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Silva Junior, Manuel Pacheco da. Noções de Grammatica Portugueza – T01

[Noções de grammatica portugueza]

[Introdução]

Tinhamos emprehendido escrever uma grammatica
completa da lingua portugueza, rompendo em
lucta a tradição, e faziamos fundamento de entregal-a
em breve á publicidade. O novo programma para os
exames geraes de preparatorios, porem, veio fazer-nos
mudar do proposito. E’ que muitos dos pontos nelle
exigidos para os exames de portuguez não se encontrando
nas grammaticas que por ahi correm impressas,
e os alumnos não tendo fontes onde possam haurir
a instrucção de que carecem, resolvemos vir ainda
uma vez em auxilio da mocidade estudiosa.

Não apresentamos este trabalho como merecedor
de gabos de excellente, nem no intuito de nos revelarmos
professores de sciencia jubilada. O tempo
urgia; bosquejamos apenas o assumpto.

Nem sempre o nosso parecer coincidiu com a
indicação do programma official; seguimos todavia,
para maior segurança dos viajantes noveis, o roteiro
apresentado pelo governo.3

A unica difficuldade, e não pequena, com que
tivemos de pleitear, foi a dosagem.

Acertadamente escreveu o illustre pedagogista.
Alberto Brandão:

A grande difficuldade com que vão arcar os professores
é a dosagem, porquanto, como disse Michel Bréal,
não ha methodo mais perigoso do que o historico, quando
mal applicado, e os autores do livro a apparecer têm de
pôr de parte a vaidade natural aos que muito estudam
para formularem um livro modesto e compreendido
pelos que começam a estudar.

E isso, parece, ficará de accôrdo com os organizadores
do programma, que devem saber que muitos dos
pontos exigidos só poderiam ser tratados em theses, não
de exames de preparatorios, mas de concurso no imperial
collegio.

Seguindo esse conselho de mestre, fizemos o que
deviamos; se o nosso trabalho, porem, não agradar
a alguns, escrevam elles um outro – a maior aproveitamento
dos estudantes –, e mostrem o que sabem e
o que podem.

Nota – A materia que o alumno é obrigado a encerebrar
vae impressa em typo maior; as notas encasadas no texto, e as
que vão embaixo da pagina são destinadas aos que mais desejam
aprender.

Entendemos dever forrar-nos á tarefa de nos ocuparmos
de definições e outras cousas elementares, que o alumno já
deve conhecer desde a escola primaria.
4

Primeira lição
Observações geraes sobre o que se entende por grammatica geral…

Observações geraes sobre o que se entende por grammatica
geral, grammatica historica ou comparativa, descriptiva,
ou expositiva. – Objecto da grammatica e divisão do seu
sentido. – Phonologia: os sons e as lettras; classificação
dos sons e das lettras; vogaes; grupos vocalicos; consoantes,
grupos consonantes; syllabas, grupos syllabicos;
vocabulo; – notações lexicas.

1. – Grammatica geral é o estudo dos factos e
das leis da linguagem em toda a sua extensão.

E’ o conjuncto dos processos communs a muitas
linguas comparadas.

O fim, pois, da grammatica geral é coordenar as
semelhanças e divergencias dos varios processos oraes,
seguidos no maior numero das linguas conhecidas, para
a expressão dos sentimentos e das idéas, estabelecendo
ao mesmo tempo regras geraes, principios fundamentaes,
leis communs e positivas.5

Nesta accepção a grammatica geral é propriamente
o estudo da linguagem (glottologia), isto é,
o estudo dos meios extraordinariamente numerosos pelos
quaes o genero humano, na diversidade das raças e
na successão dos tempos, exprimiu o pensamento.

No dominio da grammatica geral ha duas orientações: – a tendencia
exclusivamente logica, que impõe apriori uma theoria do
pensamento a todas as modalidades linguisticas; e a tendencia exclusivamente
morphica, que procura explicar o sentido pela structura,
o interno pelo externo.

Quando exclusivas, systematocas, ciumentas, essas orientações
tornam-se viciosas; pois cumpre não esquecer que a palavra compõe-se
de dous factores invariáveis –o physiologico e o psycologico,
a idéa e a fórma. Para perfeita constituição da glottologia é
pois de mister a intima combinação dos dous processos.

2. – Grammatica historica ou comparativa. – É
a que emprega a historia e a comparação como instrumentos
verificadores da linguagem.

Só ella nos ensina a dissecação scientifica dos
vocabulos; permitte remontar ao passado obscuro,
muito além do ponto em que param a lenda e a tradição;
pode reconstituir a fórma typica das palavras desfiguradas
ou gastas pelas migrações e pelos seculos.
Assim, por exemplo, se quizessemos estudar o vocábulo
pomba, a historia nos indicaria a origem no
latim palumba, e – como todas as evoluções na vida
humana foram lentas e graduaes – as fórmas intermediarias
paumba, paomba, poomba (docs. do Sec. XIII);
fr. colombe, palombe; hesp. columba paloma; it. colomba,
palombo
. 116

3. – Grammatica descriptiva ou expositiva. –
E’ a codificação empyrica, a exposição analytica dos
factos da linguagem.

Não investiga as causas nem explica as leis;
seu fim é apenas classificar, definir, e exemplificar os materiaes
linguisticos.

Este methodo grammatical, posto estude mui incompletamente
a linguagem, é todavia de grande utilidade por sua clareza didactica,
e ainda accrescentado pelos muitos respigos de provas cumulativas.

4. – O objecto da grammatica portugueza, é
pois o estudo geral, descriptivo, historico, comparativo
e coordinativo, mas tão sómente no dominio da lingua
portugueza, dos factos da linguagem e das leis que
os regem.

5. – Divide-se em lexycologia e syntaxe.

A lexycologia estuda a palavra individualmente,
e subdivide-se em phonologia ou estudo dos sons (que
comprehende – phonetica, prosodia e orthographia),
morphologia ou estudo das fórmas, e semiologia ou
estudo do sentido das palavras e da sua variabilidade.

A syntaxe trata da palavra collectiva, isto é, da
phrase e da proposição, e divide-se em gramatical e
litteraria.

A primeira é a theoria da coordenação e subordinação
das palavras em suas relações de pura expressão
formal do pensamento; a segunda é a teoria
artistica da palavra em suas relações com a esthetica
7do pensamento. D'esta nos occuparemos no ponto
46 (estylistica). 12

6. – Phonologia é o estudo dos sons em geral.

Phonetica é a parte da grammatica que estuda as
modificações, permutas e transformações dos sons.

A phonetica portugueza, pois, tem por fim o estudo
historico de cada uma das lettras do nosso alphabeto,
das permutas que soffreram na passagem do latim
para a nossa lingua, e ainda o das modificações por
que passaram até a fixação das fórmas vocabularias.

Base dos estudos grammaticaes, philologicos e
glottologicos; esteio da etymologia scientifica, é ainda
a phonetica que nos ministra as fórmas intermediarias
hypotheticas, mas verificaveis, de tão subida utilidade
para os estudos comparativos.

Não obstante, as leis phoneticas não são absolutas
e rigorosamente fataes; representam apenas tendencias
desenvolvidas da linguagem.

7. – Sons e lettras. O som é um fenômeno
natural que se produz em todas as suas variedades,
mas subordinado a condições organicas; e o alfabeto
natural é hoje perfeitamente explicado pela anatomia
e pela physiologia, e ainda pela physica.

Podemos pois definir o som – producto do
apparelho phonico.8

Lettras são as representações graphicas dos sons.
A' sua disposição methodica, bem como á dos sons,
dá-se o nome de alphabeto.

Um systema alphabetico, deve estender-se do a aberto aos
sons mudos e completamente fechados. São esses – diz Whitney –
os seus limites naturaes e necessarios, e só os gráos intermediários
podem dividir-se em classes.

8. – Ha tres cathegorias de sons ou lettras, correspondentes
a tres ordens de modificações do apparelho
vocal – vogaes, consoantes momentaneas, consoantes
continuas
.

A divisão geral dos sons em vogaes e consoantes,
basea-se: 1.°, no esforço que se emprega para superar
o obstaculo opposto á emissão do som; 2.°, na natureza
especial dos orgãos que constituem esse obstáculo.
D'ahi ainda a divisão das consoantes em continuas
(vibrantes, liquidas, aspirantes); instantaneas ou
explosivas, nasaes, chiantes, e – gutturaes, palataes,
dentaes
e labiaes.

9. – As vogaes, são produzidas pelo larynge,
posto que modificadas no som pelas differentes posições
da lingua e dos labios. Cada uma dessas modificações
do som origina uma voz ou vogal differente.

A cavidade bocal forma um canal igualmente largo ou dilata-lhe
o segmento anterior estreitando o posterior: dá-se o primeiro
caso para as vogaes a, o, u, o segundo para e, e i. Na emissão
desses sons (vogaes puras), os orificios das cavidades nasaes
fecham-se pela elevação da aboboda palatina: o contrario produz
as nasaes. (Burnt. Kün. Phys.).

As vogaes fundamentaes, typicas são – a, e, u:
i
e o representam sons puros, porém intermediarios.9

A nasalisação vocalica em portuguez, posto fosse vulgar
no celta e no francez, não deve ser attribuida a estas influencias senão
á da lingua romana. 13

O y entre duas consoantes origina-se de um
ypsilon grego, ainda mesmo nas palavras importadas
pelo latim.

Entre vogaes equivale a um i ou y latino, ou é
de intercalação euphonica. Serve ainda, no fim da
palavra principalmente, para alongar a vogal (aly, hy,
etc.)

No latim o ypsilon era representado nas mais
antigas inscripções por u ou por i; e nos nossos primeiros
documentos equivalia a i e j (mayo, mayor,
peyor
, etc.).

E’ final em algumas palavras de origem estrangeira
(boy, dey, jockey), e neste caso representa
signal etymologico; e ainda nos nomes locaes derivados
da lingua indigena (Catumby, Andarahy).

10. – As vogaes podem ser duplas ou compostas
(de uma forte e uma fraca). A estes grupos vocalicos
dá-se o nome de diphthongo; consistem na emissão
de duas vozes constituindo um som unico, e dividem­se
em oraes e nasaes: ae, (ai), au, (ao), ei, eu (eo,) oe
(oi), ou, ui., e ãe, ã (an), ão, õe, uim.

O diphthongo é sempre consequencia de reforço
ou abrandamento.

Chama-se semi-diphthongos aos grupos ea, ia, ie,
ua, ue uo
, e a razão salta aos olhos – as duas vogaes
10posto não se possam separar soam todavia distincta
mente (tenue, continuo).

Alguns grammaticos, – entre os quaes Diez –
consideram triphthongos portuguezes os grupos –
uae, uei: – iguaes, averigueis.

Os monophthongos (ai = e, ei = i, etc) só se conservaram no
portuguez em relações etymologicas (Eneas = Æneas, co-evo =
= avum
, etc.)

11. – A theoria que explica a funcção das vogaes
e as suas permutas na formação e derivação das
palavras, chama-se vocalismo.

As alterações phoneticas mais são devidas á natureza das
vogaes, cujas intimas relações physiologicas são manifestas na sua
gradação e degradação, 14 e que – como ponderou Bopp – obedecem
a uma escala de peso relativo.

12. – A consoante é um ruido, e não um som.
Simples ruidos ou vibrações, não podem ser
pronunciados senão com auxilio de uma vogal, e
d'ahi lhes veio a denominação (cum sonare).

Uma corrente de ar passando por um tubo, fresta ou aresta,
produz um som. Si o som é produzido por uma vibração regular e
rythmica, chama-se som musical ou simplesmente som; se a vibração
é irregular, isto é, se as suas ondulações succesivas são intervaladas
irregularmente, o tympano recebe a impressão de um simples ruido,
e não de um som.

Os orgãos de respiração, pela inspiração e expiração, podem
produzir muitos sons e ruidos.

Os orgãos necessarios para a producção da voz e pronuncia
são os pulmões-os bronchios, a trachéa, o larynge (que compreende
as cordas vocaes, as fossas nasaes, e finalmente a boca
lingua, labios, dentes).11

O ar expellido pelos pulmões, passa dos bronchios para a
trachéa, e chega á glotte: não podendo romper facilmente por esta
fenda, é impellido com força pelo sopro contra as cordas vocaes
inferiores, que entram em vibração. O ar torna-se então sonoro.

13. – O h é simples signal etymologico; – hora,
horto
… = lat. hora, hortum; hydrogeneo, (gr. hudros),
Homero; notação de dierese ou resolução vocalica –
sahi, ahi.

Parece que esta lettra era aspirada nos primeiros
annos da formação da lingua, á semelhança do latim.

Deixando de soar, deixou tambem de ser representada
graphicamente (omen, onrra, etc.); mais tarde,
porem, os latinistas introduziram de novo esse signal
na escripta e d'elle abusaram os escriptores dos seculos
XIV e XV – he, hir, hum, ho, he, (verbo e conjuncção)
husofructo, hinsidias, hestromento, higualdaçom, etc.
E ainda hoje escrevemos nenhum por nem um.

Em muitos casos, porem, parece que seu fim era
indicar o alongamento da vogal (mheu sabhia, etc.)

14. – As consoantes são simples – b, c, d, f, etc.:
ou compostas: – ch, lh, nh, ph, etc. Ao lh e nh dá-se
o nome de molhadas.

Ás combinações bl, br, pl, pr gl, gr, etc. – accordadas,
em geral, á euphonia latina, – chamam os
grammaticos – grupos consonantaes. (V. ponto 3).

Á theoria explicativa da historia das funcções
e permutas das consoantes denomina-se consonantismo.

A geminação das lettras só se dá no dominio das consoantes:
1.° por transmissão etymologica ou uso tradiccional – cavallo =
12caballlus; 2.° pelo reforço do a prosthetico regional: – arrebentar;
3.° por assimilação, nos compostos (directa ou indirectamente): –
arraigar, attrahir.

Nos escriptos antigos empregavam a geminação vocalica
para indicar a tonicidade ou transparencia etymologica (Sec. XII-XVI):
avoo, poboo, diaboo, seem, Vaasco, Meem…; leer, seede,
creede, aajes, soom, jáa, cruu, meesmo, meestre, door
… (Sec. XIII).
15

A substituição d'esta graphia por vogal accentuada data do seculo
XV em Ruy de Pina, e desapparece com Damião de Góes. As
mesmas tendencias se observam na geminação das consoantes
(reforço, alongamento exterior, etc.) nos mesmos seculos onrras, ssa,
rrios, mensse,tall, capitollo, ffillos, ffalsos, fforom
(Sec. XIII-XV)…
ao passo que, quando etymologica, raro se encontra nos primeiros
documentos da lingua (abate, vosa – seculo XII – apelido, aly
– seculo XIII –, etc.)

A geminação ll representava na mesma época a molhada lh
(barallar, moller, concello…), nn – nh.

A maioria d'estes factos representa o periodo syneretico da
orthographia.

15. – Syllabas, grupos syllabicos, vocabulo. –
As syllabas representam os sons elementares do vocabulo:
são as suas articulações ou juncturas.

Podemos ainda definir a syllaba — todo e qualquer
som produzido por uma unica emissão de voz. 26

Vocabulo é uma forma expoente de uma idéa
ou sentimento. 37

A formação das syllabas e dos grupos syllabicos
depende principalmente da affinidade physiologica dos
sons e sua correspondencia, 48 e de habitos euphonicos
regionaes, subordinados quasi invariavelmente á lei ou
ao principio de menor acção.13

Assim por exemplo, as combinações syllabicas – cz, gn, pth
iniciaes, são transcripções de vocabulos não vernaculos, isto é, na
sua formação desviaram-se das leis harmonicas do syllabismo portuguez.
A verdadeira integridade ou unidade syllabica é quasi sempre
consequencia do principio de menor esforço a que ácima nos
referimos.

Phonica e morphologicamente os vocabulos são – homonymos
(homophonos ou homographos) e paronymos; semiologicamente são
mononymos, polynomynos, synonymos e autonymos.(V. lições 6 ª
e 12.ª)

16. – Notações lexicas. – São signaes graphicos
que servem para exprimir a natureza, predominancia,
contracção ou suppressão de vozes livres, e ainda
para a representação abreviada das palavras.

São de tres especies – phonicas, etymologicas e
tachygraphicas.

a) Á primeira especie pertencem os accentos
agudo, circunflexo, a dierese, o asterisco, a cedilha,
e o til ou accento nasal, etc.

O accento agudo indica não somente a tonicidade da syllaba,
senão tambem uma contracção. – á – aa – lat. ad-illam.

A dierese representa uma resolução vocalica, ou emprega-se
em certas palavras para indicar que as duas vogaes não formam
diphthongo (ataüde, alaüde) 19

O circumflexo indica ensurdecimento vocalico (sêde = siti), e
contracção (têm = teem = lat. tenent).

A cedilha é de origem hespanhola. O seu emprego data do
seculo XIII, posto que nem sempre a empregassem os escriptores
(Guncaro), que outras vezes d'ella se serviam pleonasticamente
(Gondisalves).

O til representa sempre uma nasal, e até as primeiras decadas
do seculo XVI era empregado como notação abreviadora
( = com, pêdêça = pendença = penitencia). Ainda hoje escreve-se

q̃ = que, etc. 21014

b) Os accentos etymologieos são o apostropho e
a diastase.

O ultimo emprega-se em palavras formadas por
juxtaposição; mas hoje o seu emprego é muito
menos vulgar porque nos juxtapostos os elementos
componentes vêm sempre claros e distinctos. Serve
tambem, como signal formativo, para separar as
syllabas da palavra.

c) Os accentos tachygraphos são as abreviaturas,
usadas geralmente em fórmas onomasticas, de titulos
honorificos e pronominaes.

Exemplifiquemos:

Sec. VIII – Test. = testis
XII – conf. = confirmo
dña. = dona
F. = firma
XIV – aq̃. = aqui
daq̃. = d'aqui
q̃sera. = quisera
s. = saber
XV – ds. = Deus
Sr. = senhor
V’ = vós
XVI – Bartoli. = Bartolomeu
Frez. = Fernandes
Glz̃. = Gonçalves
R. = Réo
V.A. = Vossa Alteza15

XVII– F (fr) = Frei
VE = Vossa Excellencia
V. M. = Vossa Mercê.
V. P. = Vossa Paternidade.
V. R. = Vossa Reverencia.
V. S. = Vossa Senhoria
Chro. = Chisto.
JHS = Jesus
XVIII – uer. = mulher
uto. = muito.
Rdo. = Reverendo.
Rmo. = Reverendissimo
Sor = Senhor
Sna = Senhora

Sec. XIX Att.o, B.el, Cr.o, Dig.mo, ex. (exemplo),
Sñr., P. S. (post. escriptum), p. e. f. (por especial
favor), o. d. c. (offerece, dedica e consagra), etc.

Todas essas notações são convencionaes.16

Segunda lição
Accento e quantidade

[Accento]

1. – Accento (lat. accentus, ab-accinendo = grego
prosodia) é a influencia ou regra que determina a elevação
ou ensurdecimento da syllaba.

E’ a alma da palavra, como o definiu Diomedes;
a viva emoção do sentimento que acompanha o discurso,
o mediador entre o pensamento e a fórma, –
na phrase de Humboldt.

2. – Ha quatro especies de accentos: tonico,
grammatical
ou logico, oratorio ou phraseologico, e
provinciano ou local.

a) O accento tonico (gr. tonos) é a elevação da
voz na pronuncia de uma syllaba para tornal-a mais
saliente.

E’ uma força conservadora, diz o professor Diez,
que resiste em todo o dominio da linguagem á corrente
17da degeneração phonetica, e por isso é a alma, o
centro de gravidade da palavra.

Como em geral nos idiomas congeneres, o estudo
do accento tonico é de summa importancia no portuguez 111
pois que na formação da lingua foi grande a
sua influencia, a qual se manifesta:

1.° na persistencia do accento, principalmente no
vocabulario de fundo popular:

ángelus | anjo (arch. angeo) – Angelo
clavicula | cavilha, cravelha, – clavicula
parabola | palavra, – parabola
viaticum | viagem, – viatico
acuc’la | agulha

A deslocação do accento tonico dá-se sempre por
circumstancias apreciaveis, taes como – influencia erudita
(ainda que em muito menor proporção que
em francez), o imparisyllabismo latino, a composição,
a enclise, as derivações dialectaes:

pólypus | polypo (polvo)
plátea | platéa (praça)
cáthedra | cadeira
rénego | renego
éxplico | explico
pústula | bostélla18

cómpater | compadre
Hignes | Ignez
Didocus | Diogo
timor | temor
etc. | etc.

O accento latino estava subordinado á quantidade: d’ahi a
influencia da penultima longa, sobre a qual elle recahia (cantórem,
amáre… rígidus, porticus
…)

Em muitissimos casos a deslocação do accento remonta ao
latim vulgar (fícatum – figado, currere, scribere, gémere, constrúere,
rúmpere, facere, convertere, regere
, etc. = correr, escrever, gemer,
construir
, etc.).

Estes verbos proparoxytonos em ere tinham uma fórma
concurrente oxytona em ire – curriri, scribire, etc. donde se derivaram
as fórmas verbaes portuguezas, accentuadas na ultima pela
quéda regular da vogal final.

2. – Na derivação. Os suffixos originarios atonos
tornam-se tonicos em vocabulos de nova formação:

cristal-ino = lat. cristalum + inus
primaz-ia = primarium

3. – Na analogia – imbécil, dúctil, textil.

4. – Na obliteração dos casos, ou melhor no consequente
desapparecimento das syllabas atonas:

lição | lectionem
lei | legem
face | facem

E as syllabas finaes eram sempre atonas.

5. – Na homonymia. Muitas vezes o accento distingue
as fórmas homonymicas, que deixam consequentemente
de ser homophonas: ultímo último, vínculo
vincúlo
.19

6. – Na poesia. A obliteração e assonancia só
produzem verdadeiros effeitos metricos, quando as
lettras ou syllabas são accentuadas (tants ternes tanto
mando
– S. Res. Misc. –; as que foram terra acima
tiveram melhor atina…; deram á rainha o filho e á escrava
deram a filha; mal se levanta a rainha, vae-se ter
com a cativa
… – Th. Br. Anth.); e o mesmo se dá com
a rima, que consiste exclusivamente na homophonia
de syllabas tonicas. 112

Em regra, no portuguez, o accento cahe: 1°, na
ultima se a palavra termina por vogal livre nasal,
diphthongo ou consoante: coração, irmã, bacalháo,
etc. 213; ou nas vogaes i e u: frenesi, bahu 314; 2°, na penultima
syllaba se a palavra termina em vogal pura: rosa,
peito
, … ou nos diphthongos ea, eo, ia, ie, io, ua, uo, –
níveo, série, mágua
; 3°, na antepenultima, quando no
latim era essa a syllaba accentuada: magnifico, carnivoro,
artificio
415, celeberrimo (e todos os superlativos
organicos), ou ainda nos substantivos terminados por
certas desinencias gregas: misanthropo, hydrocéphalo,
homonymo, diaphano, monotono
, etc.20

D’ahi a divisão das palavras em oxytonas ou
agudas, paroxytonas ou graves, e proparoxytonas ou
esdruxulas. 116

Os factos contrarios a este systema são devidos
á influencia da enclise, cujo caracter principal é
atonisar as palavras: annuncia-se-lhes, mandando-se-lhes. 217

2. – Como em latim, os vocabulos polysyllabos
tinham um accento secundario, que muitas vezes se
confundia com o tonico nos dissyllabicos. Cahia na
primeira syllaba de cada palavra ou syllaba inicial, e
era representado por uma elevação de voz menos forte
que sobre a tonica. Em portuguez póde o accento secundario
cahir na primeira syllaba, na segunda, e
sobre a terceira, isto é de accordo com os vocabulos
primitivos: simplesmênte, cortêzania, valorôsissimo.

Em portuguez nota-se mais geralmente o accento
secundario nos compostos e derivados: quebra-nozes,
setecentos, constitucionalmente
, etc.

Neste caso os elementos da palavra conservam seu valor individual
e significativo, o que – como acertadamente pondera um
grammatico moderno – basta para explicar o facto.

3. – Esta herança dos dous accentos latinos constitue
em todo o dominio romano um facto de maxima
importancia.21

Dando mais duração ou consistencia ás syllabas,
provocava ao mesmo tempo o ensurdecimento ou a
quéda das atonas que lhe estavam proximas. No portuguez,
como no francez, a predominancia da tonica
mais cresceu de ponto, dando em resultado muitas
fórmas atrophiadas ou contractas.

Este phenomeno já era conhecido do latim popular e mesmo
classico: tab’la portuguez tabula (tabua; mas que deu table em
francez), temp’lum, sec’lum, etc.

Para conservar o accento na mesma syllaba, foi
o portuguez obrigado muitas vezes a essas contracções
dos vocabulos latinos, supprimindo as vogaes breves
que no latim seguiam a syllaba accentuada, – e
d’essa apocope resultou o termos syllabas finaes
accentuadas, desconhecidas dos Latinos. 118

4. – Geralmente o accento tonico cahe na penultima,
principalmente nos dissyllabos, se essa syllaba
era longa em latim.

Esta tendencia já manifesta na linguagem dos Romanos para
pronunciarem a syllaba final com accento grave, tem modificado
forçosamente a prosodia de varias palavras. Assim por exemplo:
o portuguez accentua as palavras compostas importadas do latim,
como se fossem simples (renégo, compádre, etc.), e, por extensão, as
compostas de outras já portuguezas. 219

5. – Cahe na antepenultima, como em latim,
quando a syllaba no vocabulo originario fôr breve:
rígido, portico, tímido.22

O portuguez regeita a pronuncia das palavras em que todas
as syllabas são breves, o que era usual entre os Latinos. Todavia
conservamos algumas amostras: mínimo, tímido, mórbido, …
120

6. – Nos proparoxytonos é de notar a syncope
da vogal latina da antepenultima syllaba, o que constitue
em portuguez principio importante na formação
da lingua.

7. – Em geral, o accento persiste nos vocabulos
importados directamente do grego (geographia, cosmographia…);
mas são accentuados na antepenultima,
por analogia, os que nos vieram por intermedio
do latim (astrónomo, apóstropho, etc.)

8. – O accento secundario é tambem resultado
de variações prosodicas dialectaes, e neste caso chama-se
accento provinciano, ou sotaque provincial. 221

São intonações de voz particulares, devidas ás
influencias mesologicas muitas vezes de difficil apreciação,
e que muito desvalorisam o accento tonico
(ó homem, Maceió, mólhér…)

9. – O accento oratorio é do dominio da rhetorica.
Provem do sentido que se dá a uma palavra ou
phrase: não tem relação alguma com os elementos
materiaes syllabicos.

Na contextura phraseologica são de notar as relações
de dependencia entre este accento e o tonico.23

Dá-se-lhe tambem a denominação de pathetico,
oracional ou phraseologico.

Influenciou muitas vezes na formação dos vocabulos,
como veremos em outro logar.

Ha ainda outro accento a que se póde chamar mimico.
Origem das duplas de sentido, como, por exemolo, nas variadas
modulações das particulas ah ! oh ! ai ! ui ! – que podem exprimir
espanto, admiração, dôr, alegria, e reprehensão, enojo, etc., muito
deve elle influenciar na accentuação. Modificando os sons, produz
tambem outros accidentes, por tal fórma postos em seguimento,
que podem ser considerados – phenomenos reflexos da phonação.

Quantidade

Em latim, a quantidade era a alma do accento;
em portuguez ella perdeu, porém, a sua força primitiva,
e o accento – por sua persistencia ainda mais
influenciou sobre aquella modalidade.

E’ esta tão vaga em portuguez, que em geral os
grammaticos só consideram longa a syllaba tonica.

Damos em seguida as regras, que todavia nos
parecem mais seguras sobre a quantidade no nosso
idioma: 122

1.ª – E’ longa a vogal tonica em posição, principalmente
quando nasal – pintura.

Ha excepções, mas cumpre observar conservamos a quantidade
latina sempre que ella é resultado da quéda de uma vogal
(fé, fée = fides) ou da intercalação de uma consoante (lembrar).

Uma vogal em posição póde alongar-se em diphthongos.
(Vide terceiro ponto).
24

2.ª – E’ longa a vogal accentuada quando se acha
entre uma consoante e uma vogal: – area (arena).

E’ consequencia da contracção dos vocabulos pela quéda da
consoante média ou da syllaba de derivação e da flexão.

3.ª – E’ longa a vogal nas terminaçõesdo singular
em s ou z: – feliz, dirás; nas do plural em aes
oes, eis, es: – sóes, futeis, deuses
.

4.ª – Ainda é longa quando vem antes de um m
ou n seguidos de uma consoante inicial: – gambia,
dansa
.

5.ª – Tambem é longa quando se acha na penultima
syllaba antes de s, z, e r.

6. ª E’ longa toda a syllaba contracta: – mesmo,
pôr, vêr, seta, crença
… = meesmo, poer, veer, seeta,
creença, credencia, etc.

7.ª – Os diphthongos são geralmente longos.

8. ª – Em regra, a vogal alonga-se antes das consoantes
dobradas, principalmente rr, e lh, nh.

9.ª – As vogaes atonas, principalmente quando
seguem a syllaba tonica, são geralmente breves, e é
esta a causa de frequente simplificação dos diphthongos
latinos no portuguez.

A vogal final é, em regra, breve.

A longa accentuada do radical abrevia-se muitas
vezes quando se lhe ajunta um suffixo ou uma flexão,
que deslocam o accento.

A quantidade, elemento material, devia necessariamente enfraquecer-se
e variar, já pelas idiossincrasias do fallar do povo, já pela
tendencia para a contracção.
25

Estas mesmas causas se observam na lingua latina e explicam
a obliteração da quantidade na lingua fallada, e tambem a abreviação
do o final dos espondeos na epocha de Augusto, do t final
longo dos verbos, etc. (Cornelio por Cornelius, dedro por dederunt,
etc.), breves accentuadas consideradas longas nos hymnos de
S. Ambrosio, os herametros de Commadianos sem a quantidade; o
metro jambico de 12 syllabas accentuadas na 4ª e 10ª, origem
do endecassyllabo italiano, e do decassyllabo francez da idade
média. E’ claro pois – conclue Reinach (Phil. Class) – que desde
os Romanos a accentuação vencêra a quantidade.
26

Terceira lição
Origem das lettras portuguesas

Origem das lettras portuguesas; leis que presidem á permuta
das letras. Importância d’estas transformações phonicas
no processo de derivação das palavras.

a) Vogaes

A. – Em regra, representa: 1°, um A latino livre,
atono, inicial, médio ou final; tonico seguido de
liquida; em posição (principalmente antes de l, r, s,
ou nasal): asno (asinus), saude (salutem), porta (porta),
barba (barba), campo (campum); 2°, um E latino: ebano
(ebenus), rainha (regina; port. arch.-reinha):
3°, um originario em posição: balança (bilancem),
maravilha (mirabilia); 4°, um o: lagosta (locusta),
27dama (domina); 5°, um U: trancar (truncare), ant.
esbalho = esbulho.

E. – Origina-se: 1°, de um E latino, livre, atono,
inicial, médio ou final; em posição (principalmente
depois de guttural), ou ainda de um E accentuado:
egreja (ecclesia), legume (legumem), regua (regula);
2°, de um A atono ou tonico, livre ou em posição:
alegre (alacris); 3°, de um I longo ou breve: cercar
(circare), receber (recipere); 4°, de um O: frente (frontem);
5°, de œ e æ: feno (fœnum), cebolla (cæpulla).

I. – Deriva: 1°, de um i latino longo, atono ou
tonico (principalmente na penultima syllaba): liquido
(liquidus), espinha (espina); 2°, de um e longo, breve,
ou accentuado: rim (ren), isca (esca); 3°, de um ae:
cimento (cæmentum).

O. – Tira origem: 1°, em um o latino tonico ou
atono, livre ou em posição: amor (amorem): 2°, em
um u inicial ou médio, livre ou em posição: onda
(unda), governar (gubernare); 3°, em um a em posição:
fome (fames), ceroto (ceratum); 4°, no diphthongo
latino au: pobre (pauper), orelha (auricula).

O ó aberto deriva-se de um o tonico ou de um
u: sórte (sortem), gróta (gruta).

U. – Representa: 1°, um u latino, longo ou breve,
accentuado (na penultima syllaba): agudo (acutus);
2°, um u atono em posição: rugir (rugire); 3° um o:
tudo (totus), testimunho (testimonium).

Y. – Corresponde ao ypsilon grego, ainda quando
nas palavras importadas pelo latim: analyse, lyra, etc.28

Deriva tambem de um I ou J latino, quando
entre vogaes (Troya), ant. mayo, peyor.

As permutas e transformações das vogaes podem
reduzir-se aos dous factos de alongamento e abrandamento.

As suas modificações podem ser devidas á influencia
de outras vogaes ou á das consoantes, á accentuação,
e tambem em composição á assimilação, dissimilação
e contracção.

b) Diphthongos

Os nossos diphthongos provêm:

1° de um diphthongo originario: autor (autorem),
pouco (paucum);

2° da quéda de uma consoante: vaidade (va-n-itatem),
meio (me-d-ius);

3° de um A latino em posição antes de L: outro
(alterum);

4° da attracção ou transposição da vogal: aipo
(apium), feira (feria);

5° do alongamento da vogal: dou (do), estou
(sto), noute, noite (noctem), muito, arch. mumto
(multum), freio (frenum). 12329

Ui só é diphthongo nasal em mui, muito, que
soam muin muinto.

Os diphthongos nasaes (am, an, ão, ãe, õe) derivam-se
das desinencias latinas anus, onem: christãos
(lat. christianus, p. ar.ch. christiano, ainda hoje conservado
como nome proprio), benção (benedictionem);
arun, …

As modificações das vogaes em posição dependem
maiormente, não de sua tonacidade ou atonicidade,
mas da natureza da primeira consoante que se lhe
segue. Assim, por exemplo: si fôr l, a vogal diphthonga-se
em ou (outro – alterum), ou simplifica-se
(scopro – scalprum); si fôr guttural, esta cahe, e a vogal
diphthonga-se por alongamento (feito – factum, direito
– directum). E o mesmo acontece ao p no grupo
pt, etc.: – preceito – preceptus. 124

As modificações das vogaes reduzem-se pois aos dous factos
de alongamento e abrandamento; as suas permutas e sorte dependem,
não sómente da sua natureza, quantidade e accentuação,
– a cujas regras latinas, o portuguez na sua formação foi sempre
adstricto –, senão tambem da natureza dos elementos (vogaes e
consoantes) que as cercam. E já nos referimos á preponderancia de
uns sons sobre outros, á sua mutua reacção.

E’ esta a causa de serem menos persistentes as vogaes livres
que as em posição.

Em muitos casos as transformaçõs indicadas pela phonetica
nada mais são do que differenças graphicas, cumprindo advertir
que os nossos primeiros escriptores mais se regulavam na orthograhia
pela pronunciação. Assim é, por exemplo, que, parece-nos,
o diphthongo lat. au soava ou (oi, o) quando se lhe seguia consoante,
30e a prova temos em que todos os povos romanos nas palavras populares
aprendidas de outiva, representaram o diphthongo latino
sonicamente por ou e o (aurum, ouro, or, oro, etc.)

c) Consoantes

Todas as consoantes portuguezas vieram do
latim.

B – Em geral representa: 1°., um b originario
inicial ou médio: – bom (bonus), diabo (diabolus); 2°.,
um v: – bexiga (vessica); 3°., de um p: – lobo (lupus),
cabello (capillo).

Temos um exemplo em que o b origina-se de um f – ábrego
– africus; mas por intermedio de uma fórma em v.

C – Guttural ou forte (K), provém de um c duro
latino ou da sua equivalente qu, – inicial ou médio: –
corpo (corpus), nunca (nunquam); ou ainda de cc lat.

C – brando origina-se: 1.°, de um c brando do
latim da decadencia: – céo (cœlum), cidade (l. p. citatem =
civ-i-tatem); 2.°., de um q (qu): – cinco (quinque) 125;
3.°, de um x: – tecer (texere); 4.°, de ss: – ruço
(russus); 5.°, da combinação TI seguida de vogal: –
graça (gratia), nação (nationem).

Os grupos t-ia, t-ie, t-io, t-iu, cumpre advertir, soavam já
no latim ci e tz; nos antigos monumentos até o Sec. de Augusto
concorrem aquellas fórmas parallelas ás em ci, ssi, si, (eciam, altercasione.)
226

Nos seculos V, VI e VII, os Romanos pronunciavam z por t.31

D – Deriva: 1.°, de um d primitivo (inicial
ou medio): – dedo (digitus), surdo (surdum); 2.°, de um
t medio, abrandamento este muito frequente nos
vocabulos de origem popular: – todo, tudo (totus),
vida (vita).

F – Esta consoante representa: 1.°, um f ou ph,
originario: – frasco (flasca), cofre, (cóphinus); 2.°,
um v: – fisgar (viscare); 3.°, o khe arabe (= j aspirado):
alforges (alkhordj).

A transformação do f em v, e vice-versa, foi mui frequente
na provincia hispanica depois do dominio arabe.

G – Provém: 1.°, de um G forte ou brando primitivo
(principalmente inicial): – gosto (gustus), negro
(niger); 2.°, de um c forte: – pagar (pacare),
lagrima (lacrima); 3.°, de um q: – águia (aquila)
guitarra (ar. quitarra): 4.°, de um v: – gastar
(vastare); 5.°, de um w germanico: – trégua (triwa)
guante (wantus) 127; 6.° de um gramma grego: –
glotte (glottis).

O g brando origina-se: 1.°, de um g brando
primitivo: – gemer (gemere); 2.°, de um c brando
– muito frequente no seculo XVI: – aduger (adducere);
3.°, de um z: – gengibre (zinziber), ant.
prigon (presionem).32

H – Representa: 1.°, um h latino: – herva
(herba); 2.°, um f latino: – arch, harto, ahinco
(= fartus; afinco, de afico). 3.°, a aspiração grega.

Não é modificação phonica; mas, propriamente fallando,
uma simples notação graphica e etymologica.

J – Deriva-se: 1.°, de um j e g brando latinos;
2.°, de um z ou s: – gargarejar (gargarisare),
arch. cajom, cajão (occasionem); 3.° de um hi (i):
Jacintho (Hiacinthus); 4.°, de um s, seguido de
i: beijo (basium), cerveja (cervisia); 5.°, de um d,
seguido de i: – jornal (diurnalis), hoje (hodie); 6.°,
do dijim arabe: – jarra (dijarra, dijarres); julepe
(djulab).

Representa o abrandamento do dj, cujo som ainda persiste
em alguns angulos de Portugal e em S. Paulo (no linguajar
caipira): – djá, djogo, dgente, e ainda no galleziano, provençal e
italiano.

A permuta do d pelo g brando ou j já era usual no latim do
seculo IX; e o dj representa um verdadeiro som romanico.

K – Representa, ainda que inorthologicamente,
o chi grego: Kisto (chistos), killogramma (chilo e
gramma).

L – Provém: 1.°, de um l originário – inicial,
médio ou final: – lettra (littera), pello (pillus), sol
(sol); 2.°, de um r: – palavra (parabola) 128; 3.° de um
n: – arch. lomear (nominare), alimal, 229 Bolonha (Bononia),
etc.33

Em julgar (juzgar) do lat. jud (i) care não foi, – parece-nos –,
o d que se converteu em l port., mas sim este que se intercallou
por motivo euphonico, depois da quéda do dental.

Em lembrar o l não representa um m latino, pois não deriva
directamente de memorare, mas da fórma intermediaria port. nembrar.

M – Tem por origem: 1.°, um M typico inicial,
medio ou final: – morte (mortem), homem (hominem);
2.°, um n, principalmente final: – bem (ben-e), bom
(bon-us); 3.°, um b em mormo (morbum); 4.°, representa,
ainda que raro, um c final latino: – nem (nec),
sim (sic).

Não somos hoje accordes com os que acreditam na permuta
do c lat. por um m port. Acreditamos que a nasal foi introduzida
tão sómente para o alongamento vocalico, tanto mais que o c final
não soava na pronuncia.

N – Origina-se: 1.°, de um n inicial, medio ou
final: – nariz (l. b. nares), ruina (idem), jovem (ju­ven-is),
hysson (v. asiatica); 2.°, de um m inicial ou
medio: – nespera (mesphilum), contar (comp’tare); 3.°,
de um l: – nivel (libella, p. ant. livel, olivel). mortandade
(mortalitatem).

P – Tira origem: em um p inicial ou medio
(geralmente protegido por uma outra consoante,
r, l, ou p): – pae (pater)…; 2.°, em um f: – soprar
(sufflare); 3.°, em um b: – alparca (ant. abarca ou alabarca
= arabe albagal).

Q – Provém de um q originario ou de um c
forte.

R – Origina-se: 1.°, de um r inicial, medio ou
final: – rainha (regina), direito (directus), par (par);
342.°, de um l: – obrigar (obligare: port. arch. e ant. –
oblidar, obligar); 3.°, de um nsanar (sanare).

S – Deriva-se: 1.°, de um s originario: –
(solus), casa (l. p. casa); 2.°, de um c brando latino: –
visinho (vicinus), amizade (amicitatem).

SS – Esta consoante dupla origina-se de ss ou
x: – leissar per leixar (Sec. XIV), ou ainda de uma
assimilação – assas (ad satis).

T – Origina-se de um t inicial ou medio:1.°, tempo
(tempus), estado (status).

V – Vem: 1.°, de um v originario inicial ou
medio: – verdade (veritatem); calvo (calvus); 2.°, de
um b cavallo (caballus), haver (habere); 3.°, de um f: –
ourives (aurifex); de um p, povo (populus), escova
(scopa).

Estas ultimas, em geral, passaram pelas fórmas intermediarias
em b: – poblo, poblança, poboaçom, poblador. (Sec.XII e XIII). E
nisto cumpre attentar.

X – Origina-se: 1.°, de um S, SC, CS ou SS lat.: –
bexiga (vessica), euxugar (ecsucare); 2.°, da chiante
arabe sch – oxalá (inshallah), xaqueca ou enchaqueca
(schaqueca).

Z – Representa: 1.°, s latino ou c brando:
prazer (placere), juizo (judicium), fazer (facere);
2.°, um qu: – cozer (coquere); 3.°, a combinação
latina ti: – razão (rationem), dureza (duritia); 130 4.°, as
terminações latinas ace, ice, oce, – que tambem eram
35as portuguezas – feliz (felice), feroz (feroce); 5.°, um x
(noz = nox, voz = vox) ?…

Estes ultimos podem derivar do nome lat.; mas geralmente
todos consideram-os moldados no accus. – vocem, etc. Não vemos
razão para rejeitar-se o nom. (Vide – Pacheco Junior. – Phonologia).

d) ch, lh, nh

CH – Os Romanos desconheciam o nosso ch
com o som de x, e que os nossos maiores, pronunciavam
tsche, como ainda hoje os da Beira, Minho,
S. Paulo, os Provençaes, Gallegos, Italianos, etc. É
som romano, genuino, que passou para a Inglaterra
por influencia franceza (Charles, cherry).

Os Beirões dizem, e mui corretamenta, tchapéo,
tchá
, etc.

É difficil precisar com acerto as varias relações
etymologicas d’esta lettra complexa. Deriva-se, porem,
em geral: 1.°, dos grupos latinos cl, pl, fl: – chamar
(clamare), chorar (plorare), chamma (flamma) 131; 2.°, do
c forte latino (seguido de a ou i): – charrua (carruca),
marchante (mercantem).

Ch duro = k, sem o som chiante, deriva-se do
latim: – christão, monarchia; do chi grego: – chiromania;
do chet hebraico: – cherubim.36

Algumas vezes a palavra latina dá-nos duas
formas divergentes, uma que conserva o c duro, outra
que o transforma em ch chiante: – capa, chapa.

Já era frequente nas inscripções da Republica o emprego do
ch por c antes das vogaes e dos diphthongos; e esta orthographia,
que reviveu na epoca imperial, era a vulgar nos tempos de Augusto:
chenturiones, choronae, etc.

Nos nossos docs. antigos encontram-se as fórmas charidade,
charo
, etc., ao passo que – gamar ou jamar por chamar (clamare),
e ainda acado por achado (doc. de 1418), etc.

O ch parece ser um abrandamento de dj.

LH – Esta consoante dupla provém: 1.°, dos
grupos latinos BL, CL, GL, PL, TL: – ralhar (rab-u-lare),
orelha (auric-u-la), coalhar (coag-u-lare), escolho
(escop-u-lus); 2.°, das combinações latinas le, li:
palha (palea), batalha (battualia).

Neste segundo caso é clara a funcção do H, que se limita a
representar o I palatal latino, indicando ao mesmo tempo a atonicidade
da vogal: – Batalha, palha, mulher, etc., soam perfeitamente
batália, palia, mulier.
132

Esta molhada corresponde etymologicamente ao LL hesp.,
mas o modo de represental- a graphicamente foi tomado do provençal.
Nos séculos XIV e XV, porem, representavam – na indifferentemente
por LL ou L: filo e fillo, melor e mellor, migala e
migalla, etc., sendo de notar que nos primeiros documentos da
linguas essas palavras eram escriptas sem o elemento consonantico
(moyer, meor), como ainda se pronuncia em S. Paulo e em certos
logares de Minas Geraes (fio = filho, muié = mulher, téa = telha,
teiado, mio = milho, etc.)
233

Em nosso parecer, esta molhada – exclusiva das linguas
néo-latinas – não se deriva do celtico.

A’s vezes o h representa signal etymologico, e não se molha
com o h – gentilhomem.
37

NH – Apparece na lingua desde o século XIII,
e a sua adopção foi consequencia logica do emprego
do lh.

Deriva-se: 1.°, de nn originário: – grunhir (grunnire);
2.°, de um n simples: caminho (caminus), vinho
(vinus); 3.°, de um n seguido de e palatal: – aranha
(aranea), vinha (vinea); 4.°, dos grupos gn lat.: – anho
(agnus), desdenhar (desdignari); 5.°, de um mn ou n
(no port. ant.): – danho = damno.

Este som era commum ao ibero e celtico; as linguas néolatinas,
porem, herdaram-no directamente do latim, pois que,
– certo –, os Romanos pronunciavam gn = nh, e não como hoje
o fazemos, dando som forte ao G (ag-nus, mag-nus). E é prova da
nossa asseveração o ter aquelle grupo latino passado para as
linguas néo-latinas, com o mesmo som (nh) que conservam em
todas as palavras de fundo popular.

No século XVI ainda magno soava manho: e dessa pronuncia
temos vestigio em tamanho (= tão manho, tão magno).

Nos primeiros documentos da nossa lingua, esta
molhada era representada pelas mesmas lettras latinas
(gn): – pegnorar, segnor, etc, ou por nn.

Os elementos g e n soam separados somente
nos vocabulos de creação artificial ou origem erudita
(estag-nado, ig-neo).

Em anhelo, anhelar, anhelito, e nos vocabulos
formados de derivados latinos com o prefixo in, o h
não se molha com o n (inhabil), etc. 13438

2. – As permutas das vogaes e suas transformações,
como já vimos, podem reduzir-se aos dous factos
de alongamento e abrandamento.

Os sons vocalicos tambem se transformam pela
influencia das consoantes.

A fusão de duas vogaes differentes é sempre
precedida pela assimilação.

3. – Do facto de poderem as consoantes ser
fortes ou brandas, resultaram as leis seguintes a que
estão ellas sujeitas nas permutas:

1.ª As permutas dão-se geralmente entre consoantes
da mesma ordem ou homorganicas, isto é,
um b latino pode dar um b portuguez, um v, mesmo um p
ou f, mas nunca um g ou s.

2.ª Deve-se attender, e muito, á classe das lettras
(forte ou branda). A tendencia é sempre para o
abrandamento; e por isso o p latino, que é labial forte,
muda-se frequentemente em b ou v no portuguez, ao
passo que b e v latinos raro se permutam em p ou f.

3.ª Póde dar-se a permuta de uma branda pela
forte homorganica; estas transformações, porem, são
rarissimas e só se fazem gradualmente.

4. – A importancia d’estas transformações phonicas
resalta do que dissemos acima. Pouco acrescentaremos.

Adoptando o vocabulario do latim popular, as
linguas néo-latinas conservaram-se adstrictas a leis instinctivas,
fataes (mesologicas e ethnographicas), e ao
proprio genio do fallar nativo; mas tambem sempre
39subordinadas a outra lei incoercivel, – a do menor
esforço.

D’ahi, a queda dos sons, no principio, no meio,
no fim das palavras; a intercalação de sons euphonicos;
a permuta dos sons homorganicos; a prepondencia
ou reacção dos varios sons entre si, d’onde a
assimilação e a dissimilação; as metatheses, etc. D’ahi
ainda o atrophiamento das fórmas populares, ao passo
que as de creação erudita encostam-se ao typo latino
ou grego, differindo ás vezes tão somente nas desinencias.
É facil pois assertar a camada a que pertence o
vocabulo.

A’s vezes acontece que o vocabulo popular antes
de se fixar, passou por uma ou mais fórmas intermediarias.
Assim, por exemplo: – povo, papel e lembrar
não nos vieram directamente de populus, papyrus e
memorare
, mas pelas fórmas intermediarias poblo e
poboo, papillo, nembrar, etc. Natura non facit saltus.

5. – A analyse phonetica do vocabulo póde pois
facilmente fazer-nos remontar á sua origem, á sua
forma completa, descobrir-lhe as intermediarias, conhecer
pela estructura a epoca do seu imperio, etc., e
achar a explicação de todas as transformações phoneticas
porque passaram os elementos constituidos do
typo originario.

6. – Tomemos para exemplo a palavra mesmo,
que se deriva do latim metipsimus, contracção de
metipsissimus = impsimusmet. Só a analyse phonetica
nos explica essa transformação: 1.°, indicando-nos a
40fórma latina regularmente contracta metips’mus (queda
da vogal breve); 2.°, a assimilação das consoantes ps
em s, já muito frequente no latim; 3.°, o abrandamento
do T. De todas essas transformações resultou a fórma
archaica portugneza medessmo, que se contrahiu regularmente
em medês e meesmo (Sec. XV), d’onde
mesmo (Sec. XVI).

7. – Mas se a phonetica é a base da etymologia,
não é comtudo a unica condição necessaria para se dar
no ponto da verdade.

E força applicar essas transformações particulares
ás leis geraes; cumpre que as estudemos á luz da
historia e da comparação.41

Quarta lição
Metaplasmos 135

1. – Dá-se este nome a certas modificações
accidentaes no systema phonetico, de maior importancia –
talvez – que as regulares, e devidas á combinação
dos elementos phonicos da palavra, ou ás
varias influencias do meio.

2. – Estas alterações são em numero de seis; a
saber: substituição, addição, subtracção, fusão, abrandamento,
reforço
.

1.° Substituição

3. – É uma simples permuta de lettras, devida ás
tendencias ou ás necessidades phoneticas de um povo.43

Esta modificação depende da relação ou affinidade, mais
ou menos estreita, entre as lettras na sua formação physiologica,
correspondente aos orgãos vocaes que as pronunciam.

Dá-se a substituição por transformação, dissimilação,
assimilação, e transposição
.

a) Transformação. – Temos por excusado
accrescentar mais nada ao que já dissemos sobre as
leis das permutas das vogaes e equivalencias das consoantes.

Notemos todavia:

1.° A permuta do b em v e vice-versa, tão frequente em
todas as linguas romanas, e já vulgar na linguagem popular de
Roma desde o II seculo da éra christã, parece ser devida a ter o b,
– principalmente no dialecto latino de Africa –, o som do grupo
dv (Bellum soava dvellum, etc.)

2.° O c já tinha o som da sibillante branda antes de e e i no
latim vulgar da decadencia; o g antes d’essas vogaes, – e na
mesma época –, soava como a chiante palatal j; a transformação
do d quando seguido de ia, ie, io, iu, remonta ao II século; o
valor phonetico da dental branda t antes d’esses grupos vocálicos
já era o da guttural branda c (ti ci) desde o V seculo p. C; a
permuta do d latino em z portuguez acha explicação no antigo
som da dental (= ds).

3.° A transformação de certos sons explosivos em sibilantes
palataes nas linguas néo-latinas, indicam apenas mais um valor
phonetico da linguagem popular de Roma. (V. lição 3ª)

b) Dissimilação. – Dá-se quando os dous sons
se repellem ou reagem: – Marselha (Masselha).

c) Assimilação. – É a attracção phonetica de dous
sons; a preponderancia de um sobre o outro: – fallar
(fab-u-lari), pessoa (persona), esse (ipse).

Póde ser completa ou incompleta.

Toda consoante dobrada é consequencia de uma
assimilação.44

d) Transposição. – Esta mudança de logar da
lettra ou syllaba, dá-se de tres differentes modos: por
metathese, hyperthese, anastrophe.

1.° Por metathese 136 quando a transposição é na
mesma syllaba: – pobre (pauper), paul (palus).

As liquidas são as consoantes mais sujeitas a esta
transposição.

Nos escriptos antigos (Secs. XII a XVI) são em numero mais
crescido as fórmas metathesicas: – osmar sommar, sturmento, fremoso,
frol
, etc., muitas das quaes ainda persistem na linguagem do povo
(preguntar, presistir, cravão, etc.)

2.° Por hyperthese, quando a mudança se effectúa
entre lettras de syllabas diversas: – beiço (basium),
aceiro (l. b. acerium).

Nos escriptos dos autores antigos, principalmente dos secs.
XV e XVI, encontram-se muitos exemplos hyperthesicos, alguns
dos quaes ainda são conservados na linguagem plebéa: – prove (pobre),
fadairo, contrayio, etc.

3.° Chama-se anastrophe 237 á inversão quasi que total
das lettras da palavra typica: chinella (l. b. planelli),
ladainha (lat.litania). 338

Dá-se também o nome de anastrophe á inversão das palavras;
eil-o alli, eis alli elle; e á erronea deslocação do accento tonico
pégada, bigámo.
45

2.° Addição

4. – As lettras acrescentadas ás palavras primitivas
podem ser prothesicas, epenthesicas e epithesicas,
isto é, iniciaes, medias e finaes.

a) Prothese (gr. prothesis, apposição). – É, em
geral, consequencia da lei euphonica, e d’este augmento
temos muitas amostras no portuguez: aconselhar,
acredor, escrever
, etc. 139

No latim da decadencia, nas inscripções africanas e nas
christãs de Roma, etc. são innumeros os exemplos da prothese do
e ou i.

De uso mais frequente nos escriptores antigos, – maiormente
a do a, – ainda é ella muito vulgar na linguagem do povo: amostrar,
alanterna, avoar, aparar
(p. parar), etc.…

O portuguez, bem como o hespanhol, regeitou o s impuro.
Todavia nos documentos anteriores ao Sec. XV são muitas as
fórmas nominaes e verbaes escriptas sem o E prothesico: scala,
scondudo
, etc, e ainda posteriormente. Os vocabulos que em portuguez
começam por um s impuro, são de origem erudita (sphenoide,
sternon
, etc.), aos quaes já vão todavia vencendo na lucta as fórmas,
com e prothesico.
240

b) Epenthese (gr. epenthesis, inserção). – Tem
por fim tornar mais euphonica a palavra, facilitar
a sua pronunciação, ou reforçar-lhe o som: humilde
(humilis), hombro (humerus), estrella (stella).

No portuguez antigo a epenthese tambem era muito mais
vulgar que no moderno: hondrar, meana, includir prasmar, etc.46

São epentheticas as vogaes a, e, i, e as consoantes
b, p, v, d, h, l, r, n, s.

São exemplos d’esta intercalação euphonica, as
fórmas – amaram-no, disseram-nos, etc. 141

c) Epithese (gr. epithesis). – Essa modificação é
rarissima em portuguez. A addição de terminações
para formar derivados não constitue propriamente
epithese ou augmento paragogico (entom, entonces,
entonce, martyre
).

As fórmas esterile, felice, produze, etc. – anteriores a João de
Barros – não são exemplos epithesicos, mas tão somente fórmas
mais encostadas aos typos latinos.

3.° Subtracção

5. – O abrandamento é muitas vezes a causa d’este
phenomeno phonetico, que póde effectuar-se de tres
modos differentes – por apherese, syncope e apocope.

a) Apherese (gr. aphairesis, subtracção) é a
subtracção da vogal ou syllaba inicial: botica (apotheca),
diamante (adamantem), bispo (episcopus), onça
(lonza).

Esta modificação é tambem instinctiva, e sempre motivada
pela lei do menor esforço.

