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Grivet, Charles Adrien Olivier. Nova Grammatica Analytica – T01

[Nova Grammatica Analytica da Lingua Portugueza]

Noções preliminares

1. Grammatica é a arte de fallar e escrever correctamente :
o seu objecto é, portanto, a palavra.

2. Falla e escreve correctamente quem se conforma
com as regras sanccionadas pelos dictames da boa razão,
o segundo os usos respeitáveis pelo assenso que grangeárão
dos doutos.

3. Sendo, porém, essas regras, não só numerosas,
como ainda de alcance bastante diverso, entendeu-se que,
para as tornar mais comprehensiveis, convinha distribuí-las
em differentes secções : dahi a divisão prévia da Grammatica
em cinco partes : lexicologia, syntaxe, orthographia, prosódia
e pontuação
.

4. Lexicologia é a parte da Grammatica que onsina
a natureza e as formas das palavras.

5. syntaxe é a parte que assignala as relações que
entre ellas occorrem na enunciação dos pensamentos.

6. Orthographia é a parte que determina o modo
mais acertado de as escrever.

7. Prosodia é a parte que trata de sua pronunciação
metrica.

8. Pontuação é a parte que regula a separação dos
pensamentos escriptos por meio de signaes marcando as
pausas naturaes da elocução.1

Primeira parte
Lexicologia

Das letras

9. Chama-se linguagem ou discurso a enumeração
verbal ou escripta dos pensamentos.

10. Todo o pensamento, ou complexo de pensamentos
encerrado por um ponto final donomina-se grammaticalmente
oração.

Exemplos :

O homem é um ente racional.

O homem é o unico dos entes deste mundo — que fica responsável
pelos seus actos
.

11. Uma oração póde constar do uma ou de mais
palavras. Ex. Ouví. — Que deve procurar o homem em todos
os actos de sua vida ?

Uma palavra pode constar de uma ou de mais vozes.
Ex. Não — respondeis ?

Uma voz póde constar de uma, ou do mais letras. Ex.
O — bem.

12. As letras dividem-se em — vogaes e consoantes.
Vogaes são a e i o u y. Assim se chamão por poderem
constituir de per si sós uma voz. Consoantes são todas as
mais letras, por nunca constituirem uma voz sem o concurso
de ao menos uma vogal.

13. Cada voz representada por uma ou mais letras
denomina-se grammaticalmente syllaba. Assim é que, embora
diverso seja o numero das letras de que constão os
vocabulos do seguinte exemplo, cada um delles constitue
todavia uma só syllaba, porque cada um delles se enuncia
çm um só voz : E’ — um — dos — tres — trens2

As palavras que, como estas, abrangem uma só syllaba,
costumão ser chamadas monosyllabas, por opposição
ás que, abrangendo mais de uma, se chamão polysyllabas.

14. Assim como, em referencia ao procedente exemplo,
póde, já uma, já mais de uma consoante concorrer á formação
de uma só syllaba, tambem podem duas e até tres
vogaes encontrar-se n’uma só e mesma syllaba. Sendo
duas, o seu conjuncto chama-se diphthongo ; sendo tres
chama-se triphthongo.

Os diphthongos ficão, portanto, caracterisados pela circumstancia
de se não deixarem separar as vogaes de que
constão, na emissão pausada das syllabas ; assim em ai, ou,
lei, pai, mãi, lãa, mui, vãos, grãos, cães, ruins, deitâo (deitão),
cuidou (cui-dou)
, etc. Não se devem, porém, ter em
conta de diphthongos vogaes que, embora consecutivas,
sahem disjunctas na pronunciaçào pausada, assim em eu,
meu, boa, tio, teus, doer (do-er)
, fiar (fi-ar) etc.

Os triphthongos ficão, do mesmo modo, caracterisados
pela circumstancia de se não deixarem separar as vogaes
de que constão, na emissão pausada das syllabas ; assim
em guai, peão, deão, quão, união (u-nião), regiões (re-giões),
argueiro (ar-guei-ro)
, etc. Mas tambem não se terão em
conta de triphthongos vogaes que, embora consecutivas,
não sahem conjunctamente na pronunciação pausada, assim
em joia (jo-ia), vaias (va-ias), raiar (ra-iar), catraeiro
(ca-tra-ei-ro), etc.

15. O que destas considerações se segue, é que, para
em qualquer palavra determinar-se o numero das syllabas,
basta proferi-las emphatica e pausadamento, reputando-se
como syllaba toda a voz que se emitte em um unico movimento
dos orgãos da falla, meio este que, por exemplo,
na palavra pau-sa-da-men-te, denuncia cinco syllabas.

Divisão das palavras

16. Consideradas na sua natureza, as palavras se dividem
em dez especies, que são : verbo, substantivo, artigo,
adjectivo, pronome, participio, preposição, adverbio, conjuncção
e interjeição
.

Verbo é uma palavra que enuncia um facto.

substantivo ou nome é uma palavra que designa entes
ou abstracções.

Artigo é uma palavra que, antepondo-se essencialmente
aos substantivos, e accidentalmente a pronomes ou mesmo
a verbos no infinitivo, confere-lhes um sentido preciso.3

Adjectivo é uma palavra que se accrescenta mediata
ou immediatamente aos substantivos, pronomes ou mesmo
a verbos no infinitivo para os qualificar ou determinar.

Pronome é uma palavra que, dispensando a frequente
reproducção dos substantivos, suppre-os em todas as suas
funcções.

Participio é uma palavra que, procedendo do verbo,
coadjuva-o na conjugação, ou porta-se como mero adjectivo
junto a substantivos ou pronomes.

Preposição é uma palavra que se antepõe essencialmente
a substantivos, pronomes ou verbos no infinitivo, e
accidentalmente a adverbios, para marcar uma relação.

Adverbio é uma palavra que se ajunta a um verbo,
participio, adjectivo, ou até a outro adverbio, para modificar-lhes
o alcance de significação.

Conjuncção é uma palavra que liga partes de uma
oração, ou orações completas, para denunciá-las como connexas
ou oppostas.

Interjeição é uma palavra que implicitamente abrange
todos os elementos de uma proposição ou pensamento.

17. Destas dez especies de palavras chamão-se variaveis
as seis primeiras, e invariaveis as quatro ultimas.

São variaveis as palavras que, sem sahirem de sua
especie, passão por uma ou mais alterações de letras e pronuncia.
Desta ordem são as palavras do seguinte exemplo :
« O nosso ’primeiro pai foi creado feliz » ; pois, sem sahir de
sua especie, cada uma dellas é alteravel nas suas letras e
pronuncia : « Os nossos primeiros pais forão creados felizes. »

São invariaveis as palavras que, a não sahirem do
sua especie, não podem passar por nenhuma alteração de
letras nem de pronuncia. Desta ordem são as palavras do
seguinte exemplo : « Desgraçadamente, porém, não para sempre » ;
pois, de todas ellas, a unica passivel do uma transformação
e desgraçadamente, que, deixando de ser adverbio, apresenta-se
como verbo em desgraçar, como substantivo em desgraça,
e como participio em desgraçado, mas permanece a mesma
como adverbio.

18. Da distincção das palavras em variaveis e invariaveis
torna-se obvio que a mór parte das regras grammaticaes
versa sobre as primeiras, visto como, por effeito
mesmo de sua immutabilidade, as segundas não podem originar
nenhuma dificuldade de maior alcance.

Observação. Hão é inopportuno fazer notar desde já
que, dentre as palavras variaveis, bastante numerosas são
4as que, já o uso, já uma particularidade do conformação
ou do sentido inhibe do assumir as inflexões da variabilidade.
Assim ó que o substantivo , o adjectivo simples o
o pronome que não passão por nenhuma das alterações
proprias das classes a que pertencem. Taes excepções,
porém, por isso mesmo que são excepções, não invalidão
a declaração de variaveis que caracterisa as mais palavras
das mesmas classes, por ser este o cargo predominante de
sua indole.

19. As causas que promovem a variabilidade, são
cinco : os numeros, os generos, os modos, os tempos e as pessoas.
Não se entenda, todavia, que todas ellas actuem conjunctamente
em cada uma das diversas especies de palavras :
longe disto. O verbo é variavel em numero, modos, tempos
o pessoas. o substantivo é só variavel em numero. Emfim
o artigo, o adjectivo, o pronome e o participio são variaveis
em numero e genero.

20. As alterações que produz a variabilidade, recahem
geralmente sobre a ultima ou as ultimas syllabas da palavra,
que, por este motivo, sóem ser designadas pelo appellido
de terminação, ou, ás vezes, em relação aos verbos,
pelo de inflexão.

21. Numero é a propriedade que têm todas as palavras
variaveis de accusar a unidade ou a pluralidade.
Dizem-se, no primeiro caso, de numero singular, e, no segundo,
de numero plural. Só dous são, portanto, os numeros
grammaticaes em portuguez. Linguas ha, entretanto, como
as eslavonicas e o grego que têm mais.

22. Genero é a propriedade que têm as palavras variaveis
de accusar uma distincção que recorda a differença
dos sexos. De genero masculino dizem-se portanto, as palavras
que, como varão e leão, adduzem ao espirito a idéa
de um ente macho ; e, de genero feminino, todas as que,
como mulher e leóa, adduzem a de um ente fémea. Quanto
ás palavras cuja significação fica alheia a toda e qualquer
distincção de sexos, o genero que tomão é determinado
por uma inducção do terminação ou de etymologia : assim
é que são masculinos pensamento e sol, e femininos idéa e
lua. Os mesmos verbos, no modo chamado infinitivo, não
são desamparados desta propriedade ; sómente o genero que
accusão, é um só : o masculino : assim o comer e o beber.
muitas linguas, e entre as antigas o latim e o grego, têm
mais um genero, o neutro, que ficou geralmente supprido
em portuguez pelo masculino.

23. Modo é a propriedade que os verbos têm, de denunciar
a sua dependencia ou independencia reciproca.5

24. Tempo é a propriedade que os verbos têm, de declarar
uma das tres epocas da duração : o presente, o passado
e o futuro.

25. Pessoa é a propriedade que os verbos têm, de, na
maior parte dos casos, accusar, a sua sujeição ás tres personalidades
do discurso, representadas syntheticamente pelos
seis pronomes seguintes : eu e nós, — tu e vós, — elle
(ella)
e elles (ellas). Na primeira pessoa, o verbo denuncia
quem falla ; na segunda, a quem se falla ; na terceira,
do quem ou o de que se falla.

Capitulo I
Do verbo

26. Verbo é uma palavra variavel que enuncia um
facto ; ora trabalhamos é palavra enunciando um facto :
portanto trabalhamos é verbo.

27. Discrimina-se, aliás, praticamente um verbo de
outra qualquer especie de palavras por lhe competir exclusivamente
a faculdade de se conjugar, isto é, de se modificar
em terminação sob a influencia dos referidos pronomes
eu, tu, elle (ella), — nos, vos, elles (ellas). Ex. :

Eu trabalho | Nós trabalhamos
Tu Trabalhas | Vòs trabalhais
Elle trabalha | Elles trabalhão

28. Considerado em si, o facto reverte forçosamento
em uma das tres seguintes categorias : elle é de acção, de
estado ou de necessidade
.

Exemplo :

Basta que sejamos infelizes, para não contarmos muitos
amigos
.

Tres são os verbos que ahi concorrem á enunciação
do pensamento : basta, sejamos e contarmos ; cada um delles,
porém, pertence a uma categoria diversa : pois contarmos
(de contar) é verbo de acção ; sejamos (de ser), verbo de
estado
 ; o basta (de bastar), verbo de necessidade.

Os fundamentos em que se baseia esta triplice divisão,
virão opportunamente declarados, bem como as importantes6deducções que della se tirão, mórmente na parte syntaxica.
Todavia, sendo possivel tornar desde já saliente o mais attendivel
dos caracteristicos que os distinguem, convem
tanto mais já agora expô-lo, pois que constitue um ponto de
doutrina diversamente explicado, embora só se compadeça
com uma unica solução.

Reassumindo-se, como termos de experimentação, os
tres verbos acima referidos, vê-se que dous delles : contar e
ser se prestão no exemplo adduzido, a formar sentido com
um dos pronomes distinctivos da conjugação : Basta que
nós sejamos infelizes, para nós não contarmos muitos amigos.
Vê-se mais, que os dous mesmos verbos se não recusão a
formular o mesmo pensamento com outros pronomes da
mesma classe : Basta que tu sejas infeliz, para tu não contares
muitos amigos
. Porém, seja qual for a modificação
introduzida na expressão deste pensamento, nunca será
possivel sujeitar o verbo basta á influencia do pronome
que sua terminação parece avocar : elle (ella), e menos
ainda á de outro qualquer.

Portanto o que se póde e deve concluir desta exposição,
é que os verbos de acção e de estado se deixão
coadunar em sentido com os pronomes conjugativos ; porém
os verbos de necessidade, nunca. Estes só se assemelhão
aos procedentes pela faculdade de apparecerem, nas evoluções
da conjugação, com a terminação propria da terceira
pessoa do singular (Basta. — Elle (ella) trabalha).

29. Junto á significação que a cada um é peculiar, os
verbos despertão ainda, na enunciação dos pensamentos,
quatro idéas accessorias, que lhes constituem outras tantas
feições : ellas são de modo, de tempo, de numero e de
pessoa
. As duas primeiras são inherentes a todas as manifestações
do verbo ; as duas ultimas, nem sempre.

Tendo geralmente os grammaticos confundido as feições
com as formas do verbo, não será fóra de proposito extremar
o sentido que a cada um destes termos compete.

As formas do verbo são a sua mera manifestação pela
elocução ou pela escripta. Na elocução, ellas constão de
vozes ; na escripta, de letras. Assim é que « trabalho »
é uma só e unica forma do verbo trabalhar ; não é, porém,
uma feição.

As feições são os diversos conceitos que dimanão conjunctamente
de uma só e mesma forma. Assim é que, em
« trabalho », depara-se cora uma feição de modo, que é a
do indicativo ; com uma feição de tempo, que é a do presente ;
com uma feição de numero, que é a do singular ;
emfim com uma feição de pessoa, que é a da primeira : em
summa, quatro feições jorrando do uma só forma.7

Fuja-se, portanto, da definição dos modos, tempos, numeros
e pessoas por este teor, que, embora seja o da tradição,
não deixa de ser perfeitamente illogico : « O modo é
a fôrma que toma o verbo
… » — « O tempo é a fôrma que
toma o verbo
… » — «  O numero é a fôrma que toma o verbo… »
— « a pessoa é a fôrma que toma o verbo… »

Dos modos

30. Não ó possivel emittir um pensamento sem que
nelle occorra, expressa ou tacitamente, ao menos um verbo.
Todos os outros tempos podem falhar ; elle, não. Ex. Chove.

31. O verbo preside, portanto, a todo e qualquer pensamento,
e, em virtude desta funcçao, serve-lhe analyticamente
de representante. a sua mesma denominação é a
declaração concisa de sua primazia, pois verbo significa
etymologicamente palavra por excellencia.

32. Mas os pensamentos apparecem, no discurso, já
soltos, ja connexos, conforme se desamparão ou se ajudão
os verbos que os dominão.

Os pensamentos apresentão-se soltos quando de tal
modo se deixão apartar, que cada um póde subsistir de
per si só sem obscuridade nem falseamento de sentido.
Ex. Deos creou o céo e a terra. — Tudo proclama a omnipotencia
de Deos
.

Os pensamentos apresentão-se connexos quando de tal
modo se prendem pelos verbos que os representão, que
não se deixão apartar sem obscuridade ou falseamento do
sentido, Ex. Infelizmente não poucos são os homens — que
denegão a Deos o culto — que se lhe deve, — como se assim
se
subtrahissem a seu poder.

Ninguem ha que, applicando a estas duas ordens de
pensamentos os criterios expendidos, deixe de reconhecer,
na primeira, dous pensamentos soltos ou independentes, e,
na segunda, quatro pensamentos connexos ou dependentes
uns dos outros.

33. Como, porém, sob esta dupla influencia de colligação
ou do apartamento dos pensamentos, os verbos ostentão
series de formas bastante variadas, indagou-se das
causas que as originavão, e achou-se que erão cinco, conferindo
cada uma ao facto uma feição especial. a estas
cinco series ou grupos de formas deu-se a denominação de
modos, e a coordenação geralmente adoptada na sua exposição
foi a seguinte : o indicativo, o condicional, o imperativo,
o subjunctivo e o infinitivo
.

O primeiro apresenta o facto como effectivo ; o segundo,
8como condicional ; o terceiro, como mandado ; o
quarto, como hypothetico ; o quinto, como indeterminado.

Porém as relações mutuas dos modos jogão com tantos
outros quesitos grammaticaes, que não podem ser devidamente
aquilatados senão na parte syntaxica.

34. Todavia, pela sua summa importancia, cumpre
ter como desde já estabelecido um principio que domina
toda a theoria dos verbos, e vem a ser o seguinte : O verbo
só se torna representante de um pensamento em um dos
quatro primeiros modos ; no quinto, ou infinitivo, nunca o
é, porque, neste ultimo caso, suas principaes funcções são
sempre as de um mero substantivo. Por isso é, por exemplo,
que « ciiove » enuncia de per si só um pensamento, ao
passo que « chover » enuncia apenas uma idéa, isto é, um
dos elementos do um pensamento, mas não um pensamento.

Dos tempos

35. Todo e qualquer facto, humanamente fallando,
realisa-se no tempo. Fóra desta condição, o homem não
concebe nada directa e affirmativamente ; pois, para elle, a
eternidade é uma idéa indirecta e negativa : « O que não
principia nem acaba. O tempo é assim a successão das
cousas. a successão das cousas abrange, sem mais nem
menos, tres epocas, chamadas epocas da duração : o presente,
o passado e o futuro. a recordação de tempo é,
portanto, inseparavel da enunciação de facto.

36. Por associação de idéas, todo e qualquer Conjuncto
de formas verbaes recordando uma mesma época da duração
veiu a ser chamado em Grammatica tempo do
verbo
.

Os tempos são assim as feições mediante as quaes os
verbos indicão, dentro dos modos, as tres epocas da duração.

37. a’ vista desta consideração, talvez deduza-se antecipadamente
a consequencia que, em cada modo, devão
ser sómente tres, e sempre tres os tempos verbaes, a saber :
um conjuncto de formas para o presente, outro para o passado,
o outro, emfim, para o futuro. Na realidade não é
assim, e em nenhuma lingua existe tão systematica disposição.
Em portuguez, notavelmente, os tempos são oito
no indicativo, quatro no condicional, um no imperativo,
oito no subjunctivo, e seis no infinitivo.

38. As razões donde dimana tal desigualdade, são
duas. a primeira consiste em que, n’um mesmo modo,
9dous ou mais tempos alludem iterativamente a uma mesma
época, ao passado, por exemplo : estive hontem incommodado,
— como já o
estivera antes de hontem, — como o tenho
estado
todos os annos nesta mesma estação. a segunda consiste
em que, pelo contrario, um só e mesmo tempo pode
alludir a duas, ou até ás tres epocas da duração, sendo em
tal caso determinada a época precisa por meio de um
termo accessorio, como agora, hontem, amanhã, etc. Ex. Eu
desejára que Vm
. estivesse agora em sua casa, — estivesse
hontem
em sua casa, — estivesse amanhãa em sua casa —
para providenciar ácerca deste assumpto
.

39. Para ter, aliás, dos tempos do verbo, uma noção
exacta, importa considerá-los sob o tríplice aspecto do seu
alcance, da sua fôrma e da sua procedencia.

40. Em relação ao seu alcance, os tempos podem
aventar, ou uma só, ou duas, ou até as tres epocas da duração.
Os dous referidos exemplos verificárão antecipadamente
esta allegação.

41. Em relação á sua forma, os tempos são simples
ou compostos. São simples quando constão de uma só palavra,
assim em ler, leio, lí, léra, lerei, etc. São compostos
quando constão de mais de uma palavra, assim em ter lido,
tenho lido, tenho sido lido, hei de ler, estou lendo
, etc.

42. Em relação á sua procedencia, todos os tempos,
salvas poucas excepções, se deduzem da de suas formas
simples cuja significação é a mais indeterminada, e constitue
por si só, na ordem das series conjugativas, o primeiro
tempo do infinitivo
, cabendo-lhe por isso a denominação
de tempo primordial. O seu caracteristico é acabar forçosamente
em ar, er ou ir, com excepção tão somente do
verbo por, e dos que delle se derivão, como compor, depôr,
propor
, etc.

Todavia, tendo-se observado, em um certo numero de
verbos, que alguns tempos simples se deixão deduzir, por
uma filiação mais natural, de outros tempos que não do
primordial
, — assim em caber, os tempos coubera, coubesse,
couber
de coube ; — em poder, os tempos pudera, pudesse,
puder
de pude ; — julgou-se de algum proveito o substabelecimento
de uma divisão dos tempos em primitivos e em
derivados, para sujeitar, á lei da regularidade até as formas
anormaes de alguns verbos excepcionaes. Desta divisão
trata-se em lugar opportuno.

43. Sendo as vozes ar, er, ir do tempo primordial a
unica porção da palavra que, na mór parte dos verbos,
soffre as alterações denunciando as feiçõos do modo, tempo,10numero e pessoa, assentou-se em designá-la pelo nome de
terminação, por opposição á porção geralmente inflexível,
que ficou denominada radical (de raiz). Assim é que em
amar, render, punir, o radical consta de am, rend, pun ; ao
passo que a terminação se entende, não só de ar, er, ir,
senão tambem do todas as transformações por que passão
estas vozes no correr da conjugação.

Tabella synoptica dos tempos do verbo

Indicativo

1.° tempo : Presente.
2.° tempo : Passado imperfeito.
3.° tempo : Passado perfeito.
4.° tempo : Passado perfeito composto.
5.° tempo : Passado mais que perfeito.
6.° tempo : Passado mais que perfeito composto.
7.° tempo : Futuro.
8.° tempo : Futuro composto.

Condicional

1.° tempo : Presente-passado-futuro proprio.
2.° tempo : Passado proprio.
3.° tempo : Presente-passado-futuro supplementar.
4.° tempo : Passado supplementar.

Imperativo

Tempo unico : Futuro.

Subjunctivo

1.° tempo : Presente-futuro.
2.° tempo : Presente-passado-futuro proprio.
3.° tempo : Presente-passado-futuro supplementar.
4.° tempo : Preterito perfeito.
5.° tempo : Passado mais que perfeito proprio.
6.° tempo : Passado mais que perfeito supplementar.
7.° tempo : Futuro.
8.° tempo : Futuro composto.

Infinitivo

1.° tempo : Presente-passado-futuro impessoal.
2.° tempo : Presente-passado-futuro pessoal.
3.° tempo : Passado impessoal.
4.° tempo : Passado pessoal.
5.° tempo : Gerundio simples.
6.° tempo : Gerundio composto.11

Advertencia. Não se compadecendo bem, por mais
de uma consideração, o estiramento inevitavel de algumas
denominações de tempos com a concisão reclamada pelas
evoluções dos processos analyticos, preferivel é designar
cada tempo por sua ordem numérica. Em vez do Passado
mais que ’perfeito composto do indicativo
, diga-se, portanto,
simplesmente : Sexto tempo do indicativo, e assim dos demais.

44. Pela inspecção desta tabella deve-se notar que,
com excepção do imperativo, todos os mais modos são susceptíveis
de indicar, por um ou mais tempos, as tres epocas
da duração. a razão que faz com que o imperativo só
tenha um tempo, e com que este unico tempo seja sempre
um futuro, funda-se na consideração de ser a sua funcção
especial a enunciação de um mando ou rogo, do um conselho
ou de uma concessão. Ora, não sendo nenhum destes
actos concebivel em relação a um facto já perpetrado, ou
em via de perpetrar-se, claro é que um verbo no imperativo
forçosamente allude ao futuro, mas nunca, como alguns
pretendem, ao presente, e menos ainda ao passado. Pois,
dizendo alguem : « Sahe ou Sahí ! » por mais depressa que
se cumpra a ordem, o facto nunca deixará de se dar posteriormente
ao mando. Desta observação originão-se, em
outras partes da Grammatica, varias considerações do interesse
pratico. Ex. Lançai os olhos por todo o mundo, e
vereis (não : vêdes) que todo elle vem a resolver-se em buscar
pão para a boca
. (P. Ant. Vieira).

Das pessoas e dos numeros no verbo

45. Quem attende á significação e ao emprego dos
pronomes conjugativos já repetidamente mencionados, nota
que quatro delles : eu e tu, — nós o vós, — só se prestão
a representar pessoas. Pois eu e tu podem ser joão ou
maria ; nós e vós, João e Maria ; porém, em todo o qualquer
caso, não se entendem senão de homens, ou, quando
muito, de entes accidentalmente afigurados como homens.
Os outros pronomes da mesma classe : elle (ella), e elles
(ellas)
, dotados de alcance mais amplo, tanto podem representar
pessoas como tambem cousas, ou mesmo abstracções.
Assim é, com effeito, que elle e ella, não se
se podem substituir a João e Maria, que são pessoas,
como a ceo e terra, que são cousas, como em fim a vicio
e virtude, que são abstracções. do mesmo modo podem
elles o ellas substituir, tanto a João e Pedro, a Joanna
e maria, como a ceos e terras, a vicios e virtudes. Da
12circumstancia de assim competirem todos estes pronomes
a pessoas, e a mór parte exclusivamente a pessoas, originou-se
a sua denominação gonerica de pronomes pessoaes.

46. Além da idéa de personalidade, os mesmos pronomes
aventão duas outras : uma de numero, manifesta em
eu, tu, elle (ella) para o singular, em nós, vós, elles (ellas)
para o plural ; e outra de genero, occulta em eu e tu, —
nós e vós
, e manifesta em elle e ella, — elles e ellas.

47. Ora indagando-se qual seja a relação que entre
os referidos pronomes se estabelece, e o verbo adduzido
para com elles formar sentido, depara-se que o verbo, como
por deferencia aos mesmos pronomes, muda de terminação
a medida que passa do uma pessoa para outra, e de um
numero para outro.

tableau Singular | Plural
1.ª P. Eu fallo (o) | Nós fallamos (amos)
2.ª P. Tu fallas (as) | Vós fallais (ais)
3.ª P. Elle (ella) falla(a) Elles (ellas) fallão (ão)

Porquanto, nos dous unicos tempos em que todos os
verbos dispensão o concurso dos mesmos pronomes, isto é,
no 1.° e no 3.° do infinitivo, nenhuma semelhante mudança
se dá, a forma permanece uma só, e esta forma não desperta
idéa alguma de pessoa nem de numero. Ex.

tableau Amar. | Render. | Punir.
Ter amado. | Ter rendido. | Ter punido.

Portanto as idéas de numero e do pessoa não preexistem
no verbo, não lhe são necessariamente inherentes
como as de modo e de tempo, mas vão-lhe impostas pelos
pronomes conjugativos.

Assim se explica tambem porque os verbos de necessidade
não ostentão em cada tempo senão uma unica forma,
a da terceira pessoa do singular : « Chove, choveu, choverá… »,
forma essa tão despida da feição de numero, como da de
pessoa, pelo simples motivo que não lhe vai imposta, nem
por elle ou ella, nem por outra qualquer palavra.

Numero e pessoa no verbo são assim um mero reflexo
da pessoa e do numero dos pronomes conjugativos.

48. Entretanto, urgidos pela necessidade de designar
por uma expressão peculiar a acção destes pronomes sobre
o verbo, os antigos grammaticos assentarão em attribuir-lhes
neste particular a funcção de sujeitos do verbo. Ora,
como, em vez de se sujeitarem ao verbo, o verbo é que a
elles se sujeita, impossivel era escolher uma denominação13mais desacertada. Porém, vindo reproduzida desde seculos
em todas as grammaticas, enraizou-se ella de tal modo na
nomenclatura litteraria, que não é já licito substitui-la pela
de regentes que fôra entretanto mais adequada.

Observação. Destas considerações sobre as pessoas
verbaes
decorre naturalmente que, assim como não cabe ao
imperativo
senão um unico tempo, tambem não lhe cabe
senão uma unica pessoa : a segunda do singular, e a segunda
do plural ; porque não se concebe, em these geral, um acto
de mando, rogo, conselho ou concessão senão como dirigido
a quem é representado por tu ou vos, isto é, á pessoa ou
ás pessoas a quem se falla.

É, porém, particularidade da lingua portugueza que
não se compadeção as mesmas formas do imperativo com
nenhum vocabulo implicando negação, como não, nunca,
etc., sendo, em tal caso, substituidas polas formas correspondentes
de 1.° tempo do subjunctivo. Ex. « O’ meu amado
Senhor !
fallai-me por vós mesmo ; não me falleis pelas
vossas creaturas
 ! » (P. Man. Bernardes). — « Comei vós outros,
pobres estrangeiros, e
não vos desconsoleis por vos verdes
dessa maneira
. » (Fernão Mendes Pinto).

Do sujeito

49. sujeito é a palavra ou conjuncto de palavras que
rege ao verbo em numero e pessoa.

50. Conforme a significação do verbo, o sujeito se
apresenta, ou como o autor do facto, assim em elle julga,
ou como o objecto do facto, assim em elle é julgado.
Porém, neste, como naquelle caso, é distinctivo delle que
imponha ao verbo a concordancia em pessoa e numero :
portanto rege-o. Basta, com effeito, para verificar a exactidão
deste principio, mudar o numero do sujeito, para
que, da mesma feita, lhe corresponda no verbo uma modificação
adequada. Ex. Elles julgão. — elles são julgados.

51. O sujeito póde constar do uma ou de mais palavras ;
porém, seja qual for o seu numero, ellas pertencem
restrictámente, ou á classe dos substantivos, ou a dos pronomes,
ou á dos verbos em um dos quatro primeiros
tempos do infinitivo. Cumpre attender, além disso, que
com excepção dos pronomes eu e tu, nós e vós, todas as
mais palavras avocão necessariamente no verbo a terceira
pessoa do singular ou a terceira do plural.

52. Discrimina-se, aliás, praticamento o sujeito, fazendo-se
com o verbo a pergunta : « Quem é que… ? » para14as pessoas, e : « Que é o que… ? » para as cousas ou’as
abstracções. a palavra ou conjuncto de palavras que acóde
naturalmente em resposta, abrange o sujeito. ’

Exemplos :

Deos disse : — « Faça-se a luz ! » — e a luz foi feita. —
Quem é que disse ? Deos. — Que é o que se havia de fazer ?
a luz ! — Que é que foi feito ? a luz. (Sujeitos de substantivos).

Não só nós passamos, — como tudo passa. — Quem é
que passa ? Nós. — Que é o que passa ? tudo. (Sujeitos de
pronomes
).

O dar e o premiar são cousas muito diferentes. (P. Ant.
Vieira). — Que é o que são cousas muito differentes ? O dar
e o premiar. (Sujeitos de infinitivos).

Não se fazerem Mercês é faltar com o premio à virtude.
(P. Ant. Vieira). — Que é o que se deve fazer ? Mercês.
— Que é faltar com o premio á virtude ? Não se fazerem
Mercês.

Nota. O que ha de mais attendivel neste ultimo
exemplo, é que o infinitivo pessoal fazerem, por isso mesmo
que é pessoal, tem um sujeito no substantivo Mercês, ao
passo que o infinitivo faltar, por ser impessoal, não tem
nenhum. Porém o mesmo infinitivo fazerem, actuando
por sua vez sobre o verbo é, constitue-lhe o sujeito.

53. Constando o sujeito de um pronome pessoal, não
é só licito, como ate preferivel omittí-lo todas as vezes que
da sua suppressão não fica prejudicada, nem a clareza do
pensamento, nem a euphonia da dicção. Assim é que se
depara com uma bem justificada omissão dos referidos pronomes
no seguinte exemplo :

« Ama o teu inimigo, porque, se o não queres amar porque
é teu inimigo, déve-lo amar porque é homem. » (P. Ant.
Vieira). Com o restabelecimento dos pronomes, tornar-se-hia
a dicção insoffrivel : « Ama tu o teu inimigo, porque, se
tu o não queres amar porque elle é teu inimigo, tu o deves
amar porque
elle é homem. »

Nest’outro exemplo, porém, torna-se obvia, pelo motivo
contrario, a conveniencia da enunciação dos mesmos pronomes:
« Esse mesmo inimigo é mais verdadeiro amigo teu
que os teus amigos
 : elle estranha e condemna os teus defeitos,
e
elles os adulão e lisonjeião. » (P. Ant. Vieira).

Outrosim serve esta ultima oração para demonstrar
ainda que um só e mesmo sujeito póde actuar sobre dous
ou mais verbos (elle estranha e condemna… elles adulão
e lisonjeião…
).15

Dos complementos

54. Se todos os verbos de acção e de estado são caracterisados
pela regencia de um sujeito expresso ou occulto,
e os verbos de necessidade, pela deficiência de todo e qualquer
sujeito, quer expresso, quer occulto, uns e outros
adquirem, da assistencia ou da falta de um complemento,
novos distinctivos para uma classificação que, embora diversa,
torna-se, na pratica, tão indispensavel como a anterior.

55. Complemento é a palavra ou conjuncto de palavras
que, junto a um verbo, inteira-lhe o sentido. Exemplo :
« Emenda-te, »

56. Inteirando-lhe o sentido sem preposição, o complemento
é directo : (Ama teu proximo) ; inteirando-lh’o
com preposição, o complemento é indirecto (Ama de Coração).

57. O complemento directo consta de substantivos,
de pronomes, ou de verbos em um dos quatro primeiros
tempos do infinitivo ; o complemento indirecto consta de
substantivos, de pronomes, de verbos em seja qual for o
tempo do infinitivo, e emfim de adverbios ou de locuções
adverbiaes.

58. Os complementos directos de substantivos ou pronomes
competem só e unicamente a certas classes de verbos,
e por isso constituem um distinctivo ; os complementos directos
de infinitivo
competem a todas as classes de verbos,
e por isso não constituem nenhum distinctivo didactico.

Os complementos indirectos, de alcance mais amplo que
os directos, competem, não só a todos os verbos, como
ainda aos substantivos, adjectivos, pronomes, participios, e
até aos adverbios ; delles não tira, portanto, a theoria do
verbo nenhuma inducção particular. O seu caracteristico
resume-se, aliás, no seguinte aphorismo grammatical : E’
complemento indirecto toda a palavra regida de uma preposição
expressa, occulta ou implícita
.

59. Sendo assim complementos directos de substantivos
ou pronomes
os unicos de cuja noção não póde
prescindir a lexicologia, importa saber que se discriminão
praticamente accrescentando-se ao verbo, sob forma de pergunta,
as palavras : « Que pessoa ? » ou « Que cousa ? » Os
substantivos ou pronomes prestando-se a uma resposta
idonea constituem o referido complemento. Ex. Teu inimigo
estranha os teus
defeitos, e teus amigos os adulão. —
16Teu inimigo estranha que cousa ? Os teus defeitos ?Teus
amigos adulão que cousa ?
Os (os teus defeitos).

60. Os complementos podem, aliás, constar, junto a
um mesmo verbo, de uma ou de mais palavras : Ex. a
usura destroe as casas e famílias. e, por correlação, um
só e mesmo complemento pode competir a dous ou mais
verbos successivos. Ex. a usura destroe as casas e famílias,
— e
as empobrece, despeja e affronta. (P. Man.
Bernardes). — Este mesmo exemplo proporciona ainda o
ensejo de verificar que, ao contrario dos sujeitos, os complementos
têm por caracteristico de nunca influir sobre o numero
dos verbos aos quaes se ajuntão ; pois, ao passo que,
ahi, todos os mesmos complementos accusão o plural (casas
e famílias
, — as), todos os verbos denuncião a feição singular
do seu sujeito usura (destroe, — empobrece, despeja e
affronta
).

61. Os complementos directos de substantivos ou pronomes
competem a grande numero de verbos de acção, e
mesmo a verbos de necessidade ; nunca, porém, aos verbos
de estado.

Do predicado

62. O predicado, a que a maior parte dos grammaticos
chamão attributo, é a palavra ou conjuncto de palavras
que enuncia uma qualidade, propriedade ou situação
do sujeito mediante um verbo de estado. Ex. O maior tyranno
foi Herodes ; mas os seus aduladores ainda forão
maiores
tyrannos, porque o rei foi tyranno dos vassallos, e
os aduladores forão
tyrannos dos reis. (P. Ant. Vieira).

63. A feição caracteristica do predicado, feição que
terminantemente o discrimina do complemento directo, é uma
constante tendencia a concordar em genero e numero com
o sujeito ao qual se refere. Ex. Os pobres são os banqueiros
de Deos. (P. Ant. Vieira). — Um homem antes da
união é
um. (P. Ant. Vieira). — Não fazerem Mercês os reis
seria não
serem reis. (P. Ant. Vieira). — Nenhuma semelhante
tendencia de accôrdo existe entre o complemento
directo e o sujeito ; e, quando ambos se encontrão n’um
mesmo genero e numero, não é pela reciproca influencia, e
sim por mero acaso. Pois indifferente é dizer : « Teu amigo
lisonjeia teus defeitos, » ou Teus amigos lisonjeião teus defeitos. »

64. Apezar de, os tres predicados serem, nos tres
exemplos acima adduzidos, um substantivo (banqueiros),
um pronome (um), e um verbo no infinitivo (serem), são17estas as especies de palavras as menos idoneas, para constituir
o termo de que se trata. As que mais especialmente
se prestão a esta funcção, são os adjectivos e os participios,
porque, pela sua flexibilidade em genero e numero,
melhor se accommodão á concordancia solicitada pelo sujeito.
Ex. Se os homens vos são ingratos, não sejais vós ingratos
a Deos. (P. Ant. Vieira). — Os aduladores são parecidos
aos quatro animaes do Apocalypse. (P. Ant. Vieira).

65. Assim como os sujeitos e os complementos, tambem
póde o predicado constar de uma ou de mais palavras.
Ex. Doeg disse a Saul que David era prudente, guerreiro,
,
esforçado, gentil-homem, virtuoso, e dotado de outras
tantas boas partes !
(P. Ant. Vieira).

66. Sendo os predicados incompativeis por indole com
os verbos acompanhados de um complemento directo de
substantivo ou de pronome, a sua assistencia junto a um
verbo dénuncia-o como verbo de estado. Ex. um é affeiçoado
á caça; e, quando os cães andão luzidios e anafados,
ver-lhe-heis os criados pallidos, e mortos a fome. (P. Ant.
Vieira).

Da apposição

67. Embora seja a apposição uma funcção que nenhuma
influencia exerce sobre o verbo, nem tão pouco delle nenhuma
recebe, não deixa de haver opportunidade em definí-la
desde já, ainda que não fosse senão para a discriminar
da de sujeito, de complemento ou de predicado, e prevenir
assim toda e qualquer confusão no jogo reciproco das palavras
dentro da oração.

68. Apposição é a palavra ou conjuncto de palavras
variaveis que se associa a um sujeito, complemento,
predicado ou até a outra apposição para a determinar ou
qualificar. Assim é que, no ultimo trecho do precedente
exemplo : « … e ver-lhe-heis os criados pallidos, e mortos a
fome
, » — apparecem tres apposições : a do artigo os, a do
adjectivo pallidos, e a do participio mortos, que todas,
por uma referencia visivel ao complemento directo criados,
seguem-lhe servilmente a sorte.

69. E’ distinctivo das apposições o concordarem, ou,
pelo menos, o tenderem a concordar em genero e numero
com a palavra por ellas amparada. Por isso é que as especies
de palavras essencialmente idoneas a exercer esta
funcção são os artigos, os adjectivos o os participios. Os
artigos até não têm nem podem ter outra funcção.

Porém esta mesma funcção não fica alheia, nem aos18substantivos, nem aos pronomes, nem aos verbos no infinitivo,
justificando-se assim a allegação de ser propria de
todas as especies de palavras variaveis. Ex. Outros comparão
os aduladores ao espelho
, retrato natural e reciproco
de quem nelle se vê. (P. Ant. Vieira). Ahi e o substantivo
retrato apposição do complemento indirecto ao espelho,
como, outrosim, são apposições da mesma apposição os adjectivos
natural e reciproco, que a ella se referem, e com
ella concordão. — Os nossos ministros, ainda quando vos
despachão bem, fazem-vos os mesmos tres damnos
 : o do dinheiro,
porque o gastais
 ; o do tempo, porque o perdeis ; o das
passadas porque as multiplicais
. (P. Ant. Vieira). Ahi é o
pronome — o — tres vezes a apposição do complemento directo
damnos, ao qual se refere com toda a evidencia, mas
com o qual só é-lhe licito concordar em genero. — El rei
Dario
, sendo ainda homem particular, recebera de um grego
uma capa de grãa
. (P. Man. Bernardes. Ahi ó o gerundio
sendo, que constituo uma das formas do infinitivo de ser,
a apposição do sujeito dario, porque a elle tende por uma
referencia tão exclusiva, que elimina qualquer possibilidade
de equivoco, embora não possa, por falta de variabilidade,
patentear a sua annexação pela concordancia.

Da ligação

70. Ligação é a palavra ou conjuncto do palavras
servindo a consociar, por intorposição, palavras ou pensamentos.
Ex. Cuida a providencia politica que os reinos se
conservão com feno
e com bronze, e sobretudo com ouro e
com prata ; mas é engano. (P. Ant. Vieira). Ahi consocia
a conjuncção que o pensamento representado pelo facto
cuida com o pensamento representado pelo facto conservão ;
a primeira conjuncção e consocia dous substantivos formando
um complemento indirecto (com ferro e com bronze) ; a segunda
conjuncção e consocia, com o pensamento anterior,
um pensamento representado pelo facto occulto se conservão
(e que se conservão sorretudo…) ; o terceiro e
consocia novamente dous substantivos formando um complemento
indirecto (com ouro e com prata), emfim a conjuncção
mas consocia, por opposição, o ultimo pensamento
representado pelo facto é, com todos os anteriores.

71. As palavras essencialmente idoneas para constituir
uma ligação não são tão sómente as conjuncções, senão
tambem todos os adjectivos, pronomes e adverbios abrangendo
aberta ou disfarçadamente que. Porém, neste ultimo
caso, os mesmos adjectivos, pronomes o adverbios cumulão
sempre com a funcção de ligação uma das outras funcções19que são proprias da especie de palavras a que pertencem,
isto é, formão outrosim outros tantos sujeitos, complementos,
predicados ou apposições.

72. As ligações exercem nos verbos uma notavel influencia
pelas relações que entre elles estabelecem ; mas,
por isso mesmo, subtrahem-se a um exame mais detido
nesta parte da grammatica, que só trata da natureza e das
formas das palavras. A exposição doutrinal das considerações
a que se prestão, constitue, conjunctamente com a
theoria das outras funcções, o thema especial da syntaxe,
sendo estas aqui tão sómente esboçadas porque, da sua
noção previa, não é possivel abstrahir para firmar categoricamente
numerosas e importantes innovações de classificação
lexicologica.

Classificação dos verbos

73. Considerados no seu alcance, isto é, no modo por
que se prendem ás outras especies de palavras, todos os
verbos são factos de acção, do estado ou de necessidade.
Considerados no seu desenvolvimento, isto é, na variação
de suas formas, os verbos recebem outra classificação, dividindo-se
primariamente em elementares e em combinados.

Verbos elementares são os que, no decurso da conjugação,
têm tempos simples e tempos compostos. Verbos
combinados são os que, no decurso da conjugação, só têm
tempos compostos.

Por conjugação entende-se a coordenação methodica
de todas as modificações do verbo.

74. Os verbos elementares não differem originariamente
dos combinados, porquanto, em uns e outros, o
radical é o mesmo. Mas, na ordem da procedencia, os
primeiros servem a formar os segundos, e esta é a razão
de sua denominação de elementares. Assim é que os verbos
amar, render e punir, que, sem sahirem do mesmo desenvolvimento
conjugativo, fazem ter ou haver amado, ter
ou haver rendido e ter ou haver punido
, constituem
verbos elementares ; porquanto, em um tempo, patenteião
uma forma simples, e, em outro, uma forma composta.
Porem os verbos ser ou estar amado, — ter ou haver
de render, — estar para render, — estar punindo
, que
tambem, sem sahirem do mesmo desenvolvimento conjugativo,
fazem ter ou haver sido ou estado amado, — ter ou
haver tido ou havido de render, — ter ou haver estado
para render, — ter ou haver estado punindo
, constituem
20verbos combinados ; porquanto, nestes dous tempos, como
em todos os mais, não patenteião senão formas compostas.

75. Assim como consta dos referidos exemplos, as
formas compostas constituem-se, nos verbos elementares,
pelo concurso dos verbos ter ou haver ; nos verbos combinados,
pelo concurso, não só de ter ou haver, como
tambem de ser ou estar. A esta circumstancia deverão
todos estes quatro verbos o appellido significativo de verbos
auxiliares
, sendo este todavia restricto aos casos em que
se confundem em sentido com o verbo auxiliado ; pois, fóra
da combinação, são elementos como outros quaesquer.

Dos verbos elementares

76. Os verbos elementares subdividem-se em activos,
neutros, pronominaes o impessoaes
.

77. O verbo activo tem um complemento directo de
substantivo ou pronome, e é convertivel em passivo, um
dos verbos combinados. Ex. Teu inimigo estranha e condemna
os teus defeitos, e teus amigos os adulão e lisonjeião.
Teus defeitos são estranhados e condemnados por teu
inimigo, e
são adulados e lisonjeados per teus amigos.

O que ha do mais notavel nesta conversão, é que, ficando
illeso o pensamento apezar do transtorno das funcções
e das formas, o complemento directo do verbo activo torna-se
sujeito do verbo passivo, e o sujeito do verbo activo,
complemento indirecto do verbo passivo.

78. O verbo neutro não tem complemento directo do
substantivo ou pronome, e assim, falto do termo que só
póde formar um sujeito por inversão do funcções, não é
convertivel em passivo. Ex. A preguiça do Brazil anda
devagar, mas anda ; a de Portugal e seus ministros a cada
passo
para e dorme. (P. Man. Bernardes).

Dahi se deduz a consequencia que, achando-se por
acaso falto de complemento directo de substantivo ou pronome,
um verbo, embora activo por natureza, deve ser
capitulado do accidentalmente neutro, porque fallece-lhe
a possibilidade do se transmudar em passivo. Ex. « amemos
o proximo espiritual e santamente ; não amemos de palavra
e de mostras, senão com verdadeiro coração e obras
. »
(D. Frei Bartholomeo dos Martyros). Ahi é o primeiro
amemos um verbo activo, por ter um complemento directo
em proximo, o ser assim convertivel em passivo (Seja o
proximo
amado de nós…) ; é, porém, accidentalmente neutro
o segundo, pelo motivo opposto.21

Por contraposição, deve ser tido como accidentalmente
activo
todo e qualquer verbo que, embora neutro
por natureza, appareça occasionalmente acompanhado de
um complemento directo de substantivo ou pronome. Ex.
viver vida folgadadormir o somno da indolência -
. —
Os Hespanhóes navegão a prata, e os estrangeiros a logrão.
(P. Ant. Vieira). Assim viveu Duarte Pocheco vida indigente.
(Hist. de D. Manoel).

79. O verbo pronominal tem por distinctivo o conjugar-se
com dous pronomes da mesma pessoa.

Exemplo : queixar-se.

tableau Eu me queixo | Nós nos queixamos
Tu te queixas | Vós vos queixais
Elle (ella) se queixa | Elles (ellas) se queixão.

Servindo-lhe de sujeito, o primeiro pronome póde ser
eliminado por amor da brevidade ou da euphonia ; não o
póde, porém, o segundo, porque sorve-lhe indispensavelmente
de complemento.

tableau Queixo-me | Queixamo-nos
Queixas-te | Queixais-vos
Queixa-se | Queixão-se.

Gcralraento é directo o complemento formado pelo
segundo pronome. Mas, dando-se o caso, como se dá, do
ser indirecto, encontra-se, em outra palavra, um complemento
directo ; pois delle não póde prescindir este verbo.
Ex. Quem se vinga, arroga-se um direito de Deos. — Quem
vinga
sua pessoa (compl. dir.), arroga a sua pessoa (compl.
ind.) um direito de Deos (compl. dir.). Todavia, nesta
como naquella hypothese, não é o verbo pronominal convertivel
em passivo.

Aliás são pouco numerosos os verbos que, conjugando-se
exclusivamente por esta forma (como suicidar-se, atrever-se,
esvair-se, etc.), lograrão por isso o appellido de essencialmente
pronominaes. a mór parte, procedentes de verbos
activos, como gabar-se de gabar, e alguns de verbos neutros,
como succeder-se de succeder, são tidos como accidentalmente
pronominaes. Ex. O infante D. Henrique foi-se
viver entre o ruido das ondas, nas praias mais remotas do
reino. (P. Ant. Vieira). — (foi-se — ir-se)

80. O verbo impessoal tem por distinctivo o ser unicamente
conjugavel sob a forma propria da terceira possoa
do singular. Ex. chove.

Muito diminuto é o numero dos verbos essencialmente22impessoaes, porquanto limita-se á enunciação de alguns
phenomenos naturaes cujo agente ou motor escapa a toda
e qualquer designação : relampeja, troveja, neva, graniza, etc.
Porém extensissimo é o numero dos accidentalmente impessoaes,
visto que nelle se alistão, tanto dentre os outros
elementares, como dentre os combinados, todos os verbos
que, fugindo á responsabilidade, apresentão o facto sob a
capa do anonymo. Ex. (Do activo fazer) : faz frio. Quem
faz… ? — (Do neutro carecer) : carece andar. Quem carece… ?
— (Do pronominal seguir-se) : seque-se que fará frio. Quem é,
Ou que é o que se segue que… ? — (Dos passivos ser sabido, —
estar visto
) : e’ sabido que… — está visto que… etc.

Dahi decorre que, conforme a sua procedencia, os accidentalmente
impessoaes, apparecem, já com ou sem complemento
directo de substantivo ou pronome, já com ou
sem predicado ; porém o que a todos absolutamente fallece,
é um sujeito, quer expresso, quer occulto. Ex. Se, no outro
mundo, não
houvera inferno, e, neste mundo, não houvera
justiça, era
muito bom. (P. Ant. Vieira). Ahi tem o primeiro
houvera um complemento directo no substantivo
inferno, e o segundo, um igual complemento em justiça,
como era tem um predicado no adjectivo bom ; porém a
nenhum delles é possivel assignar um sujeito.

Por todas estas considerações vê-se que a expressão
do verbos impessoaes allude meramente á conjugação truncada
dos verbos de necessidade, e que uns e outros são exactamente
os mesmos.

Entretanto os essencialmente impessoaes não são estremes
de uma anomalia já assignalada nas anteriores classes de
verbos, vindo ella a ser que ; por assumirem occasionalmento
um sujeito, tornão-se accidentalmente neutros ou mesmo
activos, conforme se dá nelles deficiência ou assistencia de
um complemento directo de substantivo ou pronome. Ex.
« troveje em vão mavorte sobre a serra ! » Januario da
Cunha Barbosa). — As nuvens choverão sangue. — e, por
uma consequencia natural de gozarem, ainda que mui excepcionalmente,
da faculdade de se tornar activos, os
mesmos verbos não ficão inhibidos de assumir a forma
passiva. Ex. Os penedos daquella serrania, parece que estão
ameaçando ruina, e que
forão chovidos, ou feitos á mão por
industria humana
. (Duarte Nunes de Leão).

Dos verbos combinados

81. Os verbos combinados subdividem-se em passivos,
prepositivos e gerundiaes
.23

82. Os verbos passivos ficão constituidos pela reunião
do um dos dous auxiliares ser ou estar com o participio
variavel do um verbo activo. Ex. Por mais cercado que
esteja de guardas o palacio dos reis, a adulação se sabe introduzir
subtilissimamente, sem
ser sentida. (P. Ant. Vieira).

Chamão-se passivos porque o facto por elles enunciado
apresenta-se, não como perpetrado pelo sujeito, e sim como
recahindo nelle. Ex. Muitas graças sejão dadas a Deos,
que, para remedio deste grande mal, não só temos justiça na
terra, senão justiça de sol, como diz Malachias
. (P. Ant.
Vieira). — O triste que anda em juizo, ainda não esta
executado
nem sentenciado, e já esta comido. (P. Ant.
Vieira).

Convém notar que, embora de sentido bastante diverso,
ser e estar não deixão do constituir promiscuamente
verbos passivos, por originarom relações identicas, e, entre
ellas, a da concordancia em genero e numero do seu participio
com o sujeito (Muitas graças sejão dadas… — O

triste não está executado nem sentenciado, e já está
comido).

83. Os verbos prepositivos ficão constituidos, na primeira
categoria, pela reunião de ter ou haver, mediante
a proposição de ; e, na segunda categoria, pela reunião de
estar, mediante a preposição para, com o tempo primordial
(1.° do infinitivo) de qualquer verbo elementar ou mesmo
passivo.

Exemplos da primeira categoria :

(V. activo) : | Eu o tenho ou hei de chamar.
(V. neutro) : | Eu tenho ou hei de sahir.
(V. pronominal) : | Eu tenho ou hei de me queixar.
(V. impessoal) : | Tem ou ha de chover.
(V. passivo) : | Eu tenho ou hei de ser chamado.

Exemplos da segunda categoria :

(V. activo) : | Eu estou para o chamar.
(V. neutro) : | Eu estou para sahir.
(V. pronominal) : | Eu estou para me queixar.
(V. impessoal) : | Está para chover.
(V. passivo) : | Eu estou para ser chamado.

Nota. Os prepositivos da segunda categoria não admittem,
por causa da redundancia, os infinitivos passivos
constituidos com estar. Pois insoffrivel seria dizer : Eu
estou para
estar chamado,

84. Os verbos gerundiaes ficão constituidos pela
24reunião de estar com o gerundio simples de qualquer
verbo elementar ou mesmo passivo com ser.

Exemplos :

(V. activo) : | Eu o estou chamando.
(V. neutro) : | Eu estou sahindo.
(V. pronominal) : | Eu me estou queixando.
(V. impessoal) : | Está chovendo.
(V. passivo) : | Eu estou sendo chamado.

Dos verbos auxiliares

85. Dos quatro auxiliares, ter e haver são por natureza
activos, pois são convertiveis em passivos (Eu sou
tido
ou havido por…) ; ser e estar, pelo motivo opposto,
são por natureza neutros. e assim é tambem que devem
ser analyticamente capitulados todas as vezes que não
formão, por colligação com outros verbos, um tempo composto.

Como auxiliares ficão caracterisados por se confundirem
indissoluvelmente em sentido com o verbo auxiliado.

Porém, esta mesma propriedade, compartem-na com
elles occasionalmente alguns outros verbos, a que, por tal
motivo, compete merecidamente o appellido de auxiliares
supplementares
. Os que occorrem dentre os activos, são :
deixar, dever e levar ; assim : O que deixo (hei) escripto…
— o que levo (tenho) dito… — « Logo, se os aduladores
não são os que sómente vêm de fóra as paredes do palacio
,
devem de ser (têm de ser) sem duvida os que as frequentão
de dentro
. » (P. Ant. Vieira). — Os que occorrem dentre os
neutros, são : andar, ficar, ir, sahir o vir ; assim : ando
(estou) agastado… — Fico (estou) sabendo… — Vou (estou)
experimentando… — sahiu (foi) ferido… — veiu (foi)
traslado… — ft Quereis ver um Job destes ? Vêde um
homem desses que
andão (estão) perseguidos de pleitos, ou
accusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. » (P.
Ant. Vieira). — a formosura é um bem frágil, e, quanto mais
se vai (se está) chegando aos annos, tanto mais vai (está)
diminuindo e desfazendo em si, e fazendo-se menor. (P.
Ant. Vieira.

Das conjugações

86. Da crcumstancia do todos os verbos, com excepção
de pôr o seus congeneres, acabarem, na sua forma primordial
em ar, er ou ir, originou-se a sua distribuição em25tres conjugações, sob as rubricas de primeira para os
os verbos em ar, de segunda para os verbos em er, e do
terceira para os verbos om ir.

87. Chamão-se paradigmas os verbos que, em cada
conjugação, servem de norma ou modelo para as successivas
inflexões da terminação. Os escolhidos nesta grammatica,
são : amar, render e punir.

88. Considerados em relação aos seus paradigmas, os
verbos se distinguem em regulares, irregulares e defectivos.

Regulares são os que, em todos os seus modos, tempos,
numeros e pessoas, se conjugão conforme o seu paradigma.

Irregulares são os que, em algum modo, tempo, numero
ou pessoa, divergem de seu paradigma.

Defectivos são os em que se dá uma deficiência do
modo, tempo, numero ou pessoa.

Todos os verbos que não vierem adiante assignalados
como irregulares ou defectivos, devem ser tidos como regulares.

89. Todavia as conjugações dos quatro auxiliares antecipão-se
naturalmente a todas as outras, porque em todas
é indispensavel o concurso de uns ou outros destes verbos
para a formação dos tempos compostos. A esta consideração
accresce a de suas numerosas anomalias, que, tornando-os
summamente irregulares, fazem do seu completo
desenvolvimento conjugativo uma necessidade indeclinavel.

Tabella conjugativa dos verbos
ter e haver

Indicativo

1.° Tempo
(Presente)

tableau Eu tenho | Eu hei
Tu tens | Tu has
Elle tem | Elle ha
Nós temos | Nós havemos
Vós tendes | Vós haveis
Elles têm | Elles hão
26

2.° Tempo
(Pass. imperf.)

tableau Eu tinha | Eu havia
Tu tinhas | Tu havias
Elle tinha | Elle havia
Nós tinhamos | Nós haviamos
Vós tinheis | Vós haveis
Elles tinhão | Elles havião

3.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu tive | Eu houve
Tu tiveste | Tu houveste
Elle teve | Elle houve
Nós tivemos | Nós houvemos
Vós tivestes | Vós houvestes
Elles tiverão | Elles houverão

4.° Tempo
(Pass. perf. comp.)

tableau Eu tenho ou hei | tido ou havido
Tu tens ou has | tido ou havido
Elle tem ou ha | tido ou havido
Nós temos ou havemos | tido ou havido
Vós tendes ou haveis | tido ou havido
Elles têm ou hão | tido ou havido

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu tivera | Eu houvora
Tu tiveras | Tu houveras
Elle tivera | Elle houvera
Nós tiveramos | Nós houveramos
Vós tivereis | Vós houvereis
Elles tiverão | Elles houverão

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. comp.)

tableau Eu tinha ou havia | tido ou havido
Tu tinhas ou havias | tido ou havido
Elle tinha ou havia | tido ou havido
Nós tinhamos ou haviamos | tido ou havido
Vós tinheis ou havieis | tido ou havido
Elles tinhão ou havião | tido ou havido
27

7.° Tempo
Futuro

tableau Eu terei | Eu haverei
Tu terás | Tu haverás
Elle terá | Elle haverá
Nós teremos | Nós haveremos
Vós tereis | Vós havereis
Elles terão | Elles haverão

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu terei ou haverei | tido ou havido
Tu terás ou haverás | tido ou havido
Elle terá ou haverá | tido ou havido
Nós teremos ou haveremos | tido ou havido
Vós tereis ou havereis | tido ou havido
Elles terão ou haverão | tido ou havido

Condicional

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. prop.)

tableau Eu teria | Eu haveria
Tu terias | Tu haverias
Elle teria | Elle haveria
Nós teriamos | Nós haveriamos
Vós terieis | Vós haverieis
Elles terião | Elles haverião

2.° Tempo
(Pass. prop.)

tableau Eu teria ou haveria | tido ou havido
Tu terias ou haverias | tido ou havido
Elle teria ou haveria | tido ou havido
Nós teriamos ou haveriamos | tido ou havido
Vós terieis ou haverieis | tido ou havido
Elles terião ou haverião | tido ou havido

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu tivera | Eu houvera
Tu tiveras | Tu houveras
Elle tivera | Elle houvera
Nós tiveramos | Nós houveramos
Vós tivereis | Vós houvereis
Elles tiverão | Elles houverão
28

4.° Tempo
(Pass. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | tido ou havido
Tu tiveras ou houveras | tido ou havido
Elle tivera ou houvera | tido ou havido
Nós tiveramos ou houveramos | tido ou havido
Vós tivereis ou houvereis | tido ou havido
Elles tiverão ou houverão | tido ou havido

Imperativo

Tempo único
(Futuro)

tableau Tem (tu) | Ha (tu)
Tende (vós) | Havei (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo
(Pres.-fut.)

tableau Eu tenha | Eu haja
Tu tenhas | Tu hajas
Elle tenha | Elle haja
Nós tenhamos | Nós hajamos
Vos tenhais | Vós hajais
Elles tenhao | Elles hajão

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut.)

tableau Eu tivesse | Eu houvesse
Tu tivesses | Tu houvesses
Elle tivesse | Elle houvesse
Nós tivessemos | Nós houvessemos
Vós tivesseis | Vós houvesseis
Elles tivessem | Elles houvessem

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut.-suppl.)

tableau Eu tivera | Eu houvera
Tu tiveras | Tu houveras
Elle tivera | Elle houvera
Nós tiveramos | Nós houveramos
Vós tivereis | Vós houvereis
Elles tiverão | Elles houverão
29

4.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu tenha ou haja | tido ou havido
Tu tenhas ou hajas | tido ou havido
Elle tenha ou haja | tido ou havido
Nós tenhamos ou hajamos | tido ou havido
Vós tenhais ou hajais | tido ou havido
Elles tenhão ou hajão | tido ou havido

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu tivesse ou houvesse | tido ou havido
Tu tivesses ou houvesses | tido ou havido
Elle tivesse ou houvesse | tido ou havido
Nós tivessemos ou houvessemos | tido ou havido
Vós tivesseis ou houvesseis | tido ou havido
Elles tivessem ou houvessem | tido ou havido

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | tido ou havido
Tu tiveras ou houveras | tido ou havido
Elle tivera ou houvera | tido ou havido
Nós tiveramos ou houveramos | tido ou havido
Vós tivereis ou houvereis | tido ou havido
Elles tiverão ou houverão | tido ou havido

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu tiver | Eu houver
Tu tiveres | Tu houveres
Elle tiver | Elle houver
Nós tivermos | Nós houvermos
Vós tiverdes | Vós houverdes
Elles tiverem | Elles houverem

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu tiver ou houver | tido ou havido
Tu tiveres ou houveres | tido ou havido
Elle tiver ou houver | tido ou havido
Nós tivermos ou houvermos | tido ou havido
Vós tiverdes ou houverdes | tido ou havido
Elles tiverem ou houverem | tido ou havido
30

Infinitivo

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. impess.)

tableau Ter | Haver

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. pess.)

tableau Eu ter | Eu haver
Tu teres | Tu haveres
Elle ter | Elle haver
Nós termos | Nós havermos
Vós terdes | Vós haverdes
Elles terem | Elles haverem

3.° Tempo
(Pass. impess.)

tableau Ter ou haver tido | Ter ou haver havido

4.° Tempo
(Pass. pess.)

tableau Eu ter ou haver | tido ou havido
Tu teres ou haveres | tido ou havido
Elle ter ou haver | tido ou havido
Nós termos ou havermos | tido ou havido
Vós terdes ou haverdes | tido ou havido
Elles terem ou haverem | tido ou havido

5.° Tempo
(Gerundio simp.)

Tendo | eu, nós | tu, vós | elle, elles
Havendo | eu, nós | tu, vós | elle, elles

6.° Tempo
(Gerundio comp.)

Tendo ou Havendo / eu, nós | tu, vós | elle, elles
tido | Tendo ou Havendo / eu, nós | tu, vós | elle, elles / havido31

Participios

Part. invariavel

tableau Tido | Havido

Part. variavel

tableau Tido, a, os, as. | Havido, a, os, as.

Nota. Pelo verbo ter conjugão-se os derivados abster-se,
ater-se, conter, deter, entreter, manter, obter, reter e suster
.

Por haver conjuga-se o derivado rehaver.

Tabella conjugativa dos verbos
ser e estar

Indicativo

1.° Tempo
(Presente)

tableau Eu sou | Eu estou
Tu és | Tu estás
Elle é | Elle está
Nós somos | Nós estamos
Vós sois | Vós estais
Elles são | Elles estão

2.° Tempo
(Pass. imperf.)

tableau Eu era | Eu estava
Tu eras | Tu estavas
Elle era | Elle estava
Nós eramos | Nós estavamos
Vós ereis | Vós estaveis
Elles são | Elles estão

3.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu fui | Eu estive
Tu foste | Tu estiveste
Elle foi | Elle esteve
Nós fomos | Nós estivemos
Vós fostes | Vós estivestes
Elles forão | Elles estiverão
32

4.° Tempo
(Pass. perf. comp.)

tableau Eu tenho ou hei | sido ou estado
Tu tens ou has | sido ou estado
Elle tem ou ha | sido ou estado
Nós temos ou havemos | sido ou estado
Vós tendes ou haveis | sido ou estado
Elles têm ou hão | sido ou estado

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu fôra | Eu estivera
Tu fôras | Tu estiveras
Elle fôra | Elle estivera
Nós foramos | Nós estiveramos
Vós foreis | Vós estivereis
Elles forão | Elles estiverão

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. comp.)

tableau Eu tinha ou havia | sido ou estado
Tu tinhas ou havias | sido ou estado
Elle tinha ou havia | sido ou estado
Nós tinhamos ou haviamos | sido ou estado
Vós tinheis ou havieis | sido ou estado
Elles tinhão ou havião | sido ou estado

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu serei | Eu estarei
Tu serás | Tu estarás
Elle será | Elle estará
Nós seremos | Nós estaremos
Vós sereis | Vós estareis
Elles serão | Elles estarão

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu terei ou haverei | sido ou estado
Tu terás ou haverás | sido ou estado
Elle terá ou haverá | sido ou estado
Nós teremos ou haveremos | sido ou estado
Vós tereis ou havereis | sido ou estado
Elles terão ou haverão | sido ou estado
33

Condicional

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. prop.)

tableau Eu seria | Eu estaria
Tu serias | Tu estarias
Elle seria | Elle estaria
Nós seriamos | Nós estaríamos
Vós serieis | Vós estarieis
Elles serião | Elles estarião

2.° Tempo
(Pass. prop.)

tableau Eu teria ou haveria | sido ou estado
Tu terias ou haverias | sido ou estado
Elle teria ou haveria | sido ou estado
Nós teriamos ou haveriamos | sido ou estado
Vós teriois ou haverieis | sido ou estado
Elles terião ou haverião | sido ou estado

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu fôra | Eu estivera
Tu fôras | Tu estiveras
Elle fôra | Elle estivera
Nós foramos | Nós estiveramos
Vós foreis | Vós estiverois
Elles forão | Elles estiverão

4.° Tempo
(Pass. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | sido ou estado
Tu tiveras ou houveras | sido ou estado
Elle tivera ou houvera | sido ou estado
Nós tiveramos ou houveramos | sido ou estado
Vós tivereis ou houvereis | sido ou estado
Elles tiverão ou houverão | sido ou estado

Imperativo

Tempo unico
(Futuro)

tableau Sê (tu) | Está (tu)
Sêde (vós) | Estai (vós)
34

Subjunctivo

1.° Tempo
(Pres.-fut.)

tableau Eu seja | Eu esteja
Tu sejas | Tu estejas
Elle seja | Elle esteja
Nós sejamos | Nós estejamos
Vós sejais | Vós estejais
Elles sejão | Elles estejão

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut.)

tableau Eu fosse | Eu estivesse
Tu fosses | Tu estivesses
Elle fosse | Elle estivesse
Nós fossemos | Nós estivessemos
Vós fosseis | Vós estivesseis
Elles fossem | Elles estivessem

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu fôra | Eu estivera
Tu foras | Tu estiveras
Elle fora | Elle estivera
Nós foramos | Nós estiveramos
Vós foreis | Vós estivereis
Elles forão | Elles estiverão

4.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu tenha ou haja | sido ou estado
Tu tenhas ou hajas | sido ou estado
Elle tenha ou haja | sido ou estado
Nós tenhamos ou hajamos | sido ou estado
Vós tenhais ou hajais | sido ou estado
Elles tenhão ou hajão | sido ou estado

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu tivesse ou houvesse | sido ou estado
Tu tivesses ou houvesses | sido ou estado
Elle tivesse ou houvesse | sido ou estado
Nós tivessemos ou houvessemos | sido ou estado
Vós tivesseis ou houvesseis | sido ou estado
Elles tivessem ou houvessem | sido ou estado
35

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | sido ou estado
Tu tiveras ou houveras | sido ou estado
Elle tivera ou houvera | sido ou estado
Nós tiveramos ou houveramos | sido ou estado
Vós tivereis ou houvereis | sido ou estado
Elles tiverão ou houverão | sido ou estado

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu fôr | Eu estiver
Tu fôres | Tu estiveres
Elle fôr | Elle estiver
Nós formos | Nós estivermos
Vós fordes | Vós estiverdes
Elles forem | Elles estiverem

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu tiver ou houver | sido ou estado
Tu tiveres ou houveres | sido ou estado
Elle tiver ou houver | sido ou estado
Nós tivermos ou houvermos | sido ou estado
Vós tiverdes ou houverdes | sido ou estado
Elles tiverem ou houverem | sido ou estado

Infinitivo

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. impess.)

tableau Ser | Estar

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. pess.)

tableau Eu ser | Eu estar
Tu seres | Tu estares
Elle ser | Elle estar
Nós sermos | Nós estarmos
Vós serdes | Vós estardes
Elles serem | Elles estarem

8.° Tempo
(Pass. impess.)

tableau Ter ou haver sido | Ter ou haver estado36

4.° Tempo
(Pass. pess.)

tableau Eu ter ou haver | sido ou estado
Tu teres ou haveres | sido ou estado
Elle ter ou haver | sido ou estado
Nós termos ou havermos | sido ou estado
Vós terdes ou haverdes | sido ou estado
Elles terem ou haverem | sido ou estado

5.° Tempo
(Gerundio simp.)

Sendo / eu, nós | tu, vós | elle, elles
Estando / eu, nós | tu, vós | elle, elles

6.° Tempo
(Gerundio comp.)

Tendo ou Havendo / eu, nós | tu, vós | elle, elles / sido
Tendo ou Havendo / eu, nós | tu, vós | elle, elles / estado

Participios

Part. invariavel

tableau Sido | Estado

Part. variavel

(Falta).

Nota. Por estar conjuga-se o derivado sobreestar.

Primeira conjugação
dos verbos elementares regulares
Paradigma dos verbos em ar
Amar

Indicativo

1.° Tempo
(Presente)

tableau Eu amo | Nós amamos
Tu amas | Vós amais
Elle ama | Elles amão
37

2.° Tempo
(Pass. imperf.)

tableau Eu amava | Nós amavamos
Tu amavas | Vós amaveis
Elle amava | Elles amavão

3.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu amei | Nós amámos
Tu amaste | Vós amastes
Elle amou | Elles amarão

4.° Tempo
(Pass. perf. comp.)

tableau Eu tenho ou hei | amado
Tu tens ou has | amado
Elle tem ou ha | amado
Nós temos ou havemos | amado
Vós tendes ou haveis | amado
Elles têm ou hão | amado

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu amara | Nós amaramos
Tu amaras | Vós amareis
Elle amara | Elles amarão

6.° tempo
(Pret. m. q. perf. comp.)

tableau Eu tinha ou havia | amado
Tu tinhas ou havias | amado
Elle tinha ou havia | amado
Nós tinhamos ou haviamos | amado
Vós tinheis ou havieis | amado
Elles tinhão ou havião | amado

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu amarei | Nós amaremos
Tu amarás | Vós amareis
Elle amará | Elles amarão
38

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu terei ou haverei | amado
Tu terás ou haverás | amado
Elle terá ou haverá | amado
Nós teremos ou haveremos | amado
Vós tereis ou havereis | amado
Elles terão ou haverão | amado

Condicional

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. prop.)

tableau Eu amaria | Nós amariamos
Tu amarias | Vós amarieis
Elle amaria | Elles amarião

2.° Tempo
(Pass. prop.)

tableau Eu teria ou haveria | amado
Tu terias ou haverias | amado
Elle teria ou haveria | amado
Nós teriamos ou haveriamos | amado
Vós terieis ou haverieis | amado
Elles terião ou haverião | amado

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu amara | Nós amaramos
Tu amaras | Vós amareis
Elle amara | Elles amarão

4.° Tempo
(Pass. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | amado
Tu tiveras ou houveras | amado
Elle tivera ou houvera | amado
Nós tiveramos ou houveramos | amado
Vós tivereis ou houvereis | amado
Elles tiverão ou houverão | amado
39

Imperativo

Tempo unico
(Futuro)

tableau Ama (tu) | Amai (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo
(Pres.-fut.)

tableau Eu ame | Nós amemos
Tu ames | Vós ameis
Elle ame | Elles amem

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut.)

tableau Eu amasse | Nós amassemos
Tu amasses | Vós amasseis
Elle amasse | Elles amassem

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu amara | Nós amaramos
Tu amaras | Vós amareis
Elle amara | Elles amarão

4.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu tenha ou haja | amado
Tu tenhas ou hajas | amado
Elle tenha ou haja | amado
Nós tenhamos ou hajamos | amado
Vós tenhais ou hajais | amado
Elles tenhão ou hajão | amado

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu tivesse ou houvesse | amado
Tu tivesses ou houvesses | amado
Elle tivesse ou houvesse | amado
Nós tivessemos ou houvessemos | amado
Vós tivesseis ou houvesseis | amado
Elles tivessem ou houvessem | amado
40

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | amado
Tu tiveras ou houveras | amado
Elle tivera ou houvera | amado
Nós tiveramos ou houveramos | amado
Vós tivereis ou houvereis | amado
Elles tiverão ou houverão | amado

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu amar | Nós amarmos
Tu amares | Vós amardes
Elle amar | Elles amarem

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu tiver ou houver | amado
Tu tiveres ou houveres | amado
Elle tiver ou houver | amado
Nós tivermos ou houvermos | amado
Vós tiverdes ou houverdos | amado
Elles tiverem ou houverem | amado

Infinitivo

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. impess.)

tableau Amar

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. pess.)

tableau Eu amar | Nós amarmos
Tu amares | Vós amardes
Elle amar | Elles amarem

3.° Tempo
(Pass. impess.)

tableau Ter ou haver amado41

4.° Tempo
(Pass. pess.)

tableau Eu ter ou haver | amado
Tu teres ou haveres | amado
Elle ter ou haver | amado
Nós termos ou havermos | amado
Vós terdes ou haverdes | amado
Elles terem ou haverem | amado

5.° Tempo
(Gerundio simpl.)

tableau Amando
eu, nós | tu, vós | elle, elles

6.° Tempo
(Gerundio comp.)

tableau Tendo ou havendo
eu, nós | tu, vós | elle, ellos
amado

Participios

Part. invariavel

tableau Amado

Part. variavel

tableau Amado, a, os, as.

Segunda conjugação
dos verbos elementares regulares
Paradigma dos verbos em er
render

Indicativo

1.° Tempo
(Presente)

tableau Eu rendo | Nós rendemos
Tu rendes | Vós rendeis
Elle rende | Elles rendem
42

2.° Tempo
(Pass. imperf.)

tableau Eu rendia | Nós rendíamos
Tu rendias | Vós rendieis
Elle rendia | Elles rendião

3.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu rendí | Nós rendemos
Tu rendeste | Vós rendestes
Elle rendou | Elles rendêrão

4.° Tempo
(Pass. perf. comp.)

tableau Eu tenho ou hei | rendido
Tu tens ou has | rendido
Elle tem ou ha | rendido
Nós temos ou havemos | rendido
Vós tendes ou haveis | rendido
Elles têm ou hão | rendido

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu rendêra | Nós rendêramos
Tu rendêras | Vós rendêreis
Elle rendêra | Elles rendêrão

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. comp.)

tableau Eu tinha ou havia | rendido
Tu tinhas ou havias | rendido
Elle tinha ou havia | rendido
Nós tinhamos ou haviamos | rendido
Vós tinheis ou havieis | rendido
Elles tinhão ou havião | rendido

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu renderei | Nós renderemos
Tu renderás | Vós rendereis
Elle renderá | Elles renderão
43

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu terei ou haverei | rendido
Tu terás ou haverás | rendido
Elle terá havera | rendido
Nós teremos ou haveremos | rendido
Vós tereis ou havereis | rendido
Elles terão ou haverão | rendido

Condicional

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. prop.)

tableau Eu renderia | Nós renderiamos
Tu renderias | Vós renderieis
Elle renderia | Elles renderião

2.° Tempo
(Pass. prop.)

tableau Eu teria ou haveria | rendido
Tu terias ou haverias | rendido
Elle teria ou haveria | rendido
Nós teriamos ou haveriamos | rendido
Vos terieis ou haverieis | rendido
Elles terião ou haverião | rendido

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu rendêra | Nós rendêramos
Tu rendêras | Vós rendêreis
Elle rendêra | Elles rendêrão

4.° Tempo
(Pass. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | rendido
Tu tiveras ou houveras | rendido
Elle tivera ou houvera | rendido
Nós tiveramos ou houveramos | rendido
Vós tivereis ou houvereis | rendido
Elles tiverão ou houverão | rendido44

Imperativo

Tempo unico
(Futuro)

tableau Rende (tu) | Rendei (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo
(Pi-es.-fut)

tableau Eu renda | Nós rendamos
Tu rendas | Vós rendais
Ella renda | Elles rendão

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut)

tableau Eu rendesse | Nós rendéssemos
Tu rendesses | Vós rendesseis
Elle rendesse | Elles rendessem

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut.-suppl.)

tableau Eu rendêra | Nós rendêramos
Tu rendêras | Vós rendêreis
Elle rendêra | Elles rendêrão

4.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu tenha ou haja | rendido
Tu tenhas ou hajas | rendido
Elle tenha ou haja | rendido
Nós tenhamos ou hajamos | rendido
Vós tenhais ou hajais | rendido
Elles tenhão ou hajão | rendido

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu tivesse ou houvesse | rendido
Tu tivesses ou houvesses | rendido
Elle tivesse ou houvesse | rendido
Nós tivessemos ou houvessemos | rendido
Vós tivesseis ou houvesseis | rendido
Elles tivessem ou houvessem | rendido45

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf, suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | rendido
Tu tiveras ou houveras | rendido
Elle tivera ou houvera | rendido
Nós tiveramos ou houveramos | rendido
Vós tivereis ou houvereis | rendido
Elles tiverão ou houverão | rendido

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu render | Nós rendermos
Tu renderes | Vós renderdes
Elle render | Elles renderem

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu tiver ou houver | rendido
Tu tiveres ou houveres | rendido
Elle tiver ou houver | rendido
Nós tivermos ou houvermos | rendido
Vós tiverdes ou houverdes | rendido
Elles tiverem ou houverem | rendido

Infinitivo

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. impess.)

tableau Render

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. pess.)

tableau Eu render | Nós rendermos
Tu renderes | Vós renderdes
Elle render | Elles renderem

3.° Tempo
(Pass. impess.)

tableau Ter ou haver rendido46

4.° Tempo
(Pass. pess.)

tableau Eu ter ou haver | rendido
Tu teres ou haveres | rendido
Elle ter ou haver | rendido
Nós termos ou havermos | rendido
Vós terdes ou haverdes | rendido
Elles terem ou haverem | rendido

5.° Tempo
(Gerundio simp.)

tableau Rendendo
eu, nós | tu, vós | elle, elles

6.° Tempo
(Gerundio comp.)

tableau Tendo ou havendo
eu, nós | tu, vós | elle, elles
rendido

Participios

Part. invariavel

tableau Rendido

Part. variavel

tableau Rendido, a, os, as.

Terceira conjugação
dos verbos elementares regulares
Paradigma dos verbos em ir
Punir

Indicativo

1.° tempo
(Presente)

tableau Eu puno | Nós punimos
Tu punes | Vós punis
Elle pune | Elles punem
47

2.° Tempo
(Pass. imperf.)

tableau Eu punia | Nós puníamos
Tu punias | Vós punieis
Elle punia | Elles punião

3.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu puní | Nós punímos
Tu puniste | Vós punistes
Elle puniu | Elles punirão

4.° Tempo
(Pass. perf. comp.)

tableau Eu tenho ou hei | punido
Tu tens ou has | punido
Elle tem ou ha | punido
Nós temos ou havemos | punido
Vós tendes ou haveis | punido
Elles têm ou hão | punido

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu punira | Nós puníramos
Tu puniras | Vós puníreis
Elle punira | Elles punirão

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. comp.)

tableau Eu tinha ou havia | punido
Tu tinhas ou havias | punido
Elle tinha ou havia | punido
Nós tinhamos ou haviamos | punido
Vós tinheis ou havieis | punido
Elles tinhão ou havião | punido

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu punirei | Nós puniremos
Tu punirás | Vós punireis
Elle punirá | Elles punirão
48

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu terei ou haverei | punido
Tu terás ou haverás | punido
Elle terá ou haverá | punido
Nós teremos ou haveremos | punido
Vós tereis ou havereis | punido
Elles terão ou haverão | punido

Condicional

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. prop.)

tableau Eu puniria | Nós puniriamos
Tu punirias | Vós punirieis
Elle puniria | Elles punirião

2.° Tempo
(Pass. Prop.)

tableau Eu teria ou haveria | punido
Tu terias ou haverias | punido
Elle teria ou haveria | punido
Nós teriamos ou haveriamos | punido
Vós terieis ou haverieis | punido
Elles terião ou haverião | punido

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu puníra | Nós puníramos
Tu puníras | Vós puníreis
Elle puníra | Elles punírão

4.° Tempo
(Pass. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | punido
Tu tiveras ou houveras | punido
Elle tivera ou houvera | punido
Nós tiveramos ou houveramos | punido
Vós tivereis ou houvereis | punido
Elles tiverão ou houverão | punido

Imperativo

Tempo unico
(Futuro)

tableau Pune (tu) | Puní (vós)49

Subjunctivo

1.° Tempo
(Pres.-fut.)

tableau Eu puna | Nós punamos
Tu punas | Vós punais
Elle puna | Elles punão

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut.)

tableau Eu punisse | Nós puníssemos
Tu punisses | Vós punisseis
Elle punisse | Elles punissem

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau Eu puníra | Nós puníramos
Tu puníras | Vós puníreis
Elle puníra | Elles punírão

4.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau Eu tenha ou haja | punido
Tu tenhas ou hajas | punido
Elle tenha ou haja | punido
Nós tenhamos ou hajamos | punido
Vós tenhais ou hajais | punido
Elles tenhão ou hajão | punido

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau Eu tivesse ou houvesse | punido
Tu tivesses ou houvesses | punido
Elle tivesse ou houvesse | punido
Nós tivessemos ou houvessemos | punido
Vós tivesseis ou houvesseis | punido
Elles tivessem ou houvessem | punido

6.° Tempo
(Pass. m. q. perf. suppl.)

tableau Eu tivera ou houvera | punido
Tu tiveras ou houveras | punido
Elle tivera ou houvera | punido
Nós tiveramos ou houveramos | punido
Vós tivereis ou houvereis | punido
Elles tiverão ou houverão | punido
50

7.° Tempo
(Futuro)

tableau Eu punir | Nós punirmos
Tu punires | Vós punirdes
Elle punir | Elles punirem

8.° Tempo
(Fut. comp.)

tableau Eu tiver ou houver | punido
Tu tiveres ou houveres | punido
Elle tiver ou houver | punido
Nós tivermos ou houvermos | punido
Vós tiverdes ou houverdes | punido
Elles tiverem ou houverem | punido

Infinitivo

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. impess.)

tableau Punir

2.° Tempo
tableau Eu punir | Nós punirmos
Tu punires | Vós punirdes
Elle punir | Elles punirem

3.° Tempo
(Pass. impess.)

tableau Ter ou haver punido

4.° Tempo
(Pass. pess.)

tableau Eu ter ou haver | punido
Tu teres ou haveres | punido
Elle ter ou haver | punido
Nós termos ou havermos | punido
Vós terdes ou haverdes | punido
Elles terem ou haverem | punido
51

5.° Tempo
(Gerundio simp.)

tableau Punido
eu, nós | tu, vós | elle, elles

6.° Tempo
(Gerundio comp.)

tableau Tendo ou havendo
eu, nós | tu, vós | elle, elles
punido

Participios

Part. invariavel

tableau Punido

Part. variavel

tableau Punido, a, os, as.

Tabella synoptica
Das inflexões normaes das tres conjugações nos
tempos simples
Terminação primordial
ar | er | ir

Indicativo

1.° Tempo
(Presente)

tableau o | o | o
as | es | es
a | e | e
amos | emos | imos
ais | eis | ís
ão | em | em
52

2.° Tempo
(Pass. imperf.)

tableau ava | ia | ia
avas | ias | ias
ava | ia | ia
avamos | iamos | iamos
aveis | ieis | ieis
avão | ião | ião

3.° Tempo
(Pass. perf.)

tableau oi | í | í
aste | este | iste
ou | eu | iu
ámos | êmos | ímos
astes | estes | istes
árão | êrão | írão

5.° Tempo
(Pass. m. q. perf.)

tableau ára | êra | íra
áras | êras | iras
ára | êra | íra
áramos | eramos | íramos
áreis | éreis | íreis
árão | êrão | írão

7.° Tempo
(Futuro)

tableau arei | erei | irei
aras | erás | irás
ará | erá | irá
aremos | eremos | iremos
areis | ereis | ireis
arão | erão | irão

Condicional

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. prop.)

tableau aria | eria | iria
arias | erias | irias
aria | eria | iria
ariamos | eriamos | iriamos
arieis | erieis | irieis
arião | erião | irião
53

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau ára | êra | íra
áras | êras | íras
ára | êra | íra
áramos | êramos | íramos
áreis | êreis | íreis
árão | êrão | írão

Imperativo

Tempo unico
(Futuro)

tableau a | e | e
ai | ei | í

Subjunctivo

1.° Tempo
(Pres.-fut.)

tableau e | a | a
es | as | as
e | a | a
emos | amos | amos
eis | ais | ais
em | ão | ão

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut.)

tableau asse | esse | isse
asses | esses | isses
asse | esse | isse
assemos | essemos | issemos
asseis | esseis | isseis
assem | essem | issem

3.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. suppl.)

tableau ára | êra | íra áras | êras | íras ára | êra | íra áramos | êramos | íramos
árcis | êreis | íreis
árão | êrão | írão
54

7.° Tempo
(Futuro)

tableau ar | er | ir
aros | eres | ires
ar | er | ir
armos | ermos | irmos
ardes | erdes | irdes
arem | erem | irom

Infinitivo

1.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. impess.)

tableau ar | er | ir

2.° Tempo
(Pres.-pass.-fut. pess.)

tableau ar | er | ir
aros | eres | ires
ar | er | ir
armos | ermos | irmos
ardes | erdes | irdes
arem | erem | irem

5.° Tempo
(Gerundio simp.)

tableau ando | endo | indo

Participios

Part. invariavel

tableau ado | ido | ido

Part. variavel

tableau ado, a, os, as. | ido, a, os, as. | ido, a, os, as.

