyro | de praça ou publico.
passo, ando. | pasço o gado.
peço com rogos. | peso com balanças.
poço de agua. | posso, tenho poder.
preço, valor de cousa. | preso na cadea.

Q

Queyjada de queijo | queyxada da cara
Queyjo de ovelhas. | queixo da boca.
Queyjar, | fazer queijos.
Queyxar, | fazer queixume.

R

Raça, casta. | Rasa, chãa.
Raçam, quinham. | razam, causa.
Ressio, campo largo. | rocio, orvalho.
Roça de mato. | Rosa de cheyro.
Roîdo dos ratos. | roido de agua.

U

Vaso | de barro, ou prata.
Vazo, | verbo derramo, entorno.

Regras para escrever bem,
ou fazer boa letra.

Iá que demos regras para escrever certo, parece
conveniente dar algũas para escrever bem.

Primeira regra. As hastes dos b. f. h. l. a que
chamamos cabeças, ou as dos g. p. q. y. a que chamamos
111pernas, ham de ser duas vezes mayores, q̃
a letra v.g. escrevo dia a cabeça do d. setâ mayor
para cima duas vezes q̃ o ia & assim escreverey
dia.

Segunda regra. Todas as letras sejam iguays,
nam só em cada regra, mas tambem em cada palavra.
v.g. nam escreverey as palavras feguintes
desigualmente assim, AmO a DeOs sObre tOdas
as cOusas
, mas escreverey igualmente nesta forma,
Amo a Deos sobre todas as cousas.

Terceyra regra. Todas as letras estarám em
igual espaço, entendese nam cortando o nome, v.
g. Pe dro, mas escreverey Pedro. O mesmo se
entende na divisam de nome a nome: porque to­
dos os espaços entre hum & outro devem ser
iguais.

Quarta regra. Nam devemos confundir as letras
da regra de cima com a regra de baxo, nem
vice versa, as da regra de baxo com as da regra
de cima.

Quinta regra. Procuremos que vam todas as
regras direytas, assim na regra atè o cabo, como
no espaço entre meyo de huma regra a outra; o
que se fará com o uso, quando no principio do
aprender a escrever forem regradas com o ponteyro,
ou escritas as regras sobre pauta.

Acudase a hũ erro q̃ se vay introduzindo nas
terceiras pessoas do singular dos verbos da segunda
& terceira conjugaçam, escrevendo. v.g.
offereceu, soffreo, moveu, amanheceu, devendose escrever,
offereceo, soffreo moveo amanheceo.

fim112