É muito frequente nos nomes próprios – Zé, Lota, Chico, Tonico,
Nico
, etc, que muitas vezes mais tarde soffrem a reduplicação
Zezé, Lolota, etc.
47

b) Sincope (gr. sygkope, corte, de syn, com: coptô,
corto). – É o desapparecimento, a queda, da vogal ou
syllaba breve, quando precede immediatamente a tonica:
asno (asinus), pregar (predicare).

As consoantes podem tambem ser syncopadas, e
d’ellas mais frequentemente – b, g, v, n e l, d, p, r, s:
frio (frigido), eu (ego), rio (rivus), cruel (crudel), rosto
(rostrum).

Estas alterações phoneticas, já vulgares na linguagem de
Roma (frigdo p. frigido, mesa p. mensa, etc.), são devidas, em regra,
á tendencia popular para abreviar as palavras.

A suppressão de syllabas medias, para maior rapidez ou suavidade
na pronuncia, deu-nos ás vezes vocabulos muito apartados
dos typos primitivos: funil (fundibulum), quaresma (quadragesima),
mister (ministerio), doma, Sec. XIV (hebdomada), anco (= angulo,
em J. de Barros), encréo (= incredulo), etc.

c) Apocope (gr. apokope; apo, fóra de koptô,
corto). – E’ a suppressão de lettras ou syllabas finaes:
mui, gran.

Esta alteração phonetica, por ventura a mais importante,
é consequencia do clima, cuja influencia não
podia deixar de ser immensa nos systemas phoneticos
dos diversos povos.

1. – Das consoantes finaes latinas, que eram essencialmente
m, r, s, t, só as duas primeiras persistiram no portuguez: as outras
(l, z…) originaram-se da quéda das vogaes atonas da ultima syllaba,
que tornaram finaes consoantes médias latinas.

2. – Em latim, já o m final das flexões nominaes, e verbaes
da 1.ª pess. sing. do Ind. e do opt. activo, bem como o m, s, t e d,
cahiam geralmente, do tempo dos Graceos ao de Augusto e no latim
popular da decadência: filio p. filius, ello p. illud, es p est, etc.
48

4.° Fusão

6. – Esta modificação phonetica póde dar-se não
só entre as lettras, senão tambem entre syllabas.

Póde ser completa ou: incompleta, perfeita ou imperfeita.

7. – É completa quando ha contracção do vocabulo,
isto é, quando se omittem lettras ou syllabas medias:
semana (sept-i-mana); incompleta (por synizese),
quando pronunciamos duas vozes simples e livres
como se ellas formassem grupo vocalico ou diphthongo:
Deus.

8. – A fusão é perfeita: 1.°, por synalepha, quer
supprimindo a vogal final antes de vogal inicial da palavra
eguinte (est’outro, minh’alma), quer omittindo a
inicial d’esta ultima; 2.°, por syneresis, 142 que consiste
em formar de duas vogaes uma unica longa (pôr =
poer = lat. ponere), ou reunir, diphthongando – as, duas
syllabas sem que soffram alteração: or-phe-u, or-pheo;
3.°, pela crase, 243 quando se contrahe em uma syllaba
longa a final de uma palavra e a inicial da seguinte
(áquelle), etc.

5.° Abrandamento

9. – Já no correr d’estes dous ultimas capitulos
deixámos indicados muitos exemplos (vida = vita)…49

Cumpre notar: 1.°, é esta a primeira modificação phonetica
em relação á quantidade; 2.°, que ella deve-se muitas vezes a
queda das lettras; 3.°, que o abrandamento é consequência natural
da influencia climaterica, principalmente o das vogaes finais.

6.° Reforço

10. – Sob esta denominação comprehende-se a
prolação ou alongamento dos sons, que póde dar-se
por epenthese, prothese e paragoge. 14450

Quinta lição
Dos systemas orthographicos; causas da sua irregularidade

1. – São tres os systemas orthographicos – phonetico
ou sônico, etymologico, e mixto ou usual.

2. – A primeira orthographia devia necessariamente
ser phonetica, isto é, devia consistir na representação
graphica dos sons, infiltrados pelo ouvido.

E a lingua portugueza foi fallada muito tempo
antes de ser escripta, o que tambem explica as varias
modificações porque passaram os vocabulos.

3. – A todas as incorrecções e innovações dos
povos ignorantes, oppoz-se a corrente erudita que
luctou pela tradição da orthographia latina.

D’esta luta sahiu mais vezes vencedor o uso
tradicional. No Sec. XVI ainda era muito irregular a
orthographia; mas a inftuencia classica, já manifesta
51no seculo anterior, era impedimento a que a orthographia
acompanhasse as vicissitudes phoneticas do
vocabulo.

Por fim, os eruditos começaram systematicamente
a vasar as fórmas portuguezas em moldes latinos,
posto que substituindo as lettras latinas pelas correspondentes
no portuguez (senhor – segnor, poblo – povo,
outro – altro
, etc.); 145 restabelecendo algumas que já
haviam desapparecido (contar – computar, anco – angulo,
etc.); supprimindo algumas erradamente intercaladas
pelo povo (amiguo, loguo, cuigo, etc)

E no seculo XV o capricho dos traductores, ainda mais apartou
a lingua da sua evolução natural. Os eruditos em tudo mais
se encostaram á autoridade latina; foi a cultura litteraria, que introduziu
crescido numero de vocabulos importados immediatamente
de autores latinos, e apenas modificados na terminação.

4. – A orthographia etymologica, e que consiste
em escrever o vocabulo com as mesmas lettras da
palavra originaria (com excepção das flexões e terminações),
mais tem occorrido aos homens eminentes, e
d’elles mais tem sido preconisada que a phonetica.

Da erudição etymologica, porem, ha resultado
erros de fórmas por enganos de origem (charo, ho,
etc)

5. – A pronuncia, variando de epoca para epoca,
de provincia para provincia, de cidade para cidade,
52ás vezes de aldêa para aldêa, e mesmo de escriptor
para escriptor, “é escabroso problema tentar accordar
a escripta com a pronuncia.”

Cada terra ou provincia, julgando ser ahi onde a
lingua correctamente se falla, não se subordinará ás
locuções que considera peiores que os seus dizeres, e
até estrangeiradas.

Onde pois o juiz cuja competencia nesse pleito
não fosse sempre desconhecida ?

6. – As lettras que os neographos desterram por
ociosas, não são inuteis - servem para attestar a origem
do vocabulo, a sua evolução, a camada a que
pertence, etc. Esse desterro de lettras daria em
resultado numero crescente de homonymos, o que
seria um mal.

7. – Si a orthographia acompanhasse a pronuncia
nas suas frequentes modificações, difficil seria
entender-se um escriptor que nos houvesse precedido
um ou dous seculos; si fosse sinceramente etymologica,
sel-o-hia outrosim ridicula e pedantesca.

8. – Deve-se pois preferir por sobre todas, a
orthographia mixta, a que hoje estamos subordinados.

As palavras de origem popular, que foram
aprendidas de outiva, escrevem-se phoneticamente;
as de fundo erudito, importadas dos escriptores latinos
ou gregos, devem ser representadas com as suas
relações etymologicas (frio – frigido, respeito – respectivo,
suor – sudorifico
, etc.).53

E assim fica extremada a linha divisoria, que
separa o lexico popular do erudito.

7. – A variabilidade da pronuncia, quer por motivo
organico, quer ainda pelo accordar das fórmas
derivadas por influencia popular ás que lhe serviam
de typos, foi consequencia natural da irregularidade
orthographica, ainda manifesta nos escriptores do
sec. XVI, e ás vezes no mesmo escriptor.

8. – Nesse seculo imperavam as fórmas despois,
fruito, enxuito, inico, antre, sojugado, chuiva, coresma,
abobeda, estomago, piadoso, calidade, pranta, contrairo,

pubrica, giolho, cudar, devação, teveras, resão, ingrez,
frol, craro
, etc., porque mais persistia na phonetica a
permuta do b pelo v e vice versa, a do l pelo r, a quéda
do d medio ou a troca do o pelo u, do e pelo i (pidir,
firir, disculpar
, etc.), o qu soava c duro, etc.

Não havia ainda então regras fixas, mas somente
habitos graphicos, essencialmente variaveis segundo
as epocas, as provincias e ainda os escriptores. 146

8. – São d’esse seculo tambem as fórmas tracto,
acto
, etc., porque soavam ato, trato, mas que nas epocas
anteriores eram pronunciadas auto, trauto, etc.
As alterações phonicas deram-nos do sec. XIII ao
XV as fórmas participaes em ede, udo, ido; a mudança
da terminação om em am e ão etc.54

9. – Em remate – A irregularidade da orthographia
acha explicação nos processos especiaes, regidos
quasi sempre pela euphonia, que, conforme o clima,
usanças, costumes, gráo de civilisação e movimentos
politicos, vasam o elemento material da palavra em
novo molde. Acontece muitas vezes que a pronuncia
verberada em uma epoca é mais tarde a corrente, no
emtanto que a até então tida por certa, é considerada
erronea e reprovada. 147

E essa vacillação perdura até que se fixam as
regras unicas de escrever os vocabulos, “ainda quando
diversissimo seja o modo de proferil-os.”55

Sexta lição
Morphologia: estructura da palavra…

Morphologia: estructura da palavra; raiz; thema, terminação;
affixos. – Do sentido das palavras deduzido dos elementos
morphicos que as constituem: desenvolvimento de sentidos
novos das palavras.

1. – Morphologia é a parte da grammatica que
estuda a fórma das palavras, sua flexão e classificação.
É – por outras palavras – a theoria da formação
dos vocabulos.

2. – A analyse de qualquer palavra, revela-nos o
elemento essencial e irreductivel, contendo a idéa principal, –
a Raiz; e varios elementos accessorios que a
modificam – os affixos.

A raiz é, consequentemente, parte commum a
todas as palavras de uma mesma familia.

3. – A reunião da raiz aos affixos é que constitue
a palavra no estado actual.57

4. – Os affixos distinguem-se em prefixos e suffixos
(fixos antes ou depois): são elementos determinantes
ou modificadores. (V. Lições 17 e 18).

5. – As raizes não representam a fórma da linguagem primitiva,
simples, rudimentar, o seu periodo embryonario, emfim; mas a
consequencia de diversos attritos e atrophiamentos vocabulares,
devidos á força natural de cohesão no organismo da phrase.

A hypothese de um periodo rhematico, isto é, em que a linguagem
só constava de palavras – raizes, posto satisfaça a importante
lei da evolução (do simples para o complexo, do homogeneo para o
heterogeneo) não é todavia verificavel. E o estudo das primeiras
camadas da linguagem nos descobre crescido numero de factos
contradictorios.

Devemos pois considerar essa theoria, simples postulado de
philologia metaphysica, mas não scientifica; aceital-a tão sómente
como instrumento logico para a analyse do mechanismo grammatical.

As theorias da escola allemã – entre cujos propugnadores
tanto se sobrelevou o professor Max Muller – têm sido controvertidas
modernamente com argumentos do mais alto valor.

A palavra – espelho do pensamento e do sentido – não podia
ter existido antes da phrase, que implica um juizo mental, a limitação
de uma idéa por outra. E a linguagem é a expressão exterior
do pensamento consciente (Sayce – Pr. of comp. phil.)

Logo, a raiz não podia ser de natureza vaga e indefinita; os
primeiros vagidos da linguagem “não podiam ser identicos ao
residuo da analyse dos sons phoneticos.”

Devem ser consideradas restos obtidos pela selecção de um
numero infinito de palavras – phrases primitivas. O seu monosyllabismo
explica-se pelo producto da alteração phonetica; e a tendencia
da linguagem foi sempre a usura e a contracção, o menor
esforço ou acção.
14858

6. – Thema ou radical é a palavra já apta para
receber a desinencia de flexão – nominal ou verbal,
isto é, o seu desenvolvimento flexional. E’ pois uma
semi-flexão.

Podemos ainda definil-o: raiz + suffixo, sem categoria
grammatical definida, mas promptos para recebel-a.

Os themas são – nominaes e verbais; e, segundo as fórmas
e accidentes das raizes, – reduplicativos (gar-gar-ej-ar), epenthesicos
(homemzarrão); quanto á energia de derivação – activos (pedra,
terra
…) e inactivos (trevas…).

7. – Os verbos apresentam varios themas: um
puro, que serve de fundamento (thema geral); outros
d’elles provenientes, chamados especiaes. No verbo
amar, ama é o thema geral; amar, porém, é o thema
especial do imperfeito do indicativo.

8. – Terminação ou desinencia é a ultima parte
da palavra; a que encerra a idéa accessoria que se
quer juntar á fundamental.

E’ o elemento flexional, que do mesmo passo
modifica as fórmas e indica as varias funcções que a
idéa incluida no thema representa no discurso.

As desinencias, caracterisando os casos, generos,
numeros, pessoas, tempos e modos, são factores grammaticaes
que dão ás fórmas – variabilidade e vida.
(V. Lições 16 e 17).59

9. – A estas desinencias chamam os grammaticos
– de flexão; ás que servem para formar derivados, –
de derivação.

Não se deve confundir a terminação (suffixo de desinencia ou
flexional) com o suffixo thematico, que figura entre a raiz ou o
primeiro thema e a desinencia.

10. – Analysemos agora algumas palavras, distinguindo
a parte essencial, dos elementos modificadores
que concorreram para a sua formação. Vejamos
como, eliminando-os, chegamos ao elemento fundamental,
– a raiz.

Em impermeavel, se tirarmos os prefixos im e per,
e o suffixo vel (= suf. lat. comp. b-ili), signal dos adj.,
e emfim o suffixo verbal a, a palavra reduz-se á syllaba
me, que encerra a idéa fundamental – passar,
escoar
; em respeitável, na qual facilmente se distingue
o verbo respeitar e a terminação vel, se eliminarmos
o prefixo re, teremos speitar = frequentativo spectare,
que remonta ao verbo simples lat. specere (= ver,
olhar), formado da terminação movei e-re e da parte
invariavel – spec, que se encontra em todas as linguas
indo-européas.

Em historicamente, supprimindo a terminação mente (que já se
encontra no latim com sentido de animo, disposição (bona mente),
a palavra reduz-se a um adjectivo derivado do correspondente latino
(historica), e si d’elle eliminarmos o suffixo ca, teremos historia, –
palavra latina formada do grego histor e do suffixo fem, ia,
indicador de nomes abstractos e correspondente ao sankrito , e
ao grego . Histor, é porém corrupção de ’istor, fórma que se
decompõe em ’is e tor, representando o segundo elemento (tor) o
nom. sing. do suffixo derivativo tar – latim dâtor, sansk. dâ-tar,
grego do-ter, (– o que dá), e serve para formar nomes de agentes
e instrumentos (leitor, escriptor, ect.)
60

Na raiz attribuitiva ’is, o s representa uma modificação phonetica;
a permuta de um d primitivo. E esta analyse conduz-nos
á raiz id – sansk. veda, grego o’ida, fórma simples do perf. da raiz
vid – saber.
149

Ainda devemos notar a vogal chamada de ligação. Intercalada
entre a consoante da raiz e o suffixo ou entre o suffixo e a
terminação, não faz parte integrante da raiz ou do thema, nem da
desinencia; é apenas de intercalação euphonica.

11. – Nas linguas modernas, analyticas, é de
pouca importancia o estudo das raizes e fórmas thematicas,
ao envez das linguas syntheticas como o
sanskrito, grego e latim.

No portuguez, em consequencia dos varios elementos
historicos, 250 é difficil a determinação sincera
e criteriosa de todas as raizes, e ás vezes por ventura
impossivel. Só se pode determinar com segurança,
as gregas e latinas, as germanicas e algumas celticas:

a) Latinas: – = duc = conduzir, fer (for) = levar, frag =
quebrar, mod (med) = julgar, apreciar, regular….....

b) Gregas: – arch – ser o primeiro, cop – cortar, gno – conhecer
(sansk.gnã), sech – ler (sansk. sah), ther – aquecer (sansk.
ghar)…........

12. – As raizes distinguem-se em typicas e onomatopicas.
A escola allemã, porem, divide-as em duas
grandes classes: – attributivas, que exprimem noções
de relações, e demonstrativas, que designam os seres
e suas modificações.

E como os seres só podem ser conhecidos por
suas qualidades sensiveis ou manifestações activas, as
61raizes demonstrativas dividem se em quantitativas,
predicativas, nominantes, objectivas, ideaes
e verbaes,
ao passo que as attributivas distinguem-se em demonstrativas,
indicativas, subjectivas, formaes e pronominaes
.

Na impossibilidade de remontar sempre á fórma mais simples,
admittem os glottologos as seguintes combinações:

1.° – Vogal: i – ir.
2.° – vogal + consoante: ad – comer.
3.° – consoante+ vogal: da – dar.
4.° – cons. + vogal + cons.: cad – cahir.
5.° – vogal + grupo cons.: arc – afastar.
6.° – grupo de duas consoantes + vogal: sta – estar em pé
plu.. correr, escoar-se.
7.° – grupo de duas consoantes+ vogal+ consoante: spect
– olhar, spas – olhar.
8.° – cons. + vogal + grupo de duas consoantes: vert – girar.
9.° – grupo de duas consoantes+ vogal+ grupo de duas cons.:
sparg – espalhar, spand – tremer.

13. – No portuguez, coexistem – e mui naturalmente – raizes
cagnatas das linguas grega e latina:

tableau Grego | Latim
raiz ag | paragoge | raiz ag | agente
aug | auxesis | aug | augmento
gen | genesis | gen | general
gno | gnosis | gno | ignorante
etc.

14. – Coexistem outrosim no portuguez fórmas correspondentes
de prefixos e suffixos gregos e latinos:

tableau Grego | Latim |
an | in (neg) |
anti | ante |
apo | ab |
dia | dis |
etc. |
icos | icus |
on | ens
62

15. – Quanto á vogal de ligação, devemos advertir que ella
ás vezes varia nos compostos latinos e gregos: – aer-o-nauta (gr.)
aer-i-forme (lat.)

16. – Do sentido das palavras deduzido dos
elementos morphicos que as constituem
. – Do que
levamos dito resalta que podemos deduzil-o – da identidade
radical (espelho especie), 151 o que constitue uma
especie de synonymia latente, ou da especialisação de
affixos, como a e in privativos (atonia, injusto), per e
pre sup. (perlucido, preclaro), os expoentes augmentativos
e diminutivos (caixão, caixinha, espadim,
quintalete, homunculo
), o suffixo adverbial mente.

Quando as palavras são formadas pelo processo
reduplicativo, podemos tambem dos seus elementos
morphicos deduzir-lhes o sentido: – ruge-ruge, bule-bule.

17. – Desenvolvimento de sentidos novos nas
palavras
. – O lexico, como as fôrmas grammaticaes
e a pronunciação, varía de epoca para epoca. O povo
não se contenta com exprimir o pensamento e as idéas
novas; é-lhe força apresental-os animados e revestidos
em variadas cores; não lhe basta pois o processo de
importação de vocabulos novos de origem estrangeira,
nem o da formação portugueza propriamente dita
63(V. Lições 17 a 24); aquella tendencia natural e expontanea
da sua vida intellectual leva-o (sob a acção da
analogia) a alterar, renovar, e accrescer o lexico pelo
processo modificador do sentido das palavras.

O principio da analogia deve ser attribuido em
parte ao instincto natural da imitação, e em parte á
lei do menor esforço. A multiplicidade dos sentidos
de uma mesma palavra, é pois resultante da necessidade
ou desejo de adquirir novas idéas sem trabalho
de inventar ou formar palavras novas.

E’ grande a influencia da analogia – falsa ou verdadeira – na
linguagem. Revela-se nos phenomenos de alteração phonetica,
accentuação, pronuncia; na alteração das relações grammaticaes,
das regras syntaxicas, da significação das palavras; na mudança
insensivel da fórma exterior, e caracter de vocabulario.

18. – Todas as mudanças de sentido fundam-se
na comparação e analogia; mas dos objectos materiaes,
dos idéaes sensiveis, é que os homens passaram ás abstractos.

Foi a analogia que deu origem ao que vulgarmente
se chama figuras de palavras (tropos – Vide
Lição 46): da cadeira; a perna do compasso; a
cabeça da comarca, da revolução, o olho da enchada…
o bronze = sino, o ferro = punhal, etc, um havana,
um Terra nova, cognac,
bordeaux, etc. 15264

19. – A influencia d’essa lei é sempre obvia directa
ou indirectamente. Assim: – cor = lat. cor (coração),
tinha nos séculos XIII-XVI o sentido de desejo,
vontade, grado
(boa cor, cor de rir) e conservou-se
na accepção de memoria (de cór, Cp. fr. par cœur, ing.
by heart, hesp. de cor – Obs. cor = coração);…
cabo = lat. caput (cabeça) teve varias extensões de
sentido, – de fim, termo, limite (Sec. XII), 153 fazendas,
riquezas, capital (Sec. VIII), 254 logar, parte (Sec XIV);
mulato até o sec. XVI, significava macho asneiro;
manceba era mulher nova, até o sec. XV; depois veio
a ter sentido de meretriz (pelas fórmas de transição
manceba mundanaria – solteira – F. Lopes); coco que
significava originariamente o fructo do coqueiro,
designava no sec. XVI um abantesma, um papão (J.
de B. Dec); 355 donzella até o sec. XVI era uma
dama do paço, solteira; hoje – mulher solteira, mas
virgem, ainda que maior de 25 annos (Leão Chr.
Af. V); corja, antigamente collecção de 20 (de
roupa, louça, etc.), hoje – agrupamento indeterminado
de individuos malandrinos, canalhas; fintar, era
lançar finta, tributo (Ord.; Bern. Floresta), hoje – enganar,
etc.

20. – As palavras soffrem, no dobar dos annos,
tres mudanças principaes no tocante ao sentido: 1.°, a
65que depende da associação de idéas e do sentido
novo que ella desenvolve, da especialisação, emfim;
2.°, a que é determinada pelo sentimento encomiastico
ou degradativo; 3.°, a que acompanha a evolução
syntaxica da linguagem.

O professor Whitney, reduz as perpetuas mudanças
de sentido das palavras a dous processos –
o de especialisação do geral e o de especialisação do
particular
.

21. – Estudemos agora as principaes causas
particulares das varias applicações de sentido nas
palavras;

a) Generalisação do particular. O sentido de
particular torna-se geral; Alpes desde o seculo XI
empregava-se para indicar qualquer monte ou collina;
oraculo era qualquer oratorio ou pequeno
templo; Belchior chamava-se o primeiro adelo estabelecido,
no Rio de Janeiro, e esse nome, por uma
extensão menos natural, veiu a significar todos os
que compram e vendem roupas e trastes usados.

b) Especialisação do geral. O sentido do vocabulo
restringe-se. – Britar significava arrombar ou
quebrar qualquer cousa, 156 e hoje só se emprega no
sentido de quebrar pedras; criação designava nos
antigos docs. – todas as fazendas, bens, propriedades
66(fructos, rebanhos…) e bem assim a patria, os criados
de El-Rei, etc.; hoje o seu sentido limita-se (alem do
acto de criar – crear – já originario) ao da criação
ou propagação de animaes domesticos; botica, que
era qualquer loja pequena, agora só é usado tão
somente na accepção de pharmacia; guisar era empregado
no sentido de guiar, ajudar, dispor, ordenar,
preparar, 157 e hoje só se usa no de preparar a comida.

c) Mudança de numero. – Algumas palavras
mudam de significação quando no plural. Ex.: bem (o
que é bom, honesto, vantajoso, conveniente) e bens
(riqueza, propriedade); honra (estimação, culto, apreço
que acompanha a virtude e o saber, boa fama, credito)
e honras (terras, – sec. XIV; e publicas demonstrações
de respeito); fumaça (vapor que se desprende dos corpos
em combustão) e fumaças (tolo desvanecimento,
parva jactancia), ferro e ferros, prata e pratas, gloria
e glorias, etc… Dá-se quasi sempre mudança de applicação
nos pluraes emphaticos.

d) Mudança de genero. – O femenino dá mais
extensão ao sentido da palavra: fructo fructa, lenho
lenha, ramo rama, grito grita
.

e) Do abstrato para o concrecto e vice-versa (por
falsas ou verdadeiras analogias: – ou tomando o effeito
pela causa, a causa pelo effeito, a parte pelo todo e
67o todo pela parte). Mundo, corrente, terra, etc., são
amostras da materialisação das idéas.

f) M. de sentido passivo para o activo, e vice-versa,
do objectivo para subjectivo
. – Hospede era originariamente
o homem que dava pousada ou agasalho, dono
de estalagem; depois – pessoa a quem se dá hospedagem.
E só nesta accepção é hoje usada.

g) M. por encarecimento. – A palavra, depois de
certo tempo, toma sentido mais nobre ou elevado. Ex.:
méco significava devasso, adultero, e hoje, mas em
linguagem vulgar, tem o sentido de esperto.

h) M. por degradação ou remoque. – Manceba
era mulher nova até o seculo XV; depois – moça de
servir; hoje, só no sentido de concubina. Manceba
do mundo
= meretriz (Lobo, Côrte na Aldeia). – Patife
significava moço de ceira ou ribeirinho, hoje –
um maroto, bregeiro; mariola era o homem de fretes,
que se aluga para carregar, e actualmente um dissoluto,
etc.; tratante applicava-se ás pessoas que tratavam
ou negociavam 158, hoje só se emprega á má parte,
isto é, com relação ao individuo que faz negocios com
tretas e dolos.

Muitos augmentativos já são hoje considerados
ironicos ou pejorativos: – sabichão, santarrão, poetáço…,
e synonymos de – ignorante, hypocrita, máo poeta…68

i) Derivação divergente ou degeneração phonetica.
E’ tambem um phenomeno semeiologico. Comparar
= lat. comparare, que significa adquirir alguma cousa
por dinheiro. Cp. – Comparar e comprar, esmar
e estimar, acto e auto, bolha bolla bulla.

j) Inversão da ordem dos factores na composição.
– Cp: – homem rico e rico homem, gentil homem e
homem gentil (arch. pej = rico omaz. Canc. Vat.)

Esta mudança é muito commum nos toponymicos
Vitta Nova = nova villa, Penha Longa = longa
penha.

k) Origem historica. – Assanino = arabe hachachi
ou hachichi (lat. baixo – heissesin, assassi, assassini,
etc. – D. C. Gloss.) O vocabulo arabe deriva de
hachich, bebida inebriante que papel importante representou
na fanatisação dos terriveis sectarios Ismaelinos
ou Bathenianos. 159Arminho, musselina, cachemira,
um havana, o gruyère, o paraty, o champagne,
um terra nova, etc., lembram as localidades d’onde
procedem esses productos; amphitryão, tartufo, etc.,
trazem á memoria personagens que de feito existiram
ou foram creados pela imaginação dos escriptores.
Amphitryão (comedia de Plauto, e vulgarisada por
69Molière) significa hoje aquelle que á sua mesa reune
convidados, e ainda o ricaço e poderoso cujo egoismo
obriga á lisonja e adulação; Tartufo é uma
creação de Molière, e representa o typo da corrupção
embiocada sob exterioridades de santo, o typo emfim
do hypocrita. E todos esses nomes tornaram-se
proverbiaes (Attila, Nero, Calligula, etc.), como no
dominio da toleima são populares os de Calino,
e os nossos Manuel de Souza e Conego Philippe.

Exemplo de mudança de sentido pela origem historica,
temos ainda no neologismo bond, no sentido de
ferro-carril urbano. Estes neologismos por mudança
de sentido derivam de ou correspondem a um facto
historico; e com effeito a inauguração desses vehiculos
publicos coincidiu com a emissão dos bonds (obrigações
do Thesouro, vales).

l) Falsa etymologia ou esquecimento etymologico:
– Hortelã pimenta (p. mentha), respondo = reponho
e resposta = reposta (no jogo do voltarete),
braço e cutello p. baraço e cutello, comer a dous carrinhos
p. comer a dous carrilhos, sarabanda p. zeribanda.

m) Limitação regional ou dialectal. – As palavras
ás vezes mudam de sentido da metropole para a colonia,
de provincia para provincia, etc. Estas mudanças
constituem os brazileirismos, americanismos,
provincialismos
… Ex.: Babado em Portugal = cheio
de baba, no Brazil – id., e fólhos de vestido; capoeira
em Port. = gaiola para guardar aves, no Brazil – id.,
70e matagal de arvoredos tenues, ave, individuos que
atacam com a cabeça e os pés
, etc.; muqueca em Port.
é termo de agricultura, e no Brazil, – guisado de peixe
e camarão; calunga (voz africana) na Bahia significa
ratinho, 160 em Pernambuco – boneco de páo, no Rio de
Janeiro – companheiro, parceiro (só em linguagem
plebéa, dial. brazil. afr.)

n) Ellipse de palavras: – cada que (= cada vez
que, Sec. XIII), estou que (= estou crente em que.)

o) Reforço negativo. – Já era mui frequente no
latim classico. Ex.: nem mica, nem sombra, nem um
pingo
. 261

p) Por mudança de categoria grammatical: –
babado (part.) e babado (subst.), pendulo (subst) e pendulo
(adj.), official (adj.) e official (subst.)

q) Por mudança de categoria mental: – lustro
(periodo de cinco annos), olympiada (periodo de quatro
annos), feira (que ficou sendo a denominação de
5 dias de semana.)

r) Por mudança de accentuação ou deslocação da
tonica: – nível
e nivél (livel, olivel.) Nivel é a pronuncia
hoje corrente para exprimir um plano horizontal:
nivél é o instrumento que serve para se reconhecer
a horizontalidade de um plano.71

1. – D’esses empregos metaphoricos eram os nossos maiores
muito mais ricos do que nós, como veremos quando tratarmos
da negação.

Ainda poderiamos adduzir, talvez, mais uma causa para a
modificação do sentido das palavras – a influencia do gesto, como
por ex.: nestas phrases populares que ouvimos todos os dias e cujo
sentido só é completo pelo gesto – por esta (sc. cruz), nem isto, etc.

2. – Na evolução semeiologica das palavras é tambem de
notar a lei da inferencia logica, que constitue a modalidade fundamental
do raciocinio, a trajectoria do particular para o geral,
voltando de novo o sentido ao particular, onde se fixa por fim.

Ex.: Amor = lat. amorem, passou do sentido de affeição,
amisade, a significar – mercê, beneficio (sec. XIII), voltando ao
sentido primitivo unicamente.

3. – Sentimento – a principio sensação, percepção interna dos
objectos pelos sentidos, teve tambem a significação de opinião,
voto, parecer
; sensibilidade physica e moral; aptidão para receber
as impressões; intelligencia, discernimento, consciencia intima;
perfeito conhecimento e segura observação; magoa, queixa, pezar;
máo cheiro, principio de podridão; abalo (S. de edificio, etc.); e
hoje ainda a de tendencia, predisposição para alguma cousa – sentimento
de honra, de probidade. Por este exemplo vê-se quanto
uma palavra póde apresentar novos aspectos, dilatar as raias da
sua significação.

24. – A’s vezes, pois, o sentido figurado prevalece
e tanto se vulgarisa, que o sentido proprio se perde;
outras, as varias applicações de sentido desenvolvem-se
juntamente, e acabam por fazer-nos esquecer a
relação que as liga. Assim p. ex.: – Tabefe não mais
lembra a idéa de leite com assucar e ovos; garganta
de serra ou de montanha, já parece palavra distincta
de garganta, parte anterior do pescoço, etc…

A ultima phase da variabilidade significativa da palavra é a
perda do proprio sentido (ca, la, …).

25. – Esta importante elaboração não se limitou
ao vocabulario e ao esquecimento das etymologias;
72estende-se mesmamente ás construcções, ás locuções
e phrases. E a este facto já nos referimos.

São verdadeiros idiotismos de sentido, que constituem
uma das riquezas de todas as linguas, e dos
populares passam aos escriptos classicos. Ex.: – estar
de asa cahida, fazer gato sapato de alguem, ter dous
dedos de…, dar em droga, perder as estribeiras, vér-se em
calças pardas, metter-se em camizas de onze varas,
chegar a roupa ao couro
162

26. – Nos dizeres, apodos e proverbios populares
é que taes mudanças de applicações mais são
frequentes: – Quem quer bolota trepa na arvore, cada
um chega a brasa á sua sardinha, não se apanham
trutas a bragas enxutas

Estes factos mostram claramente a reacção da phrase sobre o
valor individual dos vocabulos. As palavras (como acabamos de
ver nos varios exemplos) comprehendem muitas relações – mais ou
menos simples; mais ou menos naturaes –, certa caracterisação de
virtualidade para todas as equivalencias possiveis, “certo poder de
symbolismo vago.”

E’ nessas tendencias expontaneas e fecundas dos povos que
se descobre o laço artificial e de convenção, que torna a palavra
pensamento, representando-o outrosim sob multiplas fórmas objectivas.
73

Setima lição
Da classificação das palavras. – Do substantivo e suas espécies

[Da classificação das palavras]

1. – Entende-se por classificação das palavras, a
distribuição das palavras em suas varias especies ou
partes do discurso.

Outros definem a classificação – conjuncto das
idéas coordenadas por generos e especies.

A classificação das palavras em classes correspondentes
aos grupos de idéas de que se compõe o
pensamento, chama-se Taxionomia.

2. – E’ antiquissima a theoria das partes do discurso
ou da oração.

O portuguez classifica as palavras, quanto á sua
significação, em oito especies: substantivo, adjectivo,
pronome, verbo, adverbio, preposição, conjunção e interjeição
,
si a não considerarmos fórma rudimentar, instinctiva,
não exprimindo – como as outras palavras –
idéas, ou relaçoes (Lição nona).

Thomson (Laws of thought) classifica as palavras em – substantivos,
adjectivos e preposições. Beeker classifica-as em duas
75categorias – palavras nocionaes, que exprimem noções, isto é,
idéas de seres ou acções formadas no espirito – substantivo adjectivo,
verbo, adverbio de modo, tempo e logar; e palavras relacionaes,
que não exprimem noção ou idéa, mas indicam meramente a
relação entre duas palavras nocionaes, ou entre uma nocional e a
pessoa que falla – verbos auxiliares, artigos, pronomes, numeraes,
preposições, conjuncções, e os adverbios chamados de relação.

E’ difficil – diz Ticknor – applicar os principios de classificação
a palavas particulares; ellas podem mudar de classe em
certo periodo da historia da linguagem, e ainda pertencer a differentes
classes em uma mesma epoca historica.

3. – Tocante ás suas funcções naturaes, dividem-se
as palavras em:

a) Nominativas, ideaes (dependentes e independentes).
São as que servem para distinguir os seres,
as substancias reaes ou abstractas; as qualidades e
acções, os diversos estados das pessoas e cousas,
todas as manifestações da vida (nome e verbo).

b) Connectivas ou relativas. São as que exprimem
as numerosas relações de tempo, logar, numero,
quantidade, causa, effeito, etc. (preposição e conjuncção).

O adverbio participa de ambas as classes. Por
sua natureza especial é adjectivo e particula a vezes;
marca a transição das palavras de flexão para as
invariaveis.

4. – Quanto á forma, estas cathegorias de palavras
dividem-se em variaveis e invariaveis. Pertencem
ás primeiras os dous grandes factores da linguagem –
o nome e o verbo; 163 ás segundas, as particulas
76– destroços organicos ou organismos inferiores
– muitas d’ellas sem mais existencia independente.

5. – Conhecidos os elementos que, classificados
segundo as suas funcções ou relação com a proposição,
formam as partes do discurso, passamos agora a
tratar de cada um d’elles separadamente mas, nesta
e nas quatro lições seguintes, apenas sob o ponto de
vista taxionomico.

Do substantivo e suas especies

6. – Uma palavra pode, só por si, com todos os
verbos finitos, ser sujeito de uma proposição; e com o
verbo ser tornar-se predicado: – O homem morre
(suj.), tambem és homem (pred.).

Ora, a palavra que designa pessoa, logar ou
cousa – segundo a idéa da sua natureza, por suas
qualidades distinctivas – é um substantivo: – Pedro,
Tijuca, livro, virtude
.

7. – O substantivo exprime estrictamente o que
subsiste, isto é, o que constitue a base, o fundamento
de accidentes ou attributos, e por isso pode ser considerado
independente, e viver só por si.

E’ o nome de um objecto de pensamento, percebido
pelos sentidos ou comprehendido. Ora, o nome
de tudo quanto existe ou é concebido existir é um
substantivo.

8. – O substantivo, pois, exprime a idéa de um sêr
vivo ou de um objecto, uma concepção ou idéa.77

9. – O substantivo pode convir a todos os seres
ou cousas da mesma especie, ou designar apenas uma
cousa individualmente, uma pessoa determinada: –
rio, cão… Amazonas, Mario.

D’ahi a sua divisão em proprios e communs ou
appellativos.

10. – O nome commum é o nome da especie; o
nome proprio, o do individuo.

O nome provincia, por ex., significa – divisão
territorial pertencente a um Estado: é o nome da especie,
o nome commum.

A palavra Pernambuco designa uma provincia
particular do Brasil, distincta de todas as outras: é o
nome do individuo isolado, é o nome proprio.

Os substantivos, pois, designam os seres como individuos, especies
e generos. O individuo é o sêr considerado isoladamente;
a especie – a reunião de muitos seres, de muitas cousas (individuos)
distinctas das outras do mesmo genero, por caracteres distinctivos:
o genero é a reunião de muitas especies.

11. – Nos nomes communs e proprios é muito de
notar – comprehensão da idéa e a extensão da significação.

Por extensão entende-se o numero maior ou
menor de individuos ou objectos comprehendidos na
significação; comprehensão é o numero maior ou
menor de attributos comprehendidos em uma idéa
geral.

E – como judiciosamente pondera Ayer – a comprehensão
de uma palavra está na razão inversa da
sua extensão, e reciprocamente.78

Quanto mais geral fôr o nome, tanto maior será a sua extensão
e menor a comprehensão. Os nomes proprios de individuos
são pois os que teem menos extensão e mais comprehensão (Gram.
comp.).

E’ pois de summa importancia grammatical a
distincção entre as pessoas e cousas, não só para a
theoria da formação, mas tambem – e acrescentado –
para o emprego das fórmas pronominaes (que, quem,
alguem, outro, outrem
).

12. Os nomes proprios foram originariamente
communs; são verdadeiros substantivos significativos.
Maria = soberana, Ursula = pequena ursa, Claudina
= mulher que coxêa (claudica), Theophilo =
amante de Deus, Portugal = Porto de Cale (Portus
Cale), Itapuca = pedra furada, Marco = nascido no
mez de Março, Dorothea = dom de Deus, etc.

E ainda temos muitos exemplos do caracter
appellativo ou significativo dos nomes próprios: –
Rosa, Clara, Prudencia, Felicidade, Ventura, Silva,
Amoroso, Pereira, Limoeiro, Botafogo, Rio Verde,
Aguas Claras
164

1.° Entre os nomes proprios de pessoas, distinguem-se o prenome
ou nome de baptismo, o nome ou nome de familia, o sobre nome
e ainda o cognome. Muitos sobrenomes são hoje prenomes. (Cicero,
Cesar, Scipião, etc.)

Entre os Romanos o nome (nomen gentis, nomina gentilitia)
correspondia ao patronymico dos Gregos. Todos esses nomes são
propriamente adjectivos.

2.° A lettra inicial dos nomes proprios é sempre maiuscula.79

13. – Alguns nomes communs são considerados
proprios, quando empregados de modo peculiar, individual,
restrictivo: – o Senhor, a Egreja.

14. – Os proprios tornam-se communs pela mudança
de applicação, desenvolvimento do sentido:
Calepino, damasco, cachemira (V. Lição 6.ª); e ainda
– no parecer de alguns grammaticos – quando estão
no plural: os Mirandas, as Emilias.

15. – Os substantivos appellativos subdividem-se
em concretos, abstractos, collectivos, verbaes.

a) São concretos os que significam seres de
existencia verdadeira ou supposta: seres reaes cujo
sentido nos faz conhecer-lhes as propriedades: o
livro, o amigo.

Exprimem uma acção, qualidade, condição ou
propriedade, dependente da substancia que lhes é
inherente.

b) Abstractos são os que exprimem uma qualidade,
condição ou propriedade, considerada independente
da substancia (cousa) a que se acha geralmente
ligada: – belleza, amizade, justiça. Aqui, p.
ex.: não consideramos quem tem belleza, nem quem é
amigo.

Exprimem uma idéa de acção, condição ou
qualidade, só existente no espirito, que a personifica,
separando-a (por abstracção) do individuo a que
pertence.

Os nomes abstractos de acção derivam de verbos por meio
dos suftixos – ao, agem, ura, mento,… os de qualidade formam-se
80geralmente de adjectivos com os suffixos – ade, eza, iça… (V. Lição
18.ª).

c) Collectivos. São os substantivos que, posto
na fórma do singular, indicam agrupamento de individuos
da mesma especie: – armada, esquadra, rebanho,
pellotão, manada, corja, anno

Representam todavia uma cousa unica; encerram um caso
de plural implicito; constituem uma deflexão ou flexão interna, somente
no sentido. (V. Lição 12.ª).

O nome collectivo póde ser geral ou partitivo,
conforme indica a totalidade da collecção ou tão somente
uma parte indeterminada: – o exercito, a esquadra
uma cafila, um armento, uma quantidade,
uma multidão.

O partitivo póde subdividir-se em determinado
e indeterminado, segundo indicar ou não uma quantidade
certa, exacta: – uma recova, um concilio, …duzia,
milheiro
.

d) Verbaes. São certas partes dos verbos empregadas
substantivadamente – castigo, jantar.

O Infinito é em todas as linguas, uma verdadeira
fórma nominal.

16. – Ainda temos mais:

a) S. Correlativos. São os substantivos communs
considerados em relação reciproca: – Pai e filho, Rei
e Subdito.

b) Materiaes. São os que exprimem cousas que
não despertam idéa de individualidade, mas tão somente
uma noção de aggregação: – leite, agua.81

17. – Todas as palavras, e até mesmo as proposições,
podem ser empregadas substantivadamente.

A formação de subst. abstractos de adjectivos ou antes o uso
de adjectivos como subst. abstractos, é feição caracteristica de
muitas linguas, ás quaes dão força mui peculiar, pois que taes nomes
não podem ser substituidos exactamente por uma periphrase, Gr.
tò Kalòn, all. das Schöne, o bello. Estas fórmas abstractas portuguezas
constituem vestigio do adjectivo neutro.

18. – Sob o ponto de vista da fórma, ainda os
substantivos dividem-se em simples e compostos, primitivos
e derivados.

a) Simples: – mesa, papel.

b) Compostos. São os formados de duas ou tres
palavras simples:

1° – Subst. + subst | arco-iris
2° – Subst. + adj | água-ardente
3° – Verbo + subst | saca-rolhas, papa-moscas
4° – Prep. + subst | sub-delegado
5° – Subst. + prep + subst | chefe de turma
6° – Verbo + verbo | ruge-ruge
7° – Verbo + adv | falla mansinho
8° – tres palavras differentes | mal me quer, fidalgo (filho de algo)

c) Primitivos: – arvore, pedra, barca

d) Derivados: – arvoredo, arvorejar; pedreiro,
pedranceira, pedregulho; barcaça, barqueiro
, …

Para maior dilucidação d’este paragrapho – V. Lições
17 e 18. (composição e derivação).

18. – Os substantivos communs ainda podem
ser augmentativos e diminutivos: – homemzarrão,
quintalete; epicenos
ou promiscuos: sabiá, anta. (V.
Lição 13.ª Flexão dos nomes, genero, etc.)82

19. – Os substantivos patronymicos eram na
origem simples adjectivos indicadores da filiação.
São propriamente adjectivos, mas pertencem hoje á
classe dos substantivos adjectivos: Ex.: – Sanches,
Vasques, Gonçalves, Alvares
, … = descendente de
Sancho, Vasco, Gonçalo, Alvaro

Em latim esses adjectivos terminavam em – ius.

Historicamente o subst. – como categoria grammatical – succedeu
ao adjectivo e precedeu ao verbo.

Militam a favor da primeira hypothese as seguintes provas:

1° No sanskrito antigo encontram-se subst. nos gráos comparativo
e superlativo, mudando de sentido pela simples fórma de
genero:

2° Certa tendencia instinctiva do adjectivo, que perdendo o
seu valor qualificativo originario veio a significar exclusivamente o
objecto.

3° Especialisação de suffixos, como se vê em latim com o
subst. instrumentaes.
165

A segunda hypothese esteia-se nos dous factos seguintes:

1.° – Na introducção de fórmas nominaes na conjugação
(infinito, supino, gerundio, participio);

2.° – Na existencia dos nomes abstractos em io no latim ante
classico, regendo accus.: – Quid tibi hanc curatio est (Plauto).
26683

Oitava lição
Da classificação das palavras. – Do adjectivo e suas especies

1. – Vide lição setima.

2. – Adjectivo (lat. adiectivum, de ad-icere, por a
par, que ajunta) é o nome que se junta ao substantivo
para qualifical-o ou determinal-o. Designa as propriedades
de um sêr ou de um objecto, de uma pessoa
ou idéa; serve para aclarar a comprehensão da idéa
expressa pelo substantivo. Ex.: Homem sabio, sete
livros, esta penna.

3. – O adjectivo não póde por si só ser sujeito
da proposição, mas com o verbo ser, póde formar o
predicado: Deus é justo, o homem é mortal.

Antigamente o adj. não era parte distincta da oração, mas simples
substantivo commum.

“E de feito, os nomes appellativos mais indicam qualidade
que substancia.”

A classificação moderna, porém, fundamenta-se em que o
adjectivo vem sempre ligado a um substantivo ou pronome, na
qualidade de attributo ou predicado.

Desde que não preenche essas funcções, o adj. é considerado
substantivo ou pronome.
85

4. – Os adjectivos qualificam em geral os substantivos,
sem os quaes não formam sentido completo,
ou são empregados substantivadamente: – gr. ho sophos,
lat. sapiens, o sabio.

O adjectivo attributivo póde tornar-se um substantivo
(chão, frio); o circumstancial, um pronome
(o, este, aquelle.)

5. – Os adjectivos classificam-se segundo a sua
significação e fórma.

Quanto á significação, dividem-se em qualificativos
(attributivos ou descriptivos), e em determinativos
(circumstanciaes ou definitos.) Aqueles exprimem
uma qualidade ou condição; estes definem,
limitam, a significação do nome a que se ajunta.

Alguns grammaticos hodiernos rejeitam a moderna classificação
dos adjectivos em determinativos e qualificativos, apoiados nas
duas seguintes ponderações: – 1.°, que todos os adjectivos ajuntando-se
aos nomes para determinar-lhes ou restringir-lhes a significação
á idéa da especie particular, são forçosamente determinativos;
2.°, que tal classificação obriga a considerar, ora na classe do adjectivo,
ora na cathegoria do pronome, certas palavras da mesma natureza,
posto não exerçam as mesmas funcções no discurso (meu, qual…)

6. – Essas duas categorias subdividem-se do
modo seguinte:

image Determinativos | possessivos | demonstrativos | conjunctivos
quantitativos ou de numeros | universaes | collectivos e distributivos
partitivos | definidos e indefinidos
Qualificativos | essenciais ou explicativos | acidentais ou restrictivos
86

Possessivos, são os adjectivos pronominaes que exprimem
idéa de posse: – meu, teu, seu, nosso, vosso.

Demonstrativos, são os que indicam pessoa ou cousa, com
idéa de logar ou tempo: – este, esse, aquelle

Conjunctivos, são os que conjunctam clausulas: – que, qual,
cujo
.

Quantitativos, são os que determinam todos os individuos
de uma classe, ou parte d’ella, e por isso dividem-se em universaes
ou geraes e partitivos.

Aquelles subdividem-se em collectivos (todo, nenhum) e distributivos
(cada, cada um); os partitivos podem ser definidos (um,
dous
…) e indefinidos (algum, certo, pouco

7. – Os determinativos quantitativos ou nomes
de numero, determinam as pessoas ou cousas quanto
ao numero e á quantidade; e como essa funcção póde
ser geral ou restricta, precisa, d’ahi a subdivisão em
indefinidos e definidos.

Os indefinidos assignalam um numero ou uma
quantidade indeterminada: algum, certo, muitos… (unidade
e pluralidade); cada, nenhum, todos… (totalidade
e universalidade.)

1.° – Empregados absolutamente, qualquer, todos, cada, nenhum,
teem valor pronominal.

2.° – Os nomes collectivos partitivos pouco differem pelo
sentido
dos nomes de numero indefinido; mas quanto á fórma, distinguem-se
em que só os collectivos geraes ou partitivos – como todos
os substantivos – são sempre determinados pelo articular ou seus
equivalentes. A mesma palavra póde ser collectivo geral com articular
o, partitivo com o det. indef. um, nome de numero indefinido
sem determinante. (V. Cons. Ayer – noms de nombre indefinis).

8. – Os nomes de numero definidos exprimem
um numero determinado. Dividem-se em numeraes
cardinaes e ordinaes: aquelles representam os numeros
formadores de qualquer numeração – um, dous,
87vinte, etc.; estes, são verdadeiros adjectivos que
exprimem a ordem, – primeiro, quinto, vigesimo…)

Os Multiplicativos são os nomes de numeros
que denotam as vezes que uma cousa é multiplicada:
duplo, triplo, centuplo

9. – Alguns numeraes mudam de categoria grammatical,
pelo esquecimento etymologico: – quartel
= trimestre, corja = collecção de 20 objectos, dizima
= a dizima parte, decima, quaderno, etc.

10. – Os possessivos, demonstrativos, relativos e
quantitativos ou nomes de numero, – fazendo ás vezes
as funcções de adjectivos e as de pronome, são considerados
adjectivos pronominaes.

11. – O artigo é um verdadeiro adjectivo determinativo,
quer individualise o nome que se lhe segue,
quer designe uma espécie – geral ou particular. (V.
Lição, 26).

Tirou origem na necessidade que tem o povo de nomear
claramente as cousas de vida commum, de individualisar a significação
do nome.

Sobre a origem do artigo como categoria grammatical, é
erronea a hypothese de consideral-o resultante da obliteração do
sentido vivo das raizes indicativas ou relacionaes. De feito, o
zend, o sanskrito, o grego ani homerico, e o latim classico, conservam
mais clara a consciencia dos elementos de relação; mas as
linguas semiticas – que mais conservam a significação primitiva,
concreta e material de seus typos radicaes (Renan) – possuiam o
artigo, e desde o mais remoto periodo historico.

12. – As qualidades pódem ser physicas ou materiaes:
– alto, baixo, quente, frio; e moraes: – diligente,
preguiçoso, alegre.88

13. – Podem mais ser essenciaes e accidentaes,
conforme indicam propriedades essencialmente caracteristicas
da pessoa ou cousa, ou não: Branca neve,
o cavallo é quadrupede
, são propriedades essenciaes;
chapéo alto, cavallo náfego, são propriedades accidentaes.

Aos primeiros denominam alguns grammaticos – explicativos;
aos segundos – restrictivos.

Tambem são considerados adj. accidentaes ou restrictivos, os
subst. que modificam outros: – Rei navegador.

14. – Quanto á fórma, os adjectivos dividem-se
em primitivos e derivados: – rico, furioso; simples e
compostos: – verde, auri-verde.

15. – Aos derivados pertencem os patrios, gentilicos
e verbaes.

Patrios são os que indicam a naturalidade de um
ser ou de uma cousa: – Bahiano, Maranhense.

Gentilicos, os que indicam a nacionalidade: –
Brazileiro, lnglez.

Verbaes, os que tiram origem em um verbo: –
amante, pedinte, fallador. (V. L. derivação).

16. – Ha uma outra classificação dos adjectivos
tambem em duas classes: 1.°, dos que fixam a attenção
na qualidade ou propriedade
que descrevem, quer
esta propriedade seja objecto de sentido physico (certo,
alto
), quer de percepções mentaes e affeiçoes (caro,
verdadeiro
); 2.°, dos que se referem manifesta e distinctamente
a algum primitivo (ferreo, pedregoso).
89Aos da primeira classe, chamam… adj. qualificativos;
aos de segunda, adj. de relação.

17. – O adjectivo é uma simples differenciação
do substantivo. Prova-o a sua syntaxe. (V. Lição 6ª
in fine).90

Nona lição
Da classificação das palavras. – Do pronome e suas especies

1. – Vide Lição setima.

2. – Conforme a etymologia, o pronome é uma
palavra que substitue o nome.

O substantivo exprime uma idéa, designa as pessoas
ou cousas por suas qualidades distinctivas, caracteristicas,
naturaes. O pronome, porem, exprime,
apenas uma relação, isto é, designa as pessoas ou
cousas por sua relação oracional.

3. – Os pronomes dividem-se em duas grandes
classes: – Pronomes substantivos e adjectivos.

a) Os pronomes são substantivos – quando excercem
as funcções de substantivo, isto é, quando
ocupam o logar do sujeito, objecto, etc.: – Elle (o
professor) deu-lhe (ao alumno) um livro.

b) Pronomes adjectivos são os que determinam o
substantivo juntando-lhe uma relação de posse ou
indicação: – Este (quadro) é de Pedro, isto é, o quadro
91indicado pela pessoa que falla: o TEU (escripto) é de
mais valor
.

O pronome adjectivo, pois, limita tambem de
algum modo o substantivo, com uma idéa de espaço
ou distancia: Aquelle (autor) é mais clássico que Este.

4. – Os pronomes substantivos dividem-se em
pessoaes e indefinidos.

a) Os pessoaes designam a pessoa que falla, a
com quem se falla, e a pessoa ou cousa de que se falla
(fallante, interlocutor, assumpto.)

São consequentemente de tres classes: 1.ª pessoa
eu, nós; 2.ª, – tu, vós; 3.ª, elle, ella; elles, ellas (o,
a, os, as: – Tinha essa obra, mas já a dei.)

São estes os verdadeiros pronomes. A sua origem foi posterior
ao plural, e a idéa do pronome sujeito foi a ultima a formar-se.

Os pronomes pessoaes – diz Sayce – tiveram origem no
periodo epithetico, e provavelmente sensivel como a dos nomes de
numeros. Eram a principio – como refere Bleeck – substantivos
com a significação de senhor, reverencia, criado, etc., Cp. port.
Fulano ou Fuão, Beltrano, Sicrano (= elle, alguem) o Degas
(= eu), etc.

Amostra mais evidente desse facto na lingua portugueza,
temos na palavra você, fórma atrophiada de
vosmecê, contracção de vossemecê ou vocemecê, que representa
a transformação do titulo honorifico Vossa
Mercê
em um simples signal unitario. A palavra voce
desterrou quasi que completamente da linguagem
popular o pronome vós, 167 conservando todavia as suas
92prerogativas de reverencia, ceremonial (3.ª pessoa), e
é hoje um verdadeiro pronome. 168

Foi tambem o que succedeu em Hespanha com
a differença que o pronomen reverentiœ – Usted, tambem
se applica a pessoas de respeito e com quem não
privamos.

a) Os indefinidos são tambem essencialmente
pronominaes, isto é, não podem ser construidos com
substantivos claros: alguem, ninguem, se, outrem,
tudo, nada; fulano, sicrano, beltrano
(= elle.)

Os substantivos homem e gente são empregados na linguagem
popular de Portugal e Brazil, como verdadeiros pronomes: aquelle,
desde o seculo XV (D. Duarte, Ferreira, Sá de Miranda, etc.);
este, mais modernamente: Cp.: fr. on; all. mann; ing. man e people
(alem de one e they).
269

5. – Os pronomes adjectivos dividem-se em demonstrativos,
distributivos
e conjunctivos ou relativos
(interrogativos). – (V. Lição oitava).

Os demonstrativos isso, isto, aquillo, são, porem,
essencialmente pronominaes, e neste caso acham-se
outrosim os conjunctivos – que, quem, quem quer que,
o que quer que.

6. – Os conjunctivos referem-se a alguma cousa já
expressa em outra proposição, mas cuja determinação
elles mais tornam precisa.

São interrogativos quando perguntam a relação
demonstrativa. Nas phrases interrogativas, e ainda
93nas interjectivas, o pronome que é adjectivo: – Que
flor é essa ? – Que menino !

[170]

Os pronomes relativos foram primitivamente demonstrativos,
e ainda no chinez o relativo so = logar. (Philippi, Schoff – gram.
ap. Sayce . Pr.)

O pronome é pois uma differenciação logica do nome. A sua
origem repousa na dupla modalidade psycologica do subjectivo e
do objectivo, distincção caracteristica de todas as fórmas da vida
consciente
.

Os pronomes e os nomes de numeros constituem “o traço de
união entre a grammatica e o vocabulário”; os primeiros ensaios
“da passagem do abstracto para o concreto.”