Dos tempos primitivos, e dos tempos
derivados

90. Se todos os verbos fossem regulares, nenhuma
opportunidade haveria em discriminar-lhos os tempos em
primitivos o derivados ; porquanto, ao contrario do que succede
55em outras muitas linguas, da forma primordial de cada
conjugação deduzem-se em portuguez, com bastante facilidade,
todas as mais inflexões : haja vista a tabella synoptica
do todos os tempos simples.

Porém os verbos irregulares perturbão este harmonico
desenvolvimento de modificações, já porque nelles altera-se
a terminação, já porque nelles altera-se o radical, já porque
nelles, emfim, altera-se conjunctamente o radical e a terminação :
assim em Eu houve, do haver, que regularmente
faria Eu havi (Eu rendi), e em que, portanto, se manifesta
alteração, tanto no radical, como na terminação.

Todavia essas mesmas anomalias, que fazem dos verbos
irregulares o que são, não deixão de originar, pela sua vez,
uma regularidade relativa, por meio da filiação constante
do certos tempos a outros tempos. Assim é que, do mesmo
houve se deduzem por filiação, com toda a propriedade,
os tempos houvera, houvesse e houver, como de estive
se deduzem estivera, estivesse, estiver, etc.

Portanto a distincção dos tempos em primitivos e derivados
é um mero artificio de methodo para systemar formas
anormaes, porém artificio util, porque fornece o meio de resolver
logicamente mais de uma dissidencia entre os grammaticos.
Assim é que, por exemplo, sem sahir dos casos
de derivação já alludidos, não se comprehende como os irregulares
poder e por appareção, na mór parte das grammaticas,
sob as formas poderá, podesse, poder, e pozera,
pozesse, pozer
, quando procedendo de pude e puz, pela lei
que se verifica em todos os outros irregulares, têm forçosamente
a sua expressão correcta em pudera, pudesse
,
puder e puzera, puzesse, puzer. Haja vista, além dos
quatro auxiliares, os irregulares caber, dizer, fazer, querer,
,
trazer, ver, etc., de que mais adiante se trata, e em que
a mesma lei se verifica.

91. Salvas algumas excepções isoladas, os verbos mais
irregulares não ostentão mais de quatro formas differentes
de radical, das quaes deduzem-se todas as derivações, quer
normaes, quer anormaes : quatro são, portanto, os tempos
primitivos, a sabor :

A. O 1.° tempo do infinitivo (tempo primordial),

B. O 1.° tempo do indicativo,

C. O 3.° tempo do indicativo,

D. O participio invariavel.

92. Do 1.° Tempo do infinitivo derivão-se os cinco
seguintes :56

1.° — O 2.° tempo do infinitivo. Ex. Eu ter. — Eu
haver. — Eu ser. — Eu estar. — Eu pôr
. Etc.

2.° — O 5.° tempo do infinitivo (gerundio simples). Ex
tendo. — havendo. — sendo. — estando. — pondo. Etc.

3.° — O 2.° tempo do indicativo. Ex. Estava. — havia.
Etc. As exçepções são : punha (de pór), — era (de ser), —
tinha (de ter), — e vinha (de vir).

4.° — O 7.° Tempo do indicativo. Ex. terei. — haverei.
— serei. — estarei. — porei
. Etc. As excepções
são : direi (de dizer), — - farei (de fazer), e trarei (do
trazer).

5.° — O 1.° tempo do condicional. Ex. teria. — haveria.
— seria, — estaria. — poria
. Etc. As excepções
são : diria (de .dizer, — faria (de fazer) — e traria (de
trazer).

93. Da primeira pessoa do singular do 1.° Tempo do
indicativo
deriva-se :

1.° — O primeiro tempo do subjunctivo. Ex. Tenho,
tenha (de ter). caibo, caiba (de caber). — Ponho, ponha
(de por). — sirvo, sirva (de servir). Etc. As excepções
são : hei, haja (de haver), — sou, seja (de ser), — estou,
esteja (de estar), — quero, queira (de querer), — sei, saiba
(de saber), — e vou, (de- ir).

E das segundas pessoas do mesmo 1.° tempo do indicativo,
derivão-se :

2.° — As mesmas pessoas - do imperativo, pela suppressão
do s final. Ex. haveis ; ha, havei (de haver).
Estás, estais ; esta, estai (de estar). — Pões, pondes ;
põe, ponde (de pôr). — Lês, lêdes ; lê, lêde (de ler). Etc.
As excepções são : tu tens, tem (tu), de ter ; — tu vens,
vem (tu), de vir;  ; — tu és, vós sois ; (tu), sêde (vós),
do ser.

94. Da primeira, ou mais exactamente ainda, da segunda
pessoa do 3.° Tempo do indicativo derivão-se, sem
excepção :

1.° — O 5.° tempo do indicativo. Ex. Eu tive, tu tiveste ;
eu tivera. — Eu houve, tu houveste ; eu houvera. —
Eu fui, tu foste ; eu fora. — Eu estive, tu estiveste ; eu estivera.
Eu puz, tu puzeste ; eu puzera. — Eu pude, tu
pudeste
 ; eu pudera. Etc.

2.° — O 3.° tempo do condicional, identico de formas
com o precedente.

3.° — O 3.° tempo do subjunctivo, igualmente identico
de formas com o anterior.57

4.° — O 2.° tempo do subjunctivo. Ex. Eu tive, tu tiveste ;
eu tivesse. — Eu houve, tu houveste ; eu houvesse. —
Eu fui, tu foste ; eu fosse. — Eu estive, tu estiveste ; eu estivesse.
Eu puz, tu puzeste ; eu puz esse. Etc.

5.° — O 7.° tempo do subjunctivo. Ex. Eu tive, tu tiveste ;
eu tiver. — Eu houve, tu houveste ; eu houver. —
Eu fui, tu foste ; eu for. — Eu estive, tu estiveste ; eu estiver.
Eu puz, tu puzeste ; eu puzer. Etc.

95. O participio invariavel, indissoluvelmente unido
a ter ou haver em todas as suas manifestações, constitue,
com um ou outro destes dous auxiliares, os tempos compostos
dos verbos elementares.

Observação. O participio variavel é geralmente identico
de forma com o invariavel. Todavia um e outro
apresentão algumas irregularidades, que vêm mencionadas
no capitulo : Do participio.

Do processo da substituição

96. Dentre as difficuldades que se podem originar da
applicação das tabellas conjugativas, aos exercicios analyticos,
nenhuma se ostenta mais saliente do que a determinação
dos tempos que o acaso fez perfeitamente identicos
do formas, embora, por pertencerem a modos differentes,
tenhão assim necessariamente um alcance diverso de sentido.
Depara-se, com effeito, que em todos os verbos, quer
regulares, quer irregulares, o 5.° tempo do indicativo, o 3.°
do condicional, e o 3.° do subjunctivo não apresentão discrepancia
alguma por onde possão ser discriminados. O
mesmo succede em todos os verbos regulares, e em grande
numero dos irregulares, com relação ao 7.° tempo do subjunctivo,
e ao 2.° do infinitivo ; pois ahi tambem produz-se
uma semelhança perfeita. Entretanto, na declaração de
uma forma verbal, é condição rigorosa, não só assignar-lhe
o competente modo, como ainda basear esta selecção em
um motivo terminante. O criterio que tão azada quão seguramente
satisfaz a esta necessidade, é o processo da
substituição.

97. Se se attende a que toda e qualquer palavra
preenche necessariamente uma funcção na enunciação do
pensamento (porquanto, a não ser assim, nenhum seria o
seu prestimo) ; se se attende, outrosim, que todas as mesmas
funcções, com excepção tão sómento da que compete á interjeição,
se reduzem ás de facto, do sujeito, do complemento,
58de predicado, de apposição e de ligação, forçoso é
admittir : 1.°, que duas palavras prestando-se, em identidade
de circumstancias, a collocar-se uma em logar da outra ;
ou, 2.°, a unir-se por uma das tres conjuncções copulativas
e, nem, ou, para constituir uma mesma funcção, devem
pertencer a uma mesma especie, e ter exactamente igual
alcance de significação.

Pois nisto cifra-se o processo da substituição.

A uma palavra de classificação duvidosa, veja-se que
outra de classificação determinada, se lhe ageita, quer por
substituição, quer por annexão ; e, se não se desavirem
neste acto de aferição, prova é que são da mesma especie,
ou que têm, em significação, um alcance identico.

Os seguintes exemplos applicados á duvida que suscitou
esta exposição, domonstrão plenamente uma das faces
desta these.

Os apostolos só receberão cinco pães ; se quizerão
comer os seus cinco pães, sahíra menos de meio pão a cada
um
. (P. Ant. Vieira).

Obvio é que os tres verbos : receberão, quizerão e sahíra
podem caber por suas formas, no 5.° tempo do indicativo,
no 3.° do condicional, ou no 3.° do subjunctivo ; porém, em
qual delles é que realmente cabem ? Uma simples substituição
do tempos, que deixa illeso o pensamento, o dá a
conhecer.

Os apostolos só tinhão recebido cinco pães ; se quizessem
comer os cinco jiães, sahiria menos de meio pão a
cada um
.

Evidencía-se assim que receberão pertence ao 5.° tempo
do indicativo, por ser supprivel pelo 6.° do mesmo modo ;
que quizerão pertence ao 3.° do subjunctivo, por ser supprivel
pelo 2.° do mesmo modo ; emfim que sahíra pertence
ao 3.° do condicional, por ser supprivel polo 1.° do mesmo
modo.

Para discriminar o 7.° tempo do subjunctivo, do 2.° do
infinitivo, modifica-se o expediente, porém sem violação do
principio ; e eis-ahi em que se baseia o processo.

É notavel que, em todos os verbos auxiliares, o 7.°
tempo do subjunctivo, ao contrario do que succede em
todos os regulares, discrepa formalmente do 2.° tempo do
infinitivo. Pois aproveita-se esta circumstancia para de
prompto chegar á determinação de um tempo destes : basta
converter o verbo duvidoso em verbo combinado, para ver
apparecer no auxiliar o tempo procurado.59

Exemplos :

Se considerarmos particularmente as cousas, qual haverá
que, sem letras divinas ou humanas, se possa fazer ?
(João do
Barros).

Se tivermos de considerar… (Não : se termos…). Portanto
está considerarmos no 7.° tempo do subjunctivo.

Para verificarmos isto, faremos uma parábola. (João
do Barros).

Para isto ser verificado… (Não : para isto for…). Portanto
está verificarmos no 2.° tempo do infinitivo.

Analoga é a duvida que póde occorrer em relação á
terceira pessoa do plural do 3.° tempo do indicativo, e á
mesma pessoa do 5.° tempo do mesmo modo, que, em todos
os verbos, são exactamente iguaes. Ahi basta mentalmente
transmudar o plural em singular, dando-se ao verbo um
sujeito adequado, para ver appareccr uma das duas formas
denotando, ou o 3.°, ou o 5.° tempo do indicativo.

Exemplo :

D. Luiz e D. Affonso se sahírão já de noite com tochas,
e, do meio da sala onde primeiro se
vírão, se despediu el rei.
de França
. (Duarte Nunes do Leão).

L. Affonso se sahiu… da sala onde se víra com o rei
Portanto está se sahírão no 3.° tempo do indicativo, e se
vírão no 5.° do mesmo modo.

98. Não é sem estranheza que se nota como o principio
da substituição, um dos mais valiosos promotores
hodiernos do progresso nas sciencias physicas, adapta-se
com o mesmo acerto e proficiência aos estudos philologicos,
verificando-se assim novamente a superioridade do methodo
experimental
sobre o dogmatico. Apenas empregado, nos
casos alludidos, a desfazer duvidas de importancia secundaria,
elle se torna dahi em diante um auxiliar indispensavel
em todas as questões intrincadas, não deixando
difficuldade alguma sem solução satisfactoria.

Dos verbos irregulares

99. As irregularidades nos verbos são de duas especies :
umas, apparentes ; outras, reaes.

Apparentemente irregulares são os verbos em que
só se dá uma troca de signaes graphicos, nenhuma, porém,
do pronuncia ; assim em fujo, do fugir ; e em careco, de
carecer.60

Realmente irregulares são os verbos em que, junto
a uma troca do signaes graphicos, dá-se tambem uma differença
de pronuncia ; assim em digo, por dizo, de dizer ;
o em perco, por perdo, de perder.

Obvio é que todas estas irregularidades só affectão os
tempos simples dos verbos ; porquanto as que podem interessar
aos tempos compostos, têm a sua exposição natural
no capitulo ; Do participio.

Dos verbos apparentemente irregulares

100. As irregularidades desta especie procedera todas
de quatro series de sonoridades, em que certas consoantes
não conservão, ante a e o, a mesma articulação como ante
e o i.

Destas sonoridades, duas são rudes, e duas, brandas.
Ahi vão ellas exaradas em uma tabella synoptica que
torna de mais facil apreciação o modo porque se effectua
a respectiva troca do signaes graphicos.

1.ª serie (sonoridade rude) | ca | que | qui | co
2.ª serie (sonoridade branda) | ça | ce | ci | ço
3.ª serie (sonoridade rude) | ga | gue | gui | go
4.ª serie (sonoridade branda) | ja | ge | gi | jo

101. A regra que d’ahi se deduz, é que, conforme se
apresenta rude ou branda a sonoridade terminativa de um
verbo no seu tempo primordial, branda ou rude deve ella
igualmente ficar em todo o decurso da conjugação. Sirvão
os seguintes verbos de outros tantos paradygmas em cada
uma das tres conjugações.

1.ª conjug. | 2.ª conjug. | 3.ª conjug.
car : Ficar. | cer : Torcer. | cir : Resarcir.
çar : Caçar. | guer : Erguer. | guir : Distinguir.
gar : Pagar. | ger : Reger. | gir : Fingir.

Applicação

Primeira conjugação

102. Nos verbos em car troca-se o c por qu todas as
vezes que a inflexão adduz-lhe em seguida e, caso este que
se verifica na primeira pessoa do singular do 3.° tempo do
indicativo, e em todas as pessoas do 1.° tempo do subjunctivo :61

Ex. Ficar. Eu fiquei. Eu fique, etc.

Nos verbos em çar troea-se o ç por c nos mesmos
casos.

Ex. Caçar. Eu cacei. Eu cace, etc.

Nos verbos em gar troca-se o g por gu nos mesmos
casos.

Ex. Pagar. Eu paguei. Eu pague, etc.

Segunda conjugação

103. Nos verbos em cer troca-se o e por ç todas as
vezes que a inflexão adduz-lhe em seguida a ou o, caso
este que se verifica na primeira pessoa do singular do
1.° tempo do indicativo, e em todas as pessoas do 1.° tempo
do subjunctivo.

Ex. Torcer. Eu torço. Eu torça, etc.

Nos verbos em guer troca-se gu por j nos mesmos
casos.

Ex. Erguer. Eu ergo. Eu erga, etc.

Nos verbos em ger troca-se o g por j nos mesmos
casos.

Ex. Reger. Eu rejo. Eu reja, etc.

Terceira conjugação

104. Nos verbos em cir troca-se o c por ç todas as
vezes que a inflexão adduz-lhe em seguida a ou o, caso
este que se verifica na primeira pessoa do singular do 1.°
tempo do indicativo, e em todas as pessoas do 1.° tempo
subjunctivo

Ex. Resarcir. Eu resarço. Eu resarça, etc.

Nos verbos em guir troca-se gu por g nos mesmos
casos.

Ex. Distinguir. Eu distingo. Eu distinga, etc.

Nos verbos em GIR troca-se o g por J nos mesmos
casos.

Ex. Fingir. Eu finjo. Eu finja, etc.

Observação. Dentre os verbos em guir, os em que
esta terminação consta de duas syllabas (gu-ir), são regulares ;
assim arguir e redarguir.62

Dos verbos realmente irregulares

105. As irregularidades reaes são, ou proprias de um
só e unico verbo, como em dar, caber, poder, querer, etc. ;
ou communs a dous ou mais verbos, como em pedir, pelo
qual se conjugão despedir, expedir, impedir, medir e remedir.
Neste ultimo caso, um dos mesmos verbos preenche, em
relação aos demais, o officio de paradigma.

Aliás ter-se-ha por assentado que os tempos omissos
nas seguintes tabellas, são de conjugação regular.

Irregulares da primeira conjugação

dar

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu dou | dei | déra
Tu dás | déste | déras
Elle dá | deu | déra
Nós damos | dêmos | dêramos
Vós dais | déstes | dêreis
Elles dão | dérão | dérão

Imperativo

tableau Dá (tu) | Dai (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu dê | désse | der
Tu dês | désses | deres
Elle dê | désse | der
Nós dêmos | dessemos | dermos
Vós deis | desseis | derdes
Elles dêm | dessem | derem
63

Cear

Indicativo | Imperativo | Subjunctivo

1.° Tempo | Tempo unico | 1.° Tempo

tableau Eu ceio | | Eu ceie
Ta ceias | Ceia (tu) | Tu ceies
Elle ceia | | Elle ceie
Nós ceamos | | Nós ceêmos
Vós ceais | Ceai (vós) | Vós ceeis
Elles ceião | | Elles ceiem

Assim se conjugão os verbos em ear, como pear, apear,
ladear, lisonjear, nomear
, etc.

Negociar

Indicativo | Imperativo | Subjunctivo

1.° Tempo | Tempo unico | 1.° Tempo

tableau Eu negoceio | | Eu negoceie
Tu negoceias | Negoceia (tu) | Tu negoceie
Elle negoceia | | Elle negoceie
Nós negociamos | | Nós negociemos
Vós negociais | Negociai (vós) | Vós negocieis
Elles negoceião | | Elles negoceiem

Assim se conjugão mediar, odiar, premiar e remediar,
talvez por ter-lhes sido antigamente dada a terminação
ear, ou simplesmente para prevenir uma possivel ambiguidade
com os substantivos odio, premio e remedio, e com o
adjectivo medio, media.

Porém os demais verbos em iar, como chiar, criar
fiar, piar, adiar, arripiar
, etc. conjugão-se regularmente.

Nota. Com os referidos verbos não se devem confundir
os que, procedentes do um substantivo em eio,
apresentão-se no seu tempo primordial com a terminação
eiar ; assim, de passeio, passeiar ; de receio, receiar, etc.
Estes são de conjugação regular.64

Irregulares da segunda conjugação

Caber

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu cáibo | coube | coubera
Tu cabes | coubeste | couberas
Elle cabe | coube | coubera
Nós cabemos | coubemos | couberamos
Vós cabeis | coubestes | coubereis
Elles cabem | couberão | couberão

Imperativo

(Falta)

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu cáiba | coubesse | couber
Tu cáibas | coubesses | couberes
Elle cáiba | coubesse | couber
Nós caibamos | coubessemos | coubermos
Vós caibais | coubesseis | couberdes
Elles cáibão | coubessem | couberem

Comprazer-se

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu me comprazo | comprouve | comprouvera
Tu te comprazes | comprouveste | comprouveras
Elle se compraz | comprouve | comprouvera
Nós nos comprazemos | comprouvemos | comprouveramos
Vós vos comprazeis | comprouvestes | comprouvereis
Elles se comprazem | comprouverão | comprouverão

Imperativo

(Falta)65

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu me compraza | comprouvesse | comprouver
Tu te comprazas | comprouvesses | comprouveres
Elle se compraza | comprouvesse | comprouver
Nós nos comprazamos | comprouvessemos | comprouvermos
Vós vos comprazeis | comprouvesseis | comprouverdes
Elles se comprazão | comprouvessem | comprouverem

Assim se conjugão prazer, aprazer e desprazer, porém
só na terceira pessoa do singular, por serem impessoaes.

Crer

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu creio | crí | crera
Tu crês | creste | creras
Elle crê | creu | crêra
Nós cremos | crêmos | crêramos
Vós credes | crestes | crêreis
Elles crêm | crêrão | crêrão

Imperativo

tableau Crê (tu) | Crêde (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu creia | cresse | crer
Tu creias | cresses | creres
Elle creia | cresse | crer
Nós creiamos | cressemos | crermos
Vós creiais | cresseis | crerdes
Elles creião | cressem | crerem

Assim se conjugão ler, reler e tresler.66

Dizer

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu digo | disse | dissera | direi
Tu dizes | disseste | disseras | dirás
Elle diz | disse | dissera | dirá
Nós dizemos | dissemos | dissêramos | diremos
Vós dizeis | dissestes | dissereis | direis
Elles dizem | disserão | disserão | dirão

Condicional

1.° Tempo

tableau Ea diria | Nós diriamos
Tu dirías | Vós dirieis
Elle diria | Elles dirião

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu diga | dissesse | disser
Tu digas | dissesses | disseres
Elle diga | dissesso | disser
Nós digamos | disséssemos | dissermos
Vós digais | dissésseis | disserdes
Elles digão | dissessem | disserem

Participios

tableau Invar. Dito. | Variav. Dito, a, os, as

Assim se conjugão bemdizer, condizer, contradizer, desdizer,
interdizer, maldizer o predizer
.

Fazer

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu faço | fiz | fizera | farei
Tu fazes | fizeste | fizeras | farás
Elle faz | fez | fizera | fará
Nós fazemos | fizemos | fizeramos | faremos
Vós fazeis | fizestes | fizereis | fareis
Elles fazem | fizerão | fizerão | farão
67

Condicional

1.° Tempo

tableau Eu faria| Nós fariamos
Tu farias | Vós farieis
Elle faria | Elles farião

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 3.° Tempo

tableau Eu faça | fizesse | fizer
Tu faças | fizesses | fizeres
Elle faça | fizesse | fizer
Nós façamos | fizessemos | fizermos
Vós façais | fizesseis | fizerdes
Elles fação | fizessem | fizerem

Participios

tableau Invar. Feito. | Variav. Feito, a, os, as.

Assim se conjugão afazer, contrafazer, desafazer, desfazer,
malfazer, perfazer, rarefazer, refazer e satisfazer
.

Jazer

indicativo

1.° Tempo

tableau Eu jazo | Nós jazemos
Tu jazes | Vós jazeis
Elle jaz | Elles jazem.

A forma antiquada jouve, do 3.° tempo do indicativo,
cahiu em desuso, a não ser no estylo poetico.

Perder

indicativo / subjunctivo

1.° Tempo / 1.° Tempo

tableau Eu perco | Nós perdemos / Eu perca | Nós percamos
Tu perdes | Nós perdeis / Tu percas | Vos percais
Elle perde | Elles perdem / Elle perca | Elles percão
68

Poder

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu posso | pude | pudera
Tu podes | pudeste | puderas
Elle póde | póde | pudera
Nós podemos | pudemos | puderamos
Vós podeis | pudestes | pudereis
Elles podem | puderão | puderão

Imperativo

(Falta)

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu possa | pudesse | puder
Tu possas | pudesses | puderes
Elle possa | pudesse | puder
Nós possamos | pudessemos | pudermos
Vós possais | pudesseis | puderdes
Elles possão | pudessem | puderem

Querer

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu quero | quiz | quizera
Tu queres | quizeste | quizeras
Elle quer | quiz | quizera
Nós queremos | quizemos | quizeramos
Vós quereis | quizestes | quizereis
Elles querem | quizerão | quizerão

Imperativo

(Falta)69

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu queira | quizesse | quizer
Tu queiras | quizesses | quizeres
Elle queira | quizesse | quizer
Nós queiramos | quizessemos | quizermos
Vós queirais | quizesseis | quizerdes
Elles queirão | quizessem | quizerem

Participios

tableau Invar. Querido. | Variav. Querido, a, os, as.

Este verbo conta mais um participio variavel : quisto,
a, os, as
, que não sóe ser empregado senão junto a um
dos dous adverbios bem ou mal. Ex. Quem a ninguem quer
bem, de todos é
mal quisto.

Requerer

indicativo / subjunctivo

1.° Tempo | 1.° Tempo

tableau Eu requeiro | Eu requeira
Tu requeres | Tu requeiras
Elle requer | Elle requeira
Nós requeremos | Nós requeiramos
Vós requereis | Vós requeirais
Elles requerem | Elles requeirão

Saber

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu sei | soube | soubera
Tu sabes | soubeste | souberas
Elle sabe | soube | soubera
Nós sabemos | soubemos | souberamos
Vós sabeis | soubestes | soubereis
Elles sabem | souberão | souberão
70

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu sáiba | soubesse | souber
Tu sáibas | soubesses | souberes
Elle sáiba | soubesse | souber
Nós saibamos | soubessemos | soubermos
Vós saibais | soubesseis | souberdes
Elles sáibão | soubessem | souberem

Trazer

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu trago | trouxe | | trouxera | trarei
Tu trazes | trouxeste | trouxeras | trarás
Elle traz | trouxe | trouxera | trará
Nós trazemos | trouxemos | trouxeramos | traremos
Vós trazeis | trouxestes | trouxereis | trareis
Elles trazem | trouxerão | trouxerão | trarão

Condicional

tableau Eu traria | Nós traríamos
Tu trarias | Vós trarieis
Elle traria | Elles trarião

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu traga | trouxesses | trouxer
Tu tragas | trouxesse | trouxeres
Elle traga | trouxesse | trouxer
Nós tragamos | trouxessemos | trouxermos
Vós tragais | trouxesseis | trouxerdes
Elles tragão | trouxessem | trouxerem
71

Valer

Indicativo / Imperativo / Subjunctivo

1.° Tempo

tableau Eu valho | (Falta) | Eu valha
Tu vales | Tu valhas
Elle valo | Elle valha
Nós valemos | Nós valhamos
Vós valeis | Vós valhais
Elles valem | Elles valhão

Ver

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu vejo | vi | vira
Tu vês | visto | viras
Elle vê | viu | vira
Nós vemos | vímos | víramos
Vós vêdes | vistes | víreis
Elles vêm | virão | virão

Imperativo

Tempo unico

tableau Vê (tu) | Vêde (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu veja | visse | vir
Tu vejas | visses | vires
Elle veja | visse | vir
Nós vejamos | víssemos | virmos
Vós vejais | visseis | virdes
Elles vejão | vissem | virem

Participios

tableau Invar. Visto. | Variav. Visto, a, os, as.

Assim se conjugão antever, entrever, prever, prover
rever
, com a reserva, todavia, que, em prover, ambos
participios são regulares ; — provido, a, os, as.72

Irregulares da terceira conjugação

Cobrir

indicativo / subjunctivo

1.° Tempo

tableau Eu cubro | Nós cobrimos / Eu cubra | Nós cubramos
Tu cobres | Vós cobris / Tu cubras | Vós cubrais
Elle cobre | Elles cobrem / Elle cubra | Elles cubrão

Assim se conjugão descobrir, encobrir o dormir.

Frigir

indicativo

1.° Tempo

tableau Eu frijo | Nós frigimos
Tu freges | Vós frigis
Elle frege | Elles fregem

Imperativo

tableau Frege (tu) | Frigí (vós)

Ir

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu vou | fui | fôra
Tu vais | foste | fôras
Elle vai | foi | fora
Nós vamos | fomos | foramos
Vós ides | fostes | foreis
Elles vão | forão | forão

Imperativo

tableau Vai (tu) | Ide (vós)73

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu vá | fosse | fôr
Tu vás | fosses | fôres
Elle vá | fosse | for
Nós vámos | fossem | formos
Vós vades | fosseis | fordes
Elles vão | fossem | fôrem

Observação. — Para de prompto discriminar, nos exercicios
analyticos, os tempos de ir, que, por identidade de
formas, podem vir a ser confundidos com alguns de ser,
basta, soccorrendo-se ao processo da substituição, trocá-los
por outros em que os dous verbos tenhão formas divergentes.
Ex. Em Hespanha, os Romanos não forão conquistar
os homens, senão as minas ; porque as minas
forão o motivo
da guerra
. (P. Ant. Vieira). — Em Hespanha, os Romanos
não
tinhão ido conquistar os homens, senão as minas; porque
as minas
tinhão sido o motivo da guerra. — Portanto o primeiro
forão é de ir, e o segundo de ser.

Luzir

indicativo

1.° Tempo

tableau Eu luzo | Nós luzimos
Tu luzes | Vós luzís
Elle luz | Elles luzem

Assim se conjugão todos os verbos em uzir :

tableau adduzir | eduzir, | produzir, | reluzir,
conduzir, | induzir, | reconduzir, | reproduzir,
deduzir, | introduzir, | reduzir, | seduzir,
traduzir, | transluzir
.74

Ouvir

Indicativo / Subjunctivo

1.° Tempo / 1.° Tempo

tableau Eu ouço | Nós ouvimos / Eu ouça | Nós ouçamos
Tu ouves | Vós ouvis / Tu ouças | Vós ouçais
Elle ouve | Elles ouvem / Elle ouça | Elles oução

Pedir

Indicativo / Subjunctivo

1.° Tempo / 1.° Tempo

tableau Eu peço | Nós pedimos / Eu peça | Nós peçamos
Tu pedes | Vós pedis / Tu peças | Vós peçais
Elle pede | Elles pedem / Elle peça | Elles peção

Assim se conjugão despedir, expedir, impedir, medir,
remedir e descomedir-se
.

Prevenir

Indicativo / Imperativo / Subjunctivo

1.° Tempo | Tempo unico | 1.° Tempo

tableau Eu previno | Eu previna
Tu prevines | Previne (tu) | Tu provinas
Elle previne | Elle previna
Nós prevenimos | Nós previnamos
Vós prevenis | Prevení (vós) | Vós previnais
Elles previnem | Elles previnão

Assim se conjugão denegrir e redemir.75

Rir

Indicativo / Imperativo / Subjunctivo

1.° Tempo | Tempo unico | 1.° Tempo

tableau Eu rio | Eu ria
Tu rís | Rí (tu) | Tu rias
Elle rí | Elle ria
Nós rimos | Nós riámos
Vós rides | Ride (vós) | Vós riais
Elles riem | Elles rião

Assim se conjuga sorrir-se.

Sahir

Indicativo / Subjunctivo

1.° Tempo / 1.° Tempo

tableau Eu saio | Nós sahimos / Eu sáia | Nós saiamos
Tu sahes | Vós sahís / Tu sáias | Vós saiais
Elle sahe | Elles sahem / Elle sáia | Elles sáião

Assim se conjugão :

tableau abstrahir, | decahir, | embahir, | retrotrahir,
attrahir, | descahir, | extrahir, | sobresahir,
cahir, | detrahir, | recahir, | subtrahir,
contrahir, | distrahir, | retrahir, | trahir.

Servir

Indicativo / Subjunctivo

1.° Tempo / 1.° Tempo

tableau Eu sirvo | Nós servimos / Eu sirva | Nós sirvamos
Tu serves | Vós servis / Tu sirvas | Vós sirvais
Elle serve | Elles servem / Elle sirva | Elles sirvão

Assim se conjugão :

tableau advertir, | desferir, | impellir, | proseguir,
aferir, | desinvestir, | indeferir, | referir,
76

tableau adredir, | desmentir, | inferir, | reflectir,
assentir, | despir, | inserir, | repellir,
auferir, | desservir, | investir, | repetir,
compellir, | differir, | mentir, | revestir,
competir, | digerir, | perseguir, | seguir,
conferir, | dissentir, | preferir, | sentir,
conseguir, | divertir, | presentir, | subseguir-se,
consentir, | expellir, | proferir, | transferir,
deferir, | derir, | progredir, | vestir.

Sortir

Indicativo | Imperativo | Subjunctivo

1.° Tempo | Tempo unico | 1.° Tempo

tableau Eu surto | Eu surta
Tu surtes | Surte (tu) | Tu surtas
Elle surte | Elle surta
Nós sortimos | Nós surtamos
Vós sortís | Sortí (vós) | Vós surtais
Elles surtem | Elles surtão

Assim se conjugão cortir, embotir, ordir e sordir.

Subir

indicativo

1.° Tempo

tableau Eu subo | Nós subimos
Tu sobes | Vós subis
Elle sobe | Elles sobem

Assim se conjugão acudir, bulir, construir, cuspir, desentupir,
destruir, engulir, entupir, fugir, sacudir, tussir e
sumir
, com excepção, todavia, de assumir, consumir e resumir,
que são regulares.77

Vir

indicativo

1.° Tempo | 3.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Eu venho | vim | viera
Tu vens | vieste | vieras
Elle vem | veiu | viera
Nós vimos | viemos | vieramos
Vós vindes | viestes | viereis
Elles vêm | vierão | vierão

Imperativo

Tempo unico

tableau Vem (tu) | Vinde (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu venha | viesse | vier
Tu venhas | viesses | vieres
Elle venha | viesse | vier
Nós venhamos | viessemos | viermos
Vós venhais | viesseis | vierdes
Elles venhão | viessem | vierem

Participios

tableau Invar. Vindo. | Variav. Vindo, a, os, as.

Assim se cónjugão avir, contravir, convir, desavir, desconvir,
intervir, provir, reconvir e sobrevir
.

Pôr

Observação. A terminação excepcional deste verbo
fá-lo-hia, com bastante propriedade, o paradigma de uma
quarta conjugação, e com esto predicamento inscrevêmo-lo
na primeira edição desta obra. Porém, considerando que,
além de se desenvolver em modificações pouco harmônicas,
só serve de norma a verbos que delle procedem, preferimos
apresentá-lo como irregular avulso.78

Indicativo

1.° Tempo / 2.° Tempo

tableau Eu ponho | Nós pomos / Eu punha | Nós punhamos
Tu pões | Vós pondes / Tu punhas | Vós punhois
Elle põe | Elles põem / Elle punha | Elles punhno

3.° Tempo / 5.° Tempo

tableau Eu puz | Nós puzemos / Eu puzera | Nós puzeramos
Tu puzeste | Vós puzestes / Tu puzeras | Vós puzereis
Elle pôz | Elles puzerão / Elle puzera | Elles puzerão

7.° Tempo

tableau Eu porei | Nós poremos
Tu porás | Vós poreis
Elle porá | Elles porão

Condicional

1.° Tempo

tableau Eu poria | Nós poríamos
Tu porias | Vós porieis
Elle poria | Elles porião

Imperativo

Tempo unico

tableau Põe (tu) | Ponde (vós)

Subjunctivo

1.° Tempo | 2.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Eu ponha | puzesse | puzer
Tu ponhas | puzesses | puzeres
Elle ponha | puzesse | puzer
Nós ponhamos | puzessemos | puzermos
Vós ponhais | puzesseis | puzerdes
Elles ponhão | puzessem | puzerem

Infinitivo

1.° Tempo

tableau Pôr79

2.° Tempo

tableau Eu pôr | Nós pormos
Tu pôres | Vós pordes
Elle pôr | Elles pôrem

5.° Tempo

tableau Pondo

Participios

tableau Invar. Posto. | Variav. Posto, a, os, as.

Assim se conjugão :

tableau appôr, | decompôr, | indispôr, | recompôr
antepôr, | descompôr, | interpôr, | repôr,
compôr, | dispôr, | oppôr, | superpôr,
contrapôr, | expôr, | pospôr, | suppôr,
depôr, | impôr, | propôr, | transpôr
.

Verbos defectivos

106. Além dos verbos cuja significação obsta a que
recebão todo o seu desenvolvimento conjugativo, como
caber, poder, querer, valer, etc., aos quaes falta o imperativo
por ser contrario á razão mandar a alguem que cáiba,
possa, queira, valha
, etc., são defectivos os seguintes :

1.° Na segunda conjugação, feder e precaver, porque não
se sóe dar-lhes as inflexões adduzindo immediatamente após
o radical as vogaes a ou o :

2.° Na terceira conjugação, os infrascriptos, porque
tambem não se sóe dar-lhes as inflexões que não adduzem
immediatamente após o radical a vogal i :

tableau abolir, | carpir, | exhaurir, | munir,
adherir, | colorir, | exinanir, | polir,
banir, | demolir, | inherir, | remir,
brandir, | discernir, | latir, | submergir
.

Observação. Para supprir as formas que a estes defectivos
fallecem, costuma-se usar de synonymos ou de circumloquios.

synonymos são os vocabulos do mesmo sentido. Assim
80é que, sendo vedado dizer : Eu bano, nada obsta a que se
diga por substituição : Eu desterro.

Circumloquios são complexos de palavras equivalendo
a uma só. Assim é que, sendo vedado dizer : O navio se
submerge
, diz-se com toda a propriedade : O navio vai a
pique
.

Da conjugação dos verbos pronominaes

O systema conjugativo dos verbos pronominaes abrange
duas ordens parallelas de modificações : a primeira normal ;
a segunda, anormal. Na pratica, indifferente é usar, quer
de uma, quer de outra : escolhe-se a que com mais propriedade
acóde aos requisitos do estylo ; em sentido, porém,
não ha divergencia.

Normal é a conjugação em que ambos os pronomes
pessoaes vão antepostos aos verbos. Ex. Eu me queixo.

Anormal é a conjugação em que, por omissão do pronome
sujeito, o pronome complemento passa para depois
do verbo. Ex. Queixo-me. Chama-se anormal porque, em
quatro dos seus tempos : o 7.° e o 8.° do indicativo, e o 1.°
e o 2.° do condicional, dá-se o caso da tmesis, uma das figuras
de dicção, por interpolação dos pronomes complementos
dentro da terminação. Ex. Queixar-me-hei, — ter-me-hei
queixado. — Queixar-me-hia, — ter-me-hia queixado
. —
Dá-se nelle ainda outra anomalia, a da apócope, igualmente
uma das figuras do dicção, por suppressão da consoante
final s na primeira pessoa do plural. Ex. Queixamo-nos.

Entretanto, não sendo possivel apresentar, como conviría,
ambas estas ordens de conjugação em parallelismo,
por causa do nimio estiramento das formas, ani vão ellas
em duas tabellas separadas.

Queixar-se

Ordem normal

1.° Tempo

tableau Eu me queixo | Nós nos queixamos
Tu te queixas | Vós vos queixais
Elle se queixa | Elles se queixão
81

2.° Tempo

tableau Eu me queixava | Nós nos queixavamos
Tu te queixavas | Vós vos queixaveis
Elle se queixava | Elles se queixavão

3.° Tempo

tableau Eu me queixára | Nós nos queixámos
Tu te queixáras | Vós vos queixastes
Elle se queixára | Elles se queixárão

4.° Tempo

tableau Eu me tenho | ou hei
Tu te tens | ou has
Elle se tem | ou ha
Nós nos temos | ou havemos
Vós vos tendes | ou haveis
Elles se têm | ou hão
queixado

5.° Tempo

tableau Eu me queixára | Nos nos queixáramos
Tu te queixáras | Vós vos queixáreis
Elle se queixára | Elles se queixárão

6.° Tempo

tableau Eu me tinha | ou havia
Tu te tinhas | ou havias
Elle se tinha | ou havia
Nós nos tinhamos | ou haviamos
Vós vos tinheis | ou havieis
Elles se tinhão | ou havião
queixado

7.° Tempo

tableau Eu me queixarei | Nós nos queixaremos
Tu te queixarás | Vós vos queixareis
Elle se queixará | Elles se queixarão

8.° Tempo

tableau Eu me terei | ou haverei
Tu te terás | ou haverás
Elle se terá | ou haverá
Nós nos teremos | ou haveremos
Vós vos tereis | ou havereis
Elles se terão | ou haverão
queixado
82

Condicional

1.° Tempo

tableau Eu me queixaria | Nós nos queixaríamos
Tu te queixarias | Vós vos queixarieis
Elle se queixaria | Elles se queixarião

2.° Tempo

tableau Eu me teria | ou haveria
Tu te terias | ou haverias
Elle se teria | ou haveria
Nós nos teriamos | ou haveriamos
Vós vos terieis | ou haverieis
Elles se terião | ou haverião
queixado

3.° Tempo

tableau Eu me queixára | Nós nos queixáramos
Tu te queixáras | Vós vos queixáreis
Elle se queixara | Elles se queixárão

4.° Tempo

tableau Eu me tivera | ou houvera
Tu te tiveras | ou houveras
Elle se tivera | ou houvera
Nós nos tiveramos | ou houveramos
Vós vos tivereis | ou houvereis
Elles se tiverão | ou houverão
queixado

Imperativo

Tempo unico

tableau Queixa-te (tu que…) | Queixai-vos (vós que…)

Subjunctivo

1.° Tempo

tableau Eu me queixasse | Nós nos queixemos
Tu te queixasses | Vós vos queixeis
Elle se queixasse | Elles se queixem

2.° Tempo

tableau Eu me queixasse | Nós nos queixássemos
Tu te queixasses | Vós vos queixásseis
Elle se queixasse | Elles se queixassem
83

3.° Tempo

tableau Eu me queixára | Nós nos queixáramos
Tu te queixáras | Vós vos queixáreis
Elle se queixára | Elles se queixárão

4.° Tempo

tableau Eu me tenha | ou haja
Tu te tenhas | ou hajas
Elle se tenha | ou haja
Nós nos tenhamos | ou hajamos
Vós vos tenhais | ou hajais
Elles se tenhão | ou hajão
queixado

5.° Tempo

tableau Eu me tivesse | ou houvesse
Tu te tivesses | ou houvesses
Elle se tivesse | ou houvesse
Nós nos tivessemos | ou houvessemos
Vós vos tivesseis | ou houvesseis
Elles se tivessem | ou houvessem
queixado

6.° Tempo

tableau Eu me tivera | ou houvera
Tu te tiveras | ou houveras
Elle se tivera | ou houvera
Nós nos tiveramos | ou houveramos
Vós vos tivereis | ou houvereis
Elles se tiverão | ou houverão
queixado

7.° Tempo

tableau Eu me queixar | Nós nos queixarmos
Tu te queixares | Vós vos queixardes
Elle se queixar | Elles se queixarem

8.° Tempo

tableau Eu me tiver | ou houver
Tu te tiveres | ou houveres
Elle se tiver | ou houver
Nós nos tivermos | ou houvermos
Vós vos tiverdes | ou houverdes
Elles se tiverem | ou houverem
queixado
84

Infinitivo

1.° Tempo

tableau Queixar-
me, nos | te, vos | (se, se)

2.° Tempo

tableau Eu me queixar | Nós nos queixarmos
Tu te queixares | Vós vos queixardes
Elle se queixar | Elles se queixarem

3.° Tempo

tableau Ter - ou Haver-
me, nos | te, vos | se, se
queixado

4.° Tempo

tableau Eu me ter | ou haver
Tu te teres | ou haveres
Elle se ter | ou haver
Nós nos termos | ou havermos
Vós vos terdes | ou haverdes
Elles se terem ou haverem
queixado

5.° Tempo

tableau Queixando-
me, nos | te, vos | se, se

6.° Tempo

tableau Tendo- ou Havendo-
me, nos | te, vos | se, se
queixado

Participios

tableau Invar. Queixado. | Variav. (Falta).

Ordem anormal

Indicativo

1.° Tempo | 2.° Tempo

tableau Queixo-me | Queixamo-nos
Queixas-te | Queixais-vos
Queixa-se | Queixão-se
85

2.° Tempo

tableau Queixava-me | Queixavamo-nos
Queixavas-te | Queixaveis-vos
Queixava-se | Queixavão-se

3.° Tempo

tableau Queixei-me | Queixámo-nos
Queixaste-te | Queixastes-vos
Queixou-se | Queixárão-se

4.° Tempo

tableau Tenho | ou hei-me
Tens | ou has-te
Tem | ou ha-se
Temos | ou havemo-nos
Tendes | ou haveis-vos
Têm | ou havião-se
queixado

5.° Tempo

tableau Queixára-me | Queixáramo-nos
Queixára-te | Queixáreis-vos
Queixára-se | Queixárão-se

6.° Tempo

tableau Tinha | ou havia-me
Tinhas | ou havias-te
Tinha | ou havia-se
Tinhamos | ou haviamo-nos
Tinheis | ou havieis-vos
Tinhão | ou havião-se
queixado

7.° Tempo

tableau Queixar-me-hei | Queixar-nos-hemos
Queixar-te-has | Queixar-vos-heis
Queixar-se-ha | Queixar-se-hão

8.° Tempo

tableau Ter | ou haver-me-hei
Ter | ou haver-te-has
Ter | ou haver-se-ha
Ter | ou haver-nos-hemos
Ter | ou haver-vos-heis
Ter | ou haver-se-hão
queixado
86

Condicional

1.° Tempo

tableau Queixar-me-hia | Queixar-nos-hiamos
Queixar-te-hias | Queixar-vos-heis
Queixar-se-hia | Queixar-se-hão

2.° Tempo

tableau Ter | ou haver-me-hia
Ter | ou haver-te-hias
Ter | ou haver-se-hia
Ter | ou haver-nos-hiamos
Ter | ou haver-vos-hieis
Ter | ou haver-se-hião
queixado

3.° Tempo

tableau Queixára-me | Queixáramo-nos
Queixáras-te | Queixáraveis-vos
Queixára-se | Queixárão-se

4.° Tempo

tableau Tivera | ou | houvera-me
Tiveras | ou | houveras-te
Tivera | ou | houvera-se
Tiveramos | ou | houvoramo-nos
Tivereis | ou | houvereis-vos
Tiverão | ou | houverão-se
queixado

Imperativo

Tempo unico

tableau Queixa-te | Queixai-vos

Subjunctivo

1.° Tempo

tableau Queixe-me | Queixemo-nos
Queixes-te | Queixeis-vos
Queixe-se | Queixem-se

2.° Tempo

tableau Queixasse-me | Queixassemo-nos
Queixasses-te | Queixasseis-vos
Queixasse-se | Queixassem-se
87

3.° Tempo

tableau Queixára-me | Queixáramo-nos
Queixáras-te | Queixareis-vos
Queixára-se | Queixárão-se

4.° Tempo

tableau Tenha | ou haja-me
Tenhas | ou hajas-te
Tenha | ou haja-se
Tenhamos | ou hajamo-nos
Tenhais | ou hajais-vos
Tenhão | ou hajão-se
queixado

5.° Tempo

tableau Tivesse | ou houvesse
Tivesses | ou houvesses
Tivesse | ou houvesse
Tivéssemos | ou houvessemos
Tivesseis | ou houvesseis
Tivessem | ou houvessem
queixado

6.° Tempo

tableau Tivera | ou houvera-me
Tiveras | ou houveras-te
Tivera | ou houvera-me
Tiveramos | ou houvoramo-nos
Tivereis | ou houvereis-vos
Tiverão | ou houvorão-se
queixado

7.° Tempo

tableau Queixar-me | Queixarmo-nos
Queixares-te | Queixardes-vos
Queixar-se | Queixarem-se

8.° Tempo

tableau Tiver | ou houver-me
Tiveres | ou houveres-te
Tiver | ou houver-se
Tivermos | ou houvermo-nos
Tiverdes | ou houverdes-vos
Tiverem | ou houvorem-se
queixado

Infinitivo

1.° Tempo

tableau Queixar-
me, nos | te, vos | se, se
88

2.° Tempo

tableau Queixar-me | Queixarmo-nos
Queixares-te | Queixardes-vos
Queixar-se | Queixarem-se

3.° Tempo

tableau Ter- ou Haver-
me, nos | te, vos | se, se
queixado

4.° Tempo

tableau Ter-me | ou haver-me
Teres-te | ou haveres-te
Ter-se | ou haver-se
Termo-nos | ou havermo-nos
Terdes-vos | ou haverdes-vos
Terem-se | ou haverem-se

5.° Tempo

tableau Queixando
me, nos | te, vos, | se, se

6.° Tempo

tableau Tendo- ou Havendo-
me, nos | te, vos | se, se
queixado

Participios

tableau Invar. -Queixado | Variav. (Falta).

Por estas duas tabellas conjugão-se todos os verbos
quer essencial, quer accidentalmente pronominaes, resguardadas
as formas peculiares do cada conjugação, tanto regular,
como irregular.

E’ de notar, outrosim, que o emprego da tmesis não
lhes cabe exclusivamente, mas é commum a todos os verbos
logo que se intenta transferir, de diante para depois de um
d’elles, um pronome pessoal qualquer, fazendo funcção do
complemento sem proposição expressa. Ex. Dir-te-hei. — Ternos-ha
visto. — Mandar-lhe-hiamos. — Ter-me-hião approvado. —
Confessar-vo-lo-hemos
.89

Paradigma do verbo impessoal

Ventar

Indicativo

1.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Venta | Ventára

2.° Tempo | 6.° Tempo

tableau Ventava | Tinha ou havia ventado

3.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Ventou | Ventará

4.° Tempo | 8.° Tempo

tableau Tem ou ha ventado | Terá ou haverá ventado

Condicional

1.° Tempo | 3.° Tempo

tableau Ventaria | Ventára

2.° Tempo | 4.° Tempo

tableau Teria ou haveria ventado | Tivera ou houvera ventado

Imperativo

tableau (Falta)

Subjunctivo

1.° Tempo | 5.° Tempo

tableau Vento | Tivesse ou houvesse ventado

2.° Tempo | 6.° Tempo

tableau Ventasse | Tivera ou houvera ventado

3.° Tempo | 7.° Tempo

tableau Ventára | Ventar

4.° Tempo | 8.° Tempo

tableau Tenha ou haja ventado | Tiver ou houver ventado90

Infinitivo

1.° Tempo | 4.° Tempo

tableau Ventar | (Falta)

2.° Tempo | 5.° Tempo

tableau (Falta) | Ventando

3.° Tempo | 6.° Tempo

tableau Ter ou haver ventado | Tendo ou havendo ventado

Participio

tableau Invar. Ventado

Dos verbos combinados

108. Entre as tres especies do verbos combinados (os
passivos, os prepositivos e os gerundiaes
), os primeiros sómente
é que merecêrão aos grammaticos uma menção especial,
porque delles tambem tratão as grammaticas latinas, e as
francezas. Porém, dos propositivos e dos gerundiaes, que,
por enunciarem tão expedita quão ingenuamente o que,
em outros idiomas, só se consegue formular mediante circumloquios
mais ou menos entesados, constituem uma das
bellezas da lingua portugueza, apenas aventárão-se algumas
das suas formas, para serem cunhadas á viva força dentro
dos verbos elementares, e produzirem assim uma confusão
summamente prejudicial aos estudos philologicos.

Pois, quando se considera que o systema conjugativo,
quer de uns, quer do outros, se desenvolve, em modos,
tempos, numeros e pessoas, por um teor de frisante analogia
com o dos verbos elementares, repugna desconhecer-lhes
o predicamento de verbos independentes, só porque a
indole que lhes é propria, desconcerta preconceitos mal cabidos.
Assim é que, por exemplo, parece inadmissivel a
alguns que, nos verbos prepositivos da primeira categoria,
a forma « Sei de sahir » constitua o 1.° tempo do indicativo,
quando a sua feição, por ser de futuro, de modo algum
condiz com a feição de presente que caracterisa o mesmo
tempo nos verbos elementares : « Sáio ». Porém quem attender
ao muito que ha de relativo nas denominações dos
tempos, como aliás demonstrar-se-ha na parte syntaxica,
não prestará a semelhante observação senão o valor que
merece ; pois o mesmo « Sáio », posto que capitulado por
todos os grammaticos de presente, não deixa de em mais
91de um caso alludir com toda a propriodade ao futuro :
« saio amanhãa para fora da cidade. »

Em relação aos prepositivos o aos gerundios, outros allegão,
como motivo de repulsa, a omissão dos tempos em
que o auxiliar teria de apparecer composto.

Porém torna-se até intuitivo que. tal suppressão tem a
sua causa, monos n’uma impropriedade original dos mesmos
verbos, no que no estiramento demasiado das formas om
que o auxiliar sahiria composto, formas essas, outrosim,
sempre suppriveis pelas em que o auxiliar apresenta-se

Outros emfim notão, com o mesmo intento, a falta de
um modo ; o imperativo, não só nos mesmos prepositivos,
como ainda nos gerundiaes. Mas esta deficiência, por proceder
igualmente da indole dos mesmos verbos, em que o
facto não póde ser mandado, constitue um simples accidente
de significação, como em caber, poder, querer, ete., aos quaes,
por igual motivo, fallece tambem o mesmo modo.

Os verbos combinados justificão assim de sua entidade
pela conjugação, e do seu appellido pela indissolubilidade
de sentido que caracterisa suas formas sempre compostas.

Conjugação dos verbos passivos

109. A conjugação dos verbos passivos consta meramente
da conjugação integral de um dos auxiliares ser ou
estar
junto a um participio variavel, o qual concorda
constantemente em genero e numero com o sujeito.

Porém o emprego de um ou de outro destes dous auxiliares
não ó facultativo como o é o de ter e haver, o
sim adstricto a dous modos distinctos de intuição. ser
apresenta o facto como perenne ; estar o apresenta como
transitorio. Assim é que um homem de idade é alquebrado
pelos annos ; ao passo que um homem, depois de vehementes
esforços, esta alquebrado de cansaço.

110. Segue-se d’ahi que, se muitos verbos passivos
podem, em virtude de uma significação ampla, conjugar-se,
já com ser, já com estar, a outros fica negada esta faculdade
por uma significação que se restringe unicamente a
ser, ou unicamente a estar, sendo, aliás, a selecção geralmente
determinada pelo uso, antes do que por qualquer
indagação mais intrinseca.

Na seguinte tabella, a conjugação do paradigma fica
limitada, por amor da brevidade, ao concurso de ser, podendo-se-lhe
substituir estar sem outra alteração.92

Ser amado

Indicativo

1.° Tempo

tableau Eu sou
Tu es
Elle (a) é | amado ou amada
Nós somos
Vós sois | amados ou amadas
Elles (as) são

2.° Tempo

tableau Eu era
Tu eras | amado ou amada
Elle (a) era
Nós eramos
Vós ereis | amados ou amadas
Elles (as) erão

3.° Tempo

tableau Eu fui
Tu foste | amado ou amada
Elle (a) foi
Nós fomos
Vós fostes | amados ou amadas
Elles (as) forão

4.° Tempo

tableau Eu tenho | ou hei sido
Tu tens | ou has sido | amado ou amada
Elle (a) tem | ou ha sido
Nós temos ou havemos sido
Vós tendes | ou haveis sido
amados ou amadas
Elles (as) têm | ou hão sido

5.° Tempo

tableau Eu fôra
Tu foras | amado ou amada
Elle (a) fora
Nós foramos
Vós foreis | amados ou amadas
Elles (as) forão
93

6.° Tempo

tableau Eu tinha | ou havia sido
Tu tinhas | ou havias sido | amado ou amada
Elle (s) tinha | ou havia sido
Nós tinhamos | ou haviamos sido
Vós tinheis | ou havieis sido | amados ou amadas
Elles (as) tinhão | ou havião sido

7.° Tempo

tableau Eu serei
Tu serás | amado ou amada
Elle (a) será
Nós seremos
Vós sereis | amados ou amadas
Elles (as) serão

8.° Tempo

tableau Eu terei | ou haverei sido
Tu terás | ou haverás sido | amado ou amada
Elle (a) terá | ou haverá sido
Nós teremos | ou haveremos sido
Vós tereis | ou havereis sido | amados ou amadas
Elles (as) terão | ou haverão sido

Condicional

1.° Tempo

tableau Eu seria
Tu serias | amado ou amada
Elle (a) seria
Nós seriamos
Vós serieis | amados ou amadas
Elles (as) serião

2.° Tempo

tableau Eu teria | ou haveria sido
Tu terias | ou haverias sido | amado ou amada
Elle (a) teria | ou haveria sido
Nós teriamos | ou haveriamos sido
Vós terieis | ou haverieis sido | amados ou amadas
Elles (as) terião | ou haverião sido
94

3.° Tempo

tableau Eu fôra
Tu fôras | amado ou amada
Elle (a) fôra
Nós foramos
Vós foreis | amados ou amadas
Elles (as) fôrão

4.° Tempo

tableau Eu tivera | ou houvera sido
Tu tiveras | ou houveras sido | amado ou amada
Elle (a) tivera | ou houvera sido
Nós tiveramos | ou houveramos sido
Vós tivereis | ou houvereis sido | amados ou amadas
Elles (as) tiverão | ou houverão sido

Imperativo

Tempo unico

tableau Sê (tu) amado ou amada
Sêde (vós) amados ou amadas

Subjunctivo

1.° Tempo

tableau Eu seja
Tu sejas | amado ou amada
Elle (a) seja
Nós sejamos
Vós sejais | amados ou amadas
Elles (as)

2.° Tempo

tableau Eu fosse
Tu fosses | amado ou amada
Elle (a) fosse
Nós fossemos
Vós fosseis | amados ou amadas
Elles (as) fossem
95

3.° Tempo

tableau Eu fôra
Tu fôras | amado ou amada
Elle (a) fôra
Nós foramos
Vós foreis | amados ou amadas
Elles (as) forão

4.° Tempo

tableau Eu tenha | ou haja sido
Tu tenhas | ou hajas sido | amado ou amada
Elle (a) tenha | ou haja sido
Nós tenhamos | ou hajamos sido
Vós tenhais | ou hajais sido | amados ou amadas
Elles (as) tenhão | ou hajão sido

5.° Tempo

tableau Eu tivesse | ou houvesse sido
Tu tivesses | ou houvesses sido | amado ou amada
Elle (a) tivesse | ou houvesse sido
Nós tivessemos | ou houvessemos sido
Vós tivesseis | ou houvesseis sido | amados ou amadas
Elles (as) tivessem | ou houvessem sido

6.° Tempo

tableau Eu tivera | ou houvera sido
Tu tiveras | ou houveras sido | amado ou amada
Elle (a) tivera | ou houvera sido
Nós tiveramos | ou houveramos sido
Vós tivereis | ou houvereis sido | amados ou amadas
Elles (as) tiverão | ou houverão sido

7.° Tempo

tableau Eu fôr
Tu fôres | amado ou amada
Elle (a) fôr)
Nós formos
Vós fordes | amados ou amadas
Elles (as) forem
96

8.° Tempo

tableau Eu tiver | ou houver sido
Tu tiveres | ou houveres sido | amado ou amada
Elle (a) tiver | ou houver sido
Nós tivermos | ou houvermos sido
Vós tiverdes | ou houverdes sido | amados ou amadas
Elles (as) tiverem | ou houverem sido

Infinitivo

1.° Tempo

tableau Ser amado, a, os, as

2.° Tempo

tableau Eu ser
Tu seres | amado ou amada
Elle (a) ser
Nós sermos
Vós serdes | amados ou amadas
Elles (as) serem

3.° Tempo

tableau Ter sido amado, a, os, as

4.° Tempo

tableau Eu ter | ou haver sido
Tu teres | ou haveres sido | amado ou amada
Elle (a) ter | ou haver sido
Nós termos | ou havermos sido
Vós terdes | ou haverdes sido | amados ou amadas
Elles (as) terem | ou haverem sido

5.° Tempo

tableau Sendo | eu
tu | amado ou amada
elle (a)
nós
vós | amados ou amadas
elles (as)
97

6.° Tempo

tableau Tendo ou havendo | eu
tu | sido amado ou amada
elle (s)
nós
vós | sido amados ou amadas
elles (as)

Conjugações dos verbos prepositivos

111. Assim como já veiu declarado, os verbos desta
classe se dividem em duas categorias. Da primeira são
todos os verbos que, permanecendo no seu tempo primordial,
associão-se á conjugação do ter ou haver mediante
a preposição de. Da segunda são todos os verbos que,
permanecendo tambem no mesmo tempo primordial, associão-se
á conjugação de estar mediante a preposição para. Da
assistencia destas duas preposições veiu-lhes o appellido de
prepositivos.

Justifica-se a conveniencia desta classificação nova em
grammatica, pela mui valiosa consideração que, sem embargo
da sua complexidade em palavras, os referidos verbos denuncião
unidade de sentido, mostrando-se absolutamente
refractarios a toda e qualquer decomposição analytica. Pois,
em « Tenho ou hei de ir », como em « Estou para sahir »,
quer ter ou haver, de um lado ; quer estar, de outro lado,
perderão a significação que lhes é propria quando soltos,
para apenas assumir o valor accessorio de feição, assim
que lhes acontece todas as vezes que passão a ser meros
auxiliares (Tenho ou hei amado. — Estou cansado.) Ora, se,
tanto naquelle como neste caso, o seu officio é de auxiliares,
por concorrerem á formação de tempos compostos ; e se se
desenvolvem, de outra parte, junto ao infinitivo colligido,
em um systema completo do conjugação, nada obsta a que
os prepositivos se encostem aos passivos na fileira dos
verbos combinados ; pois a uns o outros assistem os mesmos
predicamontos geraes.

Mas, por isso mesmo que ella é fundada em principio,
tal classificação torna-se summamente proveitosa na pratica,
já porque elimina na analyse difficuldades insolúveis,
já porque fundamenta em syntaxe regras importantes.98

Paradigma
dos prepositivos da primeira categoria

Ter ou Haver de Ir

Indicativo

1.° Tempo

tableau Eu tenho | ou hei
Tu tens | ou has
Elle tem | ou ha | de ir
Nós temos | ou havemos
Vós tendes | ou haveis
Elles têm | ou hão

2.° Tempo

tableau Eu tinha | ou havia
Tu tinhas | ou havias
Elle tinha | ou havia | de ir
Nós tinhamos | ou haviamos
Vós tinheis | ou havieis
Elles tinhão | ou havião

3.° Tempo

tableau Eu tive | ou houve
Tu tiveste | ou houveste
Elle teve | ou houve | de ir
Nós tivemos | ou houvemos
Vós tivestes | ou houvestes
Elles tiverão | ou houverão

5.° Tempo

tableau Eu tivera | ou houvera
Tu tiveras | ou houveras
Elle tivera | ou houvera | de ir
Nós tiveramos | ou houveramos
Vós tivereis | ou houvereis
Elles tiverão | ou houverão

7.° Tempo

tableau Eu terei | ou haverei
Tu terás | ou haverás
Elle terá | ou haverá | de ir
Nós teremos | ou haveremos
Vós tereis | ou havereis
Elles terão | ou haverão
99

Condicional

1.° Tempo

tableau Eu teria | ou haveria
Tu terias | ou haverias
Elle teria | ou haveria | de ir
Nós teriamos | ou haveriamos
Vós terieis | ou haverieis
Elles terião | ou haverião

3.° Tempo

tableau Eu tivera | ou houvera
Tu tiveras | ou houveras
Elle tivera | ou houvera | de ir
Nós tiveramos | ou houveramos
Vós ti vereis | ou houvereis
Elles tiverão | ou houverão

Imperativo

tableau (Falta).

Subjunctivo

1.° Tempo

tableau Eu tenha | ou haja
Tu tenhas | ou hajas
Elle tenha | ou haja | de ir
Nós tenhamos | ou hajamos
Vós tenhais | ou hajais
Elles tenhão | ou hajão

2.° Tempo

tableau Eu tivesse | ou houvesse
Tu tivesses | ou houvesses
Elle tivesse | ou houvesse | de ir
Nós tivessemos | ou houvessemos
Vós tivesseis | ou houvesseis
Elles tivessem | ou houvessem

3.° Tempo

tableau Eu tivera | ou houvera
Tu tiveras | ou houveras
Elle tivera | ou houvera | de ir
Nós tiveramos | ou houveramos
Vós tivereis | ou houvereis
Elles tiverão ou houverão
100

7.° Tempo

tableau Eu tiver | ou houver
Tu tiveres | ou houveres
Elle tiver | ou houver | de ir
Nós tivermos | ou houvermos
Vós tiverdes | ou houverdes
Elles tiverem | ou houverem

Infinitivo

1.° Tempo

tableau Ter ou haver do ir

2.° Tempo

tableau Eu ter | ou haver
Tu teres | ou haveres
Elle ter | ou haver | de ir
Nós termos | ou havermos
Vós terdes | ou haverdes
Elles terem | ou haverem

5.° Tempo

tableau Tendo ou havendo
eu, nós | tu, vós | de ir | elle, elles

Paradigma
dos prepositivos da segunda categoria

Estas para Sahir

Indicativo

1.° Tempo

tableau Eu estou | Nós estamos
Tu estás | para sahir | Vós estais | para sahir
Elle esta | Elles estão

2.° Tempo

tableau Eu estava | Nós estavamos
Tu estavas | para sahir | Vós estaveis | para sahir
Elle estava | Elles estavão
101

3.° Tempo

tableau Eu estive | Nós estivemos
Tu estiveste | para sahir | Vós estivestes | para sahir
Elle esteve | Elles estiverão

5.° Tempo

tableau Eu estivera | Nós estiveramos
Tu estiveras | para sahir | Vós éstivereis | para sahir
Elle estivera | Elles estiverão

7.° Tempo

tableau Eu estarei | Nós estaremos
Tu estarás | para sahir | Vós estareis | para sahir
Elle estará | Elles estarão

Condicional

1.° Tempo

tableau Eu estaria | Nós estaríamos
Tu estarias | para sahir | Vós estarieis | para sahir
Elle estaria | Elles estarião

3.° Tempo

tableau Eu estivera | Nós estiveramos
Tu estiveras | para sahir | Vós estivereis | para sahir
Elle estivera | Elles estiverão

Imperativo

tableau (Falta)

Subjunctivo

1.° Tempo

tableau Eu esteja | Nós estejamos
Tu estejas | para sahir | Vós estejais | para sahir
Elle esteja | Elles estejão

2.° Tempo

tableau Eu estivesse | Nós estivessemos |
Tu estivesses | para sahir | Vós estivesseis | para sahir
Elle estivesse | Elles estivessem
102

3.° Tempo

tableau Eu estivera | Nós estiveramos
Tu estiveras | para sahir | Vós estivereis | para sahir
Elle estivera | Elles estiverão

7.° Tempo

tableau Eu estiver | Nós estivermos
Tu estiveres | para sahir | Vós estiverdes | para sahir
Elle estiver | Elles estiverem

Infinitivo

1.° Tempo

tableau Estar para sahir

2.° Tempo

tableau Eu estar | Nós estarmos
Tu estares | para sahir | Vós estardes | para sahir
Elle estar | Elles estarem

5.° Tempo

tableau Estando | eu, nós
tu, vós
elle, elles | para sahir

Observações. O que, de ambas as tabellas dos prepositivos,
ressumbra como mais digno de reparo, é que, seja
qual fôr o infinitivo entrando na combinação, em caso
algum póde elle abandonar a forma impessoal para assumir
a pessoal. Entretanto, por uma falsa apreciação das relações
syntaxicas, não é raro encontrar, nos escriptores
modernos, flagrantes violações desta regra, porém quasi
exclusivamente relativas aos infinitivos de verbos pronominaes
ou passivos, o mais habitualmente ao emprego da
primeira pessoa do plural.

Portanto, para firmar esta doutrina em um assento
que se preste ulteriormente á dissertação, ahi vão exemplos
ao prepositivos constituidos por verbos pronominaes e
verbos passivos.

1.ª Categoria

tableau Eu tenho | ou hei de me
Tu tens | ou has de te
Elle tem | ou ha de se
Nós temos | ou havemos de nos
Vós tendes | ou haveis de vos
Elles têm | ou hão de se | queixar
103

tableau Eu tonho ou hei | nomeado ou nomeada
Tu tens ou has | de Ser
Elle (a) tem ou ha
Nós temos ou havemos | nomeados ou nomeadas
Vós tendes ou haveis | de Ser
Elles (as) têm ou hão

2.° Categoria

tableau Eu estou | para me
Tu estás | para te
Elle está | para se | Queixar
Nós estamos | para nos
Vós estais | para vos
Elles (as) estão para se

tableau Eu estou
Tu estás | para Ser | nomeado ou nomeada
Elle (a) está
Nós estamos
Vós estais | para Ser | nomeados ou nomeadas
Elles (as) estão

Quanto aos propositivos, em cuja constituição entrão
verbos impessoaes, torna-se obvio que, com elles, não podem
os auxiliares formar liga, senão sob a condição de abdicarem
tambem toda e qualquer personalidade.

1.ª Categoria

tem ou ha de chover ou de ter chovido.

2.ª Categoria

Está para chover.

Conjugação dos verbos gerundiaes

Paradigma :
Estar tratando

Indicativo

1.° Tempo

tableau Eu estou | Nós estamos
Tu estás | tratando | Vós estais | tratando
Elle está | Elles estão
104

2.° Tempo

tableau Eu estava | Nós estavamos
Tu estavas | tratando | Vós estaveis | tratando
Elle estava | Elles estavão

3.° Tempo

tableau Eu estive | Nós estivemos
Tu estiveste | tratando | Vós estivestes | tratando
Elle esteve | Elles estiverão

5.° Tempo

tableau Eu estivera | Nós estiveramos
Tu estiveras | tratando | Vós estivereis | tratando
Elle estivera | Elles estiverão

7.° Tempo

tableau Eu estarei | Nós estaremos
Tu estarás | tratando | Vós estareis | tratando
Elle estará | Elles estarão

Condicional

1.° Tempo

tableau Eu estaria | Nós estaríamos
Tu estarias | tratando | Vós estarieis | tratando
Elle estaria | Elles estarião

3.° Tempo

tableau Eu estivera | Nós estiveramos
Tu estiveras | tratando | Vós estivereis | tratando
Elle estivera | Elles estiverão

Imperativo

tableau (Falta)

Subjunctivo

1.° Tempo

tableau Eu esteja | Nós estejamos
Tu estejas | tratando | Vós estejais | tratando
Elle esteja | Elles estejão
105

2.° Tempo

tableau Eu estivesse | Nós estivessemos
Tu estivesses | tratando | Vós estivesseis | tratando
Elle estivesse | Elles estivessem

3.° Tempo

tableau Eu estivera | Nós estiveramos
Tu estiveras | tratando | Vós estivereis | tratando
Elle estivera | Elles estiverão

7.° Tempo

tableau Eu estiver | Nós estivermos
Tu estiveres | tratando | Vós estiverdes | tratando
Elle estiver | Elles estiverem

Infinitivo

1.° Tempo

tableau Estar tratando

2.° Tempo

tableau Eu estar | Nós estarmos
Tu estares | tratando | Vós estardes | tratando
Elle estar | Elles estarem

5.° Tempo

tableau Estando | eu, nós
tu, vós
elle, elles | tratando

Capitulo II
Do substantivo

112. Substantivo ou nome é uma palavra variavel que
designa os entes e as abstracções.

Ente é tudo o que tem uma existencia real, quer fora
da natureza, como Deos, anjo, alma, demonio, etc., quer
dentro da natureza, como homem, fera, céo, tena, rochedo,
planta, ar, agua
, etc.106

Abstracção é uma mera concepção de nossa intelligencia,
sem existencia real, quer dentro, quer fora da natureza,
como vicio, virtude, sofrimento, alegria, comprimento,
qualidade, numero, quantidade
, etc.

Os entes da natureza occupão um espaço ; as abstracções,
nenhum. Os mesmos entes são accessiveis aos sentidos
pola extensão, pelo peso, pela côr, pelo sabor ou pelo cheiro ;
as abstracções não o são.

113. Os substantivos são proprios ou communs. São
proprios quando designão um ente segregadamente dos da
mesma especie. São communs quando designão um ente
promiscuamente com os da mesma especie, ou quando designão
um ente que não constitue especie, ou emfim quando
designão uma abstracção.

Sendo proprios, inicião-se com uma letra maiuscula ;
sendo communs, com uma minuscula, a não ser que encetem
uma oração, caso em que toda e qualquer primeira
letra deve ser uma maiuscula.

114. São assim substantivos proprios :

1.° O nome do Deos, por ser o do Ente Supremo, o bem
assim todas as denominações que o substituem, como o
Senhorio Omnipotente, o Eterno, a Providencia, etc. ;

2.° Os nomes individuaes de entes sobrenaturaes, como
Gabriel, Raphael, — Lucifer, Belzebuth ; — de divindades ou
sores fabulosos, como Júpiter, Juno, — o Cerbero, a Chimera ;

3.° Os nomes individuaes de homens, com os prenomes
o cognomes que por ventura se lhes accrescentem, como
Adão, Eva, Christovão Colombo, Scipião o Africano ;

4.° Os appellidos individuaes do animaes, como Bucephalo
(cavallo de Alexandre Magno), Apis (boi adorado
pelos Egypcios) ;

5.° As denominações peculiares de monumentos o artefactos,
como o Colyséo (amphitheatro de Roma), a Alhambra
(palacio mourisco om Granada), o Bucentauro (navio do
gala em Veneza), a Durindana (espada legendária de Orlando),
a náo Bartholomeo Dias, a corveta Bahiana ;

6.° As denominações peculiares de localidades geographicas,
como a Europa, o Brazil, Portugal, os Alpes, os
Andes, o Tejo, o Amazonas, o Recôncavo, Pindamonhangaba
 ;

7.° As denominações peculiares de constellações, como
o Cruzeiro, a Virgem, o Sagitario, a Loba ;

8.° Os nomes dos mezes o dos dias festivos, embora
107sejão abstractos, como Janeiro, Fevereiro, — o Natal, a
Paschoa
.

115. São, pelo contrario, substantivos communs :

1.° Os nomes de entes múltiplos de sua especie, como
o anjo, a alma, o homem, a mulher, o animal, a planta, o palacio,
a choupana, o reino, a republica, o rio, a montanha
 ;

2.° Os nomes de entes ou substancias unicas de sua
especie, como o universo, a luz, o céo, a terra, o sol, a lua,
o ar, a agua, o ouro, a prata, o calorico, a electricidade
 ;

3.° Os nomes de abstracções, como a fé, a esperança, a
caridade, a prudencia, a justiça, a fortaleza, a temperança
, —
a não ser, todavia, que, vindo a ser personificadas, passem
para a classe dos substantivos proprios, caso em que assumem
a maiuscula ; assim no seguinte exemplo : « Vião-se
naquelle quadro, sob as figuras de tres santas mulheres, a Fé,
a Esperança e a Caridade
 ; ou — (Variamente pintarão os antigos
o a que élles chamarão
fortuna. — P. Ant. Vieira).

4.° Os nomes proprios empregados por antonomasia,
isto ó, como appellidos comparativos, caso em que conservão,
todavia, a maiuscula originaria. Ex. E’ necessario
que haja
saues liberaes para que haja Davids animosos. (P.
Ant. Vieira). — Vejo dous prelados santos e religiosos, convertidos
hoje em
Platões e Tullios, formando republicas gentilicas.
(Fr. Luiz de Souza).

116. Considerados na sua forma, os substantivos, quer
proprios, quer communs, são simples ou compostos.

São simples quando constão de uma só palavra, assim
em Cesar, Marcos, Maria, — Roma, Constantinopla, Lisboa,
— rei, guarda, arco, pimenta, lapis, turba, prima
.

São compostos quando constão de mais de uma palavra,
assim em Cesar Augusto, Marco Aurélio, Maria Theresa, —
Ouro Preto, Rio de Janeiro, S. Salvador da Bahia de Todos
os Santos, — vice-rei, guarda-mór, arco-iris, hortelãa-pimenta,
lapis-lazuli, turba-multa, prima-co-irmãa
.

117. Dentre os substantivos simples, não poucos ha
que, mediante accrescimos determinados pelo uso, prestão-se
a significar, nos entes designados, proporções, já maiores,
já menores do que as ordinarias : os primeiros cbamão-se
augmentativos ; os segundos, diminutivos. Assim é que,
do homem, mulher, moço, moça, procedem os augmentativos
homemzarrão, mulherona, mocetão, mocetona ; e os diminutivos
homemzinho, mulherzinlia, mocinho, mocinha. Ex. Aman era aquelle
grande valido e primeiro
ministraço de el rei Assuero. (P.
108Ant. Vieira). Os mesmos substantivos proprios não se
negão a semelhantes alterações. Ex. Foi o mestre de campo
Francisco Rebello facilmente igual aos famosos capitães do seu
tempo em valor e em prudencia. Chamavão-lhe, como por antonomasia
,
o Rebellinho, por ser de menos avultada estatura.
(Fr. Franc. de S. Maria).

118. Duas propriedades, porém, a todos os substantivos
inherentes são as de genero e de numero ; pois que
nenhum ha cuja enunciação deixe de juntamente avocar
uma feição de masculino ou de feminino, e outra de singular
ou de plural.

119. Em alguns, todavia, dá-se certa complexidade do
numero bastante notavel pela diversidade de relações syntaxicas
que della dimanão ; porquanto, mesmo sob a manifestação
do singular, implicão uma pluralidade de entes ou
do concepções de igual natureza. Dá-se-lhes a denominação
de collectivos. Desta especie são por exemplo : multidão,
infinidade, tropa, rebanho, enxame, selva
, etc. — Uma multidão
de pensamentos. — Uma infinidade de supposições. — Uma
tropa de cavalleiros. — Um rebanho de carneiros. — Um enxame
de invejosos. — Uma selva de lanças
.

Do genero nos substantivos

120. Embora o substantivo não appareça necessariamente
precedido de um artigo em todas as suas manifestações,
basta, para determinar-lhe praticamente a especie,
que se lhe possa antepor um artigo. Em tal caso será
masculino quando admittir o, os ou um, uns, e feminino
quando admittir a, as ou uma, umas. Ex. O João, o pai,
os Andes, os annaes, um Alexandre, um filho, uns andurriaes
 ;
a Maria, a mãi, as Antilhas, as trevas, uma Cleopatra,
uma filha, umas preces
.

121. Nos substantivos do entes animados cuja distincção
sexual importava á propriedade da linguagem, o
genero ficou determinado pelo sentido, vindo assim a ser
masculinos os nomes de machos, e femininos os de femeas.
Ex. O pai, a mãi ; — o avô, a avó;  ; —- rei, a rainha;  ; — o
leão, a leôa; -
 ; — o cavallo, a egua; -  ; — o carneiro, a ovelha.

122. Desapparecendo, porém, a opportunidade da distincção
sexual, caso que se dá com a maior parte dos
animaes, um unico substantivo, já masculino, já feminino,
abrangeu o macho e a femea de cada especie, e então o
109genero ficou fixado pela terminação. Ex. O elephante, a
girafa; -
 ; — o condor, a aguia; -  ; — o tubarão, a balêa; -  ; — o gafanhoto,
a formiga
.

A estes e semelhantes substantivos costuma-se dar o
distinctivo do epicenos, porque, no caso do tornar-se necessaria
a designação sexual, carece accrescer-lhes um ou
outro dos vocabulos macho, macha, — ou femea (sendo repudiado
o masculino femeo). Ex. Um elephante macho, uma
girafa macha; -
 ; — um condor femea, uma aguia femea.

Observação. Tendo os naturalistas ampliado a distincção
sexual mesmo aos vegetaes, muitos nomes de
plantas vierão assim a ser tambem epicenos. Ex. O cânhamo
macho
ou femea; -  ; — a mangueira macha ou femea.

123. Aos substantivos de entes inanimados ou de abstracções,
o genero veiu-lhes communicado pela terminação
ou pela etymologia.

Etymologia é a declaração da procodencia ou da
constituição complexa do uma palavra.

Pela etymologia é que, por exemplo, estabélece-se a
origem latina dos vocabulos Deos, sol, terra, agua, porquanto
são em latim Deus, sol, terra, aqua. Do mesmo modo
demonstra-se a origem e constituição da palavra etymologia,
porquanto prócede dos dous vocabulos hellenicos
etymos (verdadeira), logos (palavra).

Sendo assim um processo de indagação essencialmente
applicavel a cada palavra em particular, a etymologia não
é do dominio da Grammatica, sciencia de generalisação :
pertence exclusivamento á lexicographia, que é a arte de
compôr os diccionarios. Ahi é que a etymologia deve ser
consultada, quer para perscrutar a significação mais genuína
das expressões, quer para verificar a propriedade
das letras e signaes com que se devão escrever. Quanto
aos dados que ella fornece em referencia ao caso vertente,
reduzem-se ás duas seguintes observações :

1.° Quando um substantivo não tira o seu genero do
sentido ou da terminação, tira-o da etymologia. Sendo
assim, por exemplo, os substantivos chá e pó masculinos
em virtude de sua terminação, como logo se verá, e
, que com elles têm toda a analogia, achão-se femininos
pela unica razão do provirem do duas palavras que em
latim tinhão este genero : pala, mola ;

2.° Faltando ao portugucz o genero neutro do grego o
do latim, o masculino é que foi geralmente incumbido de
supprí-lo nas palavras d’alli extrahidas. Por isso são maculinos,
110por exemplo, os substantivos néctar e dogma, que,
tanto em latim como em grego, erão neutros.

O que, portanto, destas considerações ressumbra como
summario, é que o genero dos substantivos fica regularmente
fixado pelo sentido ou pela terminação, e irregularmente
pela etymologia.

124. As terminações que, por avultarem em quantidade
nos substantivos, podem ser tidas como as normaes, são o
e a. Todos os substantivos da primeira são masculinos ;
assim : corpo. a maxima parte dos da segunda são femininos
assim : alma. Os exemplos desta ultima classe são
os que em latim ou em grego erão masculinos ou neutros ;
assim : anagramma, anáthema, cometa, dia, diaphragma, dilemma,
diorama, dogma, drama, gramma, lemma, mappa,
panorama, planeta, programma, sophisma, systhema, thema,
theorema
, e mais analogos.

125. São outrosim masculinos em virtude de sua terminação
os substantivos que acabão :

1.° Em á, é, í, ó, ú, y, como cará, rapé, siri, cipó, bahú
tilbury
, com excepção de pá, — chaminé, fé, libré, maré, ralé,
ré, sé, — avó, enxó, filhó, ilhó, mó
 ;

2.° Em ai, áo, éo, eu, oi, como ai, páo, chapéo, breu,
comboi
 ;

3.° Em al, el, il, ol, ul, como fanal, papel, funil, lençol,
paul
, com excepção de cal, capital (cidade principal) e
vestal ;

4.° Em em, im, om, um, como bem, fim, som, jejum, com
excepção de adem, nuvem, ordem e da maior parte dos
substantivos em gem (coragem, homenagem, imagem, linguagem,
linhagem, origem, viagem
, etc.)j

5.° Em an, en, in, on, como iman, germen, gruin, colon ;

6.° Em ar, er, ir, or, ur, como altar, prazer, porvir, calor,
catur
, com excepção de colher, — côr, dôr, flôr ;

7.° Em az, ez, iz, oz, uz, como ananaz, arnez, nariz,
arroz, arcabuz
, com excepção do paz, — fez, rez, tez, vez, —
cerviz, cicatriz, codorniz, matriz, perdiz, raiz, sobrepelliz
, — foz,
noz, voz, — cruz, luz
 ;

8.° Em is, us, como lápis, virus, com excepção do bilis,
cutis e oásis
.

9.° Em ão quando augmentativos, como caixão (de
caixa), casarão (de casa), portão (de porta), etc. Quanto
aos outros substantivos em ao, são masculinos ou femininos
111conforme a etymologia ; assim o coração (do lat. cor, neutro),
a multidão (do lat. multitudo, feminino).

Os substantivos que acabão em e, são igualmente masculinos
ou femininos conforme a etymologia ; assim o carcere
(do lat. carcer, masculino), a virtude (do lat. virtus,
feminino).

126. São outrosim femininos em virtude de sua terminação
os substantivos que acabão :

Em ãa, áu, ê, ei, como lãa, náu, mercê, lei.

O substantivo tribu encontra-se, já como masculino, já
como feminino ; parece, todavia, que este ultimo genero
deveria prevalecer. Ex.

Não querendo Roboão condescender no que tão justamente
pedião os povos
, dos doze tribus de que constava todo o reino,
os dez lhe negarão obediência. (P. Ant. Vieira).

Mas, como Roboão não désse ouvidos a uma tão justificada
queixa, rebellados, os mesmos vassallos lhe negarão obediência,
e, de doze
tribus de que constava o reino, perdeu em um
dia
as dez, as quaes, nem nos dias do mesmo Roboão, nem
nos de todos os seus descendentes se unirão ou sujeitárão á
mesma coroa
. (P. Ant. Vieira).

127. Todavia um certo numero de substantivos, por
serem dotados de accepções bastante diversas, mudão de
genero, mudando de accepção : são os ambiguos. Assim é
que conjuge e consorte vêm a ser, já masculinos, já femininos,
conforme designão o marido ou a mulher. — o caixa
é, n’uma casa de negocio, o empregado responsável pela
caixa. — Um capital
é uma quantia de dinheiro posta a
premio, ao passo que uma capital é a metropole de uma
nação, ou a principal cidade de uma provincia. — o lente
ensina em uma academia, e a lente é um mero vidro de
augmentar. — o lingua é um interprete encarregado de
verter de prompto o que se dizem dous interlocutores que
não fallão a mesma lingua. — o corneta, o flauta, o trombeta
são outros tantos tocadores dos instrumentos chamados a
trombeta, a flauta, a corneta
. Etc., etc.