A origem dos pronomes pessoaes, ou melhor a fixação e limitação
da sua funcção, que mais se especialisou com o apparecimento
do verbo, perde-se no genesis da historia da linguagem.”
94

Decima lição
Classificação das palavras. – Do verbo e suas especies

1. – Vide Lição setima.

2. – Verbo é a palavra que exprime uma acção,
uma affirmação. 171

Sem asserção não póde haver communicação de pensamento.

Mas quanto á noção de tempo (periodo de acção – passado,
presente ou futuro), devemos advertir: 1.° que na maior parte das
linguas os verbos teem fórmas que excluem aquella noção, como
por ex., o infinito; 2.° que as proprias fórmas grammaticalmente
expressivas de tempo, são – em proposições geraes – empregadas
aoristicamente, ou sem referencia a tempo. Quando dizemos – os
pássaros voam
, não affirmamos que elles voam agora, que já voaram,
ou que hão de voar; mas simplesmente que o poder de voar é delles
attributo em todos os tempos.

O emprego do presente pelo futuro é ainda uma prova da
nossa asseveração. Nas phrases vou amanhã, je vais demain, I go,
ou am going tomorrow, Ich gehe morgen, etc, os adverbios amanhã,
demain, to morrow, morgen
, e não os verbos vou, je vais, go, gehe,
é que representam verdadeiramente as palavras de tempo (Mars-Lect).

Chamar ao verbo palavra de tempo com os Allemães (Zeitwort),
é pois denominal-o por um incidente, e não por um caracteristico
essencial; por uma propriedade occasional, e não universal.
95

3. – Consta de dous elementos – um material
(a acção enunciada), e o formal (a affirmação ou
copula logica.) A acção é indicada pelo thema, a affirmação
pela desinencia.

4. – Por sua natureza, o verbo lembra o substantivo
e o adjectivo. Os gerundios, os participios e os
infinitos são fórmas nominaes.

5. – A analyse do verbo descobre tambem tres
circumstancias distinctas: – a significação, o modo de
significar
, e a funcção. 172

a) Significação. E’ o sentido originario da palavra,
expresso pelo radical. Em amar, a idéa primitiva
é amor, indicada no thema am.

b) Modo de significar. São os tempos, modos e
vozes, que determinam rigorosamente a idéa contida
no radical.

c) Função. E’ a faculdade de poder o verbo
exprimir a ligação relacional entre o sujeito e o attributo.
Em amamos, a idéa de amor é attribuida ao
sujeito nós.

6. – As funcções do verbo estão pois sujeitas a
quatro modificações – de pessoa, numero, tempo e
modo.

7. – Os verbos dividem-se em duas grandes classes:
nocionaes (transitivos e intransitivos) e relacionaes
(auxiliares.)96

8. – Quanto á sua significação tambem podemos
dividil-os:

a) Segundo a natureza do sujeito; em pessoaes e
unipessoaes.

b) Segundo a natureza da acção, os pessoaes
em transitivos e intransitivos. 173

c) Segundo a natureza da affirmação, os transitivos
– em activos, passivos, neutros e reflexos.

9. – Verbo unipessoal é aquelle que não tem
expresso o seu sujeito lógico: – trovejar, chover. Só
se emprega na 3.ª pessoa do singular, e constitue só
por si uma proposição, cujo sujeito é a idéa de uma
acção ou de um phenomeno natural expresso pelo
verbo.

E’ de algum modo um nome com terminação
verbal, e que se conjuga (Egger.)

No sentido figurado tornam-se, porém, pessoaes: – choveram
empenhos, Deus choverá sobre os máos pennas, tormentos
(H. P. 352),
em nossas almas choves certas e altas doutrinas, Cam. O de 8); troveja
o orador, relampague a estes olhos a verdade
. (Esc. da Verd.).

10. – Os transitivos ou objectivos designam acções
passantes do sujeito para um objecto. A sua idéa é
incompleta sem a noção complementar de um objecto.

Pertencem a esta classe os chamados causativos, que se podem
periphrasear com auxilio de certos verbos: – trabalho e economia
augmentam a fazenda (= fazem augmentar.)97

11. – Os verbos intransitivos ou subjectivos affirmam
acções limitadas aos sujeitos que as fazem: –
dormir, chorar, morrer, cahir. A sua idéa é completa
sem a noção complementar de um objecto.

Por sua natureza não podem ser conjugados na
fórma passiva.

As ações dos verbos intransitivos, ás vezes, mais exprimem
modos de ser ou estado, e por isso muitos definem o verbo –
palavra que exprime acção ou estado.

Todavia ha muitos verbos intransitivos indicadores de movimento
correr, andar; mas as idéas nelles contidas não representam
os objectos de que são predicados as qualidades – andante,
corrente
, como exercitando uma acção sobre outro objecto.

12. – Entre os verbos intransitivos são de notar
os inchoativos, que exprimem principio de acção ou
uma acção successiva (passagem de um para outro
estado): – empallidecer, envelhecer.

13. – A classificação em transitivos e intransitivos
não é absoluta, que muitissimos verbos transitivos são
empregados intransitivamente e vice-versa.

14. – A relação existente entre o sujeito e o predicado,
póde ser activa ou passiva, isto é, o sujeito
póde fazer ou soffrer a acção expressa pelo verbo.
D’ahi os verbos activos e passivos.

15. – Reflexos, são os verbos pronominaes cuja
acção recahe na mesma pessoa que a pratica: – elle
feriu-se, arrependeu-se.

São uma consequencia da voz reflexa ou media,
em que o sujeito é ao mesmo tempo activo e passivo.
Constituem pois fórmas intermediarias entre a voz
98activa e passiva, e conjugam-se com um pronome
objectivo da mesma pessoa do sujeito.

Distinguem-se em reflexivos intransitivos e transitivos. 174

Os intransitivos subdvidem-se em essenciaes e
acciddentaes, conforme são reflexos na fórma e no sentido
(e neste caso o pronome reflexivo é emphatico)
ou transitivos apenas na fórma: – arrepender-se; refugiar-se.

Refugiar sem o pronome indica idéa causativa: – eles refugiaram
os escravos.

Os accidentalmente reflexivos são de muito menor
importancia. Não recahe no agente a acção por
elles exercida, o pronome reflexivo tem apenas sentido
intransitivo: – enganar-se, deleitar-se, exercitar-se, enfadar-se,
enferrujar-se, admirar-se
, etc.

1.° Alguns verbos neutros podem empregar-se como verbos
reflexos improprios para exprimirem a reacção do sujeito (pessoa)
sobre si mesmo: – elles riram-se, eu me parece (Garrett, etc.)

O pron. neste caso é compl. indirecto (dativo.)

2.° A fórma reflexiva ou média foi que deu origem á nova
fórma passiva dos verbos – espalhou-se uma noticia, queimaram-se
predios
. (V. Licções 16.ª e 27.ª).

16. – Os verbos reflexos (activos ou neutros) exprimem
muitas vezes uma acção reciproca entre dous
ou mais sujeitos: – elles fallaram-se, nós nos batemos.
99A estes verbos é que geralmente chamam os grammaticos
reciprocos.

17. – Os verbos auxiliares são os elementos
formadores dos tempos compostos, da voz passiva, dos
verbos periphrasticos e frequentativos.

Egger define-os – verbos que, privados de uma
parte do seu sentido proprio e desviado da sua primitiva
funcção, tornam-se elementos de uma locução
complexa.

Podemos classifical-os em tres categorias:

1.ª dos que se combinam com os participios presentes
(activo) e passados (passivos): – estou fallando,
sou estimado
.

2.ª com infinitos: – hei de fallar, tenho de fallar.

3.ª com infinito e participios: – has de ter fallado.

Representam um exemplo notavel do processo
analytico.

O poder auxiliante desses verbos é apenas uma modificação
do poder originario, que elles teem ou tinham quando não auxiliares.

A verdade é que o espirito não mais se recorda do sentido
primitivo dos verbos ser, ter, tornar-se, etc. (sou amado, ing. I shall
go
, all. Ich werde gehen – litt. eu torno-me ir); “subordina-os ao
participio passado ou ao infinito para com elles exprimirem um
unico juizo.”

Os auxiliares são verbos relacionaes. Só exprimem
o tempo ou modalidade e a voz passiva dos verbos
nocionaes, que então se chamam – principaes.

Os auxiliares e o principal fazem, na composição, a mesma
funcção que a inflexão nas linguas classicas.
100

Semi-auxiliares – São certos verbos que só teem caracter
de auxiliares nas formas verbaes em que elles apenas conservam
parte da sua significação própria: – toruar, ir, dever, vir

18. – Os verbos ainda podem ser classificados
segundo a sua natureza em concretos e abstratos, terminativos,
frequentativos
e periphrasticos.

a) Os concretos exprimem uma idéa de acção:
ler, matar. Tanto póde formar a copula como o
predicado de uma proposição.

b) Os abstractos exprimem uma simples relação
da proposição. Só podem formar-lhe a copula, e
nunca o predicado.

Ainda temos mais:

a) Os terminativos, que são os verbos cujo predicado
requer um termo indirecto de acção: – dar esmola
aos pobres. Os terminativos podem ser transitivos ou
intransitivos.

b) Frequentativos, aquelles cujo participio imperfeito
juntam-se aos tempos do mesmo verbo ou de
outro, afim de indicarem com mais colorido a acção
expressa pelo predicado: – vir vindo, vou indo, andar
cahindo
.

c) Verbos periphrasticos são as locuções complexas
formadas dos tempos dos verbos haver e ter e do
infinito do verbo principal, ligados pela preposição de:
tu tens de escrever (v. p. obrigatorio), havemos de
estudar
(v. p. promittente.)

19. – Sob o ponto de vista da fórma, os verbos
dividem-se em primitivos e derivados (beber,
101beberricar), simples e compostos (dizer, contradizer),
defectivos, regulares e irregulares.

Defectivos quando carecem de fórmas: – jazer,
feder
.

São regulares (fortes) ou irregulares (fracos)
conforme seguem o paradigma da conjugação a que
pertencem ou d’ella se afastam: – temer, valer. 175

20. – Damos em seguida a tabella da classificação
geral:

image 1.° Segundo a natureza | concreto. | abstracto.
2.° Segundo as funcções | transitivo. | intransitivo. | auxiliar.
3.° Segundo o modo de significar | activo. | passivo.
4.° Segundo a origem ou fórma | primitivo. | derivado. | simples. | composto. | defectivo. | regular. | irregular.
5.° Segundo a significação | inchoativo… envelhecer, adormecer. | imitativo… grugulejar, coaxar, troar, ribombar. | frequentativo…ir indo, estar andando. | iterativo… latejar, saltitar. | periphrastico… ter de. | terminativo… dar a. | pronominal… | Reflexivo. | Reciproco.
102

Verbo = palavra. O chinez chama aos verbos – palavras
vivas
, aos nomes – palavras mortas.

E, de feito. O verbo é o termo essencial da proposição, a
palavra por excellencia, o elemento vital do discurso, “o verdadeiro
signal do juizo.” “Onde ha um verbo ha um juizo e uma
proposição; sempre que elle falta, ha apenas noções isoladas, idéas
sem ligação – ou pelo menos incompletas.”

E’ de creação muito mais moderna que o nome, e o seu
desenvolvimento flexional é de origem mais recente que as flexões
nominaes.103

Decima segunda lição
Classificação das palavras. – Das palavras invariaveis

1. – Vide setima lição.

2. – Estudemos agora a taxionomia das palavra-invariaveis. 176

1.° Adverbio

3. – Adverbio (lat. adverbium = ad verbum) é
uma palavra que se junta ao verbo, e ainda a um adjectivo
ou outro adverbio, para (exprimindo as circumstancias
da acção) determinar-lhes ou modificar-lhes
a significação: – Pedro estuda aturadamente, ella
canta
muito bem, e é muito bella.

4. – Ainda podemos juntal-os ao substantivo
commum: – Gonçalves Dias era verdadeiramente
poeta. E’ uma prova de que no substantivo domina
a idéa de uma ou mais qualidades
.105

5. – O adverbio corresponde a uma preposição
com seu complemento; pode ser considerado complemento
de um adjectivo.

Especie de qualificativo por sua origem e funcção, 177
encosta-se mais que as outras particulas ás palavras
flexionaes, e admitte gráos de comparação e
fórmas diminutivas: – Elle procede muito (mais,
menos, tão) nobremente; falar baixinho.

Exprime todas as circumstancias em que se dá a
acção – de logar e de tempo, quantidade e modo,
certeza, duvida e negação. Em todos esses casos,
elle qualifica o verbo como o adjectivo qualifica o
nome. (Vide Lição decima).

6. – Os adverbios dividem-se, quanto á fórma
ou origem, em essenciaes ou propriamente ditos, accidentaes,
e compostos ou locuções adverbiaes.

1.° São essenciaes os que figuram sempre como
adverbios. Podem ser simples, formados – em regra –
de adverbios latinos – onde (unde), sempre (semper), tão
(tam), (jam), menos (minus), …; ou compostos, cujos
elementos já de todo se fundiram no portuguez – alli
(a li = 1. illic), agora (ac-hora), assás (ad satis)…

Os compostos são formados de adverbios latinos
reforçados por uma preposição.

2.° Os aciddentaes são palavras de outra categoria
grammatical (substantivo, e adjectivo na fórma
106masculina), mas empregadas adverbialmente: – forte,
certo, alto; bem, tarde
, …

3.° As locuções adverbiaes formam-se de duas ou
mais palavras (substantivo ou adjectivo) precedidas
geralmente de uma preposição (a, de, em, por, sobre):
– em vão, de balde, ás cegas, de chofre, por fas e por
nefas, sobremodo.

7. – Sob o ponto de vista da significação, os
adverbios classificam-se do modo seguinte, conforme a
circumstancia que exprimem:

1.° Adverbios de tempo: – hoje, agora, já,
actualmente
(presente); hontem, já, outr’ora, antigamente
(passado); amanhã, em breve (futuro).

Quando, antes, depois, (relativo); sempre, nunca,
algumas vezes
(absoluto); muitas vezes, raramente,
(frequencia).

Responde á pergunta – quando ?

2.° De logar: – aqui, alli, ahi, acolá, onde, cá,
lá, algures, alem, perto, longe, proximamente

Responde ás perguntas – onde ? d’onde ? aonde ?

3.° De ordem: – primeiramente, ultimamente,
antes, depois, entre
.

4.° De quantidade ou intensidade: – assás,
apenas, muito, pouco, mais, menos, abundantemente

Responde ás perguntas – quanto ? quantas vezes ?

5.° De modo. – Chamam-se adverbios de modo
– alem da maior parte dos acabados em mente –:

a) os de qualidade: – bem, mal, prudentemente.

b) de designação: – eis.107

c) de exclusão: – só, sómmte, apenas, siquer.

d) de conclusão logica: – consequentemente.

e) de affirmação: – sim, certamente.

f) de duvida: – talvez, quiçá, acaso, não. 178

g) de interrogação: – porque, como, quando

h) de negação: – não, nunca, jamais.

As negativas subdividem-se em – simples e intensivas (reforçadas.)

Simples – não, nada, nunca… As intensivas são resultado
do principio da emphase: – não quero não; não-nem; nenhumnem;
nunca jamais; não ter mais de
; etc… (Vide Lições 20.ª, 28.ª,
e 37.ª) 279

8. – Os adverbios de modo, derivados de adjectivos,
exprimem idéas; todos os mais são meras palavras
de relação.

9. – Alguns adverbios pertencem a duas ou mais
das cinco classes supr acitadas. Antes, por ex., refere-se
a tempo ou logar; remotamente, a tempo, logar,
modo, etc.

Em conclusão:

1.° – Não ha negar a natureza nominal do adverbio. E’ uma
fórma invariavel da flexão nominal; representa uma migração vocabular;
deriva de adjectivos, substantivos, pronomes, numeraes e
verbos.

Posto que parte subordinada na phrase, ainda conserva ás
vezes, e em differentes connexões, sentido proprio (subito – adj.,
adv.)

2.° – A natureza nominal do adverbio ainda é clara no facto de
poderem alguns representar um predicado (fallar alto.) Latham
chama a esses adverbios – catego-remáticos (ing. That’s verily; fr.
ant. – comment es tu si nobrement.)
108

3.° – Como os adjectivos correspondentes, os adverbios de
tempo e os de logar exprimem verdadeiras circumstancias, que
nada mais são do que a qualidade accessoria ou accidental da
acção.

4.° – O adverbio póde tambem, em alguns casos, representar
uma conjuncção (adverbios conjunctivos.)

5.° – Uma preposição sem complemento torna-se adverbio:
elle marchou contra o inimigo (prep.), elle fallou contra (adv.)

Como escreveu o grammatico – omines pars orationes migrat
in adverbium
.

2.° – Preposição

10. – Preposição é uma particula invariavel que
serve para ligar duas palavras (subst. ou pronome a
substantivo, pronome, adjectivo ou verbo) com o fim
de indicar-lhes a mutua relação.

A palavra preposição = lat. prœpositio, isto é, palavra que
se colloca antes do nome a que se refere. Esta definição era erronea,
e não indicava a natureza interna da preposição, pois que em latim
ella nem sempre precedia o nome ou verbo. (Tenus colloca-se
depois do ablativo; cum, depois de me, te, se, nobis, vobis, qui.) No
portuguez, porem, sempre a preposição é precedente.

Os grammaticos gregos classificam as preposições com as
conjuncções, sob o nome de connectivas (sundesmos.)

11. – Sob O ponto de vista da forma ou origem,
as preposições classificam-se em essenciaes (propriamente
ditas), accidentaes, e compostas ou locuções prepositivas.

1.° – As essenciaes são palavras simples ou como
taes consideradas (pela fusão dos elementos componentes):
a, antes, com, contra, em, entre, per, por,
sem, sob… após, para, desde, até
109

As nossas preposições simples são de origem directa latina, e
conservam as fórmas e relações originarias. (V. Lição 28.ª)

Muitas derivam-se de antigos adverbios ou são formadas de
duas preposições simples ou de uma preposição (a, de, em, por) com
um adverbio, substantivo, participios: – deante, perante, defronte;
apezar, excepto, salvo, tocante, concernente
… (V. Lição 18.ª)

2.° – Accidentaes. São as palavras (substantivos,
adjectivos, participios), que, posto de categoria
differente, empregam-se todavia com força prepositiva:
segundo, durante, consoante, salvo, visto, excepto.

3.° – Locução prepostiva. Forma-se, em geral, de
adjectivos ou substantivos seguidos de preposição
(a, de): – e bem assim de adverbios ou locuções
adverbiaes: – á força de, quanto a, perto de, ácima
de, concernente a… eis aqui, eis alli

12. – Muitas preposições, como já vimos, derivam-se
de antigos adverbios ou são preposições e
adverbios conforme a circumstancia é expressa só pela
particula (adverbio) ou pela particula seguida de complemento
(preposição). As relações entre estas partes
do discurso são tão intimas, que a distincção entre
ellas não está na significação, mas no diverso valor
syntaxico com que indicam a mesma circumstancia
de logar, origem ou causa, tendencia ou apartamento.

13. – Ainda mais. São varias as relações expressas
por certas preposições: não podemos pois
classifical-as segundo as suas significações actuaes, nem
tão pouco de conformidade com as originarias.110

14. – O que, porem, se póde affirmar de modo
geral, é que as preposições indicam relações de logar,
tempo
e movimento. 180

D’ahi a sua divisão em quatro classes:

a) De logar e direção: – em, por, sob, sobre,
entre, para, após
.

b) De tempo e duração: – antes, depois, desde,
durante
.

c) De causa, meio ou fim: – de, por, para,
com
.

d) De modo:-segundo, conforme.

1.° – As preposições são palavras relacionaes (geralmente de
logar e direcção). Servem para exprimir as varias fórmas das
novas idéas; “são prefixos moveis que representam papel analogo
ao das desinencias nominaes.”

2.° – O seu fim principal é indicar as relações adverbiaes.

3.° – Exprimem as relações externas e internas do espirito
humano; as de natureza physica, e as do dominio intellectual.
"As relações physicas são geralmente locaes, as de actividade são
de direcção e movimento." As relações do dominio intellectual
são concebidas como se fossem physicas, e expressas por preposições
que denotam relações physicas: – descançar em alguem, consultar
com alguem, copiar de alguem
.
111

4.° – A preposição e a flexão nominal coexistiram no dominio
historico da linguagem.
181

Foi em varios casos o verdadeiro expoente relacional de
declinação; e esta funcção ella ainda conserva nas linguas analyticas.

Nas linguas flexionaes ou syntheticas, as preposições – por
sua tendencia agglutinativa, e consequentemente enclytica – já
eram, por assim dizer, uma flexão dupla, principalmente – por
motivo de clareza - nos casos como o ablativo latino, que mais
representava relações significativas (mecum, cum nobis, in agro, ex
agro
…)

Este facto devia ter concorrido forçosamente para o enfraquecimento
gradual dos casos, e mais tarde para a sua perda total,
como se deu em geral nas linguas néo-latinas. (V. Bréal, Egger, etc.)

3.° – Conjuncção

15. – Conjuncção (lat. conjunctionem, de cum
jungere
) é a palavra invariavel e relacional, que serve
para ligar palavras e proposições.

16. – O seu caracteristico é indicar a relação que
teem entre si as phrases ou proposiçoes, e tambem as
partes do discurso subordinadas á flexão (nome e
verbo.)

17. – Consideradas quanto aos seus elementos,
dividem-se em simples e compostas (pois, mas… todavia,
outrosim
…)

18. – Quanto á sua significação ou funcções no
discurso, podemos dividil – as em duas grandes classes
112de coordenação e de subordinação, que se subdividem
do modo seguinte:

image Coordinativas ou connectivas copulativas | copulativas – e, tambem
disjunctivas – ou, quer
continuativas – pois, ora, outrosim
adversativas – mas, porem, todavia
explicativas – como, assim como
conclusivas – logo, portanto, por consequencia
comparativas – mais – que, tão como
Subordinativas ou connectivas continuativas
condicionaes (suppositivas) – si, com tanto que, se por ventura
causaes (positivas) – porque, visto que, pois que…
concessivas – embora, ainda que, posto que
temporaes – como, quando, logo que…
finaes (integrantes) – que, si.

19. – A conjuncção coordinativa liga entre si
asserções ou palavras independentes; a subordinativa
só liga affirmações dependentes, e nunca palavras.

20. – Segundo a FÓRMA, as conjuncções dividem-se em:

1.° Essenciais: – e, nem, mas, pois, quando, como
(simples, e todas de origem directa latina), e tambem,
todavtia, portanto
… (compostas, – entre si ou com
adverbios.)

2.° Accidentaes: – Assim, logo, ora, já

3.° Locuções conjunctivas: – Não obstante, de sorte
que
113

Muitas conjuncções actuaes são antigas locuções
reduzidas a simples signal unitário: – senão, tambem,
outrosim
.

21. – Consideradas ainda sob o ponto de vista
da origem, as conjuncções podem dividir-se em duas
categorias, a de derivação latina e a de formação
portugueza: – e, ou, como, quando, si, pois, mas, nem,
quando, que
… (l. class.), tambem, pois que, porem
(l. pop.), outrosim, entretanto, pois que, posto que
(f. port.)

1.° – As funcções de certas conjuncções pouco differem das de
alguns adverbios, e das suas relações resultam delicadas cambiantes
do pensamento (Wierz. Gramm.)

2.° – A preposição equivale – pela significação – á flexão casual;
a conjuncção quasi que equivale á flexão modal pelo muito que
contribue para variar-lhe o sentido e uso: Cp. sei que estudas, sei
como estudas, etc.

Os modos não podem exprimir, só por si, as relações indicadas
pelas conjuncções, e este facto basta para mostrar a importancia
da particula.

3.° – A conjuncção pertence ao ultimo periodo da differenciação
grammatical. Mais encostada ao pronome – pela origem e
valor – foi a principio simples junctura ou articulação phraseologica.

Tomando-se, de simples connectiva, palavra de subordinação,
deu origem á complexidade syntaxica do modo subjunctivo.

4.° – Interjeição

22. – Os physiologistas grammaticaes differem
muito quanto á ordem de successão das outras partes
do discurso; mas quanto a esta, são todos accordes
em que no genesis da linguagem a interjeição, e as
114palavras onomatopaicas devem ser consideradas os
primeiros vagidos linguisticos. (W. Smith. Manual.)

No esboço historico do desenvolvimento genetico
das partes da oração, devia-se pois naturalmente
começar pela interjeição.

23. – A interjeição propriamente dita – primitiva,
originaria – é um grito espontâneo e instinctivo,
um som animal.

Não constitue technicamente parte da oração; é
uma voz intercalada na phrase, atirada 182 na proposição
para exprimir um subito sentimento, uma emoção
do espirito.

E’ um grito do instincto; o echo dos sentimentos
naturaes.

24. – Verdadeiro grito da natureza, as conjuncções
primitivas são monosyllabicas; e parecem-se em
todas as linguas, comquanto modificadas na intonação.

As interjeições – diz Breal - semelham certas raças selvagens,
que embora vivendo a par da civilisação, conservam-se todavia
apartadas, independentes, nunca assimiladas nem destruidas.

25. – Do grito natural e espontaneo, porem,
transformou-se a interjeição em palavras convencionaes,
intencionaes, reflectidas, representando a fórma abreviada
de uma phrase, a synthese de uma proposição.
Ex.: Coragem ! = tende coragem, Credo ! = ouço-te,
vejo, etc., com o Credo na boca, isto é, com medo,
apavorado.115

26. – Podemos pois classificar as interjeições
quanto á origem ou natureza, em instinctivas ou primitivas,
onomatopicas, convencionaes ou derivadas.

1.° As instinctivas (essenciaes) são as que representam
simples gritos da natureza; são quasi identicas
em todas as linguas, e – como as palavras no
chinez – a mesma interjeição pode exprimir varios
sentimentos ou emoções, conforme a intonação: –
Ah ! eh ! ih ! ha ! ho ! hi ! ai ! hui !

2.° As onomatopicas podem ser consideradas primitivas:
co có, tic tac, bum, zape, sape… geralmente
com força intensiva. A interjeição psiu, usada para
silenciar, tambem é onomatopica, e consiste meramente
em um som atono, e como que segredado.

Não devemos, porem, confundir onomatopeas
com interjeições. Estas indicam sensações, aquellas
percepções: bum bum e chape chape são vozes
tão onomatopaicas como ronco, troar, clangor. As
primeiras são espontaneas, as segundas convencionaes.

3.° As convencionaes são verdadeiras palavras
(subst., adjv., verbo, adv.)

a) Termos descriptivos de emoção, com entonações
appropriadas – horrivel ! bravo ! misericordia !
diabo ! (convencionaes).

b) Nomes proprios ou communs, usados para
chamar animaes, etc.

c) Verbos no imperativo – vamos ! olha ! (com
particular intonação de voz).116

d) Nomes usados imperativamente por meio da
intonação: – silencio ! fóra ! firme !

e) Fórmas abreviadas, empregadas particularmente
pelo vulgo (locuções interjectivas) – Hom’essa !,
pardeos = por Deus, bofé = boa fé, ayesú = ai Jesus !
aqui d’El-rei ! Ave Maria ! Valha-me Deus ! O diabo
te leve ! Máos raios te partam ! Deus te favoreça !

A esta classe pertence a maior parte das fórmas
familiares optativas e deprecativas, e ainda as de
invocação de bençãos, as precativas. Adeus ! é um
exemplo, e dos mais bonitos.

Nas imprecações e juras é o portuguez mui rico de fórmas
interjectivas, e dellas são grandes repositorios o Canc. da Vaticana
e as obras de Gil Vicente.

Precativas. Sec. XIII. C.V. – Por deus (var. par deus,
per deus, pardes
), per boa fé, (var. per bona fe), per nostro Senhor
Grad’a Deus, Ay Deus Val. Por Deus da cruz
… Sec. XVIII –
Nome de Jesu, Oh corpo de Deus sagrado, Ah ! santo corpo de mi,
Ave Maria, Polos santos evangelhos, por minha alma

Imprecativas Sec. XIII. – Ma morte me prenda, nunca me
valha nostro Senhor. Maldito seia. Mao peccado, mal me venha, que
o tal demo tome, lança de morte me feyra
… Sec. XVI – Choros
maos chorem por ti, dores de morte te dem, O’diabo dou a morte,
mãos lobos me acabem já, olho máo se meta nelle, eego seja

As juras e pragas são vulgarissimas em todas as linguas, e
eram mui frequentes e populares no latim – pro deum fidem, pro
sancte Jupiter, Proh ! humane Jupiter, Divene mortant, malam tibi,
Jupter te perdat, mala cruz
… (Plauto).

São tambem de notar as fórmas comicas portuguezas: –
Fernão d’ Esculho me pique, Pezar ora de San Pego, viagem de João
maleiro, pezar a Jam Pimentel, Por vida de Sam Fará, Juro a San
Juneo Sagrado, O’ renego de san Grou

21. – Vê-se pois do que acabamos de dizer que
o sentido das interjeições depende das modulações da
voz.117

22. – Sob o ponto de vista do sentido, as interterjeições
classificam-se em:

a) de admiração, espanto – ah ! oh ! Jesus !

b) dôr, magoa, – ai ! hui !

c) exhortação, acoroçoamento – eia ! avante !
bravo ! 183

d) prazer, alegria – oh ! olá ! caspite !

e) desejo, saudade – oxalá, praza a Deus.

f) chamamento, invocação – ó, olá, psiu !

g) aversão, colera – fóra ! irra ! arre ! apage !

h) zombaria – fóra ! hi ! hu hu ! ha ha !

i) de calamento ou silenciadora – chiton ! psiu !
caluda ! silencio ! 284

Alguns glottologos dividem as interjeições (quanto á significação)
em duas classes: 1.ª das que exprimem dôr ou prazer
mental ou physico; 2.ª das que indicam impressões derivadas de
objectos externos pelos orgãos do ouvido e da vista.

24. – Em remate. As interjeições portuguezas
pois dividem-se: a) em exclamações naturaes exprimindo
paixão ou emoção; b) em exclamações naturaes
exprimindo um estado da vontade (calamento,
invocação, animação, mando); c) imitação dos sons
118naturaes: – qua qua (c. v.) ru ru ru, pate pate (G.V.),
glu glu, plash ! bum bum !

Nota. Banida do districto grammatical, é todavia
a interjeição muito para ser estudada – não só
por sua importancia sob o ponto de vista philosophico,
mas tambem pela vivacidade que ella empresta
ao estylo, por sua expressividade inherente e independente.
A interjeição é a palavra, a phrase primitiva,
a parte fundamental da linguagem: com ella,
a phrase actual, de descriptiva torna-se expressiva.

As interjeições correspondem ás expletivas dos
rhetoricos, com a differença de que estas carecem de
significação.

“Consideremos pois a interjeição – palavra; não
de caracter logico ou didactico, mas rhetorico e dramatico.”

Fechamos esta lição com as palavras de um notavel
philologo americano:

“O facto de exprimirem as interjeições as multiplas
emoções do espirito humano, favorecendo
consequentemente a subita e viva manifestação do
pensamento; de serem os unicos intermediarios entre
o homem e os brutos, e ainda entre estes; e de constituirem
uma lingua universal, – é quanto basta para
patentear-lhes a importancia sob o ponto de vista
119philosophico. Não ha negar que as interjeições,
quando bem empregadas, muito contribuem para
tornar a linguagem o exacto psychographo do espirito
humano.”120

Decima segunda lição
Aggrupamento de palavras por familias…

Aggrupamento de palavras por familias e por associações
de idéas. – Synonymos, homonymos e paronymos

1. – Familias de palavras são grupos de vocabulos,
que tem entre si certa analogia ou relação
de som, fórma, sentido ou construcção.

2. – São pois em numero de quatro as familias
de palavras.

1.ª Familia philologica. – E’ aquella cujas palavras
constituintes apresentam relações morphicas, e
teem raiz ou radical commum. Ex.:

Raiz am: – amor, amaroso, amorabundo, amorifero
amoravel; amar, amante, amazia, amador,
amabilidade; amigo, amisade, amistoso, amigavel;
namoro
, – ar, – dor; amistar, amistança; inimizade,
inimigo, desamor

Raiz duc (conduzir, levar, reger, governar): –
conduzir, conductor, conducta, conducção; seduzir, seducção,
seductor; deduzir, deducçao; educar, educação,
educador; introduzir, introducção, introductor;
induzir, inducção, inductor, induzimeneto; reduzir, reducção
,
121reductor, reduzivel, reductivo, reductivel; traduzir,
traducção, traductor

Raiz leg (reunir): – lei (1. legem), leal, lealdade,
legalidade, legalisar, legalisação, legalisador;
legista, legitimo, lidimo, legitimar, legitimação, legitimista,
legitimidade; legiferar, legislar, legislador,
legislação, legislativo, legislatura, privilegio

Radical grapho (gr. graphein, escrever, descrever):
graphia, graphar, graphico; epigraphe,
epigraphia, – ico, – ista; graphite; graphometro, paragrapho

(párafo)…

Composto com as palavras prefixas – aer, autos, biblion, bio, caco, eolle,
chiro, choro, cosmo, ethno, geo, hiero, ichno, micro, léxico, oreo, ortho, paleo,
photo, phoné, sceno, telé, topo, typo
, etc., deu-nos grapho um grupo importante
de vocabulos de formação erudita, e com jus de accrescer.

O radical indica a idéa principal; as desviações
dependem do valor dos prefixos e suffixos.

2.ª Familia phonica. – E’ a que se compõe de
palavras que – ainda quando de radical differente,
e não representando relações de idéas – confundem-se
todavia na pronuncia, e ás vezes tambem na
graphia: – sella cella, pena penna, ama (subst.) e
ama (verbo), dado (s.) e dado (part.), … meta méda,
séde sêde
.

Esta familia consta dos homonymos e paronymos.

3.ª Familia ideologica. – Compõe-se: 1.° de palavras
de radical commum ou differente, mas cujas
122relações teem sentido mais ou menos semelhante, ou
identico: – amor, amizade, affecto, affeição, estima;
sermão, pratica, predica, exhortação
;… 2.° de palavras
representantes de idéas oppostas, antagonicas:
bonito, feio, alto baixo, corajoso covarde.

A’s palavras que constituem esta familia dá-se
os nomes de synonymos e antonymos.

4.ª Familia syntaxica ou de construcção divergente.
– Compõe-se de palavras que representam
as mesmas funcções na estructura da phrase: – começou
de fallar, começou a fallar; pegar da penna,
pegar na penna
:

(V. Synon. e Liç. 29)

Synonymos

3. Synonymos (gr. sun e onuma).

São palavras de uma mesma lingua, que –
posto de radical differente e diversa categoria grammatical
– teem todavia identico sentido, ou representam
differenciações significativas de uma idéa
principal.

1. ° Na opinião do professor Marsh, synonymos verdadeiros devem
ser palavras que, em uma mesma lingua teem identica significação e pertencem
á mesma classe grammatical: – merito, merecimento, acolá alli, ver
enchergar
. O uso, porém, arrolou tambem nesta familia, as palavras de
significação ligeiramente differentes.

2.° “Para que as palavras sejam synonymas é mister representem noções
complexas e geraes, collecções de idéas simples.” Em aversão, odio, inimizade,
cada uma dessas palavras encerra certo numero de idéas mais geraes,
mais simples, elementares (antipathia, aborrecimento, nojo, tédio), “que
constituem o seu dominio, a sua extensão, a sua significação”.
123

Mas, ás vezes, um ou mais termos significativos de uma ou mais
especies, são synonymos do termo que exprime o genero por elles indicado.
Rocim e corcel são synonymos de cavallo, que designa a idéa geral de rocim
e corsel.

4. Os synonymos, pois, quanto á sua natureza,
devem dividir-se em perfeitos e imperfeitos.

Perfeitos – são os que teem identico sentido:
encarouchar embruxar, frade freire (frei), arroto eructação,
usurario usureiro, avaro avarento, cara rosto,
perna gambia, cabedal capital, caminho de ferro
e
ferro-via, dedo minimo e dedo meiminho, tremor de
terra
e terremoto, spectro abantesma

Ha synonymos perfeitos, e nem póde deixar de havel-os. Basta attender
á formação divergente do nosso vocabulario, nos elementos historicos da
lingua, á importação neologica, ás forças creadoras e modificadoras (prefixos
e sufixos), ás differenciações locaes, etc., (V. § 5.°)

Imperfeitos – os que apenas apresentam entre
si relações mais ou menos intimas, mas nunca identidade
de sentido.

5. Estudemos agora as varias causas da synonymia.

1.ª – Tendencia polyonymica. – E’ geral, e natural,
a tendencia que tem o povo para designar um
objecto por mais de um dos seus respectivos caracteres.
Além do facto de idiosyncrasias de constituição
mental, ha a necessidade de fugir ao tedio das
repetições constantes, e de exprimir o pensamento
do modo mais vivo e colorido possivel. Ex.: – diabo,
demonio, demo, diacho
, arch. decho e dexemo (G.
124Vic.), Satan, Satanaz, canhoto, tinhoso, espirito máo,
etc. Pateta, tolo, palerma, papalvo, paspalhão, basbaque,
nescio, imbecil, tolaz, parvo
(parvoalho), estolido,
idiota, bolonio, patola

Essa exuberancia synonymica é mais propria dos primeiros periodos
das linguas, pelo pendor natural para o estylo figurado ou metaphorico.
No sanskrito veda o sol tinha diversas denominações-o brilhante, o amigo,
o generoso, o nutridor, o creador, etc. (M. Müller Lect.), – o arabe tem 500
synonymos para designar o leão (Renan, L. Sem.); no dialecto islandico ha
150 synonymos para espada. (Snorro’s Edda).

2.ª – Derivação divergente, e renovação erudita.
– A cultura litteraria introduziu no portuguez
crescido numero d e vocabulos de fundo erudito, tirados
immediatamente dos autores latinos.

E assim originaram-se grande numero de fórmas
divergentes, porque a maior parte desses vocabulos
já pertencia ao fundo popular da lingua: – coalhar
coagular
(= l. coagulare), préa preda presa (= l.
proeda), mancha macula (= l. macula), paço palácio
(= l. palatium), quedo quieto (= l. quietus), doar dotar
(= l. dotare), alhear alienar (= 1. alienare),
nedio nitido (= l. nitidus), etc. (V. Liç. 23).

Mais. Um vocabulo deriva do nominativo, e
o outro do accusativo latino: – ladro (latro) e
ladrão (latronem), preste (presbyter) e presbytero
(presbyterum).

Foi a renovação litteraria que nos deu – legitimo
p. lidimo, dispensa p. dispensaçom. secular p.
segrar, integro p. inteiro, plano p. chão, logar p.
125logo, mesura p. medida, tedio tristeza pezar nojo
desprazer saudade
(suydade), ira e sanha, astucia
e arteírice, etc. 185, hypothese (gr. hypothesis) e supposição
(1. suppositionem), esphera (gr. sphaira)
globo (1. globus), lexico (gr. lexikon) e diccionario
(= 1. diccionarium) etc.

3.ª – Creação portugueza. – Mendaz (= 1.
mendax) e mentiroso, avaro avarento (= 1. avarus)…

4.ª – Importação peregrina (V. Liç. 22). –
E’ esta uma grande fonte synonymica e inexhaurivel:
orgia (= 1. orgia ± gr. orgia) e deboche
(fr. debauche), trovador (prov.) e bardo (celt.),
alvo (= 1. albus.) e branco (germ. blanch); ventre (1.
venter), abdomen (= 1. abdomen), barriga (germ.
baldrich); cavallo (= 1. p. caballus), rocim (germ.
ross), palafrem (fr. palefroi), alfaraz (arabe alfarás);
vagão (ing. wagon), carro (= 1. currus); beija
flor
(form. port.) e colibri (caraíba); casquilho e
petimetre (fr. petit máitre), chapada (planalto, planura)
e plató (fr. plateau). 286

5.ª – Technologia scientifica . – O progresso
126scientifico e o industrial muito teem concorrido
para augmento da corrente synonymica. Ex.: bexiga
variola, veneno toxico, contraveneno antidoto, sangria
phlebotomia, barriga d’agua ascite, poaya ipecacuanha,
damnação hydrophobia, dôr de dente odontalgia,
anta tapir, somnambulo noctambulo nyctobato,
terçol hordeolo.

6.ª – Semeiologia. – Sarabanda p. zeribanda 187,
sé séde (sanat sede – Vieira), são santo, saldar soldar,
exquisito ridiculo
, 288 confiado atrevido, cunha empenho
(metter-se no cargo á cunha de valias), patife maroto,
etc.

7.ª – O vocabulario plebeu e a gira. – Matasanos
= medico imperito, sacamollas = máo dentista,
bisborria = homem de borra, grosseiro e ridiculo.

8.ª – Differenças locaes. – São ás vezes devidas
á maior influencia de um dos elementos historicos
da lingua. No Brazil, por exemplo, deve-se ter
em muita conta o elemento indigena e o africano.
Exemplo: pacova banana, gerimum abobora, quiabos
quingombô, calunga camondongo. 389127

Na ichtiologia e na orniothologia, é immensa a differença da nomenclatura
do Norte do Brazil, comparada com a do Sul.

O mesmo podemos affirmar quanto aos vegetaes. – Lê-se em um trabalho
do Dr. J. de Saldanha da Gama (Syn.de diversos vegetaes do Brazil 1868)…
“em muitos casos existem 2, 3, 4 ou mais nomes vulgares para uma só
espécie:… Os nomes vulgares mudam de provincia para outra, pelo menos
a respeito de alguns vegetaes, e ás vezes nos municipios de uma mesma
provincia”. Ex.: Gutucanhé Carvalho (no Paraná); côoco de catarrho macauba
mocajuba; camomilla macella
, (Anthemis nobilis), herva tostão (R. de J.) pegapinto
(Ceará) Boerhavia hirsuta; gravatá curauá (Amazonas) caragoatá
Bromelia sp., tinhorão – pé de bezerro (Caladium bicolor), pão ferro (R. de J.)
jucá (Ceará), cajueiro bravo cambaiba, cóco da praia – gurury; pão santo
guaico, jatobá (R. de J.) – jetahy (Amazonas); maçaranduba – apraiú (S. Fidelis)
canna cayanna – tacomaré ou tacoaraêm, capim melado (R. de J.)
capim-gordura (Minas Geraes), guaxima ou carrapicho (R. de J.) uaissima
(Amazonas).

9.ª – Os synonymos perfeitos são hoje em numero
decrescido, e cada vez mais tendem a rarear.
E’ que o conhecimento mais profundo da lingua
tambem mais lhes vae particularisando, restringindo,
as significações. Ex.: nedio e nitido, confiança e
confidencia, rezar e recitar, meio e medio, solteiro e solitario.

10.ª – Laffay divide os synonymos, quanto á
natureza das suas differenças, em grammaticaes ou
de radical commum, e etymologicos ou de radical diverso.

11.ª – Os de radical commum só differern entre si
por certas circumtancias grammaticaes – prefixos
e suffixos ou desinencias: producto producção, risa
risada, melhora melhoria melhoramento, vão vaidoso,
difficil difficultoso
.128

São avultados, e dividem-se em simples e compostos.

12. – Para bem profundarmos no genio de uma
lingua, devemos estudar a synonymia grammatical, a
qual póde dar-se dos varios modos seguintes: 190

1.° – Synonymia entre substantivos que só differem
em numero: baixeza baixezas.

2.° – Entre substantivos que só differem no genero:
montanha monte, fortaleza forte.

3.° – Entre collectivos e substantivos no plural:
os homens, a humanidade.

4.° – Entre substantivos e infinitos substantivados:
sensação sentir, riso rir, pensamento pensar,
sabedoria saber
.

5.° – Entre substantivos e participios passados
tomados substantivadamente: – imposição imposto,
enunciação enunciado
.

6.° – Entre substantivos e adjectivos substantivados:
belleza - o bello, utilidade - o util, extremidade
– o extremo
.

7.° – Entre adjectivos e locuções adjectivaes
compostas da preposição de e de um substantivo:
oriental – do oriente, homem criterioso – homem de criterio,
litterato – homem de lettras
.129

8.° – Entre adjectivo e participio passado tomado
adjectivamente: conviva convidado.

9.° – Entre adjectivos, um de derivação verbal
outro da fórma nominal correspondente: – vibrante
(de vibrar) e vibratório (de vibração.

10.° – Entre verbos neutros e os mesmos na
fórma activa reflexa: sahir sahir-se.

11.° – Entre verbos neutros e o seu participio
presente precedido do verbo ser ou estar: depender
estar dependente.

12.° – Entre verbos no indicativo, e outros no
futuro subjunctivo: Creio que elle faz bem, que fará
bem; crês que elle faz bem ? que elle faça bem
?

13.° – Entre verbos inchoativos e as fórmas
correspondentes periphrasticas: envelhecer = fazer-se
velho; empallidecer = tornar-se pallido, ajoelhar
= pôr, cahir, em joelhos
.

14.° – Entre verbos activos e as suas fórmas pronominaes:
rir rir-se; resolver resolver-se.

15.° – Entre v, . erbos activos e suas fórmas periphrasticas
(verbo fazer, dar, etc. + substantivo):
acariciar, fazer caricias; gritar; dar gritos.

16.° – Synonymia das preposições a, para, com
as preposições de, com, por: – servir de, – para;
aproximar-se a, – de; acostumar-se a, – com; comparar
a, – com; ao
menos, pelo menos; afim, com
o fim
, etc.130

17.° – Entre adjectivos e adverbios, e entre
adverbios e locuções adverbiaes: raro, raramente,
com raridade; triste, tristemente, com tristeza; cegamente,
ás cegas; vanmente, em vão; litteralmente, á
lettra
.

18.° – Entre palavras que modificam o sentido
conforme o logar que occupam na phrae: verdadeiro
amigo, amigo verdadeiro; maltratar, tratar mal;
bem fazer, fazer bem; sobrelevar, elevar sobre
. São
verdadeiros synonymos syntaxicos. Todavia a mudança
de logar não raro modifica o sentido das palavras.
(V. Liç. 5.ª). Disse Gil Vicente: a quem ourives
chamar
bom homem dae-lhe esmola de dó delle;
e Vieira sentenciou vae grande differença de ser nosso
rei ou de ser rei nosso.

19.° – Entre palavras cujas differenças de sentido
são determinadas pelo valor dos prefixos e suffixos:
pasto pastura pastagem, corajoso corajento.

14. – Os synonymos de raiz diversa são palavras
de varias origens, importadas para expressão de
uma mesma idéa ou de suas cambiantes. Muitas
vezes não é a necessidade a causa de tal importação
mas tão somente a sympathia ou a moda.

15. – As dissimilhanças de significação explicam-se
pela etymologia, pela differença dos radicaes:
caro querido, carniceria (carnificina) matança
mortandade hecatombe
.

16. – Não estão, como os grammaticaes, sujeitos
131a leis geraes. “Do seu sentido particular só
decide a autoridade classica, a menos que a origem
etymologica, conservada pela tradição, baste para
indical-o de modo scientifico”: – cavallo, corsel,
ginete, rocim, hacanêa, palafrem, alfaraz, faca;
espada, cimitarra, catana, alfange, chifarote, cutelo,
estoque, gladio, montante, sabre, terçado, refles
, etc.

17. – E’ de grande utilidade o estudo desta
categoria de synonymos, que nos faz conhecer as
distincções philologicas consagradas pelos exemplos
de bons escriptores, e habilita-nos a dar mais propriedade
e vivacidade á phrase. Exemplifiquemos:

Prejuizo, preoccupação, prevenção. – Exprimem
o erro permanente ou a predisposição para o
erro, por motivo organico, do meio ou da educação,
ao passo que illusão, engano, desacerto, significam
erros ou faltas accidentaes.

O prejuizo refere-se ás crenças, opiniões, superstições;
prende-se á nossa infancia, ao lar domestico,
á escola. Explica-se por uma certa fraqueza
do espirito, credulidade condemnavel.

A preoccupação é o erro da consciencia, ao
envez do prejuizo, que é o erro da autoridade.

Representa o afferro a certas idéas, caprichoso,
obstinado.

A prevenção tem por fim dispor os animos ao
nosso intento: fére o coração para actuar sobre a
razão, e por isso torna-nos as mais das vezes parcial
132e apaixonado. Constitue o que se chama erro do coração. 191

Incerteza, duvida, indeterminação, indecisão,
irresolução, perplexidade
. – Todos estes vocabulos
exprimem um estado de enleio, suspensão,
embaraço, em que o individuo em nada assenta, e
nada toma por partido.

A incerteza e a duvida referem-se ao entendimento;
é delle que parte a hesitação no caminho da
verdade. A indeterminação, a irresolução, indecisão e
a perplexidade teem por origem a falta de vontade
propria, de energia, a inercia e o receio.

No primeiro caso (da incerteza e duvida) é preciso
ter crença, fé ou confiança para vencel-as; cultivo
intellectual, e razões convincentes para removel-as.
No caso da irresolução, indecisão e indeterminação,
fallece ao individuo a necessaria energia
para pôr em pratica a empreza a que se quer abalançar,
para resolver-se em cousa certa. A indeterminação
é proveniente de fraqueza de animo, a indecisão
é devida á fraqueza de espirito. O indeciso
carece de convicções firmes; o irresoluto de imperio
sobre si mesmo, firmeza de caracter. Para vencer-lhes
a inercia, é preciso esclarecer, instruir, convencer
o indeciso; estimular, excitar, persuadir, o irresoluto.133

A perplexidade exprime indecisão com desassocego
de espirito; uma conjunctura apertada entre a
indeterminação e a duvida, a perturbação do espirito e
o desanimo. A duvida affecta a crença; a irresolução,
indeterminação
e a indecisão dependem da vontade;
a perplexidade affecta o entendimento e a vontade,
e só póde cessar ante a convicção de não se dever
inquietar com o resultado de um commettimento
quem procede sempre com recta intenção.

A incerteza é o caso do ignorante; a duvida é a
hesitação em pontos de dogma, a suspensão do entendimento
no ajuizar. Aquella mais se refere a acontecimentos,
esta a opiniões; a incerteza é subjectiva, a
duvida é objectiva; a primeira – fixa-se, a segunda
– resolve-se.

18. – A synonymia é do mesmo passo uma força
modificadora e um factor de reducção do vocabulario
(V. Liç. 21.) Exemplo: monja (arch. monga =
1. monacha) archaisou-se pela preferencia dada á
fórma synonymica freira, feminina de freire (= 1.
frater), que por seu turno foi supplantado pela
fórma concurrente frade (= 1. fratrem, irmão) no
seculo XVI; 192 gargantuyse (L. Cons.) é obliterado
pelo vocabulo gulla (Seculo XV); agro p.
campo, terreno; criamentos p. afagos; frontar p. protestar,
etc.134

19. – A’s vezes o vocabulo novo não consegue
archaisar o outro já existente, mas altera-lhe o sentido
ou restringe-lhe o uso. Exemplo: comer (= 1.
come-d-ere) era de emprego vulgar até o seculo XV
com a significação de jantar (D. D. – L. Cons); depois
– pela concurrencia desta fórma hespanhola –
veio a designar simplesmente comida, alimento (Cp.
verbos – comer e jantar); eira e area (l. area),
obrar e operar (= 1. operare), chão e plano (= l. planus),
solteiro e solitario (= l. solitarius).

Outras vezes, um dos vocabulos fica adstricto
sómente ao dominio da poesia. Exemplo: ledo (= 1.
lœtum) era de uso popular nos primeiros tempos da
lingua (Docs. séculos XII e XIII, C. V.); no seculo
XIV a fórma alegre (= 1. alacrem) substituiu-o
de todo na prosa. 193

1.° – O estudo dos synonymos – de que é o portuguez riquissimo – é
indispensavel para o bem cabido emprego das palavras, para a exacta e
precisa expressão do pensamento. Os Gregos tinham em muito valor o
perfeito conhecimento da significação das palavras; os Latinos, posto que
menor lhes fosse a riqueza synonymica, tambem muito curavam desse
estudo, como se deprehende da 3.ª epistola do grammatico Fronton a
Marco Aurelio. 294

Nas linguas modernas, porém, o esquecimento ou desconhecimento
da significação primitiva do radical, faz com que não raro as palavras,
tenham sentido diverso do expresso pelo radical. E este facto é mais
patente nos derivados secundarios, ou palavras formadas por derivação
ou composição de fórmas tambem derivadas ou compostas, ou importadas
de fontes estrangeiras (Egger).
135

2.ª – A synonymia explica outrosim as divergencias lexicas, que se
notam nos idiomas congeneres e nos c. dialectos. E’ assim que dos synonymos
latinos frater e germanus, pastor e berbericus, infirmus, e male aptus,
casa
e mansio, o portuguez adoptou de preferencia, e espontaneamente,
germano germaho irmão, pastor (pastorem), enfermo, casa, e o francez
frère, berger, malade, maison (masionem). – M. Müller, Lect.

Mais tarde o francez admittiu as palavras germain, pátre, infirme,
caserne
, e o portuguez por sua vez – frade (só applicavel aos irmãos
de ordem religiosa), malato (p. infl. italiana), meijão (p. inf. franceza),
mansão (inft. erudita).

Homonymos

2.° – Homonymos (gr. homoios semelhante, onuma
nome). São palavras que, comquanto exprimam
idéas differentes, pronunciam-se do mesmo
modo, quer tenham ou não identica orthographia.

21. – Dividem-se:

1.° Em aurioculares, que soam e se escrevem
identicamente: – canto (aria, melodia e angulo
formado por dous planos, etc.), manga (fructo, e
parte do vestuario que cobre o braço), maneira
(modo, uso, e abertura na saia), são (sadio e contr.
de santo), salsa (hortaliça e salgada): salva (prato
de metal, vidro, etc., e descargas de artilheria, sem
bala, em demonstração de respeito, honra militar,
herva, e participio passado do verbo salvar), dado
(substantivo e participio passado), lente (professor
e instrumento), etc.

2.° Em homophonos (auriculares), que se escrevem
differentemente, mas teem a mesma pronuncia: –136sumo summo, concelho conselho, cita sitta sita, cervo
servo, condessa condeça, ruço russo, ceda seda, cinto
sinto, pena penna, pulo pul-o, ama minha – a maminha,
que ouço – que osso, concebo – com sebo

3.° Em homographos (oculares) que tem identica
orthographia, mas diversa phonação: sabia sabiá,
sede séde
.

A classe dos homophonos é a mais numerosa.

Por mais rica que seja uma lingua, não póde deixar de ter homonymos.

As linguas antigas eram mais pobres em homonymos que as modernas,
e a razão é obvia.

Da homonymia é que resulta os trocados de palavras ou equivocos, a
que os Francezes chamam calembourgs. Para esses mesmos effeitos, serviam-se
os comicos gregos da homonymia, transpondo muitas vezes os limites da
decência. Os Latinos tambem dela se aproveitaram; eve, ave, aves, esse aves,
e é tambem muito conhecido o verso sobre as cortezãs.

(*) Quid facies, facies Veneris cum veneris aute ?
Ne sedeas, sede eas ne pereas per eas
.

22. – São varias as causas da homonymia:

1.° – Contracção das palavras do vocabulario
popular
: – são (= sanctus, lat. sanctus), são
(= sano, lat. sanus) e são (arch. som, lat. sunt),
cem (= cento, lat. centum) e sem (= lat. sine), grão
(= grande, l. grandis) e grão (= l. granum), paço
(= palacio, l. palatium) e passo (S = l. passus, e verbo),
era (= l. erat) e hera (arch. hedra, Sec. XVI,
lat. hedera), som (= lat. sonus) e arch. som (= lat.
sunt), etc.

2.° – Formaçáo de substantivos verbaes: –
péga, (substantivo e verbo), consulta, réga, rubrica,
137canto, mando, calo (verbo calar) e calo (S. do lat.
calum), passo, etc., capital – Lente.

3.° – Mudança de categoria por mudança de
sentido
. – O verbo latino soldare, contr. de solidare
(tornar solido, solidificar) veio a significar ajustar
contas, – soldare rationes (Bréal, Dict. Etym. lat.), e
por extensão – ligar metaes. Esses dous verbos passaram
para o portuguez (soldar e solidar), este com
a significação de fazer solido, aquelle no sentido de
unir metaes por meio de solda, unir os labios de uma
ferida, e no de pagar a divida. – Soldar passou depois
a ter accepção particular de receber soldo, soldada.
(Foral de Coimbra, Nob., Ord. Aff.), que era a
paga, a contia, por analogia de soldo, solido (moeda),
– Sec. XII = (lat. soldus solidus), donde vieram o
substantivo soldadeiro - o que recebe soldo, e mais
tarde soldado – homem de guerra ao soldo do Estado,
que assim tornou-se homonymo do participio
do verbo soldar = ajustar contas, pagar dividas, ou
unir por meio de solda.