Do numero dos substantivos

128. a formação do plural nos substantivos é regular
quando se effectua pelo simples accrescimo de s á terminação
do singular ; e irregular quando se effectua de outro
qualquer modo.112

129. Com excepção dos substantivos que acabão pelo
diphthongo Ão, a formação do plural é regular em todos
aquelles cuja ultima letra é uma vogal ou a consoante n.
Ex. Rosa, rosas ; — bote, botes ; — siri, siris ; — vento, ventos;
- ;
tribu, tribus ; — tilbury, tilburys ; — gruin, gruins. Todavia
canon (lei ecclesiastica) faz cânones, e ademan, ademanes ;

130. Nos demais substantivos, a formação do plural
effectua-se como se segue :

1.° Os terminados em s não mudão passando para o
plural. Ex. O pires, os pires ; o lapis, os lapis. Todavia
deos (na accepção gentilica) faz deoses, — simples (herva medicinal),
simplices, — e gurupés, gurupeses ;

2.° Os terminados em r ou z tomão mais es. Ex. O
licor, os licores ; o nariz, os narizes
 ;

3.° Os terminados em m trocão esta letra por ns. Ex.
O bem, os bens ; o jardim, os jardins ;

4.° Os terminados em al, ol, ul trocão L por es. Ex.
O canal, os canaes ; o lençol, os lençóes ; o paul, os paúes.
Todavia cônsul, proconsul, vice-consul, mal e real (unidade
monetaria) fazem cônsules, proconsules, vice-consules, males e
reis ;

5.° Os terminados em el trocão esta terminação pela
de eis. Ex. O papel, os papeis ;

6.° Os terminados em il trocão esta terminação pela
de ís. Ex. O funil, os funís ;

7.° Os terminados em x, que são apenas calix (tambem
caliz), appendix (tambem appendice) e index (tambem indice),
fazem calices, appendices e índices ;

8.° Os terminados em Ão, seja qual for o seu genero,
trocão geralmente esta terminação pela de ões. Ex. O coração,
os corações ; a nação, as nações
.

Alguns todavia, formão o seu plural regularmente em
Ãos, e outros irregularmente em ães.

Em ãos / Em ães :

tableau acórdão, | acórdãos. / allemão, | allemães.
aldeão, | aldeãos. / alão, | alães.
anão, | anãos. / cão, | cães.
ancião, | anciãos. / capellão, | capellães.
benção, | bênçãos. / capitão, | capitães.
castellão, | castellãos. / catalão, | catalães.
christão, | christãos. / charlatão, | charlatães.
cidadão, | cidadãos. / deão, | deães.
113

tableau cortezão, | cortezãos. / ermitão, | ermitães.
grão, | grãos. / escrivão, | escrivães.
irmão, | irmãos. / guardião, | guardiães.
mão, | mãos. / massapão, | massapães.
órgão, | órgãos. / pão, | pães.
órphão, | órphãos. / rufião, | rufiães.
pagão, | pagãos. / sachristão, | sachristães.
rábão, | rábãos. / soldão, | soldães.
sótão, | sótãos. / tabellião, | tabelliães.
vão, | vãos. / truão, | truães.
villão, | villãos. / volcão, | volcães
zangão, | zangãos. / ou volcões

131. Em alguns substantivos, o uso ; em outros a sinificação
tolhe-lhes a faculdade de variar em numero.
ssim é que não passão do singular afan, dó, esmero, estima,
ganancia, mocidade, socego
, etc. como não revertem do
plural alviçaras, ambages, annaes, entranhas, exequias, trevas,
viveres
, etc.

132. Outros substantivos, emfim, têm, no plural, duas
accepções, uma das quaes não se compadece com o singular ;
assim arma, prenda, dote, etc.

Exemplos :

« Para um homem destemido, qualquer arma serve, —
quaesquer armas servem. — As armas do Brazil são uma
esphera armillar ; as do Portugal, as quinas. »

« O retrato do pai é a melhor prenda, — os retratos
dos pais são as melhores prendas para um bom filho. —
Para o goloso, porém, nenhumas prendas prevalecem sobre
as de um bom cozinheiro. »

« Quanta moça por ahi anda que, tendo dinheiro, mas
nenhuma educação, casar-se-ha graças ao dote, mas não aos
dotes. »

Capitulo III
Do artigo

133. Artigo é uma palavra variavel que, antepondo-se
essencialmente aos substantivos, e accidentalmente a pronomes,
114ou mesmo a verbos no infinitivo, torna-lhes o sentido
mais preciso.

134. Os artigos são só dous :

O definito : o, a, os, as ;

O indefinito : um, uma, uns, umas.

135. Que o artigo vai anteposto a substantivos, a
pronomes, e até a verbos no infinitivo, demonstra-se pelos
tres seguintes exemplos :

Que meio se póde dar para um homem, em toda a sua
vida ter o pão certo ? (P. Ant. Vieira).

Quem póde o mais, póde o menos. (Aphorismo).

A natureza fez o comer para o viver ; e a gula fez o
comer muito para o viver pouco. (P. Ant. Vieira).

136. Que a propriedade essencial do artigo é a de
conferir maior precisão ao sentido, deprehende-se facilmente
desta exposição comparativa : em comer o pão, ha uma designação
geral ; em comer um pão, ha uma designação
parcial ; emfim, em comer pão, já não ha senão uma desisignação
de substancia, mas nenhuma de quantidade, quer
absoluta, quer relativa.

137. Porém muito mais apreciavel é, na pratica, a faculdade
inherente a ambos os artigos de previamente determinar,
por suas formas caracteristicas, o genero e numero
das palavras a que pe prendera pela concordancia. Pois o
e um com a e uma assignalão com toda a clareza, no singular,.
os generos que os e uns com as e umas denuncião
no plural, obviando, deste modo, a numerosos equivocos.

Observação. Prescinde-se assaz geralmente do artigo
indefinito no plural (uns, umas), a não ser que o substantivo
seja falto de singular, como neste exemplo : Caminhava
a turca mettida em
umas ondas douradas por dentro e por
fóra
. (Pantaleão de Aveiro). — Não raras vezes fica mero
substitutivo do adjectivo indefinito algum. Ex. Ponde os
olhos em uma açucena, e vede a sua brancura, e do modo que
o talo vestido de
umas pequenas folhas sóbe ao alto, que
depois vem rematar-se, na summidade, em uma feição de taça
ou cópo, dentro do qual tem
uns grãos como de ouro, de tal
maneira cercados e defendidos, que de ninguem podem receber
damno
. (Fr. Luiz de Granada).115

Da contracção dos artigos

138. a contracção designa em Grammatica dous accidentes
de linguagem, que são ás vezes facultativos, outras
vezes obrigatorios. O primeiro consiste no encurtamento
de uma palavra, assim em hemos e mór por havemos e
maior ; o segundo na juncção de duas palavras em uma só,
em voce e comnosco por Vossa Mercê e com nós.

Ambos os artigos são sujeitos a contracções da ultima
especie, porém não em casos absolutamente identicos.

139. O artigo definito, quando regido das preposições
a, de, em e por, com ellas se contrahe dos seguintes
modos :

tableau ao por a o (ao vento) | á por a a (á chuva).
aos por a os (aos ventos). | ás por a as (as chuvas).
do por de o (do vento). | da por de a (da chuva).
dos por de os (dos ventos). | das por de as (das chuvas).
no por em o (no vento). | na por em a (na chuva).
nos por em os (nos ventos). | nas por em as (nas chuvas)
pelo por per o (pelo vento). | pela por per a (pela chuva).
pelos por per os (pelos ventos). | pelas por per as (pelas chuvas).

1.ª Observação. A contracção no, na, nós, nas é facultativa ;
pois, tanto se póde. dizer : Nos primeiros dias do
mez
…, como em os primeiros dias do mez… As demais são
obrigatorias.

2.ª Observação. A contracção pelo, pela, pelos, pelas,
originou-se da circumstancia de empregarem os antigos indifferentemente
as preposições per e por, o que os levava
a usar tambem indifferentemente da contracção referida,
como da de polo, pola, polos, polas. Ex. Não hei medo,
116mas receio, e não tanto pola sua pelle, como pola minha.
(Vasconcellos. Da com. Euphrosina).

Succedendo, porém, que cahisse per em desuso como
substitutivo de por, nem por isso deixou de sobreestar a
sua contracção. Mas, por uma compensação singular, permanecendo
por, desappareceu a sua contracção (polo, pola,
polos, polas
).

3.ª Observação. Dentre os erros de orthographia que
mais a miudo occorrem, sobreleva-se o que diz respeito ao
emprego do accento sobre a ou as ; porquanto encontra-se
com a mesma frequencia indevidamente apposto, como indevidamente
omisso. Entretanto o processo da substituição
resolve tão azada quão expeditamente o caso. Cumpre,
porém, para que a solução seja completa, antecipar, ainda
que perfunctoriamente, sobre ulteriores desenvolvimentos.

O vocabulo a tem ingresso em quatro classes de palavras :
é preposição, artigo, pronome pessoal, ou pronome
demonstrativo
. O vocabulo as só tem ingresso nas tres
ultimas.

Porém a condição que unicamente legitima nelles o
emprego do accento, é a de haver contracção. Ora este
caso só se dá quando ambos os vocabulos, sendo artigos ou
pronomes demonstrativos, cahem sob a regencia da preposição
a, que, para si mesma, repelle o accento, contrariamente
ao que se pratica em francez. Como pronomes
pessoaes, nunca podem a e as formar contracção.

Sendo assim a apposição do accento limitada á unica
circumstancia em que á e ás correspondem exactamente a
seus congoneres masculinos ao e aos, percebe-se que, em
qualquer caso duvidoso, basta mentalmente substituir, por
um masculino, o substantivo feminino do texto, para verificar
se avoca simplesmente o ou os, ou se avoca a contracção
ao ou aos, em que cabe o accento. Ex. Quão bem
comparou o propheta Isaias
as traças dos mãos á armação
de teias de aranha ! (Fr. João de Ceuta). — por substituição :
Quão bem comparou o propheta Isaias os inventos
do » máos ao laço de teias de aranha ! (… as traçasá
armação).

Outro meio, igualmente certo o expedito, consiste em
associar um substantivo masculino, por via de uma conjugação
copulativa (e, nem, ou), ao feminino que origina a
duvida ; porque a identidade de relação lhes communica ou
tira igualmente a ambos a contracção. Ex. a lepra pegase
aos vestidos e ás casas. (P. Man. Bernardes). — por
associação
 : a lepra e os miasmas pegão-se aos vestidos
e ás casas. - Ás galas de Salomão, o mesmo Christo lhes
117chamou gloria. (P. Ant. Vieira). — por associação : Ás
galas e aos esplendores de Salomão, …

O mesmo processo dá a conhecer que, no seguinte excerpto,
equivocou-se o revisor do livro na collocação de
um accento : Outros dirão que, para ter muito, o melhor remedio
é tê-lo, guardar, poupar, não gastar, morrer de fome, e
matar Á fome
. (P. Ant. Vieira). Pois o sentido em que o
P. Ant. Vieira ahi usou da locução matar a fome equivale
ao de matar a ferro, a fogo, a cutiladas, a pedradas, etc.,
em que a se ostenta como uma preposição. Reproduz-se a
mesma equivocação nest´outro excerpto : Um é affeiçoado á
caça ; e, quando os cães andão luzidios e anafados, ver-lhe-heis
os criados pallidos, e mortos Á fome
. (P. Ant. Vieira). —
(Correctamente : mortos a fome).

140. O artigo indefinito só se contrahe com a preposição
em :

tableau num por em um (num caso). | numa por em uma (numa casa).
nuns por em uns (nuns casos). | numas por em umas (numas casas).

Porém a mesma contracção é outra voz meramente facultativa ;
pois igualmente licito é dizer em um caso, como
num caso ; — em uma casa, como numa casa.

Observação. Embora ninguem cuide em assignalar
pelo apostropho a contracção correlativa (n’o, n’a, n’os,
n’as
), nem tão pouco nenhuma das outras que se formão
com o artigo definito, muitos grammaticos não hesitão em
adoptar a intervenção do apostropho em relação ao indefinito,
escrevendo n’um, n’uma, n´uns, n’umas. Ora, não se
baseando tal discrepancia em motivo algum plausivel, parece
ser mais acertado sujeitar todas as contracções desta
especie a uma só e mesma feição orthographica ; pois a
conformidade, quando iguaes são as circumstancias, é um
dos requisitos da logica.

Capitulo IV
Do adjectivo

141. Adjectivo é uma palavra variavel que se accrescenta
mediata ou immediatamente aos substantivos, aos
118pronomes, e até aos verbos no infinitivo, para os qualificar
ou determinar. Ex. a maior pensão com que Deos creou o
homem é o comer. Lançai os olhos por
todo o mundo, e vereis
que
todo elle vem a resolver-se em buscar pão para a bocca.
(P. Ant. Vieira). — O pregador que não possuir um artificioso
dizer
, que espera conseguir ? (Fr. João Pacheco).

142. Assim como o artigo, o adjectivo não tem de
per si genero nem numero, mas toma um e outro á palavra
ou palavras a que se prende pelo sentido. Ex. Tirai o
pensamento dos homens, e lançai-o por
todas as outras cousas
deste mundo, achareis que todas ellas estão servindo a este
fim ou pensão do sustento humano. (P. Ant. Vieira). —
Vêdes vós todo aquelle bulir ? Vêdes todo aquelle andar ?

e, que se segue deste tão desordenado querer ? (P. Ant.
Vieira).

143. Actuando, porém, diversamente sobre as palavras,
os adjectivos dividem-se em duas especies : os determinativos
e os qualificativos.

Os determinativos denuncião uma idéa de numeração,
de situação, de pertença, ou de quantidade indecisa. Ex. Um,
dous, tres
… — Este, esse, aquelle. — Meu, teu seu. — Algum,
muito, pouco, todo
.

Os qualificativos despertão absoluta ou relativamento
uma idéa de agrado ou de desagrado, conforme enuncião
uma qualidade ou um defeito, quer moral, quer physico.
Ex. Bom, máo ; — formoso, feio ; — grande, pequeno ; — amarello,
roxo ; — respeitável, desprezivel ; — fresco, quente
 ; —
util, inútil.

144. Discriminão-se theoricamente os primeiros dos
segundos por isso que, vindo uns e outros a actuar simultaneamente
sobre uma mesma palavra, os determinativos
vão necessariamente, até em numero crescido, antepostos
aos qualificativos. Ex. dez valentes soldados. — Nossos dez
valentes soldados. — estes nossos dez valentes soldados. —
todos estes nossos dez valentes soldados. — (Não, porém :
Valentes dez soldados, etc.).

Achando-se, outrosim, todos os determinativos ahi
adiante expressameuto declarados, ter-se-hão como qualificativos
os demais.

145. Uns e outros são, aliás, simples quando, como os
anteriormente relatados, constão de uma só palavra ; e
compostos quando, como os seguintes, constão de mais de
uma : outro tanto, todo e qualquer, — surdo-mudo, auri-verde,
recem-maduro
, etc.119

Dos adjectivos determinativos

146. Os adjectivos determinativos, assim chamados
por uma frisante analogia de funcção com os artigos, dividem-se,
conforme a sua respectiva significação em numeraes,
demonstrativos, possessivos e indefinitos
.

1. Adjectivos numeraes

147. Adjectivo numeral é todo aquelle que enuncia ou
recorda um numero certo. Abrange tres classes principaes :
os cardeaes, os ordinaes e os multiplicativos.

148. Os cardeaes são : um, dous, tres, quatro, cinco,
seis, sete, oito, nove, dez
… até o indefinito ; porquanto não é
concebível numero algum ao qual se não possa accrescer
mais um. Chamão-se cardeaes de uma palavra etymologicamente
latina que, equivalendo a principaes, os denuncia
assim como os vocabulos donde se originão todos os outros
numeraes.

149. Os cardeaes são simples quando constão do uma
só palavra, ainda que nesta, constituída por contracção,
sejão mui perceptíveis os elementos de sua formação, assim
em dezaseis, dezasete, dezoito e dezanove. São compostos
quando, constando de mais do uma palavra, apresentão
uma quantidade agrupada, assim em vinte e um, trinta e
dous, quarenta e tres, quinhentos e sessenta e nove mil oitocentos
e cincoenta e seis
, etc.

150. Os unicos cardeaes variaveis em genero (pois
que, como ó obvio, ficão inabalaveis em numero) são um
(uma) o dous (duas), com os múltiplos de cem (duzentos,
trezentos, quatrocentos, quinhentos, seiscentos, setecentos,
oitocentos, novecentos
).

1.ª Observação. Um (uma) é tido como adjectivo numeral
cardeal quando, compadecendo-se com a adjuncção
de só ou unico, avoca intencionalmente uma idéa de numeração
precisa, e tem, por plural, dous, tres ou qualquer
outro cardeal. Ex. Digo que menos mal será um ladrão que
dous. (P. Ant. Vieira). — (… um só, um unico ladrão). —
Se quatro imperios com uma se desunião se arruinão e acabão,
um reino, e não muito grande, dividido em muitas desuniões,
que se póde temer delle ?
(P. Ant. Vieira). — E’ tido
como artigo indefinito quando, implicando o sentido do
qualquer, tem, por plural, uns, umas. Ex. Se víssemos que
um mercante de Lisboa, embarcando-se a commerciar, para
120Angola carregasse de marfim, para a índia, de canella, e para
o Brazil, de assucar, não o teriamos por louco?
(P. Ant.
"Vieira). — (Se víssemos que uns mercantes…).

2.ª Observação. Não obstante entrarem na computação
por cardeaes, os vocabulos um milhão, um conto, um bilhão,
etc. são, assim como uma duzia, um cento, um milheiro, etc.,
meros substantivos, já porque admittem o artigo, já porque
são variaveis em numero como a generalidade dos substantivos.

151. Os ordinaes são : primeiro, segundo, terceiro, quarto,
quinto, sexto, setimo, oitavo, nono, décimo, undecimo, duodecimo

até centesimo nonagésimo nono (199°) ; porquanto, deixando
de haver dahi em diante expressões adequadas,
forçoso é soccorrer-se á numeração por cardeaes. Ex. Leia-se
desde a pagina
centesima nonagesima nona até à pagina
duzentos e um. — Chamão-se aliás, ordinaes por designarem
um lugar determinado em uma ordem ou serie numérica.

152. Assim como os cardeaes, os ordinaes são simples
quando constão de uma só palavra (primeiro, vigésimo, centesimo),
e compostos quando constão de mais de uma (décimo
terceiro, trigesimo quinto, centesimo quinquagesímo quarto
).
Dotados, porém, da variabilidade, não só em genero, como
tambem em numero, assemelhão-se, nas suas relações syntaxicas,
aos adjectivos qualificativos.

Observação. Com a substituição de meio a segundo,
e de terço a terceiro, os ordinaes, quando simples, constituem
as expressões idoneas para a enunciação das fracções ou
quebrados. Ex. 1/2 kilog. (meio kilogramma) ; — 2/3 lb (duas
terças partes de uma libra) ; — 8/10 (oito décimos) ; — 16/20
(dezaseis vigésimos). — Sendo, porém, compostos, força e
supprí-los pelos cardeaes correspondentes, com o accrescimo
avos. Ex. 15/22 (quinze vinte e dousavos) ; — 33/44 (trinta
e tres quarenta e quatravos).

153. Os multiplicativos são : singelo, duplo, triplo,
quádruplo, quintuplo, sextuplo, septuplo, octuplo, nonuplo, decuplo

e centuplo, todos variaveis em genero e numero. Ex. a quantidade
decupla de oito é oitenta (8X10=80). Tirão o seu
appellido da circumstancia de constituirem os multiplicadores
de numeros pouco complexos.

Observação. Os quatro primeiros multiplicativos ficão
frequentemente substituidos por simples, duplice, tríplice e
quadruplice. Ex. As pétalas daquella flor são simples ou singelas.
Mas, fóra de sua accepção numerativa, simples e
121singelo recahem na classe dos qualificativos. Ex. Um vestido
simples. Uma alma singela.

Quanto ás expressões numéricas dobro e tresdobro, são
meros substantivos. Ex. O dobro de seis equivale ao tresdobro
de quatro, isto é : a doze, (6x2 = 4x3 = 12).

154. Em accrescentamento a estas tres classes de numeraes,
ainda cumpre mencionar os adjectivos de senilidade,
que designão por decennios, a idade das pessoas desde cincoenta
até cem annos (quinquagenario, sexagenário, septuagenário,
octogenário, nonagerio e centenário
) ; — e os distributivos
cada e ambos (ambas), com os adventicios binário,
trinario, quaternário e quinario ; — primário, secundário;
-
 ; —
uno, trino, etc.

2. Adjectivos demonstrativos

155. Demonstrativos são os adjectivos cuja significação
implica um aceno. São tres simples, e tres compostos, todos
caracteristicos de genero e numero.

Demonstrativos simples

tableau Singular | Plural
Este, esta | Estes, estas
Esse, essa | Esses, essas
Aquelle, aquella | Aquelles, aquellas.

Demonstrativos compostos

tableau Singular | Plural
Est’outro, est’outra | Est’outros, est’outras
Est’outro, est’outra | Est’outros, est’outras
Aquell’outro, aquell’outra | Aquell’outros, aquell’outras

156. Uns e outros, do mesmo modo e nas mesmas
circumstancias que os artigos, contrahem-se com as preposições
de e em.

tableau Deste, a, es, as | Neste, a, es, as
Desse, a, es, as | Nesse, a, es, as
Daquelle, a, es, as | Naquelle, a, es, as

tableau Dest’outro… | Nest’outro…
Dess’outro… | Ness’outro…
Daquell’outro… | Naquell’outro…

Porém, assim como nos artigos, facultativa é a contracção
com em (em este... em esse... em aquelle…).122

157. Todavia os demonstrativos aquelle o aquell’outro
ficão sujeitos a mais uma contracção, a qual, por se constituir
com a preposição a, só se manifesta pela superposição
do accento agudo ao a.

tableau Singular | Plural
Áquelle (por a aquelle) | Áquelles (por à aquelles)
Áquella (por a aquella) | Áquellas (por a aquellas)
Áquell’outro, a, os, as (por a aquell’outro, a, os, as).

Dando-se o caso de alguma duvida sobre se se deve
applicar ou omittir o accento, basta, para de prompto resolvê-la,
substituir aquelle por este ou esse ; porquanto não
póde então o sentido da oração deixar de avocar expressamente,
ou de excluir a preposição contractiva. Ex. Vêdes
aquelles livros e aquellas estampas : pois hão de se dar
em premio
aquelle menino ou aquella menina que mais
correctamente escrever o dictado
. — (Vêdes estes livros e estas
estampas : pois hão de se dar a esse menino ou a essa menina
que
…).

Outro exemplo. E a este Judas, e aquelle Pedro
será justo, Senhor, que vós trateis com a mesma igualdade?

(Iris classico, pag. 225). — (… a esse Pedro…).

3. Adjectivos possessivos

158. Possessivos são os adjectivos que, simultaneamente
com uma idéa de pertença, aventão uma de pessoa,
por virem derivados dos pronomes me, te, se, nos, vos, se,
sendo, aliás, todos caracteristicos de genero e numero.

tableau Singular | Plural
Meu, minha | Meus, minhas
Teu, tua | Teus, tuas
Sou, sua | Seus, suas.
Nosso, nossa | Nossos, nossas
Vosso, vossa | Vossos, vossas
Seu, sua | Seus suas.

4. Adjectivos indefinitos

159. Indefinitos são os adjectivos que, por enunciarem
uma quantidade geralmente indecisa, ou até negativa, não
se deixão rubricar com mais precisão. Pela maior parte,
são caracteristicos de numero e genero, como muito, muita,
muitos, muitas
. Alguns só o são do numero, como qual,
123quaes. Outros, emfim, como que, não o são, nem de numero,
nem de genero.

Tabella dos adjectivos indefinitos

tableau singular | plural
Masc. | Fem. | Masc. | Fem.
1. | Algum, | alguma, | alguns, | algumas.
2. | Bastante, | bastante, | bastantes, | bastantes.
3. | Certo, | certa, | certos, | certas.
4. | Cujo, | cuja, | cujos, | cujas.
5. | … | … | demais, | demais.
6. | Fulano, | fulana, | fulanos, | fulanas.
7. | Mais, | mais, | mais, | mais.
8. | Menos, | menos, | menos, | menos.
9. | Mesmo, | mesma, | mesmos, | mesmas.
10. | Muito, | muita, | muitos, | muitas.
11. | Nenhum, | nenhuma, | nenhuns, | nenhumas.
12. | Outro, | outra, | outros, | outras.
13. | Pouco, | pouca, | poucos, | poucas.
14. | Qual, | qual, | quaes, | quaes.
15. | Qualquer, | qualquer, | quaesquer, | quaesquer.
16. | Quanto, | quanta, | quantos, | quantas.
17. | Que, | que, | que, | que.
18. | Quejando, | quejanda, | quejandos, | quejandas.
19. | Sicrano, | sicrana, | sicranos, | sicranas.
20. | Só, | só, | sós, | sós.
21. | Tal, | tal, | taes, | taes.
22. | Tanto, | tanta, | tantos, | tantas.
23. | Todo, | toda, | todos, | todas.

Da combinação de alguns destes adjectivos entre si,
ou com outros determinativos formão-se adjectivos indefinitos
compostos, taes como outro tanto, qual um, qual outro,
taes e quejandos, todo e qualquer, um e outro
, etc. Ex. Se
bem olhamos a differença das vozes e harmonias que o rouxinol
faz com a sua garganta, que Plinio por
outra tanta
diversidade
de palavras explicou, acharemos que todas as
proporções da musica estão encerradas no papo de um tão pequeno
animal como é este passarinho
. (João de Barros).

Observações
sobre os adjectivos determinativos

160. O que formalmente caracterisa os determinativos
como adjectivos, é a sua referencia, na qualidade de apposições
124ou de predicados, a um substantivo, pronome ou infinitivo
da mesma proposição. Porém, logo que, desligados
de uma ou outra destas tres especies de palavras, constituem
do per si mesmos um sujeito ou um complemento, ou ainda
quando, constituindo um predicado, apparecem precedidos
de um artigo, signal é que deixárão de ser adjectivos, e
passárão a pronomes.

Exceptuão-se tão sómente, dentre os numeraes os que
não são cardeaes ; porque, conchegados por feitura e indole
aos qualificativos, com estes transmigrão para a classe dos
substantivos quando deixão de ser adjectivos.

A conveniencia de discriminar tão terminantemente os
casos em que uma mesma palavra passa de uma classe
para outra, não é nenhuma superfluidade apparatosa de
subtilezas analyticas ; é sim uma consequencia indeclinavel
da incumbência que tem a Grammatica de explicar,
pelos meios mais consentaneos com a logica, anomalias ou
divergencias que, sem taes distincções, ficarião incomprehensiveis.
Haja vista, como prova desta allegação, o que
se deduz de um exame comparativo instituido sobre os
dous seguintes trechos.

« E’ certo que todos desejais o descanço ; é certo que
todos o buscais com grande trabalho. » (P. Ant. Vieira).

« sejão ouvidos nesta causa todos, pois toca a todos.
Que é que dizem ?
todos repugnão ; todos reclamão ; todos
se alterão ; todos se unem e conjurão em odio e ruina do
inimigo
. » (P. Ant. Vieira).

A anomalia que ahi resalta á primeira intuição, é que,
sob a regencia do mesmo vocabulo todos, os verbos do
primeiro excerpto estão na segunda pessoa do plural, e os
o segundo na terceira, o que não póde deixar de parecer
inconciliavel.

Entretanto, se se attende que, por ser geralmente facultativa
a enunciação dos pronomes eu e tu, nós e vós,
este ultimo, embora omisso, é o sujeito effectivo dos verbos
do primeiro exemplo (e’ certo que todos [vos] desejais…),
basta ver em todos uma mera apposição de vós para que
o espirito não relucte em considera-lo ahi como adjectivo
indefinito
. Vindo, porém, todos, no segundo exemplo, a
constituir de per si mesmo o sujeito dos verbos em que
actúa, força é attribuir-lhe o caracter de uma das tres especies
de palavras a que só compete formular sujeitos : o
substantivo, o pronome e o infinitivo ; e tudo concorre
para que a unica qualificação que desta vez lhe caiba, seja
a de pronome indefinito.125

161. Sendo assim demonstrado que, nas palavras,
menos é a forma do que a funcção o que serve a determinar-lhes
a natureza, esta indicação sobreleva-ee em importancia
para com os indefinitos; porquanto, não se
imitando muitos dentre elles a ser adjectivos ou pronomes,
mas tendo ainda ingresso em outras classes, e nomeadamente
na do adverbio, só a funcção que eventualmente
exercem, póde regular a sua classificação. Ora, como, em
alguns, a circumstancia do não serem caracteristicos, nem
de genero, nem de numero, augmenta-lhes as causas de
ambiguidade, o “processo da substituição apresenta-se como o
unico proprio para deslindar todas as incertezas.

Assim é que um indefinito desta ultima especie será
tido como adjectivo quando supprivel por um adjectivo,
como pronome quando supprivel por um substantivo, como
adverbio quando supprivel por um adverbio ou um complemento
indirecto, etc.

Algum. nenhum

162. algum e nenhum são adjectivos ou pronomes.
(adj.) Sabeis porque vos querem mal vossos inimigos ?
Ordinariamente é porque vêm em vós
algum bem que elles
quizerão ter, e lhes falta
. (P. Ant. Vieira).

Nenhuns serviços paga Sua Majestade hoje com mais
liberal mão que os do Brazil
. (P. Ant. Vieira).

(Pron.) alguns cuidão que estes são os meios de ter
pão, mas enganão-se
. (P. Ant. Vieira).

Se Deos vos fez estas mercês, fazei pouco caso das outras,
que
nenhuma val o que custa. (P. Ant. Vieira).

Deste modo, com todos estou bem, nenhum me faz mal.
(Lobo).

Apparecendo posposto ao substantivo, algum toma o
sentido negativo do nenhum.

Ex. Em nenhuma flôr podem os maiores sabios do mundo
emendar
cousa alguma. (P. Man. Bernardes). — (Em flôr
alguma… — cousa nenhuma
).

algum tanto constitue uma locução adverbial. Ex.
Annibal teve a barba sobre loura, e algum tanto crespa. (Fr.
Bernardo de Brito). — (… e levemente crespa).

El rei D. Duarte tinha os olhos algum tanto molles.
(Duarte Nunes de Leão). — (… levemente molles).

nenhum e nem um, embora de constituição apparentemente
identica, não são todavia exactamente equivalentes
126em sentido. O primeiro corresponde a algum, e o segundo,
ao cardeal um ; pois este tolera a associação de só e único,
que aquelle rejeita, e leva-lhe assim vantagem em energia
de negação. Ex. Para derribar um reino, e muitos reinos
onde falta união, não são necessarios exercitos, não são necessarias
batalhas, não são necessarios cavallos, não são necessarios
homens
, nem um homem, nem um braço, nem uma mão:
 :
lápis sine manibus. (P. Ant. Vieira). — (… nem um só
homem, nem um só braço, nem uma se mão..,). Porém absolutamente
impropria seria ahi a substituição de nen um
por nenhum.

Bastante

163. Bastante é adjectivo com o sentido do suficiente,
pronome com o de porção suficiente, adverbio com o de
suficientemente ou assaz.

(Adj.) Não ha thesouros bastantes para prover ás extravagancias
do pródigo
. — (… thesouros sufficientes…).

Que artifice fôra bastante para crear tanta variedade
de cousas tão formosas, senão Elle ?
(Fr. Luiz de Granada).

(Pron.) Havemos de tudo bastante para não invejarmos
nada a ninguem
. — (…porção sufficiente de tudo…).

(Adv.) E’ sempre bastante caro o que custa tempo, e
nada aproveita
. — (… sufficientemente, — assaz caro…).

Certo

164. Certo é, já adjectivo indefinito, já adjectivo qualificativo.

Como indefinito, vai, não só sempre junto, senão tambem
impreterivelmente anteposto a um substantivo, sendo
então o seu sentido insupprivel por qualquer outra expressão.
Ex. De certos homens da casta daquelles de quem
dizia Socrates que não comião para viver, mas só vivião para
comer, diz a Sagrada Escriptura que, exhortando-se de commum
consentimento, dizião : Comamos e bebamos porque amanhãa
havemos de morrer
. (P. Ant. Vieira).

Como qualificativo, implica o sentido de seguro e fica
então sujeito a todas as leis que regem os adjectivos desta
especie. Ex. Que meio vos parece que se póde dar para um
homem, em toda a sua vida, ter o
pão certo, sem nunca lhe
haver de faltar?
(P. Ant. Vieira). — Dar por amor de Deos,
não ha mais
certa negociação, não ha mais certo Meio de
ajuntar fazenda
. (P. Ant, Vieira), — Estai certos que só a127vossa desunião póde matar o reino. (P. Ant. Vieira). —
(Estai (vós) certos…).

Cujo

165. Cujo é sempre adjectivo, por se referir constantemente,
como apposição ou predicado, a um substantivo
ou pronome da mesma proposição, e com elle concordar
em genero e numero.

Exemplo :

Donde sahiu tanta variedade, senão de vós, Senhor, cujo
ser
encerra com eminencia infinitos seres ! (P. Man. Bernardes).

Cujas são tantas terras conquistadas no Oriente ? cujas
as armadas que navegão e cobrem aquelles mares ? cujos os
portos que se enriquecem com os commercios e tributos que o
Indo e Ganges só pagavão ao Tejo ?
(P. Ant. Vieira).

D. João de Castro viu á porta de um alfaiate um gibão
riquíssimo, e perguntou
cujo era. (P. Man. Bernardes). —
(… cujo era elle).

Demais

166. Demais é adjectivo ou pronome ; porém, em um
como no outro caso, não comporta a feição do singular.

(Adj.) Entre todas as excéllencias que Christo teve como
mestre e doutor, uma foi singular, porque os
demais doutores
podem propor a verdade, e ensinar por fóra, mas não podem
interiormente allumiar o entendimento
. (João Franco Barreto).
— (…os outros doutores…).

(Pron.) Era Affranio Burrho homem de grave e maduro
juizo, mestre ou aio que tinha sido, com Seneca, do mesmo
Nero. E, quando todos os outros fazião grandes applausos ás
mudanças, saltos e gestos do imperador citharédo, como se
forão outros tantos triumphos, só Affranio estava triste, mas
tambem louvava como
os demais. (P. Ant. Vieira). — (… como
os outros).

167. Fulano e sicrano são, já adjectivos, já pronomes,
conforme andão ou não andão juntos a um substantivo.

(Adj.) Respondeu mansamente o cordeiro : « Senhor fulano
lobo
, como posso eu turvar a Vossa Mercê a fonte, se ella
corre de cima, e eu estou cá mais abaixo ?
 » (P. Man. Bernardes).128

(Pron.) Cuja é esta caveira ? E’ de fulano. Viveu rico,
e morreu pobre
. (P. Ant. Vieira).

Mais. menos

168. mais e menos são adjectivos, pronomes ou adverbios.

1.° São adjectivos quando outro adjectivo os póde
supprir, ou a elles associar-se na mesma qualidado de apposição
ou de predicado.

Ex. Entre todas as idades, a puericia e a adolescência
estão expostas a
mais riscos. (Fr. Man. Consciencia). —
(… a mais e maiores riscos).

Se faltão alguns fructos da Europa, a inércia é que faz
menos a abundancia. (Franc. de Brito Freire). — (… que
faz a
abundancia menor).

Quando lhe perguntavão por sua vida, costumes e doutrina,
respondia Christo como Deos ; e, ás
mais interrogações,
dizem os evangelistas sagrados que se calava. (Luiz Torres
de Lima). — (… e ás outras interrogações…).

De outras cidades se lavrão, semeião e plantão os mesmos
lugares, sem
mais vestigios de haverem sido, que os que encontrão
os arados quando rompem a terra
. (P. Ant. Vieira). — *(…
sem outros vestigios…).

Se os homens se comerão depois de mortos, parece que era
menos horror e menos materia de sentimento.’ (P. Ant.
Vieira). — (… menor horror e menor materia…).

« Amigo, subí para cima ! » e então ficareis com gloria
entre
os mais convidados. (P. J. B. de Castro). — (… entre
os outros convidados).

Assim não têm lugar, entre os Chins, os queixumes que
nesta parte já fazia, e com muita razão, da nossa Europa
Junio Moderato Columella, quando ainda havia
menos annos
que os arados andavão nas mãos dos Camillos, Curios e Cincinnatos.
(P. João de Lucena). — (… quando ainda havia
poucos annos que…)

O mais corpo do garracicão é revestido de um pardo
muito gracioso
. (P. Balthasar Telles). — (O sobejo corpo…).

Deixo outros membros de menos nome. (P. Ant. Vieira).
— (… de inferior nome, — nomeada).

Não faz menos representação de grandeza a torre dos
129sinos e relogio. (Fr. Luiz de Souza). — (… menor representação…).

2.° São pronomes quando outro pronome ou um substantivo
de quantidade indecisa os póde supprir na mesma
funcção, sendo então frequentemente amparados pelo artigo
definito.

Ex. Quem quer mais do que lhe convem, perde o que
quer, e o que tem
. (P. Ant. Vieira). — (… cousa maior…).

O menos é que, por quererem o que não podem, venhão
os homens a não poder o que podião
. (P. Ant. Vieira). — (a
menor cousa
é…).

Bem disse S. Ambrosio, que mais valia um dinheiro tirado
do pouco, do que um thesouro tirado do máximo
. (P. Man.
Bernardes). — (… maior preço…).

No que toca a todos, consulte os mais. (P. Ant. Vieira).
— (… os outros).

Nestes dous jogos ou latrocínios da cobiça, o menos que
se perde, é o dinheiro
. (P. Ant. Vieira). — (… o menor
bem…
).

Se os Apostolos tiverão doze pães, então não era necessario
mais. (P. Ant. Vieira). — (… maior quantidade não
era necessaria
).

Na batalha campal dos Allemães contra os Hespanhóes
junta a Ravenna, matou uma peça, com um só tiro
, mais de
cincoenta Allemães
. (P. Ant. Vieira). — (… numero superior
a cincoenta…).

Quem póde o mais, póde o menos. (Aphorismo). — (Quem
consegue fazer
uma cousa difficil, faz uma cousa facil).

No mesmo ponto cahiu a estatua, desapparecérão os metaes,
e não ficarão della e delles
, mais que o lugar. (P. Ant.
Vieira). — (… e não ficárão outros vestigios della e
délles
…).

Não falta na China muita gente de rostos compridos,…
que por serem os menos, parecem descendentes dos estrangeiros
que houve no mesmo reino
. (P. João de Lucena).

3.° São adverbios quando, antepostos a um participio,
adjectivo ou outro adverbio, conferem-lhe o gráo comparativo
ou superlativo ; ou ainda quando, modificando em alcance
a significação de um verbo, deixão-se converter em
outro adverbio, ou em complemento indirecto.130

Ex. Ama o teu inimigo porque, ou elle é mais poderoso
que tu, ou menos : se é menos poderoso, perdoa-lhe a elle ; se
é
mais poderoso, perdoa-te a ti. (P. Ant. Vieira).

Como estas são as mercadorias que só têm valor e preço
no céo, vêde se os que
mais carregados e sobrecarregados
se vêm destas felicíssimas drogas, tanto mais preciosas quanto
mais pesadas, vêde se têm razão de se entristecer ! (P. Ant.
Vieira).

« Tenho-me em maior conta, e me julgo nascido para
cousas
mais elevadas do que ser criado de meu corpo. (Fr.
Luiz de Souza).

Eis-aqui todo o juizo dos homens : amárão mais, ou
amárão menos. (P. Ant. Vieira). — (… amarão extremosamente,
ou amarão comedidamente).

Dá, pois, muitas graças á estreiteza de tua meza ; porque
sendo certo que todos hão de chegar á sepultura sem nenhum
remedio
, só tu, por comer menos, chegarás á sepultura mais
tarde
, e só tu, por comer menos, serás nella menos comido.
(P. Ant. Vieira). — (… por comer em menor proporção…).

Quando as mesmas frotas voltavão carregadas de ouro e
prata, nada disto era para allivio ou remedio dos povos, senão
para
mais se encherem e incharem os que tinhão mando sobre
elles
. (P. Ant. Vieira). — (… para com maior demasía ou
demasiadamente se encherem e incharem…).

Os homens se vão mais sepultar que viver naquella escura
e perpetua noite
. (P. Ant. Vieira). — (... se vão antes sepultar
que viver
…).

Sem esta união, tudo perde o nome, e, mais, o ser. (P.
Ant. Vieira). — (… e, para remate, o ser).

Cousa dificultosa parece que houvessem de bastar poucos
homens para dentro em sua propria casa destruir em o imperador,
e
mais o imperio. (P. Ant. Vieira). — (… e para destruirem,
alem disso, o imperio).

Os dez tribus fizerão outro rei, e outro reino que nunca
mais se sujeitou nem restituiu aos herdeiros de Salomão. (P.
Ant. Vieira). — (… que nunca jamais se sujeitou…).

A natureza de Vossa Alteza não é Flandres nem Castella,
mas Portugal onde reinou quarenta e cinco annos, pouco
mais
ou menos. (D. Hieronymo Ozorio, bispo de Silves).

Mesmo

169. Mesmo é adjectivo, pronome ou adverbio.131

1.° E’ adjectivo quando apposição.

Ex. Que faz a mesma natureza, toda movida e governada
pelo
mesmo Deos ? (P. Ant. Vieira).

Não cabe em si mesmo o mundo com quatro vapores insensíveis !
(P. Ant. Vieira).

A mentira é filha primogênita do ocio. Vêde como se
forma dentro em
vós mesmos este monstruoso parto! (P. Ant.
Vieira).

2.° E’ pronome, não só quando faz a funcção de sujeito
ou de complemento, senão tambem quando faz a do
predicado, porque nunca prescinde então do artigo.

Ex. Quando os premios se dão aos que merecem, os
mesmos que os murmurão com a bocca, os approvão com o
coração
. (P. Ant. Vieira).

O mesmo podemos dizer das planicies, valles e montes.
(P. Ant. Vieira).

Os Romanos tornárão a ser vencidos dos mesmos que
tinhão vencido e dominado
. (P. Ant. Vieira).

Bem se póde dizer que o juizo é o mesmo que o entendimento,
porém é um entendimento solido
. (Mathias Ayres da
Silva de Eça).

E´ particular circumstancia e honra da verdade ser sempre
uniforme e
uma mesma sem variedade nem alteração. (Fr.
Luiz de Souza). — (… ella ser sempre uniforme e a
mesma…
).

3.° E’ adverbio quando supprivel por até.

Ex. Aqui mesmo, navegando junto á praia, tive occasião
de. ver um quadro que me encantou o espirito
. (D. Fr. Caet.
Brandão).

Muito. pouco

170. Muito e pouco são adjectivos, pronomes ou adverbios.

1.° São adjectivos quando apposições ou predicados.

Ex. O coração do homem é mui generoso, e o da mulher,
mui delicado : quer, por
pouco bem, muito premio, e, por
muito mal, nenhum castigo. (P. Ant. Vieira).

Na côrte, muitos são os malsins, poucos são os amigos.132

2.° São pronomes quando sujeitos ou complementos.

Ex. Lembre-se Vossa Alteza que, nesta sua partida (o
que Deos não permitia), no temporal se ganha
pouco, e no
espiritual se perde
muito. (D. Hieronymo Ozorio).

muitos querem ensinar com razões ; com exemplos poucos
ensinão.

O roubar pouco é culpa ; o roubar muito é grandeza !
(P. Ant. Vieira). — (… quantia pequena…. quantia
grossa…
).

Assim como é natureza da união, de muitos fazer um
assim é milagre da união
, de poucos fazer muitos. (P. Ant.
Vieira).

3.° São adverbios quando, modificando em alcance a
significação de um verbo, participio, adjectivo ou outro
adverbio, resolvem-se em complemento indirecto, ou em adverbio
declarado pela terminação mente.

Ex. a natureza fez o comer para o viver ; a gula fez o
comer muito para o viver pouco. (P. Ant. Vieira). —
(… comer em demasiada proporção, — vorazmente… viver
em um curto lapso de tempo, — brevemente…).

Se alguem pensa que, sendo assolado o reino, póde a sua
casa ficar em pé, engana-se
muito enganado. (P. Ant. Vieira).
— (… engana-se excessivamente enganado).

Consideremos primeiro que cousa é nascer, e philosophemos
um pouco. (P. Ant. Vieira). — (… e philosophemos por um
instante
).

Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros ?
muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os
brancos
. (P. Ant. Vieira). — (… consideravelmente maior
desproporcionadamente mais…).

Pouco nos desvanece o ter juizo, e muito nos lisongeia
o ter entendimento. . (Mathias Ayres da Silva de Eça). —
(fracamente nos desvanece…. extremamente nos lisongeia…).

Pouco a pouco é uma locução adverbial por equivaler
a vagarosamente.

Ex. O grande imperio que os Portuguezes fundarão na
índia, acabou como o dos Gregos e Romanos
, pouco a pouco
e por partes. (P. Ant. Vieira).133

Outro

171. Outro é adjectivo ou pronome.

Ex. (adj.) Os reis podem dar titulos, rendas, estados;
 ;
mas, animo, valor, fortaleza, constancia, desprezo da vida, e as
outras virtudes de que se compõe a verdadeira honra, não
podem
. (P. Ant. Vieira).

(Pron.) Se Deos nos fez estas Mercês, fazei pouco caso
das outras. (P. Ant. Vieira).

Como bem disse o outro, as magnetes attrahem o ferro, e
os magnates, o ouro
. (P. Ant. Vieira).

um e outro, nem um nem outro, quer appareção como
adjectivos, quer como pronomes, devem ser tidos como indefinitos
compostos
. Pois, aparentando-se, mesmo quando
dissociados, em genero o numero, ainda soem assignalar a
sua correlação por uma mesma funcção syntaxica.

Ex. Este é o mundo em que vivemos : antes e depois de
Noé, sempre foi diluvio
 : uns para uma parte, outros para
outra, todos cansando-se em buscar o descanso, e todos cansados
de o não achar
(P. Ant. Vieira).

O mesmo podemos dizer das planicies, valles e montes
donde se levantavão ás nuvens aquelles vastissimos corpos de
casas, muralhas e torres
 : de umas se não sabem os lugares
onde estiverão
 ; de outras se lavrão, semeião e plantão os
mesmos lugares
. (P. Ant. Vieira).

Ha dous generos de inimigos : uns que perseguem, outros
que adulão. (P. Ant. Vieira).

Qual

172. Qual é adjectivo indefinito, pronome relativo,
pronome indefinito, ou interjeição.

1.° E’ adjectivo quando, apposição ou predicado, concorda
em genero o numero com o substantivo ou pronome
da mesma proposição.

Ex. Logo disse missa o P. Ant. Vieira em um altar ricamente
ornado, á
qual missa assistirão os gentios de joelhos,
com grande devoção
. (P. Ant. Vieira).

Aqui vereis qual é o fructo das minas… — As causas
naturaes destes effeitos tão lamentaveis não são ordinariamente
outras senão as mesmas que precederão o reinado de Salomão.
e
, quaes forão estas ? (P. Ant. Vieira).134

Quereis saber qual é a dureza de um não ? (P. Ant.
Vieira).

Pythagoras e Socrates forão ambos famosissimos mestres
da republica mais politica
, qual foi a de Athenas. (P. Ant.
Vieira).

2.° E’ pronome relativo quando, necessariamente precedido
do artigo indefinito (o, a, os, as), o fazendo o officio
de sujeito ou de complemento, refere-se declaradamente ao
substantivo ou pronome de uma proposição anterior, com
elle concordando, não só em genero e numero, senão tambem
em pessoa.

Ex. A que compararia S. Pedro Damião os aduladores ?
Comparou-os ás
andorinhas de Tobias, — as quaes, fazendo
o ninho em sua casa, lhe pagarão a hospedagem com lhe tirar
a vista
. (P. Ant. Vieira).

Se tantos são os bens que traz comsigo o dia do nascimento,
— os quaes todos funesta, consome e acaba o dia da
morte, que motivo teve o juizo de Salomão para antepor o dia
da morte ao do nascimento ?
(P. Ant. Vieira).

Affonso de Albuquerque empregou a noite inteira em considerar
mui poderosamente nas cousas da
eternidade, cujos
suburbios parecia que avistava, e
a qual religiosamente passou
ante a manhãa
. (Vida de el rei D. Manoel).

3.° E’ pronome indefinito quando, precedido ou não do
artigo definito, e fazendo, aliás, o officio de sujeito ou de
complemento, resolve-se analyticamente em que pessoa ou
que cousa, ou
ainda que pessoas ou que cousas.

Ex. Por isso eu lá dizia que não sei qual lhe fez sempre
maior mal, ao Brazil, se a infermidade, se as trevas
. (P. Ant.
Vieira). — (… não sei que cousa lhe fez…).

Se quizermos particularmente considerar as cousas, qual
haverá que, sem letras divinas ou humanas, se possa fazer ?
(João de Barros). — (… que cousa haverá que…).

« Julga agora, continuou Christo, qual destes tres teve
aquelle enfermo por proximo
. » (P. J. B. de Castro). — (…que
homem, que pessoa…
).

Não sei ao qual de vós eu tenha de responder.

4.° E’ interjeição, o conseguintemente invariavel, quando,
não se referindo a nada, prorompe no discurso como expressão
de despeito.135

Ex. Não ha dia que a morte não nos advirta ; mas, qual !
nada nos póde demover de contar com o porvir.

Cada qual é pronome indefinito composto.

Ex. Notão os curiosos da natureza que algumas aranhas,
na primeira ordidura, deitão quatro fios como fundamento de
toda a teia, e
cada qual destes vão depois tecendo e enchendo
de outros vinte
. (Fr. João de Coita).

Qualquer

173. Qualquer é adjectivo quando apposição ou predicado,
pronome quando sujeito ou complemento.

Ex. (Adj.) Alguns autores comparão estes aduladores ao
cameleão, que não tendo côr certa nem propria, se reveste e
pinta de todas as côres
, quaesquer que sejão as do objecto
vizinho. Outros os comparão á sombra, que não tem outra acção,
figura ou movimento que do corpo interposto á luz, do qual
nunca se aparta, e sempre e para
qualquer parte o segue.
(P. Ant. Vieira).

(Pron.) Basta então, Senhor, qualquer dos outros desacatos
ás cousas sagradas, para uma severíssima demonstração
vossa
. (P. Ant. Vieira).

Tanto. quanto

174. tanto o quanto são adjectivos, pronomes ou adverbios.

1.° São adjectivos quando apposições ou predicados.

Ex. Cleópatra, rainha do Egypto, que, quantas acções
fez, tantas pyramides deixou erigidas á posteridade, umas de
lascívia, outras de vaidade, fez que o seu Marco Antonio pescasse
por sua mão peixes fritos
. (P. Man. Bernardes).

Como ninguem póde servir a dous senhores sem amar a
um, e ser inimigo do outro, provado fica sem replica que
, quantos
forem nos palacios os amigos de seus interesses, tantos são
os inimigos dos reis. (P. Ant. Vieira).

Antigamente estavão os ministros ás portas das cidades;
 ;
agora estão as cidades ás portas dos ministros. tanto coche !
tanta liteira ! tanto cavallo ! (que os de pé não fazem
conto, nem delles se faz conta)\
(P. Ant. Vieira).

quantos principes dão a alma, e tantas almas ao demonio
136por uma cidade, por uma fortaleza ! quantos titulos,
por uma villa! quantos nobres, por uma quinta, por uma
vinha, por uma casa
 ! (P. Ant. Vieira).

2.° São pronomes quando sujeitos ou complementos.

Ex. quantos fôrão mais venturosos com seus erros, que
outros com seus acertos l
(P. Ant. Vieira).

Outro discreto, fazendo conta aos bens que possuia, dizia :
« Tenho tanto em raizes, tanto em moveis, tanto em escravos,
e
tanto em amigos, » achando, e com razão, que esta ultima
addição merecia igual ou melhor lugar que as outras
.
(P. Man. Bernardes).

Este é o primeiro privilegio dos pobres, a quem a Providencia
Divina
, quanto nega de abundancia e regalo, tanto
accrescenta de vida. (P. Ant. Vieira). — (… accrescenta tão
grande porção
de vida, quão grande porção de abundancia
e regalo ella nega
).

Se em todas as mesas se bebêra por esta taça, não se comera
em tantas o pão alheio. e, se, no Brazil, dêramos em
desenterrar caveiras
, em quantas pudêramos escrever a mesma
letra
 ! (P. Ant. Vieira).

3.° São adverbios quando modificativos de um verbo,
participio, adjectivo ou outro adverbio.

Ex. quanto sobe violentamente o querer para cima, tanto
desce
, sem querer, o poder para baixo. (P. Ant. Vieira).

quanto menos nos resta de vida, tanto mais devemos
procurar seja honesta
. (P. Man. Bernardes). — (Devemos procurar
que seja a vida
tanto mais honesta, quanto menor
porção
desta mesma vida nos resta).

O mesmo Salomão foi o que destruiu o que tanto ennobreceu
e exaltou. (P. Ant. Vieira). — (… tão afanosamente…).

Quanto melhor lhe fôra, ao voador, mergulhar por baixo
da quilha
 ! (P. Ant. Vieira). — bem mais proveitoso…).

Tanto que constituo uma locução conjunctiva.

Ex. Todo o curioso tomara ser na poesia um Homero;
 ;
mas, tanto que se reflecte no trabalho com que se vencem as
fraldas do Parnaso, já se não quer ser poeta
. (P. D. Raphael
Bluseau). — (… mas, logo que, desde que…).

quanto a constitue uma locução prepositiva.

Ex. quanto ás minas de ouro, vagamente por todas as
137partes, tirão todos, e tirárão sempre em grão e pó... maior
quantidade do que pareceu
. (Franc. do Brito Freire).

Que

175. Não ha em portugucz vocabulo de determinação
tão complexa como que, porquanto cabe em cinco classes
de palavras, sendo, conforme a sua funcção, adjectivo indefinito,
pronome relativo, pronome indefinito, adverbio ou
conjuncção.

1.° E’ adjectivo indefinito quando, apposição de um
substantivo ou pronome, deixa-se analyticamente resolver
em qual, quaes, ou, por assimilação, em quanto, quanta,
quantos, quantos
.

Ex. Vêde que segurança póde ter o merecimento, ou
que immunidade a innocencia em tal juizo ! (P. Ant. Vieira).
— (Vêde qual, quanta segurança… ou qual, quanta immunidade…).

« Não sei, Senhor, que tempos, nem que desgraça é
esta nossa!
 » (P. Ant. Vieira). — (… quaes tempos… qual
desgraça…
).

Se alguem, pois, colhendo uma flôr destas, a desfolhar,
que mão de official será tão poderosa, que faça outra que
iguale com ella ?
(Fr. Luiz de Granada). — (… qual mão…).

Mas, que alvitre vos parece que será este ? que meio
vos parece que se pode dar para um homem em toda a sua
vida ter o pão certo ?
(P. Ant. Vieira). — (… qual alvitre…
qual meio…
).

Se aquellas rumas de façanhas em papel forão conformes
aos seus originaes
, que mais queriamos nós ? (P. Ant. Vieira).
— (… qual outra cousa…).

2.° É’ pronome relativo quando, referindo-se declaradamente
ao substantivo ou pronome de uma proposição
anterior, e sendo convertivel em o qual, a qual, os quaes,
,
as quaes, faz o officio de sujeito ou de complemento.

Ex. Que homem ha que não busque o descanço ? (P.
Ant. Vieira). — (… Que homem ha — o qual não busque o
descanço ?
).

O tempo é o maior thesouro que a natureza fiou do
homem
. (P. Ant. Vieira). — (… o maior thesouro — o qual
a natureza…).138

S. Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer
a fealdade deste escandalo, mostrou-lh´o nos peixes; e
eu que
prego
aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é,
quero que o vejais nos homens.-
(P. Ant. Vieira). — (s. Agostinho,
o qual pregavae eu — o qual prego…).

3.° E’ pronome indefinido quando, não se referindo declaradamente
a nenhum substantivo ou pronome anterior,
e sendo convertivel em que cousa ou cousa que, faz o
officio de sujeito, do complemento, ou até de predicado.

Ex. Que se segue deste tão desordenado querer ? (P. Ant.
Vieira). — (que cousa se segue…).

Que faz o lavrador na terra, cortando-a com o arado ?
(P. Ant. Vieira). — (O lavrador faz que cousa… ?).

Que é o nascer senão o remedio de não ser ! (P. Ant.
Vieira). — (O nascer é que cousa…).

Ainda falta que ponderar, e é a coroa de tudo. (P. Ant.
Vieira). — (Ainda falta cousa que ponderar…).

Desta traça, dizião elles, não póde Christo escapar. Mas,
coitados ! armarão teias de aranha
, que vem a dizer : é tudo
nada
 ! (Fr. João de Ceita). — (… cousa que vem a dizer…).

4.° E’ adverbio quando, actuando como modificativo
em um participio, adjectivo ou adverbio, é convertivel em
quão.

Ex. Plinio disse estas notaveis palavras : « Que innocente,
que bemaventurada
e que deliciosa seria a vida
dos homens, se elles se contentarão com o que nasce sobre a
terra
 ! » (P. Ant. Vieira). — (… quão innocente, quão
bemaventurada
e quão deliciosa…).

Se alguem visse, desde um pôsto eminente, todas as mudanças
que no mundo succedem em espaço de meia hora
, que
admirado
ficára de ver a furia com que esta roda se revolve !
(P. Man. Bernardes). — (… quão admirado…).

Que alegre era o espirito do Çreador quando fez rir os
prados em tanta variedade de flores
 ! que liberal quando os
coroou de fructos
 ! (P. Man. Bernardes). — (quão alegre…
quão liberal…).

Note-se que artificioso, que prudente, e com que dissimulação
procede S. Paulo
 ! (Fr. João Pacheco.). — (Note-se
quão artificioso, quão prudente…).

O´ reis, ó monarchas do mundo ! que, por esta causa, e
139só por esta, é digna de compaixão a vossa suprema fortuna !
(P. Ant. Vieira). — (… quão digna de compaixão é…).

5.° E’ conjuncção quando, sendo inconvertivel em qualquer
outra expressão, ou sendo-o tão sómente em outra
conjuncção como senão, ou em uma locução conjunctiva
como do que, etc., serve de mero nexo entre palavras ou
proposições.

Ex. « Sei eu, Senhor, que, só por amor dos innocentes,
dissestes, alguma hora
, que não era bem castigar a Ninive. »
(P. Ant. vieira).

E’ certo que todos desejais o descanso ; é certo que todos
o buscais com grande trabalho por diversos caminhos, e
que
o não achais. (P. Ant. Vieira).

Será justo que possa mais comnosco o odio particular
que o amor publico ? (P. Ant. Vieira). — (…o odio particular
do que o amor publico ?).

Póde haver maior desgraça que não ter um homem bem
algum digno de inveja ?
(P. Ant. Vieira). — (… maior desgraça
do que não ter um homem…).

Muito ferro e muito bronze, muito ouro e muita prata
tinha a estatua ; mas, porque lhe faltou a união, não lhe servirão
de nada mais todos esses metaes bellicos e ricos
, que
de accrescentar maior peso para a cahida. (P. Ant. Vieira). —
(… senão de accrescentar…).

Equidade não é outra cousa que o dictame da razão natural
na mente ou na consciencia do bom varão
. (P. Man.
Bernardes). — (… senão o dictame…).

Quando o casamento não trouxera outro algum bem mais
que livrar de tantos males, justamente merecia o nome de santa
e doce vida
. (D. Franc. Man. de Mello). — (… do que livrar
senão livrar…).

Ora, alviçaras ! quelá vai tudo isto! (D. Franc. Man.
do Mello). — (… jã que — visto quelá vai…).

Quejando

176. Quejando, de uso pouco frequente, apenas differe
do tal em significação por um toque de ironia, o costuma
entretanto ir-lhe associado, por pleonasmo, junto a um
substantivo, na qualidade de adjectivo indefinito composto,
o com a funcção de apposição.

Ex. Taes e quejandas necedades dizem os matasanos,
que só quem os não entende, deixa de rir-lhes na cara
.140

177. Só — é adjectivo ou adverbio : adjectivo quando,
sendo relacionado com um substantivo ou pronome na
qualidade de apposição ou de predicado, deixa-se substituir
por sózinho, ou associar a unico ; adverbio quando convertivel
em sómente.

Ex. Bastou umadesunião para derribar e desfazer
quatro imperios
. (P. Ant. Vieira). — (… umae unica
desunião…).

Por isso, sendo a voz uma só, os rostos são muitos. (P.
Ant. Vieira). — (… sendo a voz uma só e unica…).

Ohomens / quea vossa união vos ha de conservar, e
a vossa desunião vos póde perder ! (P. Ant. Vieira). —
(…que sómente a vossa união e sómente a vossa desunião…).

A sós — constitue uma locução adverbial, com a qual
equipara-se em sentido a locução de mesma origem etymologica
a solas.

Tal

178. Tal é adjectivo quando apposição ou predicado,
e pronome quando sujeito ou complemento.

Ex. (adj.) A difficuldade está em achar taes amigos,
porque são mui raros. (P. Man. Bernardes).

Pois, como appeteceis o que não podeis ? Porque tal é a
cegueira de um entendimento ambicioso. (P. Ant. Vieira).

(Pron.) Amizade procedida de comer e beber e passear
juntos não merece o nome
de tal. (P. Man. Bernardes).

Cruzar-me-hei, se tal me mostrarem. (Fr. Luiz de Souza).

Podem-se estimar estas porcellanas dos maiores principes
por delicia e curiosidade, e
por tal se têm em Portugal.. (Fr.
Luiz de Souza).

Todo

179. todo é adjectivo quando apposição e é pronome
quando sujeito ou complemento.

Ex. (adj.) Lançai os olhos por todo o mundo, e vereis
que
todo elle vem a resolver-se em buscar pão. (P. Ant,
Vieira).141

Supposto, pois, que todos havemos de morrer (e todos
imos para a sepultura), o maior favor que Deos póde conceder
a um mortal, é que morra e chegue lá mais tarde
. (P. Ant.
Vieira). — (… que todos [nós] havemos de morrer, e todos
[nós] imos…).

(Pron.) Os reis são senhores de todos, mas são tambem
captivos
de todos : a todos mandão como reis, e de todos
são julgados como réos. (P. Ant. Vieira).

Dos adjectivos qualificativos

180. Em juxtaposição ás quatro especies de adjectivos
determinativos apresentão-se os qualificativos, mas com
a differença que estes, embora numerosíssimos, não se subdividem.

Entre as propriedades geralmente inherentes aos qualificativos,
como tambem aos participios variaveis, avulta a
que lhes proporciona o meio de, sob tres aspectos distinctos,
chamados grãos de significação, enunciar diversamente as
idéas do que são a expressão, e vem a ser, ou simplesmente
ou com comparação, ou em ponto subido. No primeiro caso,
o gráo diz-se positivo ; no segundo, comparativo ; no terceiro,
superlativo.

181. O adjectivo está no positivo quando sua significação
não apparece modificada em alcance por nenhum
adverbio de quantidade. Ex. Pão alvo. Fructa saborosa.

182. O adjectivo está no comparativo quando, sob a
influencia dos adverbios tão, mais ou menos, assume em
relação a outro termo, uma feição de igualdade, de superioridade
ou de inferioridade. Ex. Pão tão alvo… Pão
mais alvo… Pão menos alvo…

O comparativo do igualdade (tão) liga-se ao termo
subsequente por como ou quão, se este é tambem um adjectivo
qualificativo ou um participio variavel. Ex. Pão tão
alvo como ou quão saboroso
. — Rei tão amado como ou
quão respeitado
. — Se, porém, o segundo termo for de
outra especie de palavras, só se usa de como. Ex. Pão tão
alvo como este
, não ha no mercado. — Rei tão favorecido
como salomão
nunca houve. — a consequencia era tão barbara
e brutal como quem a inferia. (P. Ant. Vieira).

O comparativo de superioridade (mais), e o de inferioridade
(menos) ligão-se indifferentemente ao segundo
termo por que ou do que em todas as hypotheses. Ex.
Pão mais ou menos alvo que ou do que saboroso. — Rei
142mais favorecido e menos chorado que ou do que salomão,
nunca houve.

Excepção. Os quatro qualificativos : grande, pequeno,
,
bom e máo constituem irregularmente o seu comparativo
de superioridade, por o tirarem directamente da forma
latina :

maior | melhor,
menor | peior
.

Todavia o uso legitimou as duas locuções regulares
mais pequeno o mais máo. Ex. O imperio lusitano-indio
está reduzido a tão poucas terras e cidades, que se póde duvidar
se foi aquelle Estado
mais pequeno no principio do que
se vê no fim
. (Man. Godinho).

Observação. Os adjectivos anterior e posterior, exterior
o interior, superior e inferior, ulterior e citerior, que se assemelhão
aos quatro procedentes por identidade de origem, o
paridade de terminação, forãó, por isso tambem, assaz geralmente
declarados comparativos de superioridade irregulares,
ou de forma latina ; porém tal apreciação é de todo o ponto
errada.

Não ha duvida que os referidos vocabulos forão comparativos
de superioridade em latim ; mas, passando para
o portuguez, ahi apparecêrão como meros positivos. Duas
considerações o comprovão terminantemente :

1.° Ao passo que os quatro primeiros adoptão, com
toda a propriedade, como os mais comparativos da mesma
especie, a ligação que ou do que ante o termo subsequente,
os oito ultimos a rejeitão categoricamente. Pois, se
todos concordão em dizer, por exemplo : Este café é melhor
ou peior que ou do que aquelle, a ninguem occorrerá dizer,
por assimilação : Este café é superior ou inferior que ou
do que aquelle, e sim : é superior ou inferior aquelle.

2.° Se, por uma redundancia insoffrivel, é perfeitamente
illicito dizer : tão maior, tão menor ou mais melhor, menos
peior
, não o é, de modo algum, em relação ás locuções
tão superior, tão inferior ; — mais exterior, menos interior,
etc. Portanto são de per si simples positivos.

Os vocabulos junior o senior, tambem etymologicamente
comparativos do superioridade em latim, passárão
para o portuguez com o significado de meros cognomes, e,
nesta qualidade, não desistem da maiuscula inicial, porque
se confundem em um mesmo substantivo composto com os
143nomes proprios a que se ajuntão, o primeiro, com o sentido
de mais moço, e o segundo, com o de mais idoso.

183. O adjectivo está no superlativo quando, por um
accrescimo de palavras, ou uma modificação terminativa,
declara uma qualificação levada ao auge.

Sendo constituido por accrescimo de palavras, o superlativo
chama-se composto ; sendo-o por modificação terminativa,
chama-se de incremento.

184. Os superlativos compostos formão-se pela anteposição
ao adjectivo de algum adverbio do quantidade,
como mui, muito, pouco, excessivamente, extremamente,
etc., e tambem, o que merece especial reparo, pela anteposição
dos mesmos adverbios tão, mais e menos, constitutivos
dos tres comparativos, porém desta vez faltos de
um segundo termo com que se meção em igualdade, superioridade
ou inferioridade, e, conseguintemente, desacompanhados
das respectivas ligações como ou quão correlativamente
a tão, e que ou do que correlativamente a mais e
a menos.

Exemplos :

(Mui). O coração do homem é mui generoso, e o da
mulher
, mui delicado. (P. Ant. Vieira).

(Muito). Este meio, eu confesso que é muito bom. (P.
Ant. Vieira).

(Pouco). Diz o rei que quer fazer uma guerra ; e, ainda
que a empreza seja
pouco provavel, que respondem os echos?

Guerra ! guerra ! guerra !
(P. Ant. Vieira).

(Tão). Quem ha de restituir o tempo a quem perde o
tempo que havia mister ? Oh ! tempo
tão precioso e tão perdido !
(P. Ant. Vieira).

(Mais). Vem cá, Lucifer ! vem cá, Adão ! tu anjo, e o
mais sabio de todos os anjos; tu, homem, e o mais sabio de
todos os homens
 ! (P. Ant. Vieira).

S. Ambrosio diz que a peior terra é a mais esteril, e
o melhor campo é o que, na primavera, se mostra mais enfeitado
com os mais luzidos esmaltes das mais lindas
flores. (P. Balthazar Telles).

E os céos, a quem o propheta chamou livros, que contão
as obras
mais gloriosas do Creador, não deixão de ser bons
historiadores quando se mostrão, aos olhos
, mais estrellados,
e quando se ostentão, á vista, mais resplandescentes, (P. Balthazar
Telles).144

(menos). Taes são os aduladores de palacio, ainda os de
maiores obrigações, e de
menos corrupto juizo. (P. Ant.
Vieira),

Se, com um desengano dado a tempo, os homens ficão
menos queixosos, porque se ha de entreter o pobre pretendente ?
(P. Ant. Vieira).

Pois crêde-me! o banco de Veneza póde quebrar, como
está hoje
menos seguro com a guerra do Turco ; e o de Deos
não ha de quebrar nem quebrou nunca
. (P. Ant. Vieira).

Observação. Se a determinação dos gráos de significação
tem certa importancia pelos dados que fornece em
um systema arrazoado de pontuação, é mórmente em relação
a tão ; porquanto, concorrendo este vocabulo a formar
construcções bastante diversas, ora avoca a virgula, ora a
rejeita.

tão, correspondido por quão ou como, constitue um
comparativo ; não correspondido, constitue um superlativo.
Ambos os gráos de significação encontrão-se representados
no seguinte exemplo :

E’ possivel que uma cousa tão pequenia, tão branda,
tão leve e tão mudavel como a lingua
, (Comparativo)
tenha poder para vos pôr ás costas um jugo tão pesado,
tão duro e tão durador !
(Superlativo). — (P. Man. Bernardes).

Porém ainda forma um superlativo quando vai correspondido
por que. Ex. Isto de ter inimigos é uma semrazão
ou injuria
tão honrada que ninguem se deve doer ou offender
delle
. (P. Ant. Vieira). — « Foste tão mofino, que passaste
toda a vida sem ter inimigo
. » (P. Ant. Vieira). — « Ainda
não tenho feito acção
tão generosa e honrada, que me
grangeasse inimigos l
 » (P. Ant. Vieira).

Por isso é que o adjectivo tamanho, a, os, as, contracção
de procedencia latina (tam magnus) equivalendo a
tão grande, constitue sempre um superlativo ; pois nunca
lhe corresponde como nem quão. Ex. Mas forão meus peccados
tamanhos, que cerrárão os ouvidos á clemencia infinita
do Senhor
. (Fernão Mendes Pinto).

E, dado o caso que o mesmo se póde fazer em Castella,
por ventura a necessidade será lá
tamanha, e a esmola tão
bem empregada ?
(D. Hieronymo Ozono).

185. O superlativo de incremento se forma normalmente
pela conversão da syllaba terminal do adjectivo em
issimo, issima, issimos, issimas. Em significação, equivale
145ao superlativo composto por meio de mui ou muito. Ex.
Pão alvissimo. — Fruta saborosissima. — (Pão mui alvo.
Fruta mui saborosa).

Observação. Sendo o superlativo de incremento um
mero traslado do latim, succede que sua formação apresenta
numerosas anomalias, porque, na lingua originaria, o
incremento variava conforme a terminação do adjectivo, e
porque aquellas mesmas variedades muitas vezes se perpetuarão
tradicionalmente em portuguez ao lado da forma
normal (assim em paupérrimo de pauper, por pobríssimo do
pobre), ou a supplantárão totalmente (assim em miserrimo
de miser, cujo representante em portuguez : misero, não se
compadece com a forma normal).

Assim é que se explicão as formas felicissimo de
felix, félicis (feliz) ; — liberrimo de liber (livre) ; — nobilissimo
de nobilis (nobre) ; — sapientissimo de sapiens, sapientis
(sabio) ; — sacratissimo de sacratus (sagrado) ; — dulcissimo
de dulcis (doce) ; — acerrimo de acer (acre) ; — amabilissimo
de amabilis (amavel) ; — celeberrimo do celeber
(celebro) ; — humillimo de humilis (humilde) ; — christianissimo
de christianus (christão) ; — integerrimo de integer
(integro) ; etc.

Acontece até que os dous superlativos uberrimo e
feracissimo (mui fertil) carecem um e outro de positivo
em portuguez.

Os quatro positivos grande, pequeno, bom e máo são
cada um dotados de dous superlativos de incremento ; um
do formação normal, e outro, de procedencia latina : grandissimo,
,
maximo ; — pequenissimo, minimo ; — bonissimo,
,
optimo ; — malissimo, pessimo. — Não se sóe, todavia, empregar
indifferentemente uma forma por outra. Ex. Um
bonissimo presente. — Um optimo resultado. — Mas ahi só
póde a pratica dos bons autores, por via de assiduos exercios
de analyse, servir de inducção na escolha.

A mesma pratica dá igualmente a conhecer que um
numero assaz avultado de adjectivos se negão a constituir
superlativos de incremento, embora se prestem a formar
superlativos compostos. Assim é que o uso não tolera
exiguissimo, embora admitta mui exiguo.

186. Porém cumpre notar que todo e qualquer adjectivo
cuja significação é tão absoluta, que foge a uma
feição de diminuição ou de augmento, não passa do gráo
positivo. Deste genero são os adjectivos eterno, infinito, incommensuravel,
commensuravel, immenso, omnipotente, exsangue
, etc., como
146tambem todos os numeraes ordinaes, que a outros respeitos
podem ser equiparados aos qualificativos. Errou, portanto,
um escriptor, aliás bem conceituado, quando disse : « Nestas
praças havia innumeraveis munições de guerra, e
mais innumeraveis
petrechos de armada. » Pois, para um innumeravel
ser mais innumeravel do que outro innumeravel, forçoso
seria que fosse numeravel !

Acertou, porém, no mesmo caso João Franco Barreto
quando disse : « O Senhor quiz que sua doutrina fosse acompanhada
de
innumeraveis, proveitosíssimos e gravissimos milagres.
» Pois não se deixou induzir, pela colligação dos
superlativos proveitosissimos e gravissimos, a formar o
superlativo illogico do innumerabilissimos.

187. Outrosim não fallece aos adjectivos a propriedade
de se apresentar como augmentativos ou diminutivos, assim
em soberbaço de soberbo, em velhaquete de velhaco, etc.
Ex. Veiu depois uma pobrezinha viuva, e lançou dous ceitis
de cobre
. (P. Man. Bernardes). — Quem dirá que um bichinho
tamanhino, que quasi escapa da vista perspicaz e attenta,
qual é o chamado acarí, que se cria na cera corrupta, ha
lugar para a organisação de tantos membros, de que é força
confessar a razão que se compõe ?
(P. Man. Bernardes). —
Todavia este recurso litterario roça tão de perto a affectação,
que mal convem soccorrer-se a elle fora do estylo
familiar.

Formação do feminino
nos adjectivos qualificativos

188. O feminino dos adjectivos forma-se dos seguintes
modos :

1.° Os adjectivos terminados em — o — trocão esta letra
por a. Ex. Alvo, alva ; asperrimo, asperrima. — São exceptuados
máo, ilhéo, judéo e sandéo que fazem má, ilhôa,
judia, sandia. — Jáo
, não tendo feminino proprio, póde ser
substituido neste requisito por javanez, javaneza.

2.° Os adjectivos terminados em ez, ol, or e u tomão
mais a. Ex. Portuguez, portugueza ; hespanhol, hespanhola ;
vivificador, vivificadora ; cru, crua
. — São oxceptuados cortez,
montez, — maior, menor, melhor, peior, — exterior, interior,
superior,inferior, anterior, posterior, ulterior, citerior, — bicolor,
tricolor, multicidor o semsabor
, que não mudão passando
para o feminino.147

Observação. Cumpre não confundir com o adjectivo
melhor o substantivo melhora, mais habitualmente usado no
plural (O doente tem tido algumas melhoras) ; nem tão pouco
com o adjectivo superior o substantivo superior (de convento),
cujo feminino é superiorA (de convento).

3.° Os adjectivos terminados em e, al, el, il, ul, ar,
,
er, az, iz, oz, m, n e s não mudão passando para o feminino.
Ex. Assumpto ou cousa grave. — Caso ou questão
geral. — Criado
ou criada fiel. — Recurso ou intervenção util.
.
Panno ou seda azul. — Quarto ou casa particular. — Homem
ou mulher esmoler. — Espirito ou intelligencia perspicaz.
.
Acaso, ou circumstancia feliz. — Leão ou leôa feroz. — Negocio
ou especulação ruim. — Alfaiate ou costureira joven. —
Menino
ou menina simples. — Porém bom faz boa. — Quanto
aos adjectivos cabrum, ovelhum, vaccum, e mais alguns analogos,
não têm feminino determinado, por andarem exclusivamente
appostos ao substantivo gado.

4.° Dos adjectivos terminados em Ão, uns trocão este
diphthongo pelo de ãa, como são, sãa ; chão, chãa ; christão,
christãa
 ; outros pela terminação ona, como respingão, respingona;
 ;
chorão, chorona ; valentão, valentona ; outros emfim,
pela terminação ôa, como velhação, velhacôa, etc.

Appendice
sobre a formação do feminino nos substantivos

189. Um certo numero de substantivos têm com os
adjectivos a notavel analogia de variaveis, não só em numero,
senão tambem em genero, o que mais de uma vez
fê-los confundir, com summa impropriedade para a determinação
das funcçõcs syntaxicas, com os genuinos adjectivos.
Haja vista, a tal respeito, a tão elogiada grammatica
franceza de Noël e Chapsal, e outras do igual jaez, que
citão ingenuamente como adjectivos qualificativos : ambassadeur
(embaixador), gouverneur (governador), serviteur
(servidor), auteur (autor), professeur (professor)
, etc., etc., etc.
Só faltava accrescentar : pére (pai), empereur (imperador),
roi (rei)
… e quanto substantivo masculino tem correlativo
feminino. Taes substantivos são geralmente os que designão
as pessoas pelo seu estado social, e os animaes pelo
seu genero dentro da especie. Ex. senedicto, senedicta ; —
o esposo, a esposa ; — o irmão, a irmãa ; — o marquez, a
marqueza ; — o professor, a professora ; — o cozinheiro, a cozinheira ;
148— o gato, a gata ; — o coelho, a coelha ; — o leão, a
leóa
, etc.

190. Nesta assimilação de variabilidade entre substantivos
o adjectivos dá-se, todavia, uma excepção que merece
reparo ; pois, ao passo que os adjectivos terminados em e,
como leve, grave, etc., não mudão passando do masculino
para o feminino, os substantivos, no mesmo caso, trocão
geralmente e por a. Ex. O parente, a parenta ; — o mestre,
a mestra ; — o infante, a infanta
 ; — o hospede, a hospeda ;
— o freire, a freira
, etc.

191. Alguns outros substantivos da mesma categoria
formão o seu feminino por modos notavelmente irregulares ;
os principaes são : O autocrata, a autocratiz ; — o imperador,
a imperatriz ; o rei, a rainha ; — o sultão, a sultana ;
— o principe, a princeza ; — o duque, a duqueza ; — o conde,
a condessa ; — o visconde, a viscondessa ; — o barão, a baroneza ;
— o embaixador, a embaixatriz ; — o abbade, a abbadessa ;
— o prior, a prioreza ; — o propheta, a prophetiza ; — o sacerdote,
a sacerdotiza ; — o diacono, a diaconiza ; — o poeta,
a poetiza ; — o actor, a actriz ; — o patrão, a patroa ; — o
ladrão, a ladra, ladrôa ou ladrona
.

Da formação do plural
nos adjectivos qualificativos

192. Os adjectivos qualificativos formão o seu plural
como os substantivos de terminação correspondente. São
exceptuados :

1.° Os adjectivos em il, dos quaes só os do terminação
forte, como vil, hostil, pueril, infantil, etc., formão o seu
plural em ís, — vis, hostis, pueris, infantis, etc., ao passo
que os do terminação fraca, como debil, fertil, futil, habil,
etc., o formão em eis, — debeis, ferteis, futeis, habeis, etc.

2.° Os seguintes adjectivos em Ão que se desenvolvem
nas suas quatro formas polo modo que se segue :

tableau Singular | Plural
Masc. | Fem. | Masc. | Fem.
allemão, | allemãa, | allemães, | allemãas ;
catalão, | catalãa, | catalãos, | catalãas ;
chão, | cliãa, | chãos, | chãas ;
rabão, | rabona, | rabãos, | rabonas ;
são, | sãa, | sãos, | sãas ;
temporão, | temporãa, | temporãos, | temporãas
vão, | vãa, | vãos, | vãas.
149

Observações
sobre os adjectivos qualificativos

193. Assim como os determinativos deixando do ser
adjectivos passão a ser pronomes, assim tambem os qualificativos
doixando de exercer as funcções de apposição ou
do predicado para assumirem directamente as do sujeito
ou de complemento tornão-se substantivos. O seguinte
exemplo, tanto melhor se presta á demonstração do caso,
que, junto a dous adjectivos determinativos passados a
pronomes, adduz dous adjectivos qualificativos passados a
substantivos.

« O Senhor obrava os seus milagres em presença de
muitos e de poucos (pron.), de sabios e de ignorantes
(subst.). — (João Franco Barreto).

Com os qualificativos compartem a mesma propriedade
os participios variaveis. Ex. Vejão os odiados ou pensionados
do odio se se devem prezar ou offender de ter inimigos l
(P. Ant. Vieira).

Estes substantivos adventicios aceitão, aliás, o amparo
de outro qualificativo ou participio como apposição, ou o
do complemento indirecto proprio dos substantivos genuinos
(com a prepos. de). Ex. Não ha velha tão carregada
de annos, nem velho de tão podres membros que
não tenha o coração são para cuidar ruindades, e a lingua
inteira para dizer mentiras
. (P. Ant. Vieira). — « Oh ! Senhor !
como tudo isto me está, com mudas vozes, significando

o acertado de vossas disposições, o robusto de vosso
braço
, e o immovel de vosso throno ! (P. Man. Bernardes).

Entretanto, mesmo neste novo estado, não perdem
elles a faculdade inherente á sua qualidade originaria ou
adjectival de assumirem os diversos gráos de significação.

Ex. E todos os mais ricos e abundantes do mundo,
para onde vão ?
(P. Ant. Vieira).

Frei Thomaz da Costa fazia derreter em lagrimas até os
mais descompostos na vida. (Fr. Luiz de Souza).

194. Por uma compensação natural, os mais genuinos
substantivos podem vir a ser accidentalmente adjectivos
qualificativos. O caso se dá todas as vezes que, deixando
do designar um ente, passão a exprimir uma qualificação.
Ex. « Oh ! soldado mais valente, mais guerreiro, mais generoso,
mais prudente e
mais soldado que eu ! (P. Ant. Vieira).
Com mulheres não sabe o homem como ha de haver-se... se
150as frequenta, é mais que louco ; se não as frequenta, é menos
que
homem. (P. Ant. Vieira). — Tudo isto sahe do sangue e
do suor dos tristes indios, aos quaes trata como
tão escravos
seus
, que nenhum tem liberdade, nem para deixar de servir a
elle, nem para poder servir a outrem
. (P. Ant. Vieira). —
Os sujeitos de que fallamos, são mais declamadores que
ministros. (Duarte Ribeiro de Macedo). — Que tendes, que
possuís, que lavrais, que trabalhais que não houvesse de ser
necessario para o serviço de el rei, ou dos que se fazem mais
que
reis com este especioso pretexto ! No mesmo dia havieis
de começar a ser
feitores, e não senhores de toda a vossa
fazenda
. (P. Ant. Vieira).

Capitulo V
Do pronome

195. Pronome é uma palavra variavel que, substituindo-se
aos substantivos, e até a pronomes de especie
diversa, faz todas as funcções proprias do substantivo, com
a dupla vantagem de aclarar a dicção pela simplificação
das formas, e de suavisá-la pela eliminação de repetições
fastidiosas. Pois, a não haver pronomes, em vez de dizer-se,
por exemplo : « Horrorisado de si mesmo, o Iscariotes se
matou », forçoso seria dizer : « Horrorisado do mesmo Iscariotes,
o Iscariotes matou ao proprio Iscariotes
 », formula essa
que a usança dos pronomes torna simplesmente intoleravel.

196. Porém a substituição dos substantivos pelos pronomes
verifica-se de dous modos bem diversos : em uns
casos, determinadamente ; em outros, indeterminadamente.
Dahi duas especies de pronomes ; os instaveis e os estaveis.

1.° A substituição é determinada quando o pronome
allude claramente a um substantivo ou outro pronome anterior,
ou ainda a um pronome ou substantivo apenas subentendido.
Tres exemplos bastão para a demonstração
destas varias hypotheses.

Primeiro exemplo :

E houve algum homem tão mimoso da fortuna neste
mundo
, que, em alguma ou em todas as cousas delle, achasse
151o descanso que buscava ? nenhum. (P. Ant. Vieira). — Cada
um dos quatro pronomes ahi assignalados tem uma referencia
innegavel a algum substantivo anterior : pois o primeiro
que allude evidentemente ao substantivo homem (o
qual homem) ; — delle allude ao substantivo mundo (as
cousas do mundo
) ; — o segundo que allude ao substantivo
descanso (o qual descanso) ; — emfim nenhum allude não
menos claramente ao substantivo já uma vez substituido :
homem (Nenhum homem). — Os substantivos ou pronomes
assim representados por um pronome posterior chamão-se
antecedentes.

Segundo exemplo :

Uns para uma parte, outros para outra, todos estão
cansando-se em buscar o descanso, e
todos estão cansados de
o não achar
. (P. Ant. Vieira). — Embora os quatro pronomes
ahi particularmente assignalados : uns, outros, todos
e todos, não se refirão a nenhum substantivo ou pronome
anteriormente expresso, o espirito não vacilla, á vista do
teor da oração, em assignar-lhes, como antecedente, o substantivo
subentendido homens. Portanto, neste caso tambem,
póde-se considerar a substituição como determinada.

Terceiro exemplo :

Todos os que. andais cansados, vinde a mim, diz Christo,
e eu vos alliviarei
. (P. Ant. Vieira). — Restabelecidos na sua
ordem logica, os diversos pensamentos desta oração se succedem
como se segue : « Christo diz : Vinde (vós) a mim
todos os
que andais cansados, e eu vos alliviarei » — Embora
o trecho assim disposto não lucre nada em lucidez de expressão,
todavia presta-se melhor a demonstrar que o antecedente
de que é o subentendido pronome vós, sujeito
occulto de vinde (vós os quaes andais cansados…).

Ora, por uma lei que lhes é a todos commum, os pronomes
desta especie, isto é, os instaveis, concordão com
o seu antecedente, não só em genero e numero, senão tambem
em pessoa, para, por este modo, assignalar com mais
certeza a palavra por elles substituida.

Todavia esta concordancia só se patenteia irrecusavelmente
nos pronomes caracteristicos de genero e numero,
como o são delle e nenhum no primeiro exemplo, e uns,
,
outros e todos no segundo. Quando, porém, como que,
não são caracteristicos, nem de numero, nem de genero,
forçoso é, para destrinçar nelles a concordancia, soccorrer-se
ao processo da substituição (o qual, a qual, os quaes, as
quaes
), ou a outras considerações não menos concludentes.152

Assim é que o relativo que do terceiro exemplo não é só
masculino plural por ser convertivel em os quaes, mas ainda
porque o seu predicado cansados, que com elle necessariamente
concorda, ostenta o mesmo genero e numero. Além
disso deduz-se facilmente que o mesmo pronome assumiu a
segunda pessoa do plural por substituição a — vós, — pela
regencia que, como sujeito, exerce em andais, do mesmo
numero e pessoa. e assim se acha verificado o aphorismo :
Que todos os instaveis concordão com o seu antecedente
expresso ou subentendido, não só em genero e numero,
senão tambem em pessoa.

2.° O mesmo não se dá com os estaveis. Por falta
de um antecedente, quer expresso, quer subentendido, ao
qual se possão referir, ficão sendo tidos como substituindo
um substantivo indeterminado que em si mesmos encerrão ;
mas, por isso mesmo, incapazes de concordancia, permanecem
impreterivelmente addidos a um só genero e numero,
que, fóra dos pronomes numeraes, é sempre o masculino
singular.

Exemplo :

Quem trabalha, trata da sua vida ; quem está ocioso,
trata das alheias
. (P. Ant. Vieira).

Tudo é vaidade, excepto amar e servir a Deos. (P.
Ant. Vieira).

Vestiu-se o sol de sangue, e o ar de luto ; e quem diz
que viu
mais não viu nada. (Luiz Torres de Lima).

Alli ninguem se queixa, nem da pobreza, nem dos achaques,
nem das paixões da alma, nem das miserias do mundo
.
(P. Man. Consciencia).

Isto de ter inimigos é uma semrazão ou injuria tão honrada,
que
ninguem se deve doer ou offender della. (P. Ant.
Vieira).

197. Considerados, porém, em relação á sua significação,
os pronomes, quer instaveis, quer estaveis, repartem-se
em seis classes : os pessoaes, os numeraes, os demonstrativos,
os possessivos, os relativos e os indefinitos
.

Dos pronomes pessoaes

198. São pessoaes os pronomes que, como sujeitos, constituem
as tres pessoas da dicção, quer no singular, quer no
plural, e que, como complementos ou predicados, as estão
recordando.153

tableau Singular | Plural
1.ª pes. | 2.ª pes. | 3.ª pes. | 1.ª pes. | 2.ª pes. | 3.ª pes.
(1) | eu, | tu, | elle (ella) ; | nos, | vos, | elles (ellas).
(2) | me, | te, | se ; | nos, | vos, | se.
(3) | mim, | ti, | si ; | nos, | vos, | si.
(4) | … | … | o (a) ; | … | … | os (as)
(5) | … | … | lhe ; | … | … | lhes.
(6) | … | … | elle (ella) ; | … | … | elles (ellas).
(7) | o (estav.)

199. A primeira linha abrange os referidos pronomes
no estado do sujeito, havendo tão sómente de notar-se que
nós o vós, em tal caso, não prescindem do accento agudo.
Exemplo :

tableau Eu amo | Nós amamos
Tu amos | Vós amais
Elle (ella) ama | Elles (ellas) amão.

200. a segunda linha abrange pronomes no estado de
complemento directo ou indirecto, porém, nesta segunda
hypothese, com occultação da preposição a, sendo, aliás,
em um como no outro caso, obrigatoria a eliminação do
accento agudo em nos e vos. Ex.

Primeira hypothese

tableau Eu me gabo | (analyticamente) | Gabo minha pessoa
Tu te gabas | Gabas tua pessoa
Elle (ella) se gaba | Gaba sua pessoa
Nós nos gabamos | Gabamos nossas pessoas
Vós vos gabais | Gabais vossas pessoas
Elles (ellas) se gabão | Gabão suas pessoas.

Segunda hypothese

tableau Eu me attribuo um direito… | (analyt.) | á minha pessoa
Tu te attribues um direito… | á tua pessoa
Elle (ella) se attribuo um direito… | á sua pessoa
Nós nos attribuimos um direito… | ás nossas pessoas
Vós vos attribuís um direito… | ás vossas pessoas
Elles (ellas) se attribuem um direito… | ás suas pessoas

201. A terceira linha abrange pronomes no estado de
complemento indirecto do proposição expressa, sendo que,
154em tal caso, nós e e vós não prescindem de accento agudo.
Ex.

tableau Fallo em mim | Fallamos entre nós
Fallas de ti | Fallais contra vós
Falla por si | Fallão de per si.

Observação. Achando-se sob a regencia da preposição
com, os mesmos pronomes contrahem-se como se segue :

tableau commigo, | comtigo, | comsigo,
comnosco
, | comvosco, | comsigo.

202. O pronome da quarta linha (o, a, os, as), caracterisado
pela faculdade do se deixar antepor ou pospôr ao
verbo, não exerce senão uma unica funcção, a de complemento
directo, sendo por isso summamente proprio para a
discriminação dos verbos activos ; pois basta que possa ser
adduzido, em sentido complementario, junto a um verbo,
para valer-lhe esta qualificação. Ex.

Ama o teu inimigo ; porque, se o não queres amar porque
é inimigo, déve-
lo amar porque é homem. (P. Ant. Vieira). —
(… porque, se não queres amá-lo porque é inimigo, deves
amá-lo porque é homem).

Com mulheres não sabe o homem como ha de haver-se;
 ;
se não as ama, têm-no por néscio ; se as ama, por leviano;
 ;
se as deixa, por cobarde ; se as segue, por perdido ; se as
serve, não o estimão ; se as não serve, o aborrecem ; se as
quer, não o querem ; se as não quer, o perseguem. (P. Ant.
Vieira).

Nota. E’ peculiar deste pronome, não só ligar-se ao
verbo immediatamente anterior pela risca de união (E´ teu
inimigo, porém
ama-o), senão tambem apparecer em certos
e determinados casos, de que em outra parte tratar-se-ha,
sob as formas lo, la, los, las (… déve-lo amar…), e no,
,
na, nós, nas (… têm-No por néscio…), em virtude de duas
figuras de dicção chamadas anthitese e próthese.

203. O pronome da quinta linha (lhe, lhes), correspondendo
analyticamente ás locuções a elle, a ella, — a
elles, a ellas
, não é nem póde ser senão complemento
indirecto de preposição occulta. Ex.

Sabeis porque vos querem mal vossos inimigos ? Ordinariamente
é porque vêm em vós algum bem que elles quizerão
ter e
lhes falta (a elles).

A quem não tem bens, ninguem lhe quer mal (a elle).
— (P. Ant. Vieira).155

204. O pronome da sexta linha (elle, ella, — elles,
ellas
) ahi apparece segregado para significar que, sendo
tambem passivel da regencia de uma preposição, torna-se
neste estado, complemento indirecto. Ex.

Oh ! quanta verdade é que a figura deste mundo sempre
está passando, e nós
com ella. (P. Man. Bernardes).

Sendo de ou em as preposições que o regem, o mesmo
pronome com ellas se contrahe como se segue :

tableau delle, della, | delles, dellas,
nelle, nella, | nelles, nellas
.

Exemplos :

Taes são os bens da fortuna, que carecer delles é miseria,
e possuí-los, perigo
. (P. Ant. Vieira).

Cabe ira n´uma formiga; e basta que a natureza viva
naquelles atomos, para que
nelles offendida se dôa, nelles
aggravada morda, nelles tome satisfação de sua injuria. (P.
Ant. Vieira).

205. O pessoal isolado da setima linha (o estavel),
caracterisado, como o seu homonymo — o — instavel, pela
faculdade de ir anteposto ou posposto ao verbo, e neste
ultimo caso, de ligar-se a elle pela risca de união, emfim
de prestar-se igualmente á antíthese o á próthese, differe,
todavia do instavel, não só pela sua permanência no masculino
singular, como ainda por constituir, além do um
complemento directo junto a um verbo de acção, tambem
um predicado junto a um verbo de estado. Ex.

(Complem. dir.) Com estas abonações do juizo de Deos
entrou a luz no juizo dos homens : e, como vos parece que
sahiria delle ?
disse-o Christo no capitulo terceiro de S. João;
 ;
e foi preciso que o mesmo Christo o dissesse para que o créssemos.
(P. Ant. Vieira).

(Predicado). Oh ! que boa lembrança para a mesa dos
principes, e dos que o não
são ! (P. Ant. Vieira).

A differença fundamental que separa o pessoal instavel
— o — do seu homonymo estavel, deve ser procurada no
modo por que cada um delles procede na substituição
propria de todos os pronomes.

O instavel — o — sempre e necessariamente recorda um
substantivo ou outro pronome claramente determinado.
Ex.

Finalmente, o mesmo Deos condemna o meu inimigo porque
156é meu inimigo : pois, se Deos o condemna e aborrece,
porque o hei de amar eu ?
(P. Ant. Vieira). — Que ambos
os instaveis deste exemplo igualmente alludem ao substantivo
anterior « o meu inimigo », e com elle concordão em
genero e numero, torna-o evidente o processo da substituição :
« Finalmente, o mesmo Deos condemna os meus inimigos
porque são meus inimigos : pois, se Deos os condemna
e aborrece, porque
os hei de amar eu ? »

O estavel — o — , pelo contrario, quer seja complemento
directo, quer seja predicado, porta-se de modo muito diverso.

Como complemento directo, nunca se dirige pela referencia
a um substantivo ou pronome determinado, e sim a
um pensamento todo, ou ao menos a um conjuncto de palavras
onde nenhuma se presta a servir-lhe particularmente
de antecedente, sendo o mesmo pronome analyticamente
supprivel em tal caso, com bastante propriedade, pelo demonstrativo
tambem estavel isto, como mais adiante provar-se-ha.
Ex.

Accende e provoca esta batalha a trombeta da fama,
dizendo e bradando que é honra. Põe-se da parte do odio e
da vingança o mundo todo, que assim o manda, que assim
o
julga, que assim o applaude, que assim o tem estabelecido por
lei
. (P. Ant. Vieira). — (… que assim manda isto, que assim
julga
isto, que assim applaude isto, que assim tem estabelecido
isto por lei). — e tanto se verifica a nenhuma referencia
do mesmo pronome a algum substantivo determinado, que,
sendo todos os mencionados substantivos transferidos para
o plural, com nenhum delles vem a concordar o estavel — o.
« Põem-se da parte dos odios e das vinganças os homens todos,
que assim o mandão, que assim o julgão, que assim o applaudem,
que assim o têm estabelecido por lei
. »

Sendo predicado, a condição em que se acha o mesmo
estavel é muito diversa ; pois representa ás vezes doterminadamente
uma palavra anterior, mas uma palavra da
indole das que são essencialmente proprias a constituir um
predicado, e vêm a ser um adjectivo, um participio variavel,
ou quando muito um substantivo adjectivado. Ex.

No P. Antonio Vieira, tudo é casto nos termos, tudo o é
na phrase
. (D. Franc. Alexandre Lobo). — (… tudo é casto
na phrase).

Autores ha que se persuadem não estar o céo privado
de semelhantes recreações ; mas, quando o esteja destas, bem
sabemos que tem outras muitas e maiores
. (P. Man. Consciencia).
— (… mas, quando esteja privado destas…).157

Esperava eu que Sua Magestade mandasse que se me
desse uma satisfação
publica, porque o tinha sido a affronta.
(P. Ant. Vieira). — (… porque publica tinha sido a affronta).

Por ventura, a seguinte oração, em que o P. Ant.
Vieira falla dos lisonjeiros, presta-se a confirmar a allegação
anteriormente aventada que, quando complemento directo,
o pessoal estavel — o — póde ser tido por mero equivalente
de isto. « e, se isto não vêm claramente todos os reis, é
porque é tal o doce veneno da lisonja, que, entrando pelos ouvidos,
lhes cega tambem os olhos
. » — Pois nada obstaría a
que se dissesse com a mesma propriedade : « e, se o não
vêm claramente todos os reis
… »

Dos pronomes numeraes

206. São pronomes numeraes os adjectivos numeraes
cardeaes, e mais o distributivo ambos, quando, estando desligados
de todo e qualquer substantivo ou outro pronome,
exercem de per si mesmos as funcções de sujeito ou de
complemento. Ex.

No capitulo 82 do Deuteronomio,… Deos diz assim : « Tal
será o animo que infundirei em vossos corações, e o esforço
com que armarei vossos braços, que
um de vós vença e ponha
em fugida a
mil, e dous, a dez mil. » (P. Ant. Vieira).

Oh ! generoso principe, e prudente general, que soubeste
seguir e aprender de teu soldado ! Oh ! valente e sabio soldado,
que soubeste ensinar a vencer o maior general
 ! ambos
tocarão a recolher a tempo, e, por isso, seguirão a maior victoria,
porque fizerão a seu tempo a retirada
. (P. Ant. Vieira).

207. Em relação á estabilidade ou instabilidade, os pronomes
numeraes são ambiguos, visto como pertencem, conforme
o caso, já a esta, já áquella categoria.

São estaveis quando, tomados em abstracto, não alludem
a nenhum antecedente. Ex.

Em um ha unidade, mas não póde haver união; em
dous, que são duas unidades, já póde haver união. (P. Ant.
Vieira).

São instaveis quando, tomados em concreto, correspondem
formalmente a um substantivo determinado, do
qual recebem o genero e numero. Ex.

Se houvesse dous homens de consciencia, e outros que lhes
succedessem, não haveria inconvenientes em estar o governo

158dividido. Mas, se não houver mais que um, venha um, que
governe tudo, e trate do serviço de Vossa Majestade
. (P. Ant.
Vieira).

Se um só destes poderosos tendes experimentado tantas
vezes, que bastou para assolar o Estado, que farião tantos !

(P. Ant. Vieira).

Dos pronomes demonstrativos

208. São pronomes demonstrativos, não só os mesmos
adjectivos demonstrativos quando desligados de todo e qualquer
substantivo ou outro pronome, senão tambem mais
alguns vocabulos que com elles se aparentão pelo sentido,
ou delles procedem por derivação. Uns são instaveis ; os
outros estaveis.

209. Os instaveis são :

1.°

tableau este, a, es, as ; | est’outro, a, os, as.
esse, a, es, as ; | ess’outro, a, os, as.
aquelle, a, es, as ; | aquell’outro, a, os, as.

Exemplos :

Tudo está fervendo em movimentos que acabão e começão :…
aquelles cantão, e dalli a pouco chorão ; est’outros
chorão, e dalli a pouco cantão. (P. Man. Bernardes).

De que serve opprimir e afogar ao miseravel quando, por
mais que o apertem, não paga porque não tem ?
Por ventura,
a fome do pobre é prato do rico ? ou o padecer
aquelle,
é arrecadar este ? (P. Man. Bernardes).

2.°

tableau o, a, os, as.

Este vocabulo é pronome demonstrativo quando, sendo
analyticamente convertivel em aquelle, a, es, as, apparece
seguido do relativo que, ou inteirado por um complemento
indirecto. Differe, além disso, do seu homonymo pessoal,
que só pode constituir um complemento directo, pela faculdade
de exercer todas as funcçõos proprias dos pronomes
em geral, isto é, de ser sujeito, complemento directo ou
indirecto, predicado ou apposição. Ex.

Quantos forão mais venturosos com seus erros, que outros
159com seus acertos ! Algum que sempre errou, que nunca fez cousa
boa, nomeado, applaudido, premiado
 ! o que acertou, o que
trabalhou, o que subiu á trincheira, o que derramou o sangue,
enterrado, esquecido
, posto a um canto. (P. Ant. Vieira). —
(… aquelle que…).

Nos corpos inteiros e unidos, como era o do gigante, o
melhor tiro é á cabeça ; mas, em corpos onde ha desunião,
como era
o da estatua, o mais seguro tiro é ao desunido,
ainda que sejão os pés
. (P. Ant. Vieira). — (… aquelle do
gigante
aquelle da estatua").

Aliás o seguinte exemplo, em que o mesmo pronome
se encontra promiscuamente repetido com o seu homonymo
pessoal instavel, offerece o meio mais azado para praticamente
exercitar-se a discriminar um do outro :

Os nossos ministros, ainda quando vos despachão bem,
fazem-vos os tres mesmos damnos : o do dinheiro, porque
o
gastais ; o do tempo, porque o perdeis ; o das passadas, porque
as multiplicaes. (P. Ant. Vieira). — (… aquelle do dinheiro,
porque gastai-
lo ; aquelle do tempo, porque perdei-lo ; aquelle
das passadas, porque multiplicai-las).

Outrosim, embora immediatamente posposto ao verbo,
o demonstrativo instavel — o — a elle não se liga, como o
seu homonymo pessoal, pela risca de união, nem tão pouco
se presta ás modificações da antíthese ou da próthese. Ex.

E quem são os panegyristas destes louvores ? Não são os
que padecem o diluvio fora da arca ; não são os que morão
e morrem fóra das paredes do palacio, senão os que vivem e
reinão das portas a dentro
. (P. Ant. Vieira).

Eis-aqui o que vêm a não poder os que querem mais do
que podem
. (P. Ant. Vieira).

Outro Cornelio confirma a verdade de seu dito, com falta
de verdade, de que só
carecem os que são senhores de tudo.
(P. Ant. Vieira).

210. Todos os referidos pronomes são passiveis das
mesmas contracções a que ficão sujeitos, os primeiros, na
qualidade de adjectivos demonstrativos, e o segundo, na
de artigo definito.

1.°

tableau deste, a, es, as ; | dest’outro, a, os, as.
desse, a, es, as ; | dess’outro, a, os, as.
daquelle, a, es, as ; | daquell’outro, a, os, as.
neste, a, es, as ; | nest’ouiro, a, os, as.
nesse, a, es, as ; | ness’outro, a, os, as.
naquelle, a, es, as ; | naquell’outro, a, os, as.
áquelle, a, es, as ; | áquell’outro, a, os, as.
160

Ex. O que eu poupo, e o que não gasto, não é meu : é
daquelles a quem eu o hei de deixar, e depois o hão de
gastar muito alegremente
. (P. Ant. Vieira).

Destes dous mandamentos nascem todos os outros, porque
nestes estão todos encerrados. (D. Fr. Bartholomeu dos Martyres).

Entre todas as idades, como a puericia e a adolescência
estão expostas a mais riscos, tambem são as que mais necessitão
de documentos. Importa summamente
áquella o ter virtuosos
exordios
. (P. M. Consciencia).

2.°

tableau ao, | á, | aos, | ás.
do, | da, | dos, | das.
no, | na, | nos, | nas.
pelo, | pela, | pelos, | pelas.

Ex. a quem attribuir tudo isso? Aos lisonjeiros e aduladores
de dentro
 ; aos que têm as entradas francas, e as chaves
tão douradas como as linguas
 ; aos que participão os segredos
e arcanos da monarchia
. (P. Ant. Vieira).

O cornaca tinha um laço que mettia em uma das mãos ao
elephante bravo, e o enleiava Á do mesmo Ortelá, ficando
ambos presos
. (João Kibeiro).

Que diz Pythagoras ? « Gosta antes dos que te arguem,
que
dos que te adulão. » (P. Ant. Vieira).

« Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir
semelhantes aggravos e affrontas nas vossas imagens, pois já
as permittistes em vosso sacratissimo corpo ; mas
, nas de
Maria
, nas de vossa santíssima Mãi, não sei como isto póde
estar com a piedade e amor de filho !
 » (P. Ant. Vieira).

Estes jogos e estes desenfados, sim; e o das cartas troque-se
pelo da carta. (P. Ant. Vieira).

211. Os estaveis são :

1.°

tableau isto, | isso, | aquillo.

Ex. Pois isto por que todos trabalhão, hei de ensinar
hoje o modo com que se possa alcançar sem trabalho
. (P. Ant.
Vieira).

Se o rei está benigno e humano, para isso tem rosto de
homem
. (P. Ant. Vieira).161

Aquillo que amaveis e admiraveis, não era o corpo, era
a alma
. (P. Ant. Vieira).

2.° — o.

Este vocabulo é pronome demonstrativo estavel quando,
sendo analyticamente convertivel em aquillo, apparece
seguido do relativo que, ou do um complemento indirecto.
Differe do seu homonymo pessoal, que só póde constituir
um complemento directo ou um predicado, pela faculdade
de exercer, não só estas, como todas as mais funcções
proprias dos pronomes em geral.

Ex. O que sustenta e conserva os reinos, é a união. (P.
Ant. Vieira). — (… aquillo que…).

No dia do nascimento, ninguem póde saber o para que
nasce. (P. Ant. Vieira). — (… aquillo para que…).

Os seguintes trechos, em que juntamente occorre o referido
pronome com o estavel pessoal, offerece o meio pratico
de discriminar um do outro.

O que eu poupo, e o que eu não gasto, não é meu : é
daquelles a quem eu o hei de deixar, e depois o hão de gastar
muito alegremente
. (P. Ant. Vieira). — (aquillo que eu poupo,
e
aquillo que eu não gasto, não é meu : é daquelles a quem
hei de deixa-
lo, e depois hão de gastá-lo mui alegremente).

O que desigualou o poder, póde-o supprir a arte ; o que
errou a mesma arte, póde
-o emendar a fortuna ; mas o que se
intentou sem conselho, ainda que o favoreça o acaso, nunca é
victoria
. (P. Ant. Vieira). — (aquillo que desigualou o poder,
póde supprí-
lo a arte ; aquillo que errou a mesma arte, póde
emenda-
lo a fortuna ; mas aquillo que se intentou sem conselho,
ainda que favoreça-
o o acaso, nunca é victoria).

Aliás reverte tambem a este pronome, como ao demonstrativo
instavel, a interdicção de se ligar ao verbo
anterior pela risca do união, assim como do se prestar á
antíthese ou á próthese. Ex.

(Ao pretendente), se lhe não podeis dar o que lhe negais,
quem lhe ha de
restituir o que lhe perdeis ? (P. Ant.
Vieira).

Estes são os aduladores, que louvão o que não deverão
louvar, e
applaudem o que não deverão applaudir, e ajudão
o que deverão estorvar. (P. Ant. Vieira).

212. Todos estes estaveis se contrahem do mesmo
modo e nas mesmas circumstancias como os instaveis com
que ficão aparentados pela procedencia :162

1.°

tableau disto, | disso, | daquillo ;
nisto, | nisso, | naquillo ;
áquillo.

No que reparo, é que o Senhor convocasse a seus discipulos
para que
nisso mesmo reparassem, e levassem doutrina.
(P. Man. Bernardes).

Com os dissimulados, não é tanto aquillo que dizem,
como
aquillo que calão, que convêm dar apreço.

2.°

tableau ao, | do, | no, | pelo.

Ex. Se, no nascimento de Judas e Dimas, se levantasse
figura certa
ao que cada um havia de ser em sua vida, a do
primeiro diria que havia de ser apostolo, e a do segundo, que
havia de ser ladrão
. (P. Ant. Vieira).

A dilação são dous males ; o desengano sem dilação é um
mal temperado com um bem, porque, se me não dais o que
peço, ao menos livrais-me
do que padeço. (P. Ant. Vieira).

Não nos enganara o demonio com o mundo, se nós víramos
e conhecêramos bem o que é a alma. Mas, já que não
a podemos ver em si, vejamo-la em nós
 ; no que o corpo ha de
ser, vejamos o que ella é
. (P. Ant. Vieira).

Bem disse S. Ambrosio que mais valia um dinheiro tirado
do pouco, que um thesouro tirado do máximo ; porque se ha
de fazer o computo não
pelo que se dá, senão pelo que remanesce.
(P. Man. Bernardes).

Dos pronomes possessivos

213. São pronomes possessivos os mesmos adjectivos
possessivos quando, desligados de todo e qualquer substantivo
ou pronome, exercem de per si mesmos as funcções
de sujeito ou de complemento, já com anteposição do artigo
definito, já sem elle.

Assim é que, no seguinte exemplo, onde se agglomerão
nada menos de seis possessivos, um só, por constituir o sujeito
163de um verbo elidido, póde ser qualificado do pronome ;
os outros cinco são meros adjectivos, um como apposição,
os demais como predicados.

(No jogo) perde-se a amizade, porque, quando jogamos
com um amigo, a nossa tenção é que o que é seu, seja nosso;
 ;
e a sua, que o que é nosso, seja seu. (P. Ant. Vieira). —
(… a nossa tenção é — que aquillo seja nosso, — que é seu ;
e a sua (é) — que aquillo seja seu, — que é nosso).

214. Em relação á instabilidade ou estabilidade, os pronomes
possessivos são ambiguos, visto como pertencem já
á primeira, já á segunda destas categorias conforme alludem
ou não alludem a um antecedente expresso ou subentendido.

Exemplos :

(Posses, estav.) No principio do mundo, como gravemente
pondera Seneca, porque não houve guerras ? Porque
usavão os homens da terra como do céo. O sol, a lua, as estreitas,
e o uso da sua luz é commum a todos ; e assim era a
terra no principio. Porém, depois que a terra se dividiu em
diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas, e se acabou
a paz porque houve
meu e teu. Que direi dos meios e dos
remedios, das industrias, das artes e instrumentos que os homens
têm inventado para que cada um podesse possuir e lograr
o
seu, segura e quietamente, mas sem proveito ? (P. Ant.
Vieira).

(Posses, instav.) Para guardar os reinos e os imperios,
inventarão as armadas por mar, e os exercitos por terra:
 :
tantos mil soldados a pé, tantos mil a cavallo, com tanta
ordem e disciplina, com tanta variedade de armas, com tantos
artificios e machinas bellicas. Mas nenhum destes apparatos
tão estrondosos e formidaveis tem bastado, nem para que os
Assyrios guardassem o seu imperio dos Persas, nem os Persas

o seu dos Gregos, nem os Gregos o seu dos Romanos, nem
os Romanos finalmente
o seu daquelles a quem o tinhão tomado,
tornando a ser vencidos dos mesmos que tinhão vencido
e dominado
. (P. Ant. Vieira).

Nós contámos então á honrada dona tudo o como se passára,
mas que não conhecêramos que gente era a que nos fizera
aquillo, nem sabiamos a razão por que no-lo fizera
. a isto
respondêrão
os seus que aquelle junco grande que diziamos,
era de um mouro guzarate
. (Fornão Mendes Pinto).164

Dos pronomes relativos

215. Os pronomes relativos são só tres : que, quem, e
o qual, a qual, os quaes, as quaes
.

Ex. Os ladrões que mais propria e dignamente merecem
este titulo, são aquelles
a quem os reis encommendão os exercitos
e legiões, ou o governo das provincias, ou a administração
das cidades
, os quaes, já com manha, já com força, roubão e
despojão os povos
. (P. Ant. Vieira).

216. Assim como o declara o seu appellido de relativos,
estes pronomes ficão terminantemente caracterisados por
uma imprescindível referencia a um antecedente expresso
ou apenas subentendido, sendo este necessariamente, ou um
substantivo, ou um pronome de especie diversa, ao qual
tomão, não só o genero e numero, senão tambem a pessoa.

Exemplo :

Donde tantos prestimos e utilidades, senão de vós, Senhor,
que não obrais cousa debalde, e vazia de virtude ! (P. Man.
Bernardes). — (… de vós que não obrais cousa debalde…).

217. São, portanto, instaveis por natureza, embora
só o ultimo seja caracteristico de numero e genero, graças
á adjuncção constante do artigo definito. Todavia mesmo
os dous primeiros não se negão a ser praticamente discriminados
de seus homonymos pelo processo da substituição :
pois, sendo analyticamente convertiveis em uma das quatro
formas do seu ultimo congenero (o qual, a qual, os quaes,
as quaes
), signal é que são relativos. (Os ladrões os quaes
mais propria e dignamente merecem este titulo, são aquelles
os quaes os reis encommendão…).

O seguinte exemplo completa a demonstração, apresentando
o caso de um antecedente apenas subentendido.

« Senhores meus, que tão desvelados andais todos, e tão
esfaimados por ter de comer, e por deixar de comer a vossos
filhos, seguí e serví a Christo, e eu vos asseguro da sua parte
que, nem a vós, nem a elles, lhes faltará pão
. » (P. Ant.
Vieira).

Ahi avoca tão claramente a interpellação « senhores
meus
 », a idéa que o discurso subsequente vai dirigido a
umas segundas pessoas do plural, que o espirito não hesita
em ajuntar mentalmente á mesma interpellação o pronome
— vós — , sujeito effectivo de dous imperativos « seguí e
serví », e, da mesma feita, antecedente de que, ao qual
confere assim as propriedades de vocabulo masculino, da
segunda pessoa do plural
, o que tudo ressumbra da concordancia,
165com o mesmo que, do verbo andais, e do predicado
desvelados (« Senhores meus, vós — (os quaes) que andais
tão desvelados
… — seguí e serví… »),

218. Dos tres referidos pronomes é que propriamente
o relativo por excellencia, pois tanto se presta a substituir
entes como abstracções, pessoas como cousas. Deve ser,
portanto, preferido todas as vezes que, do seu uso, não
póde resultar falta de lucidez ou de euphonia.

219. O relativo que cede do seu direito, para traspassá-lo
a quem, só e unicamente quando, tendo de representar
uma pessoa ou um ente personificado, haveria de
apparecer regido de uma preposição.

Exemplos :

Assim fazem os impios e maliciosos, a quem não ha innocencia
que satisfaça, nem desculpa que contente
. (P. Man.
Bernardes). — (… aos quaes não ha innocencia…).

Forão inventores destes jogos Hercules, Pytho, Theséo e
outros heroes
, de quem os tomarão os Gregos e Romanos.
(P. Ant. Vieira). — (… dos quaes os tomárão...).

Se um terceiro filho de el rei D. João o Primeiro foi o
que lançou a primeira pedra no edifício já tão levantado da
Igreja Oriental, o filho quarto de el rei D. Pedro o Segundo,
do mesmo sangue real, e de pais tão zelosos da propagação da
fé e piedade christãa, porque não será aquelle
para quem
Deos tenha guardado o fechar as abobadas do mesmo edifício ?
(P. Ant. Vieira). — (… porque não será aquelle para o
qual
Deos tenha guardado…).

Fóra destas tres condições : 1.° ser convertivel em o
qual, a qual, os quaes, as quaes
 ; — 2.° estar sob a regencia
de uma preposição ; — 3.° emfim ter um antecedente expresso,
quem não é mais pronome relativo, e sim pronome
indefinito
.

220. O relativo o qual se substituo a que ou quem
em seja qual for a funcção.

Exemplos :

Tal era aquelle rico avarento do Evangelho, o qual,
banqueteando-se todos os dias esplendidamente, nem se lembrava
de Deos, nem do pobre Lazaro que tinha diante de si
. (Fr.
Luiz de Granada).

Quizerão, diz a Sagrada Escriptura, as arvores fazer um
rei que as governasse, e forão offerecer o governo á oliveira
, a
qual
se excusou, dizendo que não queria deixar o seu oleo
166com que se ungem os homens, e se allumião os deoses. (P.
Ant. Vieira).

Tudo isto sahe do sangue e do suor dos tristes índios,
aos quaes trata como tão escravos seus, que nenhum tem liberdade,
nem para deixar de servir a elle, nem para poder
servir a outrem
. (P. Ant. Vieira).

Dos pronomes indefinitos

221. São pronomes indefinitos accidentaes :
1.° Os adjectivos de mesmo appellido quando desligados
de todo e qualquer substantivo ou pronome (V. § 159 e
observações subsequentes), resumindo-se o seu numero nos
vocabulos seguintes :

tableau Algum | Mesmo | Qualquer
Bastante | Muito | Quanto
Demais | Nenhum | Que
Fulano | Outro | Sicrano
Mais | Pouco | Tal
Menos | Qual | Tanto
Todos, todas.

2.° O vocabulo um, uma quando, desligado de todo e
qualquer substantivo ou pronome, e quando, repugnando á
associação do só ou unico, não se recusa á feição do plural
(uns, umas).

Exemplos :

um é affeiçoado á caça ; e, quando os cães andão luzidios
e anafados, ver-lhe-heis os criados pallidos e mortos a fome
.
(P. Ant. Vieira).

Oh ! que ponto este para os cubiçosos e para os avarentos !
Se eu os consultasse, a elles, do remedio para accrescentar
pão, para multiplicar fazenda
, uns havião de dizer que
negociar, e, melhor que tudo, negociar para o Maranhão
. (P.
Ant. Vieira).

3.° Os já referidos que, quem, qual.

(1) Que é pronome indefinito quando se deixa convertor
em que cousa ou cousa que… ; e, em tal ocurrencia,
é sempre estavel.

Exemplos :

Que são as perolas e os diamantes, senão uns vidros mais
duros ? Que cousa são as galas, senão um engano de muitas

167córes ? (P. Ant. Vieira). — (As perolas e os diamantes são
que cousa… ?).

Que tendes, que possuis, que lavrais, que trabalhais que
não houvesse de ser necessario para serviço de el rei, ou dos
que se fazem mais do que reis com este especioso pretexto ?

(P. Ant. Vieira). — (Vós tendes, possuís, lavrais, trabalhais
que cousa — a qual não houvesse de ser necessaria… ?).

E’ prognostico certo, confirmado pela experiencia, que não
virão a ter
que comer os que frequentarem o diabolico invento
do jogo
. (P. Ant. Vieira). — (… cousa que comer…).

Conta Plutarco que, passando um egypcio por uma rua
de Athenas, não sei com
que debaixo da capa, lhe perguntara
um atheniense
que era o que levava. (Diogo do Couto). —
(… que cousa…).

Nascemos sem saber para que nascemos. (P. Ant. Vieira).
— (… para que cousa nascemos).

Lucullo, cidadão romano, homem riquíssimo, mas muito
vanglorioso, gastava em cada cêa, com os seus convidados,
cinco mil philippéos
, que era um certo dobrão de ouro que
bateu Philippe, rei de Macedonia
. (P. Man. Bernardes). —
(… cousa que era um certo dobrão…).

E’ muito de notar que, alludindo por uma referencia
summaria a um pensamento anterior, o mesmo pronome
assume o artigo definito (o que), reproduzindo assim a
feição de um pronome demonstrativo seguido do seu relativo.
Porém facil é desfazer qualquer duvida a tal respeito :
pois, sendo o que resoluvel em aquelle que ou aquillo que,
signal é que a locução abrange os dous pronomes mencionados
no § 209, ou no § 211 ; sendo resoluvel em cousa
que
ou que cousa, signal é que a mesma locução não é
outra cousa senão o indefinito que precedido do artigo.

Exemplos :

A turca ia fallando com um mouro pobre, roto, esfarrapado
e descalço, sem alguma cousa na cabeça, mas uma grande
grenha e cabelleira
 ; o que a turca fazia por mostrar religião
e santidade
. (Pantaleão de Aveiro). — (… cousa que a
turca fazia
…).

Encontrárão-me dous mancebos mouros bem valentes, a
cavallo, e, porque me virão só, mui asperamente me mandárão
que me apeasse por lhes fazer reverencia ; o
que eu não querendo
fazer, se forão a mim indignados
. (Pantaleão do Aveiro).
— (… cousa que eu não querendo fazer…).168

Chegárão uns criados do turco a quem vinhamos encommendados,
e, juntamente com outros seus amigos, levando dos
alfanges, ferirão mui mal o turco e a seus companheiros
 ;
pelo que acudiu logo gente da caravana pelos seus e por nós.
(Pantaleão do Aveiro). — (… por que cousa acudiu logo
gente
…)

Além do artificio e regras de bem fallar, era el rei D.
Duarte naturalmente eloquente
, pelo que com sua humanidade
junta á eloquencia, attrahia a si os corações dos homens
.
(Duarte Nunes de Leão). — (… por que cousa attrahia
a si
).

Nota. Que esta explicação não é nenhum expediente
do circumstancia, e sim a exposição de um principio fundado,
demonstra-o de sobejo o seguinte exemplo :

« O infante D. Luiz rendia profundas obediências e venerações
a el rei seu irmão
, causa por que este o amou
sempre muito
. » (Fr. Franc. de S. Maria). — Pois nada obstaria
a que a locução ahi assignalada fosse substituída pelo
pronome indefinito que precedido do artigo : « … pelo que
este o amou sempre muito. »

(2) quem é pronome indefinito quando se deixa converter
analyticamente, ou em que homem, ou em homem
que
, ou em aquelle que.

Exemplos :

Se alcança mais este com o seu engano que o outro com
a sua verdade
, quem haverá que trabalhe ? quem haverá que
se arrisque ?
quem haverá que peleje ? (P. Ant. Vieira). —
(… que homem haverá…).

Quando David quiz sahir a pelejar com o gigante,…
então não havia no mundo
quem quizesse ser valente de graça.
(P. Ant. Vieira). — (… já então não havia no mundo homem
que
quizesse…).

quem não quer ser lobo, não lhe veste a pelle. (Proverbio).
— (… aquelle que não quer ser lobo…).

Ao contrario do seu homonymo relativo, o indefinito
quem não está adstricto á unica condição de regime de
uma preposição, mas exerce, e até duplamente pela decomposição
syntaxica, todas as funcções proprias dos pronomes
em geral, porque é vocabulo contracto.

Exemplos :

A quem não tem bens, ninguem lhe quer mal. (P. Ant.
169Vieira). — (Ninguem quer mal ao homem — que não tem
bens
).

Quem ha de governar bem, deixa as suas raizes ; quem
governa mal, arranca as dos subditos, etrata das suas.
(P. Ant. Vieira). — (aquelle deixa as suas raizes, — que
ha de governar bem ; — aquelle arranca as dos subditos, —
que governa mal…).

(3) Qual, como pronome indefinito, é mero substantivo
dos mesmos pronomes indefinitos que e quem todas
as vezes que o sentido destes, por nimiamente vago, deixaria
duvidoso o pensamento. Segue-se dahi que é elle
instavel.

Exemplos :

(Por substituição a que). Por isso eu lá dizia que não
sei
qual lhe fez sempre maior mal, ao Brazil, se a enfermidade,
se as trevas
. (P. Ant. Vieira). — (… não sei que
cousa de duas cousas
lhe fez…).

Se as cousas são pelos effeitos conhecidas, e elles testemunhão
a excellencia ou maldade dellas
, qual o foi de maiores
males e damnos na redondeza, e mettendo os homens em mais
perigosos trabalhos que o ouro ?
(Franc. Rodrigues Lobo). —
(… que cousa o foi de maiores males…).

(Por substituição a quem). Folgai, Antiocho, de terdes
experimentado os revezes da fortuna, e não julgueis ninguem
pelo que exteriormente parece
. quaes, se por ahi fordes, os
maiores servos de Deos, e os que com effusão de generoso
sangue, glorificárão seu unigenito Filho, vos parecerão mais
felizes ?
(D. Fr. Amador Arraes). — (quem, — que homens…
vos parecerão mais felizes ?).

222. São pronomes indefinitos essenciaes, e conseguintemente
sempre estaveis : alguem, ninguem, outrem, tudo,
nada
.

Ex. Houve alguem que dissesse á oliveira que havia de
deixar as suas azeitonas, nem á figueira os seus figos, nem á
vide as suas uvas ?
ninguem. (P. Ant. Vieira).

Sómente lhes disserão e propuzerão que quizessem aceitar
o governo. Pois, se isso foi
o que lhes disserão e offerecerão,
e
ninguem lhes fallou em haverem de deixar os seus fructos,
porque se excusão todas com os não quererem deixar ?
(P.
Ant. Vieira).

Saibamos agora, e não de outrem, senão das mesmas
arvores, se este bom governo, do modo que ellas o entendêrão
,
170se póde conseguir e exercitar com as raizes na terra. (P. Ant.
Vieira).

« O que vi, disse Salomão, e achei em tudo, é que tudo
é vaidade, e afflicção de animo. » (P. Ant. Vieira).

Despede-se o mundo sem dizer-nos nada. (P. Ant. Vieira).

Observações sobre tudo e nada.

223. Tudo passa a ser mero adjectivo indefinito todas
as vezes que, junto a um pronome estavel, vem a exercer
simplesmente a funcção de apposição, o que se averigua
pela circumstancia de se deixar então eliminar da oração
sem estorvo do pensamento.

Exemplos :

Tudo o que nasce na’ terra, o sol ou a chuva o cria.
(P. Ant. Vieira). — (O que nasce na terra…).

Tudo isto que vemos com os olhos, é aquelle espirito sublime,
ardente, grande, immenso : a alma
. (P. Ant. Vieira). —
(isto que vemos…).

Tudo quanto houve, passou ; e tudo quanto é, passa.
(P. Ant. Vieira). — (quanto houve, passou ; e quanto é,
passa
).

E assim se compõe aquella teia e casa de aranha de oitenta
fios
, o que tudo é para que nada lhe escape. (Fr. João
do Coita). — (…o que é para que nada lhe escape.

Verifica-se, aliás, do modo mais frisante, a allegação.
adduzida, pelo seguinte exemplo :

E’ o alheio pontualmente como o vomitorio. Receita-vos o
medico um vomitorio, e, que vos acontece depois que o tomais?
Lançai-lo, a elle, e
tudo o mais que tinheis dentro. Assim é
o alheio. Guardai-vos de o metter no estomago, porque, primeiramente,
não vo-lo ha de lograr, e ha-vos de puxar, e levar
comsigo
o mais que tiverdes nelle. (P. Ant. Vieira).

Pois, trocando-se um caso por outro, dir-se-hia com
mesma propriedade :

« … Lançai-lo, a elle, e o mais que tinheis dentro... e
ha-vos de puxar, e levar comsigo
tudo o mais que tiverdes
nelle
. »

Portanto é realmente tudo, nesta condição, não um
pronome, isto é, o representante de um substantivo, mas
um mero adjectivo, isto é, uma palavra até certo ponto
dispensavel.171

224. Nada, que lexicographos capitulão de substantivo,
e grammaticos, de adverbio, é por essencia pronome
indefinito, pela razão obvia que enuncia, em sentido negativo,
a mesma idéa que tudo enuncia em sentido afirmativo.

Exemplos :

Tudo me agrada. nada me agrada. — Queremos tudo.
Não queremos nada. — Fallão de tudo. Não fallão de
nada
.

Apenas passa este vocabulo a assumir, mas excepcionalmente,
a accepção substantival quando, precedido de um
artigo, designa cousa de pouca monta.

Ex. Quantos homens que se têm em conta de sérios, podem
divertir-se, como crianças, com
uns nadas !

Ha tambem um caso em que, por sua referencia a um
participio, adjectivo ou adverbio, nada arremeda as funcções
adverbiaes.

Ex. Os altares estão feitos de amethystas, cujo preço nada
é inferior. (P. Man. Consciencia).

Mas ahi reproduz-se uma das mais frequentes ellipses,
que é a da suppressão de uma preposição. Diz-se : nada
inferior
, por em nada inferior, como se sóe dizer : Dormir
toda a noite
, por durante toda a noite. E’, portanto, ahi
simplesmente complemento indirecto de preposição occulta.

O mesmo se dá com tudo no seguinte exemplo :

As abobadas, pilares e paredes são tudo cantaria. (Fr.
Luiz de Souza). — (… são em tudo cantaria).

225. Além dos referidos pronomes indefinitos, que,
por constarem de uma só palavra, são simples, notão-se
ainda alguns que, por constarem de mais de uma, são
compostos. Deste numero são cada qual, cada um, quem
quer que seja, o quer que seja
, etc.

Exemplos :

Em qualquer palmo de terra que consideres attentamente,
verás muitas e diferentes naturezas
, cada qual dotada de sua
bondade
. (P. Man. Bernardes). — (… cada qual é dotada…).

Se os Apostolos forão de animo avarento e acanhado, e
quizerão comer os seus cinco pães, sahíra menos de meio pão
a
cada um ; mas, porque cada um deu o seu pedaço de pão,
ficou com uma alcofa cheia
. (P. Ant. Vieira).172

Capitulo VI
Do participio

226. Participio é uma palavra, já variavel, já invariavel,
que, procedendo do verbo, a elle reverte muitas
vezes para a formação de tempos compostos, ou porta-se
em tudo como um mero adjectivo qualificativo.

Exemplos :

1.°

tableau Eu tenho | ou hei
Tu tens | ou has
Elle (ella) tem | ou ha | amado, rendido, punido.
Nós temos | ou havemos
Vós tendes | ou haveis
Elles (ellas) têm | ou hão

2.°

tableau Eu sou | ou estou
Tu es | ou estás | amado, a ; rendido, a ; punido, a.
Elle (ella) é | ou está
Nós somos | ou estamos
Vós sois | ou estais | amados, as ; rendidos, as ; punidos, as.
Elles (ellas) são | ou estão

3.° E, que faz a mesma natureza, toda movida e governada
pelo mesmo Deos ? Basta que viva naquelles atomos
para que, nelles
offendida, se dôa, nelles aggravada, morda.
(P. Ant. Vieira).

227. Na realidade são só dous os participios : o invariavel
e o variavel.

Advertencia. Por uma apreciação menos reflectida,
os gerundios vierão, na primeira edição desta obra, incluidos
no numero dos participios ; porém, mais detidamente examinados
nas suas relações syntaxicas, de tal modo se mostrárão
aparentados com as diversas formas do infinitivo,
como, aliás, opportunamente se verificará, que constituem-lhe,
nesta nova obra, o seu 5.° e 6.° tempo.

228. O participio é invariavel junto a ter ou haver
(V. a exemplificação anterior sob n.° 1).

O participio é variavel junto a ser ou estar (V. a
173exemplificação anterior sob o n.° 2), ou quando solto,
isto é, desprendido de todo e qualquer auxiliar (V. a exemplificação
anterior sob n.° 3.

229. Junto a ser ou estar, o participio variavel concorda
sempre em gcnero e numero com o sujeito dos
mesmos verbos, ou com o sujeito do verbo do que ser ou
estar
dependem como complementos, embora nem sempre
em tal occurrencia venhão os mesmos participios a constituir
um predicado, como infundadamente se pretende.
(V. a syntaxe do predicado).

Os lisongeiros e aduladores de dentro, os que são
admittidos
a dizer e a ser ouvidos, estes são os que mais
se devérão temer
. (P. Ant. Vieira).

A maior fatalidade dos reis é nascerem todos em signo
de ser louvados (P. Ant. Vieira).

230. Quando apposições ou predicados, os participios
variaveis são, como os adjectivos qualificativos, susceptiveis
de passar pelos diversos gráos de significação.

Exemplos :

Quantos vierão a servir porque quizerão ser mais servidos,
ou servidos de mais do que podião manter / (P. Ant. Vieira).

Subí do céo acima até ao mesmo Deos, e achareis que
elle é o que
mais occupado está que todos em nosso sustento.
(P. Ant. Vieira).

E, que maiores injurias da razão, da lei e da fé, que os
gentios convertidos a ella, por nos ficarem
mais sujeitos,
serem mais desprezados, mais opprimidos, mais captivos,
e talvez vendidos aos mesmos mouros ! (P. Ant. Vieira).

231. Por uma consequencia natural dessa assimilação
aos adjectivos qualificativos, os participios variaveis devem
tambem ser analyticamente tidos como substantivados logo
que passão a exercer de per si mesmos as funcções proprias
dos substantivos.

Exemplos :

Vejão os odiados, ou pensionados do odio se se devem
prezar ou offender de ter inimigos
. (P. Ant. Vieira).

Seja a colera do principe esperança dos opprimidos. (P.
Ant. Vieira).

Oh ! Creador amabilissimo ! como tudo isto me está, com
mudas vozes, significando
o acertado de vossas disposições !
(P. Man. Bernardes).174

Uma das cousas que mais assegurar podem a futura felicidade
dos casados, é a proporção do casamento. (D. Franc.
Manoel de Mello).

232. Considerados na sua forma, os participios, quer
variaveis, quer invariaveis, são regulares quando, na ordem
das tres conjugações normaes, acabão em ado, ido, ido
(amado, rendido, punido) ; acabando, porém, de outro
qualquer modo, são irregulares (dito, feito, posto).

Quanto aos vocabulos de terminação ante, ente ou
inte
, como estudante, exigente, ouvinte, que muitos grammaticos
não hesitarão incluir, sob varios appellidos, no numero
dos participios, de nenhum modo pertencem a esta
especie de palavras : são meros substantivos ou adjectivos,
conforme os seus prodicamentos particulares ou de funcção
lhes assignão esta ou aquella classe.

Porquanto a allegação que, por procederem de verbos,
devão os mesmos vocabulos ser tidos como participios, é
tão pouco concludente, que abrangeria por inducção um
sem numero de palavras reconhecidamente avessas a uma
tal classificação, como estudioso, exigivel, ouvidor, etc.

O que terminantemente caracterisa o participio, e o
discrimina de semelhantes palavras, é a propriedade de
formar, quando invariavel, um sentido analyticamente indissolúvel
com os auxiliares ter ou haver (tenho ou hei
amado, — rendido, — punido
), e a de apresentar frequentemente
a mesma indissolubilidade junto a ser ou estar,
isto é, de cada vez que, apezar de variavel, o participio
não constitue um predicado (somos havidos, fomos nomeados,
etc.). — V. a syntaxe do predicado.

233. a todos os verbos elementares compete necessariamente
o participio invariavel, porque todos os seus
tempos compostos se formão com o concurso do ter ou
haver
.

O participio variavel, porém, só compete normalmente
aos activos, porque só delles é que sabem os combinados
passivos, em que, no decurso todo da conjugação, o auxiliar
proeminente é ser ou estar (somos amados, —
Temos
sido amados, — estão rendidos, — Têm estado rendidos).

Aos neutros, portanto, como viver ; aos pronominaes
como queixar-se ; e aos impessoaes como trovejar fallece de
todo a forma variavel vivido, a, os, as, — queixado, a, os,
as, — trovejado, a, os, as
, — porque, nem combinada com
ser ou estar, nem solta como apposição de um substantivo
175ou pronome, tal forma acharia palavra com que travar
sentido.

Entretanto, por uma consequencia da volubilidade de
accepções a que se prestão muitos verbos, este principio
não é tão absoluto, que não tenha numerosas excepções.
Assim é que neutros como entrar, sahir, ir, vir, decahir,
nascer
, etc., ou pronominaes como arrepender-se, sentar-se,
etc., ou mesmo impessoaes como chover, etc., não excluem
peremptoriamente o participio variavel.

Exemplos :

Embarcações entradas ou sahidas…. Tempos idos….
Noticias vindas… Nação decahida…

estamos arrependidos… estavão sentados…

Papeis chovidos das janellas.

Quando a vida humana, pela demasiada idade, torna á
fraqueza da infancia; quando a lingua enfastiada não sente
já sabor nem gosto; os dentes, ou
são cahidos ou nadão na
bocca...
ninguem póde culpar que seja alliviado dos pesos
communs
. (Fr. Luiz de Souza).

Os penedos daquella serrania parece que estão ameaçando
ruina, e que
forão chovidos ou feitos á mão e por industria
humana
. (D. N. de Leão).

Mas, escapando a toda e qualquer formula theorica
que as enfeixe sob uma consideração commum, estas e semelhantes
excepções ficão do dominio exclusivo dos lexicographos,
a quem compete notificá-las nos diccionarios.

234. Outra difficuldade cuja solução, por accarretar
pormenores tão peculiares quão variados, se tem tambem
natural cabimento nas exemplificações da Lexicographia, é
a que diz respeito aos verbos dotados de duas formas de
participio, uma regular, e outra irregular.

Porquanto, em alguns verbos como pagar, a forma regular
pagado, embora menos usada do que a irregular
pago, tanto se presta a constituir o participio variavel,
como o invariavel.

Em outros, porém, como prender, a forma regular prendido
apresenta-se como exclusivamente propria do participio
invariavel (com ter ou haver), e a forma irregular preso,
como exclusivamente propria do participio variavel (com
ser ou estar).

Em outros, emfim, como surgir, a forma regular surgido
176envolve um sentido bastante arredío do da forma
irregular surto, e pede, portanto referencias diversas.

Porém o que estas mesmas considerações demonstrão,
é a conveniencia da discriminação dos participios em variaveis
e invariaveis, embora soja, na maior parte dos casos,
sua fôrma originaria uma mesma.

Tabella dos verbos
que têm participios irregulares.

tableau Verbos. | P. regul. | P. irregul.
Abrir, | abrido, | aberto.
Absolver, | absolvido, | absolto.
Absorver, | absorvido, | absorto.
Abstrahir, | abstrahido, | abstracto.
Accender, | accendido, | acceso.
Aceitar, | aceitado, | aceito.
Affligir, | affligido, | afflicto.
Cobrir, | cobrido, | coberto.
Concluir, | concluido, | concluso.
Conter, | contido, | conteúdo.
Contrahir, | contrabido, | contracto.
Contundir, | contundido, | contuso.
Convencer, | convencido, | convicto.
Corrigir, | corrigido, | correcto.
Corromper, | corrompido, | corrupto.
Dizér, | (Falta), | dito.
Eleger, | eligido, | eleito.
Entregar, | entregado, | entregue.
Envolver, | envolvido, | envolto.
Enxugar, | enxugado, | enxuto.
Erigir, | erigido, | crccto.
Escrever, | escrevido, | escripto.
Espargir, | espargido, | esparso.
Exceptuar, | exceptuado, | excepto.
Excluir, | excluido, | excluso.
Exhaurir, | exhaurido, | exhausto.
Expellir, | expellido, | expulso.
Extinguir, | extinguido, | oxtincto.
Fartar, | fartado, | farto.
Fazer, | (Falta), | feito.
Frigir, | frigido, | frito.
177

tableau Verbos. | P. regul. | P. irregul.
Gastar, | gastado, | gasto.
Imprimir, | imprimido, | impresso.
Incluir, | incluido, | incluso.
Incorrer, | incorrido, | incurso.
Infundir, | infundido, | infuso.
Interromper, | interrompido, | interrupto.
Introduzir, | introduzido, | introdueto.
Juntar, | juntado, | junto.
Manter, | mantido, | manteúdo.
Matar, | matado, | morto.
Morrer, | morrido, | morto.
Pagar, | pagado, | pago.
Pôr, | (Falta), | posto.
Prender, | prendido, | preso.
Querer, | querido, | quisto.
Revolver, | revolvido, | revolto.
Romper, | rompido, | rôto.
Salvar, | salvado, | salvo.
Submergir, | submergido, | submerso.
Sujeitar, | sujeitado, | sujeito.
Supprimir, | supprimido, | suppresso.
Surgir, | surgido, | surto.
Suspender, | suspendido, | suspenso.
Tingir, | tingido, | tinto.
Ver, | (Falta), | visto.
Vir, | (Falta), | vindo.

Os verbos que destes procedem por augmento, assumem
as mesmas formas de participios como seus primitivos ;
assim contrafazer (de fazer), contrafeito ; predizer (de dizer),
predito ; suppór (do pôr), supposto ; etc.

Capitulo VII
Da preposição

234. Preposição é uma palavra invariavel que se interpõe
entre outras de especie diversa para marcar uma
relação.178

Perscrutada no seu sentido etymologico (palavra anteposta),
a preposição designa fielmente a sua propriedade
mais caracteristica, que é a de não apresentar de per si
mesma uma idéa apreciavel, e sim tão sómente com a adjuncção
de uma palavra posterior, á qual se dá o appellido
de regime, e com a qual ella constitue um complemento
indirecto
.

Exemplo :

Só o saber do (de o) homem é livre destes (de estes)
perigos, porque nem o tempo o gasta, ou a morte o senhorêa;
 ;
e, com elle, mediante a graÇa divina, fazemos o caminho
para a gloria. (João de Barros).

Dahi o aphorismo grammatical : « Não ha preposição
sem regime, nem complemento indirecto sem preposição. »

235. As palavras essencialmente proprias para servir
de regime a uma preposição são : o substantivo, o pronome
ou um verbo no infinitivo
.

Exemplos :

Não ha homem sem coração, nem coração sem desejos.
(P. Ant. Vieira).

A cousa mais facil do mundo é dar conselho a outrem,
e a mais ardua é tomá-lo para si. (P. Ant. Vieira).

Despede-se o mundo sem dizer-nos nada, e saltêa-nos a
morte
sem chamar primeiro á porta. (P. Ant. Vieira).

236. A preposição ostenta-se tambem anteposta a um
adverbio
ou a uma conjuncÇão ; porém assentou-se geralmente,
para tornar mais expeditos os processos de analyse,
em chamar a taes conjunctos de palavras locuções adverbiaes
ou locuções conjunctivas.

Exemplos :

Que são as honras e dignidades ? Eça real : por fóra,
brazões e telas e luzes ; por dentro, ripas de pinho, e lixo.
(P. Man. Bernardes). — (… por fóra e por dentro, locuç.
adv.).

Ame-vos eu, Senhor, para que despreze o mundo ! Ame-vos
eu, Senhor, de todo o coração
, para que me sujeite á vossa
vontade
 ! (P. Man. Bernardes). — (… para que, locuç. conj.).

237. As preposições dividem-se em constantes e em
accidentaes.

São preposições constantes os vocabulos que, a não formarem
uma locução com outra palavra invariavel, em caso
179algum prescindem de um regime. Não excedem de vinte
uma :

tableau a, | dentre, | para,
afóra, | des, | per,
ante, | desde, | perante,
após, | durante, | por,
com, | em, | sem,
contra, | entre, | sob,
de, | mediante, | sobre.

São preposições accidentaes os vocabulos que, deixando
de actuar em um regime, revertem para uma especie de
palavras outra que a preposição. Seu numero é de oito :

tableau até, | salvo,
conforme, | segundo,
excepto, | supposto,
não obstante, | visto.

238. Vindo duas preposições a actuar conjunctamente
em um mesmo regime, ellas formão uma preposição composta.

Exemplos :

Mostremos no gesto modo grato e affavel para com todos,
sem tristeza, porém sem puerilidade ou chocarrice. (P. Man.
Bernardes).

Nas entranhas dos montes onde nasce o ouro, até as aguas
que
por entre as veias descem, sahem cruas. (Franc. Rodrigues
Lobo).

Observação. Alguns escrevem a fóra em lugar de
afóra ; esta ultima forma, porém, é mais consentanea com
as leis da lexicographia.

Ex. Não ha anno que, (alli) não naveguem de mil juncos
para cima
, afora outros navios pequenos. (Fernão Mendes
Pinto).

Observações sobre as preposições

239. A preposição com, seguida de uma palavra principiando
por vogal, com ella se deixa facultativamente
contrahir por archaismo, porém só no estylo poetico.
Exemplo :

O homem co’a a invenção supera o bruto,
O impulso das paixões co’a razão doma.
(Borges de Barros).180

Nota. Chamão-se archaismos, não só palavras ou
dicções antiquadas, como tambem certas reminiscencias do
latim ou do grego na construcção das orações.

Exemplo :

Venturoso tambem (inda que as musas
Não te hajão esmaltado o nome e a fama),
Cabral, que a vez primeira os mares cruzas
Recém-sulcados pelo illustre Gama !

(… inda = ainda).

Outra não pode competir com ella,
Região fértil, rica e deleitosa ;
lhe cedem a palma as celebradas
Media, Ophir, Tempe e as Ilhas Fortunadas.
(Ant. J. Viale).

(… té = até).

Supposto, pois, que todos havemos de morrer (e todos imos
para a sepultura), o maior favor que Deos póde conceder a
um mortal, é que morra e chegue lá mais tarde
. (P. Ant.
Vieira). — (… imos = vamos…).

Os archaismos, quando escolhidos com tino, e empregados
com sobriedade, não são, nem erros, nem descuidos,
o sim antes realce do estylo.

Ora archaismo é a alteração assignalada em referencia
a com, porquanto é mera reminiscencia da elisão que praticavão
os latinos na recitação dos versos, quando uma
palavra, acabando por vogal ou por m, vinha a topar com
outra principiando por vogal ou h.

Exemplo :

« Monstrum horrendum, informe, ingens, cui lumen ademptum. »

Pronunciado :

« Monst’ horrend’, inform’, ingens, cui lumen ademptum. »

240. Des, identico do sentido com desde, mal se encontra
fóra do estylo poetico, por ter cahido em desuso.

Ex. Ninguem póde culpar que seja alliviado dos pesos
communs quem
desde (ou des) a mocidade aturou o jugo
com constancia
. (Fr. Luiz de Souza).

241. Per, que em epocas não mui remotas, compartia
com por o officio de exprimir uma mesma relação (per
terras e mares, — por terras e mares), acabou por ser quasi
181totalmente supplantado pelo ultimo, a não ser nas locuções
em que, pospondo-se de, forma com elle uma preposição
composta (Faça cada um de per si o que não pode fiar dos
outros
). Entretanto o P. Ant. Vieira ainda disse : « Oh !
caso estupendo e inaudito ! ninguem pôz a mão na pedra;
ella
per si se despegou, cahiu e rodou do monte ! ».

242. Sobre assume um alcance adverbial quando, anteposto
a um adjectivo ou participio com o qual forma
locução indivisivel, significa excesso. E’ preposição quando
exerce regencia.

Ex. Este mesmo pardo sahe como sobre dourado, enriquecido
com mil esmaltes e retoques de encarnado, que avultão
mais
sob a cor parda do vestido. (P. Balthazar Telles).

243. Até é preposição com um regime.

Ex. O ferro, do joelho até os pés, significava o imperio
dos Romanos
. (P. Ant. Vieira).

Não consentia o infante D. Duarte que eu estivesse esperando
para entrarmos á lição, mas ordenou que eu não viesse
da minha pousada
ate não ser chamado. (André de Kezonde).

E’ adverbio com o sentido de mesmo.

Ex. Apoderou-se o ouro tanto de tudo o que na terra
havia, que veiu a ser preço
ate da liberdade dos homens,
contra o direito natural em que vivião
. (Franc. Rodrigues
Lobo). — (… que mesmo veiu a ser preço da liberdade…).

244. Conforme e segundo são adjectivos, e conseguintemente
variaveis, quando nada têm de commum em sentido.

Ex. Se aquellas rumas de façanhas em papel forão
conformes aos seus originaes, que mais queriamos nós ? já
não houvera Hellanda, nem França, nem Turquia : todo o
mundo fora nosso
. (P. Ant. Vieira).

São preposições, e conseguintemente invariaveis, quando
identicos em sentido, e por tanto suppriveis um por outro,
pedem um regime.

Ex. O reino e a primeira benção, segundo o uso dos
patriarchas, e
conforme a lei natural que ainda hoje se observa,
pertencia ao primogênito, que era Rubem
. (P. Ant.
Vieira).

Devemos dar correcção com espirito de brandura, e segundo
as regras
da prudencia. (P. Man. Bernardes). —
(… conforme as regras…)182

Conforme a é preposição composta.

Ex. Conforme, pois, a isto, em que predicamento poremos
a muitos homens ?
(Fr. Luiz de Granada).

Só faltarei com Vossa Alteza conforme á razão, pois
sei que della nunca fugiu
. (D. Hieronymo Ozorio, bispo de
Silves). — (… segundo a razão…).

245. Os quatro participios excepto, salvo, supposto
e visto passão a ser preposições, o conseguintemente invariaveis,
quando, deixando do constituir uma apposição
ou um predicado, vêm a exercer uma regencia.

Ex. Não devemos porfiar com alguem, nem contradizê-lo
directamente com empenho
, excepto os casos em que assim
importa em razão da mesma caridade
. (P. Man. Bernardes).
(… salvo os casos em que…).

Sobre os moimentos apparecem dous corpos deitados,… um
de el rei, que está armado de todas as armas
, salvo as da
cabeça
. (Fr. Luiz de Souza).

Supposto haver homens na lua, como contarão os dias,
mezes e annos ?

O Amazonas é o maior dos rios, visto exceder a todos
em comprimento e largura
.

246. Não obstante é proposição quando exerce uma
regencia.

Ex. Em que predicamento poremos a muitos homens ricos
e poderosos que, sentando-se cada dia á mesa, nem ainda lhes
passa pelo pensamento o lembrarem-se de tão liberal e magnifico
bemfeitor e provisor
, não obstante verem cada dia a
mesa cheia de seus beneficios ?
(Fr. Luiz de Granada).

Com a pronunciação foi tão unico Pisistrato em Athenas,
que
, não obstante ter por contrario a Solon, varão singularmente
douto, foi eleito á summa dignidade do imperio
. (Fr.
João Pacheco).

E’ adverbio quando não exerce regencia nenhuma.

Ex. O teimoso, embora convencido de erro, persiste não
obstante
, no seu proposito ; o cabeçudo nem presta sequer ouvidos
á persuasão. O primeiro pecca por orgulho ; o segundo,
por falta de guizo
.

Eis

247. O vocabulo eis apenas por analogia póde ser
capitulado de preposição, porquanto, na realidade, não cabe
183exactamente em nenhuma das especies de palavras, taes
como são declaradas.

Tem, como todas as preposições, a propriedade de
exercer uma regencia (Eis a verdade) ; e, como a mór
parte das preposições, a faculdade de formar, com uma ou
mais conjuncções posteriores, locuções conjunctivas (eis que…
eis como… eis senão quando…), como são as que formão
outras preposições : (a que… com que… em que… para
quando…
), etc.

Ex. Eis-aqui como se desterra o temor e o pejo. (P.
Man. Bernardes).

Differe, porém, de todas as preposições por dous predicamentos
terminantes, que vêm a ser : 1.° o regime de
eis nunca póde ser qualificado de complemento indirecto ;
porquanto, vindo a ser constituido por um pronome pessoal,
este recusa-se a assumir as formas proprias do mesmo complemento
(mim, ti, si, elle, ella, — nos, vós, si, elles, ellas),
para avocar impreterivelmente as do complemento directo
(eis-me, eis-te, ei-lo, ei-la, — ei-nos, eis-vos, ei-los, ei-las), sendo
que a intercalação da risca de união, tanto como da antíthese,
contribue para completar a demonstração ; 2.° ao
passo que nenhum complemento indirecto póde do per si só
enunciar um pensamento, visto como ; exprimindo uma mera
relação, forçosamente carece de um fado expresso ou occulto
para chegar a um sentido attendivel, o vocabulo eis póde
formar, e forma com o seu regime um pensamento completo,
qualificado até de proposição principal em analyse
logica ; « Eis a verdade ».

Ora todas estas anomalias encontrão uma explicação
natural na consideração que eis é simplesmente a terminação
do facto haveis, ao qual assim sobrou, em compensação
do sujeito, que lá se foi com o cabeçalho, quanto
bastava para acarretar um complemento : « ei-lo ».

O P. Man. Bernardes disse : « Aqui tendes mil e quinhentos
marcos de prata
 ». Diria com a mesma propriedade :
« eis-aqui mil e quinhentos marcos de prata ».

Por todos estes motivos, a designação analytica que
mais propriamente parece caber-lhe é a de preposição
verbal
.

Ex. Começa a sahir e a crescer o sol : eis o gesto agradavel
do mundo, e
a composição da mesma natureza toda
mudada
. (P. Ant. Vieira).

Outrosim reforça eis frequentemente a sua significação
por meio de um dos tres adverbios aqui, ahi, alli, quando
não vai seguido de um pronome pessoal,184

Ex. Eis aqui o meio termo : ouvir os aduladores, mas
não se mover por élles
. (P. Ant. Vieira).

Eis aqui o que vem a não poder os que querem mais do
que podem
. (P. Ant. Vieira).

248. A par das preposições andão as locuções prepositivas.

Locução prepositiva é todo o conjuncto do palavras
fazendo o officio de uma preposição. Tem por distinctivo
o ser a ultima das mesmas palavras uma preposição.

Lista das locuções prepositivas mais usadas

tableau abaixo de… | até a… | em pró de…
ácerca de… | atraz de… | em relação a…
acima de… | a troco de… | fora de…
á custa de… | á vista de… | junto a…
adiante de… | cerca de… | junto de…
a favor de… | debaixo de… | longe de
á frente de… | defronte do… | porto de…
além de… | dentro de… | por amor de…
ao contrario de… | de ordem de… | por baixo de…
ao envez de… | de parceria com… | por cima de…
a par de… | depois de… | por detraz de…
ao redor de… | detraz de… | por meio de…
apezar de… | em beneficio de… | por via de…
aquém de… | em consequencia de… | sem embargo do…
a respeito de… | em conta de… | etc., etc.

Capitulo VIII
Do adverbio

249. Adverbio é uma palavra invariavel que, ajuntando-se
a um verbo, participio, adjectivo, ou até a outro
adverbio, modifica-lhes o alcance de significação.

Se se attende ao seu sentido etymologico, apenas declara
elle que mais habitualmente actúa nos verbos.185

250. Quo o adverbio não modifica as palavras, evidencía-se
pela consideração que, nem lhes altera a forma,
nem lhes transtorna o sentido. Pois tanto canta o actor
que canta bem, como canta o actor que canta mal. Porém
o alcance de sentido que ao verbo confere o primeiro adverbio,
justifica os applausos que um grangeia, como o alcance
que lhe confere o segundo adverbio, motiva a pateada
que o outro venha por acaso a soffrer.

251. Seja, porém, qual for a palavra em que elle
actúa, o adverbio nunca deixa de ser analyticamente resoluvel
em um complemento indirecto amparado ou desamparado
de apposições. Esta é a sua feição caracteristica.

Ex. nunca chega o cubiçoso a ficar satisfeito. sempre
aguilhoado
por novos desejos, vai desprezando como mui somenos,
logo que os alcançou, os mesmos bens que mais ardentemente
almejara.

O primeiro adverbio deste exemplo actúa em um verbo
(nunca chega), e resolve-se em o complemento indirecto
« em tempo algum ».

O segundo, que actúa em um participio (sempre aguilhoado),
resolve-se em o complemento indirecto « a todo o
tempo
 ».

O terceiro, que actúa em um adjectivo (mui somenos),
resolve-se em o complemento indirecto « em subido gráo ».

O quarto, emfim, que actúa em outro adverbio (mais
ardentemente), resolve-se em complemento indirecto a com a
maior vehemencia
de ardor ».

252. Sendo assim na essencia o equivalente de um
complemento indirecto, sem todavia ostentar em caso
algum a preposição, o adverbio parece merecer com toda
a propriedade a designação analytica do complemento indirecto
implicito
, por opposição ao em que a preposição
é expressa (Fallai a vosso servo, Senhor !), ou simplesmente
occulta (Fallai-me, — isto é, — a mim). — (P. Man.
Bernardes).

253. Considerados na sua forma, os adverbios são de
incremento
quando terminados em mente, e sem incremento
quando terminados de outro qualquer modo.

254. Todos os adverbios de incremento ficão constituidos
do um adjectivo ou de um participio variavel, com
o simples accrescimo de mente á forma feminina do singular.186

Exemplos :

tableau sabia, | sabiamente. | audaz, | audazmente.
cortez, | cortezmente. | feliz, | felizmente.
exterior, | exteriormente. | feroz, | ferozmente.
levo, | levemente. | commum, | commummente.
| geral, | geralmente. | primeira, | primeiramente.
fiel, | fielmente. | dupla, | duplamente.
util, | utilmente. | só, | sómente.
particular, | particularmente. | mór, | mórmente.
declarada, | declaradamente, | aberta, | abertamente.

Ficão unicamente exceptuados os adverbios que se
formão dos adjectivos cujo feminino é ãa, porque, quando
deixa do ser terminativa, a mesma voz escreve-se an :
chrístãa, christanmente, — christandade.

Ex. « Digo chanmente, e declaro que, se os meus prebendados
desejão ouvir alvoradas de charamélas, e os fidalgos
de Braga querem ver passeios de ginetes formosos, e mulas
gordas e anafadas, e nuvens de pagens enfeitados e rugindo
sedas, desenganem-se, que nunca me verão tão desatinado, que
despenda com ociosos aquillo com que posso dar vida a muitos
pobres
 ». (Fr. Luiz de Souza).

255. Os adverbios sem incremento costumão ser repartidos
em diferentes categorias, cujo numero é mais ou
menos arbitrário, sem que de alguma divergencia a tal
respeito possa provir inconveniente algum ; porquanto tal
classificação é antes um recurso mnemonico, do que uma
disposição indispensavel para servir de assento a considerações
theoricas de importancia, tanto mais que alguns
adverbios, pela variedade de suas accepções, caberião repetidamente
em categorias diversas, o outros ficarião avulsos.

1.° Adverbios de lugar

tableau abaixo, | algures, | atraz, | donde,
acima, | alli, | avante, | fóra,
acolá, | aonde, | cá, | lá,
adiante, | aquém, | defronte, | longe,
ahi, | aqui, | dentro, | nenhures,
além, | arriba, | detraz, | onde,
perto | retro, etc,
187

2.° Adverbios de tempo

tableau agora, | depois, | já, | ora,
amanhãa, | então, | jamais, | presto,
antes, | hoje, | logo, | sempre,
cedo, | hontem, | nunca, | tarde, etc.

3.° Adverbios de quantidade

tableau ainda, | bastante, | muito, | só,
apenas, | demais, | outrosim, | sobretudo,
assaz, | mais, | pouco, | tanto,
até, | maxime, | quanto, | tão, etc.
menos, | quasi,

4.° Adverbios de modo

tableau adrede, | bem, | devagar, | recta,
alerta, | debalde, | mal, | rente,
assim, | depressa, | mesmo, | etc.

5.° Adverbios de affirmação e de negação

tableau devéras, | não, | nem, | sequer,
sim, etc.

6.° Adv. De interrogação ou de exclamação

tableau como ?! | porque ?! | quando ?! | quão ?!
que ?!

7.° Adverbios de duvida

tableau quiçá, | talvez.

Observações sobre os adverbios

256. O mesmo uso que a muitos adjectivos e participios
conferiu a faculdade de se converterem em adverbios
de incremento, denegou-a terminantemente a outros muitos,
sem que se possa atinar com a causa de semelhante desigualdade.
Assim é, por exemplo, que dos adjectivos branco,
azul, francez, encantador
, etc., e dos participios contado, fallado,
escripto
, etc., vedado é deduzir os adverbios brancamente,
azulmente, francezamente, encantadoramente, — contadamente,
falladamente, escriptamente
. Porém, com isso, nada
188perde a Grammatica : pelo contrario, ganha ella uma nova
demonstração do principio que faz de todos os adverbios
outros tantos complementos indirectos, visto como as expressões
por que costuma ser supprida a falta dos referidos
adverbios, reduzem-se, ou podem sempre ser reduzidas a
uma locução adverbial, ou a um circumloquio onde a assistencia
constante de uma preposição é declaração do complemento.

Ex. Pagina deixada em branco. — Sala alcatifada de
azul
. — Trajar Á franceza. — Fallar de modo a encantar.
Pagar a dinheiro de contado. — Enunciar-se em palavras. —
Declarar por escripto…

257. Desta consideração decorre outra consequencia
não menos digna de reparo, e vem a ser que, podendo um
adverbio actuar sobre outro adverbio, isto é, em um complemento
indirecto implicito, nada obsta a que o possa
igualmente fazer em um explicito, isto é, de preposição expressa,
pela simples razão que tanto vale um quanto vale
o outro.

Ex. « Se V. S., no que houver lugar, fór servido de
apadrinhar o merecimento do vigario-geral, além de ser obra
muito grata a Deos, e
muito do seu serviço, me fará V. S.
muito particular mercê
. » (P. Ant. Vieira).

Se a equidade ha de estar tanto na mente do juiz,
porque ha de estar
tão pouco no coração do credor ? (P.
Man. Bernardes).

Todo o universo não parece viu especies, nem mais em
numero
, nem mais formosas. (P. Simão do Vasconcellos).

O Condestavel não comeu senão algumas viandas mal cozinhadas,
sem pão, e disse com satisfação
 : « Nunca comí guizado
mais do meu gosto ». (Chron. do Condestavel).

O padre ficou como homem tomado de accidente de apoplexia,
que está vivo, e não sabe se vive, tão atalhado e
tão
sem conselho
, que não sabia formar umapalavra. (Fr.
Luiz de Souza).

Tomar o seu rumo mais para o sul, — menos para o
norte
.

258. Um numero diminuto de adjectivos qualificativos,
como caro, barato, etc., têm excepcionalmente a propriedado
inherente a muito, pouco, tanto, quanto, bastante, do converter-se
em adverbios sem assumir a terminação caracteristica
do incremento, o que dá frequentemente lugar a que escriptores
pouco afoitos aos habitos da analyse commettão
189o equivoco do sujeitá-los, quando adverbios, a uma concordancia
que só lhes compete quando adjectivos. Assim é
que raros são os periodicos onde não occorra : « Querendo
fulano vender
cara a sua vida… ou vender a sua vida
cara… », quando só seria legitima tal concordancia, se
houvera quem estivesse disposto a vender a sua cara vida.
Porém, no caso vertente, sendo caro o mero equivalente
do complemento indirecto « por alto preço », claro é que
passou a sor adverbio, e, por isso, palavra invariavel :
Vender caro a sua vida, — vender a sua vida caro, — visto
não ser admissível dizer caramente.

Com um certo numero de adverbios de igual procedencia,
indifferente é usar da terminação adjectival, ou
da de incremento.

Ex. Seguir o contrario disto era (se se havia de fallar
claro [claramente], e como entre amigos) um querer resuscitar
velhices
. (Fr. Luiz de Souza).

259. Outros adjectivos apresentão, na sua conversão
em adverbios, a singularidade de rejeitarem ou do aceitarem
o incremento segundo as palavras em que actúão,
se accommodão desta ou daquella forma. Assim é que se
diz : Cantar alto ; — estar altamente collocado. — Fallar
baixo ; — ser baixamente cruel. — Escrever fino ; — ser
finamente educado.

Porém estas o outras que taes locuções, por desprovidas
de um nexo synthetico, escapão ao regimento da
Grammatica, e só têm cabimento nas indicações da Lexicographia,
isto é, nos diccionarios.

260. Vindo dous ou mais adverbios de incremento a
actuar conjunctamente em uma mesma palavra, só ao ultimo
é que, por amor da euphonia, se confere o incremento.

Ex. Que direi dos meios e dos remedios, das industrias,
das artes e instrumentos que os homens têm inventado para
que cada um pudesse possuir e lograr o seu
segura e quietamente,
mas sem proveito ? (P. Ant. Vieira).

Conquistar a terra das tres partes do mundo a nações estranhas
foi empreza que os reis de Portugal conseguirão
muito
facil e muito felizmente
 ; mas repartir tres palmos de terra
em Portugal aos vassallos com satisfação delles foi impossivel
.
(P. Ant. Vieira).

Pois, que remedio para accrescentar a fazenda, util, discreta
e muito seguramente ?
(P. Ant. Vieira).190

261. Assim como os adjectivos donde procedem, os
adverbios podem geralmente assumir os mesmos tres gráos
de significação, que são o positivo, o comparativo e o superlativo ;
e, a não serem os adverbios bem e mal, derivados
do bom e mao, nenhuma observação peculiar se originaria
desta propriedade. Porém ambos apresentão no
seu comparativo de superioridade (que, como o de bom e do
mao, o tambem melhor e peior), um caso de anomalia tão
singular, que não pode ficar sem reparo.

Tendo de actuar, como comparativos de superioridade,
em um verbo, bem e mal convertem-se em melhor e peior.

Ex. Que motivo teve o juizo de Salomão para antepor o
dia da morte ao dia do nascimento ?
entendeu-o melhor que
todos, o maior interprete das Escripturas
. (P. Ant. Vieira).

Fizestes mal; porém quem vos aconselhou, fez peior.

Tendo de actuar, nas mesmas condições, sobre um
participio variavel, bem e mal dispensão a contracção latina,
para adoptar a formação regular mais bem e mais
mal
.

Ex. Nesta singular abundancia é Lisboa, não só a mais
bem provida
, mas tambem a mais deliciosa terra do mundo.
(P. Ant. Vieira).

Bastou uma só desunião para derribar e desfazer quatro
imperios dos mais valentes, dos mais poderosos, dos mais sabios
e dos
mais bem governados homens do mundo. (P. Ant.
Vieira).

Pois, se, com um desengano dado a tempo, os homens
ficão menos queixosos, o governo mais reputado, o rei mais
amado, e o reino
mais bem servido, porque se ha de entreter,
porque se ha de dilatar, porque não se ha de desenganar o
pobre pretendente ?
(P. Ant. Vieira).

Póde haver resolução mais mal entendida que lançar a
pique o navio em que sou embarcado, só para que meu inimigo
se afogue
 ! (P. Ant. Vieira).

E só nesta occasião sáhem estes passaros com sua musica,
que parece
mais bem empregada em festejar a saude alheia
que a do cysne, que tambem só a exercita em adivinhar a
morte propria
. (P. Balthazar Telles).

Theoricamente, a explicação mais plausível desta anomalia
parece ser a seguinte. Junto a um verbo, os adverbios
bem e mal, o conseguintemente os seus comparativos
melhor e peior, não têm lugar predeterminado, neste sentido
191que tanto podem ir antepostos como pospostos ao mesmo
verbo.

Ex. melhor mereceis vós outros todos a morte, que
este pobre homem
 ». (Garcia de Rezende).

O governador me respondeu em vozes. altas que tinha melhor
consciencia que os padres da Companhia, e
cria melhor
em Deus que eu. (P. Ant. Vieira).

E assim, naquelle desamparo e tormento, se apartou sua
alma santa daquelle atribulado e martyrisado corpo, que o
mesmo infante, com vigílias e jejuns, ainda
tratava peior.
(Duarte Nunes de Leão).

Porém, junto a um participio variavel, os mesmos adverbios
não prescindem da condição de lhe irem antepostos.

Ex. Seja este meu trabalho de vós favorecido, e eu o haverei
por
bem empregado. (Não : empregado bem). — (Franc.
Rodrig. Lobo).

Neste caso, por uma frisante analogia com o que se
dá cora querer bem, querer mal, e bem quisto, mal quisto;
 ;
ferir mal, e mal ferido, etc., os supracitados adverbios, de
tal modo vêm a prender-se em sentido com o participio
subsequente, que delle não se deixão desagregar para constituir
as contracções melhor e peior, vindo assim a ser
equiparados aos adjectivos bemdizente, maldizente, que sem
rebuço aceitão a modificação comparativa mais bemdizente,
mais maldizente.

Accresce, para confirmar esta supposição, que, vindo
por acaso o participio a deixar de topar com um ou outro
dos referidos adverbios, ou achando-se occasionalmento elidido,
as formas melhor e peior tomão a apparecer.

Ex. Oh ! saibamos fazer da necessidade, não digo já virtude,
mas ainda conveniencia ; que assaz conveniencia é escusar-se
a demandas ; poupar despezas de dinheiro e de tempo,
que são mais consideráveis ; conservar amigos e obrigados, e
ter
melhor e mais seguramente armada a conta para com
Deos, quando a pedir do que devemos
. (P. Man. Bernardes).
— (Não : … mais bem e mais seguramente armada…).

Nota. Com o referido adverbio mal não se deve confundir
outro, identico de sentido com apenas, e, por isso,
falto dos diversos gráos do significação.

Ex. Com estes fios tão finos, que ao principio mal
(apenas) se divisão, a aranha lança suas linhas, arma seus
teares, e toda a fabrica se vem a rematar em uma rede para
pescar e comer
. (P. Ant. Vieira).192

262. O vocabulo assaz, do sentido pouco dessemelhante
do de bastante, encontra-se nos classicos com os
mesmos predicamentos que fazem de bastante, já um adjectivo
indefinito, já um pronome indefinito, já um adverbio.
(V. § 164). Hoje, porém, mal apparece senão como
adverbio.

Ex. Oh ! saibamos fazer da necessidade, não digo já virtude,
mas ainda conveniencia ; que
assaz conveniencia é escusar-se
a demandas
… (P. Man. Bernardes). — (… assaz, — bastante, —
sufficiente conveniencia…).

Neste estylo escondeu Salomão os mysterios de nossa fé,
que estão nos cantares da esposa, escolhendo, para uma empreza
tão alta, e para uma poesia tão divina, uma semelhança
tão humilde, cujo exemplo era
assaz bastante para acreditar
estas artes com os homens de nossa idade
. (Franc. ítodrig.
Lobo).

Puderão ser de exemplo aos demais os vassallos honrados,
poderosos, e de autoridade e valor, que são os desta familia
,
assaz castigada com o muito que tem padecido e dispendido.
(P. Ant. Vieira).

263. logo é adverbio com o sentido de em breve, já
ou immediatamente ; é conjuncção com o de portanto.

Ex. A usura é vicio que logo se faz publico. (P. Man.
Bernardes). — (… que em breve se faz publico).

Christo diz que, na sua lei, e só na sua lei, se acha o
descanso
 : logo, se não buscais o descanso na lei de Christo,
é certo que não credes a Christo
. (P. Ant. Vieira). — (… portanto,
se não buscais…).