4.° – Diversidade das fontes lexicas. – Temos,
por exemplo, a palavra canto, que no sentido de
melodia, modulações de sons vocaes, tira origem no
latim cantus; e com a significação de angulo formado
por dous planos, etc. no germ. Kante 195 Acer
138e ager deram-nos de accordo com a leis phoneticas
– a fórma agro; pena, dôr, trabalho, castigo, deriva
do latim pœna, e pena, penha, rocha, do celtico
pen; 196 manga, fructo, é de origem indiana, manga,
parte do vestuario, deriva do latim man (i) ca; lima,
fructo, é de derivação persica, lima instrumento, do
latim lima.

5.° – Corrupção phonetica. – O facto de não
mais fazermos soar as lettras geminadas (sumo
summo, pelo pello
); 297 a perda da verdadeira phonação
do grupo ch, só conservada na Beira = tch,
(chá, shah xá), etc…

6.° – Influencia local. – E’ manisfesta na
linguagem popular. A troca das syllabas iniciaes
en e in em an, por exemplo, mui frequente em todos os
periodos da lingua (antre p. entre = l. inter, antremeio,
antremetter, antremez–, antrepor, antretanto, antrevallo,
antrevir, anteado, andoenças
, etc.), transformou
o adverbio então (arch. entonce, entonces, antonces)
em antão, que se tornou homonymo de
Antão, f. contr. de Antonio.

Paronymos

23. – São palavras de sentido diverso, mas
apresentando algumas relações morphicas e phonicas,
139e, ás vezes, – etymologicas: Sujeição sugestão,
biographia bibliographiai, som são, pendença pendencia;
premissa premicia, detrahir distrahir, propagar propalar
.

24. – A paronymia é resultante da troca de
sons physiologicamente semelhantes (leis phoneticas),
dos metaplasmos, e ainda da derivação divergente:
soar suar (latim sonare e sudare), segredo
secreto
(latim secretus), degredo decreto (latim decretus)
braga barca (latim bracca e barca).140

Decima terceira lição
Flexão dos nomes: genero, numero, caso…

Flexão dos nomes: genero, numero, caso. – Noções de declinação
latina. – Desapparecimento do neutro latino em
portuguez; vestigios do neutro em portuguez. – Vestigios
da declinação em portuguez. – Origem do S do plural.

1. – Flexões (do participio latino flecto, curvo)
são as mudanças morphologicas tendentes á indicação
das mutuas relações grammaticaes das palavras
no mesmo periodo, ou de alguma condição accidental
da cousa expressa pela palavra inflexa.

A flexão é uma especie de derivação. Abrange
a declinação e a conjugação.

As linguas litterarias, antigas e modernas, empregam
inflexões:

1.ª com substantivos, adjectivos, pronomes e
artigos, para indicarem.

a) genero.

b) numero.

c) caso, ou relação grammatical.

2.ª Com adjectivos e adverbios, para marcarem
os gráos de comparação.141

3.ª Com adjectivos, para indicarem si a palavra
é empregada com sentido definito ou indefinito.

4.ª Com verbos, para exprimirem o numero,
pessoa, voz, modo e tempo; ou, em outras palavras,
para determinarem si o caso nominativo (sujeito
do verbo) é singular ou plural; si a pessoa que
falla, com quem se falla, ou de quem se falla,
é o sujeito; si a acção expressa pelo verbo é concebida
sómente com referencia ao sujeito, ou occasionada
por um agente externo; si aquella acção é
absoluta ou condicional; e si é passada, presente,
ou futura. 198

As interjeições, preposições e conjuncções não
são flexionaveis.

As flexões dividem-se pois em – nominaes e
verbaes.

A flexão é constituida pela combinação de um sentido e de uma fórma.

As terminações (por si mesmas insignificantes) foram empregadas
como signaes externos e instrumentos desta determinação. E assim tornou-se
perfeita a flexão, interna e externamente.

A flexão nas linguas aryanas implica uma flexão anterior pela qual ella
modelou-se.

2 . – As flexões são ainda fortes ou fracas conforme
consistem na mudança de lettra do radical,
ou na addição de elementos vocaes ao radical.

“Esta nomenclatura fundamenta-se em que o poder que tem uma palavra
de variar pela mudança de seus elementos mais desnecessários, sem
142auxilio externo (composição ou addição de syllabas), revela certa vitalidade,
certa força organica innata, que as raizes não possuem, pois só variam
pela incorporação ou addição de elementos extranhos.”

3. – São varias as theorias suggeridas para a
explicação da origem das mudanças de fórmas nas
differentes classes de palavras nas linguas flexionaes.

Schleicher é de parecer que ellas devem ser denominadas, linguas organicas,
porque incluem um principio vivo de desenvolvimento e accrescimo.

“O admiravel mecanismo destas linguas – diz elle – consiste em formar
uma variedade immensa de palavras, e em marcar a connexão de idéas
expressas por aquellas palavras por meio de um numero consideravel de syllabas,
que, isoladas, não teem significação, mas que determinam com precisão
o sentido das palavras a que se ligam. Modificando as lettras das raizes,
formam-se palavras derivadas de varias especies, e derivadas de palavras
derivadas. As palavras compoem-se de varias raizes indicadoras de idéas
complexas. Finalmente, substantivos, adjectivos, e pronomes declinam-se
com genero, numero e caso; os verbos conjugam-se com vozes, modos,
tempos, numeras e pessoas, tambem por meio de terminações, que tambem
nada significam só por si. Este methodo tem a vantagem de enunciar com
uma simples palavra a idéa principal, muitas vezes extremamente modificada
e já mui complexa, com a sua inteira serie de idéas accessorias e relações
mutaveis.”

A escola moderna, avessa ás theorias de Schlegel, é mais aceitavel. As
inflexões foram originariamente palavras que, como as outras, tinham significação
distincta: eram pronomes, auxiliares ou participios que se soldaram
á raiz; e que por tal fórma se modificaram que mais não podem ser reconhecidas
em sua combinação com a palavra flexionada. Ainda nas linguas
modernas ha alguns exemplos que evidenciam a historia dessa coalição. A
terminação do preterito inglez – d ou ed é o preteri to did; a terminação do
futuro dos verbos nas linguas românicas – ei (amarei – amar hei, amarás
– amar has, etc); a terminação do condicional nas mesmas linguas neo-latinas
ia (amaria – amar hia, contaçção de havia, etc.)
199143

4. – Latham affirma que quanto mais remoto é o periodo de uma
lingua, tanto maior é o numero das suas fórmas flexionaes.

Esta theoria não é de todo ponto exacta, e todas as theorias geneticas da
origem das flexões a contradizem, porque para aceital-a fôra mister suppôr
que a linguagem não estava sujeita a uma evolução orgânica, de crescimento
e desenvolvimento, e que todas as mudanças consequentes eram apenas corrupções.

As linguas selvagens que nunca foram escriptas e as das nações ainda
atrazadas na litteratura, são extraordinariamente complexas e multiformes
nas suas inflexões.

5. – Generos – O latim tinha tres generos –
masculino, feminino e neutro; o portuguez só conservou
os dous primeiros.

Substantivos

6. – A propriedade dos substantivos de indicarem
o genero, foi sempre caprichosa, e a arbitrariedade
salta immediatamente aos olhos dos que
comparam o grego com o latim, este com o portuguez,
o portuguez com o francez, inglez ou allemão,
etc.

Em todas essas linguas o neutro logico e o neutro grammatical nem
sempre se correspondem: em grego e em latim, por exemplo, os nomes de
mulheres teem muitas vezes terminações masculinas – Plokion (fórma dimimutiva
de plókos), mea Glycerium (Ter. Andria); mea Silenium (P.), em
allemão – mulher é do genero neutro (das Weib), a lua masc. (der. Mond)
o sol é feminino (die Sonne), etc.

“Gregos e Latinos empregavam geralmente o genero como um
simples signal grammatical, pois que milhares de nomes de cousas são em
ambas essas linguas do genero masculino e feminino, ao passo que nomes
de seres são em muitos casos designados por palavras do genero neutro.
O genero grammatical não era essencialmente indicador do sexo. O adjectivo
neutro tó l’heion em grego é empregado absolutamente por Herodoto e
Eschylo para exprimir o Ser ou a essencia Divina.
144

O sexo é a distincção natural: o genero é a
distincção grammatical.

Segundo a theoria de Bleck – os nomes, combinados com suffixos
pronominaes, que na origem eram simples substantivos explicativos,
podiam ser substituidos pelos pronomes correspondentes. Foram estes que
determinaram o que chamamos genero.

7. – Os Romanos perderam muito cedo o sentimento
do verdadeiro emprego do neutro, a idéa da sua
utilidade, e supprimiram-lhe a fórma grammatical,
ou antes, transformaram-na no masculino. Esta arbitrariedade,
assignalada como de frequente uso na
época imperial, encontra-se a miudo nas inscripções
templus, membrus, brachios, ….... p. templum, membrum,
brachium
, ...…, e mais tarde – por occasião
da quéda do imperio, e por motivo da analogia – a
fórma neutra em a do plural (folia, vela, festa, pira,
poema
, … de folium velum feslum), foi considerada
nom. sing. fem. da primeira declinação.

8. – Os nomes neutros, pois, passaram para o
portuguez, e mais linguas romanas, ora no masculino,
ora no feminino: labio (labrum), auro
(aurum), alho (allium), seculo (seculum), vidro
(vitrum), estudo (studium)… obra (opera), folha
(folia), festa (festa), vela (vela)…

Estes ultimos, femininos, do nom. pl. dos nomes
neutros.

9. – Todavia, conservamos ainda em muitos vocabulos,
vestigios morphologicos da origem neutra.
145Já no conceito de J. de Barros – aquilo, algo, isto,
isso, outrem
(arch. al.) eram fórmas do gen. neutro; 1100
Diez (gram. der Rom. Spracher) é tambem de parecer
que sempre que esses adjectivos preencherem as
funcções de um substantivo e vierem empregados
como predicados de um nome neutro ou de uma
phrase inteira, devem ser considerados do genero
neutro. Bergmann affirma que as fórmas substantivas
– o verdadeiro (verum), o bello (pulchrum),
o bom (bonum). etc. são verdadeiros typos do
genero neutro, que “por estar logicamente especialisado
não tem mais fórma exterior especial, nem
differente da do masculino”.

10. – Muitos nomes de fructos são femininos
em portuguez, mas derivados do neútro latino –
pera (pirum), cereja (ceraseum). Em docs. do Sec.
XIV encontram-se as fórmas pomas e legumas (legumlhas),
vestigios tão evidentes do neutro, como
penhora, arch. pindra (Sec. XIII For. Cast. Rod),
e animalha animalia alimaria (Sec. XIV. Rg. S B.)

11. – Na linguagem popular dos primeiros seculos
havia tambem modos de dizer, que relembram
as fórmas neutras primitivas, e dellas ainda são algumas
usadas hodiernamente, como, por exemplo,
– escapou de boa, fel-a boa. Nestas phrases não ha
ellipse de substantivo; o feminino representa simplesmente
uma fórma neutra.146

Cp. mais – chus plus (Sec. XII – XVI), menos – arch.
maz (Sec. XII), – minus, etc. Trom com.

12. – Os substantivos portugezes, em regra,
reconhecem tres origens:

1.ª Latina – Neste caso os vocabulos portuguezes
conservam geralmente o genero das palavras
latinas, com exepção dos que derivam do genero
neutro, que – como vimos – passam para o masculino
ou feminino.

2.ª Portuguezes – Os vocabulos desta origem
teem o genero indicado pelo suffixo. Ha excepções,
como por exemplo – abusão, aleijão, alluvião, que são
femininos.

Nos compostos, é a fórma de composição que
determina o genero (V. Lição 17).

3.ª Estrangeira – As palavras importadas das
varias linguas estrangeiras consevam o genero das
de que se originam, ou genero analógico (um vagão,
um trenó, o whist, a tanga, a hemicrania, um
chope
(alt, all sckoppen, masc.), uma soirée, 1101 etc.)

13. – Mas, em consequencia de varias influencias,
muitos vocabulos mudaram de genero, quer na
passagem do latim ou grego para o portugez, quer
mesmo – uma ou mais vezes – depois de já pertencerem
ao nosso lexico. Carvalho, cedro, roble, as lettras
do alphabeto, etc., eram do genero feminino em
147latim; cataplasma era masc. em grego; ainda nos
Secs. XVI, XVII e XVIII – pyramide, emetista, safira
(ametista, safiro), hyperbole, catastrophe, alleluia,
bagagem, base, coragem, homenagem, linhagem, origem,
decadencia, epigraphe, anecdota
, .… eram
masculinos, e epiphonema, enthimema, fim, 1102 grude,
cometa, planeta, echo, estratagema, mappa, synodo
, …
eram do genero feminino.

14. – Nos classicos antigos não é raro topar-se
de olhos, em um mesmo escripto, ás vezes em uma
mesma pagina, com um nome ora no masculino, ora
no feminino: – catastrophe, metamorphose, phantasma
hyperbole, torrente, espinho
(espinha), tribu, etc.
(Vieira, etc.)

Em personagem (masculino e feminino) conservamos
ainda mostra dessa lucta travada entre a tradição
e a etymologia, e que por tempo dilatado
empeceu a prioridade e fixação do genero. Só nas
ultimas decadas do seculo passado é que foram
grammaticos e eruditos fixando a regra, esteiados na
etymologia.

15. – Alguns nomes, por influencia erudita, retomaram
o genero etymologico, dissemos nós acima;
mas ás vezes perderam-no novamente: – labor,
eccho, arvore, base, diadema, syncope, apostema,
aneurisma
, e outros muitos.148

16. – Já vimos (Liç. 6.ª) que á mudança de genero
corresponde muitas vezes a do sentido do vocabulo.

uma guia – cousa que serve para um guia – conductor
guiar, etc.

uma guarda – acção de guardar, um guarda – guardador,
corpo de soldado, etc. soldado.

uma lingua – orgão da boca, um lingua – interprete.
idioma.

uma banana – fructo. um banana – homem
fraco.

preguiça – negligencia. um preguiça – preguiçoso

Estes substantivos – originariamente femininos
– são, em geral nomes de cousas, principalmente
abstractas, que por metonymia se applicam ás pessoas
(homens), e teem no masculino sentido concreto.

17. – O genero dos nomes distinguem-se pelo
sentido e pela fórma. O dos nomes derivados, só
pela fórma.

17. – Pela significação ou pelo sentido. Depois
de algumas vacillações, são:

Masculinos – Os nomes de homens e animaes
machos, rios, montes e montanhas, cadêas de montanhas
empregadas no singular e no plural (Caneaso,
Parnaso e Apepinos, os Pyreneos, os Balkans, os Alpes),
os de metaes (raras excepções), mezes, ventos,
os pontos cardeaes, povos, sertões, lettras do alphabeto
(em lat. do gen. fem. e tambem do neutro),
149algarismos, as estações (excep. a primavera), os novos
pesos e medidas (ant. eram do genero feminino –
uma vara, braça, legua, arroba, quarta…) e qualquer
palavra empregada substantivamente; – um porque,
um fá, um lá
(notas de musicas).

Femeninos – Os nomes de mulheres e animaes
femeas; a maior parte dos nomes de arvores (fructiferas),
regiões cidades, ilhas, aldêas; villas, serras;
virtudes, a maior parte dos nomes de vicios, os dos
peccados conhecidos por capitaes; sciencias e artes:
quasi todas as festas do anno (excep. Pentecoste, Natal,
Carnaval
), os dias da semana (por causa da sua
composição, e com excepção de Sabbado e Domingo),
os nomes de cousas abstractas.

Os nomes de pedras preciosas são masc. ou
fem. conforme a terminação – uma saphyra, uma
amethysta, um topazio, jacintho, rubi

Os nomes de arvores, femininos, distinguem-se
pela desinencia feminina. São muitas as excepções:
alguns arbustos, e o Carvalho, Roble, Pinheiro,
Cedro, Jequitibá
, o Jacarandá, … 1103 A parte utilisavel
da arvore ou planta é, em geral, do genero masculino:
pão, fructo, balsamo

Quanto aos nomes de paizes e cidades, muitas
são as excepções; ora decidiu a etymologia ora a
tradição, ora o capricho ora a terminação –: O Hellesponto,
150Peloponeso, o Bosphoro, o Ponto, a Bahia,
a Inglaterra, a França, a Russia, o Ceará, o Hanover
o Mexico, o Brazil, o Cairo o Havre… Até o Sec.
XVI reinava grande confusão neste ponto: – um
Londres, o Diu, o Ormuz
, etc. (Leão, Freire, C.
Real, Camões…)

A analyse explica estas regras, que teem –
Como vimos – muitas exccpções. Deve-se attender
ao nome que se subentende – mez, rio, monte, ilha,
etc. Os ventos são masculinos porque representavam
á força irresistivel, e eram considerados
deuses.

Nota. Em todas essas regras, o portuguez acompanhou
a grammatica latina.

18. – Do genero pela fórma. As flexões correspondentes
ao genero dos substantivos são de origem
latina:

A. – Os nomes terminados em a são do genero
fem. porque se originam, em geral, dos latinos da
primeira declinação em – a.

Exceptuam-se os que já eram masculinos em
latim ou pertenciam á terceira declinação neutra: –
incola, cometa, planeta, poema, … 1104 que os nossos
151maiores arrolavam no genero feminino por se guiarem
sómente pela terminação.

Os nomes acabados em a agudo (com excepção
de pá, maná, unicos de origem latina – pa (l) a,
manna
) são do genero masculino. Os outros são de
origem oriental, indigena ou africana – chá shá, …
tupá, maracá.

E. – Os substantivos em e procedem geralmente
da terceira declinação latina, e consequentemente
uns são masc. (limite, dente, pente, lume, leite, …) –
outros fem. (febre, noute, fome, neve, …). São masculinos
não só os formados da terceira declinação
neutra, mas tambem os de origem não latina: –
beque, leque, bule, bote, açude, …)

1.° Muitos daquelles nomes terminavam em o no portuguez: – deleito,
appetito, Alexandro
. São restos desta oscillação graphica – alcanço a par de
alcance, moto parallelo a mote, etc.

2.° E agudo desinencial, a não ser vestigio da palavra originaria (café
– ar. Kahweh, almotacé, ralé, maré, …), indica uma contração – fé (ant.
fee – lat. fi-d-em), (ant. see, contr. de seede, sede – lat. sedes, …)

O. – São masc. os substantivos acabados em o,
derivados da 2.ª ou 4.ª decl. masc. em – us ou
neutra em – um (mundo, anno, servo, fructo
= lat. mundus, annus, servus, fructus; reino, templo,
seculo, segredo
, … = regnum, templum, seculum, secretum).

Os de derivação extranha terminados em o
grave, seguem a mesma regra; e bem assim os
acabados em o agudo, de qualquer origem (zorô,
152pó, teiró, quiproquó, covocó
, … Except. – avó, dó,
mó, enxó
, que são femininos. 1105

U. – Os terminados nesta vogal, sejam quaes
forem suas origens, são masc. porque seguem a
regra latina; thema em – u (masc.– us, neutros
– um).

Exceptua-se tribu, que é hoje feminino. O vocabulo
latino era masc. (tribus), e até o Sec. XVII
tambem assim o consideravam alguns classicos.

Depois de voltar ao genero etymologico, venceu
na lucta (que lucta houve entre os dous generos) o
capricho do acaso.

Ade. – São fem. quando tiram origem nos
nomes latinos da 3.ª decl. nom. em – as: bondade
(bon-i-tatem; nom. bonitas), piedade (pietatem; nom.
pietas), felicidade (flicitatem; nom. felicitas); porque
exprimem idéas abstractas.

Excep., e mui naturalmente, – abbade (l. abbatem),
frade (frater).

Agem, igem, ugem. – Os derivados do
latim são femininos porque formaram-se da 3.ª decl.
lat. nom. em – ago, que tambem são femininos; e
por analogia os de origem portugueza ou peregrina:
imagem (l. imaginem; nom. imago),
153vertigem (l. vertiginem, nom. vertigo, ferrugem,
lambugem, plumagem
, etc.

Exceptuam-se – pagem, selvagem, que tambem
eram masc. em latim (l. b. pagium, selvat-i-cum).

Do Sec. XIV ao XVII os nomes em – agem
eram geralmente masc. – um imagem, um viagem,
seu linhagem
.

. – São masc., quer se derivem do accus.
sing. da 3.ª decl. masc. em-o: sabão = saponem
nom. sapo, sermão = sermonem (nom. sermo),
pulmão = pulmonem (nom. pulmo), bordão = burdonem
(nom. burdo)…; do masc. em – anus,
christão
= christianus (p. arch. Christiano), cidadão,
capitão, escrivão
, … ou de qualquer decl. lat. do
genero neutro; quer tenham origem não latina, e
ainda quando a terminação indica augmentativo: –
limão, trovão, ... portão, carão).

Cordão é diminutivo de corda.

Excepções. – São femininos os subst. que derivam
do caso regimen dos nomes abstractos em
io ou do da 3.ª decl. lat.. porque já eram desse
genero: religião = religionem (nom. religio), lição
= lectionem (nom. lectio), servidão = servitudinem
(nom. servitudo), solidão, = solitudinem (nom. solitudo),
– e abusão, aleijão, alluvião.

Em, im, om, um. – São masc., excepto
ordem e nuvem. Derivam do caso regimen dos subst.
154latinos da declinação em-o: – homem = hominem
(nom. homo).

Ordo, inis, accus. ordinem, era masc. e bem assim nubes, accus. nubem,
fórma collateral ante classica de nubis, is.

Rem, era fem., de accordo com a fórma originaria
latina (res, rei): – pero direy-vos ant’unha
rem
. (C. V.)

En. – Os acabados em en são masc., pois
correspondem aos latinos, nom. – en, que são
masc. ou neutros: – dictamen, certamen, 1106 regimen,
germen
.

Ie. – São do gen. fem. porque trazem seu
principio da 5.ª decl. lat. em – es, que tambem é
feminina: – effigie, especie, serie, superficie.

Or. – Em regra, são masc., á semelhança dos
correspondentes latinos de que precedem.

Excep. – flôr, côr, dôr, = port. ant. – folor,
color, dolor
, contr. em coor, door. No latim, flos,
color dolor
, eram, porém, do genero masculino,
conservado no hesp. color e dolor.

Até o Sec. XVI só tinham uma fórma – mha (mia) senhor, senhor
fremosa, outras tres pastores
(Sec. XIII c. v.), ella era confortador, mulher
pecador, minha ajudador
(Rom. XI).

Z. – Os substantivos terminados nesta lettra
derivam: 1.° dos nomes latinos em x, que são femininos:
155paz = (pacent, nom. pax), cruz, = crucem
(nom. crux), luz = lucem (nom. lux), voz = vocem
(nom. vox); 1107 2.° do caso regimen dos subst. da 3.ª
decl. latina nom. em – as, os quaes tambem são
femininos: – solidez, nudez, placidez

Except. – gaz, arnez, mez, giz, obuz, cadoz,
matriz, nariz, arcabuz, capuz, alcatruz, lapuz
, que são
masculinos.

19. – Alguns substantivos que exprimem cousas
sem sexo teem todavia uma fórma masculina e
outra feminina, servindo esta para indicar o mesmo
objecto mais amplo, largo ou dilatado: – bacio,
bacia, gigo giga, jarro jarra, cesto, cesta, barco,
barca
… (V. Lição 12). Neste caso ainda o feminino
exprime o genero, o todo; o masc. a especie,
bem caracterisada (o pendulo é parte da pendula).

20. – As vezes o masculino exprime a cousa
simplesmente, e a fórma feminina acrescenta-lhe
idéa de collectividade (Liç. 12): – marujo, maruja,
grito, grita
.

21. – Ha nomes de pessoas e de animaes que
teem femininos correspondentes anomalos: – poeta
poetisa, cavallo egua
, .… A explicação dessas fórmas
femininas dá-nos a etymologia (Lat. poetria, de or.
estrang. fem. de poeta, equa, …), czar, czarina, abbadessa
archiduqueza, sacerdotiza, rapariga
(ant. rapaza)….156

22. – Nos nomes que abrangem os dous sexos,
predomina o gênero masc. – deuses, filhos, irmãos.

23. – Temos ainda os nomes epicenos e os communs
de dous
. Aquelles debaixo de uma só fórma,
designam animaes dos dous sexos: – tigre, onça,
jaguar, tatú, cegonha
, … Determina-se-lhes o genero
pospondo ao substantivo o adjectivo macho ou femea
(uma onça macho). Este processo (adptado pelo
inglez), tambem já era usual no latim: – vulpes
mascula
. Plin., porcus femina. Cic.

Dos communs de dous são exemplos – doente,
martyr
, etc. Infante faz infanta, posto que nos classicos
mais se encontre a infante.

Do adjectivo

24. – O adjectivo portuguez é tambem variavel
como o latino:

Como já vimos, quando tratamos do genero
neutro, alguns adj. pronominaes teem tambem uma
3.ª fórma

tableau este | aquella | isto
esse | essa | isso
aquelle | aquella | aquilo
algum | alguma | algo
outro | outra | outrem (al.)
todo | toda | tudo

25. – Na formação do feminino, seguiram os
adjectivos exactamente as regras latinas.157

1.ª Os acabados em o e u formam o feminino
em a, signal – já em latim – distinctivo desse genero:
– justo, – a; crú, – a = lat. justus, – a;
crudus, – a
.

2.ª Os em ol e or seguem a regra geral; alguns
em or fazem o fem. em iz.

Eram porém defectivos em genero: – mulher
hespanhol, mulher amador, peccador honrador de Deus;
minha senhor
, a devedor, manceba morador em Lisboa,
donas entendedores, lettras conservadores
, .… Canc.
Da Vat. – D. Diniz, Arraes, F. Lopes, J. de Barros,
Jorge Ferreira, etc.) Estes adj. portuguezes derivam
do caso regimen latino.

Desde o Sec. XV é manifesta a tendencia para o
desapparecimento desses typos defectivos em genero.

Só no Sec. XVII é que se fixaram as regras dos
adjectivos em – ol e or, ajustando-se pela regra geral
(em a). 1108

O latim tinha a flexão – trix (tr-ic, tr-ic-i),
para o fem. dos nomes em – tor (actor actrix, peccator
peccatrix, imperator, imperatrix, amator amatrix
…).
Nós só conservamos fidelidade á tradição em
actriz, embaixatriz imperatriz, directriz. Este ultimo
porém, tem significação especial, e não mais se
158emprega para indicar o feminino de director (directora).

Todos esses adjectivos em or são hoje considerados substantivos
ou adjectivos-substantivados.

3.ª Os terminados no diphthongo eu (eo) fazem
o fem. em – éa, segundo o molde latino: – europeu
européa, pebleu plebéa, hebreu hebréa
.

Except. – judeu, sandeu, que fazem – judia,
sandia
, e os possessivos meu, teu, seu que fazem
– minha, tua, sua 1109. Judia, minha, tua, sua, constituem
legados maternos (lat. judia, mea – port. arch.
mia, ma –, tua, sua); sandia é o fem. regular de
sandio, fórma parallela de sandeu. (Cap. meu mia).

Os acabados em éo éu como ilhéo tabaréo, fazem o fem. em óa
(ilhóa, tabaróa).

4.ª Os adjectivos acabados em ão, derivados
dos latinos em – anus, formam o feminino mui
regularmente, i. e., em – ana, que se contrahiu em
an, ã: – christiana, christan, christã, sana, san, sã.

5.ª – Temos um acabado em – om, que faz o
fem á maneira latina: bom boa = bon (us), bo (n) a.

26. – São invariaveis os seguintes adjectivos:

1.° Os terminados em e derivados do caso regimen
– a) dos adjectivos latinos em er, f. is, n. e:
159acre = l. acer acris acre, pobre = pauper, celebre =
celeber; b) dos adjectivos em is masc. e fem. e e
neutro: – breve = brevis breve, silvestre = silvestris;
c) dos em ens entis (uniformes): diligente,
prudente
; d) dos participios presentes em ante, ente,
inte
= l. ns, abl. abs. em e: – reinante, escrevente,
pedinte
.

A invariabilidade desses nomes é devida a
que, – procedentes do caso regimen –, só encontraram
um typo uniforme para os dous ou tres generos
acre (m), breve (m), diligente (m). – Homo
ou femina fortis ou prudens, diziam tambem os
Latinos (homem ou mulher forte ou prudente).

2.° – Os acabados em al, que se derivam da
declinação latina em – alis masc. e fem., são invariaveis
pela razão acima: – mortal = mortalis, masc.
e fem., fatal = fatalis M. e F.

Homo ou femina mortalis.

Tambem são invariaveis os terminados em el,
il: – cruel, esteril, habil
(arch. esterile, habile),
= lat. crudelis masc. e fem., – e neutro, esterilis
masc. e fem., e os em ul, por analogia (azul, taful).
Até o Sec. XV os em ol tinham tambem uma
unica fórma (uma mulher hespanhol).

3.° – Os adjectivos acabados em vel (ant. bil),
são defectivos porque se derivam dos latinos em bilis
masc. fem., em e neutro (V. § 1.°): – amavel, terrivel
= amabil – is, terribil – is. No Sec. XVI estes adjectivos
160conservavam a fórma latina – terribil (Camões
I. 14), …

4.° – Nos em ar, er (familiar esmoler), e em
m, n, s (ruim, joven, simples), a invariabilidade é
devida ao facto já citado dos adjectivos latinos em
is masc. fem. (familiaris, juvenis). Quanto a simples
(arch. simplice) é defectivo porque deriva do
adjectivo de uma só fórma latina (simplex simplicis).

5.° – Os em az, ez, iz, oz, derivam dos latinos,
tambem de uma só fórma, em ax axis, ex ecis,
ix icis, ox ocis
, e ainda ensis: – audaz audace-m,
feliz (felice-m), atroz (atroce-m), montanhez (montaniese-m).
Até o Sec. XV as fórmas portuguezas
foram sempre mais encostadas ás latinas (audace,
felice, atroce
, …).

No Sec. XVI é que começaram as fórmas em
eza (montanheza, calabreza), talvez por analogia
dos nomes fem. em issa.

27. – Numero. – O portuguez tem dous
numeros – singular e plural, como em latim. O dual
não lh’o podia elle legar, que muito cêdo perdeu-o,
ao envez do grego e do hebraico, que sempre o
conservaram.

No latim as unicas fórmas de dual são ambo
e duo, que são tambem no portuguez os unicos
vestigios dessa primeira concepção da pluralidade.

O dual precedeu ao plural; e são provas do asserto os seguintes
argumentos: 1.° o emprego extensissimo do dual no dominio aryano,
semitico, turaniano, etc., que declina e cahe de todo com o progresso intellectual
161dos povos ao passo que mais se vulgarisa o uso do plural; 2.° a formação,
relativamente recente, em muitas linguas, dos numeros superiores
a dous. (Say. Pr.)

As tribus occidentaes da Nova Hollanda (segundo Adfield), não estendem
a numeração além de dous; no grupo das linguas chamiticas (de
Africa), o subst. não tem plural; no accadiano, o signal do plural do
adj. é o suffixo mes (muito).

Na lingua indigina do Brazil, o plural é expresso pela addição da
particula –, étá, contr. de séta – multidão, grande quantidade: – oka = casa,
oka étá = casas, apeagána = um homem, apeagan étá = homens. (Dr. Am.
Cavalcanti – The Brasilian Lang.)

Ha ainda outro systema, usado pelos Canarinos, Bascos, Malaios,
Boschimans, que consiste na reduplicação. Reduplicar – diz Sayce – é
identificar a pluralidade com a dualidade, é indicar a prioridade do
dual. “ A reduplicação foi um dos mais antigos processos da linguagem
para a formação do plural, que mais se accentuou com a definição clara e
precisa, da concepção da dualidade”.

Deste processo conservamos amostra nas phrases populares e infantis
tanto tanto homem, muita muita flór, o que se verifica ainda na formação
do superlativo, que tem com o plural estreita conexão. (Lição. 14.)
1110162

28. – O s é a nossa caracteristica do plural
desde a origem da lingua. Representa o plural do
accusativo latino, caso que o portuguez mais tomou
para typo geral dos substantivos; e nas cinco declinações
latinas o accusativo termina em s, com
excepção dos neutros.

Alguns glottologos consideram essa sibilante um equivalente da
preposição sansk. sam, sahá, ou do s do nom. e gen. sing. – A 1.ª
hypothese é insustentavel porque o dual não é uma simplificação das fórmas
do plural
; a 2.ª, porque “os nominativos da 2.ª decl. latina e
grega, e os neutros em i e u do sansk. não encerram o menor vestigio
de sibilante originaria”.

29. – Substantivos com flexão numeral.
Os nomes substantivos seguem, na formação do
plural, as regras latinas.

1.° – Nomes abstractos. – Os nossos grammaticos
condemnam, no portuguez, o emprego do plural
dos nomes abstractos. Não obstante, é elle vulgar
em escriptores classicos e de boa nota desde
o Sec. XVI: – negruras, as soberbas, silencios, embriaguezes,
pobrezas
, etc. Tomarão os calices e vasos
sagrados, applical-os-hão a suas nefandas
embriaguezes
(Vieira 3. 486), Deus aborrece avarezas, a
alma assaltada de
ambições e invejas.

Quando esses nomes vierem considerados individualmente,
devemos consideral-os defectivos no
plural (a fé divina, a fé catholica); mas são susceptiveis
dessa flexão quando as qualidades por elles
expressas forem tomadas pelos actos a ellas inherentes,
163e em suas diversas manifestações (ha
tres fés
e crenças distinctas).

Em latim eram muitos os substantivos abstractos
com plural consagrado pelo uso – vitae,
superbiae, nobilitates
, …

2.° – Nomes proprios. – Em latim eram elles
empregados no plural (Cicerones, Verrones, Metelli,
Marones
, …); só no Sec. XVI é que no portuguez
apparecem os primeiros exemplos.

Os nossos grammaticos (mesmo os de mais
alto valor) sentenceiam e se emprego do plural,
a menos que « os nomes não sejam tomados figuradamente
para significar individuos da mesma
classe ». (Ex.: os Osorios, isto é, os generaes esforçados
como Osorio.) 1111

Por boa logica desaceitamos a regra estabelecida,
e temos em nosso apoio a tradição materna
e os escriptos dos mestres. Quando dizemos
os Andradas, os Mellos, os Braganças, os Bourbons
é claro que nos referimos a duas ou mais
pessoas distinctas, do mesmo nome, de uma mesma
familia. Considerar taes nomes logicamente no
plural, e negar-lhes a caracterista flexional, é cahir
em erro. Assim pois, diremos dous Pedros reinaram
no Brazil
, e com um classico moderno – a
164obra impavida dos
Albuquerques, dos Castros, e dos
Almeidas.

É que estes nomes proprios tornam-se communs,
como aconteceu innumeras vezes – dedalos,
harpagões, macadam, mentor, tartufo, … champagne,
cognac, bordeaux, gruyère, alzevir, um terra nova,
galgo
(cão da Gallia), gozo (cão godo), perro
(cão párria, pariah). 1112 – V. Liç. 6.ª

30. – São de formação anomala os seguintes:

1.° – Os terminados em al, el, il (oxytono e
paroxytono), ol, ul, formaram o plural no portuguez
antigo e médio mui regularmente: – cales,
corales, arreboles, aniles
. Destas fórmas, regularmente
contrahidas pela quéda da consoante média –,
originaram-se as actuaes – coraes, arrebóes, anis,
fosseis, tafues
.

Figuram ainda como amostras da flexão primitiva
males, consules, curules, reales.

2.° – Dos nomes acabados em s, só Deus toma
signal de plural quando nos referimos aos do paganismo.
Das antigas fórmas regulares – alfereses,
(Cam. Lus. 4, 27) arraeses, caeses, ouriveses, etc;
(as variantes orises e origes) 2113 não temos amostras;
simples (droga), calis (calix) e o adj. duplex não
constituem excepção á regra, pois formaram o
165plural regularmente dos typos parallclos simplice,
calice, duplice
, (d. do caso regimen). 1114

3.° – Os subst. em ão fazem o plural em ãos,
ães, ões
, conforme se derivam de vocabulos latinos
em anus, anes, (anis) ou io, accus. onem, Christiano,
christão
= lat. Christianus – christãos (christianos),
Cão = l. canis (p. canes) – cães (canes), legião =
legionem
(p. legiones) – legiões (legiones).

Até o Sec. XV eram duas as fórmas do sing. –
am (pam, cam) cujo plural era em ães; e om (educaçom,
liçom
), que fazia o plural em ões.

Houve lucta a principio entre as tres fórmas
do plural, e muitas vacillações (Sec. XVI, XVII). A
prova temos nos pluraes biformes e triformes ainda
hoje existentes:

tableau alão | alões, alães.
soldão | soldões, soldães
aldeão | aldeãos, aldeães, aldeões.
anão | anãos, anães, anões.
vulcão | vulcãos, vulcães, vulcões.

Os que se não originam do latim formam o
plural em ões, desinencia a que sempre mais se affeiçoou
o povo; – botões (or. germ.), limões (or. ar.),
vagões (= ing. wagons .)

31. – Nomes defectivos em numero. – Podem ser
defectivos no sing. ou no plural; concretos, abstractos
ou collectivos.166

1.° – Defect. no plural. a) Os nomes de sciencias
e artes só se empregam no singular quando tomados
individualmente. Já se abriu excepção para as mathematicas.

b) Os nomes de metaes só teem plural quando
exprimem objectos delles fabricados; – quando significam
objectos que tiram o nome da materia de
que são feitos (os ouros, as pratas, os
ferros, os bronzes, os nickeis
).

c) Os de cereaes, productos animaes e vegetaes
pluralisam-se em linguagem commercial, quando se
quer expecificar as varias especies ou qualidades,
ou quando exprimem objectos cujos nomes são
tirados da materia de que são feitos: – assucares,
trigos, favas, ervilhas, sedas, linhas, cimentos
.

Os antigos escreviam – meles e meis, arrorzes,
azeites, leites
.

d) Os nomes de ventos usam-se no plural somente
quando estes reinam por tempo mais ou
menos dilatado (as brisas, os nord’estes). 1115

e) São ainda defectivos no plural os nomes abstractos
(fama, pudor, compaixão), e os collectivos
(prole, plebe, vulgo).

2.° – Defectivos no singular. Tambem já os
havia em latim; o seu numero era muito mais crescido
nos antigos escriptores – calças, ceroulas, tesouras,
167fauces, esgares, cocegas, semeas, ventas,
trevas
, …

Alviçaras, arredores, ambages, andas, annaes,
calendas, confins
(limite), escouvens, esponsaes, exequias,
ferias
(vacação), tampas, laudes, lamures, matinas,
manes, nonas, nupcias, ovens, penates, pareas,
proceres, primicias, sevicias, syrtes, trevas
(h. treva),
victualhas, viveres, elementos (no sentido de principios
ou fundamento de arte ou sciencia), os nomes dos
naipes, zelos, (ciumes), visos(ares), os nomes de povos
collectivos – Aborigenes, Romanos; os de grupos
de ilhas – os Açores, as Canarias.

32. – Alguns nomes mudam de significação
quando passam para o plural. A este facto de pathologia
verbal já nos referimos na lição 6.ª

tableau Liberdade – Poder de agir ou não | liberdades – atrevimentos
meninice – idade tenra | meninices – puerilidades
lettra – cada um dos caracteres do alphabeto | lettras – litteratura, sciencia
faculdade – poder physico ou moral que torna algum ente capaz de agir. | falculdades – disposições, meios.

33. – Os nomes de origens estrangeiras, ou
mesma latina, substantivados, fazem o plural segundo
a regra geral – hurrahs, albuns, tenores, tramways,
deficits, benedicites, misereres, amens, requiems, in­folios,
post scriptums, Te Deums
.

Nota – Os adjectivos seguem as mesmas
regras do subst. na formação do plural.168

Os acabados em ão, com significação augmentativa,
fazem o plural em ões.

34. – Casos. – Caso (1. casus, quéda, de cadere
cahir) é a união do thema nominal á desinencia
para indicação de certas relações – de causa, origem
ou propriedade, condição, direcção, instrumento ou
meio; emfim a funcção do nome na phrase. 1116 As
desinencias casuaes designam tambem os numeros, e
– mas nem sempre - os generos dos nomes. 2117

tableau S. | P.
N. | Pater | o pai (suj.) | Patr-es
G. | Patr-is | do pai | Patrum
D. | Patr-i | ao pai | Patr-i-bus
Ac. | Patr-em | o pai (reg.) | Patr-es
Ab. | Patr-e | do pai, etc. | Patr-i-bus
169

35. – No latim, não havendo tantas fórmas
caracteristicas quantos eram os casos, forçosamente
a mesma desinencia devia servir para dous ou tres.
Todavia, o systema das declinações era mecanismo
complicado para os populares, que não lhe
comprehendendo a vantagem, acabaram por combalil-a
de todo sob a acção destruidora das leis
phoneticas. As vogaes atonas cada vez mais se
atonisaram, as caracteristicas flexionaes do nom.
e do accus. (sem) cahiram, e dahi a confusão
entre esses casos, e entre elles e o ablativo. Servus
(N.) e servum (Ac.), pela quéda das caracteristicas
transformaram-se em servu, e como o u final
latino soava ó confundiram-se com o abl. servo.

No Sec. V a declinação latina resumiu-se
aos dous casos – sujeito e regimen.

O descuramento das inflexões nominaes, a
tendencia do povo para simplificar as fórmas, originaram
a necessidade de palavras auxiliares (preposições)
para maior precisão e clareza da lingua,
cujo emprego cada vez mais se tornou frequente
porque os casos já não indicavam as varias relações,
mas tão sómente o genero e o numero.

36. – Das linguas neo-latinas, só o italiano,
o valachio e o francez herdaram o systema das
declinações, mantido até hoje apenas pela primeira.

As unicas flexões nominaes portuguezas são
170– o genero e numero, o superlativo dos adj., as
variações dos pronomes pessoaes.

37. – A declinação latina. – Declinação é a
serie de fórmas que os nomes tomam na sua passagem
por todos os casos. Desenvolvida ou não, a
declinação indica o genero, numero e caso, como
a conjugação exprime a voz, o modo, o tempo e a
pessoa.

Havia no latim cinco declinações, constituidas
por seis casos no periodo classico. 1118

1.° Nominativo. Era o expoente do sujeito, flexionado
por s em ambos os numeros nos nomes da
3.ª, 4.ª e 5.ª decls.

tableau flo-s | flore-s
curru-s
die-s

e por s no sing., e e (ai), i, no plural da 1.ª e 2.ª

tableau Ænea-s | hora-e
servu-s
| serv-i

A flexão neutra era geralmente em a (regn-a,
corpor-a
). 2119171

2.° Genitivo. E’ o expoente de restricção flexionado
no sing. por e e i para a 1.ª, 2.ª e 5.ª

tableau hora-e | serv-i | die-i

e is para a 3.ª e 4.ª

tableau arbor-is | curru-is1120

No plural a flexão da 1.ª, 2.ª e 5.ª é rum, e um
para a 3.ª e 4.ª

tableau hora-rum | servo-rum | die-rum
arbor-rum
| avi-um
2121

3.° Dativo. Expoente de attribuição, flexionado
no singular por e e i

tableau hora-e | servo (i) | arbor-i | curru-i | die-i

No plural por is para a 1.ª e 2.ª, e bus para as
outras.

tableau hor-is | serv-is
arbori-bus | curri-bus | die-bus
3122

4.° Accusativo. Expoente do objecto (caso regimen)
flexionado por m no sing. e s no plural para
todas as declinações (masculinas e femininas).172

tableau hora-m | servu-m | arbore-m | curru-m | die m
hora-s | servo-s | arbore-s | curro s | die-s
1123

Para os neutros – em a (corpora).

5.° Vocativo. Expoente interjectivo, e quasi
sempre identico ao nominativo.

tableau puer | arbor | corpu-s
die-s
| corpor-a

6.° Ablativo. Expoente de origem; no plural,
de flexão identica ao dativo. 2124

Estas flexões casuaes do latim classico (já nos
referimos a este facto) foram pouco a pouco se alterando,
principalmente pela quéda do s e m finaes;
e esta alteração posto remonte aos mais antigos
monumentos da lingua (poeta – s scriba – s, …) 3125 comtudo
mais se generalisou na corrente popular, o que
muito concorreu para transformar a declinação synthetica
latina na declinação analytica romanica.173

Quadro synoptico das flexões 1126

1.° grupo. – flexões em A, – E, – O

image Casos | Singular | Plural | M. | F. | N. | M. | F. | N.
N. | – s | – s | – m | – i | – i | – a
V. | – | – | – m | – i | – i | – a
G. | – i | – ds, i | – i | – rum | – rum | – rum
Ac. | – m | – m | – m | – (n) s | – (n) s | – a
D. | – i | – i | – i | – bus, i | – bus, i | – bus, i
Ab. | – (d) | – (d) | – (d) | – bus, i | – bus, i | – bus, i

2.° grupo. – flexões em I, – cons. U

image Casos | Singular | Plural | M. | F. | N. | M. | F. | N.
N. | – a | – a | – | – es | – es | – a | V. | – | – | – | – es | – es | – a
G. | – is | – is | – is | – um | – um | – um
Ac. | – (ĕ) m | – (ĕ) m | – | – (e) (n) s | – (e) (n) s | – a
D. | – i | – i | – i | – | – i | – ibus
Ab. | – (ĕ) (d) | – (ĕ) (d) | – (ĕ) (s) | – (i) bus | – (i) bus | – (i) bus
174

Podemos pois traçar o schema da evolução
historica da declinação latina.

tableau Typo archaico | Typo classico | T. romano
Singular
N. – | hora-s arbor-s | hora arbor | hora arbor (arvor)
G – | hora-is (i), arbora-as | hora-e arbor-is | hore arbor-ie
Ac. – | hora-m arbore-m | hora-m arbore-m | hora arbore (arvore)
D. – | hora-i arbor-i | hora-e arbor-i | hor-e arbori (e)
Abl. – | hora-d arbora-d | hora arbore | hora arbore (arvore)
Plural
N. – | hora-ses arbor-ses | hora-e arbore-s | hora arvore
S. – | hora-sam (sum) arbor-sam | hora-rum arbo-rum | horaro arboro
Ac. – | hora-ms arbore-sam | hora-s arbore-s | horas arvores
D. Alb. – | hora-bis arbor-bis | hor-is arbor-ribus | hori (e) arboribo

Em consequencia das leis phoneticas, e das
deslocações do accento tonico, a declinação portugueza
resume-se a uma unica fórma – hora horas,
arvore
(arvor Sec. XIV) arvores, como melhor veremos
adiante.

38. – Vestigios da declinação latina no portuguez.
– « No portuguez antigo e medio (Sec. XII e
XVI) muitos typos syntaxicos recordam immediata
e mediatamente a declinação latina. » 1127 (V. Lição.)

Já vimos: 1.° que a 1.ª declinação, de todas
a mais facil na creação de typos femininos, fazia
o nom. em a, accus. am (hora horam), casos
que vieram a confundir-se pela quéda do m final.

2.° que os nossos maiores, assim como, por
ignorancia, importaram do arabe e hebraico palavras
175no plural, julgando – as fórmas do sing. (cherubim,
seraphim
, etc. 1128), tambem tomaram nomes
neutros no plural por fórmas do fem. sing.: –
animalia, insignia, folha, maravilha, etc.

3.° A 1.ª declin. masc. attrahiu os nomes
neutros em um da 2.ª declin., e alguns da 3.ª e
4.ª (panis, fructus, dies).

4.° Os nomes da 2.ª declin. masc. nom . em
us, accus. em um, confundiram por fim esses casos
pela quéda do s e m., caracteristicos do nom.
e accus. Servu servum, soavam servu (servo).

5.° Em muitas palavras latinas da 3.ª decl.,
em algumas de themas e desinencias differentes,
houve deslocação do accento no accus.: – ratio ratiónem,
sénior seniórem, imperátor imperatórem
.

O portuguez ou conservou apenas o caso
regimen, principalmente nos nomes em eo (io), onis: –
razão, senhor, imperador, lição (lectionem), leão
(leonem), etc., ou ambos elles distinctos: – préste
presbytero, ladro ladrão
.

Tambem derivam do caso regimen, os nomes
de outras declinações terminados geralmente em s
no nom. sing.: – mors mortem (morte), virtus virtutem
(virtude).

O imparissyllabismo. (i. e., a differença no
numero de syllabas entre o nom. e o accus.)
mais pertence á 2.ª declinação.176

39. – Acompanhemos agora os casos latinos. 1129

1.° Nominativo. – A carateristica do caso sujeito
era o suffixo originario s, perdido em muitissimos
vocabulos latinos (hora, pater, puer, etc.), e
cujo desapparecimento mais cresceu de ponto na
linguagem popular de Roma, facto este a que por
vezes nos hemos referido.

Desse expoente do nominativo ainda conservamos
vestigios em algumas palavras: – calis (caliz,
calix
, e calice) = l. calix, Deus, Jesus, sages (Sec.
XIV), simples (simplez, simprez e simplice), e muitos
onomasticos de origem litteraria: – Marcos, Lucas
Venus, Ceres, Moyses, lsaias, Matheus, Boreas,
Iris
.

2.° Genitivo. – São poucos os vestigios morphicos,
o que não é para causar extranheza desde
que reflectirmos já no latim era esse caso de uso
pouco frequente, por ter sido supplantado desde o
periodo classico pelo ablativo com a proposição de.

tableau aqueducto | aquæ ductus
viaducto | viæ ductus (f. port.)
condestavel | comes stabuli
jurisconsulto | juris-consultus
legislação | legis lationem
petroleo | petræ oleum
terremoto | terræ motus
177

Destes, só condestavel (conde – stable, Sec. XIV,
condestabre, Sec. XV) é de origem popular.

3.° Dativo. – Poucos exemplos podemos respigar
deste caso, que – conforme pondera Schleicher
– já no latim a sua flexão organica era
imperfeita pela confusão com o locativo, gen., ablat.
e instrumental.

tableau Crucifixo | cruci fixus
Fideicommisso | fidei commissus (f. er.)

4.° Accusativo. – Era a fórma mais primitiva
da declinação, 1130 mas foi tambem a que mais cedo
desappareceu, em consequencia da perda da consoante
caracteristica, que deu em resultado a sua
confusão com o nominativo. “Nos docs. em latim
lusitano dos Sec. XIII – X, o accus. já não tinha
valor casual.”

tableau Morcego | murs cœcus
homem | hominem

Os subst. acabados em ão, ude, ade, agem
(V. pgs. §§)

Vocativo. – Avemaria = ave Maria.

5.° Ablativo. – Era o caso de maior emprego
no latim, principalmente depois da perda do locativo
178e do instrumental; e sendo o que mais relações
representava, foi-lhe necessario o auxilio de certas
preposicões. 1131

Talvez, por isso mesmo, tão raros são os seus
vestigios morphicos conservados em portuguez na
formação do substantivo: amanuense = a manu ensis,
hontem
(ante hodie).

42. – Adjectivos. – Tambem resumem-se
no nom. e accus. os casos de que conservaram vestigios
os adj. portuguezes.

Foram estes os conservados pelo latim popular
quando – depois de se terem simplificado as duas
declinações distinctas, uma em us 2132 e outra em
is 3133 –, aquelles adjectivos da 2.ª classe em er (accus.
em – em) assimilara-se por analogia aos
da 1.ª classe em er (accus. em – um), e emparelhou-os
por fim aos adjectivos em us. Assim niger
(accus. nigrem), fortis (accus. fortem), prudens
(accus. prudentem), celeber (accus. celebrem), acer
(accus. (acrum p. acrem, donde acre, acro), foram
considerados de 1.ª classe e declinados por bonus.179

Só restaram pois duas declinações distinctas,
uma das quaes – a 2.ª – não tinha fórma para o
feminino. E destas duas declinações conservamos
vestigios em bom (boa = bonus, a), máo má, (malus,
a), negro negra, (niger, nigrem).

Do genitivo, são raras as amostras.

O accusativo é a principal origem dos nomes
adjectivos imparissyllabicos. Ex. feliz, arch. felice
=
felice (m), atroz, arch. atroce = atroce (m), traidor
tradito – r (e) (m), amavel, arch. amabile = amabil
e (m), prudente = prudente (m): acre = acre – m…

Conserva, pois, o portuguez vestigios da declinação latina. Houve,
porém, na lingna fallada uma declinação embryonaria portugueza, ainda
que de dous casos como a do francez antigo ?

Della não encontramos vestigios seguros.

A verdade é que o Romano conservou a distincão dos casos, sujeito
e regimen, e a flexão do sing. e do plural. O caso sujeito era, em geral, tirado
do nom.; o regimen, do accus. E nós temos palavras derivadas dos
dous casos distinctamente.

serpe – serpens | serpente – serpentem
chantre – cántor | cantor – cantorem
preste – présbyter | presbytero – presbyterum
fray – frater | frade – fratrem
mãi – mater | madre – matrem
pai – pater | padre – patrem
senior – sénior | senhor – seniorem
compáno – companus | companhão companheiro – companionem
ladro – latro | ladrão – latronem
virgo – virgo | virgem – virginem
Bem, ren, sem, sem, trom, com (C. V., Canc. do Fig.), etc.

Serão estes os duplos vestigios de uma antiga declinação portugueza ?
Não ousamos asseverar.
180

Decima quarta lição
Flexão dos nomes. Gráo do substantivo e do adjectivo…

Flexão dos nomes. Gráo do substantivo e do adjectivo; comparativos
e superlativos syntheticos; comparativos e superlativos
analyticos.

1.° – V. Lição 13.

2.° – Gráo é a flexão nominal, que augmenta
ou diminue a idéa de palavra. 1134

3.° São principaes suffixos augmentativos: –
ão, aço, az, azio, alho, alha, orio, astro, atro.

Aço – a (= lat. ax, acc. acem) – Senhoraço, ricaço.

A’s vezes teem sentido pejorativo – poetaço.

Esta dessinencia corrompe-se em alho: – populacho.

Alha (= suff. alia). Tem sentido collectivo: –
gentalha, canalha.

Alho: parvoalho.

: rapagão, espião, portão.181

Que indica maior intensidade, provam – os seguintes
exemplos:

affecto | affeição
dominio | dominação
repulsa | repulsão
perda | perdição.

Tem ás vezes sentido pejorativo: – pobretão.

Elho, -a (= suff. lat. iculus, ic’lus) folhelho, azelho,
francelho, fedelho
(pejor).

Eolo (lat. eolus). – Fórma erudita. Ex. –
alvéolo; capreolo.

Ebre. Tem sentido pej. – Só nos resta um
exemplo: – casebre.

Eta, ete, óte, ôto. – São suffixos romanos.
Ex: – trombeta, costelleta: diabrete, capote, velhote,
perdigoto.

Os femininos correspondentes são – êta, óta,
agem
e ilha (ilheta e ilhota, villota e villagem,
mantilha, forquilha).

Ico (lat. icus, – culus,): – abanico, burrico,
Joanico
.

Ás vezes intercala um s euphonico: – chovisco,
pedrisco
.

Iculo, -a (lat – iculus, – a): – monticulo, auricula.

Ilho, -a (suff. dim. port., de iculo, mas que tambem
corresponde ao lat. ilius, a): – cabrestilho,
rastilho, vidrilho; mantilha, cartilha, partilha, serrilha
.182

Corresponde a inho, e é mui crescido o numero
de diminutivos em ilho, – a, formados de radicaes portuguezes.

Ito, -a: livrito, mosquito; mulherita, cabrita. E’
uma ditferenciação do suffixo – inho.

Im: (inus) – espadim, flautim, tamborim.

Az: – Cartas, montaraz, lobaz, Satanaz, ladravaz
(de ladro).

A’s vezes teem sentido pejorativo – dançaraz
machacaz
.

Azio: copazio.

Orio: – finorio, sabidorio.

Ona: – Fem. da desin. port. –ão: mocetona, valentona.
Sent. pej. – sabichona, pobretona.

Corresponde ao suff. – (aça) (ricaça).

Além destes – ainda temos os suffixos populares
portuguezes – arão, – arrão (homenzarrão, casarão,
santarrão
), e algumas fórmas anomalas, idiomaticas,
geralmente de sentido deprimente (cabeçorra,
amigalhão, fradalhão, corpanzil, sabichão).

Temos mais alguns augmentativos verbaes:
fujão, beberrão, chorão

Astro é de origem litteraria: – poetastro.

4.° São de Sec. XIII os seguiutes: estaturão, lampadões, cordões, calpões,
cabrões, Alvão, gargantom, jaquetão, malvaz, pescaz, vaganão, viarás
.
(C. vat.)
183

5. – Diminutivos. – Os principaes suffixos diminutivos
são:

Acho: – riacho.

Ejo: – logarejo, animalejo, quintalejo. (E’ de
sentido pejorativo..)

Ello, -a (corr. l. ello, illa): – portello, viella.

El (contr. de el): – cordel, fardel, canastrel.

Inho. – (l. inus). É este o mais vulgar de
todos os suffixos diminutivos da nossa lingua. Alguns
diminutivos teem as duas fórmas – inho, ino, e ás
vezes ainda – ito, ico, ete, ejo, etc.: – grão, granito;
quintal – quintalinho, quintalete, quintalejo, etc.

Os nomes terminados em consoante, formam
tambem os diminutivos em zinho – desde o Sec. XII,
(principalmente os monosyllabos) – flor florica florita
florinha, florsinha, quintal, quintalinho quintalsinho,
somsinho, dorsinha corsinha
. Esta regra é absoluta
quando a palavra thema acaba por voz livre (nasal
ou diphthongo), ou é oxitona em voz livre pura: –
irmansinha, grãosinho, cruasinha, nusinho.

No uso familiar, formamos diminutivos de diminutivos:
pequenininha, pequerichinho.

Candido Lusitano e outros verberam as fórmas
capinha, florinha, sapatinho, … p. capasinha, florsinha,
sapatosinho
, … O uso consagrou essas fórmas, que
datam do começo de lingua (Sec. XII – XIII), e são
empregadas por varios classicos, entre os quaes
Manuel Bernardes, Camões, Castilho:184

Está o lascivo doce passarinho
Com o biquinho as pennas ordenando

a estas criancinhas tem respeito

aos peitos os filhinhos apertavam
(Lus.)

Rezende (Misc.), ridicularisando as modas
do seu tempo, diz:

Agora vêmos capinhas,
muitos curtos pelotinho,
golphinhos e sapatinhos,
fundas pequenas, mulinhas,
giboesinhos, barretinhos

Muitas vezes o diminutivo exprime carinho: –
filhinho, maninho; outras, – dó, interesse, compaixão:
um pobresinho.

Olo-a: – bolinholo, sacola, portinhola, rapazola.

Olho-a; Ulho-a (l. culus – a): – E’ de origem
erudita . Ex .: ferrolho.

Em muitos destes não existe no portuguez a palavra simples; ou as
fórmas diminutivas latinas passaram para as linguas romanas como primitivas:
– agulha, acuel’a dim. de acus = agulha, apicula, dim. de apis
= abelha: ovicula, dim. de ovis = ovelha, lentilha dim. de lenta = entilha.

Ote: – velhote, rapazote.

6. – São de derivação erudita – olo, ulo, colo:
pellicula, granulo, capreolo.

7. – A lingua portugueza é riquissima neste
genero de derivação. O vocabulo primitivo póde ter
significação graduada, desde o mais alto gráo até o
mais infimo: -mulher, -ona, -aça, -áo, -sinha, -ita, -ica, …
185E essa exuberancia levou-nos até a formar diminutivos
anomalos, do mesmo thema ou de thema diverso:
canito, diabrete, casebre.

8. – Para os filhos dos animaes temos vocabulos
proprios; leãosinho cachorro, lobosinho lobinho
lobato lobacho, pombosinho borracho
, etc.

9. – Os diminutivos da linguagem familiar e
vulgar formam-se pela reduplicação ou pelo atrophiamento
da palavra: – mamãe, papae, titio, vovó,
dindinho
(padrinho); sôr, sô, seu (!) = senhor; sóra,
sinhá, siá, sá
(Minas Geraes: Rio de Janeiro), nhô,
nhã
, (S. Paulo), nhonhô, nhanhã, (R. J. etc.)

10. – Tambem teem fórmas diminutivas os
nomes proprios como já vimos: Pedrinho Pedroca,
Anninha Nicota, Chico Chiquinho, Juca Zézé, Zé
(só
em Portugal), Lulú (Luiz), Maricas Maricota (Maria),
Lola Lolota (Carlota), Manduca (Manuel), etc.

11. – Aqui cumpre lembrar uma fórma diminutiva,
que, por pouco frequente, não deixa de ser
graciosa.

E’ o emprego dos gerundios em diminutivo
(dormindinho), que o nosso escriptor José de
Alencar escreveu – era um brazileirismo, muito particular
á provincia do Ceará
.

No hespanhol tambem é frequente essa fórma
diminutiva do participio presente, e, ainda acrescentado,
no fallado nas Republicas da America,
e na Galliza (Saco Arce, Gramm. gallega). Em
186todos os poetas gallegos encontram-se essas fórmas
a exprimirem carinho:

Eu non lle quero dar bicos
e solo me folgo en vel-o
dormindinõ cal un anxel.

O Visconde de Castilho, “por achar muito graciosito esse modo de
dizer dos Hespanhoes” empregou-o nas fallas de Titania a Oberon (Sonho
de uma noite de S. João
):

… andamos muito manas
Passandito a par naquellas indianas.

12. – São dos Sec. XII e XIII os seguintes diminutivos: – Feracim, Alvim,
Celorico, Cerzeta, Eistel, Pedrozelas, Corneola, Alveolo, Meendinho, Pimentel,
Bodinho, fremosinha, bayoninho, mocelinha, passarinho, pastorinha,
vileco, marselinha, capeyrete, cabrito. (P. Rib. Diss. Crit., C. Vat.)

13. – Gráos De Significação. – Herdamos do
latim os tres gráos: positivo, comparativo e superlativo.

Comparativo

14. – Comparativos syntheticos (organicos) . –
Em latim o comparativo era geralmente expresso
pelo suffixo – ior (masc. e fem.), ius (n) 1135 unido ao
thema: – altior, dulcior, sapientior.

A tradição conservou fielmente no portuguez
algumas amostras desses comp. syntheticos:187

maior = l. majórem 1136
menor = minórem 2137
melhor = meliórem 3138
peior = pejórem 4139

Junior, 5140 senhor, prior, exterior, interior, superior,
posterior, anterior
, são tambem etymologicamente
superlativos organicos.

15. – Alguns destes comparativos tornaram-se
substantivos, conservando comtudo a significação
originaria latina – major, senhor, priormelhora,
peiora
.

Nota. Até o Sec. XIV essas fórmas conservaram o seu valor comparativo:
nostro senhor demonstre ao junior aquelle que melhor é (R. de S.
B., Ined. d’Alc. 3), todos os juniores seus priores, obedeescam (Id. 289).

Prior – id. (C. Vat., R. S . B. Ined.)

Nas fórmas interior, posterior, etc., nota se uma dupla suffixação
comparativa. Interior, = interiorem = in + ter (suff. a nt. comp . = gr. teros)
+ or.

Nota-se o mesmo em mestre (arch. meestre, maestre) 1. = magister
magis
(p. magius) + ter, ministro = l. minister = minis (= minus) +
ter. (Gramm. Comp. Bopp.)
188

Entre = inter. sobre = super = contra, tra, traz = trans, etc., são pois
restos petrificados do comp. organico. (Menier. Comp.)

Dos comp. diminutivos latinos grandiusculus, duriusculus, longiusculus,
etc., citados por Meedvig (Gr. lat.) temos exemplos directos em maiusculo,
minusculo
, e indirectamente, na formação portugueza – maiorsinho,
senhorsinho
, etc., já do Sec. XII.

Cp. – Prov. – bom melhor
mal peior pesme
gran maior –
passe menor –

Catalão – bo millor –
mal pitjor pessim
gran major maximo
petit menor mismim

Francez prim. – bom meillor –
mal pior pejor pesme
grand maor major –
petit menor mesme

16. – Comparativo analytico (periphrastico).
– Exceptuando esses quatro casos, o portuguez
fórma os comparativos analyticamente, ajuntando
ao positivo o adverbio mais; systema formativo já
mui frequente no declinar do imperio romano (magis
pius, magis egregie
). Alguns classicos latinos seguiram
esta tendencia do espirito analytico, principalmente
com os adj. em – us.

São pois latinos os moldes em que se vasaram
os comparativos portuguezes.

O latim vulgar deu preferencia ao adverbio
plus na formação destes comparativos (plus sapium,
plus clarum
).

Plus tinha o mesmo sentido que magis, tornou-se
modelo dos comparativos italianos e francezes (plus,
189più), e deixou-nos vestigios da sua existencia nos
primeiros documentos da lingua portugueza, na
fórma pop. chus: – chus pouco (can. Ined .), chus
negros
(Nob.) Esta fórma archaisou-se no Sec. XIV, 1141

17 . – Os comp. de igualdade, inferioridade e
superioridade formaram-se com os adverbios tão
como, tanto… quanto; e os adv. mais menos; muito
menos, muito mais
. Estas fórmas datam do primeiro
periodo da lingua: – may Ieda, mays perto
(C. Vat. 98, 293), tan cruamente (Id. 280), …

Advertencias. – 1.ª Nos comp. de inferioridade e superioridade é
tão correcto empregar do que, como simplesmente que. Mais depende
ás vezes do tecido da phrase, que póde parecer mais ou menos harmonioso.
– 2.ª Em vez de tão grande podemos usar de tamanho (= tão manho, arch.
– tão magno (Sec. XVII). E’ força porém curvar-nos ao despotismo da moda,
e essa fórma – tambem camoneana – deve ser rejeitada. – 3.ª O comparativo
pleonastico era frequente no Sec. XII (may melhores C. V. 1154), á
maneira do latim – magis maiores, magis dulciores, magis certius.

São equivalentes do comp. antes e sobre (= mais): – antes ser desfeito
que cançado (Ant. Ferr. Son. 1-8.), sobretudo (mais que tudo).

Do superlativo

19. – Superlativo synthetico ou organico
(formados por suffixos). – O superlativo synthetico
latino em imus, deixou muitissimos vestigios na lingua
portugueza:

máo | pessimo | lat. pessimus
bom | optimo | optimus
grande | maximo | maximus
pequeno (parvo) | minimo 2142 | minimus
190

e desta composição organica cada vez mais cresceram
as fórmas; – reverendissimo, illustrissimo,
excellentissimo, serenissimo
, …

O latim emprega na formação do superlativo
synthetico, a terminação – simus, a, um,
junto ao suffixo do comparativo contrahido em
is (de ius = ios): – felic-is-simus, doct-is-simus
(doct – ior – simus: pela assimilação). E’ esta a origem
da fórma caracteristica portugueza dos superlativos
organicos (issimo = lat. is – simus), que todavia,
só apparece pela 1.ª vez em docs. do Sec. XV,
e fixa-se no XVI (Illustrissimo, serenissimo, L. Cons.;
vitosissimo Th. Braga Ch; C. de Evora, G. de
Rez, etc.) Nos seculos anteriores empregavam a
fórma analytica.

19 . – Temos mais uma fórma organica em
imo (= lat. mo, contr. de simo), que é de fundo
erudito: – humilimo, asperrimo, (Camões), acerrimo,
etc. Data do Sec. XVI.

São della vestigios, embora hajam ás vezes
perdido o sentido etymologico, – intimo, imo, postumo, 1143
maximo, infimo, summo, supremo, etc. 2144 Destes
191typos formam-se outros superlativos: uns moldados
em fórmas latinas (Cicero, Ovidio, etc.): – supremissimo,
immensissimo, excellentissimo
; outros de origem
analogica portugueza – grandessissimo, de
grandissimo. 1145

20. – Os adjectivos em il (= l. ilis) fazem o
superlativo em imo e issimo: – facil facilimo facilissimo,
fragil fragilimo fragilissimo, subtilissimo
.

No latim dava-se a mesma concurrencia de
fórmas do sup. Synthetico: – gracillimus (Suet.),
e gracillissimus, agillimus (Prisc.) e agillissimus,
imbecillimus
(Sen.) e imbecilissimus, etc.

Dahi as f. port. – humilimo humilissimo, asperrimo
e asperrissimo (ambas em Camões), etc.

Os nossos adj. seguem a regra dos latinos em il
(ili, ile) com vogal breve antes da terminação (radical
atono), e daquelles cuja vogal é longa (radical tonica):
facilis – facillimus, humilis humillimus, nobilis
– nobilissimus.

21. – Os adj. em vel (= l. bilis) fazem o sup.
mudando a terminação em bil antes de suffixarem a
desinencia do gráo: – notavelnotabilissimo –,
miseravelmiserabilissimo.

Estes sup. não se afastaram das fórmas positivas
portuguezas para mais se encostarem ás latinas.
Formaram-se das nossas fórmas archaicas terribil,
192miserabil, etc., bem como nobilissimo (de nobile),
esterelissimo (de esterile), audacissimo (de audace),
felicissimo (de felice), christianissimo (de christiano),
antiquissimo (de antiquo), etc.

O latim deu-nos o modelo; o portuguez antigo
imitou-o; a analogia alargou o circulo dos exemplos.

22. – A’s vezes, porém, um dos superlativos
syntheticos é de fundo popular, e o outro de formação
erudita – pobrissimo pauperrimo, friissimo frigidissimo,
docissimo dulcissimo, amguissimo amicissimo,
cruel crudelissimo, inteirissimo integerrimo
, …

23. – São pois susceptiveis da formação organica
do superlativo só os adjectivos acabados em e,
o, u, l, r, z
.

24. – Alguns rejeitam as flexões do gráo porque
já exprimem idéa de superlatividade ou por lhes
serem naturalmente refractarios: – egregio, superior,
ulterior, posterior, inclito, invicto, longiquo, joven,
adolescente
, … (já temos porém Excellentissimo e omnipotentissimo),
ou pelo respeito á tradição latina,
como, p. ex. alguns nomes de côres, alguns em ão,
(pagão, ladrão), os em ico (pacifico), os verbaes em
bundo (gemebundo), etc.

25. – Em compensação, conservamos superlativos
(e comparativos), cujos positivos mais não
são usados: – minacissimo, de minaz (ameaçador
= 1. minax, acis), belacissimo (Camões, Lus.) de
belaz (= l. belaz, f. muitissimo rara), etc.193

Na poesia, porém, é permittido o reviver desses positivos, e o nosso
poeta Odorico Mendes empregou belaz na sua traducção da Illiada, 32.

26. – Superlativos divergentes: – summo supremo
superno, intimo interno, etc.

27. – O sup. synthetico tambem póde formar-se
pela prefixação. Neste processo que, no portuguez,
remonta á origem da lingua, e estendeu-se ao Sec. XIV
(perlongadamente R. S. B.; tamanho = tão magno;
tamanino G. Vic., perdurável – Id.; preclaro perclaro.
Cam. Lus.; translucido;…), é de notar –
como observou Diez – a usual separação do prefixo
per: – port. ant. mal vos per está, ben mi o per
devedes a creer
; lat. per mihi mirum visum est, per
pol quam paucos
; fr. ant. tant pas est sages. 1146

28. – Superlativo analytico ou periphrastico. –
Este superlativo, formado pela anteposição
do adverbio, mais alcançou popularisar-se do que o
194synthetico. A tendencia foi sempre para o analytismo,
para a simplificação.

Em latim era frequente o emprego dessas fórmas:
os adjectivos que formavam o comp. com o
adv. magis, tinham um surperlativo tambem analytico
construido com maxime, que algumas vezes,
por amor da variedade, era substituido por uma
outra particula – satis, per, ultra, prœter, super, ante,
multo
, … (multo tanto carior, Plauto, multo optimus
hostis
, Lucil.)

O portuguez mais se affeiçoou ao adverbio
muito (mui), e fel-o indicador do superlativo, aproveitando-se
comtudo da liberdade de poder tambem
substituil-o por outros (assás, demasiado, ultra, extra,
super, hyper, archi, excessivamente, horrivelmente
, etc.)

O emprego destes ultimos adverbios tem augmentado
de dia para dia: – uma mulher adoravelmente
bella, um critico genialmente patarata, …...

29. – Até o Sec. XVI indicava-se outrosim o
superlativo antepondo mui e muito ao adjectivo: –
gente de pé mui muita sem conta (F. Lopes. Chron. de
João I
); monte mui muito alto (S. Luiz).

que dos mui muitos ciumes
nace o mui muito amor.
(Gil Vicente.)

costume que, na linguagem popular e familiar ainda
se conserva para dar mais intensidade ou vehemencia
á phrase: – João é muito muito feio.195

O processo reduplicativo approxima o sup. do numero plural, de que é
apenas simples prolongamento. (Sayce.)

Este processo conservado em Portugal, Brazil e nos dialectos de
Africa e Asia: – seco-seco, quenti – quenti (= muito seco, muito quente, –
port. de Cochim), lecco – lecco, … das melhores melhor, o peyor de peyor (C.V.
119, 129); teu tio, dos maiores, o mór. (A. Ferr. Lusit. I. 130.) – Id. Nos hebraismos
cantico dos canticos, senhor dos senhores, rei dos reis, vaidade das
vaidades, servo dos servos
, etc. (Reiswerk – Gram. Heb.)

30. Mais divorciadas da regra grammatical
estão as expressões formadas com os adverbios
mui e tão, e os superlativos de uso vulgar no Sec.
XVIII – mui sapientissimo senhor, tão grandissimo.
(Tam muito: Sec. XIII. C. V. 181.) Hoje ninguem
ousará escrever taes solecismos, que todavia representam
exemplos do fallar romano (multo optimus,
pulcherrimum, utilissima, … Cic. Quint., etc.)

31. – Os augmentativos podem indicar o gráo
superlativo: – parvoeirão, pobretão, etc.; muitas vezes
com sentido degradado: – sabichão, grammaticão.

Os diminutivos tambem indicam superlatividade,
mas com certo sentimento de dôr ou lastima.
Quando dizemos – elle está pobresinho, não temos
só em mente apresentar o individuo como miserabilissimo
e mui fallido ao dinheiro, mas manifestar
tambem o sentimento de dôr ou lastima, o interesse,
que nos causa a seu estado de penuria.

32. – Superlativo relativo. – No latim só
havia uma fórma para os superlativos absolutos e relativos.
196Assim – femina pulcherrima tanto significa
mulher muito formosa, como a mulher mais formosa.

É que o latim só attendia á idéa de superlatividade,
no emtanto o portuguez e as demais linguas
romanas, mais suppoem a de comparação (o mais
de
… hesp. lo mas, franc. le plus, it. il più), e com
justo fundamento. Na phrase a mulher mais bella,
não está contida somente a idéa de ser ella muito
bella
, mas tambem, – e acrescentado,: – a de ser
mais bella que todas as outras. A mulher a que nos
referimos, em relação ás outras, é muito bella. Domina
pois a idéa de comparação.

No dominio do portuguez houve lucta entre as
duas fórmas, que mais se estremaram no Sec. XV.
Data desta época o emprego do artigo antes do
superlativo relativo; mas o emprego distincto e
judicioso das duas fórmas só se assegurou no seculo
XVI.

Hoje não mais se póde supprimir o artigo, a menos que o substantivo
venha precedido de um possessivo – O meu amigo mais intimo de todos é, …
tuas mais bellas aspirações.

33. – São ainda equivalentes do superlativo
analytico:

Sobre todos: – E o Infante Dom Pedro meu
sobre todos prezado Yrmaão (Sec. XV L.Cons. 27).

Mil: – Mil lindo, mil gamenho (Fil. Elys. Oberon).
Só encontramos este emprego em F. M. do
197Nascimento (Mil = grande numero, muitissimos, –
mil razões).

Assás: – assás de forte está minha alma (Alm.
Tr. de Biblia)…, Assás de pouco faz quem perde a
vida
(Cam.) – Cp. de suso.

Que (Sec. XIII): – que leda que oj’ eu sejo
(C. V. 307).

Muito mais. – É tambem um reforço do sentido
comp. – muito mais bello, muito maior.

Bem. – Tambem é um reforço mui usado em
todas as linguas romanas: – bem bom, bem doente,
bem mal, bem caro
, … (= lat. bene multi, b. lat. filiam
bene idoneam
, …) 1147 Bem mais.

Os comp. e superl. – diz Brugraff – são os expoentes proprios da
qualidade intensiva dos objectos considerados relativamente.

Essas flexões estendiam-se nas primeiras phases da linguagem a
todo o dominio nominal, do que conservam vestigios muitos idiomas, principalmente
em formações analogicas de fundo popular.

No sansk. vedico o comp. tirou origem no subst. No port. temos
consismo, lat. oculissime homo (Plauto), e analyticamente – mui trobador
(C. Vat. 97), era já muito noute, b. lat. pro me nimium peccatori (Diez III, 13).

A distincção entre comp. e sup. é de origem secundaria. Primitivamente
os seus suffixos apenas indicavam uma relação de maior afastamento,
como
se vê das f. sansks . – apa-ra apa-má apa. (Bréal, Intr. Bopp, 3
XIX.)
198

Decima quinta lição
Flexão dos nomes. Flexão do pronome; declinação dos pronomes
pessoaes.

1. – V. Lição 13 e 14.

2. – Só estão sujeitos á flexão de genero e numero
os pronomes – adjectivos – demonstrativos e possessivos;
os indefinitos – algum, certo, nenhum, nullo,
outro, todo, um
; o relativo (conjunctivo): – cujo.

Qual e qualquer (adj. – pron. ind.) só tem flexão
de numero; dos pronomes pessoaes só tem flexão
de género e numero o da 3.ª (elle).

E’ quanto nos cabe dizer aqui sobre a flexão
desses pronomes. V. Lição 26. Etymologia.

3. – Declinação dos pronomes pessoaes. – As
tabellas seguintes apresentam a declinação dos
nossos pronomes pessoaes comparada com a dos
latinos.199

tableau Singular
primeira pessoa | segunda pessoa
latim | portuguez | latim | portuguez
N. (Sujeito) | ego | eu | tu | tu
Acc. (R. directo) | me | me | te | te
Dat. (R . indirecto) | mihi | me | tibi | te
Em relação prepos. | – | mim | – | ti
Abl. | me | migo | te | tigo

tableau Plural
primeira pessoa | segunda pessoa
latim | portuguez | latim | portuguez
N. (Sujeito) | nos | nós | vos | vós
Acc. (R. directo) | nos | nos | vos | vos
Dat. (R . indirecto) | nobis | nos | vobis | vos
Em relação prepos. | – | – | nós | vós
Abl. | nobis | nosco | vobis | vosco
200

Notas. 1.ª São fórmas archaicas da 1.ª pessoa
do sing. – ei, ieu (geu), aquella no Sec. XII, esta –
que era tonica – no Sec. XIII.

Ma se ei for para Mondego
(C. de Egas Moniz.)

ei boyme por hi fóra
(Id.)

por quanto ieu crer sey
(C. da Vat.)

estraynã vida vivo geu senhor
(Id.)

Attribue-se a fórma ieu – identica a geu – á
influencia provençalesca (= fr. ant. giè, f. tonica
de jo je). 1148

2.ª Me. Abrange o dominio do dativo (desde o
Sec. XIII), accus. e genitivo: deu-me, amas-me, seccaram-se-me
as illusões
(para mim seccaram-se as
illusões). Este accumular de funcções é devido ao
emprego de me p. mihi (mehe, Quint., etc.) e tambem
a ser mi f. dativo de ego.

E’ para sentir haver a fórma objectiva me
obliterado a terminativa mi, que constituia mais uma
riqueza da nossa lingua.201

3.ª – Mim (arch. mi – mhi). O m representa
exemplo epithesico ou paragogico. – Cp. assi assim,
si sim
, 1149 nem, … (= lat. si-c, ne-c, …).

Como vimos acima, mi derivou de mi, dativo de
ego e de mihi, regularmente contrahido em mii, mi.
Apparece nos primeiros monumentos da lingua (Sec.
XIII e XIV), mas sempre a par de mim (min, mê); só
cahiu na lucta no declinar do Sec. XVI). 2150

4.ª Houve no portuguez uma variante popular
che (Couto – M. L., Euf., ap. Moraes).

Esse archaismo pronominal (che, xe), não nos
parece fórma equivalente a te, como suppõe Moraes.
Os exemplos xi quer, xe quer (S. de Mir.) provam
que elle corresponde a si ou se (it. se ci; gallego
ge, xe, que sôa tche). Em desto xe vos seguer
grandes perdas
(O. Aff.) = pron. se; a phrase não
significa disto te sobrevirão grandes perdas (como
querem alguns), mas – disto se vos hade provir grandes
perdas
ou ha-se-de provir-vos…; a vacca morreu-xe
(S. M.); nã sey que che he pré fermoso, (S. Mir. Eg.)

Em hespanhol é frequente este uso: – Le entregó
202V. la carta ? – Si, se la entregué; e em portuguez
ainda temos exemplos: – cá se me está parecendo,
etc.

O me nestes casos é dativo: – não datur mihi
(cura); seja-se elle vossa amante. (Euphros.)

A permuta do s pela chiante x, ch, é um dos
casos de .corrupção phonetica, que o Sr. Thephilo
Braga attribue a idisioncracia galleziana.

5.ª Migo = l. mecum (= cum me); tigo = l. tecum
(cum te). 1151 Os escriptores antigos escreviam
simplesmente – migo, tigo, sigo, ou porque obedecessem
inconscientes á tradição latina, ou conservassem
ainda a noção logica da composição:

non trago migo questo coraçon
(C. Vat.)

tigo começar fui
(Id.)

Perdida, porém, de todo essa noção, originaram-se
as fórmas reduntantes, pleonásticas – commigo,
comtigo, comsigo
, que vecejaram simultaneamente
com as mais simples– migo, tigo, sigo; nos
Secs. XIII e XIV.

No Sec. XIII appareceram as variantes comego,
comtego, comsego
, ainda muito populares no Sec.
XVI. (G. Vic., etc.)203

4. – O Latim, só possuia dous pronomes pessoaes
propriamente ditos (ego, nós, tu, vós); para a 3.ª
p. empregava o pron. defini to ou demonstrativo ille, -a,
-ud, hic haec hoc, iste, -a, -ud
. – V. Lição Artigo.

tableau Singular
Masculino | Feminino
Latim | Portuguez | Latim | Portug.
N. (Sujeito) | ille | elle | illa | ella
Acc. (Reg. directo) | illum | o (ello, lo) | illam | a (la)
Dat. (Reg. indirecto) | illui (ili, li) | lhe (er, lures) | illei (illi, li) | lhe
Relação prepositiva | – | elle | – | ella
Abl. | illo | comsigo | illa | comsigo

tableau Plural
Masculino | Feminino
Latim | Portuguez | Latim | Portuguez
Sujeito | illi | elles (ellos) | illas | ellas
Regimen directo | illos | os (los) | illas | as (las)
Regimen indirecto | illorum | lhes (lures) | illorrum | lhes
Relação prepositiva | – | elles | – | ellas
Abl. | illis | comsigo | illis | comsigo
204

Advertencias. – 1.ª Elle, Ella, são fórmas dos
primeiros docs. (Sec. XII), que tinham por concurrentes
as archaicas – el, ello (n. = illud) e ille.

Renhiram ellas por tempo mais ou menos dilatado.
El desappareceu no fim do periodo archaico;
elhos, elhas, só persistiram no Sec. XII, e nas primeiras
decadas do immediato; a fórma pura ille cahiu
no fim do XIV; ello perdeu-se no XV, em que tambem
concorreu uma fórma tonica de el (salveseli).

A fórma ello, elle, do regimen directo, desappaeceu
ante a do pronome o (lo). 1152

2.ª Lhe. Deriva de illi (illi huic = este, contr. em
ill’huic, d’onde illuic, que se encontra na fórma illui
nas inscrip. romanas).

Apresenta tres fórmas intermediarias – li, illi e
lhi (lle, lly,) plural les, lhis.

Li (le) é frequente nos primeiros docs. da lingua
(J. P. Rib. Dissert.); illi (ille) apparecem esporadicamente
nos Secs. XII e XIII; le, les; lle, lles, lly, lhi, são
variantes graphicas do Sec. XIV, já correspondentes
a lhe, lhes. Ex. – que li plaza fazeles ajuda (Rib.
Diss.), lle fez Deus (Canc. Aff.), lly for demandando
(F. de Gravão), antes lhe quero a mha senhor dizer,
coytas
lhi davan amor. (C. Vat.)205

Lhe conservou-se invariavel até o Sec. XVI.

A’s ondas torna as ondas que tomou;
mas o sabor do sul lhe tira o tolhe.
(Camões.)



Qual pavida leôa, fera e brava,
que os filhos, que no ninho só estão,
sentia que, emquanto lhe buscára,
o pastor da Massylia lh’os furtára.
(Id.)



A cidade correram e notaram
muito menos d’aquillo que queriam,
que os Mouros cautelosos se guardaram
de lhe mostrarem tudo que pediam. 1153
(Id.)

5. – A’s vezes o pronome elle é substituido por al
(= aliud): – cá nunca me d’al pude nembrar. (Sec.
XII, C. de Vat.)

Note-se, porém, que al correspondia a outrem,
e era já arch. no tempo de J. de Barros.

6. – O pronome o (lo = l. illo = illud) é que de
feito substituiu o pronome elle no caso objectivo,
desde o Sec. XVI.

7. – Terceira pessoa reflexa. – Se = lat. se.
Atonisou-se por influencia da enclise (id. – me, te).
Fórmas archaicas - se, sse, xi, xe (Secs. XII e XIII).

Além da sua funcção reflexiva e reciproca, tem
mais a passivadora. As linguas romanas deram-lhe
fóros de pronome pessoal.206

Tem tres casos, defectivos em genero e numero:

image objectivo - se
dativo - se | = l. se
Em relação ad v. ou prep. – si | = l. sibi.

Si data do Sec. XIV (= sy, ssi, ssy) . No fallar
do Alemtejo dá-se a nasalisação (sim).

8. – Sigo = l. secum (cum se). Deu-se com
esta variação pronominal o mesmo que com migo,
tigo
; mais se empregava nas fórmas pleonásticas –
comsigo, comsego.

9. – Segundas pessoas do plural. – O latim
já tinha uma só fórma nos, vos para o nom. e accus.,
recrescendo a confusão depois que, pela subordinação
ás leis phoneticas, os dativos nobis, vobis,
transformaram-se em nos, vos.

Em portuguez estes casos só se differenciam
pelo o agudo do nom. e do caso que exprime relação
adverbial ou prepositiva (nós).

Nosco = l. barb. noscum (cum nobis), contracção
regular de nobiscum; assim como vosco é
contracção de vobiscum (nob-i-scum, vob-i-scum).

Nosco, vosco, datam do Sec. XIII.

Que non mor´eu nosco per boa fé
fui vosco falar
.

No Sec. XV as fórmas commummente usadas
são as pleonasticas – comnosco, comvosco.

Em Viterbo encontra-se uma fórma em vosquo,
das côrtes de Coimbra (Sec: XIV) que tambem vem
citada nos Monum. hstoricos.207

10. – Os escriptores antigos confundiam os
varios casos dos pronomes pessoaes. Ex. requerer
o juiz da terra que segue
mim (Ord . Aff.); se eu fora
a ti (esta phrase ainda é muito vulgar no povo),
mais que mim, melhor que si, tenho mais poder que si;
por amor dos Mouros que lhe peitaram (Fern.
Lopes)… 1154.

11. – Havia tambem uma fórma correspondente
ao lat. illorum. Era lures (do lat. barb.),
de uso mui frequente nos Sec. XII e XIV, mas que
cedo atrophiou-se em er (her) . – Equivalia a
lhe (seu), o (elle) . Os exemplos melhor nos convencerão.

nem er costrange, nem veda
(O. Aff.)

e outros er ordinharam.
(D. de Pend. 1347)

mays quand’er quis tomar pola ver.
(C. D. Diniz.)

depois de comer er veo espellar outra vez.
(Id.)

O latim empregava para o possessivo da 3.ª
pessoa do plural o sing. suus, que foi supplantado
pelo gentivo illorum (eorum). Esta construcção,
restricta na origem, tornou-se regra (por
analogia) sempre que o nome do possuidor estava
no plural, qualquer que fosse o genero.208

E dahi derivaram as fórmas leur em francez
(ant. lor lour), loro em ital., lor prov., lures
hesp. arch.

O portuguez só conservou a construcção latina,
e com isso não só perdeu um elemento de
riqueza vernacula, mas tambem obriga os menos
adestrados – para evitar equivocos – a phrases
de estylo fraldoso e arrastado (a sua casa delle,
etc.)

Os possessivos sendo por sua definição adjectivos
dos pronomes pessoaes, e substituindo-os
no genitivo (meu filho = o filho de mim), resulta
poderem, inversamente, os pronomes pessoaes no
gen. substituir em certos casos os possessivos
(por amor delle = por seu amor).

Em - segure-lhe a mão, vendi-lhe as terras, lhe
lhes = sua, suas
.

Estudemos os exemplos do emprego do er em
todos os docs. antigos; tenhamos em conta o
barbarismo ainda hoje tão frequente do emprego
de lhe por o (elle) – vi-lhe hoje, avistei-lhe, chamei-o
tolo
, etc.; lembremo-nos de que lhe é fórma
synthetica de a elle, a ella (ainda hoje de uso
constante – eu disse a elle, recommende-lhe a elle),
e de que era frequente a omissão da preposição
no port. antigo, e teremos em remate a evidencia
de que er não corresponde a eu, vós, elle,
etc., como diz Viterbo, mas a lhe.

Notemos mais as phrases pleonásticas – lhe
disse a elle, vi-o a elle, etc.209

Decima sexta lição
Flexão do verbo; conjugação; fórmas de conjugação

1. – Vide lição 10 e a 27.

Additamento á lição 10

1.° – O verbo compõe-se de dous elementos – thema e desinencia.
Esta – que corresponde ao suffixo nas fórmas nominaes – exprime as
três pessoas, os dous numeros (sem distincção de genero), os tempos e os
modos.

2.° – Os radicaes são atonos ou tonicos. Em mover, p. ex., móve tem o
radical tonico; e movia tem – no átono (= l. móvet, movébat). Em regra, seguimos
a accentuação dos verbos latinos, que se deslocava segundo a natureza
da flexão. Regularmente tem radical tonico as três pess. sing. do
Ind. presente, e as do Imperativo sing.

As deslocações da tonica mais de notar são:

a) – Nos verbos em ere – currere, gemere, tremere, … = correr, gemer,
tremer
, etc. Esta deslocação do accento remonta, porém, ao latim popular,
que a par dessas fórmas proparoxytonas, creara as orytonas em ire (gemire,
tremire, currire
) e pela accentuação do prefixo na época romana –
providere = providére (provêr). Dahi as fórmas portuguezas construir
(constrúere), destruir (destruiere), fazer (fácere), invadir, romper, converter,
reger, poer
, etc.
210

Nos docs. primitivos da lingua muitos desses verbos seguiam a flexão
em i e vice-versa; arrompir, corrire, escreviren, comiste, cingeste, entendiste, fezisti,
metir, perdir, nacire, recibir
, etc.

b) – Nas 1.ª e 2.ª pess. do plural do pres. do Ind. da conj. em ere: –
rumpimus, rúmpitis, = rompemos rompeis. Aqui actuou no port. o principio
da analogia.

c) – Na 1.ª pess. do plural do pret. do Ind . – fécimus, rúpimus = fizémos,
rompemos
.

3.° – Os tempos e os modos são resultantes das modificações do thema
em suas combinações com os suffixos e as desinencias.

a) – Modo é a fórma do verbo tendente a marcar as differentes maneiras
da affirmação. Temos quatro modos - o indicativo, o subjunctivo, o
condicional, o imperativo.

O Indicativo exprime uma realidade; o subjunctivo a contingencia; o
condicional a possibilidade ou condição; o imperativo, necessidade ou mando.

O Infinito é subs.; o participio – adj. verbal; os supinos representam
fórmas adverbiaes.

b) – O tempo é a fórma verbal para indicar a época em que se faz,
passou-se ou far-se-ha a ação. São em numero de tres – passado, presente
e futuro, correspondentes ás tres grandes divisões da duração.

c) – As pessoas são tambem indicadas pelas terminações. São tres para
o sing. e tres para o plural.

d) – O part. presente tem sentido activo; termina sempre em nte (ante,
ente, inte
); só tem flexão de plural. (V. Liç. 27.) Corr. lat. ans (ens) antis
(entis).

O gerundio e o part. presente empregado adverbialmente. Termina
em ndo (ando, endo, indo). E’ invariavel, e corresponde ao ger. lat. em
ando (endo).

4.° – São duas as vozes nos verbos que exprimem acção. A activa representa
o sujeito; a passiva, o objecto do verbo (amo, sou amado). Perdemos
a flexão da voz passiva, – a periphrase de que usamos é todavia de
211origem latina (V. L. 27). Na fórma periphrastica é o auxiliar ser que indica
a pessoa, o numero e o modo.

5.° – A conjugação simples contém onze fórmas, das quaes tres são
impessoaes (infinito, participios presente e passado):

Fórmas do presente
1.° indicativo – amo (e imp. cantava)
2.° imperativo – ama
3.° subjunctivo – que eu ame
4.° participio – amando

F. do passado
1.° Ind. perf. – amei
2.° Subj. imp. – que eu amasse
3.° part. passado – amado

F. do futuro
1.° Inf. – amar
2.° Ind. – amarei
3.° Condicional – amaria

2. – A flexão verbal é como segue:

Pessoas
3 para o sing.
3 para o plural
2 para o Imperativo

Numeros 2
singular
plural

Vozes 3
activa
passiva

Tempos 6
presente
perfeito
futuro
imperfeito
mais que perfeito
futuro perfeito
futuro anterior

Os tres primeiros são chamados principaes, os outros – historicos.

Modos
Indicativo
Subjunctivo
Condicional
Imperativo

Os tempos do Infinito são fórmas nominaes.212

2. – Todos os verbos podem reduzir-se a uma
unica flexão. As modificações devidas á lettra final
do thema, é que deram origem ás quatro conjugações.

E como o infinito era que mais distinctamente
apresentava a vogal caracteristica, foi elle tomado
para typo da flexão verbal.

Para cada grupo – a que chamamos conjugação
– temos uma vogal thematica caracteristica:

1.ª – ar = 1. a-re
2.ª – er = l. e-re, ere
3.ª – ir = l. i-re, ere
4.ª – or (ant. er) = l. ere

A quarta conjugação data do Sec. XVI. Formou-se
pela degeneração phonetica do verbo da segunda
poer, poner, e esterilisou-se completamente.

4. – Quadro synoptico das desinencias verbaes.
– Os themas verbaes são pois em a, e, i, (deixamos
de parte o verbo pôr) – ama-r, teme-r, parti-r.213

Themas: – ama, vende, parti

tableau Modo | Tempo | 1.ª Conj. | 2.ª Conj. | 3.ª Conj. | Observações
Indicativo | Presente S. | o | o | o | Mudam em o a vogal temática a, e, i.
– s | – s | – s
– | – | – | É o mesmo thema; excepto para os da 3.ª que mudam o i em e (parte) (es).
P. | – mos | – mos | mos
– is | – is | – is
– m | – m | – m
Imperfeito S. | va | ia | – a
vas | ias | – as | Os
va | ia | – a
P. | vamos | iamos | – amos
veis | ieis | – ieis
vam | iam | – iam
Perfeito S. | ei | i | i | Estas flexões unem-se ás raizes ou thema geral – am-ei tem-ei part-i.
– ste | – ste | – sti
ou | eu | – iu
P. | – mos | – mos | – mos
– stes | – stes | – stes
– ram | – ram | – ram
M. q. perfeito S. | – ra | – ra | – ra
– ras | – ras | – ras
– ra | – ra | – ra
P. | – ramos | – ramos | – ramos
– reis | – reis | – reis
– ram | – ram | – ram
S. Futuro | r – ei | r – ei | r – ei
r – ás | r – ás | r – ás
r – á | r – á | r – á | Forma-se do Infinito dos verbos com a flexão ei = hei. Amarei = amar hei, hei de amar.
214

tableau P. | r – emos | r – emos | r – emos
r – eis | r – eis | r – eis
r – ão | r – ão | r – ás
Imperativo | 2.ª pessoa S. | – | – | e | Os da 3.ª mudam o e em i.
2.ª pessoa P. | (a) e | (e) i | i
Subjunctivo | Presente S. | e | a | a | Formam-se da raiz – am, vend part.
es | as | as
e | a | a
P. | emos | amos | amos
eis | ais | ais
em | am | am
Imperfeito S. | – sse | – sse | – sse
– sses | – sses | – sses
– sse | – sse | – sse
– ssemos | – ssemos | – ssemos
– sseis | – sseis | – sseis
– ssem | – ssem | – ssem
Futuro | ar | er | ir | O mesmo Infinito.
Inf.+es | Inf.+es | Inf.+es
ar | er | ir
P. | – mos | Inf.+mos | Inf.+mos
– des | + des | + des
– em | + em | + em
Condicional | S. | Inf. + ia | Inf. + ia | Inf. + ia | A flexão verbal ia = hia, amaria = amar hia = havia de amar.
– ias | + ias | + ias
– ia | + ia | + ia
– iamos | + iamos | + iamos
– ieis | + ieis | + ieis
– iam | + iam | + iam
215

Formas nominaes

Infinito imp. – ar, er, ir, or.

Gerundio. – ndo (para as quatro conjugações.)

Part. pres. – nte (idem.)

Part. pass. – do (id.) – Os da segunda conj.
mudam o e thematico em i (vendido).

Temos ainda no portuguez o Infinito pessoal,
que constitue uma das nossas riquezas vernaculas.
E’ identico ao futuro do Subjunctivo.

Comparando as desinencias, ver-se-ha facilmente
que, de facto, como dissemos ácima, todos os
verbos podem reduzir-se a uma unica flexão, e que
as conjugações só tiveram origem na differença da
lettra final dos themas (a, e, i.)

4. – Advertencias:

1.° Indicativo. – Presente: No Sec. xiii as
fórmas da 1.ª p. do plural eram – amamus, outorgamus,
vendemus
, etc. mais conchegadas ás latinas.

Nas 2.ªs p. do plural o t (de origem latina)
abrandára em d: – dizedes, amades, leyxades, matades,
perdedes
, etc.

Essas eram as unicas fórmas usadas do Sec.
xii ao xvi (valedes, faredes, e fazedes, queredes,
sodes, passades, sejades
), etc.

No Sec. XV é que começou a syncope do d 1155
216fazees, dizees, embarquees, sooes, avees, daees, etc.
(J. de Barros, etc.), que só conseguem fixar-se
no XVI. Vestigios dessas primeiras phases da lingua
ainda conservamos em certos verbos – credes, ledes,
tendes, vedes, vindes
, etc.

O d primitivo conservou-se apoiado no n e no r
(futuro do Conjunctivo e Inf. pessoal – cantardes). 1156

A 3.ª pessoa do plural terminava em am e
em (flexão ou ). No Sec. XV é que começa a
fórma em aõ, om on, am an.

No Imperf. – a 2.ª p. do plural. do port.
antigo era tambem em des (tinhades, haviades, etc.).
Esta desinencia conservou-se-como acertadamente
pondera A. Coelho – apesar de ficar em contacto
com a vogal do thema pela queda do d,
sempre que esta vogal era a tonico (ama-es, mata-es
amades matades), etc.: funde-se com ella quando
é a atono (amaveis, dizeis, sentieis); muda-se
para i se a vogal for um é (dize-is, have-is); é
absorvido por ella se fôr um i (sentí-s, mentí-s,
vestí-s
).

Mas nos textos do tempo de João de Barros
encontram-se ainda as fórmas queriais, faziais (=
queriades, faziades
).217

Preterito perfeito. – A 2.ª pess. terminava em
ti á maneira latina – escolisti, fezisti, entendisti,
deitasti
, etc. (Sec. XII). O t até o Sec. XV abrandou
em d. É este o unico tempo que conservou
a dental latina da 2.ª p. do plural (amaste, perdeste).

A 3.ª p. do plural terminava em um: – forum
overum, fecerum, derum
, etc. (Sec. XII); depois,
em om, on. (Sec. XIII), e mais tarde em o: –
forõ, trounerõ, até que no Sec. XVI fixou-se na
fórma actual.

Futuro. – O nosso futuro não é propriamente
um tempo simples mas os seus elementos componentes
acham-se por tal geito soldados, que é
impossivel classifical-o nos tempos compostos, comquanto,
e bem assim no hespanhol, italiano, e
provençal, a desinencia apparente do futuro possa
ser considerada palavra independente: – port. –
far-lo-hei, hesp. hacer-lo-he, prov. dir-vos-ai, etc. 1157

Essas expressões, que se encontram desde
as primeiras phases da lingua (poder-m’edes, levar-vos-ey,
poel-os-hemos, levantar-s’am
, etc.) mostram á evidencia
a origem do futuro dos idiomas néolatinos
218que adotaram a fórma peniphrastica latina (amare
habeo = amabo
).

Port. | hei | cantor-ei
hesp. | he | cantar
ital. | ho | canter
francez | ai | chanter-ai
prov. | ai (ei) | chantar-ai 1158

Os verbos dizer, fazer, trazer, etc., perdem o z
no futuro, do que resulta a contracção regular das
duas vogaes: – dir-ei, far-ei tra-rei, correspondentes
ás archaicas – dizerei, fazerei, trazerei, etc. 2159

Só o verbo jazer conserva hoje a fórma não
syncopada – jazerei.

Condicional. – O latim desconhecia este modo.
A sua formação é indentica á do futuro, com a differença
de que formou-se do imperfeito, e não do presente, do
verbo haver (amar-ia = amar.hia = amar
havia). Corresponde ao imperf. do subj. latino.

A desinencia, i. e., o auxiliar em estado agglutinante,
tambem póde separar-se, como acontece
no futuro, deixando perceber claramente a sua
219origem: – dever-me-hias, amar-vos-hia… guysar-lh’ia
quitar-m’end-ia
, etc. (Sec. XIII.)

E’ pois propriamente um tempo composto. 1160

Imperativo. – A desinencia da segunda pessoa
do plural em todos os docs. anteriores ao Sec. XIV
era invariavelmente em – de (= 1. te): – fazede, soffrede,
querede, punhade, dizede, metede, avede, sabede,
amade, sejades
, etc., fórmas que ainda vigoraram
nos Secs. XV e XVI, mas tendo já por concurrentes
as syncopadas: – temperaae, ordenaae, sabee,
pensaae
, etc., identicas ás modernas, pois que o a e e
geminados indicam apenas a syllaba tonica.

Tambem o Imperativo conserva, como o Indicativo,
algumas fórmas relembradoras das archaicas
em de: crêde, lêde, vêde, ride, ide, tende, vinde, ponde,
sêde
.

O d persistiu geralmente: 1.° quando o thema
compunha-se de uma unica vogal (i-de, i-te); 2.°
quando, por motivo da quéda da consoante média, o
thema ficou reduzido em latim á parte inicial da raiz
ride = ri (d) ete, vê-de = vi (d) etej: 3.° quando o t
latino vinha protegido por uma nasal (tende, ponde)

Subjunctivo. – F.arch. – pres. - seiayes, ameys,
ouçayes, leáyes
(Sec. XVI); imp. – fosseyes, amasseyes,
220ouvisseyes
. As f. do futuro já se encontram no
L. Cons., em J. Claro, F. Lopes, etc.

Infinito. – E’ o portuguez a unica lingua que
tem a propriedade de dar inflexões de pessoa e numero
aos infinitos. E’ um formoso e singular idiotismo,
« que tem a vantagem de tornar o nosso
idioma mais breve e elegante ». (V. Syntaxe)

Participio presente. – O actual part. presente
port. forma-se do ablativo do gerundio latino: (ando,
endo
); mas até o Sec. XIV tirava origem no tempo
correspondente em latim, e o portuguez antigo offerece-nos
muitas amostras desses participios em – nte
ainda no Sec. XVI: – entrante aa casa; os quaes
tementes Nostro Senõr; a Sancta Escriptura de Deus
dizente; eu
temente minha morte, rompente o alvor
da manhã
(Nob. D. Pedro); as perlas imitantes
a côr da Aurora (Canc.).

Hoje estas fórmas são consideradas simples adjectivos
ou substantivos, como já a alguns delles
acontecia no latim e no port. antigo: amante, penitente,
consoante, escrevente, obediente, predominante, caminhante,
semente, tirante, nascente, … occidente,
poente, oriente, lente
, etc. A aguia mais voante, escreveu
Fereira.

Modernamente, Camillo e outros teem revivido,
e ainda bem, o emprego desses participios.

Participio passado. – Até o seculo XV, o portuguez
seguia tambem o latim na desinencia do part.
221passado dos verbos da 2.ª conj. (derivados em ã e
i, e flexão cons.)

Ex.: estabeleçudo, perdudo, metudo, perduda, tehudo,
conhoçudo, recebudo, venduda, temudo, avuda,
teuda, responduda
, etc. Só no Sec. XVI é que se introduziu
a fórma em ido por analogia da 3.ª conjugação:
– vencido, collidas, estabelecido, etc, .ou, talvez,
por haver prevalecido a vogal accentuada da fórma
completa – uitus, dando em resultado a perda do u.

Na linguagem hodierna ainda temos exemplos
da fórma archaica em teudo, manteudo, conteudo, sanhudo,
etc., mas considerados simples adjectivos,
excepto na phrase mulher teuda e manteuda.

Esses participios, ainda mesmo com significação
activa, concordaram, até o Sec. XVI, com os
substantivos em genero e numero: quantas culpas tinham
commettidas (F. M. Pinto), serviços que lhe
tinham
feitos (F. Lopes), tambem tinham mortos
muitos e bons soldados (Pr. L. de Souza) 1161

No portuguez antigo era de uso frequente o
participio do futuro (envolvedouro, enxugadouro,
esperadouro, miradouro, travadouro, escorregadouro
,
etc.), de que subsistem apenas algumas fórmas,
mas como adjectivos ou substantivos: – duradouro,
bebedouro, espojadouro, ancoradouro, lavadouro, matadouro,
suadouro
, ete. Estes substantivos ainda indicam
uma acção futura.222

O part. do futuro era tambem expresso no portuguez
antigo por uma fórma em – ondo (recebondo
= capaz de receber, etc.), da qual conservamos
vestigios em – nefando, execrando, miserando, venerando,
educando
, … Francisco Manoel do Nascimento
ainda empregava essas fórmas, e mui frequentemente;
hoje, porém, tem cahido em desuso, e
são substituidas pelas em – avel, (execravel, miseravel
invejavel, admiravel
, …)

5 . – Muitos verbos portuguezes teem dous participios,
um regular e outro irregular. Este em geral,
é fórma contracta ou mais conchegada á latina
correspondente.

Primeira conjugação

Aceitado, | aceito.
Affeiçoado, | affecto.
Agradado, | grato.
Annexado, | annexo.
Apromptado, | prompto.
Captivado, | capto.
Cegado, | cego.
Descalçado, | descalço.
Entregado, | entregue.
Enxugado, | enxuto.
Exceptuado, | excepto.
Escusado, | escuso.
Expressado, | expresso.
223

Expulsado, | expulso.
Findado, | findo.
Fixado, | fixo.
Fartado, | farto.
Ganhado, | ganho.
Gastado, | gasto.
Ignorado, | ignoto.
Infestado, | infesto.
Isentado, | isento.
Juntado, | junto.
Limpado, | limpo.
Livrado, | livre.
Manifestado, | manifesto.
Matado, | morto.
Misturado, | mixto.
Molestado, | molesto.
Occultado, | occulto.
Pagado, | pago.
Professado, | professo.
Quietado, | quieto.
Salvado, | salvo.
Secado, | secco.
Segurado, | seguro.
Sepultado, | sepulto.
Soltado, | solto.
Sujeitado, | sujeito.
Suspeitado, | suspeito.
Vagado, | vago.
224

Ha alguns archaicos: – rapto (Camões, Fr. L.
de S., Sá Menezes, etc.), e hoje só subst. ou adj.;
boto = embotado (Ferr. Poem. Lus. Son. 41), etc.;
volto = voltado, etc…

Segunda conjugação

Absolvido, | absoluto, | absolto.
Absorvido, | absorto.
Accendido, | acceso.
Agradecido, | grato.
Attendido, | attento.
Comido, | comesto (ant.)
Conhecido, | cognito.
Contido, | conteúdo (ant.)
Convencido, | convicto.
Convertido, | converso.
Corrompido, | corrupto.
Cozido, | couto.
Defendido, | defeso.
Descrevido, | descripto.
Elegido, | eleito.
Enchido, | cheio.
Envolvido, | envolto.
Escurecido, | escuro.
Estendido, | extenso.
Incorrido, | incurso.
Interrompido, | interrupto.
Mantido, | manteudo (ant.)
225

Morrido, | morto.
Nascido, | nato.
Pervertido, | perverso.
Prendido, | preso.
Recosido, | recouto (arch.)
Reconhecido, | recognito (ant.)
Resolvido, | resoluto.
Retido, | retento.
Revolvido, | revolto.
Rompido, | roto.
Submettido, | submisso.
Suspendido, | suspenso.
Tido, | teudo (ant.)
Torcido, | torto.
Volvido, | volto (ant.)

Além destes participios, ha arrepeso, de arrepender;
colheito, de colher; comesto, de comer; concesso,
de conceder; cozeito, de cozer; despeso, de
despender, etc.

As segundas são fórmas syncopadas ou contrahidas das regulares.
São de origem erudita, em geral, e conservaram-se como adjectivos
verbaes; e é esta a razão por que as primeiras conjugam-se com os aux. ter
e haver, e estas principalmente com ser e estar. (Dissoluto devoluto,
difuso afflicto
, etc.)

Terceira conjugação

Abrido, | aberto.
Abstrahido, | abstracto.
Affligido, | afflicto.
226

Assumido, | assumpto.
Cobrido, | coberto.
Compellido, | compulso.
Concluido, | concluso.
Circumduzido, | circumducto.
Diffundido, | diffuso.
Digerido, | digesto.
Dirigido, | directo.
Distinguido, | distincto.
Dividido, | diviso.
Encobrido, | encoberto.
Erigido, | erecto.
Excluido, | excluso.
Exhaurido, | exhausto.
Eximido, | exempto.
Expellido, | expulso.
Exprimido, | expresso.
Extinguido, | extincto.
Frigido, | frito.
Imprimido, | impresso.
Incluido, | incluso.
Infundido, | infuso.
Inserido, | inserto.
Instruido, | instructo.
Opprimido, | oppresso.
Possuido, | possesso.
Repellido | repulso.
Repremido, | represso.
227

Submergido, | submerso.
Supprimido, | suppresso.
Surgido, | surto.
Tingido, | tinto.

6. – Muitas das fórmas irregulares dos participios
são hoje desusadas: – rapto (de arrebatar), boto
(de botar), vôlto (de voltar), absoluto (de absolver),
colheita (de colher), comesta (de comer), concesso
(de conceder), coseito (de cozer), despezo (de
despender), escolheita (de escolher), reprehenso (de
reprehender), tolheito (de tolher), acquisito (de adquirir),
assumpto (de assumir), cincto (de cingir),
digesto (de digerir), extorto (de extorquir.), instructo
(de instruir), escrevido (de escrever), nado (de nascer),
etc.

7. – Muitos desses participios irregulares são
hoje subst. ou adj. verbaes; e o seu estudo é de interesse
porque nos mostra evidentemente a influencia
do accento latino na formação do nosso idioma
acto, colheita, escripto, jacto, annexo, feito, reducto,
digesto, contracto, progresso
, etc…

[Quarta conjugação]

8. – A quarta conjugação. – O typo desta
conjungação é o verbo pôr (arch. poner ant. pôer =
lat. ponere). Pertencia á 2.ª até o Sec. XVI, mas
a quéda do n e a consequente acção do o sobre
o e obrigou a creação de um novo paradigma
em or.228

Thema pon
Ponh-o
Poe-s
Põe
Po-mos
Pon-des
Po-em

O n nasalou-se ao passar para o portuguez, molhando-se
por fim na 1.ª p ss. sing. (nh). Deu-se o
mesmo que com ter, vir, etc. (tenho, venho = lat.
teneo, venio).

Já vimos na phonologia que antes do e e do i palatal e n e o l molham-se.

Os antigos escreviam põemos, põeis, põeem. 1162

No imperfeito apresenta o verbo pôr flexão já
particular aos verbos ter, vir: – punha, punhas, punha,
punhamos, punheis punham
(Cp. tinha, vinha,
etc.) A fórma antiga era pónia, o i palatal foi representado
graphicamente pelo h (ponha). 2163

No Imperf. e perf. do Indic. e no subj., pres. o
o do radical muda-se e m u – punha, puz, puzesse.
Esta transformação era f requente principalmente
quando o o era longo (furar = forare, cumprir = complere,
tudo = totum, etc.), assim como o era a do e
em i (tinha, vinha).