264. sim e não, só são adverbios quando actuão directamente
sobre um verbo, participio, adjectivo ou outro
adverbio.

Ex. Se o homem timido não tem coração, o teimoso não
tem
cabeça, porque não conhece que, sendo o errar um só
defeito, o sustentar o erro são dous
. (P. Ant. Vieira).

Vê, voador, como correu pela posta teu castigonão
contente
com ser peixe, quizeste ser ave ; e já não és ave
nem peixe
. (P. Ant. Vieira).

Toda a creatura dotada de vontade livre, não appetece
sempre ser mais do que é, senão tambem quer mais do que
póde
. (P. Ant. Vieira) ; — (… não sómente…).

Agora sim, disse então aquella cotovia astuta, agora
193sim, irmãas, levantemos o vôo, e mudemos a casa, que vem
quem lhe dóe a fazenda
. (P. Man. Bernardes).

Apparecendo, porém, soltos, sim e não são interjeições.
(V. o capit. da interjeição).

265. nem deve ser capitulado de adverbio quando se
apresenta como mero substitutivo de não.

Ex. Importa, pois, que não roube a negociação o que se
deve ao merecimento
 ;… que se qualifiquem papeis, que se examinem
certidões, que
nem todas são verdadeiras. (P. Ant.
Vieira). — (… visto que não todas…).

O mesmo vocabulo deve ser reputado conjuncção,
quando, ao seu sentido negativo, accresce o da conjuncção
e.

Ex. Vê, voador,… já não és ave nem peixe ; nem voar
poderás já
, nem nadar. (P. Ant. Vieira).

Comprova-se, neste caso, a intervenção occulta de e,
se, de conformidade com o processo de substituição, sabe
esta conjuncção quando as preposições, de negativas que
são, convertem-se por mera experimentação, em proposições
affirmativas : « … Já és ave e peixe ; e voar poderás já, e
nadar ». — Esta distincção torna-se necessaria por mais de
uma applicação, quer em syntaxe, quer na theoria da
pontuação.

266. Os vocabulos como, porque, quando, quão e que
são meros adverbios, lexicologicamente fallando, quando se
resolvem em um complemento indirecto.

Ex. Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes
então do respeito e decoro de vossa mãi
, como consentis
agora que se lhe fação tantos desacatos f
(P. Ant. Vieira). —
(… por que razão consentis agora…).

Fóra de tal caso, são conjuncções.

267. a par dos adverbios andão as locuções adverbiaes.

Locução adverbial é todo o conjuncto de palavras
fazendo o officio de um adverbio. Tem por distinctivo o
ser resoluvel em um adverbio (por oraactualmente),
ou figurar um complemento indirecto (dahi em diantede
futuro
).194

Lista de algumas locuções adverbiaes

tableau a cavalleiro, | de chofre, | de tarde,
a cavallo, | de cima para baixo, | de todo,
a deshoras, | de cócaras, | de vez em quando,
á direita, | do cór, | nem sequer,
á esquerda, | de corrida, | outr’ora,
a torto, | de diante para traz, | para diante,
algum tanto, | de então em diante, | para sempre,
ao depois, | de graça, | para traz,
ao diante, | de hoje para amanhãa, | por acaso,
ao menos, | de improviso, | por acinte,
ás avessas, | de madrugada, | por atacado,
ás cegas, | de mais a mais, | por fortuna,
ás escancaras, | de novo, | por ora,
ás escuras, | de portas a dentro, | por ventura,
ás pressas, | de promptoj | pouco a pouco,
a varejo, | de proposito, | quando muito,
dahi a pouco, | de repente, | tintim por tintim, etc.

Capitulo IX
Da conjuncção

268. Conjuncção é uma palavra invariavel que liga
partes de uma oração, ou orações completas, para entre as
idéas ou os pensamentos assignalar, já connexão, já opposição.

Ex. Não houve rei tão opulento nem tão venturoso como
Salomão. entretanto délle é o juizo que tudo é vaidade excepto
amar
e servir a Deus.

Neste exemplo, a primeira conjuncção (nem) assignala
uma connexão entre as duas apposições opulento e venturoso.

A segunda (como) marca igualmente uma connexão
entre dous pensamentos, o segundo dos quaes é encurtado
por uma figura de syntaxe chamada ellipse : Não
houve rei tão opulento nem tão venturoso
como [venturoso e
opulento foi]
] Salomão.195

A terceira (entretanto), encetando uma nova oração,
predispõe o espirito a uma opposição entre os pensamentos
anteriores, e os que lhes succedem, opposição que se verifica
pelo contraste da felicidade de que gozou o rei israelita,
o da desoladora confissão que lhe arranca a sua
afflicção de animo.

A quarta (que) constitue o nexo entre o juizo annunciado,
e a materia deste juizo : a vaidade.

A quinta, emfim (e) estabelece a connexão que naturalmente
existe entre dous actos dirigidos para um mesmo
fim : amar a Deus, e servir a Deus.

269. A unica regencia que compete á conjuncção, é a
do avocar, já um, já outro dos modos de facto nos verbos ;
porém, nos outros termos da proposição, não exerce acção
nenhuma, porquanto não lhes dá nem lhes tira nada : e
nisto é que se differencía essencialmente, quer da proposição,
quer do adverbio.

Nem por isso deixa ella de representar um papel importante
na constituição da linguagem, mórmente com referencia
á pontuação, já identificando, já discriminando
termos e proposições. E tão importante é esto papel que,
do todas as especies do palavras, é a unica que se mostra
avessa a uma remoção do lugar que lhe assigna a logica.
Apenas algumas dentro as menos significativas são facultativamente
sujeitas a uma leve deslocação ; as que, porém,
servem do nexo imprescindivel entre as proposições, podem
vir a ser accidentalmente elididas, ou até transferidas com
toda a proposição por ellas encetada ; mas deslocadas, para
detraz do facto, nunca.

270. Consideradas em relação ao modo por que intervém
no discurso, as conjuncções formão as tres classes
bem distinctas de copulativas, subordinativas o preventivas.

271. As copulativas são só tres : e, nem, ou. Tanto
se encontrão dentro do uma proposição, como entre proposições,
o até entre orações.

Collocadas dentro de uma proposição, denuncião termos
compostos, ou ao menos de semelhante natureza.

Ex. O engano vestido de eloquencia e arte attrahe.
(Mathias Ayres da Silva de Eça).

Ahi constituem eloquencia e arte um unico complemento
indirecto, porém composto, sob a regencia da mesma preposição
de. (V. a syntaxe).

Collocadas entre proposições, denuncião-nas como sendo
da mesma especie. (v. a theoria da analyse logica).196

Ex. O engano vestido de eloquencia e arte attrahe, e a
verdade mal polida nunca persuade
. (Mathias Ayres da Silva
do Eça).

Collocadas entre orações, denuncião-nas como correlativas.
(V. a theoria da analyse logica).

Ex. O engano vestido de eloquencia e arte attrahe, e a
verdade mal polida nunca persuade
. e assim mais nos agrada
o discorrermos subtilmente do que o discorrermos com acerto
.
(Mathias Ayres da Silva de Eça).

Nota. Nesto ultimo exemplo tão somente, fez-se, na
ordem das duas orações, uma transposição que, sem obliterar
as opiniões do autor, torna a demonstração theorica
mais frisante.

272. As subordinativas são que e se, com todas as
mais conjuncções ou locuções conjunctivas implicando ostensivel
ou occultamente que ou se.

No jogo das diversas proposições que costumão concorrer
á formação da mór parto das orações, nenhumas
conjuncções se avantajão ás subordinativas, já pela importancia,
já pela simplicidade das indicações theoricas que
fornecem a bem da discriminação dos pensamentos complexos,
o de sua respectiva avaliação. Pois não ha encarecimento
em dizer que constituem a chave da analyse
logica, como esta constitue a introducção obrigatoria a
uma theoria racional da pontuação.

As conjuncções implicando ostensivel ou occultamente
os mesmos vocabulos são as dez seguintes :

tableau como, | porque,
conforme, | quando
embora, | quão
emquanto, | segundo,
porquanto, | senão.

As locuções conjunctivas assemelhaveis ás mesmas conjuncções
são todas as que, como as seguintes, constão de
um conjuncto do palavras acabando por uma subordinativa :

tableau afim que… | ao passo que… | comtanto que…
ainda bem que… | assim como… | despois que…
ainda que… | assim que… | desde que…
ainda se… | até que… | do que…
a não ser que… | como que… | excepto se…
antes que… | como se… | já que…
197

tableau logo que… | para que… | supposto que…
longe que… | posto que… | tanto que…
não obstante que… | salvo se… | visto como…
nem. que… | se bem que… | visto que…, etc.

Observações
sobre as conjuncções e locuções subordinativas

273. Que é conjuncção quando resiste a toda e qualquer
conversão, ou só se deixa converter em outra conjuncção
ou locução subordinativa. (V. § 175, art. 5.°).

274. Se, conjuncção, enceta necessariamente uma proposição,
e por isso, precede constantemente ao verbo sobre
o qual actúa, sem se prestar isoladamente a transposição
alguma, isto é, sem arrastar comsigo a proposição a que
serve de cabeçalho.

Ex. Se Deos vos fez estas Mercês, fazei pouco caso das
outras
. (P. Ant. Vieira). — (Fazei pouco caso das outras
Mercês
, se Deos vos fez estas).

Se, pronome pessoal, tanto se encontra anteposto como
posposto ao verbo. Indo-lhe, porém, anteposto, discrimina-se
da conjuncção por se ageitar sempre, com mais ou menos
propriedade de collocação, a uma transposição para traz
do verbo.

Ex. Se tendes posto muito perto ao rei, tudo se vos sujeita.
(P. Ant. Vieira). — (Se tendes posto muito perto ao
rei, sujeita-
se-vos tudo).

Outros exemplos :

Se o soldado se vê despido (vé-se despido), folgue de descobrir
as feridas, e de envergonhar a patria, por quem as
recebeu
. se, depois de tantas cavallarias, se vê a pé, (vê-se a
pé), tenha essa pela mais illustre carroça de seus triumphos.
e
, se, emfim, se vê morrer a fome (vê-se morrer a fome),
deixe-se morrer, e vingue-se. (P. Ant. Vieira).

275. Cumpre, porém, attender, não só em relação á
grammatica geral, senão tambem porque dahi se deduz uma
notavel divergencia de pontuação, que são duas as conjuncções
se : uma condicional, e outra dubitativa.

O se condicional tem por distinctivo a propriedade de
ser çonvertivel em caso que, constrangendo então o verbo
198sobre o qual elle actúa, a passar para o subjunctivo, se
por acaso não se acha já neste modo.

Ex. se tendes posto muito perto ao rei, tudo se vos sujeita.
(P. Ant. Vieira). — (caso que tenhais posto muito
perto ao rei
,…).

Se cinco mil homens, com mulheres e filhos, entrassem de
repente em uma grande cidade, não haveria promptamente que
lhes dar de comer
. (P. Ant. Vieira). — (caso que cinco mil
homens, com mulheres e filhos
, entrassem em uma grande cidade,…).

O se dubitativo é inconvertivel em outra qualquer
expressão.

Ex. Vêde se foi grande favor, e providencia do Céo que
se não descobrissem minas
 ! (P. Ant. Vieira).

Havião os phariseos introduzido na casa um hydropico
para ver
se Christo o sarava em semelhante dia. (P. J. B.
de Castro).

Em relação á grammatica geral justifica-se a conveniencia
desta distincção por se negarem frequentemente as
mesmas conjuncções a ser vertidas em outras linguas por
uma só e mesma conjuncção. Assim é que o se condicional
fica reproduzido, em latim, por si, — e em allemão, por
Wenn ; — e o se dubitativo, em latim, por an, — e em allemão,
por ob. — Ambos, outrosim, se encontrão representados
nos seguintes exemplos :

Se Diogenes então perguntasse quaes erão os que passavão-se
os do triumpho, se os que estavão vendo, não ha duvida
que a pergunta parecería digna de riso
. (P. Ant. Vieira). —
(caso que Diogenes então perguntasse…).

O infante D. Duarte, se algumas vezes queria ir fóra
folgar e caçar, mandava-me recado
 : « Vai dizer a meu mestre
se me dá licença para ir. » (André de Resende). — (… caso
que
quizesse ir…).

276. Como, contracção do vocabulo latino quomodo,
corresponde, como conjuncção, á locução conjunctiva
« modo por que… » vindo a palavra « modo » a pertencer á
proposição anterior, o « por que » á posterior.

Ex. O’ Senhor, não sei como isto pode estar com a piedade
e amor de filho
. (P. Ant. Vieira). — (… não sei o
modo — por que isto póde estar…).

Assim como já veiu exposto, e mórmento quando o
mesmo vocabulo concorre a formar uma oração interrogativa
ou exclamativa, melhor é tê-lo então em conta do adverbio,
199porque representa analyticamente um complemento
indirecto.

Ex. Pois, Filho da Virgem Maria, como consentis agora
que se lhe fação tantos desacatos ?
(P. Ant. Vieira). — (… por
que motivo
consentis agora…).

Nas mesmas circumstancias, os vocabulos porque,
quando e quão
, por affectarem tambem mais ostensivelmente
as feições adverbiaes, devem ser tidos por adverbios.

Ex. Dizei-me, voadores : não vos fez Deos para peixes ?
Pois
, porque vos metteis a ser aves ? (P. Ant. Vieira). —
(… por que motivo vos metteis…).

Quando fazem os ministros o que fazem ? e, quando
fazem o que devem fazer 1 (P. Ant. Vieira). — (em que
tempo
fazem. :.).

Quão magnificas e hem ordenadas são, Senhor, todas
vossas obras t
(P. Man. Bernardes). — (em que extraordinaria
proporção
magnificas e bem ordenadas são…).

Observação. Que estes o semelhantes desmanchos
analyticos, de grande importancia em svntaxe, não são nenhuma
interpretação forçada das conjuncções subordinativas,
verifica-se polo seguinte exemplo, em que a locução
explicativa de como póde ser convertida nesta conjuncção,
o vice-versa, sem alteração de sentido.

Saibamos agora, e não de outrem, senão das mesmas arvores,
se este bom governo
, — do modo que (como) ellas o
entenderão, se póde conseguir com as raizes na terra. Assim
as que o offerecêrão
como (do mesmo modo que) as que o
não aceitarão, todas concordão que não
. (P. Ant. Vieira).

277. Os vocabulos, emquanto, porquanto, porque,
quando e quão
, em cuja contextura é mui perceptivel a
interferencia de que, resolvem-se analyticamente, na qualidade
de conjuncções, em dous termos, o primeiro dos quaes
pertence á proposição anterior, e o segundo constituido
sempre por que, á posterior.

Ex. Crescia aquella monarchia emquanto crescia a fé, e
crescia a fé
emquanto os ministros della erão assistidos dos
que o são dos reis, e
emquanto os mesmos reis tinhão por tão
suas as conquistas da Igreja, como a dilatação do proprio imperio
.
(P. Ant. Vieira). — (Crescia aquella monarchia na
proporção — em que
crescia a fé…).

Tambem lhe disse el rei de França que, porquanto tinha
por certo que, algumas vezes, os Castelhanos folgavão de vender

200fortalezas, elle haveria por mais barato comprá-las por dinheiro
que por guerra
. (Duarto Nunes de Leão). — (Tambem lhe
disse el rei de França que elle havia por mais barato comprar
fortalezas por dinheiro que por guerra
 ; na supposição
que tinha por certa…).

E’ a luz mais benigna que o sol, porque o sol não só
allumia, mas abraza
. a razão natural desta differença é porque
o sol (como dizem os philosophos), ou verdadeiramente é
fogo, ou de natureza mui semelhante ao fogo
. (P. Ant. Vieira).
— (E’ a luz mais benigna que o sol, por isso — que o sol
A razão desta differença é por isso — que o sol…).

Toda a consolação é escusada quando os males são sem
remedio
. (P. Ant. Vieira). — (Toda a consolação é escusada
na occasião — em que os males…).

Todos sabemos quão estreitas e quão limitadas são as
taxas que S. Thomaz pôz á casa, á familia e a todas as mais
despezas dos prelados
. (Fr. Luiz de Souza). — (Todos sabemos
a proporção — em virtude da qual tão estreitas e
tão limitadas
…).

Observação. Como certas considerações syntaxicas,
do que em outra parte fallar-se-ha, tornão opportuna a
discriminação dos vocabulos como, porque, quando, quão o
que
, já em adverbios, já em conjuncções, cumpre novamente
ter presente que a primeira destas qualificações lhes
compete mais habitualmente nas orações directamente interrogativas
ou exclamativas, e a segunda, nos outros
casos.

Ex. A mãi dá a maçãa ao filhinho, e esconde-lhe a faca.
porque ? (Adverbio) — porque quer que côma, mas não quer
que se fira
. (Conjuncção). — (P. Ant. Vieira).

278. Conforme e segundo passão de proposições a
conjuncções quando, igualmente suppriveis uma por outra,
e deixando de actuar em um regime, servem de mero nexo
a duas proposições, tornando-se em tal caso conjuncções
subordinativas, por adduzir nellas a decomposição analytica
constantemente que.

Ex. Daquellas figuras, umas erão de maior estatura,
outras de mediana, e outras mais pequenas
, conforme se offereceu
achá-las
. (P. Man. Bernardes). — (… segundo se offereceu…).

Nesta terra ha de tirar N. do N. mais de cem mil cruzados
em tres annos
, segundo (conforme) se lhe vão logrando
bem as industrias
, (P. Ant. Vieira), — (Nesta terra ha de
201tirar N. do N. mais de cem mil cruzados em tres annos,
modo — dor que
lhe vão…).

Quando cuidamos, pelas flores que de uma região conhecemos,
que poucas mais haverá nas outras, apparecem novos
exercitos da florida primavera
, segundo (conforme) são novos
os climas e terrenos que se descobrem
. (P. Man. Bernardes).
— (… apparecem novos exercitos da florida primavera na
ordem — em que
são novos os climas…).

Em umas o feitio é tão exquisito, que parece que seu Artifice
estava então curioso e applicado. Em outras dirieis que
se valeu do pincel
, segundo (conforme) as salpicou de varios
matizes
. (P. Man. Bernardes). — (Em outras dirieis que se
valeu do pincel
, pelo modo — por que as salpicou…).

279. Embora é conjuncção com o sentido do posto
que, ainda que
, o então vai naturalmente anteposto ao
verbo.

Ex. Embora todos te reneguem, eu nunca te renegarei.
— (Eu nunca te renegarei, ainda que (posto que) todos te
reneguem).

Posposto ao verbo, o mesmo vocabulo é mero adverbio
do concessão, pois póde ser, em tal caso, modificado por
outro adverbio. (seja embora como querem ; — seja muito
embora…
!).

Ex. Mas isto passe embora porque é damno particular.
(P. Ant. Vieira).

Sob a forma plural, é substantivo synonymo de parabéns.

Ex. Aceite as minhas embóras.

280. Senão, mera contracção da conjuncção se com o
adverbio não, já acharia, nesta unica consideração, motivo
sufficiente para ser tido como conjuncção subordinativa,
quando não tivesse outro na propriedade de se resolver
analyticamente em que, ou n’uma locução cuja ultima palavra
é quea não ser que

Ex. Que é o nascer senão o remedio de não ser ? (P.
Ant. Vieira). — (Que é o nascer, se não é o remedio de não
ser
 : — a não ser que seja o remedio de não ser ?).

Não têm ás vezes mais de prudencia os máos em seus
conselhos
, que de coserem a bocca. (Fr. João do Couta). —
(… senão de coserem a bocca).

Por estes desmanchos analyticos percebe-se que a circumstancia
provocando a contracção senão é simplesmente
202a omissão do facto em que terião de actuar as duas partes
constitutivas deste vocabulo (senão o remedio : — se não é
o remedio).

Toda a nobreza e excellencia do homem consiste no livre
alvedrio ; e o servir
, se não é perder o alvedrio, é captivá-lo.
(P. Ant. Vieira).

Umas leves alterações em outros trechos igualmente
extrahidos do P. Ant. Vieira prestão-se a confirmar esta
allegação.

« Use o principe de doçura, domará elephantes ; se de
violencia
, irritará cordeiros ». — Use o principe de doçura,
domará elephantes
 ; senão, irritará cordeiros. — Isto é : Use
o principe de doçura, domará elephantes
 ; se não usar de doçura
(a não ser que use de doçura), irritará cordeiros).

« No que toca a todos, consulte os mais ; se não acertar,
errará acreditado ». — No que toca a todos, consulte os mais ;
senão, errará desacreditado. — (… se não consultar…
a ser que não consulte…).

« Que cousa é o ouro e a prata, senão uma terra de
melhor côr ? E, que são as perolas e os diamantes
, senão
uns vidros mais duros ? Que cousa são as galas, senão um
engano de muitas côres?
 » — Isto é : Que cousa é o ouro e a
prata
, se não são uma terra de melhor côr ? E, que são as
perolas e os diamantes
, se não são uns vidros mais duros ?

Que cousa são as galas
, se não são um engano de muitas
côres ?

Nisto é que se cifrão as principaes observações a que
cumpre attender para escrever com acerto senão e se
não
.

Cumpre ainda notar que os classicos empregão frequentemente
o mesmo vocabulo com o sentido da locução
hoje mais usada e sim.

Ex. Agora não vos peço admiração, senão (e sim) pasmo.
(P. Ant. Vieira).

O que dahi decorro, é que, com este sentido, senão
deixa de ser conjuncção subordinativa, o passa a ser preventiva,
com o sentido de mas.

281. Muito convem discriminar a locução conjunctiva
do que das tres locuções pronominaes do que.

As locuções pronominaes são essencialmente convertiveis
em daquelle que…. daquillo que…. ou de que
cousa
.

Ex. Que direi do que, para sahir um dia aos touros, e
203ostentar cincoenta lacaios vestidos de tela, empenhou o morgado
e as commendas por muitos annos ?
(P. Ant. Vieira). — (Que
direi
daquelle que…).

Quem não se guarda do que receia, não se espante quando
vir o que teme
. (P. Ant. Vieira). — (Quem não se guarda
daquillo que receia…).

E, porque a canna delgada não poderia suster o peso da
espiga, esta se reforça, com as camisas das folhas de que está
vestida, e muito mais com os nós que de espaço em espaço tem
distribuidos, os quaes são como os liadouros de tijolo nas paredes
de taipa para firmá-las
, do que carece a aveia, que,
como não tem, no alto, peso, não teve deste reforço necessidade
.
(Fr. Luiz de Granada). — (… de que cousa carece a
aveia
…).

A locução do que é conjunctiva quando, por substituição
a que, invertem entre os dous membros de uma
comparação.

Ex. Mais louvavel é evitar as injurias do que (que)
vingar-se dellas
. (P. Ant. Vieira).

Um avarento não faz cousa mais acertada em toda a sua
vida
do que (que) sahir-se della. (P. Man. Bernardes).

Isto é o que se escreve, e se escreve muito menos do que
(que) verdadeiramente é. (P. Ant. Vieira).

282. Importa igualmente não confundir o complemento
indirecto para que com a locução conjunctiva para
que
.

No primeiro caso deixa-se que resolver em todas as
formas analyticas que designão este vocabulo, já como adjectivo
indefinito, já como pronome relativo, já como pronome
indefinito.

Ex. Não nos é dado saber para que fins creou Deos
tudo o que vemos
. — (… para quaes fins…).

Quando se publica e se sabe o felicissimo e altissimo fim
para que nasceu Maria, então se solemnisa e festeja com
razão o dia do seu nascimento
. (P. Ant. Vieira). — (… para
o qual…
).

Nascemos sem saber para que nascemos ; e bastava só
esta ignorancia para fazer a vida pesada, quando não tivera
tantos encargos sabidos
. (P. Ant. Vieira). — (… para que
cousa…
).

No segundo caso resolve-se para que em afim que,
ou em outra locução conjunctiva do mesma categoria.204

Ex. De umas cidades se não sabem os lugares onde estiverão;
 ;
de outras se lavrão, semeião e plantão os mesmos lugares,
sem mais vestigios de haverem sido que os que encontrão
os arados quando rompem a terra
 : para que os homens,
compostos de carne e sangue, se não queixem da brevidade da
vida (pois tambem as pedras morrem), e
para que ninguem
se atreva a negar que tudo quanto houve, passou, e tudo
quanto é, passa
. (P. Ant. Vieira). — (… afim que…).

Aos cães, deixa-se-lhes sopa para que não ladrem nem
mordão
. (P. Man. Bernardes). — (… afim que…).

283. Entre as locações conjunctivas de mesma ordem
merece especial reparo a que fica constituida dos vocabulos
por o que, visto apresentar a singularidade de apparecer
sempre disgregada por uma interpolação em que se encontra
necessariamente um participio, adjectivo ou adverbio,
ou palavra originariamento adjectival.

Ex. Não ha caso, por perdido que seja, que, posto na
mão de um sabio, delle não esperemos remedio ; e não ha caso
,
por ganhado que seja, que, posto na mão de algum simples,
não se espere perdê-lo
. (P. Ant. Vieira).

por desprezivel que seja qualquer pessoa, póde ser mui
util ou mui nociva a qualquer outra de alto estado e dignidade
.
(P. Man. Bernardes).

Terrivel palavra é um non. Não tem direito nem avesso ;
por qualquer lado que o tomeis, sempre sôa e diz o mesmo
por qualquer parte que o tomeis, sempre é serpente, sempre
morde, sempre fere, sempre leva o veneno
por mais que
confeiteis um não, sempre amarga ; por mais que o enfeiteis,
sempre é feio
 ; por mais que o doureis, sempre é de ferro.
(P. Ant. Vieira).

Verifica-se, aliás, a unidade de sentido desta locução,
apezar da dissociação que lhe impõe a sua natureza, pela
faculdade de, em todas as hypotheses, ser resoluvel em
uma ou outra das tres expressões synonymas embora, ainda
que, posto que
.

Não ha caso, embora seja perdidoembora seja ganhado

Ainda que seja desprezivel qualquer pessoa,…

Embora tomeis o não por qualquer lado... por qualquer
parte
embora o confeiteis muito,… o enfeiteis muito,… o
doureis muito

284. As conjuncções preventivas são vocabulos que,
por sua intorposição entre duas partes de um mesmo termo
205syntaxico, ou entre duas proposições, ou emfim entre duas
orações, não têm outra funcção senão a de encaminhar o
espirito a considerar as idéas ou pensamentos assim ligados,
como consenscientes ou dissidentes.

Exemplos :

(Entre partes de um mesmo termo) :

Lucullo, cidadão romano, homem riquissimo, mas muito
vanglorioso, gastava em cada ceia, com seus convidados, cinco
mil philippêos
. (P. Man. Bernardes).

(Entre proposições) :

O entendimento é a mesma parte que discorre, porem
póde discorrer mal. (Mathias Ayres da Silva de Eça).

(Entre orações) :

Póde haver maior desgraça que não ter um homem bem
algum digno de inveja ?
Pois é o que se segue de não ter inimigos.
(P. Ant. Vieira).

Verifica-se o caracter essencialmente accessorio das
conjuncções preventivas, e conseguintemente a sua menor
importancia, pela consideração que, sendo eliminadas, não
fica por isso o pensamento desvirtuado ; porém o sobresalto
que de sua suppressão recebe o espirito, é indicação frisante
de quanto servem para suavisar a linguagem. Basta,
para averiguá-lo, sujeitar a esta prova os tres exemplos
anteriores.

285. As conjuncções preventivas que mais a miudo
occorrem, são as seguintes :

tableau aliás, | logo, | pois,
comtudo, | mas, | porém,
emfim, | ora, | portanto,
entretanto, | outrosim, | todavia, etc.

Convem accrescer-lhes as iterativas :

tableau já… já… — ora… ora… — quer… quer…

286. Em opposição ás outras classes de conjuncções,
as preventivas podem ser consideradas como formas meramente
adverbiaes, ageitadas a servir do transição. Comprova-o,
não só a propriedade que algumas têm, como
todavia, entretanto, comtudo, etc., de se portar, de vez era
quando, junto a verbos, como verdadeiros adverbios, senão
206tambem a frequencia dos casos em que vocabulos constituindo
declaradamente adverbios ou locuções adverbiaes
fazem o officio de conjuncções preventivas ; assim finalmente
em vez de emfim, — conseguintemente, por conseguinte, por
consequencia
em vez de logo ou portanto, etc. Assim é que,
no seguinte exemplo, a conjuncção emfim faz o officio de
mero adverbio :

Quando Affonso de Albuquerque conheceu que as intrigas
tramadas pela inveja
tinhão emfim (finalmente) abalado o
coração de el rei, não se póde conter que não levantasse as
mãos ao céo
. (Vida de el rei D. Manoel).

Porém, nos seguintes exemplos, são a contrario adverbios
que fazem o officio de conjuncções, por se intrometterem
como vinculo entre orações :

Que cousa é a fama, senão uma inveja comprada ? uma
funda de David, que derriba o gigante com a pedra, e ao
mesmo David com o estalo. Que cousa é a prosperidade humana,
senão um vento que corre todos os rumos ? se diminue,
não é bonança ; se cresce, é tempestade
. finalmente, que
cousa é a mesma vida, senão uma alampada accesa ? vidro e
fogo : vidro que com um assôpro se faz, fogo que com um assôpro
se apaga
. (P. Ant. Vieira). — (… emfim, que cousa é
a mesma vida
…).

Saibamos agora, e não de outrem, senão das mesmas arvores,
se este bom governo, do modo que ellas o entenderão, se
póde conseguir e exercitar com as raizes na terra
. assim ás
que o offerecêrão, como as que o não aceitárão, todos concordão
que não
. (P. Ant. Vieira). — (Pois as que o offerecêrão…).

Mas vamos a esse inimigo. Já que esse inimigo e esse
odio é tão irreconciliavel, porque não matais esse inimigo ?

Responde a vossa bizania que o não matais porque não ha
causas para tanto
. agora vos convencí. Basta que a vossa desunião
não tem causas para matar um homem, e tem causas
para matar um reino
 ! (P. Ant. Vieira). — (… logo (portanto)
vos convencí…).

287. Dentre as referidas preventivas contão-se nove
que se deixão transferir para dentro da proposição que
lhes cabe logicamente iniciar :

tableau aliás, | entretanto, | porém,
comtudo, | logo, | portanto,
Emfim, | pois, | todavia.

Mas cumpre attender a que não convem afastá-las
207muito do logar que lhes é assignado por sua funcção, nem
intromettê-las entre termos que intimamente se prendem.

Ex. O peccado da usura, e a enfermidade da lepra parecem-se
em muitas cousas : não é
, logo, de admirar que esta
fosse a pena daquella
. (P. Man. Bernardes). — (… logo não
é de admirar
…).

Assim, pois, acontece aos soberbos, que, quando mais
ufanos e satisfeitos de suas prendas, andão a buscar o applauso
do mundo
. (P. Man. Bernardes). — (Pois assim acontece…).

Não diminuiu nada a dor de S. Ex. o não ter visto ao
senhor D. Theodosio, porque o via retratado nas suas cartas;
 ;
sei, comtudo, que deseja muito em retrato seu natural. (P.
Ant. Vieira). — (… comtudo sei que deseja…).

Forão inventores destes jogos Hercules, Pytho, Theséo e
outros heroes, de quem os tomárão os Gregos e Romanos, sendo
,
porem, o principal premio dos que vencião, não o dinheiro,
senão a honra e fama
. (P. Ant. Vieira). — (… porem sendo
o principal premio
…).

288. As conjuncções iterativas exprimem alternancia
ou opção.

Ex. Sahiu a pomba da Arca ; e diz o texto sagrado que,
ia, tornava, tomava para uma parte, para outra,
e que não achava onde descansar
. (P. Ant. Vieira).

Que é o que vês ?Tudo passando... as arvores sempre
remudando-se
, ora seccas, ora floridas, ora murchas. (P. Man.
Bernardes).

Seria cousa grande descer ao particular, quer de esmolas,
quer de donativos gratuitos. (P. Simão de Vasconcellos).

Capitulo X
Da interjeição

289. Interjeição é uma palavra invariavel que implicitamente
abrange todos os elementos do uma proposição ou
pensamento.

As mais perfeitas interjeições por sua significação categorica
são sim o não, quando representando por si sós
208um pensamento, servem de resposta peremptória a uma
interrogação.

Ex. Responde-me. Para onde vais ? vais para, a sepultura ?
sim. (P. Ant. Vieira). — (Tu vais para a sepultura).

Esta navegação, estas viagens, este caminho maritimo para
a India, China e toda a Asia, havia-o antigamente?
não :
nem rasto ou pensamento humano de tal caminho ; antes, mais
doutos e sabios entendimentos o tinhão por impossivel
. (P. Ant.
Vieira). — (não o havia).

290. As interjeições são de duas especies : proprias ou
improprias.

291. proprias são as interjeições que, constando das
vozes ou vocabulos que soltamos quando nos commove
algum affecto vivo, não podem reverter para nenhuma
outra especie de palavras. As mais usadas são ah ! e oh !
que, conforme a modulação com que sabem expressas,
enuncião sentimentos varios e até oppostos. O numero das
demais é relativamente diminuto ; e, com excepção de oxalá
(do arabe : « Praza a Deos »), poucas são as que passão do
estylo familiar.

Apage ! — Apre ! — Arre ! — Bofé ! — Caluda ! — Chiton !
— Eia ! — Hi ! hi ! hi ! — Hui ! — Hum ! — Irra ! — Olá l
— Olé ! — Rou-rou ! — Siu ! — Sus ! — Tá !
etc.

292. Improprias são as interjeições que, deixando de
enunciar implicitamente um pensamento, revertem para
outra especie de palavras.

Ex. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. não ! não !
não ê isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os mattos
e para o sertão
 : para cá ! para cá ! para a cidade é que
haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns
aos outros ? Muito maior açougue é o de cá ; muito mais se
comem os brancos
 ! (P. Ant. Vieira).

Houve algum homem tão mimoso dá fortuna neste mundo,
que, em alguma ou em todas as cousas delle, achasse o descanso
que buscava ?
nenhum. (P. Ant. Vieira).

Para concluir este parecer, veiu um, e disse : « senhor,
alviçaras ! boa nova ! gran’ prognostico !
aguia real sobre
o campo de Vossa Alteza, rodeada de milhanos, signal certo
de vencimento, que o Céo nos mostra
. » (Luiz Torres de
Lima).

Correrão os terços portuguezes valorosamente, e com grande
209brio se gritou : « victoria ! victoria ! » (Luiz Torres de
Lima).

Se lhe não podeis dar, ao pretendente, o que lhe negais,
quem lhe ha de restituir o que lhe perdeis ?
oh ! restituições !
oh ! consciencias ! oh ! confissões ! Seja a ultima admiração,
esta; pois não louvo nem condemno, e só me admiro
 !
(P. Ant. Vieira).

293. No numero das interjeições improprias cabem
igualmente as palavras de interpellação, ou, como se sóe
dizer por imitação do latim, as palavras em vocativo ou
apostrophe, de que já veiu um exemplo no primeiro trecho
citado : « Olhai, peixes, lá do mar… »), quer appareção
precedidas do vocabulo expletivo — ó — , quer não.

Ex. Padre nosso, que estais no céo, sanctificado seja o
vosso nome
. (Evangelho).

O’ deos e senhor meu ! por vossa infinita bondade vos
rogo humildemente me concedais que vos ame de todo o coração
.
(P. Man. Bernardes).

Que quiz o anjo no céo, e que quiz o homem no paraíso ?

Ambos quizerão ser como Deos. Menos me admiro das suas
vontades que de seus entendimentos. Vem cá
, lucifer ; vem
, adão : tu anjo, e o mais sabio de todos os anjos ; tu homem,
e o mais sabio de todos os homens ! Não entendeis e
conheceis com evidencia que não podeis ser como Deos ?
(P.
Ant. Vieira).

Senhores meus, que tão desvelados andais todos, e tão
esfaimados por ter de comer, e por deixar de comer a vossos
filhos, seguí e serví a Christo, e eu vos asseguro da sua parte
que, nem a vós, nem a elles, lhes faltará pão
. (P. Ant.
Vieira).

294. Porém, vindo as interjeições a constar de mais
do uma palavra, póde-se-lhes chamar, em attenção á uniformidade
da nomenclatura analytica, locuções interjectivas.

Deste genero são, além de algumas já citadas, as expressões :

Pois sim ! — Pois não ! — Pois então ! — Já já ! — Ai de
nós ! — De certo que sim ! — De certo que não ! — Aqui de
el rei
 ! — Etc.

Ex. Aqui, levantando a voz, bradou el rei D. Henrique
III de Castelha
 : « olá ! olá ! gente da minha guarda ! »
(P. Man. Bernardes).210

Disse então o barão de Alvito a frei João da Silva :
« Pois, se assim é, pater noster pelo rei, pelo reino e
pelos vassallos !
 » (Luiz Torres de Lima).

Capitulo XI
Da analyse

295. Analyse é a investigação, em um todo composto,
não só das partes que o constituem, senão tambem das leis
que mantêm as partes em cohesão, para conseguir-se, do
mesmo todo, a noção mais exacta.

Assim é a analyse um meio, não um fim, como alguns
o parecem acreditar ; e até, se for do tal modo instituida,
que não leve para nenhuma conclusão pratica, torna-se
apenas uma pueril gymnastica intellectual, que não vale o
que custa. Porém, devidamente encaminhada, ella concorre,
mais do que qualquer outro methodo, á consecução da verdade,
e, por isso, é reputada em todas as doutrinas um
auxiliar indispensavel.

O seu principal escolho (pois ella não é mais isenta do
que tudo quanto é humano, á contingencia do erro) consiste
em ficar exposta a uma falsa apreciação do seu verdadeiro
alcance ; porquanto este, embora claramente determinado
em theoria, não deixa do requerer tino na pratica,
para não ser excedido. Assim é que, actuando a analyse
por decomposição, evidente fica que deve parar onde acaba
a divisibilidade ; porquanto, seja qual fôr a progressão divisória,
em se chegando a um, impossivel é achar-lhe dous.

Não são, todavia, tão poucos os abusos da analyse registrados
nos annaes das sciencias. Sómente, conforme tiverão
por objecto a materia ou uma abstracção bastante diversas
apparecem as consequencias.

No primeiro caso, o resultado não é nenhum, porque
a materia não se deixa violentar ; e por isso é que constantemente
fugiu aos alchimistas das éras transactas o ouro
que pretendião extrahir de tudo quanto não era ouro.

No segundo caso, o resultado é geralmente alguma
ficção, que, por mais esdruxula que sáia, sempre conseguo
grangear proselytos, graças ao especioso preconceito que
211faz aceitar como profundo o que desafia o entendimento,
como philosophico o que burla o bom senso. Haja vista,
em Grammatica, a tão preconisada theoria do verbo substantivo,
que, longe de explicar cousa alguma, de concluir
em cousa alguma, tudo enreda e obscurece, e apenas serve
para comprovar que, se fora o homem incumbido de crear
a linguagem, não só tê-la-hia feito feissima, como ainda
inintellegivel. Pois á mesma theoria do verbo substantivo
é que se deve, por exemplo, este transcendental achado,
que, no verbo combinado « Ando procurando, » onde a complexidade
da forma não abriga em realidade mais de uma
só e unica idea
, aninhão-se entretanto nada menos de quatro :
« Sou andante sendo procurante ! » Tal é, fielmente transcripta,
a mais extremada das formulas de um dogma grammatical
reputado supinamente orthodoxo aquém e além
mar, nesta e naquella lingua, e por quantos se prezão de
ter devassado os mysterios da analyse logica. Oh ! logica !
E’ o caso de exclamar com o P. Ant. Vieira : « Seja a
ultima admiração, esta
 ! pois não louvo nem condemno : só me
admiro l
 »

296. A analyse grammatical, por esta doutrina, consta
de tres processos distinctos, correspondentes ás tres principaes
soluções que á Grammatica incumbe dar no interesso
a correcção da linguagem, quer fallada, quer escripta.
Pelo primeiro inquire-se da natureza e formas das palavras ;
pelo segundo, de suas funcções dentro da proposição ;
pelo terceiro, da indole das proposições com referencia
á pontuação.

A analyse grammatical divide-se assim em lexicologica,
syntaxica e logica
.

Baseia-se na convicção ; aliás justificada pela experiencia,
que, sob a variedade accidental dos idiomas, a expressão
do pensamento não pode deixar de ficar inflexivelmente
subordinada a um certo numero de principios tão independentes
de nosso alvedrío, e portanto tão incommutaveis,
tão indestructiveis como o são as proprias faculdades de
nossa alma.

Pois estes principios são as funcções das palavras, representadas
pelos sete termos syntaxicos.

Quer isto dizer que, para acertar, em seja que lingua
for, na classificação das palavras, cumpre saber qual é, dos
elementos da proposição, o que por ellas é representado no
caso sujeito á analyse. Porquanto só a funcção é permanente,
universal, absoluta em Grammatica ; tudo o mais é
çontingente, illusivo, inconsistente.212

Não ha duvida que, mórmente com a pratica assidua
do exercicios analyticos, venha a desenvolver-se um certo
tino que permitta de, á primeira intuição, formar-se um
juizo seguro sobre a natureza das palavras pelos seus caracteres
extrinsecos ; porém, no caso do duvida, a solução pertence
de direito á funcção, como ver-se-ha pelo exame da
unica palavra mais do seguinte exemplo, que aliás virá novamente
reproduzido para outras e mais importantes domonstrações :

« Ha mais para onde subir ? Ainda ha mais. » (P. Ant.
Vieira).

O vocabulo mais é, conforme a sua funcção, adjectivo
indefinito, pronome indefinito ou adverbio. (V. § 168). Qual
será, no caso vertente, a classe em que legitimamente cabe ?

A deficiência, no trecho, de todo e qualquer substantivo
ao qual se possa prender como apposição, basta para
vedar que seja classificado como adjectivo ; e, além disso,
não sendo de estado o verbo de que depende (ha), escusado
é tambem ventilar a hypothese que seja adjectivo na
qualidade de predicado.

Sobrão assim as eventualidades de pronome o do adverbio,
que, a julgar perfunctoriamente, parecem igualmente
lhe convir, embora correspondão a termos syntaxicos absolutamente
inconciliáveis. Com effeito, sendo adverbio, mais
torna-se o equivalente de um complemento indirecto (V. § 251) ;
sendo pronome não regido de preposição, a sua funcção é
necessariamente de sujeito ou de complemento directo. Não é,
portanto, indifferente attribuir-lhe esta ou aquella qualificação.

E’ o caso do considerar attentamente o verbo junto ao
qual exerce uma funcção, para destrinçar a que lhe compete.
A primeira observação que se coibe, vem a ser que o
verbo ha, não constituindo ahi um auxiliar, pela ausencia
de todo e qualquer participio invariavel ou de infinitivo com
o qual forme um tempo composto, é forçosamento activo ou
impessoal, sendo que, em um como no outro caso, não prescinde
de um complemento directo de substantivo ou pronome.
Ora, apresentando-se mais como a unica palavra que se
póde incumbir desta funcção, evidente fica que é ahi mais
um pronome, por ser complemento directo.

A demonstração será completa ? Ainda não, porquo a
prova é apenas negativa. Se mais é pronome, representa
um nome ou substantivo com ou sem apposição, ou até
outro pronome : a prova, portanto, só será cabal, se, sendo
substituido, deixa mais reapparecer os seus constituintes.
Pois ó exactamente o que succede pela substituição :213

« Ha outro lugar para onde subir ? Ainda ha outro. »

Neste conjuncto architectonico que se chama Grammatica,
os termos syntaxicos formão assim o fecho do abobada
que segura todo o odificio.

Advertencia
sobre os exercicios analyticos.

297. Rollin, tratando do ensino litterario, omittiu a
opinião que, na escolha dos excerptos tendentes a comprovar
a doutrina, prevalecessem sempre as obras mais perfeitas,
visto este meio ser o unico capaz, não só de debellar as
loquelas espurias do vulgo, como ainda de apurar o gosto
pela infusão progressiva daquellas normas do bom fallar
que já não são do dominio da sciencia, isto é, da demonstração,
e sim do da arte ou imitação. A experiencia elevou
esta indicação á altura de um preceito. Versem, portanto,
os exercicios analyticos sobre trechos extrahidos dos mais
puros representantes da litteratura nacional, porque, mórmente
nos classicos portuguezes, raro é o caso em que a
belleza da expressão não sirva de vehiculo a um nobre pensamento,
consideração de summa importancia num systema
educativo assentado no ensino da lingua patria.

Todavia, se se fez, nesta obra, abstracção quasi completa
de exemplos tirados dos poetas, foi muito do proposito ;
porquanto, sendo a dicção poetica essencialmente diversa
da da prosa, por ser tambem diverso o seu fim, não
pareceu azado misturar estructuras que frequentemente se
contrarião, para abonar a que forma incontestavelmente o
objecto especial da Grammatica. Sem duvida não é licito
ao estylo poetico zombar das regras grammaticaes ; porém,
não é menos verdadeiro tambem, que á Grammatica não
compete, em uma citação de versos, cuidar do que constitue
geralmente o seu principal realce : uma contextura artificiosa
e delicada, que o escalpello da analyse grammatical
desnatura e profana.

298. Os exercicios analyticos podem ser praticados de
viva voz ou por escripto. Porém qualquer destes dous modos
do investigação, empregado com exclusão do outro, acarreta
inconvenientes. A analyse praticada só vocalmente tem o
defeito do alliviar os estudantes de uma tarefa que requer
meditação, o que lhes tira o merecimento de um trabalho
214espontaneo, ou a responsabilidade de um deleixo censuravel.
Desenvolvida só por escripto, a analyse mal se compadece
com a exposição de motivos que lhe serve de sancção, e
portanto fica tolhida do dar todo o seu fructo. Remove-se
a difficuldade por uma conciliação dos dous processos, que
consiste em assignar á tarefa escripta uma indicação summaria,
e ao exercicio oral a justificação das mesmas indicações.

Especimen de analyse lexicologica

Argumento

299. Salomão, o mais sabio de todos os que nascêrão,
faz uma comparação tão superior ao nosso juizo, que só
podia caber no seu. Compara o dia da morte com o do
nascimento ; e, na differença destes dous extremos, quem
não imaginará que se compara o dia com a noite, a luz
com as trevas, a alegria com a tristeza, a felicidade com a
desgraça, a cousa mais desejada com a mais temida, e, com
a mais terrivel, a mais amavel ? Sendo, porém, tão prenhe
de admiração a proposta, mais digna de espanto é a sentença.
Resolve Salomão que melhor é o dia da morte que
o dia do nascimento. E, que tem o dia da morte para ser
melhor que o dia do nascimento ?

O dia do nascimento não é o mais alegre, e o da
morto, o mais triste ? O do nascimento não é o que povôa
o mundo ; o da morte, o que abre o enche as sepulturas ?
o do nascimento, o que veste do gala as famílias e as côrtes ;
o da morte, o que as cobre de luto ? A morte não é o
maior inimigo da vida, e o nascimento não é o que, sendo
ella mortal, a immortalisa ? Que é o nascer senão o remedio
do não ser ? e, que seria do mundo, se, em lugar dos mortos,
não nascêrão outros que lhes succedessem ? Até em
Deos necessita de nascimento a mesma Trindade, porque,
sendo só a pessoa Padre innascivel, Deos, sem nascimento,
seria um, mas não seria trino. Pois, se tantos são os bens
c felicidades que traz comsigo o dia do nascimento, os
quãos todos funesta, consumo e acaba o dia da morte, que
motivo teve o juizo do Salomão para antepôr o dia da
morte ao dia do nascimento ? Entendeu-o melhor que todos,
o maior interprete das Escripturas. « E’ melhor, diz S. Jeronymo,
o dia da morte que o dia do nascimento, porque,
no dia do nascimento, ninguem póde sabor o para que
nasce, e só no dia da morte se sabe o fim para que nasceu. »215

Se, no nascimento de Judas e Dimas, se levantasse figura
certa ao que cada um havia de ser em sua vida, a do primeiro
diria que havia de ser apostolo, e a do segundo, que
havia do ser ladrão : e assim forão na vida. Mas o verdadeiro
juizo do fim para que cada um delles nascera, ainda
estava incerto. Veiu finalmente o dia da morte, que foi o
mesmo em que ambos acabárão ; e esso dia declarou, com
assombro do mundo, que Judas nascêra para morrer enforcado
como ladrão, e Dimas, para confessar e prégar a
Christo como apostolo. (P. Ant. Vieira).

Declaração
da natureza das palavras

tableau Salomão | Subst. prop. m. s. / da | Art. def. cont. f. s.
o | Art. def. m. s. / morte | Subst. com. f. s
mais | Adv. / com | Prep.
sabio | Adj. qual. m. s. / o | Pron. dem. m. s.
de | Prep. / do | Art. def. cont. m. s.
todos | Adj. ind. m. p. / nascimento ; | Subst. com. m. s.
os | Pron. dem. m.p. / e, | Conj.
que | Pron. rel. m. p. / na | Art. def. cont. f. s.
nascérão | V. n. Ind. 8 T. / diferença | Subst. com. f. s.
faz | V. s. Ind. 1 T. / destes | Adj. dem. cont. m. p.
uma | Art. ind. f. s. / dous | Adj. num. card. m. p.
comparação | Subst. com. f. s. / extremos, | Adj. subst. m. p.
tão | Adv. / quem | Pron. indef. m. s.
superior | Adj. qual. f. s. / não | Adv.
ao | Art. def. cont. m. s. / imaginará | V. n. Ind. 7 T.
nosso | Adj. pos. m. s. / que | Conj.
juizo, | Subst. com. m. s. / se | Pron. pes. m. s.
que | Conj. / compara | V. p. Ind. 1 T.
| Adv. / o | Art. def. m. s.
podia | V. n. Ind. 2 T. / dia | Subst. com. m. s.
caber | V. n. Inf. 1 T. / com | Prep.
no | Art. def. cont. m. s. / a | Art. def. f. s.
seu | Pron. pos. m. s. / noite, | Subst. com. f. s.
Compara | V. a. Ind. 1 T. / a | Art. def. f. s.
o | Art. def. m. s. / luz | Subst. com. f. s.
dia | Subst. com. m. s. / com | Prep.
216

tableau as | Art. def. f. p. / a | Art. def. f. s.
trevas, | Subst. com. f. p. / sentença. | Subst. com. f. s.
a | Art. def. f. s. / Resolve | V. n. Ind. 1 T.
alegria | Subst. com. f. s. / Salomão | Subst. prop. m. s.
com | Prcp. / que | Conj.
a | Art. def. f. s. / melhor | Adj. qual. m. s.
tristeza, | Subst. com. f. s. / é | V. n. Ind. 1 T.
a | Art. def. f. s. / o | Art. def. m. s.
felicidade | Subst. com. f. s. / dia | Subst. com. m. s.
com | Prep. / da | Art. def. cont. f. s.
a | Art. com. f. s. / morte | Subst. com. f. s.
desgraça, | Subst. com. f. s. / que | Conj.
a | Art. def. f. s. / o | Art. def. m. s.
cousa | Subst. com. f. s. / dia | Subst. com. m. s.
mais | Adv. / do | Art. def. cont. m. s.
desejada | Part. var. f. s. / nascimento. | Subst. com. m. s.
com | Prcp. / E, | Conj.
a | Art. def. f. s. / que | Pron. ind. m. s.
mais | Adv. / tem | V. a. Ind. 1 T.
temida, | Part. var. f. s. / o | Art. def. m. s.
e, | Conj. / dia | Subst. com. m. s.
com | Prep. / da | Art. def. cont. f. s.
a | Art. def. f. s. / morte | Subst. com. f. s.
mais | Adv. / para | Prep.
terrivel, | Adj. qual. f. s. / ser | V. n. Inf. 1 T.
a | Art. def. f. s. / melhor | Adj. qual. m. s.
mais | Adv. / que | Conj.
amavel ? | Adj. qual. f. s. / o | Pron. dem. m. s.
Sendo, | Ger. simp. / do | Art. def. cont. m. s.
porem, | Conj. / nascimento ? | Subst. com. m. s.
tão | Adv. / o | Art. def. m. s.
prenhe | Adj. qual. f. s. / dia | Subst. com. m. s.
de | Prep. / do | Art. def. cont. m. s.
admiração | Subst. com. f. s. / nascimento | Subst. com. m. s.
a | Art. def. f. s. / não | Adv.
proposta, | Subst. com. f. s. / é | V. n. Ind. 1 T.
mais | Adv. / o | Art. def. m. s.
digna | Adj. qual. f. s. / mais | Adv.
de | Prep. / alegre, | Adj. qual. m. s.
espanto | Subst. com. m. s. / e | Conj.
é | V. n. Ind. 1 T. / o | Pron. dem. m. s.
217

tableau da | Art. def. cont. f. s. / morte, | Subst. com. f. s.
morte, | Subst. com. f. s. / o | Pron. dem. m. s.
o | Art. def. m. s. / que | Pron. rei. m. s.
mais | Adv. / as | Pron. pes. f. p.
triste ? | Adj. qual. m. s. / cobre | V. a. Ind. 1 T.
O | Art. def. m. s. / de | Prep.
dia | Subst. com. m. s. / luto ? | Subst. com. m. s.
do | Art. def. cont. m. / A | Art. def. f. s.
nascimento | Subst. com. m. s. / morte | Subst. com. f. s.
não | Adv. / não | Adv.
é | V. n. Ind. 1 T. / ê | V. n. Ind. 1 T.
o | Pron. dem. m. s. / o | Art. def. m. s.
que | Pron. rol. m. s. / maior | Adj. qual. m. s.
povôa | V. a. Ind. 1 T. / inimigo | Adj. subst. m. s.
o | Art. def. m. s. / da | Art. def. cont. f. s.
mundo ; | Subst. com. m. s. / vida, | Subst. com. f. s.
o | Pron. dem. m. s. / e | Conj.
da | Art. def. cont. f. s. / o | Art. def. m. s.
morte, | Subst. com. f. s. / nascimento | Subst. com. m. s.
o | Pron. dem. m. s. / não | Adv.
que | Pron. rei. m. s. / o | Pron. dem. m. s.
abre | V. a. Ind. 1 T. / que, | Pron. rei. m. s.
e | Conj. / sendo | Ger. simp.
enche | V. a. Ind. 1 T. / ella | Pron. pes. f. s.
as | Art. def. f. p. / mortal, | Adj. qual. f. s.
sepulturas ? | Subst. com. f. p. / a | Pron. pes. f. s.
o | Pron. dem. m. s. / immortalisa ? | V. a. Ind. 1 T.
do | Art. def. cont. m. / Que | Pron. ind. m. s.
nascimento, | Subst. com. m. s. / ê | V. n. Ind. 1 T.
o | Pron. dem. m. s. / o | Art. def. m. s.
que | Pron. rei. m. s. / nascer | V. n. Inf. 1 T.
veste | V. a. Ind. 1 T. / senão | Conj.
de | Prep. / o | Art. def. m. s.
gala | Subst. com. f. « . / remedio | Subst. com. m. s.
as | Art. def. f. p. / do | Art. def. cont. m. s.
familias | Subst. com. f. p. / não | Adv.
e | Conj. / ser ? | V. i. Inf. 1 T.
as | Art. def. f. p. / e, | Conj.
côrtes ; | Subst. com. f. p. / que | Pron. ind. m. s.
o | Pron. dem. m. s. / seria | V. i. Cond. 1 T.
da | Art. dem. cont. f. / do | Art. def. cont. m. s.
218

tableau mundo, | Subst. com. m. s. / bens | Subst. com. m. p.
se, | Conj. / e | Conj. em lugar (de) | Loc. prep. / felicidades | Subst. com. f. p. dos | Art. def. cont. m.p. / que | Pron. rei. f. p.
mortos, | Part. subst. m. p. / traz | y. a. Ind. 1 T.
não | Adv. / comsigo | Pron. pes. cont. m. s.
nascêrão | V. n. Subj. 3 T. / o | Art. def. m. s.
outros | Pron. ind. m. p. / dia | Subst. com. m. s.
que | Pron. rei. m. p. / do | Art. def. cont. m. s.
lhes | Pron. pes. m. p. / nascimento, | Subst. com. m. s.
succedessem ? | V. n. Subj. 2 T. / os | Art. def. m. p.
Até | Adv. / quaes | Pron. rei. m. p.
em | Prep. / todos | Adj. ind. m. p.
Deos | Subst. prop. m. s. / funesta, | y. a. Ind. 1 T.
necessita | V. n. Ind. 1 T. / consume | V. a. Ind. 1 T.
do | Art. def. cont. m. s. / e | Conj.
nascimento | Subst. com. m. s. / acaba | y. a. Ind. 1 T.
a | Art. def. f. s. / o | Art. def. m. s.
mesma | Adj. ind. f. s. / dia | Subst. com. m. s.
Trindade, | Subst. prop. f. s. / da | Art. def. cont. f. s.
porque, | Conj. / morte, | Subst. com. f. s.
sendo | Ger. simp. / que | Adj. ind. m. s.
| Adv. / motivo | Subst. com. m. s.
a | Art. def. f. 6. / teve | V. a. Ind. 3 T.
pessoa | Subst. com. f. s. / o | Art. def. m. s.
Padre | Subst. prop. m. s. / juizo | Subst. com. m. s.
innascivel, | Adj. qual. f. s. / de | Prep.
Deos | Subst. prop. m. s. / Salomão | Subst. prop. m. s.
sem | Prep. / para | Prep.
nascimento | Subst. com. m. s. / antepôr | V. a. Inf. 1 T.
seria | V. n. Cond. 1 T. / o | Art. def. m. s.
um, | Adj. num. card. m. s. / dia | Subst. com. m. s.
mas | Conj. / da | Art. def. cont. f. s.
não | Adv. / morte | Subst. com. f. 8.
seria | V. n. Cond. 1 T. / ao | Art. def. cont. m. s.
trino. | Adj. num. m. s. / dia | Subst. com. m. s.
Pois, | Conj. / do | Art. def. cont. m. s.
se | Conj. / nascimento ? | Subst. com. m. s.
tantos | Adj. ind. m. p. / Entendeu- | V. a. Ind. 1 T.
são | V. n. Ind. 1 T. / o | Pron. pes. m. s.
os | Art. def, m. p. / melhor | Adv.
219

tableau que | Conj. / fim | Subst. com. m. s.
todos, | Pron. ind. m. p. / para | Prep.
o | Art. def. m. s. / que | Pron. rei. m. s.
maior | Adj. qual. m. s. / nasceu. | V. n. Ind. 3 T.
interprete | Subst. com. m. s. / Se, | Conj.
das | Art. def. cont. f. p. / no | Art. def. cont. m. s.
Escripturas. | Subst. prop. f. p. / nascimento | Subst. com. m. s.
E’ | V. n. Ind. 1 T. / de | Prep.
melhor, | Adj. qual. m. s. / Judas | Subst. prop. m. s.
diz | V. n. Ind. 1 T. / e | Conj.
S. Jeronymo | Subst. prop. c. m. s. / Dimas, | Subst. prop. m. s.
o | Art. def. m. s. / se | Pron. pes. f. s.
dia | Subst. com. m. s. / levantasse | V. p. Subj. 2 T.
da | Art. def. cont. f. s. / figura | Subst. com. f. s.
morte | Subst. com. f. s. / certa | Adj. qual. f. s.
que | Conj. / ao | Pron. dem. cont. m. s.
o | Art. def. m. s. / que | Pron. rei. m. s.
dia | Subst. com. m. s. / cada um | Pron. ind. c. m. s.
do | Art. def. cont. m. s. / havia de ser | y. prep. Ind. 2 T.
nascimento, | Subst. com. m. s. / em | Prep.
porque, | Conj. / sua | Adj. pos. f. s.
no | Art. def. cont. m. s. / vida, | Subst. com. f. s.
dia | Subst. com. m. s. / a | Pron. dem. f. s.
do | Art. def. cont. m. s. / do | Art. def. cont. m. s.
nascimento, | Subst. com. m. s. / primeiro | Adj. subst. m. s.
ninguem | Pron. ind. m. s. / diria | V. n. Cond. 1 T.
póde | V. n. Ind. 1 T. / que | Conj.
saber | V. a. Inf. 1 T. / havia de ser | V. prep. Ind. 2 T.
o | Pron. dem. m. s. / apostolo, | Subst. com. m. s.
para | Prep. / e | Conj.
que | Pron. rei. m. s. / a | Pron. dem. f. s.
nasce, | V. n. Ind. 1 T. / do | Art. def. cont. m. s.
e | Conj. / segundo, | Adj. subst. m. s.
| Adv. / que | Conj.
no | Art. def. cont. m. s. / havia de ser | V. prep. Ind. 2 T.
dia | Subst. com. m. s. / ladrão : | Subst. com. m. s.
da | Art. def. cont. f. s. / e | Conj.
morte | Subst. com. f. s. / assim | Adv.
se | Pron. pes. m. s. / forão | V. n. Ind. 3 T.
sabe | y. p. Ind. 1 T. / na | Art. def. cont. f. s.
q | Art. def. m. s. / vida. | Subst. com. f. s.
220

tableau Mas | Conj. / acabarão ; | y. n. Ind. 3 T.
o | Art. def. m. s. / e | Conj.
verdadeiro | Adj. qual. m. s. / esse | Adj. dem. m. s.
juizo | Subst. com. m. s. / dia | Subst. com. m. s.
do | Art. def. cont. m. s. / declarou, | V. n. Ind. 8 T.
fim | Subst. com. m. s. / com | Prep.
para | Prep. / assombro | Subst. com. m. s.
que | Pron. rei. m. s. / do | Art. def. cont. m. s.
cada um | Pron. ind. c. m. s. / mundo, | Subst. com. m. s.
delles | Pron. pes. cont. m. p. / que | Conj.
nascêra, | V. n. Ind. 5 T. / Judas | Subst. prop. m. s.
ainda | Adv. / nascéra | V. n. Ind. 5 T.
estava | V. n. Ind. 2 T. / para | Prep.
incerto. | Adj. qual. m. s. / morrer | V. n. Inf. 1 T.
Veiu | V. n. Ind. 3. T. / enforcado | Part. var. m. s.
finalmente | Adv. / como | Conj.
o | Art. def. m.,s. / ladrão, | Subst. com. m. s.
dia | Subst. com. m. s. / e | Conj.
da | Art. def. cont. f. s. / Dimas, | Subst. prop. m. s.
morte, | Subst. com. f. s. / para | Prep.
que | Pron. rei. m. s. / confessar | V. a. Inf. 1 T.
foi | V. n. Ind. 8 T. / e | Conj.
o | Art. def. m. s. / pregar | y. a. Inf. 1 T.
mesmo | Pron. ind. m. s. / a | Prep.
em | Prep. / Christo | Subst. prop. m. s.
que, | Pron. rei. m. s. / como | Conj.
ambos | Pron. num. m. p. / apostolo. | Subst. com. m. s.
221

Segunda parte
Syntaxe

Termos syntaxicos. — idéa. — pensamento.
proposição. — oração.

300. Syntaxe é a theoria das funcções que as palavras
exercem na enunciação dos pensamentos, e das
relações que dahi entre ellas occorrem.

Do cotejo da primeira com a segunda parte da Grammatica,
o que resulta, é que a lexicologia declara o que
são as palavras, e a syntaxe, o que ellas fazem.

A lexicologia distribue as palavras em dez especies ; a
syntaxe resume-lhes as funcções em sete termos, que são:
1.° o facto ; 2.° o sujeito ; 3.° o complemento directo ; 4.° o
complemento indirecto ; 5.° o predicado ; 6.° a apposição,
7.° a ligação.

301. Com isso não se entenda que todos estes termos
encontrem-se necessariamente juntos em toda e qualquer
enunciação de pensamento, e sim tão somente que, seja
qual fôr o pensamento, todas as palavras que o constituem,
cabem forçosamente em uma ou outra destas sete categorias,
com excepção, todavia, das interjeições, que, por
pertencerem á linguagem figurada, se avalião do um modo
todo especial.

302. O pacto fica enunciado por um verbo, e só por
um verbo em um dos quatro modos outros que o infinitivo ;

O sujeito, essencialmente por um substantivo ou um
pronome, accidentalmente por um infinitivo ;222

O complemento directo, promiscuamente por um substantivo
ou um pronome, o separadamente por um infinitivo ;

O complemento indirecto, explicitamente por um substantivo,
um pronome, um infinitivo ou uma locução
adverbial, implicitamente por um adverbio ;

O predicado, essencialmente por um adjectivo ou um
participio variavel, accidentalmente por um substantivo,
um pronome ou um infinitivo ;

A apposição, essencialmente por um artigo, um adjectivo
ou um participio variavel, accidentalmente por um
substantivo, um pronome ou um infinitivo ;

A ligação, isoladamente por uma conjuncção ou locução
conjunctiva, contractamente por todo o pronome
adjectivo ou adverbio implicando ostensiva ou disfarçadamento
que ou se.

303. Considerados nas especies de palavras que os
produzem, os sete termos syntaxicos se distribuem como
se segue :

O verbo fornece, nos quatro primeiros modos, o facto,
e só o facto ; no infinitivo fornece um sujeito, um complemento
directo ou indirecto, um predicado ou uma apposição.

O substantivo fornece um sujeito, um complemento
directo ou indirecto, um predicado ou uma apposição.

O artigo fornece uma apposição, e só uma apposição.

O adjectivo fornece um predicado ou uma apposição.

O pronome fornece um sujeito, um complemento directo
ou indirecto, um predicado ou uma apposição.

O participio fornece um predicado ou uma apposição
quando não constitue com um auxiliar uma locução verbal
indivisível.

A preposição fornece uma relação, porém relação sem
alcance apreciavel emquanto não sabe expresso o regime
sobre o qual ella actúa, e, com o qual constitue um complemento
indirecto.

O adverbio fornece um complemento indirecto implicito.

A conjuncção fornece uma ligação.

Emfim, fóra dos sete termos, a interjeição fornece a
exclamação
, isto é, a ultima das cinco figuras de syntaxe,
do que mais adiante se trata.223

304. Os sete termos são assim as partes normalmente
constitutivas dos pensamentos na sua expressão vocal ou
escripta. A percepção mental a que cada um delles corresponde,
é o que se chama idéa.

305. Pensamento é um acto intellectual que implica a
formação de um juizo. O seu caracteristico consiste em se
prestar a ser aceito ou impugnado. Qualquer expressão ou
conjuncto do expressões que foge a este meio de aferição,
apenas solta idéas, mas não enuncia um pensamento. Ex.
Todos os homens querem ter pão. (P. Ant. Vieira). — (sim
ou não ?
)

306. O pensamento consta de uma ou mais ideas.
Quando consta de uma, o termo que lhe corresponde, só
póde ser um facto, isto é, um verbo em um modo outro
que o infinitivo ; e só um facto de necessidade, isto é, ao
qual fallece absolutamente todo e qualquer sujeito, como
lhe póde fallecer todo e qualquer predicado, todo e qualquer
complemento. Ex. anoitece. — trovejou. — chovera.

Que cada um destes termos exprime do per si só um
pensamento, evidencía-se por se deixar aceitar ou impugnar
o juizo que enuncia. Que a mesma faculdade de enunciar
um juizo falta-lhes no infinito, como, em igual caso, falta
a todos os verbos, mesmo ajudados de outros termos, evidencía-se
pela impossibilidade de lhes applicar, sob as formas
proprias deste modo, o mesmo criterio. Ex. anoitecer… ?
ter trovejádo… ? — chovendo… ?

307. O facto syntaxico é, portanto, a palavra de vida
no discurso. Emquanto não existe, não ha communicação
intellectual, seja qual fiôr o numero, sejão quaes forem as
ospecies de palavras de que se use.

Desta subordinação de todos os mais termos ao facto,
o que resulta, é que se torna elle o representante exclusivo
de todo e qualquer pensamento. Ora, sendo a proposição a
mera enunciação de um pensamento, claro é que se contão
tantos pensamentos singelos, ou tantas proposições em um
trecho dado, quantos nelle são os factos expressos ou occultos ;
o que cada proposição conta, como suas, todas as palavras
que directa ou indirectamente exercem uma funcção
junto ao proprio facto, seja aliás qual for a sua collocação
dentro da oração.

Os factos occultos são sempre denunciados por palavras
que, nenhuma funcção exercendo junto a factos expressos,
prestão-se todavia, com toda a lisura, a exercer uma junto
a um facto adduzido por supposição. Ex. ha mais para
onde subir ?
(P. Ant. Vieira).224

Por mais que se procure, neste exemplo, uma relação
de funcção entre o facto ha e as palavras para onde subir,
não se atina com nenhuma. Dá-se, portanto, o caso do sonegamento
do facto. e, com effeito, encaminhado por esta
inducção, o espirito descobre sem esforço, não só o facto
sonegado, como ainda as relações syntaxicas que estabelecem
a sua jurisdicção. « ha mais — para onde se possa
subir ? » — Donde se deduz que ahi, sendo em realidade
dous os factos, duas tambem são as proposições.

308. A oração, a que outros chamão periodo ou phrase,
consta, ou de uma só proposição, ou de ura complexo de
proposições mais ou menos intimamente relacionadas. Theoricamente,
só póde ser ella determinada por meio da analyse
logica ; praticamente, porém, discrimina-se pelo ponto
final.

Exercicio
sobre o modo de completar e dispôr as proposições nas
indagações analyticas de syntaxe

Argumento

Terrivel palavra é um non. Não tem direito nem
avesso ; por qualquer lado que o tomeis, sempre sôa e diz
o mesmo. Lêde-o do principio para o fim, ou do fim para
o principio, sempre é non. Quando a vara de Moysés se
converteu naquella serpente tão feroz, que fugia della porque
o não mordesse, disse-lhe Deos que a tomasse ao revez,
e logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha. O non
não é assim : por qualquer parte que o tomeis, sempre é
serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno
comsigo. Mata a esperança, que é o ultimo remedio que
deixou a natureza a todos os males. Não ha correctivo que
o modere, nem arte que o abrande, nem lisonja que o
adoce. Por mais que confeiteis um non, sempre amarga ;
por mais que o enfeiteis, sempre é feio ; por mais que o
doureis, sempre é de ferro. Em nenhuma solfa o podeis pôr
que não seja malsoante, aspero o duro. Quereis saber qual
é a dureza de um non ? A mais dura cousa que tem a
vida, é chegar a pedir ; e, depois de chegar a pedir, ouvir
um non, vêde o que será ! (P. Ant. Vieira).

Terrivel palavra é um non.225

[Elle] não tem direito nem avesso ; — por qualquer parte
que
[vós] o tomeis, — [elle] sempre soae diz o mesmo.

lêde-o do principio para o fim, — ou [lêde-o] do fim para
o principio
, — [elle] sempre É non.

Quando a vara de Moysés se converteu naquella serpente
tão feroz, — que
[elle] fugia della — porque [ella] o
não
mordesse, — disse-lhe Deos — que [elle] a tomasse ao
revez, — e
[ella] logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha.

O non não é assim: -  : — por qualquer parte que [vós] o
tomeis, — sempre [ella] é serpente, — sempre [ella] morde,
sempre [ella] fere, — sempre [ella] leva o veneno comsigo.

[Ella] mata a esperança, — que é o ultimo remedio —

que deixou a natureza a todos os males.

Não ha correctivo — que o modere, — nem [ha] arte
que o abrande, — nem [ha] lisonja — que o adoce.

Por mais que [vós] confeiteis um non, — [elle] sempre
amarga ; — por mais que [vós] o enfeiteis, — [elle] sempre
É feio ; — por mais que [vós] o doureis, — [elle] sempre é de
ferro
.

[Vós] em nenhuma solfa o podeis pôr — [em] que [elle]
não seja malsoante, aspero e duro.

quereis [vós] saber — qual é a dureza de um non ?

Chegar a pedir é a mais dura cousa — que tem a vida ;
— e
vêde, depois de chegar a pedir, o — que será ouvir um
non!

Exposição episodica
da theoria do verbo substantivo

Em antagonismo directo com a doutrina que acaba de
ser expendida, apresenta-se, com todos os precalços de uma
posição firmada, não só no assenso geral, senão tambem
numa já respeitável diuturnidade de tradição, a theoria que
se póde chamar do verbo substantivo, visto ser este o mais
caracteristico dos diversos aphorismos em que se funda, e
ter servido de ponto de partida para se libellar a sua formula
geral.

Esta formula é a seguinte : « Não ha nem póde haver
pensamento constando de menos de tres ideas, e portanto
226não ha nem póde haver proposição constando de menos de
tres termos, os quaes, embora parcialmente occultos ou disfarçados,
coexistem todavia virtualmente por uma necessidade
de relação : estes tres termos são o sujeito, o verbo e o
attributo (predicado)
. » E, como demonstração categorica, a
mesma theoria offerece geralmente um exemplo deste ou
de igual teor : Deos é omnipotente.

Porém, no seu empenho de obviar as duvidas que suscita
naturalmente a reflexão, ella se dá pressa em accrescentar :
« Para se entender isso como convem, cumpre
admittir previamente que, em todas as linguas, só ha uma
palavra que merece propriamente a denominação de verbo,
e esta palavra é a que, como no exemplo citado, exprime
a existencia : o verbo substantivo : E’, do ser. Todos os
mais são apenas verbos adjectivos ou attributivos, porque
nada mais exprimem do que a idéa do mesmo verbo substantivo,
em combinação intima com o seu indefectivel
attributo ; pois viver, por exemplo, nada mais é senão o
equivalente de ser vivente. e, quando se quer penetrar
até ao ámago do pensamento, quando se pretende desvendar
os arcanos da constituição da linguagem, esta é a forma
em que cumpre analyticamente resolver todos os verbos
adjectivos ou attributivos. »

Eis-ahi resumida, com a mais escrupulosa fidelidade, a
tão preconisada theoria do verbo substantivo. Sahida, ha
cerca de quarenta annos, do cerebro dos dous grammaticos
francezes Noël e Chapsal, ella teve a dita de se acreditar
rapidamente, não só no paiz do sua origem, mas ainda, e
talvez com maior enthusiasmo, naquelles onde a mesma
procedencia costuma dispensar, em innovações de ensino,
toda e qualquer verificação de proficiência, respondendo ella
preventivamente por si só a todas as objecções. Graças a
tão invejável privilegio, ella veiu a dominar soberanemento
na Grammatica portugueza ; e hoje não ha, neste assumpto,
autor que deixe de lhe fazer a devida continencia, embora
nem todos pareção igualmente convencidos de sua desmarcada
efficacia.

A verdade é que, tanto em relação ao francez, como ás
mais linguas, nunca se imaginou tamanho absurdo, tão qualificada
parvoiçada. Porém, prestando-se ás mais extravagantes
elucubrações, ella veiu a assumir dahi uma catadura
quasi mysteriosa, muito appetecida dos espiritos que não
concebem a sciencia sem fantasmagorias estupefacientes,
sem cavernosidades assombrosas, sem abysmos insondaveis.
Tão maravilhoso achado, só comparável ao descobrimento
da pedra philosophal, não podia vir a predominar na sciencia,
227sem ser caracterisado por um titulo condigno : dahi a apparição,
no programma dos estudos, do uma Grammatica philosophica,
assim denominada por se incumbir de explicar a
linguagem que todo o mundo entende (v. g. ando procurando),
por outra que ninguem sabe o que ella é (Sou
andante sendo procurante).

Quanto á outra ou outras grammaticas, que não tratão
de tão pasmosas transmutações, destas ninguem faz caso,
e só se sabe que ellas existem, porque, havendo uma philosophica,
força é que haja que o não sejão.

Ora, que quer em summa essa grammatica philosophica
com a sua theoria do verbo substantivo ? Ella quer quatro
cousas :

1.ª Que não haja proposição sem tres termos ;

2.ª Que não haja facto sem sujeito ;

3.ª Que não haja verbo attributivo que não seja resoluvel
em verbo substantivo ;

4.ª Que não haja, fora do verbo substantivo, verbo sem
attributo, nem haja para um tal verbo, outro attributo
senão o que delle se extrahe.

Tudo isso se poderia arguir de falso com uma unica
palavra : chove, que constitue uma proposição clara, e clarissima.

1.° Pois não tem tres termos, tem um só ;

2.° Pois não tem sujeito, nem por sombras ;

3.° Pois não se deixa resolver em verbo substantivo ;

4.° Pois não tem predicado, nem em si, nem fóra de si.

Mas tão enraizados preconceitos não se deixão arrancar
nem pela mais categorica demonstração. Cumpre, portanto,
discutí-los, tanto mais que o exemplo citado, e outros analogos,
desafiarão mui particularmente o estro dos substantivistas
a todo o transe, e inspirárão-lhes as mais excêntricas
transsubstanciações.

« Verbo, diz o mais eminente dentre elles, porque tambem
é o unico que, na sinceridade de sua fé, o no ardor
de seu proselytismo, não se esquivou ao dever de deduzir
de seus principios as mais longinquas consequencias, verbo
é a palavra que serve para affirmar a existencia da qualidade
na substancia, pessôa ou cousa, e por conseguinte o nexo ou
copula que une o attributo ao sujeito da proposição, phrase,
sentença ou enunciado do juizo
. »

Nada mais terminante e categórico se póde dizer sobre
228a necessidade metaphysica da intervenção de tres termos
em toda e qualquer proposição, e, conseguintemente, de tres
ideas distinctas em todo e qualquer pensamento.

« A forma primitiva do verbo é uma e unica em todas
as linguas : na portugueza
ser, que quer dizer, ser ente indeterminadamente :
nas outras o equivalente de, ser. »

Eis-ahi até onde pode levar, philosophicamente fallando,
a paixão por um systema que, como o da analyse, sendo
bom em si, víra-se todavia contra si mesmo logo que deixa
do gyrar nos seus estrictos limites. Pois, nem o primitivo
ser escapa ahi ao sestro da decomposição analytica ! E, que
decomposição é esta, em que reapparece, como um do seus
proprios elementos, o mesmo todo considerado já como composto
; ser, isto é, ser ente ! e’ o caso do perguntar se
afinal ente não poderia, por ventura, vir a ser tambem
subdividido ; é o caso do perguntar seriamente se a analyse
assim entendida não é, em vez do um methodo eminentemente
pratico, o jogo de uma imaginação desvairada, que,
do atomo, pretende fazer dous e até tres atomos.

« Divide-se porem o verbo em substantivo e attributivo,
segundo se acha em sua forma primitiva, ou unido ao attributo
,
viver, que quer dizer, ser vivente. »

Assim firmados os pontos capitaes da discussão, nada
mais obsta a que se lhes aquilato a importancia. « O verbo
é a palavra que affirma a existencia da qualidade na substancia,
pessoa ou cousa, — ou, em outras palavras, o verbo
é o nexo que une o sujeito ao attributo ; — porém, nos
verbos adjectivos, o attributo já se encontra combinado com
o verbo. » — Ora, relativamente a « chove, » o mais que se
pode conceder, é que, sendo decomposto pelo processo ensinado,
dê elle os dous produetos « é chovente ; » os quaes
constituem a affirmação da existencia da qualidade, mas
deixão nas mais compactas trevas a substancia, pessoa ou
cousa qualificada ; — os quaes, emfim, mostrão o nexo e o
attributo, mas deixão num vacuo perfeito a substancia,
pessoa ou cousa que tem de ser comparte na annexação, —
o sujeito emfim. Pois, onde está ? Logo, emquanto se não
resolver tal duvida, parece legitima a conclusão de que
pode haver e ha proposição em que o verbo existe sem
sujeito, em que o nexo só está amarrado do um lado… !!

« Não ha tal, replicão os substantivistas ; isso já foi
cabalmente respondido, não só na obra alludida, como em
todas as mais que ventilarão o caso ; e, senão, haja vista
ao seguinte : e’ propriedade do verbo unipessoal conter em
229si o sujeito e o attributo, de modo que com uma só palavra se
forma proposição quando o verbo está na voz activa, ou com
duas, quando está na passiva : por quanto
, chove, é o
mesmo que
, « ha ou cahe chuva » ; venta, o mesmo que,
« ha ou sibila vento » ;… vive-se, vale tanto como, « existe
ou dá-se o
viver ou a vida » ; falla-se, tanto como « existe
ou ouve-se o
fallar ou a falla » ;… »

Respondemos : Esta redarguição é muito mais complexa
do que parece ; porquanto, limitando-nos á mera decomposição
analytica de chove, achamos-lhe ahi duas versões,
que, embora atiradas como perfeitamente identicas, nada
têm, todavia, do commum nas suas relações syntaxicas, o
que torna a solução suspeita ; de que se trata afinal, é vir
a saber a verdadeira funcção de cada palavra empregada.
Ora, em « cahe chuva » bem se vê um verbo neutro acompanhado
do seu sujeito, visto como, pelo processo da substituição,
nada obsta a que se diga com toda a propriedade :
a cahem chuvas ; » mas em « ha chuva, » encontra-se um
verbo impessoal acompanhado de seu complemento directo,
visto não haver estridor de dentes que legitime a locução
« Hão chuvas, » que corresponderia entretanto á anterior, se
ahi fosse haver neutro, como o é cahir.

Não será cousa mais do que original a pretenção de
demonstrar a trilogia fatídica em « chove » por dous escolios
apenas providos, cada um, de dous termos, e ambos igualmente
desprovidos do indispensavel predicado ? Pois, se tão
aspero pareceu ao contrario fazer, do « chove, » « é chovente, »
ou « a chuva é chovente, » como o exige a citada
formula, não é de crer que se abalançasse a cortar a difficuldade
com a versão « chuva e cahinte ; » porque, sendo
este um barbarismo não menos crú do que os anteriores,
apenas desentranharia por um modo repugnante o verbo
cahir, mas nada resolvería acerca de chover, que é ahi
entretanto onde bate o ponto.

Quanto ao escolio « ha chuva, » será, quando muito,
uma ingenuidade querer explicar um verbo impessoal, isto
é, despido do sujeito, para concluir que ambos têm um.

Porém o que é muito concludente, é que, do todos os
esconjuros imaginados pelo estrenuo campeão du substantivismo
verbal
, nenhum conseguiu fazer surdir o verbo substantivo,
e tanto basta para comprovar a nossa anterior asserção,
que nem todos os verbos adjectivos ou attributivos condescendem
a tão insigne violencia.

« Mas, retorquem os substantivistas, isto de denogar
aos verbos unipessoaes ou impessoaes (que de appellidos ?
230por emquanto, não se faz contenda) um sujeito só porque
não acóde com presteza ao chamado, é a subversão, é o
aniquilamento de todas as noções mais inconcussas da
logica. Porquanto vós, que definis o verbo a enunciação
de um facto, como podeis sustentar que haja effeito sem
causa, acto sem autor, facto sem factor ou sujeito ! »

Respondemos : Nunca negámos verdades tão inconcussas ;
nunca pretendêmos que haja effeito sem causa, nem
que haja acto sem autor : o que negamos, sim, é que seja
da essencia do facto, como termo syntaxico, o acarretar
forçosamente a denunciação de quem a perpetra. Porquanto,
neste particular, tres sómente são as hypotheses que, como
fácil é verificá-lo, ressumbrão das mais minuciosas indagações
analyticas : 1.°, ou o autor é denunciado pelo sujeito
(deos fez o mundo) ; 2.°, ou é denunciado por um complemento
(O mundo foi feito por deos) ; 3.° ou não é denunciado
por nada (faz escuro). E, por isso, arredando da definição
do sujeito as expressões agente e paciente com que
se sóe, não sem alguma impropriedade, caracterisá-lo, contentámo-nos
com o definir por sua propriedade mais manifesta,
isto é, pelo que faz, e não pelo que é : « … a palavra
ou conjuncto de palavras regendo ao verbo em numero e pessoa
 ».
Vindo elle a falhar, ou porque não se póde encontrar, ou
porque não importa enunciá-lo, dá-se então simplesmente,
para com o verbo, abstracção completa de regencia ; o que
faz com que, assim livre de peias, assuma o mesmo verbo
em cada tempo uma unica forma, a da terceira pessoa do
singular, por não haver manifestação possivel sem ao menos
uma forma determinada. e… eis-ahi quanto nos suggeriu
a observação e o bom senso.