A 1.ª pessoa do pret. perf. é a que apresenta
229mais desvivação (lat. possui, -sti, -t), mas é preciso advertir
que ella passou por varias transformações até
fixar-se: – pusy (pusi), puge, pugy (pugi), pose, pôs,
pús
(Sec. XIV.).

Part. passado – posto = l. pos (i) tum.

A quarta conjugação formou uns 24 verbos, mas hoje devemos consideral-a
esterilisada, morta.

[Verbos irregulares]

9. – Venhamos agora aos verbos irregulares.

Primeira conjugação

Esta conjugação tem apenas dous verbos primitivos
irregulares: – estar e dar. Todos os mais (como
encommendar, sobreestar, etc.) são com elles compostos,
e seguem o mesmo paradigma.

Dar. – (= l. dare). – Ind. pres. – dou, dás, dá,
damos, dais, dão
= lat. do, das, dat, damus, datis,
dant. –
Pret. perf.: – dei deste, deu, demos, destes,
deram
= lat. dedi, dedisti, dedit, dedimus, etc. – Subj.
pres.: – dê, dês, demos, deis, deem = lat. de-m, de-s,
de-t, de-mus, de-tis, de-nt
.

Formou-se pois regularmente pelo molde latino,
sendo apenas de notar a quéda do d medio (daes =
da-t-is, demos = de-d-imus, deste = de-d-isti, etc.

Estar. – (1. estare). Formou-se do mesmo modo
que o verbo ser. Ind. pres. – estou, estás, está, etc.
= 1. sto, stas, stat, etc.; Pret. perf. – estive, estiveste,
esteve
, etc. = esteti, . etc. Subj. pres. – esteja, estejas,230esteja, etc. formado por analogia com seja; Subj.
imp. – estivesse, estivesses, etc.

Da terceira pess. sing. do pret. imp. do Ind.
acha-se a fórma sia (e o dito Juiz que presente sia perguntou
– XIV Sec. Rib. Diss.); no Subj. pres. fazia
estê, estes, estê, estemos, esteis, estêm, correspondentes
ao latim stem, stes, stet, etc.; mais tarde – sia, siades,
etc… Aquellas fórmas ainda eram as empregadas por
S. de Miranda e Camões. Em Miranda não se encontram
as modernas esteja, estejam; Camões foi o primeiro
a empregal-as. – Cfr. gall. estea e estia,-sea,
sia
.

Os verbos acabados em ear intercalam um i
entre as duas vogaes thematicas nas tres pessoas do
sing. e terceira do plural do pres. do Ind. e do Subj.,
e na segunda sing. do Imperativo: – discretear, discreteio,
discreteias
, etc. Esta intercalação, porém,
não é forçosa; e muitos indicam o alongamento do
e por um accento circumflexo (discretêo), assim como
alguns escrevem o Infinito com i (ceiar, discreteiar)
cessando assim a irregularidade.

Crear só é irregular no pres. do Ind. e do Subj.
crio, crias, cria, criam, crie, cries, etc. 1164

A irregularidade das segundas pessoas do Ind.
pres. estende sempre ás do Imperativo.231

Segunda conjugação

Caber (lat. capere, tomar) 1165 Ind. pres. – caibo,
cabes, cabe
, etc… A 1.ª pess. formou-se regularmente
de capio. Pret. perf. – coube, coubeste, coube,
etc. Coube p. caube = lat. capui, e esta transformação
deu-se nos perf. latinos em ui: – soube (sapui),
prouve (plabuit), houve (habuit), poude (potui),
trouxe ant. trouve (lat. vulg. tracsui traxi), e na f.
arch. jouve, jougue (= l. jacui).

Crêr (ant. creer = lat. crédere 2166) Ind. pres.
creio, crês, crê, etc. = l. credo, – es, – et, etc.,
pela quéda da consoante média, que só se conservou
na 2.ª pess. plural do lnd. e do Imp., para evitar
equivoco com a do sing. (crêdes, crêde). – Ind.
perf. – cri, crêste, creu, etc., de credidi, etc., contrahido
regularmente em cre’di, donde (pela quéda
do d médio) – crei, creiste, etc., port. ant.
(Sec. XVI), crii (e bem assim lii, corrii, vii, etc.)

O i epenthesico em creio serve para evitar a
diphthongação. (Cp. leio, etc.)

Imp. – crê, crêde.

Dizer (= 1. dicere). – Ind. pres: – digo, dizes,
diz
(ant. dige), etc. = 1. dico, dices, etc. Pret. perf.
232– disse, disseste, disse, etc . (ant. dii, dixe, dixeste,
f. pop. mui frequentes nos escriptores do Sec. XVI)
= l. dixi, dixisti, dixit, etc. – O futuro e o condicional
formaram-se com a fórma atrophiada do Infinito
(dir); – direi, -ás, -á, etc., diria, -as, etc. No
Sec. XVI ainda se encontram as fórmas completas
dizerei, dizeria. Part. pass. – dito = l. dictus.

Diz por dice disse (Sec. XVI) como plaz. p. plaze,
etc. Diz que por dizem que. (S. de M.)

Fazer (lat. facere) – Ind. Pres. – faço, fazes,
faz
, etc. = l. facio, faces, facet… Fais p. fazes,
Sec. XVI: olha o que fais (S. de Mir.) A 1.ª pess. sing.
conservou o c, em consequencia do i da fórma latina
(facio). – Pret. Perf. – fiz, fizeste, fez, fizemos, …
= lat. fecit fecisti fecit, … A 1.ª pess. sing. mudou
o e thematico em i para distinguil-a da 3.ª; a 2.ª do
sing. e as do plural adaptaram o i por analogia.
O futuro – (farei, – ás, etc.) e o condicional (faria,
-as
, et c .) eram tambem (como nos verbos dizer
e trazer) insyncopadas até o Sec. XVI (fazerei,
fazeria
).

Haver (haber, lat. habere) – Ind. Pres. – hei,
has, ha, havemos
(hemos), haveis (heis), hão = lat. habeo,
habes, habet, habemus, habetis, habent
. (Ha-b-eo =
hai, hei; ha – be – nt = han, hã, hão) – Pret. perf. –
houve houveste, etc., = 1. habui, habuisti, habuit, …;
arch. oube, ouve, ouvo (Trov. e Cant.), uvi, uveste
(D. Diniz); ovi, ove (Rib . diss.) – Subj. pres. –
233fórma-se do tempo correspondente latino: – haja
(ha-b-eam), hajas (ha-b-eas), etc.; Sub. Imp. – do
mais que perf. latino: – houvesse (habuissem), houvesses
(habuisse), etc.

No port. ant. o infinito não tinha h inicial
(aver), e d’ahi – avees, aveeyes, avede, etc.

Part. pass. – havido (= l. habitum); ant. havudo
= l. barb. habutum.

Heis p. haveis no futuro, e hemos p. havemos, etc., é do Sec. XVI,
bem como tambem hia p. havia. no modo condicional:-se os ódios antre vos
crescem comer vos heis a bocados; Si la deuda acaso es nuestra Pagar la hemos
sin dineros; sen ela ter se
hia mal.

Jazer (l. jacere) . – Ind. pres. – jazo (ant. jaço),
jazes, jaz, etc.

A primeira pess. é desusada. – Pret. perf. –
jazi, jazeste… (= jacuit, etc.), é fórma mod.; a antiga
é jouve, jouveste, etc., por jougue (l. jaukit p.
jacuit). Cfr. prouve.

Jater era verbo muito usado antigamente (até
o Sec. XVI), no sentido de estar, estar situado, assentado
ou deitado, de permanecer na mesma posição, etc.

A moça ensinou mais
simpreza santa e jouve,
e chorando em terra um tempo, perdão houve.
M. Eg. Encant. 502.

Serrana onde jouveste ?
Vilancet VI.

Tudo espirito e tudo é vida
mal jará a morte escondida.
(Id. xxii.)

Cai onde ora Jacó.
S. de M. Son.
234

Ler (ant. leer = l. légere). – Conjuga-se por
crêr. Leio, lês, lê, … = le-(g)-o, le-(g)-es, le-(g)-et, …;
li, leste, leu, … = le-(g)-i, le-(g)-isti, le-(g)-it, …; lêde
= le-(gi)-te.

Perder (lat. Pérdere). – Ind. pres. – perco,
perdes, perde
, etc. = l. perdo, perdes, perdet, …
A mudança do d. latino em c (1.ª p. do sing.) é rara;
todavia della temos amostras (ant. arcer = arder).

Poder (lat. pótere) – Ind. pres . – posso, pódes,
etc. = l. possum, potest, potet, … Ind. perf. –
pude, pudeste, poude, etc. = l. posui, posuisti, posuit, …
No port. ant. as fórmas das primeiras pess. sing. do
pres. afastavam-se da latina e seguiam o thema do
Infinito: – podi, pude (D. Din.), puyd, pude (Tr. e
Cant.); a terceira pess. fazia podo, pudo (G. Vic.
etc.)

Não tem Imperativo, comquanto em alguns
classicos se encontrem exemplos do seu emprego: –
Si quereis ser omnipotentes podei só o justo e o licito.
(Vieira).

Prazer (l. plácere) – Ind. pres. – praz, (ant.
plaz); Ind. perf. – prouve p. prouge (placui). Cp.
caber, trazer.

Era frequente o emprego das fórmas plougue,
etc., Inf. plazer (Liv. de Linh., Ord. Aff. etc.);
mais tarde – prouguer, prouguesse. Só no Sec. XV
é que appareceu pela primeira vez a fórma actual
prouve, mas a par de plouge.235

Este verbo é hoje unipessoal: no port. antigo,
até o Sec. XVI, só do part. pass. é que não ha exemplos:
assi te praza que seja, prazerá a Deus, si
prouver, prouvéra, prouvesse, prazendo
, etc.

Tambem empregavam-no interrogativamente,
quando se desejava se repetisse o dito por o não
haver entendido (= f r. plaît-il ?)

Querer (lat. quaerere) – Ind. perf. – quiz,
quizeste, quiz, etc. Quiz é fórma abreviada das antigas
quigi, quigo, quizo, que no Sec. XVI escrevia se
quis. – Subj. pres. – queira, queiras, etc.

Não tem Imperativo, posto o houvesse empregado o
Padre A. Vieira (Serm. IV. 297): – queirei
só o que podeis.

Quês é f. pop. contrahida de queres (S. de Mir.
G. V.); Cast. quies p. quieres; gall. quês. Quei p.
querei, nos Autos de Prestes.

Requerer (lat. requirere) – Ind. pres. – requeiro,
requeres, requer
, etc… O i da primeira pess.
sing. foi intercalado para reforçar a vogal thematica.

Saber (lat. sapére) – Ind. pres. - sei, sabes,
etc.; Ind. perf. – soube, soubeste, etc. (Cp. coube,
houve
); Subj. pres. – saiba, saibas, etc. (l. vulg.
sapeam, saepam).

Sei (Cp. hei) é f. contr. de sabi (sa-b-i).236

Ser (f. rom. essere = l. esse 1167) – Forma-se como
em latim de duas raizes – es e fu.

A 1.ª fórma:

1.° – O presente e o imperfeito do Indicativo
sou (sum), és (es), é (est), somos (sumus),
sois (são).

2.° – O futuro e o condicional: serei seria.

3.° – O Imperativo – sê, sêde = es-se, es-sete,
ou de sedere.

4.° – O Subj. pres., que se não formou do
tempo correspondente no latim (sim, sis, sit, etc.)
mas das fórmas archaicas – si-em, si-es, si-et, si-amus
si-a-tis, si-ent
.

5.° – Participios - sendo, sido. O presente =
lat. sens, entis que só apparece nos compostos (absens,
prae-sens), port. arch.: - seente; o passado
formou-se analogicamente, e não havia em latim.

A raiz fu fórma:

1 .° – O pret. perf. e mais que perfeito do Ind.
– fui, foste, foi, fomos, fostes, foram = lat. – fui
fuiste, fuit, fuimus, fuistis, fuerunt; fôra, fôras
, etc.
= fueram, fueras, fuerat, …

2 .° – O Imp. e futuro do Subj. – fosse, fosses,
fosse
, etc. = lat. fuissem, fuisses, fuisset, etc. O futuro
237deriva do infinito futuro latino – fore (amatum
fore, illud spero, me fore immortalem
. (Cic.)

Fórmas archaicas. – Comparando a conjugação
latina com o arch. port. torna-se mais manifesta
a identidade de fórmas.

Ind. pres. – 1.ª pess. sing. sum, som, soon, sôo,
sam, san
(D. Diniz, Liv. de Linh., C. Rez., Sá de
Mir., G. Vic., etc.), soon (Canc. d’Ajuda), soõ (Canc.
da Vat.), são, sejo (Cancs., G. Vic.) Son apparece pela
primeira vez em um doc. de 1265.

São p. sou tambem foi empregado por Sá de Miranda
e Camões; e hoje ainda é usual entre os Minhotos.

Na 3.ª p. é de notar a fórma est a par de é nos
autores do xiii e xiv Secs., que parece mais era
usada antes de palavra que começava por vogal: –
est o praso salido; est o meu sen (D. Din.) . Em B. Rib.
(men. e moça), Moraes, Palm etc., encontra-se eres
em vez de és. E’s por fim reduziu-se em é por ser
o s caracteristico da 2.ª pess., e assim fixou-se a
fórma.

No plural, a 1.ª pessoa fazia tambem sumus (somos);
a 2.ª era soedes, sooes (L. Cons.), sodes, (Fr. J.
Claro e G. Vic., em cujas obras tambem se encontra
a fórma sondes), até que com J. de Barros apparece
a fórma actual – soes (= so-d-es).

Aqui houve completa desviação do typo latino
estis: a fórma port. moldou-se na correspondente
238latina do Subj. – sitis. A 3.ª pess. passou por varias
evoluções: – sunt (Sec XIII), sum, som, son, sam
(Sec. XIV, R. de. S. B., Rib. Diss., Gane d’Aj., Trov.
e Cant.), são (já usada no XIV Sec.).

No pret. imp. é de notar a 2.ª p. pl. – erades =
l. eratis, depois erais. (Ereis data do Sec. XVI), e a
fórma sia, como se vê de docs. do Sec. XIV, para a
3.ª (e o juiz que presente sai – era – perguntou).

Esta ultima fórma explica-se pela synonymia
entre esse, stare e sedere. Sia e seia p. siia (lat. sedebat),
imp. de seer (sedere) – em Sá de Miranda;
Cp. mais sé, see sei p. é, – fórmas muito usadas antigamente
(eu sejo, tu ses, elle see, sei, etc., Sá de
Miranda, G. V.): – tu que sês na celda, qual fizeres
tal espera
(Prov. pop), quem bem see nam se leve,
vê o mar e sê na terra
(Id.); seiaya, seiayes, etc. =
ereis (Sec. XVI).

O pret. Perf. tem a fórma seve por fui, que se
encontra no Canc. de D. Diniz, a par de foy, fuy,
fui. Fu
(Fóros do Cast.), fui (doc. 129), fou (doc.
1310), foe (Fr. J. Claro).

O subjunctivo apresenta fórmas mais encostadas
ás latinas = siades (sejaes), seiaya, seiayes, seiaces
(Sec. XVI); focedes (J. Cl.), etc.; e no
futuro-sever, severim (F. da Guarda 401, 422).

No infinito, além das fórmas seer, soer (C.
Vat.), que fez com que alguns acreditem deriva a
1.ª de sedere e a 2.ª de solere; temos o part. pres. –
seendo (Cp. tendo), seente.239

Soer (soher, lat. solere). Hoje quasi obsoleto,
era comtudo regular e de uso frequente no Sec. XVI:
o silencio que sohe encobrir a tristeta; Portugal
já não é o que d’antes ser
sohia; do que soi (por soe)
acontecer.

Ter. E’ reproducção do verbo latino tenere, e
serviu, em alguns tempos, de typo para o verbo
estar (estive, estivesse, …)

Ind. pres. – tenho, tens, tem, temos, tendes,
teem
(têm) = lat. teneo, tenes, tenet, tenemus, tenetis,
tenent
; – imp. – tinha, tinhas, etc. = tene (b) am,
etc.; perf. – tive, tiveste, teve, tivemos, etc. =
te-(n)-ui, te-(n)-uisti, etc.; imper.-tende, (tenete);
Subj. pres. – tenha; imp. – tivesse; part. pass. –
tido, arch. – teudo (tenetum).

A fórma do imp. Ind. era em ades para a 2.ª
p. pl. (tinhades), como era regra geral na conjugação
até o Sec. XVI (queirades, façades).

No pres. e imp. Ind. e pres. Subj. o n latino
molhou-se (V. Phonetica), mas nos antigos textos
encontram-se esses tempos sem o n (teeya a par de
tinha, etc.).

No port. ant. raro permutou o e thematico em i
(eu teve, tevera, teverom, teeya, tevesse, tendo, …).

Trazer (ant. traeer, trager, traxer do lat.
trahere). Ind. pres. – trago, trazes, traz, trazemos,
etc. = lat. traheo, – es, etc. O g da 1.ª pess. sing. é
vestigio da ant. f. do Inf. trager, que – consequentemente
240estende-se ao pres. do Subj. – No Sec.
XVI, por motivo da fórma traer do Inf. – diziam
traio, traia, p. traigo, traiga (trago, traga).

Pret. perf. – trouxe, trouxeste, etc. = l. traxi,
l. vulg. tracsui. Até o Sec. XVI as f. usadas eram
traje, trajo, alternando com truje, trujo, trouve (por
trougue – tracuit; Cp. houve, jouve, = jacuit, prouve
= placuit), trouge (gall. trougue), troverão, trouvesse
(L. Linh.), etc.

Só no Sec. XVII é que se fixou a fórma do
Infinito. Futuro – trarei, etc.; ant. trazerei, etc.

Valer (l. valere) – Ind. pres. – valho, vales, etc.
= lat. valeo, …; port. ant. valo, vales, Val (Sec. XVI).
– Sobre o lh da 1.ª pessoa, Vide Phonetica.

Vêr (ant. veer = lat. vidére). – Ind. pres. – vejo,
vês, vê
, etc. = lat. video, vides, etc. Quanto ao
j da 1.ª pess. (e consequentemente das do Subj.
pres.) Cp. – hoje hodie, inveja invidia, haja habeam,
granja granea, etc.

Pret. perf. – vi, viste, viu, vimos, etc. = vida, vidisti,
vidit
, etc., port. ant. – vii, viisti, viimos, … A 3.ª
pess. sing. fez viu para não se confundir com a 1.ª, e
de accôrdo com a theoria da nossa conju gação.

Vim p. vi é galleguismo que se encontra em escriptos
do Sec. XVI.

O d. latino conservou-se na 2.ª p. pl. do pres. do
Ind. (vêdes) 1168 e (como em outros verbos) quando
241elle acha-se protegido por um r ou n (virdes, terdes
vindes, tendes, pondes).

Part pass. – visto.

O verbo prover, derivado de vér, fazprovi, proveste,
provemos, provestes, proveram
, e o part. pass. – provido.

Poer – V. pgs. 228 e 247.

Arder fazia arço (= ardo) ainda no Sec. XVI.

Terceira conjugação

Cahir (lat. cadere) – Ind. pres. – caio, caes,
cáe, cahimos
, etc. A anomalia está sómente na intercalação
euphonica do i (ca-d-o, cáo, caio).

Seguem a mesma conjugação – sahir e trahir.

Cortir – Ind. pres.. – curto, curtes, curte, cortimos,
cortís curtem
. A mudança do o do radical em
u tem a conveniencia de as pessoas se não confundirem
com as do verbo cortar (corto, cortes, corte, cortem),
mas não constitue propriamente uma desviação
porque o infinito era curtir, ainda hoje por muitos
empregado.

Seguem esta conjugação os verbos ordir e sortir,
que tambem não podem ser considerados verdadeiramente
irregulares, pois tinham outra fórma de
infinito – urdir, surtir, como se lê em alguns classicos.

cobrir (lat. cuperire) – Ind. pres. – cubro, cobres,
cobre
, etc. A irregularidade é tão sómente na
2421.ª pess. sing. (e consequentemente nas do Subj.
pres.), para evitar equivoco com a do verbo cobrar
(cobro); mas que se dá em todos os verbos cujo o da
raiz é seguido dos grupos br, rm (cobrir cubro, dormir
durmo).

Tinha tambem um infinito em u (cubrir), e por
isso diziam os antigos – elle encubre, cubre tu, descubre,
etc. (M. Bern., Ferr., D. Nunes, etc.)

Segue a mesma conjugação – dormir (lat. dormire,
durmo
dormio, dormes dormis, etc.).

Ir (lat. ire). – Este verbo completa a sua conjugação
com o verbo arch. port. var (= lat. vadere) e ser.

Ind. pres. – vou, vás, vae, vamos (imos), ides
(ant. vades), vão = vado, vadis, vadit, etc. Vado, pela
quéda do d = vao, d’onde vou.

Ind . imp. – ia, ias, ia, ia mos, ieis, iam; perf.
fui, foste, foi, etc.; Imperativo – vae, ide; Subj.
pres. – vá, vás, vá, etc .; Subj. imp. – fosse, fosses,
etc.; vas, p. vais; ve vee p. vay ant. fórma de va;
Imperativo, ainda são fórmas de Sec. XVI.

Medir (lat. metiri – metior) – Ind. pres. – meço,
medes, mede, medimos
, etc. = l. metior, metiris, etc.

Na 1.ª p. sing. muda o d em c brando, mas
a fórma ant. era mido (Cp. arch . arco = ardo,
peço pido, despeço = despido, etc. 1169). Essa mudança
243nota-se tambem nas pess. do Subj. pres. que, como
já dissemos – tomou, em regra, para typo a 1.ª
sing. Ind. pres. – eu meça, meças, meça, etc.; port.
ant. mida (id. pida, etc.)

Segue pois esta conjugação o verbo pedir.

No Sec. XVI ainda imperavam as fórmas regulares:
despida-se Vossa Alteza dos livros; eu vos despido
ou me despido de vós
(Vieira), e D. N. de Leão
assim recommenda que se escreva e pronuncie (pido,
pides, impido
, etc.).

Ouvir (lat. audire) – Ind. pres. 1.ª p. sing. ––
ouço, ouves, … = audio, audes, … Sub. pres. – ouça,
ouças
, etc. A divergencia explica-se pela razão já
indicada (di lat. = ç – audio, ouço).

Em Gil Vicente, – oivo = ouço, ouvamos = ouçamos,
o que prova eram aquellas fórmas populares.

Pret. perf. Ind.: ouvi, ouviste, ouviu, etc. = au(di)-vit,
au-(di)-visti, etc.

Remir (redimire). – Ind. pres. – redimo, redimes,
redime, remimos, remís, redimem
; Imperativo – redime,
remí
. A actual irregularidade é devida á contracção
do Infinito redimir.

Rir (l. v. ridere). – Ind pres. – rio, ris, ri,
rimos, rides, riem
= l. p. ridi, ridis, etc.

Só conservou o d etymologico na 2.ª p. pl. do
pres. Ind. e na do Imperativo (rides, ride).

Sahir (saír = l. salire) – Saio = salio, etc.
V. cahir.244

Seguir (l. b. sequere, Prisc .). – Na 1.ª p. sing,
pres. Ind. faz sigo, ant. siguo = la t. sequo.

Sentir (l. sentire). – Soffre a mesma mudança
que seguir: – sinto = sentio.

No Sec. XIV prevalecia a fórm a em e – sento,
senta
; no XVI todo o paradigma era em i – sinte,
sintem, sentistes
, etc. 1170

Vir (f. contr. de venire) – Ind. pres. – venho,
vens, vem, vimos, vindes, veem
(vêm) = l. venio, venis
(n = nh, Cp. pôr, ter); Ind. imp. – vinha, vinhas,
etc.; Ind perf. – vim, viestes, veio, viemos, viestes,
vieram
= 1. veni venisti venit, …

Imperativo – vem, vinde.

A 1.ª pess. sing. pres. Ind. – vim, passou pela
fórma intermediaria ven; vieste = venistí pela f. interm.
veiste.

O part. pass. seguiu o typo latino – ventum, e
d’ahi o ser identico ao presente.

Vir – Ind. pres. – venho, vens, vem, vimos,
vindes, vem
(veem); Ind. imp. – vinha, vinhas, vinha,
vinhamos, vinheis, vinham
; Ind. perf. – vim,
vieste, veiu, viemos viestes, vieram
; Imperativo –
vem, vinde.

Accudir, bulir, construir, consumir, destruir,
cumprir, engulir, fugir, sacudir, subir, sumir, tusszr

(tossir), mudam o u do radical na segunda e terceira
245pess. do sing. e terceira do plural – (acodes,
acode, acodem
).

Dá-se essa mudança – e consequentemente
na da segunda pess. sing. do Imperativo – quando
o o é seguido de b, d, g, l, m, p, ss, sp, st.

Os antigos monumentos, porém, não apresentam
esta irregularidade na conjugação: – acude
tu, elle acude, elle destrue, tu destrues, elle fuge,
sube, construe
, etc.

Advertir, aggredir, perseguir, prevenir progredir,
transgredir
, etc., mudam em todas as tres
pessoas do sing. e terceira pessoa do plural, e
consequentemente nas do Subj. – o e thematico
em i, como tambem em sentir. São irregulares tão
somente por essa mudança de lettras, que mais
se nota nos autores clássicos; e tambem era
frequente no i em e: – advirte, comptte, consinte,
minte
, etc., e menta p. minto, persigue, prosigue,
sinte, sigue, sirve
, etc.).

Geralmente mudam o e em i quando aquella
vogal vem precedida de f, g, p, r, nt, sp, st (confiro,
dispo, firo, frijo
, 1171 visto, etc.).

– As fórmas verbaes em uz da 3.ª pessoa sing.
Ind. pres. (conduz, induz, etc.) eram regulares –
elle induze, luze, produze, reduze, traduze. Deu-se
o mesmo que com as fórmas nominaes em az, iz, oz,
246uz, – capace, felice, veloce, etc., que se transformaram
em capaz, feliz, veloz. Parece, porém, que a
apocope do e foi feita muito de industria para evitar
a equivocação entre a 3.ª pess. do sing. pres . Ind. e
a 2.ª sing. do Imperativo (faz faze, traz traze, diz
dize
, etc.)

– As irregularidades da 3.ª p. plural Ind. perf.
estendem-se ás fórmas do plus quam perfeito e do
Sub. imp., e futuro: – trouxeram, trouxera, -as, -a,
etc.; trouxesse, -s, -e; trouxer, trouxeres, etc.

Advertencia. – A defectividade dos verbos
não basta para classifical-os entre os irregulares,
nem tambem as divergencias graphicas tendentes á
conservação da mesma pronuncia em todos os
tempos.

Ex.: – Nos verbos acabados em car, a mudança
do c em qu (calcar, calque, calquemos); nos em
gar, a intercalação de um u entre a guttural e a
vogal thematica (galgar, galgues, galguem); nos
terminados em ger, gir, a troca do g pelo j antes
de a e o (rejo, corrija); a perda do u nos verbos em
guir, antes de a e o (distingo, distingas), etc.

Quarta conjugação

Hoje não se póde negar a sua existencia. Data
do Sec. XVI pela degeneração phonetica do verbo
poer (l. ponere).247

Comparando-o no presente do indicativo com
as fórrnas correspondentes no latim, vê-se claramente
que as irregularidades são apparentes.

ponho | poneo
pões | pones
põe | ponet
pomos | ponemus
pondes | ponetis
poem | ponent

No imp. são particulares as flexões: – punha,
as
, etc., com deslocação do accento e mudança da
vogal do radical (Cp. ter, ver – tinha, via; vir
vinha
, etc.) A fórma primittiva era pónia; a deslocação
da tonica foi para melhor conservar o n
thematico, que sem isso teria cahido como aconteceu
no infinito; o molhar-se o n quando seguido de i
palatal era facto frequente.

Prep. perf. – puz, puzeste, poz, etc. = arch.
puge (pugi, pugy), pôs, pose, pusy, pus, etc. (Sec. XIV
= lat. posui, -sti, -t.

Part. pass. – posto = l. positum.248

Decima setima lição
Formação das palavras em geral. – Composição por prefixos…

Formação das palavras em geral. – Composição por prefixos
e por juxtaposição. – Estudo dos prefixos.

1. São dous os processos empregados para a
formação das palavras: – composição e derivação.

As palavras compostas indicam periodo adiantado na historia de uma
lingua; uma differenciação progressiva. E, de feito, para que com duas
palavras se possa formar uma terceira sinceramente determinada na fórma
e no sentido, é preciso que aquellas tenham significação já bastante clara
e definida. “A differenciação ainda mais se accentúa quando a idéa contida
no composto fixa-se e define-se de modo tal que não mais conserva relação
alguma com os seus primeiros factores, a ponto de perderem a significação
independente, e só terem sentido quando reunidos.” 1172

2. – A palavra composta fórma-se de dous ou
mais termos, dos quaes só um exprime a idéa principal,
que é determinada ou precisada pelos outros.

O termo determinante póde ser:

1.° Um prefixo: – infiel.

A esta composição por prefixos, – que fórma
substantivos e adjectivos, e principalmente verbos –,
249devemos a persistencia de muitos vocábulos: – convergir,
demolir, disparate, explorar, irrupção
.

2.° – Um substantivo ou adjectivo: – arco-iris,
planalto.

3.° – Nas palavras desta ultima categoria os
elementos podem estar apenas juxtapostos e ainda
distinctos, ou fundidos e representados por um simples
signal unitario: – arco-iris, madre-silva, cantochão,
ponta-pé, couve-flor, … aguardente, vinagre, bicouto,
planalto, botafóra
, …

No primeiro caso o substantivo apresenta idéa dupla; no segundo,
só uma transparece, – que é a do objecto “em toda a extensão de suas
qualidades.” E, assim como o substantivo simples, perdendo a sua significação
etymologica, acaba por corresponder inteiramente á idéa do objecto,
tambem nos compostos o determinnnte e o determinado desapparecem para
melhor representarem uma image m ou idéa unica. O composto torna-se
simples. 1173

4. – As palavras acham-se pois juxtapostas
quando, representando uma idéa unica, conservam
todavia em suas fórmas e vida propria, o mesmo
valor que teem quando separadas (νεα πολις), agri-cultura,
dies dominica, amor proprio, padre familias

(Sec. XIV), um cara dura, espalha brasas, tranca ruas,
pintamonos, tocartintas, ichecorvos
(impostor, ocioso,
Sec. XV).

Os juxtapostos tendem por fim á unitariedade
do signal graphico, á simplificação da fórma: –
vinagre = vinho acre (agro) = lat. vinum acre,
250carafuz
= cara fusca, um capemcólo = um capa em
collo, 1174 qualquer (Sec. XIII) = en qual tempo quer (F.
de Gravão), qual- xiquer (F. da Guarda, Ined. Hist.
Port. Tom. 5), ervoada (Sec. XV p. arvoada, hoje na
ling. vulgar avoada), etc.

O portuguez não rejeitou esse processo do
latim, classico e popular, de exprimir a idéa sem preposição
clara: – ferrovia, pontapé, o ministerio
Rio Branco, a casa Norton
& C.ª, Collegio Alberto
Brandão, tinta Monteiro, cerveja Logos
, etc… Essa
pratica: porém, não é tão extensa como se suppõe,
e o regimen vem geralmente precedido de preposição
(em, de): – bicho de seda, sala de jantar, bacharel
em lettras
, etc.

Nestes juxtapostos de subordinação, devemos
arrolar certas expressões, que por metaphora mudam
de sentido e applicação: – pé de gallo, pé de morto,
rato de botica, rato d’alfandega
, etc.

Composição por prefixos

5. – Este processo é o mais rico e fecundo,
maiormente quando combinado com o da derivação.

Herdámos do latim cerca de 2.000 vocabulos,
mas por esse jus que tinham de accrescer, delles
251derivaram uns 8.000 inteiramente novos, muitos sem
correspondentes no latim.

Não temos compostos de mais de tres prefixos:
ir-re-con-ci-liavel, in-de-com-por.

6. – As particulas, quanto á sua natureza, são
preposições e adverbios: – bem (bene), mal (male),
pen pene (quasi), semi simul, bis, que quasi correspende
ao des, gr. archi, … un, uni (adv. lat. una), bis
(2 vezes), tri, ter, tres, centi, etc.; não, ne, in
(im, il, ir, pela assimilação), etc.

7. – Das particulas empregadas na composição
algumas teem vida propria, outras só existem como
elementos de composição. São pois separaveis e
inseparaveis.

São separaveis as portuguezas (prep. e adv.):
contrapor, bemdizente, …; inseparaveis, as preposições
latinas, que não se empregam isoladamente,
e em composição teem valor adverbial: – reler,
desobedecer.

Esses prefixos inseparaveis são, em regra, improductivos,
e só se apresentam em palavras tiradas
directamente do latim ou formadas por typos latinos. 1175
Muitas são porém as excepções, principalmente
com ex, in, des, ultra, inter.

8. – Acontece muitas vezes que a juncção do
prefixo á palavra causa um hiato ou choque desagradavel
252de consoantes. Para evitar esses inconvenientes
elide-se a vogal ou consoante final do
prefixo: antagonista, aviltar (ad-viltare), alumiar, emigrar
(ex migrare), ou assimila-se esta consoante á
initial da palavra simples: assimilar (ad-similare),
irrupção (in rupere 1176).

Estas modificações na propria fórma do radical já eram usuaes no
latim, e são communs a todas as linguas neo-latinas (agere – ad-igere,
red-igere, – agir, redigir). Muitos desses compostos latinos, pela perda de
signal externo de composição, ficaram considerados palavras simples
(colher de colligere, e não de con-legere). A maior parte desses compostos
decompuzeram-se, porém, na época romana: providere, pró vidére, prover;
ex por e, dis p. de, subtus p. sub., etc. 2177

9. – Algumas particulas teem dupla fórma,
uma latina e outra portugueza. Posto seja esta a
preferida na formação de palavras novas, ha todavia
muitas palavras compostas com ambas essas fórmas,
e ás vezes com sentido diverso.

10. – As particulas que entram no processo da
composição são adverbios ou preposições. Estas
podem ter valor adverbial – contradizer.

11. – A composição só póde formar verbos,
subst
. e adjectivos.

1.° – contrafazer, sobreexcitar (adv.); encorajar,
res
friar: Estes ultimos, formados de prep.
prefixadas ao substantivo coragem e ao adjectivo
frio, e do suffixo verbal, são chamados parasyntheticos
253verbaes
, porque formaram-se syntheticamente, de
chofre, da juncção simultanea do prefixo e do suffixo
ao radical).

2.° – Bemestar, malcriado, desleal; encordoamento,
sub
marinho. Formados por pref. prep. e de
um suffixo nominal juntos a um subst. ou adj., receberam
estes compostos a denominação de parasyntheticos
nominaes
.

Nos compostos parasyntheticos formados de substantivos, o suffixo
dá a idéa verbal de pôr, fazer, tornar, si o composto é um verbo activo;
de ser, estar, vir a ser, si o verbo é neutro, e o prefixo precisa a idéa indicando
a relação desse verbo com o substantivo: enterrar, p. ex., analysa-se
pór, metter (= er) em; aterrar, pôr (= er) a (= ad, at) terra. A particula
nesse caso é uma preposição; ajunta-se a um subst. que lhe serve
de complemento, e esse composto recebe, com a terminação verbal do suffixo,
a unidade de fórma e de idéa. Acontece o mesmo com os parasyntheticos
formados de adjectivos; enriquecer é torna-se rico, metter-se em
riqueza; desemburrar é pór fóra do estado de ignorante. A analyse mostra
que os compostos formados de adjectivos teem valor de verbos factitivos.
Todavia a maior parte delles, sobretudo os em ar, er, tendem a tomar-se
neutros, i. e., empregam-se absolutamente; assim embrutecer, bestificar
tanto é fazer alguem como tornar-se bruto ou besta. (Darmesteter l. c.)

12. – Damos em seguida a lista das preposições
latinas que entram na composição de palavras portuguezas.

A, ab, abs. – Significa privação, apartamento,
separação: – aversão, abortar, absorver, abstracção,
absurdo, abdicar, abolir, abstenção, abjecto
(de jacere
jactum
). Tem valor adv. em abusar, absolver, etc.
Equivale a uma prep. com seu complemento em
aborigenes, abstinente, etc.254

Indicam direcção, tendencia, fim, e são de
uso mui frequente: – admittir, adduzir; acceder, etc.

O d conserva-se antes das vogaes e das consoantes
d, j, m, v (admittir advertir, adjacente, adjectivo,
admirar, admoestar, adverbio, adventicio
); assimila-se
á consoante seguinte si fôr c, j, g, l, n, p,
r, s, t (accordo, acceder, affrontar, affiliar, aggravar,
agglomerar, alliar, allumiar, annexo, annuncio,
appendice, arrumar, arrogar, assaltar, assimilar,
aterro, attenuar, … ad
querir, acquisição.

Algumas vezes o d do prefixo desapparece
na linguagem popular; – abreviação, alugar, abordagem.

Tem força adv. primitiva – adherir, aggredir:
equivale a uma prep. e um complemento –
ajustar.

A é a fórma portugueza correspondente a
ad, e concorre para a formação de palavras
novas, verbos e substantivos: – amestrar, amiudar,
adormecer, amotinar, apurar, achatar, apontar,
abaixar
, …; adeus, afim.

Am., amb, (contracção de ambi). – Significa
em torno; ao redor. Emprega-se amb antes de
vogal (ambages, ambito); perde o b antes de p
(amputar), muda o m em n antes das gutturaes
e de f, h, t (anhelo).

Tem força adv. em ambição, ambiguo, etc.

Ante (anti). – Sign. prioridade, precedencia; e
entra principalmente na formação de nomes: – antepassado,
255antetempo antevespera, anteparto, antenome;
antidata, antiface
(véo). Form. erudita – antecedente,
antecessor, antepenultimo
, etc.; de creação moderna
– antedeluviano, antidoto, antecamara.

Antehontem = antes de hontem, e em todos os
compostos portuguezes a prep. ante é preferida a
antes.

Circum (em torno – circu). – Indica tambem prioridade,
só entra na formação de palavras de origem
classica: – circumferencia, circumloquio, circumstancia,
circumscrever
, etc…; perde o m em circuito;
formou modernamente – circumvalação, circumnavegação,
circumvisinho, circumpolação
, etc.

Tem força adv. em circumspecto, circumstancia,
etc.

Cis (cit). – Sign. áquem; oppõe a trans ou ultra
(= além): – cisgangetico, cisplatino, cisalpino, citerior.

Com (con, cum). – Sign. concurso, reunião,
acção, simultanea. – – São muitos os compostos de
formação popular no portuguez antigo, quasi todos
herdados do latim – compaixão, conceber, conflicto,
conduzir, condemnar, confessar, converter, conjuração,
contar
(computare). Form. erudita – collegio, collisão,
contractar, confirmar, concentrar, correlativo, coerção,
coherente, combustivel, comestivel
(edere, estum,
comer).

Com persiste antes de m, b, p; cum nunca apparece
em composição; o m assimila-se ao l, r, n (collegio,
256correligioso, correligionario, connato, connexão;
cahe antes de vogal, ou h mudo – coalhar (coagulare),
coadjuvar, coherdeiro, cohabitar, coproprietario,
concidadão.

Contra (opposição, acção ou effeito contrario;
situação fronteira, antagonismo). – E’ prefixo muito
productor; os compostos antigos são, porém, quasi
todos de creação erudita: – contramestre, contramarca,
contraordem, contrabando, contrapeso, contrabaixo,
contramina, contraforte, contramarcha
, … e
muitos outros em que contra tem força adverbial.
Em contrasenso, contraveneno, contrapello, … a particula
é preposição. Contra fórma muitos verbos:
e indica juxtaposição, opposição e subordinação
(contra-baluarte, contrareplica, contramestre).

De. – Indica origem, logar d’onde, passagem de
um estado para outro, relação de apartamento, e
privação (no sentido figurado): Deduzir, dejectar,
defender, debandar, dedicar, desenhar
(de-signare), …
delonga, demora, descendencia, dependencia. Form.
er.
decapitar, decidir, definir, degradar, delegar,
designar
, etc.

Quando o de (di) serve apenas para ampliar a
significação da palavra, chama-se ampliativo (de-terminar,
di-vulgar).

Des, dis. – Exprime geralmente negação, separação,
privação, acção contraria. Dis é a fórma
archaica . Di emprega-se nos mesmos casos que de;
257teem muitos compostos antigos e de fórma erudita;
assimila o s ao f (diffamar, difficil, diffusão): – disposição,
distrahir, disjuntar, … discordia, disjuncção
dissimular disjunctiva
, etc. A’s vezes perde o s (antes
de g, l, m, r, v) – diminuir diligente, digerir, divertir,
divergencia. – Des
é a fórma moderna, tambem
inseparavel; desunir, desobedecer, deslocar, desembarcar,
desleal, desfavor, desordem, desagradavel
, etc. A’s
vezes concorre na composição moderna a fórma
dis: – discernir, dispor, disgregar (desagregar), etc.

Ex, es, e. – Indica extracção, ausencia, separação,
movimento do interior para o exterior, privação;
tem quasi o mesmo sentido de dis e de. – E’
mais usada a fórma ex Form. prop. – exalçar, expresso,
extrahir, emittir, exclamação, espertar
…; erud
– excepção, excursão, exhumação, educar, exigir, ejacular,
eliminar, exceder, enumerar, exabundancia,
exautorar; emissão, emanação
, etc.

Ex é inseparavel, posto que em certos compostos
seja empregada como palavra distincta; ex-governador,
ex-deputado
. Este processo é hoje quasi
que organico.

Em regra emprega-se e, es antes de b, d, g, i, l,
m, n, r, v
, e ex antes de c, p, q, t e vogaes. O x ás
vezes transforma-se em s (esforço) ou assimila se ao
f (effluvio efflorescencia); outras vezes a particula transforma-se
por degeneração phonetica em is (isenção)

Extra. – Sign. fóra, além; denota a acção de
sahir através. – Forma verbos, adjectivos a substantivos,
258o que não era de pratica em latim: – extravasar,
extraordinario, extrajudiciario, extramuros, extravagancia
.

Em extraordinario, etc. tem força adv. (fóra
da ordem ordinaria): em extravagante, etc., tem valor
prep. (que vagueia além dos limites).

Entre, inter (no meio de, pelo meio, posição
média, reciprocidade). – Inter só fórma palavras
de origem erudita – interposição, interpellar, intercalar,
interceder, intermediario, intermittencia, … Entre

é de uso frequente e popular: fórma verbos transitivos
(entremeiar, entrelaçar, entrelinhar, … 1178), ou ainda
com a significação de a meio, um pouco (entrever,
entrecobrir
, …), e substantivos e adjectivos (entrecasca,
entrecosto, entrelinha
).

Inter = entre port. entra ainda muito nas formações
modernas com substantivos e adjectivos – internacional,
intertropical
, …

Em (en) = lat. in. – Prep. port., separavel;
empregada em grande numero de compostos sem
correspondente no latim: – encadear, enterrar, empalhar,
encaixar
, etc, … (como prep.) encaixe.

Intro, intra (= dentro, dentro de, tendencia
para logar interno) . – Só apparecem nos vocabulos
herdados do latim: – introdutir, introducção, intrometter,
intromissão, intrinseco
(intra secus), etc.259

In (im), en (em), (il, ir) . – Indica logar onde,
movimento do exterior para o interior. – lnduzir,
inflammar, inclinar, infectar, injecção, imprimir, implicar
, …
infiltração, inthronisação, … in-folio, in-quarto.

Além de introducção, situação interna, a prep.
in indica tambem negação: – incognito, imberbe,
inanimado, immutavel, inactivo
.

O n assimila-se ao m, l, r (illegal, irreflectido.)
O nosso en corresponde ás vezes ao in latino –
embuscada, encravar: ensinar, encorrer (incurrere), etc.

Ob (oc, op, of, obs). – Sign. em face, deante,
logar fronteiro, contra; indica hostilidade, obstaculo,
opposição: – Obedecer, obstar, obstaculo, objectar
objecção, obrigar, observação, oppor, occasionar,
offensa, ostentar, oscillar
, etc.

Per. – Exprime por onde, o meio, a passagem
através. Quasi todos os compostos com este prefixo
são de origem erudita – perplexo, perseverar,
perlucido, perceber, perdoar, permittir
, etc. Nos de
formação popular per degenera em pre, e era substituido
pela prep. por.

Por (= l. per). – Indica fim, termo, meio de
conseguir. E’ de emprego rarissimo.

Pre (1, prae). – Indica antecedencia, excellencia
augmento. Só existe na linguagem popular nos
vocabulos importados directamente do latim popular:
todos os mais são de origem erudita: – pregar
260(praedicare), prever (praevidere), presidencia (praesidentia), …
preferir, preludio, prematuro, prefacio,
prefixar, prescrever, presidir, precaução, presumir
, …
predominar, preexistir, preliminar, etc.

Preter (lat. praeter, – além, excesso). – Só
existe em raros vocabulos de origem clássica: – preterito
(praeter – ire), preterir, preterição, pretermittir,
pretermissão, preternatural
.

Pro. – Indica deante, elevação, protecção,
procedencia, e significa por, em logar de: – prover,
protrahir, procurador, proconsul, produzir, providencia
, …
proeminente, profanar, professar, progressão,
promover, pronome
, etc.

Pos (post). – Indica inferioridade, retardamento;
sign. depois. E’ da linguagem classica.

Pos é fórma arch. port. que se transformou
successivamente em empós, após, depós, depois. Pospôr,
pospontar, postero, postergar, posterior, posposto
, …
postescripto (post scriptum) e posdata,
postmerediano
(post meredianus) e pomerediano
(pomeredianus)…

Re. – Indica reiteração, regresso. E’ preposição
iterativa. Este prefixo é abreviação do adverbio
latino rursus, que significa de novo. Indica
repetição, reduplicação da acção ou idéa de retrogradação:
reler, refater, rehaver,… recuar, regresso

Tem pois sentido ampliativo, e indica conseguintemente
261intensidade de acção – rejeitar, resistir;
sentido iterativo – reler; indica reacção, opposição
reprimir, refrear, repugnar, sentido adversativo.

São poucos os substantivos com re: – retoque,
retorção, retorcedura, retorno, retrahimento

Retro. – Adverbio latino que significa atrás,
para trás, regresso. Só figura em vocabulos de origem
erudita: retrogradar, retroceder, … e os seus
novos derivadas retrogradação, retrocesso, retroactivo,
retroguarda
(retaguarda) retrogrado.

Se. – Particula inseparavel que indica idéa de
separação, afastamento. Só existe nas palavras
latinas que passaram para o portuguez pela camada
popular: – seduzir, seguro, separar, … e em algumas
de fundo classico – selecção, sedição, segregar.

Satis (sat). – Particula latina que significa
assás, e só figura em palavras que nos vieram do
latim já compostas: – satisfazer, saturar, saciedade.

Sine (sin) = sem. – Indica privação, carência:
sinecura (sem cuidado, cura), sinceriedade, simples
(sem folho, de plicare).

Sem. – E’ part. portugueza = lat. sine: só
entra na composição de substantivos: – sem ceremonia,
o sem ventura amante, sempar, semjustiça

(injustiça).

Sub. – Indica segredo, profundeza, inferioridade.
Nas palavras de formação popular emprega-se
262su, so, sa: – sorrir, soffrer (sufferre) saccudir
(succutere), sojugar, soceder, sumergir. Fórmas
eruditas – subjugar, submergir, substituir, substancia,
succeder, suggerir
, … e os de creação moderna –
subdividir, subdivisão, subordinar, subjacente, subsidio,
subcutaneo… subterraneo, submarinho
.

Com força adverbial – sub-chefe, sub-acido.

O b assimila-se á consoante seguinte se fôr c, g,
f, p, r,
succumbir, suggerir, suffoçar, supposição,
ou cahe – sujeitar, socalco.

Sob = sub, subtus: – sobpé, sobsello, sobsollo,
sopé
, …

Subter (sob, a baixo de). – Só em subtertugio,
subterfugir, subterfluente
(com força adv.).

Super (sobre). – Indica superioridade, abundancia,
e só se emprega na linguagem classica; a popular
fórma compostos com a particula correspondente
portugueza – sobre: – superficie, superstição,
superfluidade, superfino, … sobrecenho, sobrepeliz,
sobreloja, sobreescripto, sobrecarga, sobrecheio, sobremesa
sobrenome
.

Tem ás vezes força adverbial: – superabundar,
superar
, …

Trans, p. tras (tres, tra). – Sign. através de,
além; exprime a translação, a passagem, o transito
até um termo. No port. antigo tras tra e tres são as
fórmas mais empregadas: – traduzir, tramontano,
trasmudar, trasladar, trespassar
… Fórmas eruditas:
– transcrever, translação, transladar, transcendente263

Tem ás vezes força adv. transgredir, transformar.

Ultra (além, excessivamente): – ultrapassar,
ultramar, ultramontano, ultraabolicionista
. São compostos
portuguezes, isto é, sem analogos no latim.

Vice (em logar de). – Com esta preposição formaram-se
alguns compostos populares – visconde,
(vicecomite) visconsul (vice consul), vicerei vicereino,
vidama
(vice dominus). E’ frequente o emprego desta
particula (como adverbio) para designar pessoa
que substitue outra em cargo significado pelo outro
termo do composto, isto é, a palavra a que ella se
ajunta: – vice-presidente, vice-rei (ant. visrei, visorei),
vice-reino, vice-deus (Vieir. 11. 363). Verbos – só vicereinar,
vicegovernar
.

Composição com adverbio

13. – As particulas adverbiaes empregadas com
prefixos podem ser quantitativas, qualificativas, negativas.

A Quantitativos

Bis (2 vezes, repetição): – biscouto (bis cocto),
bisavô: bisdona (avó), bisneto, bissexual, bisseção, …
Posto seja fórma classica, entra no vocabulario popular,
e tem formado alguns compostos portuguezes,
sendo de notar que em muitas palavras deu-se preferencia
á fórma bi – bigorna (bi-cornis), bipede, binoculo
(bini oculi), bigano, bimane, binascido, binocular,
binomio
.264

Meio (lat. medius): – meio-relevo, meio-soldo, meio­terraneo.
Em meia noite, meio dia, é adjectivo.

Quasi: quasi-delicto, um quasi nada

Semi (meio). Forma tão sómente compostos classicos,
principalmente adjectivos. – Semicirculo, semitom, semilunar,
semilunio
, semifusa, semidouto.

Satis (assás): – satisfacção, satisfactorio, etc.

Tris (triplicação) – Trifolio, trifurcação.

b) Qualificativos

Bene. Os compostos com esta particula são em geral de
origem erudita: – beneficiar, etc benemerencia, beneplacito,
benevolo
.

Bem. Part. port. separavel, fórma compostos de
origem popular: – bemdito (benedicto), bemaventurado,
bemdizente, bemquerença, .....… bemdizer, – estar, – fazer,
– querer
…......

Bemvir só se emprega no part. pres. – bemvindo.

Male. – maleficio, maleante, malevolo, (Fórm. erudicta).
Nos outros compostos emprega-se a fórma portugueza
mal: – maldizer, malfazer, malcriado, maltratar

Menos (= lat. minus): menosprezar (l. minus-pretiare),
menoscabo, …

V. des (descrer, desprezar…)

c) – Negativas

In. – Part. inseparavel; significa impuridade, indignidade.

Entra principalmente na composição das palavras de
origem classica: assimila-se ao l, m, r, (il, im, ir.)

Desde o seculo XV que substituiu a negativa não nos
compostos, e o seu emprego é hoje familiar, e quasi popular.
265Combina-se com substantivos, mas principalmente
com adjectivos e participios: – ingratidão, irreligião, incalculavel,
incauto, inconsiderado, inconsulto; illegal,
immoral, irregular
.

Raro deixou de ser observada a regra da assimilação: –
inristar (enristar).

Não: – não razão.

Composição propriamente dita

12. – Já vimos a formação por prefixos; estudemos
agora o segundo processo em que os vocabulos unem-se
sem signal de relação, soldam-se, terminando por uma
unica desinencia que pertence á palavra inteira, e dá-lhe
unidade.

13. – Muitos compostos latinos já passaram para o
portuguez como palavras simples (infante, de infans, tis =
in
não + fans fallante; amanuense = a manu ensis; ouropel
= auripellis
, de auri pellis, folha de ouro, etc.

14. – Os compostos são logicamente phrases descriptivas
abreviadas; as idéas representadas pelos dous elementos
reduzem-se a um unico signal que muitas vezes
encobre as suas relações.

15. – Este processo não é propriamente latino: mas
deu ás linguas romanas grande numero de vocabulos, em
que o determinante pode preceder ou seguir o determinado
(mãi patria, mestre escola, café concerto, paletot sacco).

16. – Si as palavras acham-se juxtapostas, cada uma
dellas conserva a sua accentuação (arco-iris, porta-lapis):
mas desde que se opéra a fusão dos dous termos, o 1°: vai
pouco a pouco perdendo a accentuação, até que por fim
perde-a de todo (pedestal, mordomo).

17. – OOOos compostos são syntaticos ou asyntacticos conforme
as relações em que se acham. Em geral, é asyntactico
o composto em que o 1.° elemento é um thema.266

18. – Na composição propriamente dita notam-se quatro
processos – o de concordancia (ou coordenação), de
subordinação (ou dependencia), verbal, com particulas.

a) Compostos de concordancia (syntaxicos)

19. – O determinante é um subst. ou adj. em relação
syntaxica de concordancia com o termo principal.

1° Subst. + subst.: – beira mar, varapáo. Os dous
substantivos acham-se em relação de concordancia, e o
ultimo determina o primeiro appositivamente. Nos compostos
por apposição os substantivos ainda podem vir
ligados pela preposição de: – juiz de paz, inspector de
districto
.

O determinante segue, em regra, o determinado: – lobis homem,
gomma lacca
ou arábica, couve flôr, papel moeda, etc.: precede-o ás
vezes: – mãi-patria, madreperola.

2.° – Subst. + adj. e vice-versa. – boqui-aberto (ant.
bocaberto, em Gil Vic. boqui amcho), cabisbaixo, ponte-agudo…,
menoridade, baixa-mar, gentil-homem.
O adjectivo acha-se na relação attributiva com o substantivo.

Geralmente o determinante precede o determinado: –
primavera, gentil-homem, salva-guarda, clara-boia, platafórma,
santo-padre, santa-sé, baixa-mar, baixa-latinidade,
bom-senso alto-mar
(mar alto), novo-mundo, Santa
Egreja
… São muitas, porém, as excepções: – cantochão,
bancoroto, Espirito-Santo, idade-media, republica,
ponte-pensil
ou levadiça, sangue-frio, fogo-fatuo, guarda-nacional,
senso-commum, terra-firme, terra-santa
(Palestina),
etc.

Si o adjectivo fôr de numero, determina o substantivo, e
precede-o sempre: – tridente, triangulo, quadrupede, quadrilatero,
semana
, (septi mana, sete manhãs), centopéa,
binoculo, centimetro, milligrammo, primogenito
.267

d) Compostos de subordinação

19. – Nestes compostos o determinante é um substantivo
em relação de dependencia, regimen directo ou complemento
com o determinado.

1.° Subst.+verbo ou adj. verbalviandante, logar
tenente
.

2.° Subst. + subst.: – viaducto, ourives (aurifex)
ouropel (auripellem), salmoura (de sal e muria), petroleo
(de petrae olum), quartel-mestre, terrapleno, terremoto
O 1° substantivo em todos esses exemplos está em genitivo.
Exceptuam-se: – condestavel, mappamundi, banhomaria.

c) Verbal.

20. – Formam-se de um verbo no imperativo (ou 3ª
p. sing. do pres. do Ind.) seguido do seu complemento.

Os dous termos acham-se em relação de dependencia:
o principal é um verbo, o complemento é um substantivo,
um adverbio, ou um outro verbo tambem no imperativo.

1°) Verbo+ subst. – Raro vem o complemento precedido
de preposição; ás vezes os elementos fundem-se,
outras conservam-se distinctos: – batibarba, ferefolha,
beijamão, sacarolha, saca-trapo, porta-voz, guarda-pó,
para-raio, beija-flor, valha-couto, passaporte, porta-estandarte,
tira-pé, girasol, serrafila
, etc.

A esta classe pertencem os gallicismos: – abat jour (quebra luz)
cache-nez, rendez-vous.

2°. – Subst.+verbo: – parricida, carnivoro, somnambulo,
pedicura.

3°. – Verbo+ adv.: – passavante, puxavante.

4°. – Verbo+verbo: – vaivem, ganha-perde, luze-luze,
bule bule, dicemediseme
, etc.268

Esta composição é muito fecunda, e só a linguagem
popular deu-nos vocabulos em numero passante de 500.

O infinito é um verdadeiro substantivo: – o poder, o jantar, os
teres, os viveres
.

Do part. presente formaram-se adjectivos, que mais tarde tornaram-se
substantivos: – a constituinte, o amante.

Do part. passado formam-se substantivos, geralmente do genero
feminino, e esta formação é mui fecunda: – vista, tomada, escripta.

d) Com particulas.

21. – Prep. ou adv. + subst.: – contra veneno, -ante-manhã,
ante-braço, parabem, sem razão, contra ordem,
sobresalto, entre acto, ultra-mar, entrecosto, sobre-peliz,
vice-almirante, sub-secretario
.

Este processo da formação já existia em latim: – pro-consul, intervallum;
1. pop. in odio, etc., com o 1° termo adverbio, tambem se
encontram exemplos: – ante-peaes, post-genitus.

– Dos adverbios formam-se substantivos, por meio de
ellipse: – o melhor, o bem, etc…

II. Formação de adjectivos

22. – O portuguez fórma adjectivos pelos mesmos
processos que emprega para a formação de substantivos,
i. e., – pela composição e derivação.

Fórma pela composição:

1.° Ajuntando dous adjectivos simples: – rosicler, surdo-mudo,
agro-doce, verde-gaio
;

2.° Juxtapondo um adverbio a um part. passivo: – bemquisto,
bemdito, malcreado.

Temos pois tambem compostos juxtapostos e crystallisados.

Exemplos de juxtaposição temos nas fórmas numeraes:
vinte e dous, etc.

3.° Antepondo certos prefixos aos adjectivos, modificando-lhes
o sentido.269

III. Formação dos verbos

23. – O portuguez segue para a formação dos verbos
os mesmos processos que para a formação dos nomes.

Pela composição antepondo um substantivo (pacificar,
manobrar, cavalgar…), um adjectivo empregado adverbialmente
(purificar 1179, doentar, …); uma particula (adv.)
transluzir, maltratar, antevêr…)

24. – Os prefixos latinos que entram na composição
dos nossos verbos já foram citados quando tratámos do
Sub. e do Adject.

Atroar, amover, apegar; absolver, abjurar, abjurgar
(f. erud.); abster-se, abstrahir; acceder, annotar (ad
lat.)

antepôr, antidatar; bemquerer, bemquistar (pop); ripartir;
circumdar circumscrever; comprometter, complicar;
contradizer contrafazer; demitir, decompor; desamparar,
desempatar; divagar, dispor, discorrer; empoar, enramalhetar;
entrelaçar, entreabrir (pop.); equiparar, equilibrar;
escorrer, espalhar; excavar, exclamar; interpôr
internar, intrometter; maldizer maltratar (pop.), obscurecer;
perfurar percorrer; pospor pospontar; predispor,
predizer; proclamar protahir; realçar, rebater recompensar
reconstruir; retroceder retrogradar; sublinhar
subscrever suspender; sobrepôr, sobrevir, transpor
transpassar treslêr; ultrapassar, etc.

25. – Ha nomes compostos de phrases, cuja formação
não se subordina por sua irregularidade a uma classificação:
mal me quer, aqui d’El-Rei, salve-se quem
puder
, etc. Outros formam-se pela reduplicação: – naná,
mimi, etc.270

26. – Temos tambem compostos importados de linguas
estrangeiras: – visà-vis, casse-tête, hors d’œuvre, burgomestre,
feldpath, landwehr, caparosa, bulldog, beefsteak,
steeple chase; saltimbanco, filigrana, salsaparrilha, orangutango
,
etc…

Genero

27. – O genero dos nomes compostos é sempre o da
palavra principal: – a grã cruz, o canto chão. Os compostos
verbaes, são essencialmente masculinos – um
guarda prata, um salva vidas
. Os compostos com particulas
são sempre (excepto quando nos referimos a uma
mulher e animal femea) masculinos, si ellas forem preposições;
mas si forem adverbios, o genero deve ser o
mesmo do subst. determinado: – uma contra marcha,
um contra peso, um ante braço.

Numero

28. – Os nomes compostos formam o plural de accôrdo
com as regras a que estão sujeitos os nomes simples desde
que os seus elementos estiverem fundidos (ferro-vias).

Quando, porém, os termos conservam-se distinctos, a
formação do plural depende dos elementos componentes:
só o subst. e adj. – é claro – são susceptiveis de flexão
numerica.

Nos compostos de adj. + subst, só este toma signal
de plural. Excep. – gentil-homem, que faz gentis homens,
mas que no Sec. XVII ainda seguia a regra geral: gentil
homens
escreveu Vieira.

Nos compostos de dous adjectivos, só o 2° varia: –
medico-cirurgicos.

Em relação de subordinação ambos os termos tomam
signal de plural: – couves-flores (subst. + subst.), processos
verbaes
(subst. + adj.).271

Em relação de dependencia, só o termo principal póde
ter plural: – quartel-mestres.

29. – São em pequeno numero os adjectivos compostos:
formam-se de dous adjectivos ou de prefixo e
adjectivo.

No 1° caso acham-se em relação de coordenação
(agro-doce, surdo-mudo) ou de subordinação (recem-nascido).
Temos mais os que exprimem côr, que são susceptiveis
de flexão, excepto quando um delles determina
o outro.

A’ classe dos compostos de coordenação pertencem os
nomes de numero e cardeaes – dezoito, vinte quatro, etc.

29. – Nos verbos compostos o elemento determinante
póde ser um substantivo ou um prefixo (manter, manobrar).
A esta serie pertencem os verbos formados de
um substantivo ou adjectivo e de facere ou ficare, hoje
verdadeiros suffixos em todas as linguas romanas (versificar,
fortificar).

Si o determinante fôr um prefixo, a palavra principal
é um verbo, um subst. ou um adj.: – repor; em-pedrar
(comp. parasynthetico verbal).

Compostos com elementos gregos

30. – Alguns nomes já nos vieram compostos do
grego (acrobata, de acros ponta, e bainein andar); amphibio,
de ampho dupla e bios vida; amphibologia, anagramma,
acephalo, amphitheatro, cosmographia, cacophonia,
apologia, architecto, dissyllabo, dyspepsia, astrologia,
aristocracia, synonymo, synagoga, encephalo,
metamorphose, epidemia, prolegomenos
, etc.; outros, e
estes mais numerosos, formaram-se eruditamente, e não
teem correspondentes no grego: – typographia, agerasia,
arcipreste, ecchymose, enostose, eœophthalmia, anemia,
anemoscopio, philologo, anthropologia, necroterio, telephone,
272telegrapho, kilometro, pariantho, synantho, hypocarpo
,
etc.

Nas sciencias é que mais abundam estes compostos,
cujos elementos formadores podem ser particulas (prep.
ou adverbios) e palavras.

Particulas

A, an (άν, ά = l. in.). Part. privativa; prefixo negativo:
acephalo, acaule, atheo, aphonia, atrophia,
anonymo
, etc.

Amphi ou amphis (άμϕι = ambos, l. ambi): – amphibio,
amphitheatro; amphisbena, amphiscios
.

Ana, an (άνά, άν, equivale prefixo re) – Indica
repetição, sign. de novo, sobre: – analogia, anatomia,
anabaptista, anachoreta, anachatartico, anagogia, anadema,
anamorphose
(comp. port. – mudança de
forma), etc.

Anti (άντι = l. ante). Denota opposição, etc: –
antidoto, antipoda, antipathia, antithese. Com adjectivos,
fórma muitos parasyntheticos (anti- febrifugo, antinacional),
etc.

Apo (άπό = l. ab) – Indica posição superior, afastamento,
origem: – apologia, apocope, apostrophe, apoplexia,
apophonia
etc.

Archi (ἄρκί – commando, primazia: é adv.) Indica
superlatividade, preeminência: – archiduque, archanjo, architeto,
(oligarchia, heptrarchia, arcipreste, archipresbytero,
etc.

E’ o unico prefixo grego empregado na formação de vocabulos populares.

Cata (κατά, contra, sobre, sob, por). Indica ordem –
catalogo; perturbação – cataclysmo, catastrophe. Entra
na formação de muitos vocabulos eruditos: – catachese,
catacumba, cataracta, catalepsia, cataphonico
, etc.273

Dia (διά – l. dis; através, por entre; por causa de):
diametro, diaphano, diatribe, diagnostico, dialogo, diaphragma,
etc.

Dis (duplo): – dissyllabo.

Dys, (δύς – pref. adv. pejorativo) . Significa difficuldade,
falta, um mal, máo – dyspesia (má digestão – dus
difficilmente e pepto digerir); dysorexia (falta de appetite),
dysuria (difficuldade em ourinar), dyspnea, dysenteria,
dyscrasia, dystalia
, (difficuldade no fallar – dys e talein).

Ec, ex (έέκ – l. e, ex; – de, fora de): – exodo,
exogeno, exanthema, eclipse, ecloga, ecchymose
(effusão dos
humores sob a pelle), etc.

En, em (έν – l. in.) Indica tendencia para dentro: –
encephalo, endogeno, enthymema, emphase, embryão, endemica,
enthusiasmo, enostose
(en e octeon osso), etc.

Epi – ep, erh (έπι). Sign. sobre, perto de. – epitaphio,
epidemia, epigastro, epigraphe, epilogo, ephemero, epicraneo
,
etc.

Endo (dentro): – Comp. Vern. – endocephalo.

Eu (adv. ευ, bem): – euphonia, eucharistia, evangelho,
euchromo
, (que tem bella cór), etc.

Exo (para fóra): – exoterico; … exophthalmia (sahida
do olho fóra da orbita), etc.

Hemi (ήμισυ, l. semi): – hemispherio, hemicrania,
hemistichio, hemiplegia
.

Hyper (υπέρ, l. super) Indica superioridade, excesso;
sign. acima, além: – hyperaspista, hypercritico, hyperbole,
hyperthrophia
, etc.

Hypo, hyp (ύπό, lat. sub): – hypocrisia, hypocondrio,
hypogastro, hypotheca
, etc. Denota ás vezes insufficiencia,
hyposulphuroso.

Mega (μήγα, pref. qual. – grande): – megametro,
megacephalo, megatherio
.

Meta, met. (μετά, com, depois, ácima, entre, conforme
a palavra que segue: sign. successão, mudança, transformação):
274metamorphose, metaphora, metaphysica, methodo,
metacarpo, metachronismo
(erro de data), etc.

Para, par (παρα – ao lado de, perto de). Indica parallelismo,
comparação, tendencia: paralogismo, parodia, paroxismo,
parallelo, parasita, paradigma
, etc.

Peri (περι – l. per; em redor. Em composição sign.
muitas vezes o mesmo que circum): – perimetro, periphrase,
pericardio, pericranio, peritoneo, periantho
(peri e
antho flôr, involucro da flôr), etc.

Pro (πρό – l. pro, prae) Indica anteposição: – programma,
problema, prognostico, prophylactico, prognathismo,
prologo, protypographrico
(anterior à typographia)
etc.

Pros (πρός – perto de, para) Indica tendência para um
logar ou cousa: – proselito, prosodia, prothese.

Syn, sym, syl, sy (σύν, συμ, συλ, συ – 1. con, port. com).
Indica ajuntamento, simultaneidade: – synagoga, sympathia,
symphonia, symetria, syntaxe, synonymo, synchronismo,
systema, syzygia
, etc.

b) Palavras

Acro (extremo, cume); – acrobata, acroterio, acrostico,
acropole

Anthropo (homem): – antrhopophago, anthropologia,
anthropomorphismo
.

Anemo (verbo): – anemometro, anemóscopo.

Auto (por si mesmo): – autonomia, autocrata, autographo,
autônomo, autobiographia
.

Baro (peso): – barometro, barymetria.

Biblio (livro): – bibliotheca, bibliomania, bibliophilo,
bibliographo
.

Bio (vida): – biographia, biologia, biometro, etc.

Caco (máo): – cacochymo, cacographia, cacophonia,
cacologia
.275

Cephalo (cabeça): – cephalalgia, cephaloide, cephalotomia.

Chiro (mão): – chirographia, chiromancia, chirologia, etc.

Chromo (côr): – chromolithographia, chromophoro,
etc.

Chrono (tempo): – chronica, chronologia, chronometro.

Chryso, cryso (ouro): – chrysocalo, chrysocomo, chrysolitho, …
chrisma, crysalide.

Cosmo (mundo): – cosmogonia, cosmographia, cosmopolita,
cosmorama
, etc.

Crypto (occulto): – cryptographia, cryptogamo, etc.

Cyano, cyan (azul): – cyanhydrico, cyanogeno.

Cyno (cão): – cynocephalo, cynegetica, etc

Cyclo (circulo): – cyclolitho, cycloptero, etc.

Cysto, cyst (bexiga): – cystocele, cystalgia, etc.

Demo (povo): – democrata, democrito, demagogo.

Deca (dez) – decalogo, decagono, etc.

Endo: – endosmose

Electro (electricidade): – electro – dynamico, electronegativo,
electrogeno, electroscopo
.

Entomo (insecto): – entomologia, entomozoario, entomophago.

Etho (costumes): – ethnographia, ethologia, ethopéa.

Exo: – exosmose.

Galacto (leite): – galactophoro, etc.

Gastro, gastr (ventre, estomago): – gastralgia, gastronomo,
gastro-enterite
etc.

Geo (terra): – geographia, geometria, geologia,
geodesia
, etc.

Gymno (nu): – gymnospermia, gymnosophista, etc.

Gyn, gyneco (mulher): – gynecocracia, gynandria.

Heli, helio (sol): – heliographia, helioscopio, heliotropo,
etc.276

Hemo, hema, hémato (sangue): – hemorragia, hemoptysis,
hematuria, hematocele, hemorrhoides
, etc.

Hetero (outro, diverso): – heterodoxo, heteroclito,
heterogeneo
.

Hiero, hier (sagrado): – hieroglipho, hierarchia, etc.

Hippo, hipp (cavallo): – hippiatrica, hippodromo,
hippogriffo, Hippolitho, hippopotamo
, etc.

Homeo (egual): – homœopathia.

Homo (o mesmo, semelhante): – homogeneo, homologo,
homonomo
, etc.

Hydro, hydr (agua): – hydrographia, hydromancia,
hydromel, hydrocephalo, hydrogeneo, hydrotherapia,
hydropesia
, etc.

Hygro (humido): – hygroscopo, hygrometro, etc.

Ichtyo (peixe): – ichtyologia, ichtyophago, etc.

Icono (imagem): – iconoclausta, iconolatra, iconographia,
etc.

Ideo (idéa): – ideographia, ideologia, ideogenia.

Idio (proprio, particular): – idiogyno, idiopathia,
idiosyncracia
, etc.

Iso (egual): – isotherme, isocele, etc.

Litho (pedra): – lithographia, lithographo, lithotimia,
lithotricia, lithologia
, etc.

Macro (grande): – macrocephalo, macroscomo, etc.

Micro (pequeno): – microcephalo, microcosmo, microscopio,
microsoario, micographia
, etc.

Meso, mes (que está no meio): – mesenterio, mesocarpo,
Mesopotamia
, etc.

Metro (medida): – metrologia, metronomo.

Miso, mis (que odeia): – misanthropo, misogamo,
misogeneo
.

Mytho (fabula): – mythologia, mythologo, etc.

Mono (um): – monomania, monomio, monopolio,
monorima
, etc.277

Morphe (forma): – morphologia.

Neo (novo): – neophyto, neologia, neographo,
neomênia
, etc.

Nevro (nervo): – nevralgia, nevroptero, nevrosthenico,
nevrotomia
, etc.

Noso (doença):- nosographia, nosologia, nosogenia,
etc.

Nycto (de noute): – nyctobato, nyctographia.

Odonto (dente): – odontalgia, odontologia, odontoide,
etc.

Onoma (nome): – onomastico, onomatopéa, onomancia.

Ophi, ophio (serpente): – ophidico, ophiolitho, etc.

Opthalmo (olho): – ophtalmia, ophtalmotomia,
ophtalmoscopio
, etc.

Ornitho (passaro): – ornithologia, ornithomancia, etc.

Ortho (recto, certo): – orthographia, orthophonia,
orthodoxo, orthopedia
, etc.

Orycto (fossil): – oryctotechnia, oryctologia, etc.

Osteo (osso): – osteologia, osteoscopo, osteotomia, etc.

Oxy (acido-chimica; agudo – hist. nat.): – oxygeneo,
oxymetria, oxyphonia.

Paleo, paleonto (antigo): – paleontologia, paleograhia,
paleozoologia
, etc.

Pan panto (tudo): – panorama, pantheismo, pantometro,
pantomima
, etc.

Penta (cinco): – pentametro, pentágono, etc.

Pathos (molestia) – pathologia.

Philo, phil (amante): – phi1ologia, phi1anthropo, philosophia,
philomatico
, etc.

Phlebo (veia): – phlebotomia, phleborragia, etc.

Phono (voz): – phonologia, phonograhia, phonometro,
phonação, phonema
, etc.

Photo (luz): – photographia, photometro, photobia, etc.

Phos (id): – phosphoro, etc.278

Podo (pé) – podoptero, podagro, etc.

Physio (natureza): – physiologia, physionomia, etc.

Poly (muito): – polysyllabo, polytheama, polyclinica,
etc.

Pseudo (mentira, engano): – pseudonymo, pseudopropheta, etc.

Psycho (alma): – psychologia, psychico, psychiatria,
psychognosia
, etc.

Psychro (frescura): – psychrometro.

Pyro (fogo): – pyrometro, pyrophoro, pyrotechnia, etc.

Proto (primeiro, principal): – prototypo, protonauta,
etc.

Phren (cerebro): – phrenologia, phrenetico, phrenesi,
phrenitis
.

Rhino (nariz): – rhinalgia, rhinoplastia, rhinoceronte.

Semeion (doença): - semeiologia, semeiotica.

Stereo (solido): – stereoscopio, stereometria, etc.

Strato (exercito): – estrategia, estratagema, estratocracia,
etc.

Tele (longe): – telegramma, telephone, telegrapho, telescopio,
etc.

Tetra (quatro): – tetraedro, tetrarchia.

Thera (cura): – therapeutica.

Theo (Deus): – theocracia, theodicéa, theologia, Theophilo,
Theocrito
, etc.

Thermo (calor): – thermometro, thermal.

Topo (logar): – topographia, topologico, etc.

Typo (modelo): – typographia, typomamia, etc.

Zoo (animal): – zoologia, zoophyto, zoographia, etc.

Os nomes de numeros gregos entram em composição
de muitos vocabulos: – mono, dis, tri, tetra, penta,
hex, hepta, octo, ennéa, deca
(10), endeca (11), dodeca
(12), icos (120), herato (100), kilo (1.000), myria (10.000),
poly – muitos, hemi – meio, proto – primeiro, deuto
deutero - se
gundo, trito – terceiro.279

31. – Desde os primeiros tempos da lingua (Sec. XII e XIII)
que apparecem compostos vernaculos: – nenguno, sobrecabadura
(F. do Cast. Rod. 2. IX), semrazoni, out’romem, mal’soffredor,
desamor, desaqui
(Canc. Vat.), grand’algo ric’omem, euventurado,
… e grande numero de toponymicos e antonomasticos (Vyl
Henrique, Valongo, Jograr Sacco, corpo – delgado, etc. C. Vat.)

32. – Mais tarde, e principalmente depois do Sec. XVI, apresenta-se
uma nova corrente de compostos vernaculos de formação erudita.
Ebri-festante, auriluzentes, ambri-odoro, fumi – flavi – ruivas, monarchi
– grapho, doce – ambri – fogo – andeante, omni – cores, eterno
– mancos, ar – delicias
, 1180 longe – vibrador, flucti – sonantes, amplo
– reinante, olhi – cerúlea, othigazea, flaxipedes, celeripede
, 2181 auri
thronada – Juno
3182280

Decima oitava lição
Formação das palavras em geral. – Derivação
propria e impropria. – Estudo dos suffixos.

I. – Dá-se o nome de derivação aos processos formadores
de palavras pelo accrescentamento de um suffixo
a um vocabulo primitivo (i. e. ao thema como signal
de categoria grammatical) ou pela modificação de sentido.
O 1° processo chama-se derivação propria; o 2°
impropria.

Agua é pois palavra primitiva; aguadeiro, aguaceiro,
aguador, aguar
, são derivados.

Os suffixos são de formação popular ou de origem
erudita. Só os primeiros entram na derivação propriamente
portugueza; mas alguns de origem classica são
hoje de uso vulgar, e estão, por assim dizer, nacionalisados,
e com força creadora (escripturario, instrumental,
abolicionista
, etc.)

Alguns teem dupla fórma, uma popular e outra erudita,
muitas vezes com significação tambem dupla: –
justiça justeza, ração razão, primario primeiro. A fórma
popular é geralmente a mais antiga.

O sentido proprio de cada um dos suffixos portuguezes
revela-se em todos os derivados para cuja formação
elle concorre; mas, em geral, o derivado tem
sentido mais restricto que o primitivo. Equivale a um281

substantivo adjectivado (homenzarrão = homem grande)
ou a um verbo e seu complemento (estudar = fazer estudo).

O mesmo suffixo póde ter varias significações. Ex.
livreiro, tinteiro, primeiro, limoeiro.

Temos muitos derivados cujos primitivos nunca fizeram
parte do nosso lexico; outros cujos primitivos são
palavras portuguezas já archaisadas ou modificadas na
fórma: – incluir, transgredir, repertorio, … repinicar,
piverada
.

A’s vezes, entre o radical e o suffixo das palavras
derivadas, intercala-se uma consoante euphonica: –
chovisco, florsinha, cafeteira, ou uma syllaba que equivale
a um suffixo: – cabelleireiro.

2. – Estudemos agora a formação nominal, que póde
ser propria ou impropria.

a) Derivação impropria.

3. – A derivação imprópria fórma substantivos – de
nomes, verbos, e de palavras invariaveis.

1.° – De nomes proprios, que pela mudança de sentido,
por uma acção psychologica, tornam-se communs: –
macadam, musselina, cognac, magnólia (de Magnol, botanico
do XVIII), camelia (Camel, introductor da flôr japoneza
na Europa em 1732), nicotina (Nicot, physico francez
que introduziu o tabaco na Europa), panico (de Pan),
sardonico, 1183 saturnino, caipora, tartufo, quassia (nome de
um negro feiticeiro de Surivem, que em 1730 descobriu as
propriedade da planta), etc… 2184282

2.° – De adjectivos – Consiste em designar um ente ou
objecto pela qualidade que mais attrahe a attenção: –
dormente, jornal.

Este processo já era vulgar no latim.

O adjectivo póde tambem empregar-se substantivadamente:
um louco, um pobre.

3.° – De verbos – Podemos derivar o substantivo directamente
do thema verbal (subst. verbaes) ou de uma
das fórmas nominaes.

a) Da 1ª pessoa sing. do Ind. pres. (principalmente
dos verbos da 1ª conj.) amanho, esgoto, appelo, amparo
á imitação do latim da decadencia (proba de
probare, lucta de luctare).

b) Do Imperativo: – combate, degola, esfrega, receita,
purga, janta
.

c) Do participio presente. Deram adjectivos que depois
se tornaram substantivos: – escrevente, amante, constituinte,
tratante
.

Temos muitas palavras em ante, ente, sem part. pres. correspondentes
no portuguez: – ambulante, benevolente, petulante, elegante.
Importação directa.

d) Do participio passado. – Esta formação foi muito
productiva: hoje porém vai-se esterilisando: – feito, translado,
tratado, producto, reducto, entrada, sahida, vista,
visto, escripta, escripto, certificado, rugido, tecido, gemido
,
etc.

e) Do Infinito. – E’ do Sec. XVI este emprego do infinito,
que toma flexão do plural quando, em vez de denotar
uma acção (o descambar, o cantar), representa um ser
ou substancia (os seres da creação, os meus haveres ou
teres, os cantares do povo, os jantares, etc…

4. – Não é indifferente o emprego das duas fórmas
(invariavel e variavel). A 1.ª indica uma acção dilatada,
reiterada
. Cp. o. cahir das folhas e a queda das folhas, o
283troar do canhão e o trom do canhão, o declinar do dia e o
declinio do dia, etc.

De resto, o infinito é uma verdadeira fórma nominal.

Esta propriedade de nossa lingua, era – o tambem da lingua mãi,
que empregava o infinito dos verbos como sujeito e como complemento
directo, quer na época archaica (principalmente entre os
comicos), quer na prosa dos seculos anteriores: – obliti sunt Romai
loquier lingua latina
; – Hic vereri perdidit, – ipsum cremare non fui
veteris instituti
(Pl.); scire tuum (Prisc.); carere igitur hoc significat
egere eo quod habere velis
(Cic.) E tambem depois de cavere, cogitare,
adornare, pergere, portulare
, etc. A lingua classica fez menos emprego
dessa derivação, que todavia foi muito frequente com Ovidio,
Horacio, Sallustio, etc.

5. – Muitas vezes o verbo desappareceu, restando só
para lembrança o infinito ou participio, mas na categoria
de substantivos; – porvir, lente.

b) Derivação propria

6. – Grande parte dos varios vocabulos derivados já
nos vieram formados do latim; em compensação o portuguez
formou muitos novos tomando do latim apenas os
elementos de formação.

7. – Ha tres cousas a considerar na classificação dos
suffixos nominaes – a forma de derivação (verbal ou nominal);
a natureza ou emprego (substantivo, adjectivo,
collectivos, nomes concretos ou abstractos, etc.); o sentido,
porque os suffixos, como as palavras, teem a sua historia.

1.° – As mudanças de fórrna são devidas á analogia.
Itia é ez eza, fortaleza fortalitia, negroenegrecer
(intercalação de consoante entre o radical e o suffixo), de
cabello forma-se cabelleireiro (intercalação de uma syllaba
suffixo).

2.° Alguns suffixos suppoern certas categorias de palavras.
Assim, ada supõe thema verbal: – amar, calçar, –
amada, calçada. Com o correr do tempo, porém, quando já
284na lingua existem muitas palavras formadas com o mesmo
suffixo, e a lei já está esquecida por todos, formam-se
derivados directamente analogos sem mais se indagar da
fórma thematica que lhes corresponde. E accresce que
muitos suffixos teem varios empregos: inchaço tem por
base um verbo; poetaço, um substantivo.

3.° – A’s vezes o suffixo muda de sentido. Alia denota
uma reunião de pessoas ou cousas, e hoje mais tem sentido
Pejorativo: – gentalha, canalha.

a) Substantivos derivados de substantivos

8. – São numerosos os suffixos portuguezes desta
categoria, uns derivados do latim, outros do proprio genio
da lingua, e servem para formar nomes concretos e
abstractos.

Aça. – Indica quantidade: – fumaça, vidraça, vinhaça.

Aço (– do acc. acem dos nomes em ax). – Denota
Augmento: – cartapaço, espinhaço, estilhaço. A’s vezes
com sentido pejorativo. – poetaço, senhoraço.

Aceo (accus.) – Este suffixo foi adoptado em botanica,
no feminino, para a designação das flores.

Ada (l. actus, a, m.) – Indica: 1°, grandeza, numero,
extensão, golpe, acção – cumiada, fachada, pedrada,
cabeçada, facada
; 2°, reunião, collecção de objectos da
mesma especie – arcada, rapaziada, barricada, carneirada;
3°, tempo – alvorada, noitada; 4°, productos do
primitivo, derivados de fructos – marmellada, goiabada,
limonada
.

Encontra-se em alguns nomes derivados do grego: myriada
(numero de dez mil), Iliada (poema sobre o Illion), e por imitação
Henriada, Luziadas, Messiada.

Ade (accus. 1. atem dos nomes do 3ª dec. lat. em as): –
irmandade, animalidade, mortandade

Ado, ato (1. atus.) – Indicam cargo, dignidade, profissão.
O 1° é de origem popular: – reinado, bispado,
285consulado…; o 2° de origem clássica: – generalato,
bachalerato, baronato
, ant. baroado.

Cp. baronato baronia.

Agem (l. aticum, at'cum.) – Indica: 1°, collecção de
objectos da mesma especie – folhagem, plumagem;
2°, estado – aprendizagem; 3°, resultado de uma acção –
ancoragem, lavagem. 1185

Estes nomes, em numero de 300 pouco mais ou menos, são pela
maior parte novos e sem correspondentes em latim.

Al (1. alis, elis.) – Indica extensão, quantidade, ou
objecto material que tem o mesmo sentido expresso pelo
thema nominal: – colmeal, areal, lamaçal, dedal, memorial,
pombal
; e quasi todos os nomes de plantações –
cafesal, inhamal, capinsal, faval.

Alha (l. alia): – muralha, parelha. Tem tambem sentido
collectivo, e ás vezes pejorativo: – gentalha, canalha.

Ame, ume (Pop. – l. ame) – Indica numero, collecção,
intensidade – velame, cordame, correame, queixume.

Anha – (1. anea) – Só entra na formação de alguns
nomes femininos com significação concreta – montanha.

(lat. onem, anum, nom. anus, etc.) Indica
além de maior intensidade e superlatividade – (pg. 181);
agente, profissão subalterna – centurião, histrião, cirurgião
(antigamente de categoria inferior ao medico),
ladrão.

Esta derivação, pela etymologia, abrange a fórma em
ano: – africano, romano (origem): dominicano, republicano
(seita, profissão), parochiano, lutherano.

Aria (arius, a, um). Indica 1° collecção de objectos,
quantidade: – livraria, vozeria, gritaria, escadaria;
2862°) officina, domicilio, estado: – confeitaria, drogaria,
chapelaria; hospedaria, albergaria, celibatario
; 3°)
acção – ventaneira, choradeira.

Ario, eiro (arius, aris, erium). – Ambos indicam
individuo que exerce certa profissão: – estatuario, boticario,
lapidaria, carpinteiro, porteiro, cosinheiro
. 1186 A
1ª desinencia, de fórma erudita, indica profissão mais
elevada que o suffixo eiro. 2187 Este, de fórma popular,
indica – 1°) nomes de arvores e plantas: – limoeiro,
mamoneiro, cerejeira
3188; 3°) intensidade, extensão:
aguaceiro, luzeiro; logar onde se guardam certos objectos
(expressos pelo radical): – celleiro, gallinheiro, tinteiro,
idéa esta tambem indicada pelo suffixo ario (de arium):
armario, herbario, erario.

Os antigos, assim como diziam, transpondo as lettras, –: contrairo,
adversairo
, tambem diziam, menos se afastando do typo latino:
porcairo (porqueiro), caprairo (cabreira), caldario (caldeiro)
etc.

Este suffixo é muito productivo: – O erudito ario
tomou tal extensão na linguagem vulgar, que fórma palavras
com radicaes portuguezes: – annuario, horario,
inventario
.

Oppõe-se a ante: – mandante mandatario; a al
original originario; a oso – tumultuário tumultuoso.

Asio (azio). – Significa extensão, augmento: – balasio,
copasio
.

Az. – Indica augmento, intensidade: – cartaz, montaraz,
Satanaz
. Tem ás vezes sentido pejorativo: – dançaraz,
machacaz
.287

Origina-se da accus. ou do augmentativo latino, nominativo em ax.
Cp. ladroaz, ladrauaz, ladroasso; e as antigas fórmas: – cartax,
pertinax, fallax
, etc.

Bulo, culo, bro, cro – Dos suffixos latinos –
bulum, culum (arch. clum) As 1ª fórmas são de
origem erudita. Ex.: – thuribulo, patibulo, vocabulo,
cenaculo, candelabro, sepulcro
.

O de origem popular tem a fórma AGRE: – milagre
(miraculum).

Estes suffixos exprimem acção, instrumento, e já no latim clum,
culum
, transformavam-se em crum quando eram precedidos de um
l (simulacrum), e bulum em brum (candelabrum) etc.

Cida (lat. Cida – matador): – homicida, regicida,
parricida
etc.

Cola (lat. cola): – lndica profissão agraria: –
agricola, vinicola,; habitação: – arvicola, monticola, incola.

Eço, -a, iço, -a, oço, -a. – São variações do suffixo aço,
e correspondentes ás desinências latinas – ex., – ix, – ox.
Indica augmento, muitas vezes com sentido pejorativo;
movimento: – cabeço, alvoroço.

Dade (accus. atem, nom. em tas): – autoridade, maternidade,
irmandade, sociedade
. (V. ade).

Eiro – v. ario.

Eira – Corrupção de aria. Indica extensão, collecção,
arvoredos, plantas, etc.: sementeira, parreira, bananeira.

No sec. XIV havia um substantivo em eira, sem correspondente
no masc., cujo suffixo indica officio (hervoeira – mulher dissoluta,
donde a expressão, vulgar – filho das hervas, p. filho de meretriz, sem
pai conhecido).

Edo (l. etum) – Denota collecção, producção, grandeza;
e junto dos radicaes dos nomes de vegetaes fórma
substantivos indicando trato de terra plantado da especie
de arvores designada pelo radical (al =, eiro): – arvoredo,
penedo, olivedo, vinhedo
.288

Ez, eza, isa, essa (1. issa itia). – Os tres ultimos
formam sómente o fem. de subst.: – princeza, poetisa,
abbadessa
. Indica posição, cargo e a origem, habitação
(burguez, francez). A fórma ez é muito empregada para alguns
nomes de povos – Carthaginez, Inglez, Portuguez
e ainda de habitantes de certas cidades francezas – Marselhez,
Bolonhez
.

Ia – Indica: 1°, acção propria do individuo indicado
pelo radical: – rapazia; 2°, cargo e o logar em que é exercido
abbadia, recebedoria, thesouraria.

Io – Indica collecção: – mulherio, rapazio; estado, qualidade
poderio, sombrio.

Ico – lnd. origem, seita, communidade, profissão: –
musico, estoico.

Ina (l. ina). Indica officio, profissão, logar onde elles
são exercidos, habitação: – medicina, disciplina, officina.

A fórma masc. ino deu, modificando-se em inho, o subst. capuchinho.

Ista (1. ista, gr. istes). – Indica emprego, occupação –
oculista, dentista, sacrista, copista, jornalista. E’ esta a
terminação dos nomes de pessoas que tocam um instrumento,
excepto aquelles que derivam por mudança de sentido,
por metaphora (um piston, um tambor): – flautista,
pianista
. Hoje é de grande emprego, e entra tambem na
formação dos nomes que exprimem os partidarios de um
systema, escola, seita ou idéa – abolicionista, socialista,
niilista
.

Ismo (1. ismus, gr. ismos de ismê, espirito) – Indica.
1°, religião, crença, seita, doutrina e tambem se
junta a adjectivos) – christianismo, islamismo, sebastianismo,
socialismo, positivismo, machiavelismo, altruismo
(p.
analogia com egoismo) – 2°, qualidade – brilhantismo, purismo:
– 3°, palavra, locução peculiar a uma lingua ou cidade
gallicismo, hellenismo, solecismo. Fórma pois nomes
289abstractos correspondentes aos adjectivos em ista, ico, –
socialista purista fanatico (fanatismo), patriotico, etc. Oppõe-se
a ade, christianismo christandade, espiritualismo
espiritualidade
; a ancia – ignorantismo ignorancia.

Orio: (pop) – Indica extensão, augmento: – territorio,
promontório, directorio…
; logar onde se faz a acção
cartorio, escriptorio, refeitorio.

Sentido pejor. – chapelorio, camelorio. 1189

c) Substantivos derivados de adjectivos.

9. – Formam-se accrescentando aos adjectivos os
suffixos aço ado ao cia dade dico ença ena encia (ancia)
ez (eza), ice ismo ura, etc.

Ada – Indica acção desairosa, baixa: – bregeirada,
velhacada, tratantada
.

(l. one) – Ind. qualidade, estado: – perfeição,
mansidão, gratidão
.

Cia, ia (itia, ia). – Indica qualidade, tendencia: –
audacia, constancia, prudencia, perfidia.

Dade (atem accus. dos nomes lat. da 3ª decl. lat.
em tas) Indica qualidade: – forma geralmente nomes
abstractos: – bondade, felicidade, crueldade… e muitos
outros analogicamente.

Saudade = ant. so-i-dade (soledade) sólidão. A intercalação
do i já era frequente no lat. – bonitatem, etc.

Estes derivados são muito vulgares no portuguez, e
talvez em numero passante de 500.

Oppõe-se a ão – soledade solidão, mansidade mansidão
(G. Vic.), variedade variação… e no Sec. XVI a
eira – ceguidade cegueira (ceguice).290

Aria. – Indica acção, effeito, proprio do individuo,
idéa expressa pelo radical; o estado do que exerce estas
funcções, etc…: – enfermaria, velhacaria

Ena – De nomes de numeros: – novena, quarentena.

Ença. – Significa – qualidade, estado: – doença, comvalescença.

Encia (l. entia). – Denota qualidade: – prudencia.

Ez, iza (l. itia). – Indica qualidade, estado; forma
nomes abstractos: – rapidez, fortaleza, surdez, largueza.

Oppunha-se no Sec. XV a ura, dade: – brandez a p.
brandura, farteza p. fartura, viuvidade p. viuvez, nuidade
p. nudez, …. E ainda temos exemplos dessa confusão
em clareza claridade, torpeza torpidade, tristeza
tristura
, etc.

Ia (lat. ia atono). – Significa o mesmo que esa: – perfidia,
monotonia, cortezia
.

Iça icia (f. pop. accessoria); do lat. itia: – justiça,
preguiça, malicia
.

Ice (1. itie) – Indica estado: – patetice, velhice, calvice.

Ismo – v. – subst de subst.

Mento (1. mentum). – Indica estado, acção: – contentamento,
atrevimento
.

Monia (1. Monia). – Indica acção: – acrimonia, parcimonia.
Só entra na formação de palavras classicas.

Orio. – Tem sentido pejorativo – finorio, simplorio.

Tude (lat. tutem der. de tus tutis). – Indica estado
qualidade: – juventude solicitude.

Ura (1. ura, atura). Idem: – amargura, formosura,
loucura
.

Oppõe-se a ORamargor amargura.

Os substantivos derivados de adjectivos são do genero
feminino, como em latim. Exceptuam-se os em – ismo,
mento, orio
.291

c) Substantivos derivados dos verbos.

10. Destes substantivos, alguns indicam a acção expressa
pelo verbo (ada, ança, ão, ção, (são) ivo, ela, en);
outros, o resultado dessa acção (aço, ado, ire, mento, ura);
o agente da acção (or dor, tor, sor); o logar em que se
passa a acção (eiro, io, ouro, etc.); a significação do substantivo
no superlativo (az).

Aço (etfeito): – cansaço, andaço.

Ação. lat. ionem, nominativo io (t-io) (acção). Fórma-se
geralmente com verbos da 1ª conj.: – ligação, publicação,
encadernação
.

A maior parte destes derivados compõe-se de nomes
abstractos; muitos delles – de acção –, tiveram por base
o part. passado latino – effusão intuição.

Agem. Indica acção ou resultado da acção: – lavagem.

Alho – Exprime cousa masc. que serve de instrumento:
espantalho.

Ança, ença, ancia, encia (1. antia entia). Indica acção,
estado de acção: – fórma geralmente nomes abstractos
correspondentes aos adjectivos em ante, ente, inte: – esperança
lembrança, mudança; crença detença; resistência
concurrencia; observância vigilancia
.

Ença encia são fórmas populares; mas temos não
obstante muitos vocabulos de derivação classica com este
suffixo: – exigencia, urgencia, adherencia.

Muitos dos nossos nomes derivados em ança não teem
correspondentes em latim.

Ante – Suffixo do part. pres. Indica acção; profissão:
marchante, negociante, purgante.

Ão ção (são). Do latim ionem tionem c-ionem s-ionem).
Indica acção: – rasgão, canonisação, pronunciação, abolição.

Anda. Fórma nomes fem. dos part. futuros latinos:
– propaganda. Except. multiplicando.292

Eiro ouro (oiro), ório. – Do latim arium, erium;
orium
(t – orium, t – sorium, etc.) Indicam: 1°, o logar onde
se faz a acção: – atoleiro resvaleiro; matadouro ancoradouro;
lavatorio, dormitorio, oratorio
, etc.; 2°, o suff.
orio significa mais o instrumento com que se faz a acção:
vomitorio, seringatorio; 3°, eiro indica outrosim o
agente: – lavandeiro, cosinheiro; 4°, ouro indica ainda
estado: – casadouro.

O a e o t são consoantes de intercalação frequente
nestes derivados, como já acontecia no latim.

Os formados do supino são, em regra, masculinos –
directorio, dormitorio… Except. – escapatoria

Ouro corresponde a ijo – escondedouro esconderijo.

Enda – fórma, bem como anda, alguns nomes femininos
de part. futuros latinos: – offerenda… Except.
dividendo.

Eira – Indica acção: – choradeira, dormideira.

Ela (ella). do l. ela; indica resultado de uma acção:
– tutela, machucadela, apalpadela. Nos derivados populares
nota-se a intercalação do d.

Ia (cia, etc., com os verbos da 2ª e 3ª conj.; vide Encia)
do latim aria contrahido. Indica acção, resultado: –
berraria, gritaria.

Ivo (t-ivo) (l. ivus). – Exprime acção, resultado da
Acção: – paliativo, recitativo.

Ido (l. itus). – Exprime o resultado da acção: –
rugido, ganido, tecido. Formam-se todos de verbos da
3ª conj. (part. pass.)

Io (1. ium). Indica acção, logar onde ella se exerce.
imperio, pousio, vaticinio.

Ente – Indica acção, resultado, logar onde, agente.
Suffixo part., derivado do part. act. lat. em – ens, – entis
(entem); e por motivo desta derivação a palavra a que se
ajunta este suffixo tem sentido de estar, existir: – ausente
(absentem), servente (serventem), precedente, semente293

A maior parte dos verbos radicaes destes nomes, todos
de origem latina, não existe em portuguez.

Iz – Só temos um exemplo em que corresponde a –
mento: chamariz (pop. port.)

Men, me. – Este suffixo só apparece em palavras
classicas de origem latina, taes como – exame, certamen,
regimen, specimen
.

Mento (l. mentum, de minere). Significa acção, resultado:
testamento, ornamento… cumprimento, fallecimento,
enchimento, aborrecimento
, etc.

Muitos já nos foram transmittidos pelo latim: – documento
(de docere, instruir ensinar), alimento (alimentum,
de alere, alimentar), fragmento (fragmentum, de frangere,
quebrar)…

Forma-se pois como em latim, do presente do Indicativo (Testamento,
documento
), ou do supino (detrimento, fragmento).

No 1° caso indica o resultado; no 2° acção.

Oppõe-se a ção: – fundamento fundação, fragmento
fracção, sentimento sensação, criamento criação, …ança
:
ensinamento ensinança, etc.

Or (d-or, t-or, s-or), do lat. – or (t-or, s-or). Indica:
1°, agente – abridor, leitor, imperador, contador; 2°, logar
onde: – jazedores 1190 Uns representam typo latinos (leitor,
injector, abactor), outros são de derivação portugueza etc.
(contador, fumador…)

Cp. – leitor ledor, escriptor escripturario, fumador
fumante, tabaqueador tabaquista
, etc.

Orio (t – orio) – V. Eiro.

Ura (t-ura, d-ura). Do latim ura (t-ura, s-ura). –
Exprime o resultado, o effeito, o estado – queimadura,
quebradura, captura, sepultura, pintura
, etc.294

A maior parte destes derivados são portuguezes formados
pelo typo latino: – molhadura, cosedura, descompostura, ….

Oppõe-se a mento – ligadura ligamento, quebradura
quebramento; acção – fractura fracção, creatura creação
.

11. – As desinencias indicadoras de collecção, além
das que já ficaram apontadas (ado, ade, edo, io, agem,
al, ario, eiro, mento, orio, ura
), são – alho,-a, ilha,
ulho, ame, ama, ume, enta, ura
.

Temos, porém, muitos nomes conectivos simples: –
bando, mó, chusma, povo, récua, recova, …

Estudemos os suffixos de que ainda não tratámos.

Alho, -a (ilha ulho). – Tiram origem: alho, – a,
não da desinência latina – alo, -is – como geralmente se
tem escripto, mas de aculus, -a, -um, sem mais significação
diminutiva; e do suffixo lat. – alia; ilha, do suff. – ilia;
ulho
, de uculum; – cascalho, serralho; caniçalha, canalha;
matilha, camari1ha; pedregulho
. São quasi todos
de derivação portugueza.

Ame, ama ume (de amem, multidão): – barrilame,
cartuchame, massame, vasilhame
, etc. – Os Romanos
tambem derivaram – examen, certamen, velamen

As fórmas – ama, ume, são corrupções de ame: –
mourama, cardume.

Ena. – Forma-se com certos nomes de números: –
centena, trezena, dezena.

Enta (l. entum): – ferramenta.

b) Suffixos augmentativos e dimittutivos

12. – Vide Lição 14ª pags. 181 – 187. 1191295

13. – Ao que dissemos na Lição 14ª nada mais temos a
accrescentar senão que muitos nomes femininos formam
o augmentativo em ão (p. Ona, ã). passando consequentemente
para o gênero masculino – portão, mulherão.

Havia nos Sec. XV XVI as desinencias ego, igo, que, parece, correspondiam
ás actuaes – agem, ia:

Fumádego – fumagem, pensão paga por fogo ao senhorio.

Terradigo terradego – quantia que o foreiro pagava de laudemio
ao direito senhorio para poder alienar o predio, etc.

Portadigo – portagem.

Mordomadigo – mordomia.

Hospedarigo – hospedagem.

Ainda temos amostra desta derivação em realengo (ant. realego),
avoengo, terras–reguengas, etc.

II. Formação de adjectivos

14. – O portuguez fórma adjectivos tambem pelo
processo de derivação, com themas nominaes e verbaes:
pedregoso, negral, enganador:

a) Adjectivos derivados de substantivos

15. – São principaes suffixos, além de alguns já estudados:

Al, el, il, (lat. alis, elis, ilis . .) – Significa – que
se prende ou refere a, da mesma natureza que: – Estes
adjectivos não nos indicam a cousa em si; apenas a determinam:
meridional (logar), imperial (classe), occasional
(tempo), etc.

Al é muito productivo, e sobem a cêrca de 300 os adjectivos
de base nominal formados com esse suffixo.

As outras duas fórmas mais se apresentam em adjectivos
importados directamente do latim, ou formados eruditamente
de themas latinos: – cruel (crudelis), fiel
(fidelis), hostil (de hos hostis inimigo), viril (de vir,
homem), pueril (de puer, menino), senil (de senex,
velho), etc… febri1, carril.

Alguns adjectivos em al são hoje substantivos: –
natal, rival, jornal.296

Aceo (l. aceus) – Indica semelhança: – rosaceo, gallinaceo.

Ado (l. atus). – Indica posse: – estrellado, alado.

Ano ão (l. anus) – Indica origem, seita, profissão:
transmontano, Pernambucano; dominicano, christão,
christiano
.

Ar (l. arisarius): – Denota estado, qualidade: – patibular,
familiar
.

Ario eiro (l. arius) – Indica profissão, estado, qualidade
imaginario, solitario, embusteiro, interesseiro, solteiro.
Nas palavras de fundo popular mais predomina
a segunda fórma.

Atico (1. aticus) – apparece em palavras de formação
erudita: – lunatico, anseatico, aquatico, fanatico. V. Ico.

Ecimo, esimo (1. esimus). Junta-se a numeraes cardinaes
para a formação de ordinaes: decimo, centesimo.

Ejo. Indica procedencia: – Sertanejo, annejo.

Enho (1. enus) – Exprime uma propriedade ou qualidade,
representada pelo radical: – ferrenho.

Ente (1. ente) – Indica estado porque ente é ablativo
de ens participio do verbo ser – paciente, prudente.

Ento (1. ento) – 1. lentus. Indica abundancia, tendencia:
– ferrugento, pestilento, bulhento, succulento.

Ense (l. ensis) – Exprime procedência, origem: –
forense, Maranhense.

Ez, a (l. ensîs) – Indica procedencia, proprio de: –
montanhez, montez, camponez.

Eo (1. eus). – Indica a materia de que a cousa é
feita: – férreo, argenteo, lineo.

Opp. a oso: – ferreo ferruginoso.

Este (1. estris) – agreste, celeste. E’ improductivo.

Estre (1. estris ester): – pedestre, equestre, terrestre
Destes só é de fundo popular – campestre.

Esco (1. iscum) – Indica o modo, a propriedade,
origem, semelhança: – fradesco, burlesco, pedantesco,
297arabesco, pittoresco. Pelos exemplos vê-se que ás vezes
tem sentido depreciador.

Fero (ifero). – E’ um dos suff. lat. que mui productivo
tem sido no portuguez, mas só em vocabulos
de origem erudita: – mortifero (levo a morte), pestifero,
salutifero
.

Ico (l. icus). – Denota o mesmo que al – relação,
origem, ainda que mais determinando o conjuncto das
propriedades: – aristocratico, geometrico.

Opp. a il: – civil civico; a oso – harmonico harmonioso;
a ar – monastico monacal.

A desinencia fico (de facio, faço) entra na derivação
de muitos adjectivos, e exprime a idéa de produzir ou
fazer alguma cousa: – pacifico, soporifico, prolitico.

Iço icio (1. icius). – Indica qualidade: – castiço, chuvediço,
alagadiço, patricio
. E’ suffixo popular.

Ido (1. idus). – Exprime a qualidade propria do substantivo
radical, mas em alto grão: – calido, timido, humido.

Imo (l. imus, suffixo indicador de superlatividade). – São
poucos os vocabulos em que apparece, e sempre com a
intercalação de um t (t-imo): – legitimo, maritimo.

Cp. lidimo leal legal legitimo, e marino marinho maritimo.

Ino (t-ino) 1. inus, t -inus. – Indica semelhança, origem,
relação: – crystallino, marino, salino, libertino.

Inho: – marinho

Itico: V. ico. romantico.

Lento – V. ento.

Olico (1. olicus) V. ico. Melancolico (ant. merencoreo),
symbolico.

Onho (onius). Exprime o que faz, o produz: – enfadonho,
tristonho
.

Oso (1. osus). Indica posse: – astucioso, fogoso,
manhoso, nervoso, montanhoso, ocioso
, etc. E’ uma das
mais productivas desinencias portuguezas, e já o era no
latim.298

Notemos mais os derivados em uoso formados por analogia:
monstruoso, voluptuoso.

Udo (l. utus) – Ind. abundancia; – posse, mas com
idéa de grandeza, augmento: – cabelludo, pelludo, sanhudo,
barrigudo
. A’s vezes tem sentido pejorativo: – linguarudo,
abelhudo
.

Um. Os adjectivos formados com este suffixo só se
empregam com o subst. gado: – vacum, cabrum. Corr. a
ar (cavallar.)

Undo. (1. undus) – Indica tendencia: – furibundo, iracundo.

Opp. a oso – Cp. furioso, iroso.

Urno, ierno (l. urnus, iernus). Indica tempo: – diurno,
hodierno, nocturno
. Só em derivação erudita.

b) Adjectivos formados de adjectivos.

16. – Já tratámos dos suffixos augmentativos e diminuitivos
etc, dos adjectivos (Lição 14).

Além desses temos – ento (pardacento, alvacento), al
(negral), tirante a negro, oso (verdoso), aico (judaico, referente
a judeu) etc…

No Sec. XV era corrente o suffixo engo, hoje rarissisimamente
empregado, indicando – de, referente a:
Judengo. 1192

c) Adjectivos derivados de verbos

17. – O portuguez fórma adjectivos verbaes adoptando
os participios do verbo, ou ajuntando certos suffixos
ao radical verbal.

18. – Formação pelo participio. – Empregamos tanto
o participio presente latino como o passado: – obediente;
paciente, brilhante, … vago
(vagante), sujo (sujado).299

A’s vezes o verbo desappareceu do portuguez moderno,
persistindo, porém, os participios com cathegoria de adjectivo
ou de substantivo: – miserando (de miserar), pudendo
e pudente (Sec. XVI), … bispado (de bispar, “vêr
o rebanho cathedral’ 1193), calçado.

19. – Formação com sujftxos. Os principaes são:

Ado. Já nos referimos a este suffixo.

Ante, ente, inte. = Corrrespondem ás desinencias dos
part. pres. activos latinos – ante (ans antis) e ente (ens
entis
): – caminhante, imponente, conhecente (Sec – XV),
pedinte.

Alguns tornaram-se substantivos – lente, affluente.

Muitos dos verbos thematicos destes adjectivos não existem no portuguez:
ambulante, (1. ambulare andar) benevolente (Sec. XVIII),
ou já vão, ainda que mal, cahindo em desuso: – febricitante, (de febricitar),
protuberante.

. – Folgazão, brincalhão e brincão.

Ando endo undo (endus, arch. undus.) – Como em
latim, suffixam-se ao radical do pres. do Ind., e indicam
acção. Correspondem aos derivados em avel: – venerando
veneravel). São em geral de origem erudita (oriundo),
mas com uma fórma synonymica popular (originario).

Az (ace) l. ax. – Indica alto gráo da qualidade expressa
Pelo radical: – efficaz (efficere effectuar), loquaz, (loquere
fallar), … beberaz, robaz, (Sec. XV e XVI), mordaz.

Bundo (1. bundus). – Ajunta-se ao radical do presente
do Ind. – Significa tendencia, estado: – vagabundo
(p. vagamundo), tremebundo, meditabundo, gemebundo,
moribundo
.

Equivale ao oso das bases nominaes. – Quasi todas as
palavras desta terminação são importações latinas.

Avel, ivel, bil, il (1. bilis – ibilis, ilis, – abilis, ebilis,
nos poetas). – Indicam a possibilidade – quasi sempre
300passiva –, a capacidade de fazer alguma cousa. – Os em
avel formam-se pela juncção do suffixo aos radicaes
verbaes de 1ª conj.: – amavel, penetravel: os em ivel,
formam-se do part. pass. Lat. – vendivel, crivel. Os em
avel podem tambem formar-se tomando para thema um
substantivo – genial. 1194

Ivel, é de formação erudita; avel, popular.

Avel oppõe-se a ante, oso: – amavel, amante, amoroso;
ivel
a ivo:-sensivel, sensitivo.

Os em bilil formam-se de base verbal latina; e
todos nos vieram já formados dessa lingua: – facil (facere
fazer) docil, (docere ensinar), fragil (frangere
quebrar), nubil (nubere casar, reptil (de reptum sup. de
repo arrastar), mobil (de movere, mover.)

Na ling. pop. muda-se o b em v – movel.

Neste grupo devem entrar os em uvel (de sentido
passivo): – indissoluvel, soluvel, voluvel.

A acção que nas linguas romanas a 1ª conj. exerceu sobre as
outras no part. pres. tambem é manifesta na derivação. Temos
alguns exemplos no portuguez desta preferencia pela fórma em avel;
que hoje muito mais se accentúa no francez. Os verbos de 2ª conj.
seguem os da 3ª porque, adaptando as formas a-bilis, ibilis latinas,
desprezaram de todo a em ebilis (fle-e-bilis).

Ejo: – andarejo andejo.

Iço (l. icius). – Indica a natureza ou condição: –
abafadiço, alagadiço.

Io: – escorregadio, luzidio.

Ido (l. idus). – Com az e undo, é um suffixo improductivo.
Rigido, timido.

Ivo (l. ivus, que corresponde a bilis). – Indica força,
aptidão, faculdade para fazer alguma cousa: – putativo
(de putare pensar julgar), auditivo (de audire ouvir), …
fugitivo, instructivo, corrosivo.301

Fórma geralmente adjectivos de sentido activo:
captivo, adoptivo, etc.

E’ de formação dassica; mas já vai se popularisando.
Cp – negativa negação; persuasivo persuasorio; nutritivo
nutriente; instructivo instruidor
(instructor).

Or (dor tor – fem triz, sôr, ora) – Corresponde ao
lat. Or (tôr. sor. fem. triz) sempre que o radical é supino
latino ou particio presente: - seductor, conciliador.

d) Substantivos ethinicos, gentilicos e patrominicos

19. – Os nomes locaes formam-se tambem de varias
terminações: ia (Italia, Asia, Dalmacia, Bulgaria, …);
ica (Africa); ento (Agrigento, Buxento); anha (Bretanha,
Allemanha); polis (gr. polis, cidade) Petropolis,
Theresopolis
, ...... Os do Brasil, porém, são na quasi totalidade
nomes indigenas: Piauhy (piau peixe + hy agua),
Pará, contracção de paraná (mar) Nictheroy (nitero
escondida+ hy agua), Carioca, etc….