« Fraca argumentação, retrucão os substantivistas ; porquanto
o que a mesma observação patenteia com uma
evidencia perante a qual se deve inclinar o bom senso, é
que os verbos impessoaes têm um sujeito, o têm-no tão
claro, que só a mais incurável das cegueiras, a cegueira
voluntária, o póde recusar. Mas, para obviar toda e
qualquer réplica, faz-se mister estabelecer esta incontrastavel
entidade sobre sua base philosophica. »

« Em uma questão que, como essa, se prende, por assim
dizer, ao organismo mesmo da linguagem, impossivel é
tomar a assistencia ou deficiencia do sujeito na conta de
um daquelles meros accidentes do locução com que uma
circumstancia fortuita beneficiou uma ou outra lingua,
sonegando-os ás mais, como é a personalidade de alguns
tempos do infinitivo em portuguez. Por outras palavras,
o sujeito não póde ser questão desta ou daquella grammatica
231especial ; é questão de grammatica geral, porque
interessa necessariamente a todas as linguas ; e tanto é
assim, que o incluistes no numero dos vossos sete termos
syntaxicos, o assim lhe conferistes a sancção da perennidade
e da universalidade. Ora, se o sujeito apparece
claro, sonoro, innegavel junto aos verbos impessoaes de
ao menos duas linguas eminentemente cultas, porém, o
que é mais, essencialmente differentes de origem immediata,
como de syntaxe, é de toda a evidencia que, no
mesmo caso, existe em todas. Pois é o que se dá com o
francez e o allemão, que nunca prescindem de sujeito expresso
e expressissimo junto aos seus verbos impessoaes,
como o comprovão as duas seguintes proposições, adrede
formuladas de conformidade com as exemplificações já
adduzidas : « chove, e ainda ha chuva para amanhãa. »
— « Il pleut, et Il y a encore de la pluie pour demain. »
— « Es regnet, und es gibt noch Regen fuer morgen. » »

« Pouco, ou antes nenhum valor poderia ter a allegação
de que, por ser intraduzivel em portuguez, esto il
ou aquelle es nada significa, nada vale, nada é. Porquanto,
além das provas directamente extrahidas dos autos,
como dizem os legistas, temos as testemunhaes ; e, muito
de proposito, cingiremo-nos, na sua exposição, ás dos
varões que têm a mais indisputável competencia para
fallar no assumpto. As glosas versão especialmente, é
verdade, sobre o impessoal haver ; mas é intuitivo que
seu alcance abrange todos os impessoaes, por alludirem
ao il francez do exemplo citado. »

I

« Ha em portuguez alguns idiotismos que devemos explicar
aos que, nascendo em Portugal, não sabem portuguez ;
pois têm por erros crassos certos modos de fallar
que são propriedades nativas da lingua portugueza… »

« Na concordancia do verbo com o seu nominativo
(sujeito) temos um particular idiotismo de haver, porque
nas terceiras pessoas do numero singular não concorda em
numero com o seu nominativo. Os ignorantes, e tambem
muitos dos que presumem não o ser, governando-se pelas
regulares conjugações de outros verbos, têm por erro crassissimo
ouvirem dizer : houve homens que nunca havião de
ter nascido
, em lugar de : houverão homens etc… Porém
estes presumidos são os que errão, porque com todos os
classicos do nossa lingua se prova que o estar este verbo
no singular, e o seu nominativo homens no plural, é um
idiotismo, o grammatica irregular, muito propria da nossa
linguagem. »232

II

« O reparo d’este erro vulgarissimo é na verdade attendivel :
engana-se porém o auctor (precedente), quando
ao bom fallar que recommenda chama idiotismo ; porque se
ha homens, havia festas, etc. fossem realmente discordancias
do numero entre sujeito e verbo, nem se deveriam nem se
poderiam desculpar ; a illusão está em cuidar-se que o
verbo haver significa existir. Logo que se advirta em que
haver é derivado do latim habere, e com a mesma significação
de ter, fica manifesto que o, erroneamente chamado,
sujeito ou agente, não é senão complemento objectivo ou
paciente ; o que o agente ou sujeito real se deixou occulto,
para conformar com o uso recebido. Assim, ha homens
completa-se deste modo : O mundo ha (isto é tem) homens.
- .
Havia festas, - o mundo ou o tempo, aquella occasião ou
aquelle logar, havia (ou tinha) festas… Estes modos do
dizer são portanto ellipticos, e a ellipse não se deve confundir
com o idiotismo. »

« Em francez é mui semelhante o uso do verbo avoir
derivado, como o nosso haver, da mesma raiz latina, e com
identica significação. Em il y a des hommes (ha homens) o
sujeito é il, equivalente de le monde ; o complemento objectivo
des hommes. »

III

« Ha na lingua portugueza um verbo unipessoal que
se emprega quasi sempre ( ?!) com sujeito occulto, o verbo
Haver, com a significação de existir. Este sujeito é de ordinario,
numero, classe, especie, quantidade, espaço, periodo,
como se vê nos seguintes exemplos :

Ha homens extraordinarios ; isto é, numero, classe, especie
de homens.

Ha dias que não te tenho visto ; isto é, numero, quantidade
do dias.

Ha tempos bem calamitosos ; isto é, espaço, periodo de
tempos.

« N. B. O emprego deste verbo com sujeito occulto
é um dos idiotismos da lingua, assim como o é tambem o
do infinito pessoal, e o do verbo composto com o gerundio… »

« N. B. Esto verbo não vem, como sonhão alguns
grammaticos, do, Habeo, latino, que nunca foi tomado em
tal accepção, mas do verbo francez, y avoir, que tem a
mesma significação e emprego, que o verbo portuguez, com
233a unica differença de vir acompanhado do pronome indefinido
il, que indica o verdadeiro sujeito occulto, nombre, espéce,
quantité
, etc. »

« Os nossos classicos costumão as vezes juntar tambem
a esto verbo a particula, ou adverbio, hi, ahi ; o que acontece
ordinariamente quando elle vem com sujeito expresso,
por exemplo :

tableau Não ha hi homem.
Não ha hi cousa. »

Respondemos : Essas tres opiniões, igualmente empenhadas
na demonstração de um só e mesmo theorema, ou
não merecem conceito algum, ou comprovão exuberantemente,
por simples confrontação, que o tão occulto sujeito
dos verbos impossoaes ainda está por achar. Pois, nesse
tão repisado « ha homens », o sujeito é, para o primeiro
opinante, homens ; para o segundo, o mundo ; o para o terceiro,
numero, classe, especie. Ora, será isso mera questão
de synonymia ?

Porém, deixando de parte mais de uma observação divertida
sobre a antinomia das considerações que concluem
por um sujeito, e delle dão cabo, chegamos ao único ponto
ainda não discutido, o da assistencia do pronome il junto
aos impessoaes francezes ; e, já que mettêrão a fouce naquella
seára, para lá tambem vamos.

Quem compara, ainda que mui perfunctoriamente, a
conjugação dos verbos francezes com a dos verbos portuguezes,
não tarda em ficar advertido da razão que impõe
aos primeiros, no discurso, uma constante adjuncção dos
pronomes sujeitos, ao passo que dispensa geralmente os
segundos de tão importuna formalidade, com grande proveito
para a linguagem, que dahi cobra alacridade e vigor.
Com effeito, basta, em relação aos verbos francezes, recitar,
separadamente dos pronomes sujeitos, algumas series
de tempos simples, para deparar com as numerosas paronymias
que confundem numa mesma sonoridade as pessoas
mais diversas de um mesmo tempo.

tableau J’aime (ém) | J’aimais (émé) | J’aimerais (émré)
Tu aimes (ém) | Tu aimais (émé) | Tu aimerais (émré)
Il aime (ém) | Il amait (émé) | Il aimerait (émré)
Ils aiment (ém) | Ils aimaient (émé) | Ils aimeraient (émré)

Que haverá, logo, do extraordinario que esta constante
assistencia dos referidos pronomes junto aos verbos pessoaes,
234de muito os mais numerosos e os mais frequentes,
viesse a constituir, no francez, uma especie de predicamento
indispensavel a toda a mesma ordem de palavras,
alastrando-se, embora sem necessidade, mas por uma analogia
do que as linguas offerecem outros exemplos, até aos
verbos impessoaes ? Que, outrosim ; os mesmos verbos, sob
a pressão da logica, dispensassem o excrescente il em uma
epoca ainda não mui remota, para logo depois o tomarem
sob o impulso de uma conveniencia que hoje nos escapa, é
o que attestão as seguintes notas, do proprio punho do famoso
cardeal de Richelieu, fundador da Academia Franceza,
a quem o desgraçado Carlos I de Inglaterra pedira soccorros.

« Faut réfléchir long-temps et attendre: -  : — les communes
sont fortes ; le roi Charles compte sur les Ecossais ; ils le
vendront
. »

« Faut prendre garde. il y a là un homme de guerre
qui est venu voir Vincennes, et a dit qu’on ne devait jamais
frapper les princes qu’à la téte
. »

La Fontaine tambem disse, na fabula das Adevinhas
(Les Devineresses) :

Point de raisons, fallut deviner et prédire.

Portanto, como termo syntaxico, o tal il não é nada.
Não é nada porque, ainda que pronome por natureza, ahi
não substitue a nenhum substantivo, o conseguintemente
não representa idéa alguma ; faz apenas o officio de indicador :
« Ahi vai verbo » ; é palavra expletiva e mais nada.

Ora se fosse realmente tudo quanto querem que seja,
isto é, o substituto directo, immediato de nombre, espéce,
quantité
, o de não se sabe que mais, quem não vê que só
poderia decentemente cumprir com a sua obrigação quando
substituiria a nombre ; mas que, em relação aos femininos
espéce e quantité, já teria de mandar em seu lugar a consorte
elle, o que não pouco atrapalharia os sabios da
supracitada Academia, que ainda não cogitárão do caso : elle
y « , elle faut, elle pleut!… (isto é : l’espece, la quantité).

Emfim, que o mesmo il, é meramente expletivo ainda
se comprova pela facilidade com que hoje mesmo se deixa
lançar fóra por certos vocabulos, não só providos da mesma
faculdade de indicação, como tambem encarregados de
outra funcção mais effectiva : « n’importe. — qu’importe !
peu importe… ». (Il importe, — Il importe beaucoup. —
Il importe peu)
.235

Voltão á carga os substantivistas, e dizem :

« Toda essa algaravia franceza, bôa para deitar poeira
nos olhos, poderá, quando muito, provar que lá, em
tempos de Carlos Martello, e mesmo muito depois, o
francez irmanava-se mais do que hoje com o portugucz… »

Interrompemos com a devida venia : Irmanava-se, sim ;
veja-se o que escreve Lafontaine na fabula « La Grenouille
et le Rat
 » :

Tel, comme dit Merlin, cuide engeigner autrui,
Qui souvent s’engeigne soi-même.
J’ai regret que ce mot soit trop vieux aujourd’hui ;
Il m’a toujours semblé d’une énergie extrême.

Ora, ao passo que os Francezes carecem hoje de um
escolio para entender os dous primeiros versos, um portuguez
põe-lhes logo os correspondentes em cima.

« Tal, como diz Merlin, cuida enganar a outrem, que
muitas vezes se engana a si mesmo. Peza-me que este dito seja
hoje tão antiquado
… »

O certo é que, mesmo no seculo XIII, os Francezes
omittião ainda frequentemente os pronomes sujeitos junto
aos verbos mais pessoaes. Haja vista a seguinte fabula da
princeza D. Maria de França :

La mors et li bosquillon
Tant de loin que de prez n’est laide
La mors. La clamoit à son ayde
Tosjors ung povre bosquillon
Que n’ot chevance ni sillon :
« Que ne viem, disoit, ô ma mie,
Finer ma dolorouse vie ! »
Tant brama, qu’advint ; et de voix
Terrible : « Que veux-tu ? » — « Ce bois
Que m’aydiez à carguor, madame ! »
Peur et labeur n’ont mesme game.

A morte e o lenheiro. — Le longe, tão feia não é a
morte como de perto. Chamava-a constantemente em sua ajuda
um pobre lenheiro que jamais tivera fortuna nem campo. « Porque
não vens
, dizia (elle), ó minha querida, findar a minha
dolorosa vida ! » Tanto
gritou (elle) que (ella) veiu ; e, com
voz terrivel : « Que queres ? » — « Que esta lenha (vós) me

ajudeis a carregar, senhora. » — Medo e fadiga não têm
mesma cantiga
.236

« Pois, exclamão os substantivistas, seja embora como
queirais ; mas nada de tudo isso prova cousa alguma
contra a subida conveniencia de deduzir todos os verbos
adjectivos ou attributivos a uma mesma formula analytica ;
porquanto a uniformidade em materia de methodo
é, e sempre foi o supremo anhelo da sciencia. Deos é
um em essencia, embora trino em pessoas ; a materia é
uma, apezar de seus sessenta e tantos corpos elementares ;
emfim já não são poucos os physicos que não duvidão
em asseverar que os tres imponderáveis : a luz, o
calorico e a electricidade, não são senão uma só e mesma
substancia. Não ha que negar : a tendencia á unidade
nas sciencias corresponde a este nosso irresistivel desejo
de simplificar tudo para tudo abraçarmos ; é uma lei do
progresso. Ora só procuramos conformar-nos com ella
quando estabelecemos, sem rodeios nem reservas, que
todo e qualquer verbo affirma a existencia da qualidade,
com a unica differença que ser o faz por meio de outra
palavra (Deos é eterno), e os verbos attributivos, por si
mesmos (viver, isto é, ser vivente). »

« Aliás as considerações que militão a favor desta opinião,
são das mais concludentes. « a necessidade de abreviar
o discurso, para de algum modo acompanhar o pensamento
na rapidez, levou o homem a unir o verbo ao attributo :
assim em vez de dizer com duas palavras
ser creante, ser
vivente, disse com uma só, crear, viver, o que é muito
mais conciso
. »

« Ora quereis certificar-vos, de um modo palpavel, da
realidade desta combinação, pelos rastos que deixou de
si ser no acto de sua incorporação nos demais verbos ?
pois ei-los discriminados com uma paciencia de benedictino,
e delicadeza de chimico, desafiando qualquer critica.
« Tres são as terminações infinitivas do verbo attributivo
na lingua portugueza, e por conseguinte tres as conjugações
a que dão origem ; a ’primeira em
ar, como amar ; a segunda
em
er, como mover ; a terceira em ir, como unir. » »

« Todas estas tres terminações comprehendem o attributo
grammatical e o verbo
ser, que se torna patente (note-se
bem) na terminação em er da segunda conjugação. a terminação
em
ar é evidentemente ( ?!) uma terminação contracta
de
aer (sic), e a terminação em ir é tambem outra
terminação
( !!) contracta de ier. » Vamos agora á conclusão.
« Assim amar quer dizer amante ser, ou ser o
que ama
 ; mover, movente ser, ou ser o que move ; unir,
uninte ser, ou ser o que une. »

« a terminação infinitiva em ôr, que só se nota no verbo
237pôr e seus compostos, não dá origem a uma conjugação especial,
porque
pôr é contracção de poêr como se dizia antigamente. »

« Por desgraça, descuidou-se aqui o auctor de completar
a demonstração como o fez em relação a amar, mover e
unir, de sorte que não se póde saber ao certo se o desmancho
analytico deve dar ponte ser ou poente ser ;
mas em todo caso dá ser o ou a que põe. »

Respondemos : Lembra-nos, não sem saudades, que,
quando estudavamos Rhetorica, o professor, por desafogo,
leu-nos, a uns quarenta rapazes mais ou menos taludos, em
vesperas do entrudo, o que convinha ler de algumas das
comedias de Moliére ; e ainda resoão-nos aos ouvidos as
estrondosas gargalhadas com que saudámos ao illustrado
mentor, quando, identificando-se com o Mestre de Philosophia
do « Bourgeois gentilhomme », repetiu-nos a primorosa
scena da licção de Grammatica. Mas, se o inexcedivel comico
tanta cousa engraçada descobriu na mera exposição
doutrinal das vogaes e das consoantes, que não acharia
elle hoje nas mirificas transformações por que têm de passar
os atribulados verbos attributivos para em todos os modos,
tempos, numeros e pessoas sucretar sem remissão nem
descanso o mesmo fastidioso ser, com o seu competente
concomitante em ante, ente ou inte ! Infelizmente, o
Mestre de Philosophia de Moliére nada sabia de Grammatica
philosophica
 ; só apprendêra e ensinava a outra ; e
assim mesmo, a que enlevos de grandiloquência não chegou
elle !

Entretanto, como risota não é resposta, passáramos
por cima de um inconveniente tão grave em materia de
ensino, ou procuráramos um meio de attenuá-lo, se fosse
remido por uma razão de utilidade, ou mesmo se fosse
simplesmente a inevitavel consequencia do um principio
verdadeiro. Porém nada mais falso do que a allegação de
ser o real e effectivo attributo de um verbo, o aleijão tão
frequentemente inadmissivel que delle se extrahe.

O attributo, a que tivemos por melhor de chamar predicado,
é um termo syntaxico constando, junto a um verbo
de estado, de uma ou mais palavras sempre e necessariamente
distinctas de qualquer verbo, e referindo-se ao sujeito
da proposição, a não ser que, faltando este por ser o
verbo impessoal, não se refira a nada.

« Ora, tornão a dizer os substantivistas, como quereis
que aceitemos taes pataratas de verbos de estado, dos
quaes ainda ninguem ouviu jamais fallar, quando nem
sequer consentimos em conferir a estar a mesma virtualidade
238que a ser, bem que muitos o requeirão sob o pretexto
que, sendo ambos os representantes igualmente
legitimos do unico être francez, ambos devão participar
das mesmas regalias. Desgraçadamente, por o ignorarem,
os dous luminares Noël e Chapsal deixárão de resolver
o caso ; porém o mestre fê-lo com a sua costumada proficiencia,
e, se a citação vem um pouco estirada, nem por
isso sahe ella menos lúcida e terminante. »

« Alguns grammaticos pretendem fazer tambem, estar,
verbo substantivo, o qual, si assim fosse, deixaria de ser o
unico verbo
( ??) : — (Que desgraça !) mas esta doutrina é
insustentavel e erronea, por que
, estar, que se resolve por,
ser estante, e » do simples latino stare, estar firme,
ou ainda do composto exstare, estar eminente, já involve
em sua significação a idéa de
estada, estado, attitude
em certa maneira ( !!), ou a idéa de existencia modal ( ???),
e já é por conseguinte o verbo substantivo combinado com
um attributo
. »

« Quando digo por exemplo, « Pedro está doente », accrescento
já alguma cousa á simples affirmação expressa pelo
verbo substantivo, porque junto a ella a idéa de
estada,
estado actual
, ou modo, por que Pedro existe na actualidade,
que é no estado de doente
. « Pedro está doente », vale
pois tanto como, Pedro
existe, permanece, fica, actualmente
doente ; e o verbo
estar é um verbo attributivo como
qualquer dos tres por que elle se explica no presente caso,
ainda supprimido o adverbio
actualmente. »

Ola ! exclamamos nós pela nossa vez : que feliz acaso !
os nossos verbos de estado, ahi os temos ! ahi os temos !
quando não todos, ao menos em numero sufficiente para
algumas exemplificações. Pois, para nós, tanto é ser verbo
de estado, como o é estar, como o é existir, como o é
permanecer, como o é ficar…

« Nada ! nada ! proseguem os substantivistas : deixai
acabar a citação, que o melhor é o que está por vir. E,
se então não ficardes convencido, é que cochilastes junto
a Tobias, debaixo do ninho de andorinhas. « a distincção
que fazem os mesmos de que
, ser, exprime uma qualidade
permanente
(Ora ! resmungamos baixinho : e elles que
dizião que ser exprime a existencia l que é elle um nexo,
uma copula!
ao passo que a qualidade é o attributo !…),
e, estar, uma qualidade accidental, serve para demonstrar
que o primeiro é o verbo substantivo, e o segundo um verbo
attributivo. Si quizessemos por exemplo dizer que
pedro se
fez homem
, diriamos com ser, « Pedro é homem » (Não
entendemos perfeitamente, mas…), accrescentando ao attributo
239o adverbio de tempo (Mas, se é já homem, como
é que… ?), porque o verbo substantivo não exprime senão a
simples affirmação
(Então já não exprime mais uma qualidade ?) ;
com o verbo estar porém, que involve em sua
significação a idea de
estada, estado, posição actual, ou
a idea de qualidade em referencia ao tempo
( ???), diriamos
bem com o adverbio ou sem elle
« Pedro já está homem (!!),
ou simplesmente, está homem (!!!). »

Respondemos continuando o nosso arrazoado :

Chamamos verbos de estado, não só a ser, a estar, a
existir, a permanecer, e a ficar, senão tambem a muitos
outros que, em outra parte, tornaremos conhecidos por uma
substituição typica ; e assim lhes chamamos porque, prestando-se
em toda a puridade a servir de medianeiros entre
um predicado e um sujeito, quando sujeito ha, portão-se
na proposição com a mais frisante identidade de funcção,
e portanto devem ser tidos como formando uma categoria
especial, perfeitamente definida. Pois, como é possivel enxergar
uma differença de relações entre as palavras dos
seguintes exemplos, só porque os verbos differem ?

« Pedro é velho. — Pedro está doente. — Pedro existe
occulto. — Pedro permanece absorto, — Pedro fica aborrecido. »

Cada um dos referidos qualificativos não se ageita
exactamente da mesma maneira ao respectivo sujeito ?
Então, se ahi só o adjectivo velho, pelo acaso de se achar
encostado ao verbo ser, póde ser tido por predicado, que
serão os adjectivos doente e occulto, o os participios absorto
e aborrecido, se não são predicados ? qual ha de ser a sua
funcção syntaxica ? porque alguma, não podem deixar de
a ter.

Sorrindo-se maliciosamente, os substantivistas replicão :
« Então pensastes que não esperavamos por esta lançada?
Então pensastes que não andavamos precavidos
« contra tal bote ? Ahi tendes a resposta :

« A concordancia do attributo com o sujeito, ou do qualificativo
com o nome, opera-se quando os dous termos
estão unidos pelo verbo substantivo
. Ex. a terra é redonda.
O homem é racional. »

« A concordancia do qualificativo com o nome opera-se
ainda quando elles estão unidos por um ou mais verbos intransitivos

(neutros). Ex. Ninguem nasce máo. — Aristides
viveo e morreo
pobre. »

« Nestes ultimos casos o adjectivo completa o sentido do
participio antiquado
… »240

Irra ! exclamamos nós : isso de chamar antiquados
aos participios estante, nascente, vivente, ficante, morrente e a
outros que taes (que os ha muito exquisitos), não póde
deixar de ser uma engenhosa allusão archeologica á éra de
pedra, ou pelo menos á epoca em que, no dizer do P. Ant.
Vieira, Lisboa foi fundada por Elysa, filho de Javan, irmão
de Tubal, ambos netos de Noé, donde começou a ser conhecida
pelo nome de Elysia
… !! nada menos de 220 annos antes da
fundação de Ninive
 ! o que confere assim uma respeitável
antiguidade á surrapa de Ribatéjo ; porquanto, como se
descuidarião da parreira, na sua migração para Portugal,
os proximos descendentes do inventor da bôa pinga ?

Porém, se o tal adjectivo ou qualificativo vem em tal
caso a completar o sentido do participio antiquado, não
ha que vacillar sobre sua funcção : torna-se complemento.
Ora, um qualificativo complemento !… Emfim tudo póde
ser na theoria do verbo substantivo.

Mas então, que especie de complemento virá elle a
formar ? um objectivo, um terminativo, um circumstancial ?..
ou, em duas palavras, que melhor entendemos, directo,
isto é, sem preposição, ou indirecto, isto é, com preposição ?
Se directo, eis-ahi verbos declaradamente chamados
intransitivos ou neutros porque não lhes cabe complemento
directo de substantivo ou pronome, providos de um complemento
directo de adjectivo ! Se indirecto, onde está, e
qual é a preposição expressa ou occulta ?

« Mal andastes desta vez na vossa argumentação,
tornão os substantivistas ; queremos dizer, andastes com
pouca lealdade : porquanto, cortando pelo meio a nossa
citação, destes-lhe um alcance ao vosso bel-prazer, mas
não o que tem. O periodo completo diz : « Nestes ultimos
casos o adjectivo completa o sentido do participio antiquado
incluido no verbo, e o attributo se acha composto de duas
palavras
 : « Ninguem é nascente máo » ; Aristídes foi vivente
e morrente pobre
. »

Respondemos : Composto se diz o termo entre cujos
membros intervem ou póde intervir uma conjuncção copu1ativa
(e, nem, ou). E isto é perfeitamente racional ; visto
como o que lembra a mesma conjuncção, é que os alludidos
membros poderião isoladamente exercer a funcção que
juntos exercem.

Ex. Pedro é velho e rabugento : — Pedro é velho ;
Pedro é rabugento.

Ora o que decorre destas considerações, é que, por
exemplo, no periodo « Ninguem é nascente mao », o predidicado
241não é simples, porque consta de mais de uma palavra ;
nem é composto, porque não tolera a interpolação
da conjuncção e. Agora avenha-se lá com isto a theoria
substantival, e explique como composto é o que não é composto.

« Isso é apenas questão de palavras, observão os substantivistas,
e não merece mais detido exame. Mas o que
merece um, e muito serio, é a vossa allegação de que
pode existir um predicado junto a um verbo sem sujeito.
Ora em tal cousa ainda ninguem sonhou. A qualidade
sem a substancia ! a propriedade sem o senhorio ! »

Respondemos : Entretanto nada mais exacto ; pois o
P. Ant. Vieira disse com uma propriedade de expressão
que ninguem contestará : « E’ certo que todos desejais o descanso. »

Ora, que será ahi o adjectivo certo, junto ao impessoal
é, senão um predicado ?

« Desta vez apanhamo-vos em flagrante, exclamão os
substantivistas. Desta vez podemos dizer que, se a nossa
theoria tivera sido abalada sequer por tão mesquinhas
quão insulsas chicanas, ella ficava decididamente para
sempre firmada. O que, no exemplo citado, é claro como
a luz meridiana, é que o indigitado verbo impessoal é,
que continuamos com toda a razão a chamar unipessoal,
tem o mais determinado dos sujeitos na proposição subordinada
que se lhe segue. Porquanto, muito ao envez de
vossa doutrina rachitica sobre o sujeito, reconhecemos-lhe,
a este sujeito, a propriedade de se fazer representar, não
só por estas ou aquellas palavras, senão tambem por
uma proposição ou oração toda inteira. e este é justamente
o caso. Com effeito : Que é o que é certo ?
Que todos desejais o descanso. Podeis querê-lo mais evidente ?
Isto não tem resposta, como diz o vosso sempiterno
P. Ant. Vieira. »

Respondemos : E’ rabo ou cabeça ? Qual é o valor
que dais ás palavras ? O que lhes assenta pelo uso e pela
etymologia ? Pois bem : que entendeis então por proposição
subordinada senão uma proposição posta sob a dependencia
de outra proposição anterior. e, senão, que faz lá
aquelle que ? (… que todos desejais…).

Vindo a constituir, pela deslocação lembrada, o cabeço
da oração, qual é já sua razão do ser ? Que ligará elle ?
Assim, porque, a contrario sensu, vai frequentemente o sujeito
posposto ao verbo, deixaria elle de reger ao mesmo
verbo para ser delle regido ? Uma collocação eventual das
242palavras bastaria assim para subverter, nas suas relações
syntaxicas, as funcções impostas ás mesmas palavras pelo
jogo natural das idéas, e haveria quem achasse, por isso,
como sendo perfeitamente correcta, a seguinte inscripção
que lêmos gravada em uma lapida :

« Aqui jaz os restos mortaes do conselheiro… !! »

Sem duvida, não repugna ao ouvido a transposição :
« Que todos desejais o descanso, é certo » ; mas é porque,
affeito ás frequentissimas inversões da linguagem, deixa o
ouvido á sagacidade do espirito o cuidado de repôr lá
dentro na alma as cousas nos seus eixos : « e certo que
todos desejais o descanço
 ».

Pretender, portanto, que uma proposição logicamente
posterior póde servir de sujeito a outra proposição logicamente
anterior, é fazer do effeito a causa, é correr
d’um circulo vicioso, é applicar o motu perpetus á Grammatica,
é recordar a giria daquelle charlatão que, mostrando,
como raridade nunca vista, um cavallo com o rabo
no logar da cabeça, deixava ver um pobre sendeiro preso
pela cauda á grade de uma manjadoura.

Praticamente, apresenta-se sobre isso uma consideração
que tudo resolve. Inimaginável é o caso de um verbo que,
achando-se na primeira ou na segunda pessoa do singular
ou do plural, se denegue á enunciação do seu pronome
sujeito. e, na terceira pessoa do plural, quando o sujeito
occulto não é um pronome, então é necessariamente um
substantivo, que sem grande esforço acóde ao espirito.

Ex. Dizem que primeiro se escreveu em folhas de palma.
(Ant. de Souza de Macedo). — (Os historiadores dizem
que…).

Ora, como é que o verbo impessoal mostrar-se-hia refractario
a esta lei, se della não fosse dispensado por natureza ?
Pois, no trecho discutido, não ha elle nem ella
que sirva de sujeito a é certo ; entretanto não ha ente
nem abstracção, grande ou pequena, que não tenha, num
ou noutro daquelles dous vocabulos, um substituto obrigatorio.

Se, todavia, ainda é cedo para que prevaleça qualquer
doutrina contraria á do verbo substantivo, retractemo-nos
como fez Galilêo ; e, já que a questão não entende, como
então, com o sol e os planetas, e sim tão sómente com
aspirantes a luzeiros sublunares, sejamos de nosso tempo,
e deixemo-nos destas nossas asneiras, que assim é como a
isto chamão discretamente os que andão buzinando em
defesa da rotina.243

Assim resignado, consignamos, sem pôr nem tirar, a
formula salvadora da analyse logica pela theoria do verbo
substantivo, escolhendo neste intuito uma oração tão despida
do pretenções altisonantes como ricamente dotada do
quanto póde contribuir ao realce de tão profícuo methodo
do ensino.

Argumento

Diogenes estava se apromptando para ir ver enforcar um
tratante que desgraçára a muita gente
.

Analyse logica segundo o formulario da
grammatica philosophica

« Diogenes era estante sendo-se apromptante para ser inte
ser vente ser enforcante um tratante que fora desgraçante a
muita gente
. »

Sic itur ad astra.

(Traducção liberrima) : Assim é que chega um homem a
ser astrologo
.

Capitulo I
Considerações geraes ácerca da collocação
das palavras no discurso

309. No uso da palavra, o homem se sente movido
por dous impulsos que, posto não se contrariem, todavia
não actuão parallelamente ; vindo, porém a confundir-se numa
mesma direcção como a recta ou resultante de um angulo
afigurando forças iguaes, elles produzem a dicção perfeita.
Pelo primeiro, o homem fica levado a fallar com clareza ;
pelo segundo, a fallar com agrado. Obedecendo ao primeiro,
não faz senão dar satisfação á sua propria vontade ;
porque quem se determina a fallar, só a isso se determina
por julgar necessaria, util ou ao menos conveniente a communicação
de seus pensamentos. Obedecendo ao segundo,
procura captivar a vontade alheia ; porque, se não falla
sempre para impetrar ou convencer, falla sempre ao menos
com o fito de predispor favoravelmente a quem o ouve.
Da conciliação mais ou menos acertada destas duas preoccupações
244nasce a propriedade do estylo, ao passo que o
valor real de uma obra litteraria só se afere pelo mérito e
a opportunidade de suas revelações.

310. Para occorrer áquelles dous requisitos de clareza
o de euphonia (pois esta é a expressão grammatical caracterisando
o conjuncto harmonico de palavras donde resulta
o agrado na dicção), as linguas possuem aptidões muito
diversas. Sendo encaradas sob um aspecto geral, as linguas
mais litterarias, isto é, mais eupbonicas, póde-se dizer que
são uma ampla faculdade do dispôr os termos nesta ou
naquella ordem ao redor do facto que os domina, não oblitera
a lucidez do pensamento : ora, dentre os idiomas hoje
fallados por povos cultos, nenhum talvez leva nisso vantagem
ao portuguez, porque nenhum se póde atirar a mais
arriscadas evoluções sem comprometter a integridade dos
pensamentos.

As causas de tão notavel privilegio, parece que se
podem reduzir a tres principaes, a ultima das quãos é de
muito a mais importante, sem ser esta, todavia, peculiar
da lingua portugueza :

1.ª as sonoridades terminaes das palavras variaveis ;
2.ª o numero crescido das formas do verbo ; 3.ª a inabalavel
fixidade de collocação das ligações subordinativas. Porém,
antes de ventilar os modos por que se exercem estas diversas
influencias, carece estabelecer porque o são. Pois,
na collocação das palavras dentro da oração, ha sempre
uma posição normal, que é a que requer a clareza ; e frequentemente
outra anormal, que é a que requer a euphonia.
Ao tino artistico, que só se apura na pratica assidua dos
classicos, é que compete escolher entre uma e outra.

311. As palavras regencia e concordancia resumem
todas as leis da syntaxe. Quando a acção de uma palavra
sobre outra não se denuncia pela concordancia, denuncía-se
pela regencia, e vice-versa. O facto só, embora frequentemente
constrangido a dobrar-se á concordancia com o sujeito,
fica, todavia, sobranceiro em muitos casos a esta
imposição, bastando-lhe, para se revelar, que, além de suas
formas muito especiaes, nenhum complexo de palavras
possa sem elle constituir um sentido acceitavel ou recusavel.

312. O sujeito manifesta-se sempre pela concordancia
que impõe ao verbo ; e, por isso, tornando-se a causa efficiente
da forma do verbo, encontra a sua collocação normal
na anteposição ao mesmo verbo.245

Ex. O bem é um ; o mal se divide, e não tem numero.
(P. Ant. Vieira).

Quasi todos querem ensinar com razões ; com exemplos,
poucos ensinão. (P. Ant. Vieira).

Reprehender obras alheias é cousa facil ; fazê-las
sempre custa mais. (Franc. Rodr. Lobo).

Começando pelos maiores corpos politicos, que são os reinos,
qual é a causa de
tantos se terem perdido, de que
apenas se conserva a memoria, e
outros se verem tão arruinados
e enfraquecidos ?
(P. Ant. Vieira).

Entretanto, como se bastasse essa mesma concordancia
do verbo para dar fé do sujeito, seja qual fôr a sua posição,
lá vai elle, por simples deferencia á euphonia, tão
frequentemente posposto como anteposto ao mesmo verbo.
Exemplos :

E’ a luz mais benigna que o sol, porque o sol, não só
allumia, mas abraza ; a luz allumia, e não offende.
Quereis ver a differença da luz ao sol ?começa a sahir e
a crescer o
sol : eis o gesto agradavel do mundo, e a composição
da mesma natureza toda mudada. O
céo accende-se ;
os campos seccão-se ; as flores murchão-se ; as aves
emmudecem
 ; os animaes buscão as covas ; os homens
(buscão), as sombras. e, se deos não cortara a carreira
ao sol com a entreposição da noite
, fervêra e abrazára-se
a
terra, ardêrão as plantas, seccarão-se os rios,
sumírão-
se as fontes, e forão verdadeiros, e não fabulosos
os
incendios de Phaetonte. (P. Ant. Vieira),

A cousa mais facil do mundo é dar conselho a outrem, e
a mais ardua
é tomá-lo para si. (P. Ant. Vieira).

Se buscarmos com verdadeira consideração a causa de
todas as ruinas e males do mundo, acharemos que a principal,
senão a total e a unica
, é não acabarem os homens de
concordar o seu querer com o seu poder… No tempo de Salomão

erão tantos, tão multiplicados e tão excessivos os tributos
com que o miseravel povo sustentava a fama de ser
chamado
seu um tal rei, que a primeira cousa que pedirão
a seu successor Roboão
, foi a suspensão e remedio destas
oppressões
. (P. Ant. Vieira).

Em dous casos, todavia, pede geralmente a natureza
da proposição a posposição do sujeito ao verbo :

1.° Nas proposições directamente interrogativas ou exclamativas.

Ex. Dizei-me, voadores : não vos fez Deos para peixes ?
(P. Ant. Vieira).246

« Como posso eu dar o que não tenho ? » (P. Man. Bernardes).

Oh ! Senhor ! bemdita seja eternamente vossa bondade !
(P. Man. Bernardes).

2.° Nas proposições que, intercaladas n’uma citação,
designão o autor do texto citado.

Ex. « Julga agora, continuou christo, qual destes tres
teve aquelle enfermo por proximo
. » — « Aquelle, disse o doutor,
que o soccorreu. » — « Pois então respondeu christo, vai, e
faze o mesmo
. « (P. J. B. de Castro).

313. Os complementos, quer directos, quer indirectos,
têm por funcção de inteirar o sentido escasso, deficiente de
outra palavra.

Ora inteirar implica necessariamente a idéa de acto
posterior, porquanto, só depois de se ter visto o que faz
alta em qualquer cousa, é que se lhe póde accrescentar o
que falta.

Portanto normalmente collocado fica o complemento,
quer directo, quer indirecto, quando vai posposto á palavra
por elle inteirada.

314. Porém, em uma lingua que, como a portugueza,
não possue, para os seus substantivos e outras especies
concomitantes de palavras, as variações de terminação que,
sob a designação de declinações, assignalão, em outras
linguas, a funcção syntaxica das mesmas palavras junto ao
verbo ou entre si, o complemento directo apresenta-se desvantajosamente
ao lado do indirecto. Com effeito : este
vai por assim dizer indigitado pela preposição que constantemente
o precede, a não ser que, não podendo haver duvida
sobre a existencia da mesma preposição, a sua omissão
se tenha introduzido nos habitos da linguagem (Na córte,
cada dia mudão senhores. (P. Ant. Vieira). — Na córte, em
cada dia…
) ; o complemento directo, porém, nada tem que
formalmente o indigite, além da connexão de sentido que
ao verbo o associa (Deve o homem saber igualmente o mal
e o bem. — P. Ant. Vieira). Todavia, como não serião raros
os casos em que, achando-se no mesmo numero e pessoa
como o sujeito, o complemento directo poderia vir então a
constituir com este um sentido amphibologico por troca
mental de funcção, tornou-se propriedade da lingua portugueza
o converter-se, nesta contingencia, o complemento
directo em indirecto, mediante a introducção da preposição
a, conservando-se assim ao mesmo complemento a sua
funcção mais geral, e obviando-se terminantemente a toda
e qualquer falsa interpretação.247

Ex. Assim fadou Noé a seu neto Cannahan. (P. Ant.
Vieira). — (Não : Assim fadou Noé o seu neto Cannahan).

315. Seja, porém, como for, uma natural e, por assim
dizer, instinctiva providencia induziu os classicos a adoptar
preferivelmente, por amor da clareza, a ordem normal para
os complementos directos, mórmente quando formados de
substantivos ou infinitivos.

Ex. Em Nazareth, e em vida de Joseph, (Christo) grangeou
a sujeição e obediência a um official com o nome de
pai seu, que não era
.

Depois de sua morte, grangeou o succeder-lhe na mesma
officina
, ganhando o pão para sua mãi e para si com o suor
de seu rosto
.

Nas perigrinações de Galiléa e Judéa, grangeou fazê-las
sempre a pé, e muitas vezes descalço, exposto ao sol e ás
chuvas, sem casa propria nem alheia
, podendo invejar, dos
bichos da terra, as
covas, e das aves, o repouso dos ninhos,
sem
ter onde reclinar a cabeça. [Por ellipse : … sem ter
um lugar em que pudesse reclinar a cabeça]. — (P. Ant.
Vieira).

Quizerão, diz a Sagrada Escriptura, as arvores fazer
um rei que as governasse, e forão offerecer o governo á
oliveira, a qual se excusou, dizendo que não
queria deixar
o seu oleo, com que se ungem os homens, e se allumião os
deoses
.

Ouvida a excusa, forão á figueira, e tambem a figueira
não
quiz aceitar, dizendo que os seus figos erão muito doces,
e que não
queria deixar a sua doçura. (P. Ant. Vieira).

Entretanto a transposição dos mesmos complementos
para diante do verbo é licita, se, sem prejudicar á clareza,
vem solicitada por algum motivo de euphonia.

Ex. Amar a quem nos ama, e fazer bem a quem bem
nos faz, é dictame do lume natural que está impresso em
nossa alma
. (P. Man. Bernardes). — (Não :… fazer bem a
quem nos faz bem
…).

Nenhuns serviços paga Sua Majestade hoje com mais
liberal mão que os do Brazil
. (P. Ant. Vieira).

Esta ultima sentença approvou o rei, e esta foi applaudida
de todos com publicas acclamações
. (P. Ant. Vieira).

Trabalhar não sei ; mendigar não posso : agora vejo o
que hei de fazer
. (Parab. evang.).

Esta mesma conclusão inferirão, sobre a lição de todas
as historias do mundo, aquelles dous grandes historiadores que
,
248em sentença de Lipsio, depois de Sallustio e Livio, merecem
os dous seguintes lugares : entre os Latinos, Curcio, e entre os
Hespanhoes, Marianna
. (P. Ant. Vieira).

Equidade, que não é outra cousa que o dictame da razão
natural na mente ou consciencia do bom varão, obrigado a
mitigar lei quando é necessario, deve o juiz
ter diante dos
olhos todas as vezes que condemna ou absolve
. (P. Man. Bernardes).

316. Os complementos directos que constão de pronomes
não possoaes gozão de mais ampla faculdade de
collocação do que os substantivos, pois tanto se encontrão
antepostos como pospostos ao verbo.

Ex. muitos houve que quizerão imitar os raios. (P.
Ant. Vieira).

Houve alguns que, jarretados, sem pés, e cheios de feridas,
bramião como touros
. (Luiz Torres de Lima).

« De verdade vos affirmo que esta pobre viuva lançou
mais
que todos os outros. »’…

Bem disse S. Ambrosio que mais valia um dinheiro tirado
do pouco do que um thesouro tirado do máximo
. (P. Man.
Bernardes).

Parece-vos que tenho dito muito ?

Muito pescão os pescadores do nosso elemento. (P. Ant.
Vieira).

Este natural appetite de quererem os homens sempre mais
do que podem, nem na soberania dos que
podem tudo, se
farta

Diogenes, que tudo via com mais aguda vista que os
outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros
de justiça levavão a enforcar uns ladrões
. (P. Ant. Vieira).

Catão respondeu que ambos lhe descontentavão : um porque
nada tinha ; o outro, porque nada lhe bastava

Taes são os dous capitães móres : N. de N. não tem
nada
 ; N. do N. não lhe basta nada. (P. Ant. Vieira).

Por qualquer lado que o tomeis (o non) sempre sôa e
diz o mesmo. (P. Ant. Vieira).

Porém Deos, que ao cego deu vista, pondo-lhe o lodo nos
olhos
, o mesmo fez agora com Pedro. (P. Man. Bernardes).

317. Os pronomes pessoaes constituindo complementos
directos são : me, te, se, nós, vos, se, — o, a, os, as, — e
o estavel — o. Os que constituem complementos indirectos
249de preposição occulta, sendo esta sempre a, são novamente :
me, te, se, nos, vos, se, e mais : lhe, lhes.

Notaveis por se nunca prestarem a exercer outra
funcção que não seja a de complementos, ainda merecem
os referidos vocabulos especial menção por diversas particularidades
que lhes são exclusivamente proprias.

Tanto podem ir antepostos como pospostos ao verbo
de que dependem, porém só em these geral ; porquanto,
além dos casos adiante especificados como excepções formaes,
ha sempre, no particular, mais ou menos opportunidade
em os antepor ou pospôr ao verbo, conforme o
numero o collocação dos outros termos da mesma proposição.
Mas essa mesma opportunidade de posposição ou
anteposição esquiva-se a todo e qualquer regulamento, de
sorte que é este um dos casos em que a observação assidua
e reflectida do modo de proceder dos classicos se torna a
unica norma attendivel.

Quanto ás particularidades que restringem terminantemente
a collocação facultativa dos mesmos pronomes, ellas
são as seguintes :

1.° Nenhum dos referidos vocabulos póde de per si só
constituir uma proposição elliptica ;

2.° Nenhum póde encetar uma proposição ;

3.° Nenhum se póde pospôr a um verbo no 7.° o 8.°
tempo do indicativo, ou no 1.° e 2.° do condicional ; porquanto,
sendo estes quatro tempos os da figura de dicção
chamada tmesis, a interpolação dos mesmos pronomes dentro
do verbo é uma das exigências da lingua ;

4.° Sendo dous junto a um mesmo verbo, não podem,
quer antepostos, quer pospostos, ir disjunctos ;

5.° Em tal caso, o de complemento indirecto tem a
precedencia sobre o de complemento directo, a não ser
que este seja se ;

6.° Pospostos ao verbo, ligão-se-lhe, e mesmo entre si,
pela risca de união, a não ser que a mesma risca seja eliminada
pela intervenção de um apostropho por apócope.

Ex. Movido de piedade, o arcebispo parou, chamou ao
pobrezinho, e
disse-lhe que se descesse abaixo para a lapa,
e fugisse da chuva, pois não tinha roupa bastante para
a esperar.
« Isso, não, respondeu o pastorinho; que, em deixando
de estar alerta e com olho aberto, vem logo o lobo, e
leva-me
a ovelha ; ou vem a raposa, e mata-me o cordeiro. » — « e,
que vai nisso ? disse o arcebispo
. » — « a mim (Não : me.)
250me vai muito, tornou elle, que tenho pai em casa, que pelejará
commigo
. (Fr. Luiz de Souza).

Só aquelle que por amor de Deos perdoa, é o que mais
se engrandece ; quem, sem reparar na politica, se esquece
da affronta, e, sem se lembrar do aggravo, faz bem a seu
contrario, este é o que
se eternisa nos annaes da fama, e
esculpe seu nome nos bronzes da eternidade. Ouví um caso
succedido em Lisboa na igreja de S. Domingos ; está escripto
na Torre do Tombo
.

Num dia em que nesta igreja se fazia uma celebridade
com empenho, receiosos uns fidalgos de que não achassem lugar,
mandarão pôr na igreja um banco. Succedeu que, vindo um
homem de fóra, ricaço, vendo o banco sem gente
, teve-se por
ditoso em achar tão bom lugar, e com effeito
se assentou
nelle. Vierão os fidalgos para o seu banco ; achárão nelle o
homem, a quem pedirão com muita cortezia (que esta, parece,
vem aos fidalgos por natureza)
se levantasse do banco, pois
o tinhão mandado por naquelle lugar. Respondeu o homem
que não
se havia de levantar. replicárão-lhe [não : lhe
replicárão
] que o fizesse, senão, que o farião levantar. —
« Levantar ! a mim ! [não : me !] respondeu o homem. e, arremettendo
com um dos fidalgos, levantando a mão
, lhe deu
uma bofetada. O fidalgo, com a colera, metteu a mão, e levando
da adaga com impeto tão arrebatado, que não distinguira
nelle a acção de
arrancá-la, matára o homem que lhe
tinha dado
a bofetada, se não fôra que succedeu neste instante
levantar-se o Santissimo Sacramento num altar donde se
estava dizendo
missa, o que visto pelo homem que já se
julgava
mais morto que vivo, lhe disse : « perdoai-me [não :
me perdoai] por amor daquelle Senhor sacramentado l » — O
fidalgo, ouvindo isto, suspendeu o impulso, e
lhe perguntou :
« Por amor de quem m’o pedís ? [não : me-o pedís ? — nom :
o-me pedís ? — nem : o pedís-me ? — nem : me pedí-lo ?] —
For amor daquelle Senhor vos peço que me não mateis. » —
« Ora, por amor delle vos perdoo. » e não tão somente lhe
perdoou
, mas lhe deu um abraço, e o assentou comsigo. e,
para memoria
, se mandou pôr isto na Torre do Tombo ; e, para
credito de quem tal acção fez, escripto deve andar em laminas de
bronze, que é tal honra perdoar uma injuria, que, para brazão
de seus descendentes
, se guarda em escripturas públicas. (Fr.
Ant. das Chagas).

« Comparemos agora esta doutrina com ess’outras razões ;
ponhamo-la [não : a ponhamos] com ellas em balança ; vê-las-hemos
[não : as veremos, — nom : veremo-las] ir por
esses ares, e desapparecer como fantastícas e sophisticas
. » (Fr,
Luiz de Souza).251

« Se, todavia, ainda contra isto ha que dizer, e Vossa
Paternidade entende que tenho perdido o norte neste governo,
não está longe o remedio : Vossa Paternidade, que foi o meio
de
se me lançar [não : de me se lançar, — nem : de se
lançar-me
, — nem : de me lançar-se] esta Braga, que não
trago só nos pês, como
a trazem os captivos, mas tambem
sobre o pescoço e coração, pode, com
m’a fazer tirar, juntamente
atalhar meus erros, e usar commigo de grande misericordia
. »
(Fr. Luiz de Souza).

despede-se [não : se despede] o mundo sem dizer-nos
nada ; consome-se [não : se consome] a carne sem que ninguem
o sinta ; passa-se [não : se passa] a nossa gloria como
se nunca fôra ; e
salteia-nos [não : nos salteia] a morte
sem chamar primeiro á porta
. (P. Ant. Vieira).

Não se fazerem Mercês é faltar com o premio á virtude ;
fazerem-se [não : se fazerem] é semear benefícios para colher
queixas
. (P. Ant. Vieira).

Buscais mil traças e invenções para ajuntar o alheio ao
vosso, e essas são as que, em lugar de
vo-lo accrescentar,
vo-lo roem
e vo-lo desbaratão. E’ o alheio pontualmente
como o vomitorio
. receita-vos o medico um vomitorio, e, que
vos acontece depois que o tomais ? lançai-lo, a elle, e
tudo o mais que tinheis dentro. Assim é o alheio
. guardai-vos
de o metter no estomago, porque, primeiramente, não
vo-lo ha de lograr, e ha-vos de puxar, e levar comsigo o
mais que tiverdes nelle
(P. Ant. Vieira).

A roça, havião-vo-la de embargar para os mantimentos
das minas ; a casa, havião-
vo-la de tomar de aposentadoria
para os officiaes das minas
. (P. Ant. Vieira).

O voador, porque quiz ser borboleta das ondas, vierão-se-lhe
a queimar as azas. (P. Ant. Vieira).

318. Todo o complemento indirecto é caracterisado
pela regencia de uma preposição expressa, occulta ou implicita.
As palavras assim regidas são : um substantivo,
um pronome, um infinitivo, ou mesmo um adverbio em algumas
locuções adverbiaes.

Quanto ás preposições que, por antecipação a uma
conjuncção, com ella formão uma locução conjunctiva (a
que, com que, de que, em que, para que…
), embora suscitadas
por uma palavra anterior que dellas não prescinde
para fazer constar a sua relação, não devem ser tidas em
analyse como exercendo uma regencia, visto não apresentarem,
em combinação com a mesma conjuncção, tão marcada
plenitude de significação como a que se constitue
pela anteposição da preposição a um substantivo, pronome,
252infinitivo ou adverbio (a pé, com alguem, de fallar, em
fallando, para sempre
).

319. Por esta indeclinavel assistencia de uma preposição
é assim o complemento indirecto, entre os termos, um
dos mais claramente determinados. A consequencia que
dahi decorre, é que lhe cabe, em these geral, ampla faculdade
de transposição.

Ex. Quasi todos querem ensinar com razões ; com
exemplos
, poucos ensinão. (P. Ant. Vieira). — (Normalmente :
poucos ensinão com exemplos).

Todavia longe estão os prosadores de usar desta faculdade
com o mesmo desembaraço com que della usão os
poetas ; porque o que se tolera nestes como expediente justificado
pelas difficuldades da metrificação, estranhar-se-hia
áquelles como requinte incompativel com a gravidade das
composições litterarias que pretendem captivar antes pela
lição do que pela dicção. E’ esta novamente uma questão
de gosto, para a qual muito convém pedir consulta aos
classicos. Algumas exemplificações em que prevalece, já a
collocação directa, já a collocação transposta dos mesmos
complementos, servirão, não de preceitos, que o caso não
os admitte, o sim de mera indicação sobre o processo a
seguir em tal estudo de estylistica, para affazer o ouvido
ás boas normas.

Collocação normal :

« Tudo é vaidade, excepto amar e servir a Deos. Ser
amado
de deos é a maior das felicidades. » (P. Ant.
Vieira). — (Colloc. anormal : excepto amar e servir a
Deos, tudo é vaidade
. de deos ser amado é das felicidades
a maior).

« O primeiro bem do mundo que o homem ha de procurar,
é o bom nome
. » (P. Ant. Vieira). — (Colloc. anormal :
do mundo o primeiro bem que o homem ha de procurar, é o
bom nome)
.

Collocação anormal :

« Só deste nome temos a propriedade ; de todos os mais
temos o uso. » (P. Ant. Vieira). — (Colloc. normal : Temos
a propriedade deste nome ; temos o uso de todos os
mais
).

Collocação normal :

« O maior mal do homem é não se conhecer a si mesmo. »
(P. Ant. Vieira). — (Colloc. anormal : Do homem o maior
mal é
a si mesmo não se conhecer),253

Collocação anormal :

« Tarde procurará emendar-se quem se não conhece. »
(P. Ant. Vieira). — (Colloc. normal : Procurará tarde emendar-se
quem se não conhece)
.

Collocação normal :

« Não ha homem sem coração, nem coração sem desejos. »
(P. Ant. Vieira). — (Colloc. anormal : sem coração
não ha homem, nem sem desejos coração).

Collocação anormal :

« O homem, por lhe parecer que um só bem o não
póde fazer feliz, busca muitos
. » (P. Ant. Vieira). — (Colloc.
normal : O homem busca muitos bens, por lhe parecer que
um só o não póde fazer feliz)
.

320. Todavia os adverbios de quantidade que, por
actuarem sobre um adjectivo, participio, ou outro adverbio,
lhe conferem força de comparativo ou de superlativo, nunca
prescindem da condição ae ir-lhe antepostos, como para
obstarem, por um previo aviso, a que escape por descuido
a modificação que nas mesmas palavras produzem.

Ex. Por isso em algumas partes deixámos correr o estylo
mais viçoso, e menos severo. (Fr. Man. Consciencia). —
(V. os exemplos dos §§ 182 e 184).

321. Por motivo analogo vão os vocabulos não e nem,
quando adverbios, sempre antepostos á palavra em que
actúão.

Ex. « O’ voador, se vos não conheceis, olhai para as
vossas espinhas e para as vossas escamas, e conhecereis que

não sois ave, senão peixe, e ainda, entre os peixes, não dos
melhores. — não contente
com ser peixe, quizeste ser ave;
 ;
e já não és ave nem peixe ; nem voar poderás , nem
nadar (poderás). » (P. Ant. Vieira).

« Mostre-me alguem, na vida destes Padres ou em seus
escriptos, que posso eu, sendo mero dispenseiro, e
não dono
do patrimonio de Christo (que é a renda ecclesiastica), competir,
á conta della, com os principes seculares em pompa e
fausto !
 » (Fr. Luiz de Souza).

Nas mesmas condições, porém, vai o vocabulo sim,
por ser simplesmente confirmativo, posposto á palavra em
que actúa.

Ex. Parece-lhes, aos moços, intoleravel a carga do matrimonio.
e’ sim pesadissima para os que a não sabem levar,
(D. Franc. Man. de Mello),254

322. Entrando um complemento directo posposto ao
verbo, em competição de lugar com um indirecto do mesmo
verbo, não ha outro direito de precedencia de um sobre o
outro, senão o que determina a euphonia, a qual geralmente
antepõe o mais breve ao mais comprido em syllabas,
incluindo-se nessa conta os annexos de cada complemento.

Ex. « Tu, David, continua Saul, déste-me bem por mal,
sendo que eu sempre te dei mal por bem. » (P. Ant. Vieira).
— (Não : … por mal bem... por bem mal…).

Lançai os olhos por todo o mundo (não : por todo o
mundo os olhos), e vereis que todo elle vem a resolver-se em
buscar
pão para a bocca (não : para a bocca pão). — (P.
Ant. Vieira).

Se buscarmos, com verdadeira consideração, a causa
de todas as ruinas e males do mundo
(não : a causa de
todas as ruinas e males do mundo com verdadeira consideração),
acharemos que, não só a principal, senão a total e a
unica é não acabarem os homens de concordar
o seu querer
com
o seu poder (não : com o seu poder o seu querer). — (P.
Ant. Vieira).

Se alguem deseja alguns dictames para escolher e adquirir
amigos
(não : para escolher e adquirir amigos alguns
dictames), póde arrimar-se aos seguintes
. (P. Man. Bernardes).

323. Entrando dous ou mais complementos indirectos
de verbo na mesma competição, procura-se conciliar, na
sua coordenação, as mesmas leis da euphonia com a maior
lucidez de expressão.

Ex. Navegava Alexandre em uma poderosa armada no
mar erythrêo para conquistar a india
. (P. Ant. Vieira).
— (Navegava em uma armada, — navegava no mar Erythrêo,
— navegava a.conquistar a India)
.

324. Sendo o predicado a enunciação de uma attribuição
do sujeito mediante um verbo de estado, claro é
que vai normalmente collocado quando sabe posposto ao
verbo que o suscita.

Ex. Se os olhos vêm com amor, o corvo é branco ; se
com odio, o cysne
é negro ; se com amor, o demonio é formoso ;
se com odio, o anjo é feio ; se com amor, o pygmeo é
gigante
 ; se com odio, o gigante é pygmeo. (P. Ant. Vieira).

A aurora é o riso do céo, a alegria dos campos, a
respiração das flores, a harmonia dos ares, a vida e alento
do mundo. (P. Ant. Vieira).255

Toda a nobreza e excéllenda do homem consiste no livre
alvedrío ; e o servir, se não
é perder o alvedrío é captivá-lo.
(P. Ant. Vieira).

325. Porém tão intima é a relação de sentido que se
crêa entre o predicado e o sujeito, que, ainda quando ella
deixa de manifestar-se pela concordancia, mal se póde originar
da collocação anormal do mesmo predicado equivoco
ou obscuridade. Amplissima é, portanto, a sua faculdade
de transposição ; e della se aproveitão largamente os classicos
para cortar a monotonia que acarretára a constante
reproducção de ser, do todos os verbos de estado, o mais
usado, se não fosse licito rodeá-lo das inversões mais variadas.

Mui judicioso é o apólogo que se conta das cotovias que
tinhão seus ninhos entre as searas
. (P. Man. sernardos).

Grande zelador do segredo foi Demosthenes. (Diogo do
Couto).

E’ a luz mais benigna que o sol. (P. Ant. Vieira).

Maior gloria é emendar que castigar. (P. Ant. Vieira).

Taes são os bens da fortuna, que carecer delles é miseria,
e possuí-los, perigo
. (P. Ant. Vieira).

Cousa É mui commum aos nescios tratar de livros. (P.
Ant. Vieira).

As primeiras creaturas que com suas vozes nos injurião
e envergonhão, entre aquellas que o mesmo Senhor creou, mas
não remiu
, são as aves. (P. Ant. Vieira).

Esta é a historia ou fabula engenhosamente fingida por
Homero
. (P. Ant. Vieira).

Era o autor deste invento, de profissão, religioso. (P.
Ant. Vieira).

326. Apposição é toda a palavra variavel que, não
sendo facto syntaxico, prende-se de per si mesma, pela
concordancia possivel, a um substantivo, pronome ou infinitivo,
para precisar-lhe o sentido, e, como simples annexo,
seguir-lhe a sorte.

Torna-se notavel o seguinte exemplo por encerrar dous
substantivos e dous pronomes igualmente desamparados de
toda e qualquer apposição : Quasi todos querem ensinar com
razões ; com exemplos, poucos ensinão. — No seguinte,
porém, tanto o substantivo homem, como o pronome si, apparecem
256amparados, cada um, por sua respectiva apposição :
Conheça o homem o que deseja, e conheça-se a si mesmo. (P.
Ant. Vieira). — Igual observação cabe aos infinitivos dos
dous seguintes exemplos : Pois como ! premiar a todos sem
dar nada a ninguem ! — Sim ! o dar e o premiar são cousas
muito differentes
. (P. Ant. Vieira).

327. O simples enunciado da funcção exercida pelas
apposições implica, como collocação normal, a conveniencia
de sua juncção á palavra amparada. Todavia, conforme a
classe de palavras a que pertencem, as mesmas apposições,
já têm uma collocação determinada, já a têm facultativa.

328. Constando de um artigo, a apposição vai, não
só anteposta á palavra amparada, como ainda anteposta ás
mais apposições que com ella entrão em competição.

Ex. O bem é um ; o mal se devide, e não tem numero.
(P. Ant. Vieira).

O maior mal do homem é não se conhecer a si proprio.
(P. Ant. Vieira),

Veiu depois uma pobrezinha viuva, e lançou dous ceitís
de cobre
. (P. Man. Bernardes).

Ha uma unica excepção a esta regra, e é em relação
a todo, que, por ser mais explicito do que o artigo definito,
vai-lhe necessariamente anteposto.

Ex. Nos casamentos, todo o erro está em cobiçar a fazenda
que está na bolsa, e não examinar a pessoa que se traz
para casa
. (P. Ant. Vieira).

O primeiro bem do mundo que o homem ha de procurar,
é o bom nome ; só deste nome temos a propriedade ; de
todos
os
mais temos o uso. (P. Ant. Vieira).

Não se entende com isto que todo vá necessariamente
anteposto á palavra por elle amparada ; pois, como sentido
de inteiro, traspassa-se em seguida á palavra com a qual
se prende, mas então nada mais tem que destrinçar com o
artigo.

Ex. Põe-se da parte do odio e da vingança o mundo
todo. (P. Ant. Vieira).

329. Constando de adjectivos determinativos, as apposições,
não só se antepõem ás palavras amparadas, como
ainda aos qualificativos, quer adjectivos, quer participios,
que com ellas entrão em competição. (V. § 144). Ha, todavia,
algumas excepções, por alto das quaes não convem
passar257

1.° Dentre os numeraes, só os cardeaes vão necessariamente
antepostos ao substantivo amparado.

Se houvesse dous homens de consciencia, e outros que lhes
succedessem, não haveria inconveniente em estar o governo dividido
.
(P. Ant. Vieira).

Vinte e dous pescadores destes se acharão acaso a um
sermão de S. Antonio
. (P. Ant. Vieira).

Porém, junto a pronomes pessoaes, o contrario é que
se dá.

Ex. Assentemos nós tres no que se tem de fazer.

Ainda pospõem-se os cardeaes ao substantivo quando
se empregão como substitutivos dos ordinaes.

Ex. Não posso, comtudo, calar que, no mesmo dia seis
(sexto) de Fevereiro, em que entrei nos oitenta e sete annos,
foi tão critico para a minha saude este septenario, que apenas
por mão alheia me permitte dictar estas regras
. (P. Ant.
Vieira).

No capitulo trinta e dous do Deuteronomio promette Deos
assistir poderosamente na guerra aos que o servirem
. (P. Ant.
Vieira). — (No capitulo trigesimo segundo… ou : No trigesimo
segundo capitulo
…).

2.° Sendo os adjectivos demonstrativos os mais aparentados
de todos com o artigo definito, dá-se tambem com
elles o caso de só se deixarem preceder de todo.

Ex. Vai um soldado servir na guerra; e leva tres cousas:
 :
leva vontade, leva animo, leva alegria. Torna da guerra a
requerer, e
todas estas tres cousas se lhe trocão. (P. Ant.
Vieira).

Todavia, ao contrario do que se dá com o mesmo artigo,
uma circumstancia ha em que o demonstrativo consente
a ir posposto ao substantivo amparado ; e vem a ser
quando, fazendo o mesmo substantivo officio de apposição
por conta propria, obriga ao demonstrativo a que se desloque,
para por elle não ficar estorvado na sua funcção. O
P. Ant. Vieira disse : « O ver-se louvado era ver-se accusado;
 ;
o ver suas grandezas referidas era ver as suas culpas provadas,
delictos sem perdão contra as leis da inveja. » Ahi é
delictos mera apposição de culpas, com que concorda
aliás em numero, já que lhe é vedada a concordancia em
genero. Porém, se quizera o eminente classico accrescentar,
e conformidade com a indole da lingua, um adjectivo demonstrativo
a delictos, tivera de lh’o pospôr (.,. delictos
esses
sem perdão… — não : esses delictos sem perdão…).258

3.° Os adjectivos possessivos encontrão-se tanto pospostos
como antepostos á palavra amparada ; e, bem que
não haja geralmente perfeita identidade na adopção de uma
ou outra collocação, não é todavia possivel atinar com a
razão logica que torna a anteposição preferivel em um caso,
e a posposição preferivel em outro.

Ex. Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes
então do respeito e decoro de
vossa mãi, como consentis
agora que se lhe fação tantos desacatos ?...
Bastava então
qualquer dos outros desacatos ás cousas sagradas, para uma
severíssima
demonstração vossa, ainda milagrosa. Se, a Joroboão,
porque levantou a mão para um propheta, se lhe seccou
logo o braço milagrosamente, como, aos herejes, depois de se
atreverem a affrontar
os vossos santos, lhes ficão ainda
braços para outros delictos l Se, a Balthasar, por beber pelos
vasos do templo em que não se consagrava
o vosso sangue,
o privastes da vida e do reino, porque vivem os herejes que
convertem
vossos calices a usos profanos ? » (P. Ant.
Vieira).

Fallando el rei Antigono com o principe seu filho,… lhe
disse : Ainda não sabias
, filho meu, que o nosso reinar
não é outra cousa senão uma servidão honrada ? (P. Ant.
Vieira).

Em Nazareth, e em vida de Joseph, grangeou (Christo) a
sujeição e obediência a um official com o nome de
pai seu,
que não era. (P. Ant. Vieira).

4.° São bastante numerosas as observações a que dá
lugar a collocação dos adjectivos indefinitos.

Algum varia de accepção conforme anda posposto ou
anteposto ao substantivo. (V. § 163).

Bastante encontra-se anteposto e posposto ao substantivo.

Ex. Quem tem bastante dinheiro, tem bastantes
amigos
, que com elle contão para servir-lhes de caução bastante.

Certo, como adjectivo indefinito, vai necessariamente
anteposto ao substantivo. (V. § 165).

Demais, mais e menos estão no mesmo caso. (V. §§
166 e 167).

Mesmo, outro e só, como adjectivos indefinitos, costumão
andar antepostos aos substantivos amparados ; porém,
junto a pronomes, só lhes andão pospostos.

Ex. Finalmente os mesmos vicios nossos nos dizem o que
ella é (a alma)
. — (P. Ant. Vieira).259

No que reparo, é que o Senhor convocasse a seus discipulos
para que
nisso mesmo reparassem, e levassem doutrina.
(P. Man. Bernardes).

Já São outras cidades, outras ruas, outra linguagem,
outros trajes, outras leis, outros homens
 ; tudo passa.
(P. Man. Bernardes).

Comei vós outros, pobres estrangeiros, e não vos desconsoleis
por vos verdes dessa maneira
. (Fernão Mendes Pinto).

O homem, por lhe parecer que um só bem o não póde
fazer feliz, busca muitos
. (P. Ant. Vieira).

Esta doutrina do Senhor, por sua pureza, alteza, excellencia
e majestade, merecia por
si só ser ouvida e abraçada
por todo o mundo
. (João Franco Barreto).

muito, nenhum, pouco, qualquer, tal e todo, posto
que mais geralmente antepostos á palavra amparada, encontrão-se-lhe
tambem pospostos.

Ex. O coração da mulher é mui delicado : quer por pouco
bem muito premio
, e por muito mal nenhum castigo. (P.
Ant. Vieira).

Na corte ha malsins muitos, amigos poucos. (P. Ant.
Vieira). Não se poderia accrescentar tambem : desinteresse
nenhum ?

Por desprezivel que seja qualquer pessoa, póde ser mui
util ou mui nociva a
qualquer outra de alto estado e dignidade.
(P. Man. Bernardes).

Não é homem qualquer quem isso fez.

As serêas, com a suavidade de suas vozes, de tal modo
encantavão os navegantes, que voluntariamente se lançavão e
precipitavão ás ondas, e se afogavão no mar em que vivião
.
(P. Ant. Vieira).

E, pois que tinha presentes dous amigos que estimavão e
tinhão sua honra por propria, assentassem todos tres pôr uma
forma e
ordem tal em sua vida e governo, que, sem chegar
a demasias, bastasse para lhe grangear reverencia e autoridade
e estimação no povo
. (Fr. Luiz de Souza).

« Confesso que tomára ver esta linguagem em toda outra
pessoa
antes que na bocca dos que tanto me tocão. » (Fr. Luiz
de Souza).

Finalmente a terra (de Hespanha), as minas e os moradores
ficárão todos sujeitos ao jugo e dominio estranho. (P.
Ant. Vieira).

330. As apposições constando de qualificativos, quer
260adjectivos, quer participios variaveis, dão theoricamente
lugar a quatro hypotheses, cuja applicação, na pratica, só
pode ser determinada pelo uso.

1.° Uns qualificativos andão antepostos á palavra amparada.

Ex. Um Bello homem, de bons costumes.

2.° Outros andão-lhe pospostos.

Ex. Uma mesa redonda, de côr amarella.

3.° Outros acarretão mudanças de accepção conforme
andão pospostos ou antepostos.

Ex. Uma pobre viuva é aquella que é digna de compaixão.
Uma
viuva pobre é aquella que vive na indigencia.

4.° Outros, emfim (e estes constituem a grande maioria)
tanto se deixão antepor como pospôr á palavra amparada,
sem outro resguardo que o da euphonia.

Ex. Volta os olhos para esses amenos prados e vargens
fertilissimas
. (P. Man. Bernardes).

331. Quando, por uma apparente contradicção com
estas regras, o qualificativo (geralmente participio variavel)
se encontra anteposto ao artigo ou adjectivo determinativo
do substantivo ao qual se refere (… tosquiados os
cabellos, cavados os olhos…), o caso não é de apposição, o
sim de predicado occulto, por elisão do verbo do estado.
Porém tal erro de apreciação é insignificante na pratica,
visto se regerem as apposições e os predicados pelas mesmas
leis de concordancia.

O seguinte exemplo, em que se verifica a referida hypothese,
merece, por outra parte, ser estudado como demonstração
da frequencia das apposições no discurso, e
bem assim das diversas collocaçõos a que são adstrictas
conforme constão de artigos, adjectivos determinativos, adjectivos
qualificativos, ou participios variaveis.

Vedes aquelle homem robusto e agigantado que, com
aspecto ferozmente
triste, tosquiados os cabellos, cavados os
olhos, e correndo sangue ( — os cabellos sendo-lhe tosquiados,
os olhos
sendo-lhe cavados, e correndo sangue), atado
dentro em um carcere a duas fortes cadeias, anda moendo
numa atafôna ? Pois aquelle é Sansão. Vedes aquelle mancebo
macilento e pensativo que, rôto e quasi despido, com
uma corneta pendente do hombro, arrimado sobre um cajado,
está guardando
um rebanho vil do gado mais asqueroso ?
Pois aquelle é o prodigo. Quem haverá que se não
261admire de uma tal volta da fortuna em dous sujeitos tão
notaveis : um tão valente, outro tão altivo ! (P. Ant.
Vieira).

332. Como apposições, os substantivos encontrão-se,
já antepostos, já pospostos á palavra amparada, porém com
um sentido mais determinativo no primeiro do que no segundo
caso, como aliás o attesta a pontuação, que faz
intervir a virgula na ultima hypothese, mas não na primeira.

Ex. a el rei dario disse Cyloson que pedia antes para
a sua
patria, samos, total exempção de tributos. (P. Man.
Bernardes).

Se, por ventura, na colligação de dous substantivos
dos quaes é um a apposição do outro, se der o caso de alguma
hesitação sobre a sua determinação respectiva, basta,
para resolver a duvida, attender a esta consideração, que
a apposição é sempre mais ou menos dispensavel, ao passo
que a palavra amparada não o é, por exercer uma funcção
essencial.

Ex. Fallava el rei Antigono com o principe seu filho.
(P. Ant. Vieira). — E’ ahi rei apposição de Antigono, ou
Antigono apposição de rei ?principe apposição de filho,
ou filho apposição de principe ?

Procedendo-se, por experimentação, a uma successiva
eliminação de um e outro dos referidos substantivos, chega-se
facilmente á convicção do que o theor que mais fielmente
resguarda a integridade do pensamento é : Fallava Antigono
com seu filho (Fallava el rei com o principe ??);
portanto
rei é apposição de Antigono, como principe o é de
filho.

No seguinte exemplo, porém, as apposições de substantivos
vêm todas pospostas ás palavras amparadas.

A formosura é um bem frágil... Seja exemplo desta lastimosa
fragilidade Helena, aquella famosa e formosa
grega,
filha
de Tindaro, rei de Laconia, por cujo roubo foi destruida
Troya
. (P. Ant. Vieira).

Vê-se mais, por este mesmo excerpto, que as apposições
do substantivos não ficão por isso inhibidas de se acercar
ao mesmo tempo de apposições de artigos, adjectivos ou
participios variaveis (aquella famosa e formosa grega).

Ex. Lucullo, cidadão romano, homem riquissimo, mas
muito
vanglorioso, gastava em cada ceia, com os seus convidados,
cinco mil philippêos
. (P. Man. Bernardes).262

333. Ao contrario dos substantivos, os pronomes,
quando apposições, apresentão-se necessariamente pospostos
â palavra amparada, porque della têm de tirar o seu genero
e numero.

Ex. Ao grande Alexandre, já vencedor de Dario, caminhando
para Persepolis, sahirão ao encontro quasi oitocentos
homens
, os mais delles velhos, aos quaes os antepassados reis
da Persia tinhão torpemente mutilado os narizes e labios
. (P.
Man. Bernardes).

Todos os filhos de Adão padecemos nossas mutilações e
feialdades
, uns na honra, outros na saude, outros na fazenda,
outros na sciencia, outros na limpeza do sangue,
outros em outras cousas. Accommodemo-nos a viver juntos,
porque ninguem tem que se rir de seu proximo
. (P. Man. Bernardes).

Costuma fazer excepção o vocabulo tudo quando, assumindo
uma feição adjectival junto a um pronome estavel,
vem a constituir assim uma verdadeira apposição, o que
fica comprovado pela eliminação a que se presta sem estorvo
maior do pensamento.

Ex. tudo isto gozava Salomão em summa paz. (P.Ant.
Vieira). — (Isto gosava Salomão…).

tudo o que nasce na terra, o sol ou a chuva o cria. (P.
Ant. Vieira). — (O que nasce na terra…).

tudo quanto ha na capitania do Pará, tirando as terras,
não vale dez mil cruzados
. (P. Ant. Vieira). — (Quanto ha
na capitania do Pará
,…).

334. Emfim os mesmos infinitivos condescendem em
formar apposições.

Ex. Concluirei finalmente por dizer que, nem se devem
desprezar os aduladores, nem seguir cegamente o que elles
dizem. Eis-aqui o meio
termo : — ouvir os aduladores, mas
não se
mover por elles. (P. Ant. Vieira). — Pois ahi são
ouvir e mover meros annexos do substantivo termo.

E realmente affirmo que, de cousas que vi, nesta cidade
de Odiá sómente, pudera ainda contar muitas mais particularidades
do que contei de todo o reino ; mas deixo de o fazer
por não causar aos que isto lerem, a magoa que eu tenho
 :
vêr o muito que, por nossos peccados, nestas partes perdêmos,
e o muito que puderamos ganhar
. (Fernão Mondes Pinto). —
Ahi é o infinitivo ver apposição do magoa.

Porém é quasi oxclusivamente sob a forma gerundial
que o infinitivo consente em constituir apposições ; e estas,
263tanto se encontrão antepostas como pospostas á palavra
amparada.

Querendo david oppôr-se ao poder de Absalão, tratou
sobretudo de lhe metter um confidente no seu conselho, porque
entendeu que maior guerra fazia a Absalão com um homem
que lhe rompesse os segredos, que muitos mil homens que lhe
rompessem os seus exercitos
. (P. Ant. Vieira).

El rei antigono, vendo que seu filho se ensoberbecia, lhe
disse
 : « Não sabes, filho, que o nosso reino, e o reinar não é
outra cousa que um captiveiro honrado ?
 » (P. Ant. Vieira).

Carece, todavia, estar advertido de que não é essa a
unica funcção dos gerundios; pois, como opportunamente
virá expendido, tambem lhes cabe a de complementos indirectos.
O que por emquanto convem ter por estabelecido,
é que são apposições com uma referencia predominante a
um substantivo ou pronome, e complementos indirectos com
uma referencia predominante a um verbo, ao qual vão geralmente
pospostos. Ambas as hypotheses se verificão nos
tres seguintes exemplos :

Pelo que S. joão, conhecendo esta peçonha, nos admoesta
dizendo
 : « Irmãos, não amemos de palavras e de
mostras, senão com verdadeiro coração e obras
. » (D. Fr. Bartholomeu
dos Martyres).

Vendo o philosopho demetrio a um mancebo diligente e
industrioso, e inimigo do ocio
, disse-lhe approvando o seu espirito :
« Continuai, mancebo ; e, á noite de vossa velhice,
achareis a ceia bem feita, e a mesa posta
. » (P. Man. Bernardes).

A rosa, desatando doverde sua rubiconda pompa,
amanhece dizendo-me ; « Oh ! como nosso Deos é suave ! »
(P. Man. Bernardes).

Ainda é apposição o gerundio do seguinte exemplo,
por sua referencia a um pronome :

Ouvindo este recado, uma das cotovias foi pelos ares
avisar as outras que mudassem de sitio
. (P. Man. Bernardes).

Ha, porém, gerundios que não exercem, nem uma, nem
outra destas duas funcções, e são os que, consociados com
estar, ou um equivalente do mesmo auxiliar, formão, dentro
os verbos combinados, o chamado verbo gerundial. Nestes
é vedada qualquer ingerencia analytica tendente a considerá-los
separadamente do seu auxiliar, visto como, com
elle, apenas matizão delicadamente a idéa indivisivel do
facto donde procedem, mas não a desdobrão ; o que se
deixa aliás averiguar pela propriedade com que revertem
á sua forma elementar sem detrimento do sentido, embora
com notavel enfraquecimento de alcance ideologico.264

Ex. Entre todas as naturezas insensiveis, as flores parece
que, com mais expressos acenos
, estão forcejando [forcejão]
por remedar a formosura de seu Autor
. (P. Man. Bernardes).

« Pois, homem, ou animal (que te não quero chamar com
o nome proprio, por não parecer appellativo), se conheces a indecencia,
a desautoridade e a affronta do teu principe ; se

estás engulindo as lagrimas, e afogando os gemidos [se engoles
as lagrimas, e afogas os gemidos’], porque ao menos não
emmudeces e calas ? para que veja Nero na tua tristeza a tua
dôr, e leia no teu silencio o teu voto. Mas,
no mesmo tempo
em que
estás chorando [choras] o que condemnas, has de
louvar o que choras ! Sim ! que taes são os aduladores de palacio !
 »
(P. Ant. Vieira).

Vai o navio navegando, e o marinheiro dormindo [o
navio navega, e o marinheiro dorme] ; e o voador toca na vela
ou na corda, e cahe palpitando
. (P. Ant. Vieira).

Este ultimo exemplo apresenta, por uma feliz reunião
do elementos diversos, o ensejo do uma comparação summamente
azada para a dilucidação do caso vertente. Que
o verbo ir em vai navegando e (vai) dormindo é mero auxiliar
supplementar (V. § 85), demonstra-se pelo nenhum
estorvo que da sua substituição por estar recebe o sentido :
Está o navio navegando, e o marinheiro dormindo
Mas, que é, em cahe palpitando, o caso de todo diverso
torna-se igualmente intuitivo pela impossibilidade de substituir-se
ahi cahir por estar sem quebra essencial de sentido;
pois são dous os actos attribuidos ao voador : o do
cahir, e o de palpitar. Constitue, portanto, ahi palpitando
um termo em separado, e este termo é o de complemento
indirecto.

335. Tão pouco concludente em preceitos é esta resenha
geral das evoluções a que se prestão as palavras
conforme as funcções por ellas exercidas, que nenhum
apreço mereceria, se não chamasse a attenção para aquella
divisa onde pára e se esquiva o rigorismo grammatical,
para deixar o campo á arte, sequiosa de movimento e variedade.
Ora, podendo os mesmos processos de analyse que
servem a determinar as operações syntaxicas, ser aproveitadas
para a observação aos artificios do estylo nas obras
dos classicos, necessario era assentar em principios fixos o
que se entende por construcção normal (ou ordem directa), e
construcção anormal (ou ordem invertida), para que destas
duas expressões technicas, em que se resumem as leis de
collocação, se não fizesse uma interpretação arbitraria, e
portanto uma applicação mal segura.265

336. Agora, se se admittir, como proposição inconcussa
por sua evidencia, a allegação anteriormente emittida,
de que uma lingua é tanto mais apta a todos os commettimentos
litterarios quanto menos peada fica na disposição
de seus termos syntaxicos, um simples retrospecto synthetico
sobre os pontos successivamente discutidos deve gerar
a convicção, mórmente em quem estudou outros idiomas,
que é prodigiosa a elasticidade, a ductilidade da lingua
portugueza, e que talvez nenhuma dentre as linguas modernas
a ella se avantaja em fecundidade de recursos, independentemente
da riqueza do vocabulario ; nenhuma é
mais eminentemente litteraria.

Tão incontestavel superioridade solicita naturalmente a
reflexão sobre as causas mais ou menos provaveis que a
determinão ; e, destas causas a primeira que occorre, é a
precisão terminativa dos vocabulos portuguezes
. Com effeito,
uma lingua dotada, como a portugueza, da propriedade do
tornar salientes, não só na escripta, senão tambem na falla,
as relações reciprocas das palavras por desinencias francamente
accentuadas, pouca necessidade tem, para segurar a
associação natural das idéas, de se sujeitar ao rigor da
collocação normal, e de resistir systematicamente ao impulso
das paixões, que as desordenão na emissão : ella se
póde fiar, para a reconstituição mental das proposições
anômalas, das manifestações tão caracteristicas da concordancia,
valiosa resalva da lucidez da dicção. Não será
talvez pouco demonstrativa a tal respeito a citação das
duas seguintes magnificas hypothyposis do P. Ant. Vieira,
onde uma profusão de actos formando extenso panorama,
com tanta certeza e rapidez se deslisão por entre transposições
e ellipses, que o espirito nunca tropeça á procura
do pensamento, e chega ao fim dos trechos, maravilhado
de tão explendida visão, em que nem um ponto obscuro
faz mancha :

« A maior ostentação de grandeza e majestade que se
viu neste mundo, e uma das tres que S. Agostinho desejára
ver, foi a pompa e magnificencia dos triumphos romanos.
Entravão por uma das portas da cidade, naquelle
tempo vastissima, encaminhados longamente ao Capitolio ;
precedião os soldados vencedores com acclamações, representadas
ao natural as cidades vencidas, as montanhas
inaccessiveis escaladas, os rios caudalosos vadeados com
pontos, as fortalezas e armas dos inimigos, e as machinas
com que forão expugnadas ; em grande numero do carros,
os despojos o riquezas, e todo o raro o admiravel das
regiões novamente sujeitas ; depois do tudo isto, a multidão
dos captivos, e talvez os mesmos reis manietados ;
266e, por fim, em carroça de ouro e pedraria, tirada por
elephantes, tigres ou leões domados, o famoso triumphador,
ouvindo a espaços aquelle glorioso e temoroso
pregão : « Memento te esse mortalem ! Lembra-te que és
mortal ! » »

« Eu nunca fui ao Potossi, nem vi minas ; porém, nos
livros que descrevem o que nellas passa, não só causa
espanto, mas horror ler a fabrica e as machinas, os artificios,
a força, o trabalho e os perigos com que as montanhas
se cavão, as bêtas se seguem, e, perdidas, se
tornão a buscar ; os encontros de pedernaes impenetraveis,
ou de aguas subterraneas que rebentão das penhas,
as quaes, ou se hão de esgotar com bombas, ou abrir-lhes
novo caminho, furando por outra parte os mesmos montes ;
o estrondo dos maços, das cunhas, das alavancas, dos
outros instrumentos de ferro, algum dos quaes tem cento
e cincoenta libras de peso, com que se batem, cortão e
arrancão as pedras, ou se precipitão, com maior perigo,
do alto ; e tudo isto naquellas profundissimas concavidades
ou infernos, onde nunca entrou raio do sol, allumiados
malignamente aquelles infelizes cyclopes só com
a luz escassa e contrafeita de alguns fogos artificiaes,
cujo halito, fumo e vapor ardente lhes toma a respiração,
o muitas vezes os afoga. »

337. A segunda causa que não menos influe sobre a
indole essencialmente voluvel da construcção syntaxica
portugueza, encontra-se no verbo.

As attribuições do verbo são estrictamente duas : enunciar
o facto syntaxico, e fazer todas as operações de um
mero substantivo. A primeira destas funcções, preenche-a
elle nos quatro primeiros modos ; a segunda, no quinto.
Como facto, não póde ser substituido por outra qualquer
especie de palavras ; com a feição substantival, isto é, no
infinitivo, porta-se em tudo como um substantivo, mas sem
se confundir com elle ; pois repugna formalmente a constituir
termos compostos com substantivos ou pronomes, a
não ser em casos tão raros, tão excepcionaes, que mais
confirmão do que abalão a regra.

Ora, para prover a estes dous unicos misteres, a lingua
portugueza, não só fornece a seus verbos muito maior
somma de formas do que a mór parte das outras linguas,
senão dá-lhes tambem inflexões tão appropriadas para cada
significado particular, que quasi sempre podem dispensar a
concomitancia importuna dos pronomes pessoaes como sujeitos,
o que, além de poupar repetições um tanto fastidiosas,
não pouco contribue a accelerar o movimento
267phraseologico. Assim é que consta, do mais succinto inventario
das modificações do verbo, que tem oito tempos
no indicativo, quatro no condicional, um no imperativo,
oito no subjunctivo, e seis no infinitivo. Quando activo,
póde formar, em combinação com ser ou estar, não só
uma, como duas series de verbos passivos. Porém, quer
seja activo ou noutro, quer seja pronominal ou impessoal,
pode formar duas categorias de verbos prepositivos (ter
ou haver de… — estar para…), sem que lhe seja vedado
o entrar nas mesmas combinações como passivo (ter ou
haver de
ser ou estar… — estar para ser…), a não ser,
todavia, no caso de colligação tautologica estar para
estar…
, a qual é inadmissivel. Nas mesmas condições,
emfim, forma ella a terceira classe dos combinados, isto é,
o verbo gerundial, que o francez possuia tambem em tempos
ainda não mui remotos, mas deixou cahir em desuso
por falta do assenso sobre se devia o seu gerundio ser variavel
ou invariavel.

Soyons bien buvants, bien mangeants ;
Nous devons à la mort, de trois, l’un en dix uns.
Lafontaine (Le charlatan).

Estejamos bebendo bem, comendo bem ; devemos á morte,
de tres que somos, um em dez annos
.

De uma tal exposição, facil é avaliar para quanto concorre
o verbo como elemento de variedade na oração,
tanto mais que, nos tempos compostos, os vocabulos componentes
não têm geralmente restricta obrigação de andar
immediatamente associados, e portanto podem remexer os
termos sem transtornar ou sombrear o pensamento.

338. A terceira causa de transposição dos termos é
de ordem muito diversa da das duas procedentes ; pois, nos
casos expendidos, era geralmente mais ou menos facultativo
usar da collocação normal, ou da collocação anormal ;
neste ultimo caso, a transposição é motivada por um elemento
que a torna obrigatoria, e este elemento é a ligação
subordinativa
. Ora, formando as locuções subordinativas
um termo commum a todas as linguas, claro é que a these
de collocação por ellas suscitada é antes questão de Grammatica
geral, do que thema especial desta ou daquella
lingua ; entretanto, como não parece ter sido aventada em
obra alguma didactica, apezar da muita luz que diffunde
sobre o mecanismo da linguagem, não é possivel abstrahir
do uma exposição previa da natureza deste termo.

339. São ligações subordinativas, não só as conjuncções
268que e se, senão tambem todos os adjectivos, pronomes,
adverbios o conjuncções em que apparecem ostensivel ou
disfarçadamente os mesmos vocabulos.

340. A conjuncção se só se mostra combinada na conjuncção
senão, e portanto não dá, por emquanto, azo a
considerações de alguma importancia.

341. Porém que apparece ostensivel ou disfarçadamente :

1.° No adjectivo possessivo cujo, a, os, as ;

2.° Nos adjectivos indefinitos que, — qual, quaes, —
qualquer, quaesquer, — quanto, a, os, as.

3.° Nos tres pronomes relativos que, — quem, — o
qual, a qual, os quaes, as quaes
 ;

4.° Nos pronomes indefinitos que, — quem, — qual, —
quaes ; — qualquer, quaesquer, — quanto, a, os, as ;

5.° Nos adverbios ou locuções adverbiaes que, — como,
porque, — quando, — quanto, — quão, — onde, aonde,
donde, para onde, por onde, até onde
.

6.° Nas conjuncções que, — como, — conforme, — embora,
emquanto, — porquanto, — porque, — quando, —
quão, — segundo, — e em numerosas locuções conjunctivas,
acabando por uma ou outra destas mesmas conjuncções.

342. A theoria que dahi extrahe o methodo analytico,
é tão curiosa como fecunda em resultados praticos, mórmente
na sua applicação á analyse logica. Pois della
consta que :

1.° De todos os mencionados vocabulos relativos a
que, um só : a mesma conjuncção que, effectua syntaxicamente
um unico termo, o de ligação. Todos os mais, sem
excepção, gozão da notavel propriedade de envolverem,
além disso, ás vezes uma, outras vezes até duas funcções
syntaxicas, quaes as de sujeito, de complemento directo ou
indirecto, de predicado ou de apposição. Sirva de demonstração
perfunctoria o seguinte exemplo :

A quem não tem bens, ninguem lhe quer mal. (P. Ant.
Vieira).

Pois, logicamente coordenada, o analyticamente traduzida,
a mesma oração dá em resultado as duas proposições
que se seguem :

Ninguem quer mal ao homem — que não tem bens.

O que dahi sahe com frisante evidencia; é que o pronome
indefinito quem, decomposto em seus naturaes elementos,
269não só representa conjunctamente um complemento
indirecto
do facto quer (mal) em ao homem, e o sujeito de
tem em que, mas ainda serve, em cima de tudo isto, pela
mesma palavra que, de nexo a estas duas proposições. Em
summa, cumula as tres funcções de ligação, de complemento
indirecto, e de sujeito.

2.° Todos os mesmos vocabulos empenhão-se com esforço
irresistivel por occupar o primeiro lugar da proposição
a que pertencem como ligações, sejão aliás quaes fôrem as
suas funcções subsidiarias.

Ex. Já então não havia no mundo quem quizesse ser valente
de graça
. (P. Ant. Vieira). — (Já então não havia no mundo
homem — que quizesse ser valente de graça).

3.° Emfim (e ahi é que se verifica a allegação que
motivou as precedentes explicações), por força da lei de
collocação que chama constantemente os mesmos vocabulos
para o principio da proposição a que pertencem, elles attrahem
junto a si tão tyrannicamente qualquer outro termo
com elles relacionado, que conseguem muitas vezes transtornar
a integridade das proposições, sem todavia prejudicarem
de modo algum a lucidez do pensamento.

Ex. Sobretudo lembre-se o capitão e o soldado famoso

de quantos companheiros perdeu. (P. Ant. Vieira). — (Sobretudo
lembre-se o capitão e o soldado famoso de
tantos (tão
muitos
) companheiros — que perdeu).

4.° Releva ainda notar que, em todas as orações directamente
interrogativas ou exclamativas, as quaes são
praticamente reconheciveis pelos pontos competentes ( ?!),
as mesmas ligações presuppõem uma proposição elidida, junto
á qual formão nexo, e é, no primeiro caso : Eu pergunto….
no segundo : admira-me…, ou outras de semelhante theor,

Ex. que homem ha que não busque o descanso ? (P.
Ant. Vieira). — (Pergunto pelo homem — que ha que não
busque o descanso)
.

Quantos principes dão a alma e tantas almas ao demonio
por uma cidade, por uma fortaleza !
(P. Ant. Vieira). —
(Admira-me de tantos principes — que dão a alma e tantas
almas ao demonio por uma cidade, por uma fortaleza)
.

343. Firmão-se os diversos pontos desta theoria pelo
exame dos seguintes exemplos, que, adduzindo successivamente
as referidas ligações subordinativas, as apresentão
com variadas demonstrações de seu influxo relativamente á
transposição dos termos.270

1. Adjectivo possessivo
cujo

Viu D. João do Castro á porta de um alfaiate um gibão
riquissimo. Pediu que lh’o mostrassem ; perguntou
cujo era.
(P. Man. Bernardes).

Ahi é claramente o adjectivo cujo predicado do sujeito
occulto elle, isto é, o gibão (… perguntoucujo era elle,
ou, por outra forma : perguntou pelo homem — de quem
era elle).

Diogenes, philosopho, dizia que os que gastão sua fazenda
em banquetes e festins e lisonjeiros e más mulheres, são como
algumas arvores que nascem pelos penhascos e precipicios inaccessiveis, —
de
cujos fructos comem só os corvos, abutres e
outras aves de rapina
. (P. Man. Bernardes).

Ahi é cujos apposição do complemento fructos, ao
qual foi buscar, por amor da concordancia, no fim da
oração, para trazê-lo junto a si (… são como algumas arvores
que nascem pelos penhascos e precipicios inaccessiveis

das quaes (arvores) só os corvos, abutres e outras aves de
rapina comem
os fructos).

2. Adjectivos indefinitos
que. — qual. — qualquer. — quanto

Vêdeque segurança póde ter o merecimento em tal
juizo
. (P. Ant. Vieira).

A natureza adjectival de que, e portanto a sua funcção
de apposição junto a segurança, fica ahi demonstrada pela
idoneidade das substituições qual segurança — quanta segurança,
— que avocão adjectivos da mesma classe, com todos
os signaes de identidade de funcção. Quanto á transposição
que dahi provem, torna-se ella patente pela coordenação
normal dos termos : Vêde a segurança — que póde
ter o merecimento em tal juizo
.

Nos tirantes da carroça pegavão doze figuras em forma
de nymphas, symbolo das doze horas do dia que o sol descreve
quando toca no equinoccio ; — das
quaes figuras, umas erão
de maior estatura, outras de mediana, outras mais pequenas
.
(P. Man. Bernardes).

O caracter adjectival de quaes é ahi determinado pela
271concordancia do mesmo vocabulo com figuras, de que se
torna assim apposição, provocando, como ligação, a transposição
umas das quaes figuras.

O cameleão se reveste e pinta de todas as côres, — quaesquer
que sejão as do objecto visinho. (P. Ant. Vieira).

E’ tão sensível em qualquer a intervenção de um
tempo do verbo querer, que não pode haver coarctada em
considerar este vocabulo como formando, por contracção,
uma proposição de per si só. O cameleão se reveste e pinta
de todas as côres que são
quaes se queirão — as do objecto
visinho
.

Quem poderá declararquanta seja a formosura dos
campos ?
(Pr. Luiz de Granada).

Ahi o predicado quanta apenas removeu para depois
do verbo ao sujeito formosura.

3. Pronomes relativos
que. — quem. — o qual

Os ladrõesque mais propria e dignamente merecem
este titulo, são aquelles
a quem os reis encommendão os
exercitos e legiões, ou o governo das provincias, ou a administração
das cidades
, — os quaes, já com manha, já com
força, roubão e despojão os povos
. (P. Ant. Vieira).

Nesta reunião fortuita dos tres relativos em uma mesma
oração dá-se um exemplo instructivo da attracção exercida
polas ligações. O caracter essencial dos pronomes relativos,
como bem o declara o seu appellativo, consiste em
uma referencia francamente determinada a um substantivo
ou pronome logicamente anterior, chamado antecedente, o
que não é já o caso dos indefinitos, que, encerrando em si
mesmos o seu antecedente, a nenhuma palavra anterior se
referem.

Obvio é, logo, que, quanto mais chegados aos seus antecedentes,
mais efficazmente tambem concorrem os relativos
a dilucidar o pensamento, os dous primeiros sobretudo
(que e quem), porque faltos dos caracteristicos de genero
e numero ficão assim inhibidos de assignalar a sua concordancia.
Pois esta condição se acha resguardada no caso
vertente por uma transposição que se pudera chamar engenhosa,
se os grandes escriptores não fossem guiados por
um tino delicado que os exime de mesquinhos resquícios.

A proposição principal da referida oração é : aquelles
272são os ladrões… E’ principal, porque dellas ficão dependentes
todas as mais. Ora, nesta mesma proposição, só apparecem
dous vocabulos proprios para constituir antecedentes : o
pronome demonstrativo aquelles, e o substantivo ladrões.
Pois observe-se agora que, para que cada um dos dous primeiros
relativos tivesse junto a si um antecedente idoneo,
a proposição principal sahiu partida : Os ladrões (que) são
aquelles
(a quem)… — Deste mesmo estudo ressumbra a
conveniencia da apparição de os quaes em terceiro lugar,
visto como a sua substituição por que, em tal distancia do
antecedente, e na visinhança dos substantivos administração
das cidades
, prestar-se-hia intuitivamente a uma equivocação.

Entrou uma vez Alexandre Magno na officina de Apelles
por honrar com sua presença a um sujeito tão insigne na sua
arte, e começou a fallar demasiadamente ácerca da pintura.
Apelles, com brandura cortez, mas picante, lhe disse
 : « Senhor,
veja que se ri o
moço — que móe as tintas. » (P. Man. Bernardes).
— (… Veja que o moço se rique móe as tintas).

Bom fôra que morárão nos palacios dos reis, e tiverão
nelles grande lugar
os — que se têm mãos! (P. Ant. Vieira).
— (Born fôra que os morárão. e tiverão…. que só têm
mãos)
.

4. Pronomes indefinitos
qual. — quanto. — que. — quem.

Já seiquaes serão os primeirosde quantos se apresentão
nesta lide da intelligencia
. — (Já sei dos taes — que
serão os primeiros de tantos — que se apresentão nesta lide
da intelligencia)
.

Dir-me-heis que não hacom que despachar, ecom
que
premiar a tantos. Por essa escusa esperava. Primeiramente,
elles dizem que ha — para quem quereis, e não
ha
para quem não quereis. (P. Ant. Vieira). — (Dir-me-heis
que não ha
cousa — com que [se possa] ] despachar, e
gue não ha
cousa — . com que [se possa] premiar a tantos.
Por essa escusa esperava. Primeiramente, elles dizem que ha

para aquelle — que quereis [premiar], e não ha para
aquelle — que
não quereis [premiar]).

Assim como, — quem dá logo, — dá duas vezes, assim
parece — que dá duas vezes
. — quem despacha bem e logo. (P.
Man. Bernardes). — (Assim como dá duas vezes aquelle
que dá logo, parece que despacha duas vezes aquelle — que
despacha bem e logo).273

5. Adverbios
que. — como. — porque. — quando. — quanto.
Quão. — onde e congeneres.

Que liberal estava o espirito do Creador quando coroou
os prados de tanta abundancia de fructos!
(P. Man. Bernardes).

Ahi é que adverbio, porque, convertivel em quão (Quão
liberal estava…) modifica o alcance de significação do adjectivo
liberal. Como ligação, presuppõe a proposição principal
Admira-me. — Admira-mede que tão liberal estivesse
o espirito do Creador

O’ reis, ó monarchas do mundo !que, por esta causa,
e só por esta, é
digna de compaixão a vossa suprema fortuna !
(P. Ant. Vieira). — (… quão digna de compaixão é
a vossa suprema fortuna !)
.

Como se faz o homem bom ? Sujeitando-se a Deos. (P.
M. Bernardes). — (Pergunto pelo modo — por que (pelo
qual) se faz o homem bom
…).

Vivo estava Job quando dizia : « porque me perseguis
tão deshumanamente vós que me estais comendo vivo, e fartando-vos
da minha carne ?
 » (P. Ant. Vieira).

Sendo ahi porque adverbio, por ser convertivel em
complemento indirecto (Por que motivo), apenas carece inteirar
a oração para vê-lo apparecer como ligação… « Pergunto
pelo motivo — por que me perseguis… »

Quando fazem os ministros o que fazem ? e, — quando
fazem o que devem de fazer ? (P. Ant. Vieira).

Adverbio por ser igualmente convertivel no complemento
indirecto : Em que tempo… ? quando fica ahi ligação
pelo mesmo restabelecimento da proposição interrogativa :
Pergunto pelo tempo — em que fazem

Quanto cresceu o dominio dos que tudo mandão, com o
invento da polvora !
(P. Ant. Vieira). — (em que proporção
cresceu!) Admira-me da proporção — em que cresceu… !

Quão magnificas e bem coordenadas são, Senhor, as
vossas obras !
(P. Man. Bernardes). — Admira-me, Senhor,
da proporção — em que são magnificas e bem coordenadas as
vossas obras
.

A razão por que não achamos o descanso, é porque o buscamos
onde não está. « Não vos digo (diz Agostinho) que
O não busqueis : buscai-o
 ; só vos digo que não está ahi
274onde o buscais. Pois, se é bem que busquemos o descanso, e elle
não está
onde o buscamos, — onde o havemos de buscar ?
onde Christo disse que o buscassemos, porque só ahi está, e
só ahi o acharemos
. (P. Ant. Vieira).

Em todas as hypotheses é onde, com os congeneres,
um adverbio, porque em todas se deixa resolver em complemento
indirecto ; e é igualmente sempre ligação subordinativa,
porque nenhum dos seus desmanchos analyticos
deixa que adduzir que. A razão por que não achamos o descanso,
é porque o buscamos
no lugar — em que não está.
Não vos digo (diz Agostinho) que o não busqueis : buscai-o;
 ;
só vos digo que não está [ [ahi] no lugar — em que o buscais.
Pois, se é bem que busquemos o descanso, e elle não está
no
lugar — em que
o buscamos, [pergunto eu pelo lugar] —
em que o havemos de buscar. [Havemo-lo de buscar no lugar]
em que Christo disse que o buscassemos

6. Conjuncções subordinativas
que. — como. — conforme. — embora. — emquanto. —
porquanto. — porque. — quando. — quão. — segundo.
— se. — senão.

O’ homem lembra-teque es mortal.

E’ caracteristico da conjuncção que ficar ella inhibida
do exercer outra funcção senão a de ligação. Pois, se em
muitos casos póde, como no exemplo citado, resolver-se em
isto, isso, aquillo, como muitos grammaticos o fazem notar,
já não lhe sobra então com que ir prender a proposição
posterior para annexá-la á anterior, e assim deixa de ser
ligação. Ohomem, lembra-te Disso : es mortal. Porém, mais
geralmente, nega-se ella a esta mesma inversão, e, por isso,
mais convem conservar-lhe a sua attribuição natural e ostensivel
de mera ligação.

Ex. Não ter inimigos tem-se por felicidade ; mas é uma
tal felicidade
, — que é melhor a desgraça de os terque a
ventura de os não ter. Póde haver maior desgraça
que não
ter um homem bem algum digno de inveja ?
Por isso dizia
Themistocles
 : « Signal é o ver-me amado de todosque não
tenho feito acção tão generosa e honrada
, — que me grangeasse
inimigos
. » (P. Ant. Vieira).

A principal perturbação que a mesma ligação produz
quando intervem entre membros de uma comparação, consiste
em tornar mais ou menos elliptica a proposição posterior.275

Ex. Se o ter inimigos é tentação, antes é tentação de
vaidade
que de vingança. (P. Ant. Vieira). — (… antes é
tentação de vaidade
que [e tentação] de vingança).

Póde-se verificar a mesma observação nas partes do
anterior exemplo que formão comparações (… é melhor a
desgraça de os ter
, — que [boa e] a ventura de os não ter.
— .
Póde haver maior desgraçaque [o é] não ter um homem
bem algum digno de inveja ?)
.

Este processo de restauração da proposição pela eliminação
da ellipse torna-se necessario em analyse syntaxica
para ser possivel atinar com a funcção das palavras que
constituem tal trecho ; e é de summa importancia nos exercicios
do versões, quer se trate de linguas antigas, quer de
modernas, em que ha declinações para a designação das
funcções syntaxicas. Pois assim se vê, por exemplo, que
ventura é o sujeito do primeiro É elidido, e o infinitivo
[não] ter, o do segundo.

Não sendo já que, o sim como ou quão as ligações que
se interpõem entre os dous membros do uma comparação
de igualdade, cumpre attender a esta circumstancia para,
em tal caso, proceder igualmente ao restabelecimento dos
termos elididos.

Ex. Tudo o que se sabe, por vista ou por memoria dos
periodos e catastrophes dos reinos, e dos fins malafortunados
dos reis, e causas delles, ás menos vezes se deve attribuir aos
inimigos de fòra, que são só os que se temem
senão a quem ?

Aos lisongeiros e aduladores de dentro ; aos que têm as entradas
francas, e as chaves
tão douradas como as linguas. (P.
Ant. Vieira). — (… aos que têm as chaves tão douradas
como [douradas têm] as linguas).

Vê-se, por isso, que linguas é complemento directo do
verbo elidido têm.

O mesmo Creador louvou a açucena, dizendo que nem Salomão,
em toda a sua gloria, vestira
tão ricamente — como
uma destas flores. (Fr. Luiz de Granada). — (… dizendo que
nem Salomão vestira
tão ricamente — como [ricamente
veste
] uma destas flores).

O pronome indefinito uma vem assim a ser o sujeito
do elidido veste.

Aliás a mesma conjuncção que tira da sua preeminencia
sobre as mais ligações de mesma especie a faculdade
de as de vez em quando substituir com muita
propriedade, como se póde averiguar do cotejo dos dous
seguintes exemplos, sensivelmente parecidos de construcção.276

A multidão que andava desenterrando a prata, fica sepultada
com ella em um momento, sem outra noticia de tamanho
e tão miseravel estrago
que (senão) a que deu aos de
muito longe o estrondo da ruina, e o tremor de toda a terra
.
(P. Ant. Vieira).

As causas naturaes destes effeitos tão lamentaveis não são
ordinariamente outras
senão (que) as mesmas que precederão
o reinado de Salomão
. (P. Ant. Vieira).

Que utilidades se têm seguido á Hespanha do seu famoso
Potossi, e das outras minas desta mesma America ? A mesma
Hespanha confessa e chora que não lhe têm servido mais

que — (senão) de a despovoar e empobrecer. (P. Ant. Vieira).

Arrenegue, pois, todo o navegante do jogo, se não se quer
perder
 ; — que (visto que) até a náo que joga, não é segura.
(P. Ant. Vieira).

Para as mais ligações desta ultima classe prestão-se a
uma demonstração azada da these vertente os exemplos
que a ellas se conferem nas Observações sobre as conjuncções
e locuções subordinativas, § 273 e seg.

Capitulo II
Das figuras de syntaxe

344. Uma proposição é plena quando, para se dar
conta dos seus termos, nada ha que supprir, nada que subtrahir,
nada que commentar, nada que transferir, nada que
substituir.

Sendo, porém, necessario soccorrer-se a uma ou outra
desta cinco operações, a proposição diz-se figurada, por se
chamarem figuras os diversos desvios que se produzem
na enunciação dos pensamentos. e chamão-se figuras porque,
pela mesma perturbação da linguagem, mais fielmente
traduzem as paixões sob cujo influxo falla o homem com
açodamento ou insistencia, com preoccupação ou sem nexo
apparente.

345. As figuras do syntaxe são cinco : a ellipse, o
pleonasmo, a syllepse, a inversão e a exclamação
.277

1. Da ellipse

346. A ellipse consiste em subentender-se um ou mais
termos do uma proposição, ou até uma proposição inteira,
como é o caso nas orações directamente interrogativas ou
exclamativas.

Ambas as hypotheses se verificão no seguinte exemplo,
já repetidas vezes adduzido : Ha mais — para onde subir ?
Isto ó : Ha mais [lugar] — para onde [se possa] subir ?
Isto é : [pergunto eu — se] ha mais lugar — para onde se
pode
subir ?

N. B. Não se tenha em conta de descuido ou ignorancia
o apparecer o verbo poder em differentes modos
conforme a glosa ; pois, como mais adiante explicar-se-ha,
o subjunctivo é ahi provocado pela interrogação directa, e
o indicativo, pela indirecta.

347. As ellipses são legitimas quando, supprimindo
termos ou proposições de facil recordação, conferem, sem
equivoco nem obscuridade, alacridade ou vehemencia á
dicção.

Ex. As magnetes attrahem o ferro, e os magnates, o ouro.
(P. Ant. Vieira). — (… e os magnates [ [attrahem] ] o ouro.

Da ociosidade nasce a imaginação ; da imaginação, a suspeita ;
e da suspeita, a mentira
. (P. Ant. Vieira). — (… da
imaginação
[nasce ] a suspeita ; e da suspeita [nasce] a mentira).

O temor não é de homens fortes, nem o agouro, de homens
sabios
. (P. Ant. Vieira). — (… nem o agouro [e] de homens
sabios)
.

Se lhes perguntarmos, aos christãos, para onde vão, dizem
que para o céo
. (P. Ant. Vieira). — (… dizem que [ [vão] ] para
o
céo).

Até o pobre e atrevido ladrão, se lhe perguntão ao pé da
forca quem o trouxe a tão miseravel estado, responde, com o
laço na garganta, que a necessidade
. (P. Ant. Vieira). —
(… responde, com o laço na garganta, que [ [quem o trouxe,
foi]
] a necessidade).

Pudera-se fazer problema, onde ha mais pescadores, e mais
modos e traças de pescar : se no mar, ou na terra e é certo
que na terra
. (P. Ant. Vieira). — (… e [onde ha] ] mais modos
e traças ...
se [os ha mais] ] na terra, ou [se os ha mais] ] no
mar. E é certo que [é
[] ] na terra).

Que cousa é a nossa alma ? Faisca do lume increado. (P.
278Man. Bernardes). — (… [Nossa alma é] ] faisca do lume increado).

Ora vem cá, alma minha ! Que é o que vês ? Mares, rios,
arvores, montes, valles, campinas, desertos, povoados, e...
tudo
passando
. (P. Man. Bernardes). — (… [Pergunto pelo] ] que é
o que vês
. [Tu vês] ] mares, rios, arvores... e [ [tu vês] tudo passando).

348. As ellipses são illegitimas quando, por não occorrerem
sem hesitação nem dubiedade os termos elididos,
a dicção se torna confusa ou ambigua.

Destes defeitos, além de outros, dá boa cópia o seguinte
excerpto :

Diogo Alvares segura o maioral do inimigo, que estava
na frente do seu exercito, faz-lhe pontaria aos peitos, dispara
a arma, e dá com elle em terra
, cahindo repentinamente, sem
menear parte alguma do corpo, que era bastantemente avultado.
Do qual
damno e estrondo, e de outros que trazia
carregados
, e foi disparando com o mesmo effeito, confusos
e atemorisados todos os do exercito inimigo
, não só se puzerão
em fugida
, ate o lugar desamparárão, e outros mais dos visinhos
aonde chegou a noticia do homem do fogo, nome que
lhe deu o mesmo gentio
pelo que vião sahir do seu arcabuz
desde a primeira vez que
ã vista delles o disparou, e se
foi estendendo
por todos os mais, ficando Diogo Alvares
em tanta reputação com
estes da Bahia, e com o seu maioral
ou principe, que
determinárão de o não matar, pela grande
utilidade que
com elle se lhes seguia para as suas guerras.
(Fr. Ant. de S. Maria Jaboatão).

Escusado é deter-se na respigadura dos vícios de dicção
que pejão este trecho : baste saber que, das quatro primeiras
figuras do syntaxe, não ha nenhuma que se não
ache ahi representada pelo lado da illegitimidade, e que,
mesmo assim, não ficaria exhausta a lista dos defeitos do
que está inquinado. Ha um notavelmente que, embora
seja mais do dominio litterario do que do grammatical,
póde todavia sem inconveniente, ser aqui mencionado, visto
não raras vezes occorrer tambem em escriptores hodiernos,
aliás bem dotados. Consiste elle em que a oração, começando
por actos restrictos a um tempo e a um lugar determinado,
como os que ahi, na segunda oração, provocárão a
fugida dos selvagens, venha a continuar sem detença com
a relação do actos que só muito mais tarde se derão, e
até em epocas e lugares diversos, como são, no caso vertente,
o espanto o a fugida das tribus circumvisinhas, a
origem do cognome por que veiu a ser designado Diogo279

Alvares, a reputação e autoridade que conseguiu grangear
por novos commettimentos, etc. Pois o espirito de quem
lê, relucta instinctivamento em associar num mesmo relance
intuitivo actos dissociados pelo espaço e pelo tempo.

Entre as ellipses pouco imitaveis comprehende-se a
anacolutha que consiste em um quebrantamento tão brusco
das partes da oração, que desconcerta o espirito, e o deixa
perplexo sobre qual seja o termo ou os termos elididos.

Ex. Fallando el rei Antigono com o principe seu filho
sobre a administração e governo do reino de que o havia de
deixar por herdeiro
, admirado o generoso moço de tamanhas
obrigações e encargos, refere eliano
que lhe disse o pai :
« Ainda não sabias, filho meu, que o nosso reinar não é outra
cousa senão uma servidão honrada
. » (P. Ant. Vieira).

Não se atina ahi com o verbo ao qual o substantivo
moço tem de reger como sujeito, pois é esta a unica funcção
que lhe parece caber. Além disso esquivão-se as primeiras
partes da oração por tangentes que, despertando a attenção,
ecaminhão-na, já para um lado, já para outro, sem lhe
dar uma sahida que satisfaça.

Todavia a anacolutha torna-se um recurso litterario
legitimo logo que reproduz com naturalidade as hesitações
de um espirito perturbado, ou os desvarios de uma paixão
desenfreada.

2. Do pleonasmo

349. O pleonasmo consiste em reproduzir na mesma
proposição ou oração uma idéa ou pensamento já aventado.

Ex. Tudo isto que vemos com nossos olhos, é aquelle
espirito sublime, ardente, grande, immenso : a alma
. (P. Ant.
Vieira).

350. Os pleonasmos são legitimos quando previnem
equivocos, ou imprimem energia a dicção.

Ex. Os que menos satisfeitos estiverem de Sua Majestade,
esses chegue Vossa Alteza mais a si. (P. Ant. Vieira).

Os bens deste mundo, como são corruptiveis, ainda que
não haja quem os furte
, elles mesmos se nos roubão. (P.
Ant. Vieira).

Por isso nos encommendou tanto o Senhor amor e paz no
Evangelho, dizendo
 : « Minha paz vos dou, minha paz vos
deixo. Amai-
vos uns aos outros ; porque nisto quero que
280vos conheção em todo o mundo por meus discipulos, se vos
amardes uns aos outros. » (D. Fr. Bartholomeu dos Martyres).

A omissão da expressão pleonastica uns aos outros poderia
por ventura inverter o pensamento suscitando em
Amai-vos o sentido reflexivo, em vez do reciproco. Por
isso diz mais adiante o mesmo santo bispo, com igual
acerto de pleonasmo : Amemos o proximo espiritual e santamente,
assim como
nós havemos de amar a nós, e não carnalmente;
 ;
isto é, que amemos o proximo por amor de Deos,
cuja feitura é, desejando-lhe a graça de Deos, e os outros bens
da alma
.

Do meio das turbas sahiu um homem a pedir ao Senhor
quizesse, com o seu respeito, fazer com que um irmão seu repartisse
com elle dos bens que herdara. Escusou-se o Senhor,
dizendo-lhe
 : « O’ homem, quem me constituiu, a mim, juiz e
repartidor sobre a vossa herança ?
 » (P. J. B. do Castro).

Accende e provoca esta batalha a trombeta da fama,
dizendo e bradando que é honra ; põe-se da parte do odio e
da
vingança o mundo todo, que assim o manda, que assim
o julga, que assim o applaude, que assim o tem estabelecido
por lei
. (P. Ant. Vieira).

Concluamos com dizer que, se taes minas se descobrissem,
encher-se-hia, é verdade, a terra de ouro e prata ; mas esse
ouro e prata, posto que naturalmente
desce para baixo,
havia de subir para cima : não havia de chegar aos pequenos
e pobres, mas todo se havia de abarcar e consumir nas mãos
dos grandes e poderosos
. (P. Ant. Vieira).

351. Os pleonasmos são illegitimos logo que, formulando
uma reproducção de idéas ou pensamentos tão desnecessaria
quão insulsa, redundão em mera necedade. Desta
especie são as locuções mais melhor, menos peior, mui optimo,
muito pessimo, mais acerrimo ; uma
soberba vaidosa, etc. ; e,
no exemplo citado sob o § 348, a declaração de que « Todos
os do exercito inimigo
, não só se puzerão em fugida, até o
lugar desamparárão
. » e tambem est´outro, que o P.
Man. Bernardes attribue a Alberto de Carpe, embaixador
do imperador Maximiliano : « todo o povo universal de
Roma concorreu por ver esta novidade
. »

352. a perissologia, ou tambem tautologia, é uma forma
especial de pleonasmo que consiste no emprego, dentro da
mesma proposição, ou dentro de proposições intimamente
correlacionadas, de palavras de mesma origem e significação
etymologica, como : apoderar-se do poder. Convem
281goralmonte fugir a taes redundancias, soccorrendo-se a synonymos,
que poderião ser, por exemplo, no caso vertente :
Apoderar-se da autoridade, ou senhorear-se do poder. Se,
todavia, a substituição por synonymos é impossivel, a tautologia
fica justificada pela lei suprema da necessidade.

Ex. A Bahia se entende da ponta do Padrão ao morro
do Tinhare, que demora um ao outro nove ou dez leguas,
ainda que
o capitão da capitania dos Ilheos não quer consentir
que se entenda senão da ponta da ilha de Taparica á
do Padrão
. (Gabriel Soares de Souza).

São, todavia, não só aceitaveis, como dignas de imitação,
mas de uma imitação circumspecta, as tautologias
que, paraphraseando sem trivialidade loquelas populares e ingenuas
tornão a dicção mais incisiva, pelas repetições acintosas.
Ninguem usou com maior tino e pericia do tão
delicado artificio do estylo como o P. Ant. Vieira.

Ex. As palavras brandas do adulador são redes que elle
arma para tomar nellas ao mesmo adulado. e este é o
artificio
sem arte dos aduladores reaes. (P. Ant. Vieira).

Estas são as contas que se fazem sem se fazer conta
da que se ha de dar a Deos quando a pedir do preço do seu
sangue
. (P. Ant. Vieira).

Se alguem pensa que, sendo assolado o reino, pode a sua
casa ficar em pé
, engana-se muito enganado. (P. Ant.
Vieira).

O official de penna, a cujos rasgos mede o regimento as
regras, e
conta as letras, se quer gastar sem conta e sem
medida, que ha de fazer ? Troca as suas pennas com as dos
gaviões, e não ha ave de rapina que tanto leve nas unhas
.
(P. Ant. Vieira).

O mercante que tomou os assentos ou contratos reaes do
publico, e se
contratou de secreto com os zeladores da fazenda
do mesmo rei, de que modo se ha de
soldar quando se vê
quebrado, senão com o soldo e fardas dos miseraveis soldados,
tornando a comprar os já comprados ministros, para
que lhe subão os preços, e ajustem as
quebras ? (P. Ant.
Vieira).

Arrenegue, pois, todo o navegante do jogo, se não se quer
perder ; que até a náo que
joga,’ não é segura. (P. Ant.
Vieira).

O infante D. Henrique não possibilitou sómente, mas
facilitou aquelle natural
impossivel. (P. Ant. Vieira).

E, se a natureza, onde é incapaz de razão, não é capaz
282de soffrer semrazões, que o homem, creatura racional a mais
nobre, a mais viva e a mais sensitiva de todas, com a balança
da mesma
razão no juizo, não haja de pesar aggravos, antes,
contra a força e violencia do mesmo
peso, haja de pagar odios
com amor !
 ?… Não é homem quem aqui não pasma, ou não
diga olhando para si
 : « Não posso ! »

Vendo as arvores que as tres a que tinhão offerecido o
governo, o não quizerão aceitar, diz o texto que se forão ter
com o espinheiro, e lhe fizerão a mesma offerta. e, que respondeu
o espinheiro ? E’ resposta muito digna de ponderação.
A proposta das arvores foi a mesma
 : « Vinde, e governai-nos. »
E elle respondeu, não só como espinheiro, senão como
espinhado : « Se verdadeiramente me dais o imperio, vinde
todas deitar-vos a meus pés, e pôr-vos á minha sombra. e, se
houver alguma que repugne, sahirá tal fogo do espinheiro, que
abraze os mais altos cedros do Libano
. » (P. Ant. Vieira).

Com que igual desigualdade visita o sol a terra, e assigna
os tempos, dobrando juntamente os dias com um movimento
de levante a poente, e os annos com outro de sul a
norte !
(P. Man. Bernardes).

Não são, porém, imitaveis as seguintes tautologias, que
é justo considerar, aliás, como meros descuidos de redacção.

Mui festejada foi em toda a côrte a alegre nova do
novo descobrimento desta grande parte do Mundo Novo. (Balthazar
Telles).

E me affirmou pessoa que o podia saber, que o escrivão
desta judicatura trazia
provisão de Sua Majestade para ser
provido de secretario de Estado no officio de meu irmão. (P.
Ant. Vieira).

Os aduladores reaes servem lisonjeiramente aos principes
para os ganhar, ou lhes ganhar a graça, e para se
servirem
da mesma graça, para os fins que só pretendem de seus proprios
interesses
. (P. Ant. Vieira).

E, quando, finalmente, chegar seu fim, a falta ou rotura
desta união será o ultimo paroxismo de que ha de morrer
o mundo
. (P. Ant. Vieira).

Toda a lei e todos os mandamentos em que nos é mandado
que não impeçamos ao proximo em alguma cousa,… se
comprehendem nestas palavras
 : « Amarás ao proximo como a
ti mesmo
. » (D. Fr. Bartholomeo dos Martyres).

E, quando Vossa Alteza não perder, perderá el rei e o
reino ; e podem succeder desgostos e enfadamentos os quaes
Vossa Alteza, por sua grande virtude, e pela grande
obrigação
283que tem a estas terras, é obrigada a atalhar. (D. Hieronymo
Osorio, bispo de Silves).

Emfim as tautologias ou trocadilhos do seguinte exemplo,
quando não peccassem por uma demasiada insistencia
em circumstancias frivolas, mal condirião com a gravidade
histórica em tão luctuosa narração como a da nefasta jornada
do Africa :

E nestas conversações e seguranças sem seguro o seguravão.
Pela manhãa houve conversação sobre a sahida,
e
galanterias della que não erão galantes ; Não faltou
quem
zombasse, e sobejou quem zombasse dos que zombavão.
(Luiz Torres de Lima).

Por ultimo, é do todo o ponto injustificavel a tautologia
notada no excerpto do § 348, de que o gentio deu a
Diogo Alvares o nome de homem do fogo
, « pelo que vião
sahir do seu arcabuz desde a primeira vez que á vista delles
o disparou. »

3. Da syllepse

353. A syllepse consiste em regular-se a concordancia
das palavras, não pela sua fórma, e sim pelo seu sentido.

Ex. Diogenes viu que uma grande tropa de varas e ministros
de justiça
levavão a enforcar uns ladrões. (P. Ant.
Vieira).

Ahi prevalece o sentido plural do collectivo tropa
sobre a sua fórma singular, na regencia imposta ao verbo
levavão.

Semelhante reparo se póde fazer no seguinte exemplo,
em que se dá mentalmente, ao substantivo feminino creaturas,
o sentido do substantivo masculino homens, na
concordancia dos pronomes que se lhe referem :

« O’ meu amado Senhor, não me falleis já pelas vossas
creaturas, que pouco ou quasi nada me podem dizer de vós;
 ;
sendo vós infinito, e elles limitados ; vós luz, e elles sombras;
 ;
vós eterno, e elles defectiveis ; fallai-me por vós mesmos. »
(P. Man. Bernardes).

Emfim o mesmo se verifica ainda no seguinte exemplo,
onde o P. Ant. Vieira, alludindo, pelo emprego da palavra
toucados, ás mulheres, faz feminino o pronome estavel
outrem, que, por sua natureza, é masculino :

E, se passarmos dos solios aos estrados, tambem acharemos
nos toucados estes malmequeres : nenhuma gentileza ha tão con-284fiada, que a não piquem os alfinetes de ver a
outrem mais
bem
prendada.

354. As syllepses são legitimas quando a impressão
montal produzida pelas palavras, de tal modo discorda de
sua expressão, que esta fique prejudicada por aquella.

Ex. Façamos a cada um o que queriamos que nos fizessem.
(D. Fr. Bartholomeo dos Martyres). — (Não … que
nos fizesse)
.

Os palanques estavão cobertos de infinita gente, todos a
ver
. (P. Ant. Vieira). — (Não … toda a ver).

Perguntando-lhe um seu amigo porque lhe cheirava mal o
bafo, respondeu Demosthenes : Porque no estomago lhe
apodrecerão
grande quantidade de segredos. (P. M. Bernardes).
— (Não … apodrecera…).

Quando fordes convidado á casa e á mesa alheia, não
deveis tomar
os primeiros lugares, senão o ultimo. (P. J.
B. do Castro).

O provincial disse ao arcebispo que se accommodasse ao
que via usado em toda a christandade, e
no cabeça della.
(Fr. Luiz de Souza). — (… no cabeça = o papa).

Triste e miseravel condição é haver um homem de servir
a outro, sendo
todos iguaes. a primeira vez que se prophetisou
neste mundo haver
um homem de servir a outros foi
com o nome de maldição
. (P. Ant. Vieira).

O diadema antigo, insignia dos reis e imperadores, era
uma faixa atada na cabeça. e dizia Seleuco, rei da Asia,
que, se
os homens soubessem quão pesada era aquella tira de
panno, e quão cheia de espinhos por dentro
, nenhum haveria
que a levantasse do chão para a pôr na cabeça
. (P. Ant.
Vieira).

Dentro das espigas se forma o grão, para que, com este
defensivo, nem o rigor do frio o offenda, nem o ardor do sol o
queime, nem
a força dos ventos e das muitas aguas maltratem
o fructo recem-nascido. (Fr. Luiz de Granada).

Usa esta gente de canoas ligeiras e bem armadas, com
as quaes
impedião e infestavão as estradas, que nesta terra
são todas por agua
. (P. Ant. Vieira).

Quem trabalha, trata da sua vida ; quem está ocioso,
trata
das alheias. (P. Ant. Vieira).

São estas crianças, naquella primeira idade, lindissimas,
porque em
muitos a côr é branca. (P. João de Lucena).

Estavão aquellas margens alcatifadas de uma relva muito
285verde e mimosa, semelhante ao linho quando está em flor ; por
entre ella
passeavão grande numero de aves de diversas
côres, umas alvas como neve, outras azues, mas a maior
parte
encarnadas
de um vivo que se não acha nas côres artificiaes.
(D. Fr. Caetano Brandão).

355. As syllepses são illegitimas quando infringem
sem plausibilidade as regras da concordancia.

Ex. Algum genero de desconfiança alcançou Diogo Alvares
do espanto e temor do gentio ; mas elle, no melhor modo
que póde, os deixou satisfeitos, dando-lhes a entender que
aquelle genero de
instrumento não fazia damno mais que a
inimigos, que, com facilidade e menos perigo, podião ser vencidos

com aquellas novas, do que com os seus antigos arcos
e frechas
. (Fr. Ant. de S. Maria Jaboatão). — (… instrumento…
aquellas novas… !!).

Posto que os legisladores ordenassem que as mulheres não
pudessem dar voto, nem ser presentes nos conselhos para fazer
leis e outras constituições, parecendo-lhes que as não farião tão
perfeitas como
erão necessarias, houve, porém, sempre, e ha
ainda agora no genero feminino muito excellentes mulheres
.
(Ruy Gonçalves),

Apartando-se qualquer reflexão sobre o exquisito reparo
do autor, que é mesmo no genero feminino que ainda
agora ha excellentes
mulheres !!, nota-se ahi um erro tanto
mais attendivel quanto menos raro é encontrá-lo em publicações
da presente epoca. Consiste ella em ter o autor
feito o verbo erão pessoal, de impessoal que é á vista da
mais simples das glosas (… parecendo-lhes que as não farião
tão perfeitas como
era necessario que as fizessem, — isto é,
que perfeitas as fizessem. Porém, sabindo erão sob a
forma pessoal, foi preciso suppôr-lhe um sujeito ; ora o
unico que estava á mão, era um occulto ellas, por substituição
ao substantivo leis, e dahi a forma feminina plural
do predicado necessarias, que com elle tinha de concordar.
Mas, se assim fosse, a glosa daria, pelo restabelecimento
integral dos termos, um sentido absurdo á oração, e que
nada denuncia ter sido no intento do autor : (… parecendo-lhes
que as não farião tão perfeitas como
ellas (as leis)
erão necessarias. Não se pode, aliás, achar demonstração
mais azada da proficiencia da theoria eminentemente
philosophica do verbo substantivo, com sua trilogia fatidica
do sujeito, verbo o attributo.

Remata o mesmo autor suas elucubrações philosophicas
com esta sentença : e, por assim ser os conselhos das
mulheres, se hão de tomar e aceitar
, e não desprezar. —
286Alli errou elle em attribuir um sujeito a um verbo que,
no caso dado, nenhum podia ter, e, portanto, em estabelecer
uma falsa concordancia do predicado ; aqui erra, pelo
contrario, em exprimir junto a um verbo o sujeito mais
claramente qualificado, sem submetter-lhe o mesmo verbo
pela concordancia : e, por assim serem os conselhos das
mulheres
… Quanto á conclusão : Que se hão de tomar e
aceitar, ella tem, nestes dous synonymos, quanto basta
em pleonasmo para domar a convicção mais rebelde : o
mais é rabicho postiço.

4. Da inversão

356. A inversão consiste em se collocarem os termos
syntaxicos dentro da proposição, ou as proposições dentro
da oração, numa ordem diversa da que requer o raciocinio
analytico.

Ex. Terrivel palavra é um non. (P. Ant. Vieira). —
(Um non é palavra terrivel).

357. As inversões são legitimas quando diffundem
maior clareza ou harmonia na dicção, ou reproduzem naturalmente
os arremessos do uma paixão exaltada.

Ex. Por mais que confeiteis um non, sempre amarga;
 ;
por mais que o enfeiteis, sempre é feio ; por mais que o doureis
sempre é de ferro
. (P. Ant. Vieira).

Se, restabelecida na sua ordem normal, a mesma oração
nada soffre em clareza, muito perde em harmonia. Um non
sempre amarga, por mais que o confeiteis ; sempre é feio, por
mais que o enfeiteis ; sempre é de ferro, por mais que o doureis
.

A mais dura cousa que tem a vida, é chegar a pedir ;
e, depois de chegar a pedir, ouvir um não, vêde o que será !
a lingua hebraica, que é a que fallou Adão, e a que mais naturalmente
significa e declara a essencia das cousas, chama ao
negar o que se pede, envergonhar a face
. (P. Ant. Vieira).

Sendo destruidas as inversões deste trecho, nada lucrão
as orações em harmonia, e alguma cousa perdem em clareza.
Chegar a pedir é a mais dura cousa que a vida tem ;
e vêde o que será ouvir um não depois de chegar a pedir ! A
lingua hebraica, que é a que Adão fallou, e a que significa e
declara mais naturalmente a essencia das cousas, chama envergonhar
a face ao negar o que se pede
.

Emfim facil é convencer-se de que ao vigor expressivo
287da seguinte invectiva não pouco concorre a construcção
desordenada do trecho :

Oh ! insolencia ! Oh ! descomedimento ! Oh ! maldade mais
que infernal ! digna de que, no mesmo momento, se abrisse á
terra, e não depois rebentasse tal coração, mas logo o tragassem
os abysmos ! e, a este Judas, e, áquelle Pedro, será justo,
Senhor, que vós trateis com a mesma igualdade ?
(Iris classico,
pag. 225).

Era Affranio Burrho homem de grave e maduro juizo,
mestre ou aio que tinha sido, com Seneca, do mesmo Nero
.
(P. Ant. Vieira). — (Affranio Burrho era homem de grave e
maduro juizo, que tinha sido, com Seneca, mestre ou aio do
mesmo Nero
).

358. As inversões são illegitimas quando, intrincando
as idéas, ou baralhando os pensamentos, redundão em um
mistiforio pouco ou nada intelligivel.

Ex. Ponderando, só em lisonja dos ambiciosos, para fazerem
juizo os interessados, que, sendo continentes na America
as conquistas de Portugal e as de Castelha, quando, daquellas
preciosas minas, com umas se mostrou o clima tão liberal, parece
verosimil não se mostraria com outra tão escasso, gozando,
igualmente na altura do polo, da propria influencia do céo, e
da mesma natureza da terra ; se bem, com menos industria
que cubiça, por existirem tamanhas esperanças, mais na presumpção
que na realidade, ou, para reservarem os seculos presentes
para os vindouros, novos descobrimentos, neste exame
trabalharão já inuteis algumas diligencias
. (Franc. de Brito
Freire).

Quem diria que taes e quejandos disparates pudessem
ser patrocinados como constituindo uma figura de syntaxe
digna de especial menção, e de particular apreço : a synchyse ?
Entretanto assim é ; e lá vai o memoravel distico
que lhe serve do typo entre seus admiradores :

Entre todos, c’o dedo, oras notado,
Lindos moços d’Arzilla, em galhardia.

O que, no dizer dos eruditos, deve ser traduzido : Em
galhardia eras notado com o dedo entre todos os lindos moços
de Arzilla
.

Ora bem : se, como o pretendeu um insigne, porém desbocado
diplomata, a linguagem foi dada ao homem para
encobrir o pensamento, as duas referidas synchyses ou moxinifadas
são primores de estylo.288

5. Da exclamação

359. A exclamação, no seu sentido estricto, é uma proposição
implícita.

Ex. Credes, que são estas palavras de Christo ? sim
Agora respondei-me. (P. Ant. Vieira).

Ahi é sim uma exclamação porque representa uma proposição :
Vós o credes) e a proposição é implicita porque
não lhe constituindo sim nenhum dos seus termos syntaxicos,
nem por isso deixa de os abranger a todos.

A este caracter, de que sim e não são os typos nas
respostas peremptorias, e ah ! oh ! nas mais variadas expressões
do um sentimento vivo, é que devem as interjeições
de ser contempladas em syntaxe como figuras. E
tanto o são, que Ah ! e oh ! por exemplo, só têm um sentido
apreciavel, na falla, pela intoação com que se soltão ;
e na escripta, por uma ou mais proposições subsequentes
que lhes servem de commentarios.

Ex. O jugo e as cadeias de ferro e de bronze têm estas
quatro cousas : que carregão, ferem, soão e durão. e as mesmas
quatro têm o jugo e cadeias da infamia
. oh ! como carregão !
Por direita que andasse dantes a pessoa, logo abaixa a cabeça
e os olhos, e lhe parece traz ás costas um monte
. oh ! como
ferem !
Chegão a escalavrar o coração e a alma, e ensanguentão
familias inteiras
. oh ! como soão ! Está o pobre que
padece a infamia aqui em um canto ; lá soão no cabo do reino,
ou em Ultramar : por onde quer que appareça, detraz lhe ficão
rugindo as cadeias, como á alma condemnada que apparece

Oh ! quanto durão ! Ainda depois de sepultado, cá ficão rugindo
Oh ! já eu me contentara com que os presos da
infamia levassem comsigo á cova as suas cadeias. Mas não é
assim. O homem morreu e está enterrado, e as cadeias ficão
vivas cá fora, tinindo e foliando
. (P. Man. Bernardes).

360. Ha toda a conveniencia em comprehender no numero
das exclamações, por motivo de analogia, as expressões
que, isoladamente, representão uma proposição, embora se
prestem facilmente a constituir-lhe um dos seus termos
pela restauração analytica, e a proposição se possa considerar
tambem como simplesmente elliptica.

Ex. Houve alguem que dissesse á oliveira que havia de
deixar as suas azeitonas, nem á figueira os seus figos, nem á
vide as suas uvas ?
ninguem ! (P. Ant. Vieira). — (ninguem
o disse).

Hão devem, pois, pagar a pena os que vingão tão barbara
289maldade, mas sim os que, levando a labareda de tão repentino
arruido, dérão causa a todos os males que depois vierão
. (Hist.
de D. Manoel). — (… mas devem pagar a pena os -
que…).

Saibamos agora, e não de outrem, senão das mesmas arvores,
se este bom governo, do modo que ellas o entenderão, se
póde conseguir e exercitar com as raizes na terra. Assim as
que o offerecêrão, como as que o não aceitarão, todas concordão
que
não. (P. Ant. Vieira). — (… que não se póde conseguir).

E, houve algum homem tão mimoso da fortuna neste
mundo que, em alguma ou em todas as cousas delle, achasse o
descanso que buscava ?
nenhum. (P. Ant. Vieira). — (nenhum
houve).

Se é tão grande a alegria dos navegantes quando, tendo
escapado das tempestades e dos corsarios, ouvem dizer
 : terra !
terra ! que alegria será a dos que agora padecem, quando
oução dizer
 : céo ! céo ! (P. Ant. vieira). — (… Alli está a
terra !… Alli está o céo).

361. Tambem, e com mais propriedade ainda, devem
ser tidas por exclamações as expressões em apostropho,
embora o processo analytico, só com rodeios, e por meio
de varias hypotheses, consiga attribuir-lhes uma ou outra
das diversas funcções syntaxicas.

Ex. Vem cá lucifer ; vem cá adão : tu anjo, e o mais
sabio de todos os anjos ; tu homem, e o mais sabio de todos os
homens ! Não entendeis e conheceis com evidencia que não podeis
ser como Deos? Pois, como appeteceis o que não podeis ? Porque
tal é a cegueira de um entendimento ambicioso, e a ambição
de uma vontade livre
 : ha de querer mais do que póde,
ainda que conheça que é impossivel
. (P. Ant. Vieira). — (Vem
cá [
[tuque es lucifer] ; vem cá [ [tuque es adão] : tu
anjo, e o mais sabio de todos os anjos ; tu homem, e o mais
sabio de todos os homens !
— E’ bom notar, aliás, no texto a
repetição dos sujeitos de ambos os verbos vem (tu), para
servirem de esteios ás apposições anjo, e o mais sabio… ;
homem, e o mais sabio…, e para affastarem assim qualquer
causa de hesitação ou dubiedade na interpretação do pensamento.

Seja, porém, qual for o modo de considerar analyticamente
as exclamações desta especie, o que é fora de duvida,
é que não são, como alguns pretendêrão, o sujeito de
um imperativo occulto, visto como, em tal hypothese, se
daria a estranha anomalia de estar um verbo na segunda
pessoa com um sujeito na terceira (vinde , lucifer e
adão
). O que parece mais sensato, é tê-los por meros
290idiotismos. Funda-se esta allegação sobre a observação
que, em, latim, conferia-se neste caso aos substantivos, adjectivos,
pronomes e participios, uma forma ou terminação
geralmente tão especial, que não tinha nenhuma outra serventia
syntaxica (fili mi : ó meu filho 1). O caracteristico
dos vocativos portuguezes é não tolerarem a anteposição
do artigo.

Ex. El rei Antigono, vendo que seu filho se ensoberbecia,
lhe disse
 : « Não sabes, pilho, que o nosso reino e o reinar
não é outra cousa que um captiveiro honrado ?
 » (P. Ant.
Vieira).

Então, Brazil, será tua ventura,
O sec’lo d’ouro teu, tua cultura.

Vós tambem, ó alados, que, em plumagens,
Da filha de Thaumante sois imagens,
Vós sereis celebrados.

Os cerúleos sahis, e tambem verdes,
Onde tu, esmeralda, o preço perdes.
(S. Carlos).

As mesmas considerações são applicaveis ás exclamações
complexas.

Ex. Quem ha de restituir o tempo a quem perde o tempo
que havia mister ?
oh ! tempo tão precioso e tão perdido !
(P. Ant. Vieira).

Capitulo III
Termos syntaxicos. — Do facto

362. A percepção mental de quanto ha sobre que lhe
é possivel assentar um juizo, o homem a traduz por um
facto syntaxico com sujeito ou sem sujeito, com complementos
ou sem complementos, com predicado ou sem predicado.

Exemplos :

(Com ou sem sujeito). a noite chegára. — relampejava.291

(Com ou sem complemento). Tudo se muda por instantes.
Tudo passa. (P. Man. Bernardes).

(Com ou sem predicado). Se os olhos vêm com odio, —
o anjo é feio ; — se com amor, oque não é, — tem ser.
(P. Ant. Vieira).

363. Competindo aos verbos no infinitivo estas mesmas
eventualidades de sujeito, de complementos ou do predicado,
succedeu que a maior parte, senão a totalidade dos grammaticos,
forão levados por esta consideração a attribuir ao
verbo, neste ultimo modo, propriedades mais ou menos
identicas ás que lhe são proprias nos quatro primeiros,
considerando-o, em tal caso, como sendo tambem facto syntaxico,
isto é, como presidindo a uma proposição enunciando
de per si mesma um juizo apreciavel. Porém, quando se
tratou de firmar o principio pela demonstração, as hypotheses
imaginadas, apezar do se enredarem nos mais subtis
processos analyticos, apenas resolvêrão parcialmente um ou
outro caso isolado, mas deixarão os mais sem explicação
plausivel. E’ que, de um principio falso, por mais que se
torça, não póde ressumbrar uma verdade.

Pois observe-se um infinitivo, quer ande cercado, quer
não, de um séquito proprio, constando de sujeito, de complemento
ou de predicado, e ver-se-ha que, tirando-se-lhe o
facto junto ao qual elle mesmo exerce uma das referidas
funcções, já não exprime pensamento algum, e sim apenas
uma idéa ou, com o seu séquito, um mero conjuncto de
idéas
.

Ex. prégar [não ha de ser] praguejar. (Gil Vicente).

não se fazerem mercês [é] faltar com o premio á
virtude ; fazerem-se
[é] semear beneficios para colher
queixas. — não fazerem os reis mercês
[seria] não serem
reis
. (P. Ant. Vieira).

364. Outrosim evidencía-se materialmente a divergencia
radical que separa o infinitivo dos quatro modos do
facto, por duas observações bastante attendiveis no desempenho
dos exercicios analyticos. A primeira é que todo o
verbo no infinitivo póde vir a ser regido de uma preposição ;
num modo de facto, porém, nunca. A segunda é
que todo o verbo em um modo de facto, exceptuando-se o
imperativo, póde vir a ser relacionado com um facto anterior
por meio de uma ligação subordinativa (que ou se) ;
um verbo no infinitivo, porém, nunca. Ambas as hypotheses
se achão verificadas no seguinte exemplo :292

para se mostrar liberal, busque o principea quem
dar
 : parecerá avarento, se esperar — que lhe peção. (P.
Ant. Vieira).

Logicamente restaurada, a oração se desenvolve como
se segue :

Busque o principe, para se mostrar [para se estar mostrando]
liberal, um homemao qual [deva] dar : — parecerá
avarento
, — se esperar [se estiver esperando] — que lhe
peção.

Vê-se por esta reconstituição normal da oração que o
verbo se mostrar é realmente um infinitivo, visto como,
convertido em gerundial, ainda denuncia este modo [estar
mostrando]. Vê-se mais que, sendo regido da preposição
para, vem assim a constituir um complemento indirecto do
busque.

O infinitivo dar, que, á primeira vista, e era contradicção
com a regra formulada, parece prender-se a proposição
anterior por uma ligação subordinativa [a quem], não
é em realidade senão o complemento directo do elidido
deva, o portanto nada tem com a mesma ligação.

Emfim esperar, que, á primeira vista tambem, póde
parecer um infinitivo, mostra, por sua conversão era gerundial,
pertencer ao 7.° tempo do subjunctivo [estiver
esperando], o que o associa legitimamente á proposição anterior
[parecerá] pela ligação subordinativa se.

Outro exemplo :

Mais facil era antigamente conquistar dous reinos na
India
que repartir duas commendas em Portugal. (P. Ant.
Vieira). — (Conquistar dous reinos na India era antigamente
mais facil
que [facil era] repartir duas commendas em
Portugal
).

Ahi, nada tem novamente o infinitivo repartir com a
ligação que, porque, como é intuitivo, ella actúa sobre o
facto elidido era, ao qual o mesmo repartir serve de mero
sujeito.

Por todas estas considerações, o facto é, como termo
syntaxico, o representante symbolico de toda e qualquer
proposição
.

1. Do modo indicativo

365. O indicativo encerra oito tempos, dos quaes são
cinco simples, e tres compostos. As designações que os
repartem pelas tres epocas da duração (presente, preterito e
293futuro), são antes uma concessão a usos tradicionaes, do
que a expressão de uma verdade absoluta ; porquanto, embora
sejão as mesmas designações bem cabidas na maior
parte dos casos, em muitos não o são no sentido rigoroso
da palavra.

Não ha duvida que todos os factos do seguinte exemplo,
pertencendo ao 1.° tempo do indicativo, denuncião o
presente :

Os olhos vem pelo coração ; e, assim como quem por
vidros de diversas côres, todas as cousas lhe
parecem daquella
côr, assim as vistas se
tingem dos mesmos humores de
que
estão bem ou mal affectos os corações. (P. Ant.
vieira).

Porém, no seguinte exemplo, o mesmo tempo se
encontra alludindo a um preterito sem a menor impropriedade :

Antigamente, na republica hebrea, e em muitas outras, os
tribunaes e os ministros estavão ás portas das cidades. Mas,
que razão tiverão aquelles legisladores para situarem este lugar
aos tribunaes, e para pôrem ás portas das cidades os seus ministros ?

Varias razões
apontão [apontárão ] os historiadores
e politicos ; mas a principal, em que todos
convêm [convierão],
era a brevidade do despacho. (P. Ant. Vieira).

No seguinte exemplo, pelo contrario, o mesmo presente
fica substituindo a um futuro :

Pois tendes por certo que não vos pode [poderá] faltar
pão porque levais a letra de um mercador, e não tendes por
certo, com tantas escripturas de Deos, que vos não
ha de
faltar
[não haverá de faltar] ] nada ? Apertemos mais este
ponto. Na praça de Londres
, quereis [querereis] ] ir para
Liorne
, levais [levareis] ] letra de um herege ; na de Amsterdam
para a Allemanha
, levais [levareis] ] letra de um judeo ; na
de Veneza para Constantinopla
, levais [levareis] ] letra de um
turco ; e
ides [ireis] ] seguro que vos não ha de faltar [haverá
de faltar]
] pão. Pois, com as letras de um herege, de um judeo e
de um turco, cuidais que
ides [ireis] ] seguro, e, com as de
Deos, não ! E’ que não tendes fé
. (P. Ant. Vieira).

Cumpre, outrosim, notar que, se é geralmente da indole
dos verbos prepositivos o designarem um futuro já no
1.° tempo do indicativo, não lhes falta todavia, a faculdade
de, no mesmo tempo, enunciarem tambem ás vezes o presente.

Ex. Por amigos, havemos de ter a poucos ; mas, por
inimigo, a nenhum
. (P. Man. Bernardes).294

Claro é que o conselho ahi dado tem tanto de actual
como de futuro, por se tratar de uma obrigação perduravel.

366. O 2.° tempo do indicativo (preterito imperfeito)
implica geralmente a lembrança :

1.° Ou de um facto em via de perpetrar-se quando
outro se deu :

Ex. Partimos para a cidade de Trento, onde então se
celebrava o sagrado concilio

Como vinhamos de mistura com os mouros, uns detraz,
outros diante, passarão tres dos nossos, eu com elles
. (Pantaleão
de Aveiro).

2.° Ou de um facto que foi de perpetração prolongada :

Ex. caminhava a turca com grande ambição e fausto,
mettida numas andas douradas por dentro e por fóra

Ia fallando com um mouro pobre, roto, esfarrapado e
descalço

O que a turca fazia por mostrar religião e santidade.
(Pantaleão de Aveiro).

3.° Ou de um facto que tem sido habitual :

Ex. Costumava o sabio D. Affonso, rei de Aragão, não
negar seus favores ás pessoas que
sabia muito bem que dizião
mal delle
. (P. Man. Bernardes).

O infante D. Duarte, quando estavamos á lição, fazia-me
sentar tão chegado a si, que eu me
affrontava e corria.
(André de Rezende).

Entretanto não raras vezes succede que o mesmo
tempo venha supprir o presente. Dá-se o caso quando o
facto se acha subordinado a um verbo que anteriormente
enunciou um passado, sendo que este, por uma especie de
attracção violenta, constrange a declarar no passado o que
é realmente no presente.

Ex. Bem disse S. Ambrosio que mais valia um dinheiro
tirado do pouco, do que um thesouro tirado do máximo
.
(P. Man. Bernardes). — (… que mais vale…).

Dissemos atraz que, entrando pela porta principal da
igreja
, abria um arco á mão direita. (Fr. Luiz de Souza). —
(… abre um arco…).

367. O 3.° tempo do indicativo (preterito perfeito simples)
denuncia factos que forão successivamente perpetrados
295e, por isso, mereceu de alguns philologos a denominação
bastante idonea de passado historico ou narrativo.

Ex. Emfim (el rei D. Sebastião) tornou para Lisboa,
mais acceso em desejos, e com muita pressa
 : ordenou coroneis ;
levantou terços : nomeou capitães ; chamou hispanhoes,
tudescos e italianos

Emfim passou-se o rio ; pôz-se a artilharia : em ordem, e
formou-se campo na conveniencia necessaria. publicou-se indulgência
plenária ; e, assim confessados, commungados e ungidos,
se
resolvêrão a morrer a pé quedo. (Luiz Torres de
Lima).

368. O 4.° tempo do indicativo (preterito perfeito composto)
substitue geralmente ao anterior nos casos em que
se allude ai um facto repetidamente perpetrado, ou completamente
concluido.

Ex. Estes são os aduladores,… attentos somente a não
desgostar ou entristecer o agrado em que
tem fundado seus
interesses
. (P. Ant. Vieira).

Temos dito o primeiro alvitre que promettemos, que é
como havemos de alcançar o pão ; vamos agora ao segundo,
como havemos de alcançar muito
. (P. Ant. Vieira).

« Signal é, dizia Themistocles, o ver-me amado de todos,
que ainda não
tenho feito acção tão generosa e honrada,
que me grangeasse amigos
. » (P. Ant. Vieira).

Algumas vezes tenho dito a meus companheiros que, se
existe ainda resto da simplicidade primitiva da vida dos primeiros
homens, é nestes paizes
. (D. Fr. Caetano Brandão).

369. O 5.° tempo do indicativo (preterito mais que perfeito
simples
) assignala o facto como anterior a uma epoca
já finda. E’ um duplo passado.

Ex. No Areopago de Athenas foi Democrito condemnado
como perdulario, e estragador do seu patrimonio ; mas, constando
que
gastára a sua fazenda em aprender sciencias, e
conhecer a economia do mundo, foi absolvido e louvado por
haver adquirido a pouco custo tão precioso erario
. (P. D. Raphael
Bluteau).

Fabricou Salomão um palacio real em Jerusalem, que,
depois do templo que elle
edificara, foi o segundo milagre.
(P. Ant. Vieira).

Em certa occasião pedira el rei D. João de beber ;
e, ao administrar-lhe a taça um fidalgo velho que o
servira
com satisfação nas guerras de Africa, succedeu cahir-lhe o
vaso da mão já tremula
. (P. Man. Bernardes).296

370. O 6.° tempo do indicativo (preterito mais que perfeito
composto
) não tem outro alcance significativo que o
precedente, porquanto com elle encontra-se de mistura em
umas mesmas orações, sem discrepancia apreciavel na determinação
dor tempo.

Ex. E logo, pedindo um missal fez (D. João de Castro)
juramento sobre os Evangelhos que, até a hora presente, não
era devedor à fazenda real de um só cruzado, nem
havia recebido
cousa de christão, judeo, mouro ou gentio ; nem, para
a autoridade do cargo ou da pessoa, tinha outras alfaias que
as que de Portugal
trouxera ; e que ainda a prata que no
reino
fizera, havia gastado ; nem tivera jámais possibilidade
para comprar outra colcha que a que na cama vião
.
(Jacintho Freiro de Andrade).

Cumpre, todavia, notar que, na terceira pessoa do
plural, é o emprego deste tempo preferivel ao do 5.°, por
fornecer uma forma isenta da ambiguidade que provem de
ser a mesma pessoa do 5.° tempo sempre identica á do 3.°

Ex. Dalli a alguns dias ouvirão (as cotovias) que o amo
se agastava com os criados, porque não
tinhão feito (não :
fizerão) o que lhes encommendára (ou : tinha encommendado).
(P. Man. Bernardes).

Em um sabbado, entrando Christo na casa de um certo
principe dos phariseos que o
tinha convidado para jantar
com elle, observavão maliciosamente attentos os outros phariseos
tambem convidados todas as acções do Senhor
. havião introduzido
(não : introduzirão) na casa um hydropico para
ver se Christo o sarava em semelhante dia
. (P. J. B. do
Castro).

Ao grande Alexandre, já vencedor de Dario, caminhando,
para Persepolis, sahirão ao encontro quasi oitocentos homens,
os mais delles velhos, aos quaes os antepassados reis da Persia

tinhão torpemente mutilado (não : mutilárão) os narizes e
labios
. (P. Man. Bernardes).

371. O 7.° tempo do indicativo (futuro simples) allude
meramente a um facto ainda não perpetrado.

Ex. Como se animará o soldado a buscar a honra por
meio das bombardas e dos mosquetes, se vê em um peito o
sangue das balas, e noutro a purpura das cruzes ? Como se

alentara a padecer os trabalhos e perigos de uma campanha,
se vê premiado a Jacob, que ficou em casa, e sem premio a
Esaú, que correu os montes ? se ás pelles de Jacob se dá o
morgado, ás settas de Esaú se nega a benção ? Se alcança
mais este com o seu engano, que o outro com a sua verdade
,
297quem havera que trabalhe ? quem havera que se arrisque ?

quem
havera que peleje ? Não ha duvida que, à vista de semelhantes
mercês
, dirão os valorosos que vão errados ; terão
contrição do que deverião ter complacencia ; arrepender-se-hão
de seus brios ; condemnarão suas passadas finezas ; e,
se chegarem a pelejar valentemente
, sera por desesperação, que
não ha cousa. que assim desespere os benemeritos, como ver os
indignos premiados
. (P. Ant. Vieira).

372. O 8.° tempo do indicativo (futuro composto) allude
a um facto que ficará já perpetrado quando outro se der.

Ex. Perdeu V. Ex. um tão grande, tão fiel e tão honrado
amigo e parente...
Só nos fica o allivio e consolação da
fé, esperando que, assim como Deos o livrou das perseguições
tão mal merecidas deste mundo, lhe
haverá dado no céo o
descanso
. (P. Ant. Vieira).

2. Do modo condicional

373. Dos quatro tempos deste modo, os dous primeiros
são condicionaes genuinos, e os dous ultimos, condicionaes
supplementares.

São aquelles genuinos porque, além de não se poderem
confundir com outras quaesquer inflexões do verbo por
suas formas especialissimas, não ha caso algum de condicional
que não possão exprimir com a mais perfeita propriedade
de sentido.

São estes supplementares porque, não modificando em
cousa alguma o alcance significativo dos dous primeiros,
apenas os substituem para tornar a elocução mais aprazivel
pela variedade e euphonia.

Ex. pudera-se fazer problema onde ha mais pescadores,
e mais modos e traças de pescar, se no mar, ou na terra
. (P.
Ant. Vieira).

Pois, substituindo-se a pudera a forma genuina que
lhe corresponde, em nada padece o sentido, mas não assim
a dicção : poder-se-hia fazer problema

374. O 1.° tempo do condicional (presente-passado-futuro
proprio
) deve, como mais alguns tempos, tão estirada
denominação á conveniencia de reagir, a bem da verdade,
contra a mania que faz transferir, sem criterio, das grammaticas
francezas, tudo quanto parece ter applicação á
grammatica portugueza. Pois lá e, o mesmo tempo capitulado
de presente, Ora, isso mesmo é falso, porque tanto
298serve elle a declarar alli o futuro como o presente. Em portuguez,
o seu alcance é mais amplo ainda, visto ser igualmente
apto a designar uma ou outra das tres epocas da
duração.

Ex. Eu faria isso agora mesmo, — eu faria isso já
hontem, — eu faria isso de boa vontade amanhãa, — se me
sobrasse tempo
.

Que seria do mundo, se, em lugar dos mortos, não nascêrão
outros que lhes succedessem?
(P. Ant. Vieira). — (Que
seria [agora] do mundo…).

Se, no nascimento de judas e dimas, se levantasse figura
certa ao que cada um havia de ser em sua vida, a do
primeiro
diria que havia de ser apostolo, e a do segundo, que
havia de ser ladrão ; e assim forão na vida
. (P. Ant. Vieira).
— (… a do primeiro diria [então] que havia de ser apostolo…).

Se cinco mil homens, com mulheres e filhos, entrassem de
repente em uma grande cidade, não
haveria promptamente
que lhes dar de comer
. (P. Ant. Vieira). — (Se cinco mil
homens...
entrassem de repente [amanhãa] em uma grande cidade,
não
haveria promptamente…).

Aos que nascerão mudos, fez a natureza tambem surdos ;
porque, se ouvissem, e não pudessem responder
, rebentarião
de dôr. (P. Ant. Vieira). — (… rebentarião [então, agora,
amanhãa]
] de dór).

375. O 2.° tempo do condicional (preterito proprio)
suppre ao primeiro quando este, tendo de exprimir o passado,
não o faria sem ambiguidade por causa de alguma
circumstancia accidental.

Ex. Que teria sido da Europa christãa, se Carlos
Magno não repellisse os Sarracenos ?
— A expressão : Que
seria da Europa christãa… poderia alludir, contra a vontade,
á epoca presente.

376. O 3.° e o 4.° tempo do condicional correspondem
aos dous primeiros, o os substituem por mero agrado de
dicção.

Ex. Estes são os aduladores, que louvão o que não deverão
[deverião] ] louvar, e applaudem o que não devêrão
[deverião] ] applaudir, e ajudão o que devêrão [deverião] ] estorvar.
(P. Ant. Vieira).

Faça-se Vossa Alteza amar, e nesta só palavra digo a
Vossa Alteza mais do que
pudera [poderia] ] em largos discursos.
(P. Ant. Vieira).299

Confesso que tomara [tomaria] ] ver esta linguagem em
toda outra pessoa antes que na bocca dos que tanto me tocão
.
(Fr. Luiz de Souza).

A maior ostentação de grandeza e majestade que se viu,
neste mundo, e uma das tres que S. Agostinho
desejara [teria
desejado]
] ver, foi a pompa e magnificencia dos triumphos romanos.
(P. Ant. Vieira).

Por esta razão dizia S. Agostinho que fora [teria sido
tivera sido]
] mais justo levantar a Platão um templo, do que
aos deoses da gentilidade
. (P. D. Raphael Bluteau).

377. Como se, por conter só quatro tempos, este modo
fosse assim nimiamente escasso de formas, a lingua portugueza,
sempre sequiosa de variedade, autorisa ainda o
emprego do 2.° tempo do indicativo em substituição ao
condicional.

Ex. Se os homens se comerão somente depois de mortos, parece
que
era [seria, fôra] ] menos horror, e menos materia de sentimento.
(P. Ant. Vieira’).

Nascemos sem saber para que nascemos ; e bastava [bastaria,
bastára]
] só esta ignorancia para fazer a vida pesada,
quando não tivera tantos encargos sabidos
. (P. Ant. Vieira).

Este modo de accrescentar fazenda,… tambem me atrevêra
eu a dizer que
era [seria, fôra] ] bom, se, neste mundo; não
houvera uma conta, e, no outro mundo, outra. Se no outro
mundo, não houvera inferno, e, neste mundo, não houvera justiça
,
era [seria, fôra] ] muito bom. (P. Ant. Vieira).

Se aquellas rumas de façanhas em papel fôrão conformes
a seus originaes, que mais
queriamos [quereriamos, quizeramos]
nós ? já não houvera Hellanda, nem França, nem Turquia:
 :
todo o mundo fôra nosso. (P. Ant. Vieira).

Ainda falta por dizer o que mais vos havia [haveria,
houvera]
] de destruir e assolar. (P. Ant. Vieira).

Em verdade que, quando o casamento não trouxera outro
algum bem mais que livrar de tantos males, justamente
merecia
[merecería, merecêra] ] o nome de santa e doce vida. (D.
Franc. Man. do Mello).

3. Do modo imperativo

378. Por ser o facto, no imperativo, ou mandado, ou
pedido, claro é que ainda não existe, mas que está para
se perpetrar ; e portanto só allude ao futuro, o nunca ao
presente, como pretendem tantos grammaticos ; porquanto
o que já é, não se manda fazer,300

Ex. Gosta antes dos que te argúem, que dos que te
adulão ; e
tem maior aversão aos aduladores que aos inimigos,
porque são peiores
. (P. Ant. Vieira).

O mesmo mando ou rogo presuppõe que, junto de quem
o enuncia, haja quem o ouça, e o possa cumprir : logo não
póde o mesmo modo abranger theoricamente mais de uma
pessoa : a segunda do singular, e a segunda do plural.

Ex. As arvores que ao espinheiro offerecêrão o governo,
disserão-lhe
 : « vem ». Elle disse-lhes : « vinde ». (P. Ant.
Vieira).

379. e, realmente, de conformidade com o rigor da
logica, não tem o imperativo portuguez mais das duas inflexões
proprias da segunda pessoa, sendo que, com ellas,
lhe fica até tolhida a faculdade do exprimir o mando ou
rogo sob o theor prohibitivo da negação : nesta ultima hypothese,
forçoso é supprí-lo pelo 1.° tempo do subjunctivo.

Ex. O’ meu amado Senhor, não me falleis já pelas
vossas creaturas, que pouco ou quasi nada me podem dizer de
vós, sendo vós infinito, e elles limitados ; vós luz, e elles sombras ;
vós eterno, e elles defectiveis
 : fallai-me por vós mesmo.
(P. Man. Bernardes).

O’ voadores, contentai-vos com o mar e o nadar, e não
queirais
voar, pois sois peixes. (P. Ant. Vieira).

O sabio Simonides aconselhava assim a Hierão, rei dos
Syracusanos
 : « não duvides enriquecer os teus, porque deste
modo a ti mesmo te enriqueces
faze conta que o teu reino
é a tua casa
. » (P. Man. Bernardes).

Folgai, Antiocho, de terdes experimentado os revezes da
fortuna, e
não julgueis ninguem pelo que exteriormente parece.
(D. Fr. Amador Arraes).

Esta honrada mulher nos mandou trazer de comer, e ella
mesma no-lo pôz diante por sua mão, e nos disse
 : « comei
vós outros, pobres estrangeiros, e não vos desconsoleis ! »
(Fernão Mendes Pinto).

380. O mesmo tempo do subjunctivo suppre ainda ao
imperativo quando o mando ou rogo, por uma ficção que
recorda o modo optativo da lingua grega, vai dirigido á
primeira ou á terceira pessoa, quer do singular, quer do
plural.

Exemplos :

(1.ª P.) — ame-vos eu, Senhor, de todo o coração, para
que me sujeite á vossa vontade
. (P. Man. Bernardes). — ouça
301eu
a vossa doce voz, que traz comsigo a intelligencia do que
diz
. (P. Man. Bernardes).

(3.ª P.) — faça o principe seu corpo da guarda o
amor dos subditos
. — admitta homens aos cargos pelo ser,
não pelo parecer
. — seja clemente, mas não deixe de ser severo.
(P. Ant. Vieira).

(1.ª P.) — Mas, já que não podemos ver a alma em si,
vejamo-la em nós ; no que o corpo ha de ser, vejamos o que
ella é
. (P. Ant. Vieira). — Para fundamento do que pretendo
dizer sobre o soberano nascimento de que celebramos a memoria
neste felicissimo dia
, consideremos primeiro que cousa é
nascer, e
philosophemos um pouco. (P. Ant. Vieira).

(3.ª P.) — Dêm-se os premios ao valor, e não á valia.
sejão os principes como Christo no repartir, e sejão os
vassallos
como os discipulos no contentar-se, e cessarão as
queixas
. (P. Ant. Vieira).

Dá-se, todavia, o caso que, dirigindo-se a si mesmo,
venha alguem a interpellar-se como a um estranho : em
tal caso volta o verbo para o imperativo.

Ex. Quando esta noticia chegou ao Albuquerque, disse
com grande sentimento
 : « Eis-aqui fico mal com el rei por
amor dos homens, e mal com os homens por amor de el rei.
Velho
, acolhe-te á Igreja, e acaba já de morrer ; pois importa
á tua honra que morras, e nunca tu deixaste de fazer
o que importou á tua honra
. (P. Man. Bernardes).

Espirito meu, eu ando em uma região desconhecida, onde
não sei bem o nome das cousas
da-me, te rogo, alguma luz
nessa materia
. (P. Man. Bernardes).

Olha, alma minha, para essas altas serranias e talhados
penhascos que assoberbão os valles e a campanha
. (P. Man.
Bernardes).

381. Que o 1.° tempo do subjunctivo não preenche,
aliás, nos casos expendidos, nenhuma das funcções proprias
do modo ao qual pertence, e é sim mero subsidiário do imperativo,
torna-se manifesto por nunca se achar subordinado
a um verbo anterior, o que se patenteia geralmente
pela ausencia de toda e qualquer ligação subordinativa.

Ex. O’ Senhor, appareça-me a vossa presença dentro da
vossa paz, e
faça-se em mim a vossa paz por vossa virtude.
(P. Man. Bernardes).

Apenas, em alguns casos excepcionaes, encontra-se-lhe
anteposta a conjuncção que, porém como palavra expletiva,
isto é, simplesmente adduzida por amor da euphonia,
302como bem se deprehende de se não acarretar de sua suppressão
transtorno algum.

Ex. Toda esta variedade de innumeraveis especies não
custou a Deos mais que estas sós palavras
 : « produza a terra
hervas verdes que tenhão de si mesmas suas sementes ; e as
arvores
que produzão fructo segundo suas especies. » (Fr.
Luiz de Granada). — (… e produzão as arvores…).

A honrada dona, batendo então nos peitos por signal de
grande espanto, disse
 : « que me matem, se assim não é ».
(Fernão Mendes Pinto). — (… matem-me…).

Tanto que chegar esta nova, V. a. logo, sem esperar
outro preceito, se
ponha de curto o mais bizarro que puder
ser, e se
saia a cavallo por Lisboa, sem mais apparato nem
companhia, e
que V. a. se humane, conhecendo os homens, e
chamando-os por seu nome, e fallando, não
só aos grandes e
medianos, senão ainda aos mais ordinarios
. (P. Ant. Vieira).
— (… e V. a. se humane…).

Por estas considerações deve ser analyticamente tido
como imperativo disparçado todo e qualquer facto que,
no 1.° tempo do subjunctivo, não accusa subordinação alguma
a um verbo anterior.

382. Uma observação, de interesse mais philologico
do que grammatical, concorre outrosim a evidenciar que a
futuridade é predicamento essencial do imperativo, e ella
vem a ser que o mesmo modo fica do vez em quando supprido
pelo 7.° tempo do indicativo (futuro simples).

Ex. Com o animo de tentar a Christo, se levantou em
certa occasião na synagoga um doutor, e lhe disse
 : « Mestre,
que hei de fazer para me salvar ?
 » Respondeu-lhe o Senhor
que repetisse o texto da lei. Disse o doutor
 : « O que a lei
manda é
 : amaras a Deos teu Senhor com todo o teu coração,
com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com
todas as tuas forças ; e ao teu proximo como a ti mesmo
. »
(P. J. B. de Castro). — (ama a Deos…).

Considero eu que ha mandamentos da lei da inveja, assim
como ha mandamentos da lei de Deos. Os mandamentos da
lei de Deos dizem
 : « não matarás ; não furtarás ; não
levantarás
falso testemunho ». Os mandamentos da lei da
inveja dizem
 : « não serás honrado ; não serás rico ; não
serás
valente ; não serás sabio ; não serás bem disposto.
(P. Ant. Vieira). — (… não mates, não furtes, não
levantes
falso testemunho…. não sejas honrado ; não
sejas…
).

383. Ao envez deste caso, e como por compensação,
303o imperativo vem de vez em quando a supprir o 7.° tempo
do subjunctivo (futuro simples), nas orações de sentido condicional,
conferindo assim á proposição em que se acha, a
qualificação que lhe caberia em analyse logica, se sahisse
encetada pela ligação condicional se, e sujeitando-a ás
mesmas regras de pontuação determinadas por esta ligação.

Ex. Lançai os olhos por todo o mundo, e vereis que
todo elle vem a resolver-se em buscar pão para a bocca
. (P.
Ant. Vieira). — (se lançardes os olhos por todo o mundo,
vereis que todo elle vem a resolver-se em buscar pão para a
bocca
).

Ponde uma corô na cabeça de Cyro, conquistará os
reinos de Balthazar
 ; ponde uma corôa na cabeça de Alexandre,
conquistará os reinos de Dario
 ; ponde uma corôa,
não na cabeça, senão no pensamento de Cesar, e opprimirá
a liberdade da patria, e, da mais florente republica, fará o
mais soberbo e violento imperio
. (P. Ant. Vieira). — (se puzerdes
uma corôa…).

4. Do modo subjunctivo

384. O subjunctivo é propriamente o modo da eventualidade.

Por eventualidade entende-se o que póde ser que seja
ou não seja, que fosse ou não fosse, que haja de ser ou não
haja de ser.

Ex. Autores ha que se persuadem não estar o céo privado
de semelhantes recreações ; mas
, quando o esteja destas,
bem sabemos que tem outras muitas e maiores
. (P. Man. Consciencia).

Em um deserto se achavão estes homens, sem casa, sem
venda, e sem dinheiro para comprar o mantimento
, ainda que
o houvesse
, e sobretudo com fome de tres dias ; mas, porque
seguião a Chrislo, tiverão que comer todos, sem lhes faltar
nada
. (P. Ant. Vieira).

Pois esta mesma ignorancia e loucura é a de todos ou
quasi todos os que se chamão christãos neste mundo
. Se
lhes perguntarmos para onde vão, dizem que para o céo ;
e
, se olharmos para os seus cuidados, e para os seus empregos,
e para as suas carregações, competindo todos em quem
mais ha de carregar e sobrecarregar, acharemos que todo o
seu cabedal empenhão naquellas mercadorias que nenhum preço
nem valor têm no céo
. (P. Ant. Vieira).304

385. Destas exemplificações adduzidas para demonstração
da eventualidade nas tres epocas da duração, póde-se colher
mais a indicação essenical que, por ser necessariamente subordinado,
o facto não prescinde, no subjunctivo, da anteposição
de uma ligação subordinativa (V. quando, ainda que,
se
). E, quando por vezes occorra que a mesma ligação
fique elidida, é porque assim o tolera exccpcionalmente o
uso a bem da euphonia, visto como os mesmos verbos após
os quaes se costuma omittir a ligação, não deixão do admittí-la
na mór parte dos casos.

Ex. O’ Deos e Senhor meu, por vossa infinita bondade
vos
rogo humildemente […] me concedais que vos ame de
todo o coração
. (P. Man. Bernardes). — rogou a panella de
cobre á de barro
que se chegasse para ella, para que juntas
resistissem melhor ao impeto das aguas
. (P. Man. Bernardes).

Sobre o modo da guerra que se deve fazer, peço muito a
V. S
. […] seja de voto que vençamos antes em seis mezes,
do que arriscarmos tudo em um dia
. (P. Ant. Vieira). —
pediu Sansão a seus pais que lhe dessem por mulher uma
philistéa
. (P. Ant. Vieira).

Nestes e semelhantes exemplos, taes importava […]
fossem
os sacrifícios, qual era o deos a quem se dedicavão.
(P. Man. Bernardes). — Os que menos satisfeitos estiverem de
S. M., esses chegue V
. a. mais a si, que importara pouco
que no affecto se dividão as vontades, comtanto que, no effeito,
S. M. e V
. a. as achem unidas e obedientes. (P. Ant.
Vieira).

Respondeu Lucullo que ao menos lhe permittissem dizer
em que cenaculo
queria […] lhe puzessem a mesa. (P. Man.
Bernardes). — Por ventura não quiz Cleopatra que faltasse
a tão exquisito peixe vinagre exquisitissimo. (P. Man. Bernardes).

Sendo assim demonstrada a intervenção effectiva ou
occulta do uma ligação subordinativa para a formação do
todo o qualquer subjunctivo, muito convem attender a que
não se pretende com isso estabelecer que qualquer das
mesmas ligações provoque sempre e necessariamente um
subjunctivo (pois que não poucas podem tambem actuar
sobre um indicativo ou um condicional), mas que sem alguma
dellas não se produz o subjunctivo.

Assim é que, faltando a condição de eventualidade, a
ligação subordinativa avoca, no primeiro dos dous seguintes
exemplos, o indicativo, e no segundo, o condicional :

Antigamente houve entre gentes barbaras o impiissimo costume
que os filhos enterravão vivos seus pais quando estes,
305por velhos e enfermos, não podião ganhar de comer. (P. Man.
Bernardes).

Aquelles que tudo erão delicias, mimos, trajos, damas, banquetes,
festas, cheiros, musicas, passatempos, mettidos em masmorras,
sem allivio nem consolação alguma
,… que sentirião ?
que imaginarião ? que farião ? que dirião ? em que cuidarião ?

(Luiz Torres de Lima).

386. As causas que, suscitando a eventualidade, promovem
o emprego do subjunctivo, podem reduzir-se a tres :
1.°, ao sentido de um verbo anterior ; 2.°, á especialidade
da ligação ; ou, 3.°, a uma circumstancia accidental.

I
(verbo anterior)

387. Os verbos que costumão impôr o subjunctivo ao
facto que lhes anda subordinado, são os que, por si mesmos,
ou pela proposição a que presidem, enuncião : 1.°, um acto
de vontade ; — 2.°, um sentimento ; — 3.°, uma duvida ; —
4.°, uma negativa ; — 5.°, uma interrogação ou exclamação
directa, sendo que, ou um vocabulo implicando que, a ligação
subordinativa.

388. Cabem na 1.a classe os seguintes e analogos
verbos : conceder, desejar, exigir, mandar, ordenar, querer, requerer, —
cumpre que, — comvem que, — é necessario que, —
tenho vontade que, — dou de barato que

Ex. De S. Babylas, martyr, se escreve que, morrendo
preso por amor de Christo, não
quiz que lhe tirassem as
cadeias
 : mandou que o seu corpo fosse sepultado assim
preso com ellas
. (P. Man. Bernardes).

Quando jogamos com um amigo, a nossa tenção e que
o que é seu, seja nosso ; e a sua, que o que é nosso, seja
seu. Aqui se quebra a santissima lei da verdadeira amizade.
(P. Ant. Vieira).

Necessario é que haja premios para que haja soldados,
e
que, aos premios, se entre pela porta do merecimento. (P.
Ant. Vieira).

Importa que não roube a negociação o que se deve ao
merecimento
 ; que se desenterrem os talentos escondidos que
sepultou a fortuna ou a semrazão
 ; que não haja benemerito
que não seja bem afortunado
 ; que se corte a lingua á fama,
se fór injusta
 ; que se qualifiquem papeis, que se examinem
certidões, que nem todas são verdadeiras. (P. Ant. Vieira).306

Assim se tempere o rigor da justiça, que os ministros
mostrem compaixão, e não vingança. (P. Ant. Vieira).

Synesio, escrevendo ao imperador Arcadio, o conselho
que lhe dá sobre todos, — exhortando-o que o observe com
o primeiro e maior cuidado
, — é que não consinta junto a
si aduladores, e se
guarde e vigie delles. (P. Ant. Vieira).

389. Cabem na 2.ª classe os seguintes e analogos verbos :
desejar, estimar, lastimar, recear, sentir, — admirar-se, — repugna-me
que, — felicito-me que, — envergonho-me que, — é
bom, é máo, é triste, é util que

Ex. « Irmãos meus, É lastima que andeis mais esperdiçados
pela vossa perdição que pelo vosso Deos
. » (Fr. Ant.
das Chagas).

Oh ! já eu me contentara com que os presos da infamia
levassem comsigo á cova as suas cadeias. Mas não é assim.
(P. Man. Bernardes).

Desejo que venha quem suppra os meus defeitos, emende
as minhas faltas, e tenha partes para vos saber merecer. (Fr.
Luiz de Souza).

E’ bem que se saiba e se divulgue esta doutrina tão
mal aceita do mundo : que os pobres tambem hão de dar conforme
podem
. (P. Man. Bernardes).

No tempo em que o lobo e o cordeiro estavão em trégoas,
desejava aquelle que se offerecesse occasião de as romper.
(P. Man. Bernardes).

Se acaso Deos vos fez mercê que soubesseis pôr os pés
por uma rua
, que soubesseis apertar na mão uma espada,
que fosseis discreto, generoso, ou rico, ou honrado, no mesmo
ponto tivestes culpas no tribunal da inveja
. (P. Ant. Vieira).

Caso Notavel e que, repartindo Jacob, na hora da
morte, a benção que tocava ou havia de tocar a cada um de
seus filhos, a do sceptro e coroa de Israel, a
desse e collocasse
no quarto. (P. Ant. Vieira).

Era o autor deste invento (da polvora), de profissão, religioso ;
ao qual, como bem diz Espondano
, fôra melhor que,
no tempo em que fazia aquellas experiencias, se estivesse encommendando
a Deus. (P. Ant. Vieira).

390. Cabem na 3.a classe os seguintes o analogos verbos :
duvidar, — póde ser que, — está incerto que, — é impossivel
que, — é problemático que

Ex. Tendo um tempo guerra com Philippe da Macedonia,
os Athenienses tomárão acaso umas cartas que elle mandava
á sua mulher Olympia ; e lh’as tornarão a mandar
307cerradas, e sem tocar nellas
, podendo por ventura achar
dentro alguns avisos de que se pudessem aproveitar ; mas
tinhão em muito mais a guarda do segredo que a mesma victoria
.
(Diogo do Couto).

Tullio orou uma vez no senado ; e, cuidando todos que
a oração fosse mui comprida, rematou a substancia della
numa só palavra, dizendo
 : « Com verdade se ha de orar ;
com verdade se ha de fallar ; e com a mesma verdade se ha
de governar
. » (Luiz Torres de Lima).

Perguntou Cesar a um sabio da Grécia porque não fallava.
Respondeu-lhe
 : « Por não fallar contra ti. » Disse-lhe :
« falla como quizeres. » (Luiz Torres de Lima).

E’ provável que, (a este escrivão), lhe corra bem a
penna em qualquer cousa que se diga a favor deste antecipado
e nunca visto provimento
. (P. Ant. Vieira).

391. Cabem na 4.a classe os seguintes e analogos verbos :
negar, impugnar, — não saber que, — ninguem pretende que,
— nada faz acreditar que, — não é certo que, — não é possivel
que, — é impossivel que

Ex. Assim fazem os impios e maliciosos, a quem não ha
innocencia que satisfaça, nem [há] ] desculpa que contente.
(P. Man. Bernardes).

E’ a guerra aquella calamidade composta de todas as calamidades,
em que
não ha mal algum que, ou se não padeça,
ou se não tema, nem bem que seja proprio e seguro.
(P. Ant. Vieira).

Salomão confessa de si que nenhuma cousa virão seus
olhos
, nem inventárão seus pensamentos, nem apetecérão
seus desejos, que lhes negasse. (P. Ant. Vieira).

Não é possivel que quem aparta as orelhas de ouvir
verdades
, applique seu coração a amar virtudes. (P. Ant.
Vieira).

E’ impossivel que a inveja deixe de perseguir a quem
os principes amão
. (P. Ant. Vieira).

Não digo verdades que amarguem, nem tenho amizades
que me profanem ; não adquiro fazendas que outros me invejem.
(Lobo).

392. Cabem na 5.ª classe as seguintes e analogas
orações.

Ex. Que homem ha que não busque o descanso ? e,
houve um homem tão mimoso da fortuna neste mundo, que,
em alguma ou em todas as cousas delle achasse o descanso
que buscava ?
(P. Ant. Vieira).308

Que homem ha que, tendo o seu inimigo debaixo da lança,
lhe
perdoe e o deixe ir em paz ? (P. Ant. Vieira).

Houve jamais anachoreta dos que habitavão as covas,
que fizesse tal penitencia ? (P. Ant. Vieira).

Que todas as nações da Europa se alistem contra Portugal,
ah ! que gloria ! Mas, que na guerra de Portugal se
vejão tambem portuguezes contra portuguezes, oh ! que desgraça !
por lhe não chamar outro nome. (P. Ant.Vieira).

E, como irá seguro, e livre de infinitos perigos quem se
metter na carroça da Avareza ! (P. Ant. Vieira).

393. Todavia, em relação a estes casos de subjunctivo,
é da maior importancia não attribuir-lhes um alcance absoluto,
e attender a que não basta que a proposição anterior,
para avocar o subjunctivo na proposição subordinada,
apresente uma ou outra das cinco condições especificadas :
ainda cumpre que se verifique a circumstancia essencial da
eventualidade. Faltando esta, o facto da proposição subordinada
reverte para o indicativo ou o condicional, conforme
as exigências do pensamento. O seguinte exemplo, em
que o mesmo verbo se impõe a duas proposições subordinadas,
avocando nellas modos diversos, torna summamente
azada a demonstração deste principio :

Oh l pobre homem ! digamos-lhe — que tenha paciência,
que este trabalho brevemente acabará. (P. Man. Bernardes).

Que o subjunctivo tenha, e o indicativo acabará se
achão ambos sob a dependencia do imperativo disfarçado
digamos, é o que comprova com toda a evidencia o methodo
analytico

Digamos-lhe — que tenha paciência.

Digamos-lhe — que este trabalho brevemente acabará.

Sendo as condições apparentemente tão iguaes em um
e outro caso, donde póde provir a diversidade dos modos ?
A explicação se deduz com a maior lisura das considerações
aventadas.

No primeiro caso, o facto digamos envolve o sentido
de um conselho, e portanto implica um acto de vontade,
como o mando. Quanto á eventualidade, ella resulta da incerteza
sobre se o pobre homem terá ou não terá paciência.

No segundo caso, o facto digamos se apresenta como
simplesmente affirmativo, sem vislumbre de conselho ou
mando ; porquanto, significando a segunda subordinada que
o tempo corre rapido, e a morte chega depressa, obvio é que
309desapparece ahi a circumstancia de eventualidade, e com
ella, a opportunidade do subjunctivo.

O mesmo se póde concluir do seguinte excerpto do
P. Ant. Vieira, sobre o descanso :

Só vos digo (declaro, affirmo, afianço) que não estã ahi
onde o buscais. Pois, onde o acharemos ? Onde Christo
disse
(aconselhou, quiz, mandou) que o buscássemos, porque só
ahi está, e só ahi o acharemos
.

Aliás não será talvez sem proveito exercitar-se em
mais alguns exemplos sobre o modo do investigação a seguir
em tal assumpto, para resolver os casos de anomalias
apparentes que adduz o estudo dos classicos.

Não ha duvida que, á vista de semelhantes Mercês,
dirão os valorosos que vão errados. (P. Ant. Vieira).

Dous motivos parecem avocar ahi, em dirão, o subjunctivo
em vez do indicativo : a negativa e a duvida da
proposição anterior. Quando, porém, se reflecte que estas
duas feições se neutralisão pelo seu concurso simultâneo, evidencia-se
que « Não ha duvida » equivale a « E´ certo », e
que, portanto, afastada a circumstancia de eventualidade,
não ha lugar para o subjunctivo. Verifica-se, outrosim,
esta allegação pela simples eliminação de não, a qual, restabelecendo
assim a duvida, torna o subjunctivo obrigatorio :
« ha duvida que os valorosos digão… »

Quanto ao facto vão, que a sua substituição por andão
demonstra estar no indicativo (pois que no subjunctivo sahiria
andem), elle tem, no sentido meramente affirmativo
do dirão, a razão efficiente do modo em que se apresenta.

Igual solução cabe ao seguinte exemplo :

Ninguem póde duvidar que assim se vai cumprindo
e tem cumprido
em grande parte, no imperio portuguez do
Oriente, aquelle oraculo universal
 : « Passa o reino de uma a
outra gente
 : Regnum a gente in gentem transfertur. » (P.
Ant. Vieira). — (Todo o mundo póde verificar que…).

Não vos lembra que nos pés da estatua estava a desunião
entre o barro e o ferro ?
(P. Ant. Vieira).

Ahi tambem são dous os motivos que parecem actuar
theoricamente para que estava passe para o subjunctivo :
a negativa o a interrogação directa em lembra. Sendo,
porém, real, e não eventual o facto da desunião, não havia
lugar para o emprego do subjunctivo.

Igual solução cabe nos seguintes exemplos ;310

El rei Antigono, vendo que seu filho se ensoberbecia, lhe
disse
 : « não sabes, filho, que o nosso reino e o reinar não
é outra cousa que um captiveiro honroso ? (P. Ant. Vieira).

« Pois, Senhor, não vêdes que tendes’ doze discipulos
que sustentar, e
que os pães não são mais que cinco ? » (P.
Ant. Vieira).

394. Após alguns verbos de sentimento, a lição dos
classicos apresenta como indifferente o emprego do indicativo
ou do subjunctivo.

Ex. Eu espero que nos ha de vir a saude por mãos
de nossos inimigos, e
que ha de obrar a necessidade o que
não acaba de fazer a razão
. (P. Ant. Vieira).

Espero que V. Ex. me tenha sempre na sua graça, e
me
conserve no foro que por ella alcancei, de criado de V.
Ex., a quem Deos Guarde muitos annos
. (P. Ant. Vieira).

II
(ligação)

395. Como se póde deprehender de tudo quanto ficou
expendido e demonstrado em relação ás ligações subordinativas,
a conjuncção que não avoca de per si mesma nenhum
modo ; porquanto encontra-se actuando tanto em um
indicativo como em um condicional ou um subjunctivo.
Ella indica, sim, sempre uma proposição subordinada, isto
é, uma proposição enunciando um pensamento dispensavel
ou indispensavel para a intelligencia do outra proposição
que lhe é sempre logicamente anterior ; porém deve-se procurar
fora da mesma conjuncção o motivo que determina,
na proposição por ella encetada, o modo do facto da mesma
proposição. O mesmo se dá com mais algumas conjuncções
ou locuções conjunctivas de igual natureza. Mas muitas,
pelo contrario, avocão de per si mesmas um modo determinado,
seja aliás qual for o verbo anterior a que se
prendem ; e, nesse numero, as que mais interessa saber,
são as que pedem o subjunctivo.

396. Sendo se, depois de que, a conjuncção subordinativa
que mais a miudo occorre no discurso, torna-se ahi
necessario, para devidamente aquilatar-lhe a influencia, considerá-la
novamente sob os dous aspectos que a fazem, já
expressão condicional, já expressão dubitativa. (V. o §
275).311

397. Como expressão dubitativa, ella avoca, já o indicativo,
já o condicional.

Ex. Póde-se pôr em problema na politica de Portugal
se é melhor que os reis fação mercês, ou que as não fação.
(P. Ant. Vieira).

E, se isto succedia no reinado e governo de Salomão, vede
se se póde esperar ou temer outro tanto quando não forem
Salomões os que tenhão o governo !
(P. Ant. Vieira).

Perguntei áquelles homens se não temião os ladrões:
 :
rirão-se. (D. Fr. Caetano Brandão).

E, na verdade, não sei eu se haverá, em todo o descoberto,
paragem mais accommodada para o commercio e habitação
humana, que esta da Bahia e seus arredores
. (P. Simão
de Vasconcellos).

Gastou a potencia romana, na pertinacia desta conquista,
duzentos e trinta e cinco annos
 : vêde se serão necessarios
tantos !
(P. Ant. Vieira).

Estou considerando que leite mamaria uma destas causas
ou requerimentos na mão dos ministros e seus officiaes, que
não ha remedio a fazê-la correr
 ; se beberia o leite da preguiça
do Brazil, que gasta dous dias em subir a uma arvore,
e outros dous em descer !
(P. Man. Bernardes). — (… estou
considerando
se beberia o leite…).

Todavia encontra-se tambem, mas mui excepcionalmente,
com o subjunctivo.

Ex. « Compadre, disse o cego, eu tenho enterrado em
certo lugar uma quantia de dinheiro ; deixei outra commigo
pelo que podia succeder. Agora; como emfim sou cego, temo
que m´a furtem. Não sei
se farei melhor em a pôr onde a
outra está, ou
se a deixe em minha casa. » (P. M. Bernardes).

398. O se condicional, pelo contrario, só avoca o indicativo
ou o subjunctivo na proposição subordinada.

Exemplo :

(Indic.) — Se o amor É verdadeiro, tem obrigação de
ser eterno ; porque
, se em algum tempo deixou de ser, nunca
foi amor
. (P. Ant. Vieira). — (Tem o amor obrigação de ser
eterno
, — se é verdadeiro ; porque nunca foi amor, — se em
algum tempo deixou de ser).

(Subj.) — Se houvesse dous homens de consciencia, não
haveria inconvenientes em estar o governo dividido
. (P. Ant.
Vieira). — (Não haveria inconvenientes em estar o governo
dividido
, — se houvesse dous homens de consciencia).312

399. O se condicional pede o indicativo quando o facto
da proposição anterior está no indicativo ou no imperativo,
quer este seja ostensivel, quer disfarçado.

Ex. Se o homem timido não tem coração, o teimoso não
tem cabeça. (P. Ant. Vieira),

Se tendes posto muito perto ao rei, tudo se vos sujeita,
tudo vos vem á mão. se tendes posto muito. longe do rei,
tudo vos
sujeitais, e em tudo metteis a mão. (P. Ant.
Vieira).

Se a fortuna me concedeu a abundancia, porque me
farei pobre com a ostentação ? e, se me coube em sorte a
pobreza, porque me não
fará rico o contentar-me com ella ?
(P. Ant. Vieira).

Se queres ser pobre sem o sentir, mette obreiros, e
deita-te a dormir. (P. Man. Bernardes).

Se culpais a vida alheia, seja só com vosso exemplo, e
não com vosso entendimento
. (P. Ant. Vieira).

Outros comparão os aduladores ao espelho, retrato natural
e reciproco de quem nelle se vê : porque
, se lhes pondes os
olhos
, olha para vós ; se rides, ri ; se chorais, chora : lagrimas,
porém, sem dôr, e riso sem alegria
. (P. Ant. Vieira).

Importa, todavia, notar quê, como bem se deprehende
dos exemplos citados, o indicativo só é admissivel em seguida
ao se condicional para enunciar o presente ou um
passado. Logo, porém, que tem de enunciar um futuro, o
facto passa necessariamente para o subjunctivo.

Ex. Eu, ha muitos dias, ia dispondo o animo para esta
desgraça
, procurando repará-la, se possivel fosse, com todas
as forças humanas e divinas
. (P. Ant. Vieira).

O turco prometteu grandes mercês a Martim de Vargas,
se outorgasse certa cousa que lhe pediria. (P. Man. Bernardes).

Se não houver mais que um homem de consciencia, venha
um... Ee, se não houver nenhum, não venha nenhum. (P.
Ant. Vieira).

Se o principe permittir ser lisonjeado em sua presença,
supponha-se praguejado na ausencia. — No que toca a todos,
consulte os mais
 : se não acertar, errará acreditado. (P.
Ant. Vieira).

Se quizermos particularmente considerar as cousas, qual
haverá que sem letras divinas ou humanas se possa fazer ?
(João do Barros). .

Carlos Magno trazia o sinete das suas armas aberto no
313pomo da sua espada. e, perguntado que mysterio ou cifra
continha o estar alli, respondeu
 : « E’ dizer que, para se observarem
minhas ordens e decretos
, se não bastar a autoridade
do sinete
. usarei da violencia da espada. (P. Man. sern
ardes).

400. O se condicional pede oxclusivamente o subjunctivo
quando o facto da proposição anterior está no condicional ;
e os unicos tempos do subjunctivo então avocados são
quatro : o 2.° ou o 3.° (pres.-pass.-fut. proprio ou pres.-pass.fut.
supplementar
), e o 5.° ou o 6.° (pret. m. q. perf. proprio
ou pret. m. q. perf. supplementar), conforme as exigências
do pensamento.

Ex. Se este Estado, sem ter minas, foi já tão requestado,
e perseguido de armas e invasões estrangeiras, que
seria,
se tivesse
esses thesouros ? (P. Ant. Vieira).

Aos Abderitas respondeu Hippociates que, se a enfermidade
fosse outra, elle iria logo curar a Democrito ; porém,
que retirar-se das gentes, e ir viver nos desertos, o que elles
reputavão por doudice, mais era para invejar que para curar
.
(P. Ant. Vieira). — (… respondeu que iria logo curar a Democrito,
se a enfermidade fosse outra).

Se vissemos que um mercante de Lisboa, embarcando-se
a commerciar nas nossas conquistas, para Angola carregasse
de marfim, para a India de canella, e para o Brazil de assucar,
não o
teriamos por louco ? (P. Ant. Vieira),. — (Não
teriamos por louco um mercante de Lisboa, se vissemos que,
embarcando-se
…).

Se um bemaventurado olhasse para a terra no mesmo
tempo que qualquer monarcha se vangloriava com semelhante
opulência
, rir-se-hia de o ver desvanecido com cousas tão pequenas
e desprezíveis
. (P. Man. Consciencia). — (rir-se-hia
um bemaventurado de ver qualquer monarcha desvanecido
com cousas tão pequenas e desprezíveis
, se olhasse para a
terra
…).

Até Seneca chegou a dizer que, se o homem vagasse
com o animo por entre as estrellas, lhe serião materia de riso
as mais vistosas e preciosas fabricas, e quanto ouro ha em
todo o mundo
. (P. Man. Consciencia).

Se os bons amigos não valerão (valessem) tanto, não
dissera (diria, teria dito) o Espirito Santo que o achar algum
é o mesmo que achar um thesouro
. (P. Man. Bernardes).

Se os Apostolos forão (fossem, tivessem sido, tiverão sido)
de animo avarento e acanhado, e
quizerão (quizessem, tivessem314querido, tiverão querido) comer os seus cinco pães, sahíra
(sahiria, teria sahido, tivera sahido) menos de meio pão a
cada um
. (P. Ant. Vieira).

Se no outro mundo não houvera (houvesse) inferno, e
neste mundo não
houvera (houvesse) justiça, era (seria, fôra)
muito bom
. (P. Ant. Vieira).

« Pois, Senhor, não vedes que tendes doze discipulos que
sustentar, e que os pães não são mais que cinco ?
se tivesseis
muito pão, então estavão (estarião, estiverão) bem essas
liberalidades ; mas sendo tão pouco
… ! » (P. Ant. Vieira).

Observação. Vindo a conjuncção quando a supprir o
se condiciona], as relações dos modos ficão as que pede.
esta ultima conjuncção.

Ex. quando, nos banquetes, não houvera mais excessos
que o beber, provocando-se uns aos outros, já não
havia poucos
vicios.
(P. Man. Bernardes.) — (se, nos banquetes, não
houvera (houvesse) mais excessos que o beber,… já não haveria
poucos vicios).

Um agoureiro consultou a Catão que successo ou prodigio
Significaria haver achado os seus calções roídos das doninhas.
Respondeu o philosopho : Até hi (ahi) não tem muito que adevinhar
 ;
quando as doninhas forem roidas dos calções, então
me
consultareis.- (P. Man. Bernardes). — se as doninhas
fôrem roidas…).

401. Dentre as locuções conjunctivas que de per si
mesmas avocão constantemente o subjunctivo, as que mais
a miudo occorrem, são as seguintes :

tableau afim que… | cóm que… | primeiro que…
a não ser que… | comtanto que… | qualquer que…
antes que… | longe que… | que muito que.
caso que… | para que… | sem que…
como se… | por […] que… | supposto que…

Exemplos :

Honrai a vosso pai e a vossa mãi, afim que vivais
largo tempo na terra que o Senhor vosso Deos vos dará.
(Decalogo).

O louvor, a não ser que premeie o merecimento, é bajulação.

E, para que soubessemos que a Deos só devíamos este tão
geral beneficio dos fructos da terra, os creou ao terceiro dia,
que foi
antes que creasse o sol, a lua e os outros planetas,
315com cuja virtude e influencia nascem e se crião as plantas.
(Fr. Luiz do Granada).

Caso que se nos desse tudo quanto appetecemos, ainda
assim não seriamos felizes, porque sabemos que tudo passa, e
nós tambem
.

Passa-se a nossa gloria como se nunca fora (fosse, tivesse
sido, tivera sido
). — (P. Ant. Vieira).

Contento-me com que V. S. tenha conhecido que, entre
todos os criados da casa de V. S., nenhum tanto tem festejado
e estimado este triumpho della
. (P. Ant. Vieira).

Observação. Cumpre attender que, para a verificação
desta regra, não se deve confundir a locução conjunctiva
com que com os casos em que a mesma locução, formando
um complemento indirecto, não avoca de per si nenhum
modo especialmente.

Ex. Pelos avisos que vão a S. M. entenderá V. A. com
que coração
escrevo esta, e muito mais com que raiva e
com que impaciencia. (P. Ant. Vieira). — Ahi faz que, como
mero adjectivo indefinito, a funcção do apposição junto aos
complementos indirectos coração, raiva e impaciência.

Offereçamos por sua alma o mesmo sentimento que nos
causa a sua ausencia ; pois é o mais custoso suffragio com
que nos podemos mostrar lembrados e bons amigos
. (P. Ant.
Vieira). — Ahi constitue que, como pronome relativo (com
o qual
), um mero complemento indirecto.

Perguntado o discreto Thomaz Moro, cancellario de Inglaterra,
com que se parecia um avarento, respondeu : « Com
o fogo, que, quanto mais lenha se lhe lança, mais lenha pede
. »
(P. Man. Bernardes). — Ahi constitue igualmente que, como
pronome indefinito (com que cousa), um mero complemento
indirecto.

Importará pouco que no affecto se dividão as vontades,
comtanto que, no effeito, S. M. e V. A. as achem obedientes
e unidas
. (P. Ant. Vieira).

A adversidade, longe que seja um mal para as almas
fortes, serve-lhes de tempera
.

Deos Senhor Nosso tambem pôz em venda o céo, para
que o comprassemos
com as nossas boas obras. (P. Man.
Consciencia).

Observação. A locução conjunctiva para que sempre
convertivel cm afim que, não se deve confundir com a
mesma locução constituindo complemontos indirectos, visto
não avocar esta nenhum modo de per si mesma (V. § 282,
e os exemplos).316

As roupas, por preciosas que sejão, come-as a polilha,
que nasce das mesmas roupas
. (P. Ant. Vieira).

Por mais que confeiteis um não, sempre amarga ; por
mais que o enfeiteis, sempre é feio ; por mais que o doureis,
sempre é de ferro. (P. Ant. Vieira).

Observação. Os classicos em geral, e o P. Ant. Vieira
em particular costumão geralmente passar para o subjunctivo
o facto da proposição subordinada a esta locução conjunctiva ;
todavia, por uma excepção cujo motivo não ó bem
apreciavel, o mesmo P. Ant. Vieira disse : « Senhora, tem
V. M. a seus pés a Antonio Vieira neste papel, porque é tal
a sua fortuna, que o não póde fazer em pessoa
, por mais que
o desejou e procurou. »

A guerra tem muitos inconvenientes que della podem nascer,
que devem todos ser olhados
primeiro que nada se commetta.
(João de Barros).

Pelo propheta Isaias fallava Deos com os justos, e, animando-os,
dizia : a Levantai os olhos ao céo, olhai para a
terra, e entendei que
, primeiro os céos se desfarão como fumo,
e a terra se gastará como vestido, e os que morão nella fenecerão
,
que deixe de permanecer a minha saude, e tenha fim
a minha justiça
. » (D. Fr. Amador Arraes).

Em qualquer palmo de terra que consideres attentamente,
verás muitas e differentes naturezas, cada qual dotada
de sua bondade
. (P. Man. Bernardes).

Que muito, Senhor, que vos não comprehendamos, se
nem comprehendemos um mosquito !
(P. Man. Bernardes).

Era accusado o benemerito nas suas boas obras, sem que
á innocencia se lhe desse defeza, nem (e sem que) ao merecimento
lhe
valessem embargos, porque era juiz a Inveja. (P.
Ant. Vieira).

E, supposto que sejão os aduladores os maiores inimigos
dos reis (como se provará largamente), onde vivem ou estão
encastellados estes inimigos ?
(P. Ant. Vieira).

402. As tres ligações synonymas embora, posto que
e ainda que soem apparecer hoje exclusivamente seguidas
do subjunctivo ; os classicos, porém, as empregárão tão frequentemente
com o indicativo como com o subjunctivo.

Ex. Assim o entendeu Saul, posto que obrava o contrario.
(P. Ant. Vieira).

Posto que os avarentos, por não gastar costumem andar
a pé, a Avareza anda sempre de carroça
. (P. Ant. Vieira).

E, porque o dito regimento que assim escreví, tinha necessidade
317de alguma mais declaração para se poder praticar,
o não communiquei a todos
, posto que meu desejo sempre
fosse e É tirar-se de minhas letras algum fructo para esta arte
de navegar
. (Pedro Nunos).

Ainda que não chego a padecer com alegria, soffro com
paciência
. (P. Ant. Vieira).

Tudo, ainda que a alma se não via, era a alma. (P.
Ant. Vieira).

Ainda que enterrem a verdade, a virtude não se sepulta.
(P. Ant. Vieira).

Ainda que muitas mãos fazem muito, uma cabeça que
as meneia todas, é a que acaba tudo
. (Fr. Luiz de Souza).

Reprehender obras alheias é cousa facil ; fazê-las, sempre
custa mais
, ainda que ellas em si pareção menos. (Franc.
Rodrigues Lobo).

III
(circumstancia accidental)

403. Quando o subjunctivo não fica avocado, nem por
ura verbo da proposição anterior, nem pela ligação, podese
dar o caso que um facto o reclame, quer por implicar
de per si mesmo a eventualidade, quer por se achar occultamente
subordinado a um verbo que requer este modo,
quer emfim por uma mera inversão de proposições.

Ex. Não é homem quem aqui não pasma, ou não diga :
« Não posso ! » (P. Ant. Vieira). — Este exemplo offerece a
curiosa associação de dous factos dissidentes em modo, embora
subordinados a uma mesma proposição anterior. E’
que o facto enunciado pelo indicativo pasma é certo, porque
ninguem se póde subtrahir a uma emoção imprevista ; ao
passo que o facto enunciado pelo subjunctivo diga é eventual,
visto como o acto de fallar, mesmo sob o impulso do
uma emoção viva, não escapa ao imperio da vontade, e
portanto só póde ser conjecturado.

Pois isto por que todos trabalhão, hei de ensinar hoje o
modo com que se
possa alcançar sem trabalho. (P. Ant.
Vieira). — A explicação é que ha muita probabilidade que
se alcance; todavia não ha certeza completa.

Pois, que remedio para accrescentar a fazenda, util, discreta
e seguramente ? O remedio é muito facil : dar da que

tiverdes, por amor de Deos. (P. Ant. Vieira). — Não se
podia dizer em absoluto : da que tendes, porque, infelizmente,
318não é tão raro o caso em que tal conselho pudesse
ser dirigido a quem nenhuma fazenda tivesse que compartir.

Quem bem entendesse toda essa ladainha de encomios e
louvores, bem podia dizer por David
 : « Orate pro eo ! » (P.
Ant. Vieira). — Haverá certeza de que, na occasião, houvesse
quem isto bem entendesse ? Não ha. Portanto, eventualidade.

O que, não só era inútil, mas pernicioso, a natureza pô-lo
muito longe de nós, occulto e escondido, onde o não
vissemos.
(P. Ant. Vieira). — Isto é : onde fosse provável que não
chegássemos a vê-lo. Portanto, eventualidade.

Os famosos tyrannos Phalaris Agrigentino, Dionysio Syracusano,
Jugurtha Numidiano e outros muitos desta sorte,
que sustentarão seus reinos, não foi com virtudes que
tivessem,
mas foi com liberalidades que em suas tyrannias usavão com
seus naturaes
. (Diogo do Couto). — E’ duvidoso, incerto que
tivessem virtudes : portanto o subjunctivo por eventualidade.
Mas é certo que usavão de liberalidades : portanto o indicativo.

E, que arvores são aquellas que vão voando pelas ondas
com azas de panno ? São navios que vão buscar muito longe
cousas que
piquem a lingua para comer mais, cousas que
apaguem a pelle, cousas que alegrem os olhos; isto é : especies,
sedas, ouro
. (P. Man. Bernardes). — Quer isso dizer :
cousas que, por ventura, tenhão aquellas propriedades.

E, que vivão e obrem com esta inhumanidade homens
que se confessão, quando procedião com tanta razão homens
sem fé nem sacramentos !
(P. Ant. Vieira). — Aqui só falta,
para justificar o emprego do subjunctivo, o restabelecimento
de um verbo de sentimento, omisso por desnecessario
para a intelligencia do trecho : admira que vivão e obrem
com esta inhumanidade

Que o temor seja adversario da memoria,… é cousa que
muitas vezes tem mostrado a experiencia
. (P. Man. Bernardes).
— Para se convencer de que a inversão das proposições
motivou ahi o emprego do subjunctivo, basta repô-las na
ordem logica, e attender a que desapparece então a opportunidade
do mesmo modo : e’ cousa que muitas vezes tem
mostrado a experiencia, que o temor
É adversário da memoria.

« A vinda de vós outros, verdadeiros christãos, é ante mim
agora tão agradavel
,… como o fresco jardim deseja o borrifo
da noite
. venhais embora ! venhais embora i e seja em tão
boa hora a vossa entrada nesta minha casa, como a da rainha
319

Helena na terra santa de Jernsalem l » (Fernão Mendes
Pinto). — A significação concessiva do adverbio embora (V.
§ 27.9) faz prevalecer o subjunctivo sobre o imperativo,
como para afastar mais terminantemente a idéa de coacção
inseparável deste ultimo modo. Seria, portanto, errado
dizer : « vinde embora ! »

Oxalá se pudera desterrar de todo o mundo o ouro descoberto
para destruição da vida, e se
trocarão os tempos e o
uso presente por aquella idade de ouro !
(P. Ant. Vieira). —
Interpreta-se : « quizesse deos que se pudesse desterrar de
todo o mundo o ouro descoberto para a destruição da vida, e
se
trocassem os tempos… »

Observação. Aqui cabe advertir que, por servil e desazada
imitação de um caso da syntaxe franceza, introduziu-se
na dicção dos escriptores modernos o habito de
transferir para o subjunctivo os factos de uma proposição
subordinada, quando, sendo ligada por um pronome relativo,
encontra na proposição anterior um superlativo
tambem relativo. Os classicos portuguezes são unanimes
para em tal caso adoptar invariavelmente o indicativo.
Não se diga, portanto, com um periodico : Aquillo excede
em confusão
ao mais extravagante pesadelo que um mortal
possa ter soffrido ; — e sim : pode ter soffrido.

Outrosim eis-ahi a lição dos classicos :

Não sabemos que a nossa união é a maior guerra que
lhe podemos fazer ? (P. Ant. Vieira). — (Não : possamos…).

A necessidade, a pobreza, a fome, a falta do necessario
para o sustento da vida é
o mais forte, o mais poderoso, o
mais absoluto
imperio que despoticamente domina sobre todos
os que vivem
. (P. Ant. Vieira). — Não : domine…).

A maior pensão com que Deos creou o homem, é o comer.
(P. Ant. Vieira). — Não : tenha creado…).

A maior ostentação de grandeza e majestade que se viu
neste mundo, e uma das tres que S. Agostinho desejára vêr,
foi a pompa e magnificencia dos triumphos romanos
. (P. Ant.
Vieira). — (Não : se tenha visto…).

A famosissima cidade de Pekim, no imperio da China, é
a maior que se sabe haver no mundo. (P. Man. Consciencia).
— (Não : se saiba…).

Dos tempos do subjunctivo

404. O 1.° tempo do subjunctivo (pres.-fut.) justifica
do modo por que sahe rubricado, pela idoneidade com que
se presta a enunciar tanto o presente como o futuro.320

Ex. Não digo que o seu pai esteja agora aqui, nem
tão pouco que aqui
esteja amanhãa..

Deos diz : « Ama teu inimigo por amor de mim, ainda
que te não
mereça que o ames por quem é, e pelo que te fez. »
(D. Fr. Bartholomeo dos Martyres).

Que alegria será a dos que agora padecem, quando oução
dizer : « Céo! Céo! » (P. Ant. Vieira).

405. O 2.° tempo do subjunctivo (pres.-pass.-fut.-proprio)
justifica igualmente do modo por que sahe rubricado ;
porquanto, sendo sempre discriminavel, por suas formas
peculiares, de todos os outros tempos conjugativos, presta-se
outrosim a enunciar com a maior propriedade as tres
epocas da duração.

Ex. Eu desejára que o seu pai aqui estivesse agora,
aqui estivesse hontem, — aqui estivesse amanhãa, para
com elle tratar deste assumpto
.

Oh ! se todos os que fazem semelhantes provimentos, fizessem
este exame, e se ao menos o fizessem os que os pretendem,
e são providos ?
(P. Ant. Vieira).

Nem a Roboão aproveitou ter por pai a Salomão, nem a
Nero ter por mestre a Seneca, nem a Cesar ter-se esmerado
nelle a natureza em o dotar de uns espiritos tão generosos e
verdadeiramente reaes, para que a adulação de seus familiares,
a um não
corrompessem as virtudes, a outro não despojassem
do reino, a outro não tirassem a vida, e a todos não destruissem
tão infausta e miseravelmente como todos sabem. (P.
Ant. Vieira).

Supponde que alguem dava ás formigas o entendimento do
homem, cuidais que não havião de dividir um campo em provincias
varias ? e, se
fizessem as suas covas em terra contigua
a minas de ouro ou prata, que não havião ter os estreitos buracos
pelos palacios mais ricos e sumptuosos ?
(P. Man. Consciencia).

406. E’ circumstancia notavel que, por entrar frequentemente
em correlação com o condicional, e contrahir
assim com elle uma especie de affinidade, o 2.° tempo do
subjunctivo venha ás vezes a ser supprido por um tempo
daquelle modo. Ex. E, que vos parece — que faria o Cesar
neste caso ?
(P. Ant. Vieira). — Pois, achando-se ahi a segunda
proposição subordinada a uma interrogação directa,
era este o caso em que o seu facto passasse para o subjunctivo
(E, que vos parece — que fizesse o Cesar neste
caso ?
). e, com effeito, a julgar por outras exemplificações
321tiradas do mesmo autor, o segundo theor seria tão correcto
como o primeiro : e, quaes havião de ser os que, vendo-se
enterrar vivos naquellas furnas, não
fugissem para onde
fiunca mais apparecessem ?
(P. Ant. Vieira). — (… não fugirião…).

Esta observação, apparentemente insignificante, abre
caminho a uma serie de considerações que, para o philologo,
são de grande interesse, e, para o grammatico, uma
justificação do methodo experimental. Pois, ao mesmo
tempo que fornecem uma nova demonstração da maravilhosa
flexibilidade do idioma portuguez, ellas vingão as
linguas em geral da pecha que lhes é tão frequente quão
injustamente imputada de serem illogicas.

As alludidas considerações versão sobre varias relações
que se encontrão no ultimo exemplo do § anterior : Supponde
que alguem dava ás formigas o entendimento do homem

Se fôr admittido, como parece que não pode deixar de
sê-lo, que um tempo do condicional venha por vezes a
supprir o 2.° tempo do subjunctivo (… que faria, — que
fizesse o Cesar…) ; o se foi igualmente admittido, á vista
dos exemplos comprobatorios, que o 2.° tempo do indicativo
póde supprir ao condicional (V. § 377), este mesmo
2.° tempo do indicativo deve ter a propriedade de se substituir
tambem ao 2.° do subjunctivo : pelo menos tal conclusão
está dentro dos limites das premissas.

Ora o que se nota no exemplo trazido para a dissertação,
é que a proposição directamente interrogativa :
cuidais — devêra, por isso mesmo que é interrogativa,
chamar para o subjunctivo o facto da proposição que lhe
anda subordinada. Porém este mesmo facto está no 2.°
tempo do indicativo (… que não havião de dividir um
campo
"). Mas, porque ? Porque, representando a um condicional
(… cuidais que não haverião de dividir um
campo
…), este mesmo condicional vem a ser um mero supplente
do 2.° tempo do subjunctivo (… cuidais que não
houvessem de dividir um campo…), sendo assim este ultimo
theor o normal, porém representado, por subdelegação,
por um 2.° tempo do indicativo.

A esta mesma conclusão conduz o exame do seguinte
exemplo :

Quantos ministros reaes, quantos officiaes de justiça, de
fazenda, de guerra vos parece que
havião de ser mandados
cá para a extracção, segurança e remessa deste ouro e prata ?
(P. Ant. Vieira). — (… que havião de ser, que haverião
de ser
, que houvessem de ser…).322

Se, sendo aceitas todas estas deducções, se retroceder
para as duas primeiras proposições do anterior excerpto :
Supponde — que alguem dava ás formigas o entendimento do
homem
,… encontra-se, sob um ponto de vista diverso, uma
nova applicação da mesma substituição.

Ahi é o imperativo supponde um mero substitutivo do
7.° tempo do subjunctivo : se suppuzerdes (V. § 383). A
allegação é tanto mais frisante, que o outro facto da oração
que directamente lhe corresponde, sahe precedido da mesma
conjuncção se : e, se fizessem as suas covas em terra contigua
a minas de ouro e prata
, [cuidais] que não havião
ter
(não haverião ter, — não nouvessem ter) os estreitos
buracos

Ora a proposição : se suppuzerdes, tanto por significação
propria, como pelo modo o tempo em que se acha,
é daquellas que, por exprimirem duvida, mais qualificadamente
avocão o subjunctivo. Portanto é ahi dava um
mero supplente de desse. E, effectivamente, as duas proposições
restauradas sobre esta base, correm regularmente,
sem alteração alguma dos pensamentos : se suppuzerdes
que
alguem desse ás formigas o entendimento do homem, cuidais
que
… ?

Verifica-se outrosim directamente, no seguinte exemplo,
a substituição do 2.° tempo do subjunctivo pelo 2.° do indicativo :
« De todos estes miseraveis, poucos escapavão para
outro jogo, se o povo não
pedia que os manumittissem. (P.
Man. Bernardes). — (… se o povo não pedisse…).

Por uma correlação toda natural, ou, se se quizer, por
justa compensação, o mesmo 2.° tempo do subjunctivo substitue
tambem por vezes ao condicional, sem que dahi resulte,
quer amphibologia, quer obscuridade, tal é o donaire
com que se sabe haver a lingua portugueza em todos os
seus meneios.

No palacio de el rei Dario, emquanto elle dormia, tres
guardas-móres da pessoa real excitárão entre si aquella famosa
questão que refere Esdras : Qual
fosse a mais poderosa cousa
do mundo
. — (Qual seria…). Despertou o rei, e, lendo a
questão que os mesmos autores della lhe tinhão posto escripta
debaixo dos travesseiros, prometteu grandes premios a quem
melhor a
resolvesse. — (… a quem melhor a resolvería).
(P. Ant. Vieira).

407. O 3.° tempo do subjunctivo (pres.-pass.-fut.-supplementar)
não tem outro alcance que não seja o do supprir,
por amor da euphonia ou da variedade, o tempo anterior.

Ex. Quem haverá que se não admire de uma tal volta,
323da fortuna em dous sujeitos tão notaveis : um tão valente,
outro tão altivo ! E’ possivel que nisto
parárão as façanhas
e victorias de Sansão ? E’ possivel que nisto
parárão as
riquezas e bizarrias do Prodigo ? Nisto parárão ; ou, para
melhor dizer, não parárão só nisto
. (P. Ant. Vieira).

A unica difficuldade que apresenta este tempo, é relativa
á sua discriminação em analyse, por se desenvolver
constantemente com as mesmas formas do 5.° tempo do
indicativo, e do 3.° do condicional, sendo que, além disso,
a sua terceira pessoa do plural é tambem sempre identica
com a mesma pessoa do 3.° tempo do indicativo. Porém o
processo da substituição (V. § 96 e 97), já tantas vezes
empregado nesta obra como meio rapido de solução nas
mesmas ou analogas circumstancias, é guia sufficiente para
remover qualquer dúvida. Basta, com effeito, soccorrer-se
a elle, para ver de prompto que os dous primeiros parárão
do exemplo citado pertencem ao 3.° tempo do subjunctivo,
e os dous ultimos, ao 3.° do indicativo.

E’ possivel que nisto parassem as façanhas e victorias de
Sansão ? E’ possivel que nisto
parassem as riquezas e bizarrias
do Prodigo ? Nisto
parou [tudo] ; ou, para melhor dizer,
[tudo] ] não parou só nisto.

Outros exemplos :

Não nos enganára o demonio com o mundo, se nós viramos
e conhecêramos bem o que é a alma. (P. Ant. Vieira).
— (Não nos enganaria… se vissemos e conhecessemos
bem…).

Mas, se a sua musa adevinhára que do mesmo inferno
havia de sahir a polvora, de nenhum modo
déra ao raio o
nome de inimitavel
. (P. Ant. Vieira). — (Mas, se a sua musa
adevinhasse… de nenhum modo daria…).

Se, no monte de piedade de Roma, ou no banco de Veneza,
se
déra a cento por um, houvera quem alli não mettêra
o seu dinheiro ? (P. Ant. Vieira). — (Se... se desse…
haveria quem alli não mettesse…).

Se em todas as mesas se bebêra por esta taça, não se
comêra em tantas o pão alheio. e, se no Brazil dêramos
em desenterrar caveiras, em quantas não pudêramos escrever
a mesma letra! Cuja é esta caveira ? E’ de fulano : viveu
rico, e morreu pobre ; testou de muitos mil cruzados, e seus filhos
pedem esmolas. Pois, que foi isto ? Que ar máo deu
por esta fazenda ? Misturou a sua fazenda com a alheia ;
perdeu a alheia, e mais a sua
. (P. Ant. Vieira). — (Se... se
bebesse… não se comería… Se dessemos… em quantas poderiamos…).324

El rei D. João III de Portugal estava tão affeiçoado ao
Estado do Brazil, especialmente á Bahia de Todos os Santos,
que, se
vivêra mais alguns annos, edificára nelle um dos
mais notaveis reinos do mundo, e
engrandecêra a cidade do
Salvador de feição que se
pudera contar entre as mais notaveis
de seus reinos
. (Gabriel Soares de Souza). — (… se
vivesse… edificaria… e engrandeceria… de feição que Se
teria podido contar…).

Variamente pintarão os antigos ao que elles chamárão
Fortuna. Dos que a fizerão de ouro, diremos depois. O
que agora sómente me parece dizer, é que os que a
fingírão
de vidro pela fragilidade, fingírão e encarecêrão pouco
(P. Ant. Vieira). — (Variamente têm pintado… têm chamado…
Dos que a têm feito… Os que a têm fingido…
têm fingido e encarecido pouco. — Por transposição para
o singular. — Variamente pintou [o mundo antigo] ] ao que
[elle] chamou Fortuna. [Daquelle] ] que a fez de ouro, diremos
depois
… [Aquelle] ] que a fingiu de vidro pela fragilidade,
fingiu e encareceu pouco.

Advertindo Demosthenes que o auditorio estava pouco attento,
introduziu com destreza o conto ou fabula de um caminhante
que
alquilára um jumento, e, para se defender no
descampado da força da calma, se
assentára á sombra delle ;
e o almocreve o
demandára por maior paga, allegando que
lhe
alugára a besta, mas não a sombra della. (P. Man. Bernardes).
— (… um caminhante tinha alquilado… e se tinha
assentado…
e o almocreve o tinha demandado… allegando
que lhe
tinha alugado a besta…).

O 3.° tempo do subjunctivo, quando em correlação com
o condicional, costuma avocar mais habitualmente o 3.°
tempo deste mesmo modo, ou vice-versa.

Ex. Disserão a Diogenes : « Se tu aduláras a Dionysio,
tu não
comêras hervas. » — e, se tu te contentáras com
hervas, não
aduláras a Dionysio, respondeu Diogenes. (P.
Ant. Vieira).

Todavia esta correspondencia não tem nada de obrigatorio,
como bem se deprehende dos seguintes exemplos :

Se em Hespanha não houvera minas de ouro e prata,
nunca os Romanos
irião a lhe fazer guerra de tão longe.
(P. Ant. Vieira).

« Se tu corrêras o estadio em competencia, porventura
pararias ou afracarias, estando já perto da raia ou baliza ? »
(P. Man. Bernardes).

Se os Apostolos tiverão doze pães, então não era necessario
mais
. (P. Ant. Vieira).325

Se alguem visse desde um posto eminente todas as mudanças
que no mundo succedem em espaço de meia hora, que
admirado
ficara de ver a furia com que esta roda se revolve !
(P. Man. Bernardes).

408. O 4.° tempo do subjunctivo (pret. perfeito) exprime
meramente um passado.

Ex. Admira-nos o ver quão depressa haja a terra gerado
e produzido ; mas, quanto maior motivo temos para admiração,
se considerarmos como as sementes lançadas nella não fructificão,
se primeiro não morrem !
(Fr. Luiz de Granada).

409. O 5.° e o 6.° tempo do subjunctivo (pret. m. q.
perf. proprio e pret. m. q. perf. supplementar
), perfeitamente
equivalentes em tudo, têm por funcção de se substituir ao

2.° ou ao 3.° tempo do subjunctivo todas as vezes que estes,
havendo de enunciar um passado, achar-se-hião em circumstancias
de o não designarem com bastante clareza.

Ex. Quando, para este ministério, mandavão de Ceilão
um elephante, o levavão para a ribeira, onde todos os outros,
quando este entrava, lhe fazião uma reverencia com muita submissão,
sem que alguma hora o
tivessem visto. (João Ribeiro).
— (Não : o vissem).

410. O 7.° e o 8.° tempo do subjunctivo (fut. simples
o fut. composto) correspondem exactamente, na expressão
do futuro, ao 7.° e ao 8.° tempo do indicativo, porém sob
a condição de eventualidade.

Ex. « Quando fordes convidado á casa e á mesa alheia,
não deveis tomar os primeiros lugares, senão o ultimo, porque
(para que) não succeda vir o senhor da casa,. e vos mande
levantar do lugar que tomastes, e o dê a outro melhor do que
vós, e então vos acheis com affronta no ultimo lugar. Porém,
se
escolherdes o ultimo, virá o dono da casa e senhor do
convite, e, vendo-vos alli, vos dirá : Amigo, subí para cima !
E
e então ficareis com gloria entre os mais convidados ; porque
todo aquelle que se
exaltar, será humilhado, e o que se humilha,
será exaltado
. » (parab. evang. P. J. B. de Castro).

Capitulo IV
Do infinitivo

411. Se bom que o infinitivo não constitua do per si
nenhum termo syntaxico especial, tal é todavia a complexidade
326das relações em que anda envolvido, que, para lh’as
destrinçar, impossivel é abstrahir de considerá-lo isoladamente.

Estas relações são de duas ordens : umas intrinsecas,
outras extrinsecas. Pelas primeiras, o infinitivo participa do
facto syntaxico, sem ser facto : é expressão verbal. Pelas
segundas, o infinitivo participa do substantivo, sem ser
substantivo : é expressão substantival.

Como expressão verbal, tem ou não tem sujeito, tem
ou não tem complementos, tem ou não tem predicado ; e,
por um corollario natural, não lhe falta, nem a propriedade
de accusar as tres epocas dá duração, nem a de concordar
ostensivelmente, ao menos em alguns tempos, com as tres
pessoas do singular, o com as tres do plural : o que tudo
fallece absolutamente ao substantivo. E entretanto o infinitivo
não chega a enunciar de per si um facto (V. § 363) ;
apenas enuncia um acto.

Como expressão substantival, o infinitivo exerce necessariamente,
na proposição em que anda comprehendido,
uma das funcções de sujeito, de complemento directo, do
complemento indirecto, de predicado ou de apposição ; e,
por um corellario igualmente natural, tem um genero, mas
um só : o masculino ; e tem um numero, mas tambem um
só : o singular : o que tudo, de modo algum, póde competir
ao facto.

Ex. Meu sentir é que desta guerra te descartes. (Vida
de D. Manoel).

E, que se segue deste tão desordenado querer ? (P.
Ant. Vieira).

Visto que ignorais a formosura de tão sumptuosa casa, o
quererdes que vos falle della, e obrigardes-me a que seja
semelhante áquelle simples rustico
. (P. Man. Consciencia). —
(Não : a quererdes, nem os quererdes, nem as quererdes
são…).

Seguir o contrario disto era um querer resuscitar velhices.
(Fr. Luiz de Souza).

Bom é sempre em vossas adversidades justificardes os
toques da mão do Senhor
. (Fernão Mendes Pinto). — (justificardes…
e bom… — não : são bons ou boas…),

El rei D. Duarte honrava muito os homens doutos, e os
trazia em sua casa, como
é natural os homens amarem os
seus semelhantes
. (Duarte Nunes do Leão). — (… os homens
amarem… é natural…).

Em idade tão estragada e perdida como a presente, era
327forçado aproveitarem-se os prelados de ambos os gladios.
(Fr. Luiz de Souza). — (… aproveitarem-se… era forçado…).

E entretanto o infinitivo não póde ser considerado
como um mero substantivo, visto não se deixar representar
por elle, e recusar-se geralmente a formar termos compostos
de parceria com substantivos ou pronomes.

Ex. ensinar e aconselhar é de sabios. (Franc. Rodrigues
Lobo). — (Não : o ensino e aconselhar…).

Vêde aquelle entrar e sahir sem quietação nem socego.
(P. Ant. Vieira). — (Não : … aquellas entradas e
sahir
…).

No comer e beber foi Annibal temperadissimo. (Fr. Born.
de Brito). — (Não : na comida e beber…).

412. Sendo assim demonstrada a intervenção toda especial
do infinitivo na proposição, o que d’ahi se segue,- é
a conveniencia de porscrutar-lhe as relações dimanantes, já
de sua feição como expressão verbal ; já de sua feição como
expressão substantival.

Do infinitivo como expressão verbal

413. O infinitivo abrange seis tempos :

1.°, o pres.-pass.-fut. impessoal ; 2.°, opres.-pass.-fut. pessoal ;
3.°, o preterito impessoal ; 4.°, o preterito pessoal ; 5.°, o
gerundio simples
 ; 6.°, o gerundio composto.

Em relação ás epocas da duração, o 1.°, o 2.° e o 5.°
destes tempos denuncião com a mesma propriedade o presente,
o passado ou o futuro. A razão está em que a
epoca a que alludem, fica sempre determinada pelo facto
de que dependem, embora nem sempre seja a mesma. Verifica-se
este principio, nos seguintes exemplos, por uma
simples modificação dos factos adduzidos.

1.° Tempo (impessoal)

Para este fim fazemos trabalhar [agora] ] aos proprios
elementos
. (P. Ant. Vieira). — Para este fim fizemos trabalhar
[outr´ora] ] aos proprios elementos. — Para este fim
faremos trabalhar [ao diante] ] aos proprios elementos.

2.° Tempo (pessoal)

Mais nos agrada o discorrermos [agora] ] subtilmehte do
328que com acerto. (Mathias Ayres da Silva do Eça). — Mais
nos
agradou o discorrermos [outr´ora1 ] subtilmente do que
com acerto. — Mais nos
agradará o discorrermos [ao diante]
subtilmente do que com acerto.

5.° Tempo (gerundio simples)

Que faz o lavrador na terra, cortando-a [agora] ] com o
arado ?
(P. Ant. Vieira). — Que fez o lavrador na terra,
cortando-a [outr´ora] ] com o arado ? — Que fará o lavrador
na terra
, cortando-a [ao diante] ] com o arado ?

Em todos estes exemplos, a epoca designada pelo infinitivo
coincide por ventura com a do facto de que depende.
No seguinte exemplo, porém, ella differe, sem que
todavia nenhum elemento estranho tenha de intervir para
fazer constar a divergencia : Pretendo sahir amanhãa. (Pretendo
[agora] sahir amanhãa).

O 3.°, o 4.° e o 6.° tempo do infinitivo denuncião uma
epoca sempre anterior á do facto da proposição.

Exemplos :

3.° Tempo (impessoal)

Os sujeitos de que fallamos, mais os contenta haver-Ihes
succedido bem no discurso que nos negocios. (Duarte Ribeiro
de Macedo).

4.° Tempo (pessoal)

Os vossos inimigos são testemunhas em causa propria, de
vos
ter dado deos os bens que lhes negou a elles. (P. Ant.
Vieira).

Qual é a causa de tantos reinos se terem perdido,
de que apenas se conserva a memoria ? (P. Ant. Vieira).

6.° Tempo (gerundio composto)

Que alegria será a dos que, tendo escapado das miserias
desta vida
, oução dizer : Céo ! Céo !

Note-se que o gerundio composto equivale sempre a
um preterito-mais-que-perfeito. Não se diga, portanto, com
certos escrivães :

« E, subindo os autos á conclusão, baixárão com a seguinte
sentença
… ». Pois, subirão baixando, ou baixárão subindo ?
Diga-se, sim : « e, tendo os autos subido á conclusão,
baixárão com a seguinte sentença
… »

414. Em relação á personalidade dos tempos do infinitivo,
329trava-se uma das questões mais intrincadas da
Grammatica, e, por isso mesmo, das mais interessantes ;
porquanto a dicção dos escriptores modernos contrapõe-se
tão frequentemente neste particular á lição dos classicos,
que parece quererem os contemporaneos dar quináo áquelles
nobres engenhos a quem se deve a creação do padrão perenne
do lingua portugueza. E, quando este não seja o seu
proposito, não sobeja, para explicação de tão manifesto
desprezo das normas classicas, senão suppôr que mais alcançarão
em detrimento da recta linguagem, as theorias
rotineiras de um ensino grammatical erroneo e apoucado,
do que puderão beneficia-la muitas estimaveis compilações
onde se ostentão primorosos excerptos dos verdadeiros
mestres. E’ que ler rapida e distrahidamente taes excerptos,
sem fazer obra com elles por meio da analyse, mal
pode prevalecer contra a influencia perniciosa de tantos
apophthegmas falsos, diariamente cunhados nas escolas pela
decoração, sobresahindo entre elles o de que todo e qualquer
verbo tem necessariamente um sujeito, quer expresso, quer occulto,
com o qual concorda em numero e pessoa
.

O que dahi decorre, é que ninguem depara com o desmentido
categórico dado a esta opinião na lição contida
neste e em milhares de exemplos analogos, onde o verbo,
por falta de todo e qualquer sujeito, não fica adstricto a concordancia
alguma de numero e pessoa : « Gomo podião deixar
de intervir grandes injustiças quando tirávamos uns reis, e
púnhamos outros ?
 » (P. Ant. Vieira).

Porém, sob a pressão do indefectivel apophthegma, escreve-se,
com as mãos ambas, o mais variegado sortimento
de novidades estylisticas neste gosto :

Estudem, para poderem um dia serem admittidos á matricula

Forão julgados em estado de matricularem-se os seguintes
Srs

Temos de facto a republica, á cuja conservação parecem
irem-se habituando os animos.

E, que esta exprobração não se funda em motivo fantasiado,
eis ahi um trecho que o comprova : « Devemos todos
os Portuguezes
alegrarmos-nos por tal desenlace. » (Periodico).
Sim, devemos comermos e consolarmos-nos…

Não sabem os conservadores (ou liberaes) de tal provincia
conservarem-se com honra no poder, e guardarem
dignidade na derrota

Devêramos lembrarmo-nós que330

Este ultimo typo é o que fornece maior cópia de estampas,
embora baste o mais simples cotejo do verbo pronominal,
com outro que o não seja, para adduzir loquelas
impossiveis : Devêramos comermos e bebermos… !! Devêramos
irmos passeiarmos… !! Pois, sem ser preciso recorrer
a outro criterio que não seja o da substituição, obvio é
que, se a forma lembrarmo-nos, do 2.° tempo do infinitivo
(tempo pessoal), em vez de lembrar-nos, do 1.° tempo do
mesmo modo (tempo impessoal), é a correcta, tambem o são
as formas correspondentes comermos, bebermos, etc. (V. a
conj. dos verbos pronominaes).

Attenda-se, portanto, ao seguinte trecho do (P. Ant.
Vieira : Acabamos de nos desenganar da pouca firmeza ou
segurança que póde haver nos bens que são da terra
. — Não
disse como dirião os novadores da modernice : Acabemos por
nos desenganarmos… — ou por desenganarmo-nos…/

Esta é a questão : urge resolvê-la.

415. O 1.° e o 3.° tempo do infinitivo são impessoaes,
porque nunca se lhes attribue sujeito algum, quer expresso,
quer occulto, o que reduz as suas formas, quer simples,
quer compostas, a uma só em cada tempo de cada conjugação.

1.° Tempo

tableau amar, render, punir, pôr ;

3.° Tempo

tableau ter amado, ter rendido, ter punido, ter posto.

O 2.° e o 4.° tempo do infinitivo são pessoaes, porque,
quando não têm um sujeito expresso, têm-no occulto, o
com elle concordão em numero e pessoa.

2.° Tempo

tableau amar eu, | render eu, | punir eu, | pôr eu,
amares tu, | renderes tu, | punires tu, | pôres tu,
amar elle, | render elle, | punir elle, | pôr elle,
amarmos nós, | rendermos nós, | punirmos nós, | pôrmos nós,
amardes vós, | renderdes vós, | punirdes vós, | pôrdes vós,
amarem elles, | renderem elles ; | punirem elles ; | pôrem elles.

4.° Tempo

tableau ter ou haver eu
teres ou haveres tu
ter ou haver elle | amado, rendido, punido, posto.
termos ou havermos nós
terdes ou haverdes vós
terem ou haverem elles
331

Theoricamente, nada mais simples como nada mais regular
do que as inflexões dos dous tempos pessoaes, visto
se deduzirem, com a mais perfeita identidade em todas as
conjugações, dos dous tempos impessoaes, sem nenhuma
discrepancia entre verbos de conjugação regular, e verbos
de conjugação irregular, como se vê outrosim em por, um
dos mais excêntricos. A unica circumstancia que merece
reparo, consiste em ser possivel, nas indagações analyticas,
uma confusão momentanea entre as primeiras e as terceiras
pessoas do singular dos tempos pessoaes, com os tempos
impessoaes, mormente estando os sujeitos occultos ; porque
as formas são sempre em uns e outros identicas. Mas o
processo da substituição basta geralmente para desfazer a
duvida.

Ex. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um
ladrão por
ter furtado um carneiro ! (P. Ant. Vieira). —
(Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar uns ladrões
por
terem furtado uns carneiros !).

Porém, se, na pratica dos exercicios analyticos, o discriminar
os tempos pessoaes dos impessoaes não envolve
grande dificuldade, não succede muitas vezes o mesmo
quando se trata de escolher, no acto de escrever ou
fallar, entre uns o outros ; e ahi é, entretanto, que cumpre
dar no ponto ; tanto mais que os desacertos em tal assumpto,
apezar de offenderem o melindre da lingua, vão, por
sua frequencia, creando habitos, espalhando a incerteza,
o viciando de tal modo o tino auscultativo, que ameação a
integridade das boas tradições. Infelizmento é a materia
tão complicada, que não se deixa elucidar senão por partes,
e com o auxilio de investigações bastante minuciosas.

416. São forçosamente impessoaes todos os infinitivos
de verbos de necessidade, pela razão obvia que faltão-lhes os
tempos pessoaes do infinitivo ; e faltão-lhes os mesmos
tempos pela razão não menos obvia que nunca têm sujeito,
quer expresso, quer occulto.

Ex. O’ Deos ! se tantas lindezas e perfeições fizestes de
passagem, e como quem brinca, para
haver creaturas que
acompanhassem ao homem neste desterro, que será na patria !

(P. Man. Bernardes). — (Não :... haverem… pois diz-se :
ha creaturas que… o não : … hão creaturas que…).

Os sujeitos de que fallamos, mais os contenta haver-lhes
succedido bem nos discursos que nos negocios. (Duarto Ribeiro
de Macedo).

417. São tambem necessariamente impessoaes todos os
infinitivos entrando na combinação dos verbos prepositivos,
332quer da primeira (ter ou haver de…), quer da segunda
categoria (estar para…). A razão está em que, havendo
no verbo unidade de sentido, não obstante a multiplicidade
de palavras, seria redundancia insoffrivel reproduzir no infinitivo
consecutivo a personalidade já declarada no auxiliar.

Ex. Pois, homem! no mesmo tempo em que estás chorando
o que condemnas
, has de louvar o que choras ? (P.
Ant. Vieira). — (Não : … has de louvares…).

Não basta que, para conquistar Portugal, convoque Castelha
todas as nações ? tambem nós
nos havemos de armar
contra nós ? (P. Ant. Vieira). — (Não : …nós nos havemos
de armarmos
…).

Se se descobrissem aquellas minas, no mesmo dia havieis
de começar
a ser feitores, e não senhores de toda a vossa fazenda.
(Não : … havieis de começardes…). a roça, havião-vo-la
de embargar
para os mantimentos das minas. (Não :
havião-vo-la de embargarem). e vos havião de apenar
para o que tivesseis ou não tivesseis prestimo. (Não : e vos
havião de apenarem
…). — (P. Ant. Vieira).

418. Ficão igualmente impessoaes os infinitivos formando
o complemento directo ou indirecto de outro infinitivo.

Ex. Succede aos rios impetuosos conservarem o sabor
de suas aguas muito espaço
depois de misturar-se com as
ondas do mar
. (Epanaphoras). — (Não : …depois de misturarem-se…).

A maior fatalidade dos reis é nascerem em signo de ser
louvados
. (P. Ant. Vieira). — (Não : …. de serem louvados…)

Que razão ê que nos envergonhemos de querer ajudar o
poder divino com o ouro e com a prata e com as mais valias
da terra !
(Fr. Luiz de Souza).

Se buscarmos com verdadeira consideração a causa de
todas as ruinas e males do mundo, acharemos que, não só a
principal, senão a total e unica é não
acabarem os homens
de concordar o seu querer com o seu poder. (P. Ant. Vieira).

Oh ! Senhor ! como aos hereges, depois de se atreverem
a affrontar
vossos santos, lhes ficão ainda braços para outros
delictos !
(P. Ant. Vieira).

Tirados da agua, aquelles peixinhos ficão com uma bexiga
bem cheia de ar ; e, se se deitão assim na agua, párão na superfície,
sem
poderem descer. (D. Fr. Caet. Brandão).333

419. Ficão tambem impessoaes os infinitivos de um
idiotismo delicado, produzido por ellipse de proposições admirativas.

Ex. « Os santos a prégar (não : a pregarem) pobreza,
e
seguí-la (não : a seguirem-na) em tudo ; e eu que me metta
em faustos ! Os santos a
persuadir-me (não : a persuadirem-me)
humildade, e metter-se (não : e metterem-se) debaixo dos
pés de todos ; e eu que mostre brios e ufania !
 » (Fr. Luiz de
Souza). — Explica-se o caso pelo restabelecimento das proposições
elididas, manifestando-se então o facto occulto de
que « os santos » é o sujeito. « Admira que os santos estejão
a prégar... e seguirestejão a persuadir-me... e
metter-se
… ». Póde-se considerar este idiotismo como uma
mera variante de verbo gerundial. Comprova-o a continuação
do mesmo texto :

« Que esteja Christo mandando aos discipulos que caminhem
descalços e sem alforges, e frei Bartholomeo, successor
delles, que ande cercado, e com acompanhamento e estado de
principe !
 » — Pois nada obstaria á conversão deste theor
em o precedente : « Christo a mandar aos discipulos que caminhem
descalços, e frei Bartholomeo
…).

Outro exemplo :

Uns batem ; outros não se atrevem a bater : todos a esperar,
e todos a desesperar. (P. Ant. Vieira). — (Não :
a esperarem... a desesperarem…).

Porém os poetas da actualidade emendão tudo isso.

Ex. O besouro zumbe a sua paixão, e as estrellas sempre
a
sorrirem-se, mas impassíveis ! » O ponto exclamativo é
mesmo do poeta, de tão engraçado que achou o pensamento
e a expressão.

420. São naturalmente impessoaes todos os infinitivos
empregados em sentido abstracto, porque, recordando simplesmente
os substantivos que lhes correspondem, supprem-nos
com a vantagem do se ageitar melhor aos outros
termos da oração.

Ex. E’ cousa tão natural o responder, que até os penhascos
duros respondem, e para as vozes têm echos
. (P. Ant.
Vieira). — (E’ tão natural a resposta…).

Dar aos que merecem ou não merecem, é dar ; dar
aos que merecem, é
premiar. (P. Ant. Vieira). — (a doação
aos que merecem, é doação ; a doação sómente aos que merecem,
é
premio).

A natureza fez o comer para o viver ; a gula fez o
334comer muito para o viver pouco. (P. Ant. Vieira). — (a
natureza fez a comida para o sustento ; a gula fez a comida
abundante
para a vida breve).

Se buscarmos com verdadeira consideração é causa de
todas as ruinas e males do mundo, acharemos que, não só a
principal, senão a total e unica é não acabarem os homens de
concordar o
seu querer com o seu poder. (P. Ant. Vieira).
— (… a sua vontade com as suas forças).

Admitta o principe homens aos cargos pelo ser, não pelo
parecer
. (P. Ant. Vieira). — (pela realidade, não pela
apparencia
).

Avaliar o nascimento pelos pais é vaidade ; medi-lo pelo
tempo é superstição
 ; estimá-lo pela patria é ignorancia:
 :
e só julgá-lo pelo fim é prudencia. (P. Ant. Vieira). — (a
avaliação
do nascimentoa medição dellea estimação
dellea apreciação delle…).

Tudo é vaidade excepto amar e servir a Deos. amar
a Deos é a maior das virtudes ; ser amado de Deos é a
maior das felicidades
. (P. Ant. Vieira). — Ahi chegão os infinitivos
a uma tal propriedade de expressão, que se torna
impossivel a sua conversão em substantivos correspondentes.
O mesmo se dá com o seguinte exemplo :

Outros dirão que, para ter muito, o melhor remedio é
tê-lo, guardar, poupar, não gastar, morrer de fome, e
matar a fome ; porque dizem que muito mais cresce a fazenda
com
poupar muito que com ajuntar muito. (P. Ant. Vieira).

421. Devem, outrosim, ficar impessoaes os infinitivos
enunciando um acto imputavel ao sujeito do verbo de que
dependem como complementos directos ou indirectos, porque,
do contrario, haveria redundancia.

Ex. Quereis ter pão ? serví a Deos. quereis ter
muito ? dai-o por amor de Deos. (P. Ant. Vieira). — (Não :
Quereis terdes…).

O espinheiro respondeu ás arvores : « Se verdadeiramente
me dais o imperio
, vinde todas deitar-vos a meus pés, e
pôr-vos á minha sombra. » (P. Ant. Vieira). — (Não : vinde
deitardes-vos...
pôrdes-vos…).

Com a vantagem só de nossa união podemos igualar e
exceder largamente o numero de nossos inimigos. (P. Ant.
Vieira). — (Não : …podemos igualarmos e excedermos…).

Nascemos sem saber para que nascemos. (P. Ant.
Vieira). — (Não : Nascemos sem sabermos…).

Ainda quando os raios do céo se não contentão com
335ferir os montes, ou com se empregar nas feras e nas enzinhas,
ou só
com metter medo aos homens, raro é o raio
que seja réo mais que de um homicidio
. (P. Ant. Vieira). —
(Não : … se não contentão com ferirem... com se empregarem
com metter em…).

Sejão os principes como Christo, no repartir ; e sejão
os vassallos como os discipulos, no contentar-se, e cessarão
as queixas
. (P. Ant. Vieira). — (Não : … Sejão os principes
no repartirem... e sejão os vassallos... no contentarem-se…).

Que importa que nos cansemos em fechar as cidades de
muros, se a brecha está aberta nos corações ?
(P. Ant. Vieira).
— (Não : … que nos cansemos em fecharmos…).

Depois que, no mundo, se introduziu venderem-se as honras
militares, converteu-se a milicia em latrocinio, e
vão os soldados
á guerra
a tirar dinheiro com que comprar, e não a
obrar
façanhas com que requerer. (P. Ant. Vieira). —
(Não : … vão os soldadosa tirarem dinheiro com que comprarem,
e não a obrarem façanhas com que requererem
).

Alli os homens, desfigurados como toupeiras, vivem debaixo
da terra
sem ter olhos para ver a luz. (P. Ant.
Vieira). — (Não : … vivem... sem terem olhos para verem a
luz
).

As catastrophes dos reinos... a quem se devem attribuir ?..
Aos que só são admittidos a dizer e a ser ouvidos. (P.
Ant. Vieira). — (Não : …são admittidos a dizerem e a serem
ouvidos).

No adquirir ou perder amigos, nós devemos portar
com o mesmo sentido que no adquirir ou perder fazenda. (P.
Man. Bernardes). — (Não : …nos devemos portarmos, nem
devemos portarmo-nos
…).

Posto que os avarentos, por não gastar, costumem andar
a pé, a Avareza anda sempre de carroça
. (P. Ant. Vieira). —
(Não : …por não gastarem…).

Não são só ladrões os que cortão bolsas, ou espreitão os
que se
vão banhar, para lhes colher a roupa. (P. Ant.
Vieira). — (Não : … espreitão, para lhes colherem a roupa, os
que se vão banharem
).

Diogenes viu que uma grande tropa de varas e ministros
de justiça
levavão a enforcar uns ladrões, e começou a
bradar
 : «  vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. »
(P. Ant. Vieira). — (Não : …levavão a enforcarem
vão a enforcarem…).

Vede se os que mais carregados e sobrecarregados se vêm
destas felicissimas drogas
têm razão de se entristecer ou
336de se alegrar, e de saltar da terra ao mesmo céo, de
prazer
. (P. Ant. Vieira). — (Não : … têm razão de se entristecerem
ou de se alegrarem, e de saltarem
…).

De certos homens da casta daquelles de quem dizia Socrates
que não
comião para viver, mas só vivião para
comer
, conta a Sagrada Escriptura que, exhortando-se de
commum consentimento, dizião
 : « Comamos e bebamos, porque
amanhãa havemos de morrer.
« Mas, que fundamento tinhao
estes homens, ou estes brutos, para prognosticar que, ao
outro dia, havião de morrer ?
(P. Ant. Vieira). — (Não :
comião para viverem... vivião para comerem... tinhão para
prognosticarem
…).

Nem o anjo, nem o homem se contentarão com poder
o que podião. (P. Ant. Vieira). — (Não : …se contentárão
com poderem
…).

Ha erros que mais credito trazem ao emendar-se, do
que desdouro
ao commetter-se. (P. Man. Bernardes). —
(Não : … trazem ao emendarem-se, do que... ao commetterem-se).

Quando Fr. Bartholomeo dos Martyres começou a pôr em
pratica o plano que havia formado para regime do arcebispado
de Braga, cuja austeridade, onde se deu mais a ver, foi em
sua pessoa, casa e família
, começarão tambem logo a se espalhar
vozes em desabono do arcebispo. (Fr. Luiz de Souza).
— (Não : …começarão a se espalharem vozes…), porque
vozes é que constitue o sujeito de começárão.

Tudo o que nasce na terra, o sol ou a chuva o cria ;
mas o mesmo sol, se é demasiado, o queima ; e a mesma
chuva, se é muito continuada, o afoga : para que
acabemos
de nos desenganar
da pouca firmeza ou segurança que póde
haver nos bens que são da terra
. (P. Ant. Vieira). — (Não : …
para que acabemos de nos desenganarmos — ou de desenganármo-nos…).

Naquellas embarcações, os passageiros e navegantes têm
tudo prestes, sem
lhes ser necessario ir carregados de matalotagem.
(P. João de Lucena). — (Não : … irem carregados…).

Finalmente perdem-se, ou acabão de se perder as quasi
perdidas almas, como muitos
, por não ter que jogar e perder,
se entregárão ao demonio. (P. Ant. Vieira). — (Não : …
acabão de se perderem... como muitos, por não terem que
jogarem e perderem, se entregárão
…).

Dá muitas graças á estreiteza de tua mesa, e ao teu pouco
pão, porque, sendo certo que todos hão de chegar á sepultura

337sem nenhum remedio, só tu, por comer menos, chegarás á
sepultura mais tarde, e
tu, por comer menos, serás nella
menos
comido. (P. Ant. Vieira). — (Não : só tu, por comeres
menos, chegarás...
só tu, por comeres menos, serás menos comido).

422. Emfim, mesmo quando o acto do infinitivo não
é imputavel ao sujeito do verbo de que o mesmo infinitivo
depende, deve este permanecer nos tempos impessoaes, se
entrar na dualidade de complementos directos de que mais
adiante trata o § 447.

Este caso é tanto mais notavel, que, embora não seja
peculiar da lingua portugueza, nunca tem sido ventilado
até nas grammaticas mais reputadas. Muito pelo contrario :
de alguns aphorismos que vogão nas escolas com uma autoridade
indiscutivel, deve-se concluir que não existe, ou
que, se viesse a apparecer, seria considerado como erro
palmar. Entretanto lá está, escudado, não só pela logica,
como pela sancção dos mais irrecusáveis classicos ; e os
erros palmares são os que tão frequentemente decorrem
da ignorancia da regra. Pois, quantos dentre os escriptores
modernos, a julgar pelas suas lições, a elles, aceitarião, como
correcto, o seguinte excerpto do P. Ant. Vieira, fallando
do « Pão para a bocca ? »

Os elementos não são viventes, e a este mesmo fim cansamos,
e
fazemos trabalhar aos mesmos elementos (trabalharem,
escreverião os puristas da actualidade). O fogo
nas forjas e nas fornalhas, a agua nas levadas e nas azenhas,
o ar nas velas e nos moinhos, a terra nas vinhas e nas searas,
até o sol e a lua e as estrellas não
deixamos estar ociosos
desta pensão
(… estarem, bradarião elles).

Agora vámos ao P. Man. Bernardes, no seu apologo
« Das cotovias. »

Dissera o dono do campo a seus criados que tratassem de
metter a fouce, se
vissem estar os pães sazonados. — Pois
tambem Bernardes deve soffrer a emenda estarem ? e,
porque ? — « Porque, dizem elles, ahi é o substantivo « os
pães » o sujeito do infinitivo ; e portanto, pela regra da
concordancia, deve o infinitivo, passar para o plural. » —
Nisso é que está o erro. O substantivo pães é mero complemento
directo do facto vissem (Se elles vissem, o que ?
os pães) : logo não póde fazer funcção de sujeito. A singularidade,
porém, consiste em ser o referido substantivo
collateralmente complemento directo com o infinitivo passivo
« estar sazonados ». (Se elles vissem mais, o que?
estar sazonados).338

423. De todas estas considerações sobre o emprego
dos tempos impessoaes do infinitivo, o que se póde summariamente
concluir, é que, ao avesso das idéas que parecem
geralmente prevalecer, a impersonalidade é propriedade
essencial deste modo, e a personalidade, propriedade
accidental, porém de tanta utilidade e agrado na dicção,
quando opportunamente empregada, que as linguas que
della carecem, mal a conseguem supprir pelos rodeios mais
ou menos enfezados. Duas observações, outrosim, se prestão
a confirmar esta supposição : uma intrinseca, outra extrinseca.

A primeira consiste em que, mesmo nas outras linguas
oriundas do latim, a personalidade do infinitivo por meio
de terminações caracteristicas não existe ; ao passo que nenhuma
lingua prescinde de formas impessoaes no mesmo
modo. Logo só estas são as essenciaes.

A segunda observação póde parecer um pouco casuistica ;
todavia, vindo de certo modo em auxilio á solução de
tão melindrosa questão ella adquire desta circumstancia
algum gráo de plausibilidade.

Quem considera as tabellas dos tempos pessoaes transcriptas
no § 415, não póde deixar de notar que o radical
dos verbos apparece ahi, não propriamente deslocado, e sim
ampliado. Pois, sendo o radical o mesmo em todos os mais
tempos das conjugações, como am em amar, rend em render,
o pun em punir, ahi vem elle a ser, em todos os verbos
sem excepção, a mesma fórma do tempo primordial : amar,
render, punir, pôr, ter, haver, ser, estar, etc., com terminações
identicas para todas as conjugações. A illação
que dahi naturalmente decorre, é que os accrescimos terminativos
que consituem propriamente os tempos pessoaes,
forão a principio como lembranças surgindo de momento
para obstar aos numerosos equivocos que provocaria infalivelmente
o uso exclusivo das formas impessoaes. E, com
eífeito, todas as indagações sobre o assumpto reduzem a
importancia dos tempos pessoaes a uma funcção de utilidade
pratica, porém valiosissima, quando reflecte-se que
ella confere á linguagem os predicamentos mais indispensaveis :
a rapidez e a clareza.

Ex. Para sermos mais do que somos, não é necessario
multiplicar homens : basta unir corações
. (P. Ant. Vieira). —
Tire-se ao infinitivo sermos a sua terminação pessoal, e, de
lucido que é, o pensamento se apresenta obscuro o amphibologico
(Para ser mais do que somos… ?!).

424. Os tempos pessoaes do infinitivo estão sujeitos a
339duas hypotheses : ou apparecem com sujeito expresso, ou
apparecem sem sujeito expresso.

425. No primeiro caso, a concordancia justifica-se por
si mesma. A unica duvida que pode occorrer — (e ella
occorre : vejão no trecho citado sob o § 355 : « e, por assim
ser os conselhos das mulheres,… »), — origina-se, ou de se
attribuir ao sujeito outra funcção do que a que lhe compete,
ou de se lhe passar por alto ; mas, em todo o caso,
a consequencia é commetter-se um desacerto na terminação
do infinitivo, como neste excerpto de um periodico :
« Aquelle magistrado lembrou ao mesmo tempo a necessidade
de se votar medidas que tivessem como resultado a volta á
circulação metallica
. » Devia ser : « … de se votarem medidas… ».

Os seguintes exemplos não têm outro fim senão o de
exercitar o espirito em semelhantes pesquizas.

Não se fazerem mercês é faltar com o premio á virtude.
(P. Ant. Vieira).

A maior fatalidade dos reis é nascerem todos em signo
de ser louvados
. (P. Ant. Vieira).

Dizem que, para se conhecerem os amigos, havião os
homens de morrer primeiro, e dahi a algum tempo (sem ser
necessario muito) resuscitar
. (P. Ant. Vieira).

Pois para isto assistem ao throno os quatro animaes do
Apocalypse
, …para, quando sahir do throno a voz, elles dizerem
os amens. (P. Ant. Vieira).

E, quando as mesmas frotas voltavão carregadas de ouro
e prata, nada disto era para allivio ou remedio dos povos,
senão para mais
se encherem e incharem os que tinhão
mando sobre elles, e para
se excogitarem novas artes de
esperdiçar, e novas
invenções de destruir. (P. Ant. Vieira).

D. Affonso de Aragão disse : « Amarga muito comer o
general
, e jejuar o exercito. » (P. Man. Bernardes).

Donde nasceu, a meu guizo, fingirem alguns philosophos
que as almas dos homens se traspassavão em corpos de
diversas bestas
. (João de Barros).

E dizerem as fabulas que Actean foi convertido em
corço, não é outra cousa senão que, pelo muito exercido e continuação
da caça, se fez agreste, e semelhavel aos animaes com
que tratava
. (João de Barros).

E, se este natural appetite de quererem os homens
sempre mais do que podem, nem na soberania dos que podem
tudo, se farta, que será dahi abaixo, desde os maiores entre

340os grandes, até aos minimos entre os pequenos ? (P. Ant.
Vieira). .

Quem pois negará serem mais que barbaros os que se
portão com este tão grande descuido e esquecimento !
(Fr.Luiz
de Granada).

No monte Calvario esteve esta Senhora sempre ao pé da
cruz; e, com
serem aquelles algozes tão descortezes e crueis,
nenhum se atreveu a lhe tocar
. (P. Ant. Vieira).

Póde haver maior desgraça que não ter um homem bem
algum digno de inveja ?
(P. Ant. Vieira).

Fr. Luiz de Granada convidou ao bispo de S. Thomé
para o acompanhar, e
fallarem ambos ao arcebispo sobre o
que delle dizião, e
concertarem o modo de seguir uma vida
que, não deixando de ser religiosa, fosse comtudo mais desaffrontada
.
(Fr. Luiz de Souza).

Se não sahe expresso o sujeito de um infinitivo empregado
como complemento directo ou indirecto, ou ainda
como predicado, as formas pessoaes ficão, não obstante justificadas :

1.° Quando o sujeito do acto é diverso do do facto.

Ex. Não fazerem Mercês os reis seria não serem reis.
(P. Ant. Vieira). — (O sujeito de seria é fazerem ; o de
serem é [elles] os reis).

Como acontecia virem a Braga muitos religiosos de todas
as ordens, ou outros ecclesiasticos
, havia o arcebispo por
affronta sua
andarem por estalagem. (Fr. Luiz de Souza).

Um só meio acho aos reis para salvarem, ambos estes
inconvenientes
. (P. Ant. Vieira).

Ninguem fallou ás arvores em haverem de deixar
os seus fructos. (P. Ant. Vieira).

2.° Quando a declaração da personalidade do infinitivo
fica tão indispensavel á intelligencia do texto, que, seja embora
o sujeito do acto tambem o do facto, não haja todavia
outro meio de tornar a oração desembaraçada de obscuridade
ou amphibologia.

Ex. Pois, se ninguem fallou ás arvores em haverem de
deixar os seus fructos, porque
se excusão todas com os não
quererem deixar ? Porque entenderão, sem terem entendimento,
que quem aceita o governo dos outros, só ha de tratar
delles, e não de si...
Esta é a particular difficuldade e o grande
perigo em que estão, de se não conformarem com o Soberano
Original, os que representão as imagens que têm as raizes na
terra. E’ necessario
, para se conservarem nesta nova representação,
341e para governarem como devem, que se apartem
de suas proprias raizes
. (P. Ant. Vieira). — (Enecessario
que
[elles] se apartem... para [elles] se conservarem... e
para
[elles] governarem…).

Observação. Neste ultimo caso, como em outros
muitos, a anteposição anormal do infinitivo ao verbo do
que depende, não pouco contribue, pela suspensão de sentido
que costumão produzir as inversões, a aconselhar o
emprego da personalidade no mes