20. – Os nomes de povos e nações formam-se com os
nomes proprios de paizes e cidades, e as desinencias –ano
(iano), ense, ão, ez, ino, ico, ista, aico, etc: – Pernambucano,
Romano, Galleziano
(Gallego), Atheniense Lisbonense
Lisbones, (Lisboeta), Coimbrense (Coimbrão),
Beirense (Beirão) Maranhense, Bretão, Egypciaco, Latino,
Paulista, Romaico, Judeu
(Judaico) Chinez (Chim)
Indio (indico, indiano) Portuguez, Inglez, Francez: Brasileiro
(Brasiliense). Essas desinencias são de origem latina,
com excepção de ez (contr. de ense, mas de emprego moderno),
e eiro, que não tem correspondente em latim,
mas que formou alguns nomes ethnicos – Vimieiro,
Barreiro
, etc…

21. – Alguns nomes, pois, teem duas e tres desinencias.

Os classicos conservavam as desinencias claras, isto é,
as formas completas dos vocabulos: – Egypciano (Luc),
302Persiano (Vieira), Syriano Etyopiano (Pant. de Aveiro),
Indiano, Portugalense, etc; hoje quasi todos elles se apresentam
symcopados: – Persa, Egypcio, Etyope, Syrio,
Assyrio, Indio, Portuguez

22. – Os patronimicos, ja vimos, derivam-se dos
nomes proprios – com o suffixo es: – Alvares de Alvaro,
Gonçalves
de Gonçalo, Soares de Soeiro, etc.

e) Derivação dos verbos

23. – O portuguez forma verbos derivados, de substantivos,
adjectivos primitivos, e de verbos simples.

1°. – De substantivos – Juntando-lhes: a) a terminação
ar: – caminha, tabaquear, ajoelhar, batalhar; b)
a terminação – isar, de introducção mais recente (= l.
izare, grego issare): – arborisar, romantisar, .c) a desinencia
icar (= l. icare): – fabricar forjar, pregar (predicare);
f) ir, mas muito raro: – divertir, cuspir, etc.)

São pois quasi todos da 1ª conj. os verbos derivados
de substantivos, os quaes exprimem o objecto da acção.
Esses verbos exprimem ao mesmo tempo a acção e o
objecto della. Alimentar é dar alimento; espanar, saccudir
com espanador; ajoelhar é cahir em joelhos.

Este processo era conhecido dos Latinos (querelare de
querela), e delle muito se aproveitaram os nossos maiores.
São do Canc. da Vat. os seguintes exemplos – desemparar
(84), alongar, alegerar (111), regallar (208), aventurar.

2°. – De adjectivos – Terminam: a) em ar, ir: –
manear, ventar, denegrir; b) em isar: – ferti1isar; e)
em ecer escer (l. escere), com os prefixos a em (en)
etc.: – amarellecer, endurecer, emmagrecer, envelhecer.

Os em ar são activos com sentido causativo; os em er e
ir significam tornar-se, fazer (denegrir é fazer negra
qualquer cousa, envelhecer – tornar-se ou fazer-se velho).303

3°. – De verbos simples. Com os suffixos – icar, itar,
iscar, inhar, migar
, etc.: – bebericar, namoricar, dormitar,
chupitar, escrevinhar escoucinhar
1195 Estes verbos
teem sentido diminutivo, frequentativo ou pejorativo.

Destes verbos derivados formam-se substantivos em
ola, or, ico, iga: – catarola, escrevinhador, namorico,
choramigas
.

Nota. – A derivação verbal, pois, faz-se por meio de
suffixos proprios (derivação mediata): – caval-g-ar,
pulver-is-ar
; ou pela simples addição ao thema de flexão
verbal: – cantar pensar.

Para a derivação mediata conserva o portuguez quasi
todos os suffixos latinos.

a) Suffixos nominaes.

Agem – viajar, ultrajar: aço – embaraçar; ça já (= 1. ia) –
invejar agraciar; lho a (1. Alia, ilia, culus) – trabalhar maravilhar
envelhecer; ela – acautelar; al – immortalisar igualar; il – facilitar;
ança acção -
semelhar humilhar; bil – terrililisar; ão ano
christianisar; inho ino: – caminhar assassinar; sião tão – occasionar
questionar; ume – costumar; igem – originar; ugem – ferruginar;
anho (1. aneus) – estranhar; ura – misturar; ario – contrariar:
lo – libertar; ço – abraçar soluçar; icia iça – acariciar, espreguiçar;
ivo – cultivar, motivar; etc – banquetear (sem mod. do thema),
undo – vagabundar vagabundear; ento – alimentar parlamentar,
etc.

Suffixos consoantes:

b. g. 1°) ĭc-ā (icare). Indica, tendencia para o estado já indicado,
semelhança
, e frequencia ou ainda diminuição, conforme vem
junto a um nome ou a um verbo: – fabricar, pacificar, mastigar,
vingar, amargar, folgar, julgar, castigar, fustigar
; o g tambem
é formativo em espargir (sparso), immergir (immerso). Nas
linguas Romanas, ás vezes essas gutturaes são representadas por um j,
o que faz suppor 1°:) quéda do c primitivo, 2°) intercalação de um j
euphonico: – verdejar, flamejar, forjar, bocejar, calvejar, branquejar,
dardejar
, etc.

Muitos são os novos derivados deste suffixo em portuguez: –
madrugar, cavalgar, outorgar, (autorisare), rasgar (rasicare lat.
bar.), salgar, amolgar, etc… A nossa fórma em ear, iar, já era,
segundo affirma Diez, muito frequente nos antigos poetas (eare, iare)
304folhear, guerrear, senhorear, manear, branquear, soborear, mas
entre nós é mais usual o suff. ejar, planejar, manejar, cortejar, velejar,
etc.

P. D – 1°) t – a (tare, sare). E’ intens. em captar, mudar;
mas em portuguez tem em geral sentido frequentativo: – aproveitar,
juntar, conquistar, despertar; ousar, reuncar, usar, avisar, olvidar,
appelidar, crocitar, palpitar
, e muitas outras palavras de creação recente;
2°) – ĭ - t – a (itare) frepuent. opt. ou simp. denom: – dormitar,
nobil – itar, debel – i’ar
; 3° t – i - a (tiare –, siare) port. çar sar.
São fórmas particulares do lat. vulgar, ás quaes se deve uma série de
verbos transit. da 1ª conj.: – caçar, traçar, aliar, (alço) aguçar,
(agudo) avelgaçar, peusar, etc…

R, l – 1° re (lat. ri, si) junta-se ao suff. du, tu (lat. tu), e
fórma verbos desid: – ama-du-re-cer; 2°) ŭl (ol, ĭl), tem valor frequente
dimin. tanto com portuguez como em latim: – formigar, tremolar
granular, pull-ul-ar, vi-ol-ar, vent-il-ar; 3°
) c-ul = c-ulare), frequent.
ás veze dim.: – gesti-c-ular, os-c-ul-ar…;

A’s vezes a consoante vem dobrada (llillare, dim.) lt
Altare, eltere, oliare, id. zombetar, esgravatar).

N – Esta nasal dental, formava o thema em po-n-er (põer, por),
in em ob-st-in-a-r, de-st-in-a-r, contam-in-a-r; a fórma UT (untare,
entare
), deu ás linguas Romanas grande numero de verbos da 1ª conj.,
quasi todos de significação intransitiva, porque nem sempre conservaram
a primitiva: – acalentar, levantar, acrescentar (crescer) amamentar
(mamar), amedrontar, molentar, apascentar (pascer) aparentar
espantar
, ant. quentar, afugentar, aquentar (aquecer), endireitar,
S. Ros. (endurecer) etc.

S sc (ascere, escere iscere), fórma verbos inchoativos, em geral
da 2ª conjug.; – crescer, acquiescer nascer, e carecer, empobrecer,
agradecer, amanhecer, merecer, obscurecer, padecer, parecer, verdescer,
envelhecer
, etc.

Muitos dos verbos derivados em sc, porém, perdem o sentido inchoativo:
apetecer, abastecer, guarnecer, enternecer, enfraquecer,
etc…

Ess iss indica reiteração, imitação, semelhança, isto é, fórma
verbos iterativos e desiderativos. Nós porém despresando esta fórma
grega latinisada, adoptamos no periodo classico, a puramente grega
nos verbos formados com o suftixo iz (is): – baptisar, (ant. bautizar)
escandalisar, e por analogia judaisar, latinisar, autorisar, moralisar,
escravisar, poetisar, temporisar, aromatisar, eternisar, democratisar
pulverisar, tyrannisar
, etc.

Além destas derivações verbaes, temos – ucar (batucar, beijocar,
retoucar
) ussare, usare (bambusar), azzare (escorraçar, esvoaçar,
espedaçar
) uzzare (relampejar), iscar (belliscar petiscar): uscar
(corr. do ult. – chamuscar) etc…

Derivação grega

24. – O portuguez tambem tomou do grego elementos
de derivação, e ajunta os suffixos tanto a radicaes gregos
como a latinos e portuguezes (V.Hybidrismo. Liç. 24).305

A medicina e a chimica são as duas sciencias que mais
se teem aproveitado desta derivação para aperfeiçoamento
de sua technologia (vide Liç. 24 Etymologia portugueza).

25. – São principaes suffixos gregos entrantes na formação
dos nossos vocabulos.

Algia (ἄλγος – dôr): – odontalgia, nevralgia,
nostalgia, gastralgia
.

Cracia (κρατία – governo): – democracia, theocracia,
aristrocacia
.

Crisia (κριδις –juizo, R. – κρίνω – julgar): – hypocrisia,
cacocrisia
.

Alguns querem que hypocrisia e hypocrita venham do latim
porque já em S. Jeronymo encontram-se as fórmas hypocrisis,
hypocrita
; mas a sua verdadeira derivação é grega – (ύπδκριδι –,
dissimulação.

Cosmo (κοσμο – mundo): – microcosmo, macrocosmo. Já
vimos que muitas vezes cosmo serve de prefixo: – cosmogonia, cosmographia,
cosmologia, cosmopolita
, etc.

Gamia (γαμος – casamento): – bigamia, poligamia.

Gastrio (γαστήν – ventre): – epigrastrio, hypogastrio.

Genia (γενια = geração) –: androgenia, pathogenia,
pyogenia etc
.

Geo (γειον = terra) –: perigeo, apogeo.

Gnosia. gnose, gnosis, (gnostico) gonia
(γνοσια, γνοσις, γονία = conhecimento) –: antognosia, diagnosis
theogonia, cosmogonia
etc. e diagnostico.

A desin. gonismo em antogonismo vem do grego γώνισμα, donde se
derivou antagonista.

Gramma (γράμμα = t letra) –: anagramma, epigramma.

Graphe (γραφπ = escripta) –: epigraphe.

Graphia (γράφω = escrevo ou λράφειν = escrever –:
geographia, typographia, lithographia etc., caeographia
etc., d’onde306

Grapho (= que escreve) –: geographo, typographo
lithographo
.

Litho (λίθος = pedra) –: aerolitho

Logia (λολία, = tratado λόγος) –: anthropologia, biologia,
cacologia, phi1ologia, tautologia, paleontologia,
pathologia, geologia, astrologia
. Derivados portuguezes –:
minerologia, etc.

Machia (μαχια = combate) –: tauromachia.

Mania (μανία = loucura) –: bibliomania, monomania.

Metro (μέτρον = medida) –: barometro, cronometro,
pluviometro
, etc.

Metria (Ind. sciencia de medição) –: geometria, trigonometria

Mancia (de manteia) acção de predizer – cartomancia.

Metra (Ind = o que mede) – geometra etc.

Métria acção de medir: – geometria.

Morpho (μορφο = fórma) –: amorfo, etc, donde amorphia,
etc.

Nomo (νόμος = conhecedor) –; astronomo, agronomo.

Nomia (= conhecimento) –: astronomia, agronomia.

Omalo (ώμαλος = irregular) –: anomolo, donde anomalia.

Pathia (πάθος = doença, affecção e sentimento) –:
allopathia, homeopathia, sympathia, antipathia, etc.

Phago (φάγειν = comer) –: anthropophago, homophago,
hippophago
, etc. donde anthrophagia, etc.

Philo (φιλος = amigo) –: bibliophilo, Theophilo.

Phobia (φοβος = aversão, temor) –: hydrophobia.

Phobo (Id = o que teme, e tem repugnancia a…) –:
hydrophobo, que tem aversão á agua com o mesmo sentido
em lat. hydrophobus (Plinio).

Phoro (φόρος = que produz) –: phosphoro, (que produz
luz) aromatophoro, etc.307

Phyto (φυτος = crescer, φυτον planta, creatura) –:
neophyto, zoophyto.

Plexia (de plexia, plexis) acção de bater, ferir, atacar:
apoplexia.

Poda (ποδύς pé): – antipoda, etc. No lat. ha a forma
antis podes.

Pola (μωλεϊν vender): – bibliopola.

Poli, -s (μολς cidade): – metropolis, e nos nomes
ethnicos ou locaes: – Tripoli, Andriopoli, Sebastopol corrupção,
etc. Sebastopolis), Petropolis, Theresopolis.

Scapia (scopia; acção de olhar, vêr): – microscopia.

Sophia (σοφία sabedoria): – philosophia, donde
philosopho. etc.

Stylo (στυλον columna, pilar): – peristylo.

Technia (τέχνπς arte, sciencia): – atechnia, etc.
d’onde a desinencia Technico – polytechnico, pyrotechnico

Theca (θήχπ deposito): – bibliotheca, pynacotheca.

These (θεσις posição): – antithese.

Thono, tono (τονος Som); – monotono, arteriothono,
donde monotonia. etc.

Tomia (tomia) – de cortar anatomia, urethrotomia.

Throphia (τροφία Nutrição): – atrophia. Der.
atrophiar, – mento.

Typo (τυπος typo modelo): – archetypo, prototypo.

A nossa lingua tendo a faculdade de crear novos verbos, é para
sentir não entrem em circulação muitos de que carecemos, formando-os
de substantivos ou adjectivos existentes, ou mesmo desarchaisando-os
– No 1° caso estão – altruismar (já temos egoismar) indifferenciar, indistinguir,
vaquear
(pastorear gado vaccum) verticalisar, etc.: no 2°
alfaiar, harpar, abeberar, embruscar-se, encuminar, esquerdear, jubilar,
medicinar, empegar-se, frear, sabadear, feriar, palmejar,
desprenhar
(uma vez que conservarmos emprenhar), gravidar, dementar,
estugar, patrisar, reptar, refertar, esmechar, tagantar,
tratear, lindar, maridar
, … Alguns desses verbos archaisados conservam-se
nas provincias e em alguns logares onde mais medrosa
conservou-se a instrucção: por ex. o verbo pinchar usado no Rio
Grande do Sul, e que é do tempo de Barros e Damião de Góes.
308

Decima nona lição
Das palavras variaveis formadas no proprio seio
da lingua portugueza.

1 – O portuguez formou no proprio seio da lingua –
substantivos, adjectivos, pronomes, e principalmente verbos.

Já nos referimos a essa necessidade de accrescer, e ao
parallelismo forçado do lexico com os progressos industriaes,
artisticos e scientificos; já vimos a importancia da
analogia na formação das palavras novas; o caudal immenso
que nos offerecem os dous processos da composição
e derivação para crearmos palavras vernaculamente, e lhes
desenvolvermos o sentido 1196.

2 – As palavras nascem da actividade do pensamento.
“O vocabulario é a photographia completa do
saber de um povo; é o psychographo que indica e deixa
registrados os successivos gráos por onde o espirito foi
ascendendo.”

Si creamos, descobrimos ou fabricamos uma cousa
nova, é força dar-lhe um nome; mas isso não basta, e
em breve vem a necessidade dos compostos e derivados
para exprimirmos a acção ou o logar onde ella se faz, o
agente, a conectividade, o augmento, a extensão, a degradação
do sentido, etc. Chuva. p. ex., deu chuveiro, chovisco,
309choviscar, chuvoso, chovediço; feitoria, – feitor, feitorisar,
feitorisação; telegrapho, – telegraphar, telegraphista,
telegraphico
, etc.

3 – A palavra póde ser de formação erudita (necroterio,
viaducto
) ou de creação popular. Sobre os vocabulos
eruditos nada temos que accrescentar ao que expuzemos
nas lições passadas; dos de origem popular pouco
mais se nos offerece dizer.

A’s vezes o vocabulo popular logra ter entrada nas
camadas superiores da sociedade (caniço, derriço, caliça,
desobriga, palhaço
, …); outras, porém, falta-lhe a força
contraria a que tambem estão sujeitas as linguas, – a força
conservadora –, e o vocabulo morre no nascedouro ou
tempos depois (escafeder-se, cacunha, bilontra).

Levado tambem pela força creadora e revolucionaria,
e sempre pela tendencia metaphorica, o povo formou
muitos vocabulos pejorativos: – um máo dentista é um
sacamolas; um medico imperito – um matasanos; um
esfolacaras é um máo barbeiro, um vadio; um pintamonos
é um máo pintor; o sonso é um pisamasinho; o casquilho
– um pisaflores ou pisaverde; o arruador – um
trancaruas, …... A par dos nomes scientificos temos
outros tambem de formação popular, que são os de uso
corrente: – girasol, mal-me-quer, amor-perfeito, chupamel,
beija-flôr, bico de lacre, bem-te-vi
, etc.

4. – Os substantivos vernaculos formam-se pois 1°
pela composição:

a) de subst. + subst | mestre-escola
b) subst. +adj | redea-falsa
c) verbo +subst | troca-tintas / porta-voz
d) prep. + subst | entre-casca
e) subst. + prep. + subst. | chefe de trem
f) verbo +verbo | vaivem
g) de palavras diversas | bem-te-vi310

2.° – De um verbo: – vivenda (de viver), choro (de
chorar..:– l. plorare), lida (de lidar) chama (de chamar
= 1. clamare), chamariz, etc.

3.° – De um participio: – achada, nascida, picada,
desfolhada, queimada

4.° – Pela derivação: – Os suffixos mais usados nas
creações vernaculas são – ada (limonada, chibatada),
aria (sapataria, cavallaria), ade (irmandade, sujidade),
eiro (sapateiro, charuteiro), ismo (abolicionismo, jornalismo),
ista (abolicionista escravista), agem (friagem,
criadagem), ão (escravidão, amarellidão) etc. Todos
esses nomes derivados portuguezes formaram-se, porém,
dos typos latinos (Lição 18).

5. – Os adjectivos de creação vernacula são em numero
avultado, e formaram-se pelos processos que vimos
nas lições 17 e 18. O suffixo oso foi, e é ainda, um dos
mais productivos: – gostoso, buliçoso, teimoso, amargoso,
feioso

6. – Os nomes de numeros tambem deram algumas
formações novas: – milhão, billião, trillião, quatrillião,
etc..; dezavos, vinteavos, etc… vintena, tresdobro

7. – São pronomes de formação portugueza = qualquer,
cada qual, quem quer
, etc.

8. – Nos verbos não póde ser mais rica a nossa lingua
no tocante a força creadora, quer sejam diminutivos ou
frequentativos, quer inchoativos ou onomatopicos, etc.;
– barbear, entocar, catucar, chatinar, papaguear, pagaguear,
feitorar, bispar
, encaiporar, mordomear, macaquear,
relojar
(de relogio, F. Man.), velhaquear, tabaquear, cigarrar,
cachimbar, pinotear, sapatear, caranguejar, engatinhar,
judear, cacarejar, grugulejar, miar, telegraphar,
telephonar
…, de substantivos com uma syllaba prefixada
ou intercalação de lettra – adoecer, amanhecer, envelhecer,
ensurdecer, emmagrecer, cabrejar, trastejar, sandejar

(G. Vic.)…; de verbos – feitorisar, beijocar, berregar (de
311berrar); chupitar (de chupar), espanejar (espanar), afformosentar
(de afformosear), ... adocicar, escrevinhar, tremelhicar

Esta exuberância verbal data propriamente do Sec.
XVI.

9. – O substantivo póde tambem formar-se vernaculamente
de um facto historico: – abrilista, setembrista
cabralista, bond
, etc.

10. – Na derivação tem o portuguez uma fonte inesgotavel
para o augmento do vocabulario.312

Vigesima lição
Das palavras invariaveis formadas no seio da
lingua

1. – Os adverbios, preposições e conjuncções de formação
vernacula, correspondem a locuções analyticas
latinas: – assim = ad sic, agora hac hora, assás = ad
satis
, após = ad pos, dentro = de intro, outrosim, ant. altro
si
(= l. alterum sic), outrotanto (= l. alterum tantum),
etc, ou ainda de locuções portuguezas: – embora (em boa
hora), outrora (em outra hora), etc.

Todas essas palavras são phrases cujos elementos fundiram-se
na primeira epoca de nossa lingua. A’s vezes,
porém, a crystallisação já se encontra no latim barbaro
(abante).

2. – Não adoptou o portuguez o typo latino em er
para a formação de adverbios (propter, breviter); mas
sim o em e, talvez por mais facilidade: a miude (minute), …
(– V. Lição 28), e, depois (Sec. XV e XVI) o processo –
tambem conhecido dos Latinos – de adverbiar um adjectivo,
(V. pg. 108). Estes adverbios correspondem aos de
modo em mente, os quaes se formam de adjectivos qualificativos
femininos e de superlativos orgânicos – lindamente,
pessimamente. De melhormente
é expressão correcta.313

O portuguez tambem aproveitou-se da liberdade latina
de empregar participios com força prepositiva – referente,
visto
, …

Todos esses processos são latinos: – 1. class hodie (hoc die), reipsa
(re ipsa); 1. pop. – hanc horam, bona mente etc.

3. – São de formação portugueza: – depois, adeante,
hontem, antehontem, ainda que, como quer, aosadas aousadas

(ousadamente), talvez, portanto, d’ora avante, todavia,
por conseguinte
, etc, e principalmente as locuções: – a
olho, de força, ás occultas, de siso, de maravilha, a pincho,
a sabendas, de espaço, ás caladas, etc.

Dos mesmos compostos – como veremos na etymologia
– encontram-se fórmas correspondentes no latim
popular.

4. – Interjeições de formação vernacula só temos convencionaes
e locutivas: – mal peccado, maocha (em má
hora), t’arenego ! safa ! caluda ! aqui d’ El-Rei !

5. – No port. antigo são muitas as palavras invariaveis,
principalmente formadas pela composição, hoje de todo
esquecida: aramá (hora má), hogano 1197 (hoc anno), cadanho
(cada anno) anproom (adiante, ao longo, ao sopé),
anfeste enfeste (para cima, Sec. XII. XIII), abondo
(excesslvamente; Seé. XIII); acarom (defronte), cada
que
(cada vez que, Canc. Vat.), desi (desde então), de
chano
(de prompto), eiri eyri oyte ooyte (hontem), juso
(abaixo), suso (acima), manteneme (detidamente),
euxano (cada um anno, Sec. XIII, C. V.), a certas
(certamente, R. de S. B.), etc. – V. Lição 28, etym.314

Vigesima primeira lição
Etymologia portugueza…

Etymologia portugueza. – Principios em que
se baseia a etymologia. – Leis que presidiram
á formação do lexico portuguez.

1 – A philologia é a physiologia de uma especie; a glottologia
é a anatomia comparada de differentes especies;
a etymologia é o estudo das fórmas primitivas, derivadas,
e das acções physiologicas. 1198

2 – A etymologia portugueza é pois do dominio philologico:
estuda sómente o nosso vocabulario.

Guiado por ella, mais clara se torna a comprehensão das
palavras, mais acertado o seu emprego.

3. – Ramo principal dos estudos philologicos e linguistiscos,
não se occupa tão sómente das fórmas primitivas
e derivadas, e dos sentidos das palavras; mas
tambem das inflexões e modificações grammaticaes, e
considera as palavras nas suas relações syntaxicas.

Por isso um philologo inglez escreveu que era a etymologia
a historia domestica, a glottologia – as relações estrangeiras.

4. – De varias origens são os nossos vocabulos, como
veremos na lição seguinte: (22) – O grego, o punico, o
315gothico, o arabe, o francez, inglez, allemão, italiano, africano,
o brazileiro (tupy, abanhaenã,)… e maiormente,
em mil dobrada proporção o latim, – classico e popular.

5. – Muitas vezes, percorrendo o lexico, encontramos
palavras completamente mudas para a consciencia actual
da linguagem que só despertam sob o olhar escrutador
do historiador, e revelando a sua historia, revelam do
mesmo passo os costumes e a civilisação de outros
tempos. – (Reboras, almotacé, alcaide…)

O vocabulo palavra, no sentido actual, – diz Darmsteter
–, nada exprime hoje: consultando a etymologia,
de subito a parabola christã, a predica envangelica e um
rejuvenescer maravilhoso de um mundo em decadencia
reapparecem aos nossos olhos. – E ella nos ensinará
mais que a transformação fez-se pela fórma intermedaria
parola 1199, hoje só empregada com sentido pejorativo,
paraavas, paravras (Ined. d’Alc).

Si procurarmos a palavra libertino, a etymologia ensinar-nos-ha
que se deriva do latim – libertinus (libertus)
que significava o individuo livre da escravidão legal.
O escravo manumittido era liberto (i. e. liberatus) com
relação ao senhor; em relação, porém, á classe a que
pertencia depois da manumissão, era libertino. Id. no
portuguez antigo, e filho de escravo romano; depois,
homem de costumes desmanchados.

6. – Por esteio principal tem a etymologia a phonetica;
mas – para ter cunho scientifico – não pode ella
dispensar a historia e a comparação.

7. – A phonetica explica-nos a historia de cada um
dos sons que compoem o vocabulo (V. Lição 2ª).316

As transformações phoneticas estão subordinadas a
regras geraes, ás quaes o homem obedece instinctivamente
por motivo da acção physiologica e da psychologica.
Assim, p. ex., o enfraquecimento – mas lento e
gradual – dos sons constitue as duas leis de menor
acção
e de transição, communs a todas as linguas
neolatinas.

Cada uma dellas, porém, e bem assim os dialectos
e sub-dialectos têm suas leis particulares; e, como já
advertimos, a pronuncia muda de época para época,
de provincia para provincia, de cidade para cidade, e
até de aldêa para aldêa (reposta, estamago, anteado,
ventagem, Cathelina, giollho
…)

Ha excepções devidas:

a) A’ analogia. – Cuidar, de cogitare, deu cuidação,
e cogitar – cogitação; dôr, de dolor, deu doroso, e
dolor – doloroso; do Sec. XII ao XIV pronuncia-se scola,
scondido, spadua, star, studo
, etc., hoje (e assim já
praticavam os Romanos no V Sec. para maior facilidade
da pronuncia) escola, espádua, etc.

b) Influencia intermediaria. – A’s vezes adoptamos
palavras latinas por intermedio de outra lingua, que
assim escapam á acção das nossas leis phoneticas: – cantata,
maestro
, (it.) chaminé (fr. – l. camminata).

c) Influencia erudita. – A formação erudita não se subordina
ás leis phoneticas; e nas palavras introduzidas no
portuguez nos Sec. XV e XVI, as modificações que ellas
apresentam escapam á analyse phonetica. Segral secular,
cossario corsario, …

A essas excepções dá-se o nome de interferencias

As tres leis geraes das modificações phoneticas são
as que seguem:

1.ª Persistencia do accento tonico. – A conservação
da syllaba que mais feria o ouvido deu ás palavras
physionomia propria, caracter particular, e muitas vezes
317o encurtamento dellas (na camada popular) pela quéda
da desinencia: – angelus anjo, angulus anco (ant.).

2.ª Perda da vogal breve: – coalhar = coag (u)
lare, mascar = mast (i) care, obrar = op (e) rare, …

Nas inscripções latinas do Imperio, nos autores archaicos, etc.,
encontram-se innumeros exemplos da perda da vogal átona: – periclum,
poplus, templum
, etc., p. periculum, populus, tempulum, etc.

3.ª Quéda da consoante media: – suar = su (d)
are, vingar = vin (d) (i) care, crer ant. creer = cre
(d) ere. arêa = are (n) a, etc.

8 – Historia – A historia descobre nos textos da
baixa latinidade e nos primeiros documentos da nossa
lingua a serie de formas intermediarias, e por conseguinte
as varias transformações graduaes por que passou o vocabulo.
Só ella nos ensina que bacharel tem origem em Baccalarios,
de Baccalarias ou Baccalares (lat. Baccalaria),
nome que se dava até o sec. ix ás propriedades ruraes
servidas com uma junta de bois, etc. 1200

O Bacharel (bacculario) era o que tinha dominio util
da propriedade, e era mais honrado que os simples lavradores
ou colonos, e desobrigado e livre de encargos civis

(sec. x); depois designava o individuo que comquanto
houvesse conseguido ordem militar, era ainda de pouca
idade e poucos meios para ter pendão e caldeira; mais
tarde passou a denominação (Bachaleres) aos beneficiados
de cathedral e mosteiro, ou aos ministros de
2ª ordem (assisio); do sec. XVIII começou a significar o
que obtem nas universidades dignidade ou titulo inferior
ao de doutor.

E’ ainda pela historia que descobrimos que frasco não se
deriva de vasculum, como escreveu o professor Diez, mas
de flasca pequena garrafa (Isid. de Sev.), que salario
318tira origem na palavra sal; que esportula lembra a cœna
recta
dos Romanos; que fortaleza, boca, batter, semana,
dobrar, batalha, testa
, … são do lat. pop., posto muitas
dessas formas se encontrem nos classicos latinos.

9 – A comparação verifica as hypotheses, confrontando
fórmas portuguezas com as correspondentes nas outras
linguas néo-latinas, e seus dialectos. Assim, comparando
viagem, port. ant. viage, com o hesp. viage, it. viaggio,
prov. viatge, fr. ant. viatge, mod. voyage, etc., convencemo-nos
de que o vocabulo originario é o lat. viaticum,
e que a desinencia a’cum deu age nas fórmas populares.
Comparando leite = l. lactem, noite = l. noctem, etc. com o
italiano latte, notte; hesp. leche, noche, franc. lait, nuit,
etc. chegamos á conclusão de que o c latino do grupo ct
não soava na pronuncia, como acontece nos nossos vocabulos
acto, facto, contracto, etc.

Quanto maior fôr o numero de dialectos romanos em
que se encontra o vocabulo, tanto maior será a probabilidade
da sua derivação do latim vulgar.

Mescabar poderá parecer á primeira vista formado do
all. mìs. it, mis. fr. mes; mas historiando essa palavra nas
outras linguas romanas, vemos que mes corresponde ao
prov. mens, port. memos = lat. minus, e que mescabar
é fórma atrophiada de menoscabar.

A comparação é pois ao mesmo tempo instrumento de
investigação e da verificação.

10 – Só a etymologia póde reconstituir a fórma typica
das palavras desfiguradas ou gastas pelas migraçães, e pelos
seculos no seu evolucionar lento e graduado.

11 – As palavras de formação erudita estão tambem
subordinadas a certas leis. As de introducção antiga soffreram
transformações phoneticas, mui principalmente nas
desinencias, compreição, relampado (p. relampago – Lucena
etc.) abondanças, malencolico, etc…

As formações eruditas são em palavras importadas do
319latim ou grego geralmente, ou ainda formadas no seio da
lingua com elementos latinos ou gregos: – contumacia,
manumissão, hemicrania, photographo
, etc.

Ao grego muito devem as sciencias a sua technologia, principalmente
a botanica, a medicina e a chimica. Mas o emprego cada
vez mais frequente de elementos gregos na formação das palavras
portuguesas tem aberto brecha a muitos hybridismos – mineralogia
anglomaniu, planispherio, etc. (Lição 24.)

Essa predilecção pelas nomenclaturas scientificas de formação
grega é um mal – porque, como observa Darmsteter, a plantação
exotica, tendendo cada vez mais a desenvolver-se no meio da indigena,
acabará talvez por abafal-as.

Melhor fôra buscar ao latim os elementos para novas creações
vocabulares. Ainda ha mais: muitos dos compostos modernos desafiam
– na phrase de C. Nodier – as leis da analogia e do bom
senso; 1201 e os proprios Gregos não lhes comprehendem o sentido.

A prova temos em que, adoptando o systema metrico, elles regeitaram
a technologia por não comprehendel-a. Assim p. ex. –
kilometro = medida de um asno (killos) khilometro como outros
escrevem = medida de feno, forragem (chilos).

Esta terminologia tem, porém, a vantagem de se fazer entendida
facilmente dos homens da sciencia.

12 – As dicções novas, as de importação moderna, para
terem entrada no vocabulario vulgar e existencia real, devem
nacionalisar-se, tomar devidamente o geito, a quéda e
o soar das com que ambiciona conviver. Ex. contradansa,
– ing. country danse (dansa campestre) manequìm, –
all. manneken (homemsinho.)

Todavia nas palavras importadas das linguas vivas muitas
vezes conservamos o proprio typo etymologico com
fóros de cidade: – lunch, boulevard (a par de baluarte),
fioriture, jockey, tramway, bull-dog, roast-beef (e rosbìf),
beef-steak (e bifs-tek), etc…320

Vigesima segunda lição
Da constituição do lexico portuguez…

Da constituição do lexico portuguez. – Linguas
que maior contingente forneceram ao
vocabulário portuguez. 1202

1. – O vocabulario antigo é essencialmente latino: representa
uma evolução lenta da lingua popular dos Romanos.
Do Sec. XV em deante a importação latina é
artificial, devida á corrente erudita.

Além da circumstancia externa – persistencia do vocabulario,
havia outro interna, que dava ao portuguez jus
de accrescer, – a fidelidade á tradição latina quanto aos
processos essenciaes da composição e derivação das palavras.

2. – O latim popular tinha muitas vezes vocabulo diverso
do latim classico para exprimir a mesma idéa. Herdámos
ora uma só das fórmas, ora ambas; ás vezes o erudito
serve apenas para formar derivados.

tableau L. pop. | Lat. class. | form. pop. | form. erudita
caballus | battuere | russus | septimana
equus | verberare | rubeus | hebdomadas
cavallo | bater | russo | semana
equestre etc. | verberar | ruivo | hebdomadario

2203 3204321

tableau L. pop. | Lat. class. | form. pop. | form. erudita
batualia | pugna | batalha | pugna
parentes | affines | parentes | affins
casa | domus | casa | domicilio
testa | frons | testa | fronte
basiari | osculari | beijar | oscular
duplare | duplicare | dobrar | duplicar
focus | ignis | fogo | Igneo, etc.
catus | felix | gato | felino
lutum | cœnum | lodo | ceno
porta | jauna | porta | janella
terra | tellus | terra | tellurio
villa, civitatem | urbs | villa, cidade | urbano
rivus | flumen | rio | fluminco
etc. | etc.

3. – As palavras simples ou derivados latinos são ás
vezes representados no nosso lexico por derivados e compostos
formados segundo os processos de derivação e
composição popular. Estas fórmas, porém, são heranças
do latim basbaro ou por ellas moldadas: – dies – diurnus,
ante-abante
.

Outras vezes os substantivos simples são substituidos
pelos diminutivos correspontes: – aviolus p. avus = avô,
acucula p. acus = agulha, auricula p. auris = orelha, ovicula
p. ovis = ovelha, apicula p. apis = abelha, luciniola p.
lucinia = rouxinol, etc.

Outras vezes ainda adoptou o portuguez derivados com
thema ou suffixo diverso: – duplare – duplicar, œternalis
– œternus
.

4. – A’s vezes o mesmo vocabulo latino é que deu
duas, tres e quatro formas portuguezas distinctas, divergentes
(Lição 21ª):

tableau Lat. | Form. prop. | form. erudita
masticare | mascar | mastigar
legalitatem | lealdade | legalidade
benedicere | benzer | bemdizer
clavicula | cavilha, chavelha, cravelha | clavicula
macula | mancha, malha, magoa | macula
etc. | etc.
322

5. – No latim popular dos docs. do Sec. XII, primeiro
periodo da lingua portugueza, muitas palavras já apresentam
fórma portugueza. – sobrinho (suprinis nostris),
rio (id.), levar (levare), havia (avia), arroio (id.), rodondo, …
Sec. XIII; suburbio, pomar (pumares),
irmão, ant. germano, etc. (iermano), dona, fornos, neto,
(neptos), criação (criagom), logôa (lagona)… 1205

6. – E’ de origem latina a maioria dos nomes de
cousas que percebemos pelos sentidos ou conhecemos pela
experiencia (homem, mulher, cavallo, cão, gato, sol, lua,
estrella, arvore, nuvem, pão, leite, rio, mar, monte
…);
os phenomenos physicos da natureza e suas causas (chuva;
raio, trovão, calor, frio, tempestade
…); as divisões do
tempo (primavera, outomno, estio, inverno, anno, mez,
dia, hora, seculo, semana, os nomes dos mezes, os dias da
semana, 2206…) os nomes de côres mais usuaes (encarnado,
verde, claro, negro, alvo… 3207; os nomes dos
membros do corpo animal, e os das suas funcções: –
(rosto, cara, 4208 boca (l. p. bucca), testa, face, nariz,
(narix, p. naris), labios, lingua, palpebra, olho, orelha
(auricula), sobrancelha (supercilium), mão, dedo, pé,
unha, calcanhar (calcaneum – calcaneo), dente, ventre,
perna, gambia, coxa, peito, costas, hombros (humerus),
cabello, joelho (ant. geolho, lat. genuclum)…;
os nomes de porentesco: pai, mãi, avô, filho, padrinho, 5209
323sobrinho, marido, esposa, sogro, nora (l. barb. nora),
genro (id. gener), madrastra (l. prop. matraster), neto
(netos neptis), irmão (germanus, p. ant. germaho germaio germano
Secs. XIII e XIV); cunhado (cognatus 1210),
Tio e tia = gr. theia, talvez por intermedio
do italiano zia.

E’ ainda do latim que nos vieram as palavras indicadoras
dos deveres communs, a que se referem á vida
moral e domestica, as que exprimem sentimentos, os
numeraes, e – directa ou indirectamente – quasi todos
os termos da vida moral, das invectivas da facecia, e
do linguajar da plebe.

E’ do latim que nos veio o emprego nominal de infinitos
e participios: dever, jantar, manjar, poder
appello, recibo, peccado, escripto, … principalmente nas
formas femininas – vista, vinda, comida escripta

O povo, como era natural, adaptou o vocabulario
popular – catus p. felix, caballus p. equus, batualia p.
pugna; mas no Sec. XIII a lingua era uma mistura
de latim barbaro com termos godos, arabes, provençaes,
francezes e castelhanos.

No Sec. XIV, passou ella por uma transição devida
á ascendencia da escola hespanhola, e á predominancia
e influencia classica latina, que ainda perdurou no Sec. XV
e estendeu-se ao XVI, notavel pelo aturamento nos
estudos das antiguidades greco-romanas, pelo culto ao
clacismo, e pela influencia da escola italiana.

E’ claro que essa cultura litteraria devia naturalmente
e forçosamente introduzir grande numero de vocabulos
tirados immediatamente dos autores latinos, e
ainda das outras linguas que então tinham predominio.

Dessa elaboração resultou o archaisamento de muitos
324vocábulos já portuguezes, que morreram na lucta synonymica
(V. L. 12): – ruão – cidadão, acarão – a par,
samicas – por ventura, hogano, nemichola

Legitimo torna-se forma parallelo, mas preferida a
lidimo, dispensa a dispensaçom, logar a logo, secular
a segrar, mesura a medida, porque a cá, quieto a quedo,
integro
a inteiro, plano a chão, … e assim um numero
crescido de formas divergentes.

São de formação classica (Sec. XIV – XVI): – antro = antrum,
agricola = agricola, – atrio = atrium, – aula = aula, – ara = ara, –
adunco = aduncus, – auriga = auriga, – auxilio = auxilium, – adolessente
=
adolescentem, – attingir = attingere, – cruor – cruorem, –
conjuge = conjugem, – certame = certamen, – conflicto = conflictus, –
cantaro = cantharus, – cohorte = cohortem, – diliculo = diluculus, –
dolo = – dolus, – desidia = desidia, – egregio = egregius, – erecto = erectus,
flagicic = flagicium, – flagello = flagellum, – fausto – faustum,
fulgido = fulgidus, – gladio = gladius, – gelido = gelidus, – insania
= insania, – inercia = inertia, – inoxia = inoxia, – igneo = igneus, –
inclito = inclitus, – inerme = inerme, – lapide = lapidem, – livido =
lividus, – languido = languidus, – lasso = lassus, – messe = messis, –
nauta = nauta, – numem = numen, – odor = odorem, – orbe = orbem,
osculo = osculum, – penuria = penuria, – prelio = prelium, – procella
=
procella, – progemie = progeniem, – rabido = rabidus, – sapido
= sapidus, – triumpho = triumphus, – tumulo = tumulus, – uberdade
= ubertatem, – verberar = verberare etc…

8 – Elemento gemanico – Dos elementos celtico, punico
(phenicio e casthaginez) e germanico, herdamos algumas
contribuições lexicas, mas deste ultimo em cem
dobrado numero. Elias vieram-nos, porém, já latinisadas
(mappa, cambiare, parentes…)

Com a invasão das hordas barbaras do Norte, o poderio
romano succumbiu tambem na peninsula hispanica;
mas os vencidos, posto que pela superioridade de cultura
intellectual e civilisação, houvessem imposto aos vencedores
– costumes, culto, e o proprio idioma, todavia não
poderam deixar de aceitar muitissimos vocabulos da lingua
germanica, referentes ás suas instituições politicas e judiciarias,
ao direito privado, aos titulos herarchicos, systema
feudal, á guerra e navegação, ás divisões arbitrarias do
325solo, etc… E este acressimo ao atque peregrìnum do latim
de Hespanha, era-lhes de facil aceitação, que na lingua
latina anterior á invasão da peninsula pelos Godos, já possuia
muitas palavras germanicas importadas pelos barbaros
alistados nos exercitos de Roma: – burgo (germ. burg, fortificação,
praça fortificada; lat. burgus); garante (germ.
gwarant, l. b. – warantus), ganhar, guerra (werra
confusão disputa), guante (germ. gwant, l. b. wantus),
saia, saiga sayo (sago, sagum), etc.

São de origem germanica: – Barigel, baluarte, elmo
barão
(homem livre) 1211, marechal marìscal (1. marìscalus,
germ. marahscall), senechal senescal (1. seniscallus. germ.
siniscall), bando banho (edital, germ bannan, (b. bannum);
adaga; patarata, feudo, rato 2212, bosque (ger. busch, B. L.
boschus 3213), brasa 4214, guindar 5215, rato, … e muitos
termos nauticos, principalmente introduzidos pelos Normandos,
que invadiram a Galliza e mais tarde estancearam
nas margens do Minho: – Bordo (e dahi a bórdo, abordar.
bombordo, estibordo…), arpéo, bote (bat. bot.), cabrea,
canoa
(kaan, barquinho), fragata, chalupa, croque, dique,
galeota, quilha
, etc.

Muitas desses termos já nos vieram latinisados - senescalus, mariscalcus,
arautus, etc
.

9. – Elemento arabe. – No sec. VII os Arabes senhorea-se,
de todo a peninsula com excepção do territorio
Basco. A lingua arabica, tão grande foi a sua influencia,
muitissimo enriqueceu o nosso lexico, maiormente
em termos referentes á vida physica, aos usos domesticos,
intituições civis, politicas e militares, á technologia
326de contrucção, philosophia e sciencias medica e naturaes.

Muitos vocabulos perdemos desta origem: restam talvez
uns 300.

Allah, acìcate, acipipe, asotéa, açougue, açude, alazão,
alarve, alfandega, alcazar, aljageme, alfinete
, … 1216, azeitona,
assassìno, argola, ambar: beduìno, bazar, burnú, barraca,
café, cafila, cafre, camelo, carmìm, caravana, califa,
cifra, tero, cabala, cubebas; falua, faquir
(fakir), fulano,
(fallach – lavrador), farnel, farrafa, givete, gazella, elixir,
jasmim, laudano, kalifa, mameluco, marfim, mascara
ar.)
mascharat – risada, mofa, truonice), kafé, rababo, mesquinho,
recife, recua
(recova), tamarindo, zenith, tarifa,
talisman, xarope
, etc.

Como succedeu com o germanico, dos nomes que nos
legou o elemento historico arabe formamos verbos, etc. –
alambicar, alcunhar, almoxarifado, alvoraçamente

10. – Hebraico – Hoje são em numero decrescido, e
muitos delles, principalmente os da linguagem hebraica,
nos foram importados pelo latim; como, p. ex., – abbade,
alleluia, hossana, cherubim, hyssope, Nazareno, Belzebut,
amen, seraphim, Satan Satanaz, sabbado, Messias Missa,
Jesus, jubileo, Eden, maná, jaspe, saphira, cabala, talmud

11. – A muitas outras linguas deve o portuguez –
pelas relações commerciaes e litterarias – grande contingente
para o lexico. Só trataremos das que para esse fim
mais concorreram.

a) Indico: – bramane, bambú, bengala, bonzo, catana,
cha, chavena, lacre, leque, mandarim, salamalek, xarão,
cornaca, laca, múmia, orangutango
(homem florestal),
peri, patchuli, cipayo, tambor, tarlatana327

b) Slavo: – caleche, mazurka, redowa, knut, czar
cosaco, dolman, steppe, ukase
, etc.

Hespanhol: – castanheta, castanholas, bolero, sesta,
sarabanda, cabotagem, camarilha, cigarro, mantilha, fandango,
gitano
(cigano), ollapodrida, piastra, cachucha,
habanera, seguidilha
, etc.

c) Italiano: – Este elemento mais influenciou a datar
do Sec. XVI: – Agio, adagio, alarma, andante, aquarella,
arlequim, bandido, bagatella, belladona, dilettanti,
belveder, imbroglio, buffo, cantata, dilletanti, doge, gazetta,
gondola, lazzarone, cavatiua, madona, charlatão
(de ciarlare),
contralto, fresco (t . de pint), prima dona, piano,
pizzicato, poltrona, schezando, serenata, sonata
), 1217 soprano,
tremnlo, tenor, libretto
, …

d) Inglez: – Poucos vocabulos entraram na lingua no
seu 1° periodo: hoje é que com as communicações mais
estreitas, tambem mais vai augmentando o contigente: –
bill, bond, buldogue, beefsteak, rostbeef (rosbife), dandy,
goom, grog, Jockey, lunch, piknik, rhum, steeple-chase,
sport, tunnel, tilbury, whist, boagoton, paquete
(vapor),
yacht, cutter, bolina, brigue, cheque (bilhete pagavel ao
portador), cabs, clown, club, coke, dollar, penny, jury,
hurra, pickpocket, reporter, pudim, quaker, revolver,
vagão, sandwich, whiskey, tramway, tender, water-proof,
high-life, meeting
, etc.

e) Allemão. Aqui nos referimos aos vocabulos importados
directamente do allemão moderno: – bismuto,
cobalto, Kirsch, landwehr, manganez, potassa, spath,
zinco, feld – marechal, feldspath, schopp, obuz, Kermesse
, 2218
canivete, landgrave, rixdal (reichsthalep), thalweg (linha
328de juncção dos dous declivios de um valle, indicando a direcção
do curso d’agua), thaler, etc.

f) Francez. – Desde o primeiro periodo da formação
da lingua que apparecem os vocabulos desta origem.
A influencia do elemento francez tem sido grande desde o
seculo XIII, posto muitas das palavras implantadas já
se tenham archaisado: – jalne (amarello), escote, vianda,
talha, aprés, ensembra, oeta
(fr. ouate), arrecures, prevoste,
aproxes, castramentações, lizeres, ornaraques, dobretes,
maridaes
… D’esses termos, porém, ainda nos ficaram
muitos: – corneta, caporal, furriel, quartel-mestre, barbacan,
esquadrões, quadrados
(de soldados), meijon meison
(maison), etc. 1219

Não somos avessos aos gallicismos, quando necessarios, – como por
exemplo: patinar, guilhotina, soutache, cache-nez, vis-à-vis, fichú
e esses termos de mil cousas para enfeites femininos, modas, etc. uns
por não terem equivalente no portuguez, outros por já fazerem parte
da lingua popular.

Si não consideramos gallicismos com S. Luiz, N. de Leão, Tullio,
etc. – adiar, adiamento, activar, felicitações, inabalavel, regressar
rotina
, etc., e menos escusados, temos por muito para censurar a lepra
dos bouquets, soirées, fauteuil, lorgnons, toillettes, blasé.…,
que não devem figurar no nosso lexico.

Os neologismos de origem franceza mais se referem á
moda, á mesa (iguarias), á ficção litteraria, ou são nomes
proprios ou geographicos indicadores do producto ou invenção:
gris-perle, grenat, ruche, capotte, … vol-au-vent,
croquette, mayonnaise, salada panachée
, …
amphytrião, harpagon, tartufo, pantagruel, … Bordeaux,
Chambertin, brie, cognac, bayoneta, medoc, daguerre-o-typo,
gui1hotina
.

g) Africano – Algumas palavras desta origem foram
introduzidas no portuguez indirectamente pelos Arabes
até o Sec. XIV (papagaio, azagaia…); as outras vieram
329directamente pelo commercio e trato entre Portuguezes e
Africanos (bugio, buzio, gimbo… – Sec. XV e XVI; Gil
Vic. 1°, 122 etc.), e ainda acrescentado no Brazil depois
do XVII (inhame, calundú, giló…).

Quasi todos os vocabulos desta origem pertencem á lingua
bunda, e aos dialectos do Congo: banza, banzá, banzé
(barulho, motim, disputa), batuque, cacunda (costas),
calunga, cangerè, catinga, caxeringuenegue (faca velha),
jongo, lundú, macaco, malungo, moleca moleque (ou do
Arabe ?), marimba, mandinga (feitiço), mulambo, quegila,
samba, cumbuca, senzala, sova
(governador), urucungo,
(instrumento mus.), zanga, zumbi, zungú, etc.

Muitos desses vocabulos pertencem tão sómente ao lexico
brasìleiro: camondongo, calunga, pucuman picumam
(fuligem), muxinga (açoite), etc…

Tanga é tambem palavra africana: mas no codigo Theod.
C. V. XIV tit. io – encontra-se a palavra izanga, com o mesmo
sentido. Ter-nos-hia o termo vindo de Africa directamente ou
pelo latim.

Na linguagem do Brasil muito frequente é ainda hoje o
emprego de termos do elemento africano, que apparece
tambem, – ainda que raro –, nas canções populares:

Você gosta de mim
Eu de gosto de você;
Si papae consenti
Oh ! meu bem,
Eu caso com você.
Alê, alê, calunga
Mussunga, mussunga ê
(1220)

b) Elemento brasileiro. – São muitissimos os vocabulos
que da lingua tupy ou abanaenga figuram no nosso
lexico: – cabiuna, caboclo, cacique, capoeira (mato tenue,
ave), cuia, embira, pagé, taba (aldeia), borê, maracá
(instr. mus.), igara (canoa feita de um tôro), ubá (id.
feita de cortiça), tanajura (especie de formiga), zarabatana,
330tacape, tangapema (instr. de guerra), acanguape,
(cocar de pennas), onduapes (tanga de pennas), metara,
(pedaço de páo, osso, etc. que introduziam nos labios),
ayucara (collar feito de dentes e ossinhos dos inimigos
mortos por quem o trazia ao pescoço), curare (urari),
caipora (d’onde caiporismo), – caa-pora, habitador do
matto; mandioca, tapéra, etc.

Na ichtiologia, ornithologia, e na flora, etc. muito enriqueceu
o elemento brasilico o nosso vocabulario: – abacaxi,
abacate, taquara, taquarussú, arara, capim, caroba,
cajú, gerimum, sipó, goiaba, guaxima, embira, jaboticaba,
peroba, jacarandá, poaya, pita, pitanga, sapucaia, tapioca
, …
juruti, acará, carapicú, corocoroca, mandy,
mossum, … inhambú araponga, arara, cabaré, sabiá (e
todas as especies: – guacú, guba, piranga, Peri, poça,
sica, tinga, una
), urubú gaturamo, jacu socó…capivara,
coati, gia
(rã), giboya, mico, marinbondo, mutuca, paca,
sussurana, surucucú, tamanduá
, …

Tambem crescidissimo é o numero dos nomes locaes
no Brazil – Andarahy (morcegos rio), Araripe, Aracajú,
Caçapava, Baependy, Capanema, Cabuçú, Carioca, Ceard,
Catumby, Curitiba, Icarahy, Itapuca, Pernambuco, Tijuca,
Cattete
, …

Como do elemento arabe e germanico, etc herdamos
nomes, e delles derivamos verbos: – catucar, capinar,
encaiporar, tocaiar (ficar na tocaia, i e., á espera), … 1221

Na poesia popular do Brazil, principalmente do Norte,
apparececem phrases indigenas entresachadas, como estribilhos;

Te mandei um passarinho
Patua miré pupé;
Pintadinho de amarelo
Iporanga ne iané
(S. Rom. lac. cit.)
331

Vamos dar a despedida
Mandu Sarará
Como deu o passarinho
Mandu Sarará 1222
(Id)

O numero de vocabulos desta origem, que só figuram
no lexico brasileiro, i e., que são desconhecidos em
Portugal, é passante de 5000.

II – Ainda, além desses elementos, com o jus de
augmental-os pelos processos da composição e derivação
(Lições 17 e 18, 19 1) tem o portuguez outros de não
menor valor para a constituição do lexico.

1. – Nomes locaes: – artesiano (de Artois), arminho
(da Armemia), avellã (Avella, cidade da Campania),
baioneta (Bayonna, cidade da França), berlinda (Berlim),
bohemio (Bohemia), brie (França), casimira, cambraia,
cachemira, campeche, chamberlin
(França, vinho tinto),
champagne, chester, curaçao (licor das Antilhas),
falerno (Italia), Gallileo (Jesus, antiga provincia da
Palestina), gaivota (Gavot, cidade da França), gruyère,
italico
(typo de imprensa), laconismo (Laconia), landau
(Baviera rhenana), madapolão (cidade do Indostão),
havana, musselina (Mussul, cidade da Mesopotamia),
nankìn (cidade de China), Nazareno (de Nazareth) paraty
(aguardente de Paraty), Persiana (Persia), faisão
(Phasis), Porto, Surnhy (farinha de S.), sauterne,
sevres, xerez, cordovão
(Cordova), marroquim (Marrocos),
pistola (Pistoya)…

2. – Nomes proprios de individuos: Aristarco juiz severo,
bucephalo (cavallo de Alexandre: hoje cavallo de batalha),
calepino (lexicographo italiano – hoje collecção de notas),
catilinarìas (de Catelina), elzevir (impressores do Leyde),
elzeveriano, etc., Galvanismo galvanoplasta (de Galvani,
332physico e medico de Bolonha, seculo XVIII) lazaro, lazarento
lazareto lazarista
(Lazaro, da parabola evangelica),
mecenas protetor das lettras, de Mecenas favorito de Augusto,
macadam (do engenheiro Mac-Adam), nicotina (de
Nicot, embaixador de França em Portugal, conhecido
sobretudo por ter importado o tabaco em França 1492-1577),
etc…

3. – TransferenciaEgreja romana, curia Romana,
pedante
(V. também – semeiologia, lição 6ª) alarve, malandrino.

4. – Ficção litteraria: – um matamouros (com. hesp.)
um harpagão (muito avarento – com. de Molière), um
dom Quixote
(blasonador de bravo, etc. – romance de
Cevantes), Tartufo, Polichinello, Rocinante.

5. – Mythologia, crenças e credices: – argonauto
(de argos), Argus:(olhos de Argos, muito penetrantes),
Medusa (cabeça de Medusa –); hermes hermetico hermeticamente
(de Hermes, nome grego de Mercurio, e
Hermes Trismegista); chimera chimerico, panico (de Pan),
herculeo (de Hercules), vulcanico vulcanite, etc. (Vulcano)
lamures, caipora, jovial (Jove, porque Jupiter era a planeta
mais feliz), saturnino (triste, grave, refolhado – porque o
planeta Saturno inspirava gravidade, etc.), lunatico, marcial
(de Marte)…

6. – Erro etymologico: – Indio (o habitante do Brazil).

7. – Analogia: – bom humor, máo humor, etc.

8. – Titulos, cargos, officios: – maire, landlord, land­grave,
delegado, presidente

9. – Os costumes, a caça, a pesca, os vicios e as artes,
a guerra e a politica, os jogos e a agricultura, as machinas
e instrumentos, as peças delle; componentes (gata, porca,
cachorro, cavalete, mosquete
, etc.); as metaphoras (emolumentum,
o que se pagava a moleiro pela moenda, depois
proveito, ganho; salarium, quantidade de sal que se dava
333como pagamento, hoje estipendio ou aluguel do trabalhador
– (V. Lição – 6ª e 21ª); o condestavel era o chefe
das estribarias; o marechal, o guarda dos cavallos; o vassalo
transforma-se no vassalete, que se degrada no valete; o humilde
ministèr (criado) torna-se ministro do Estado.

« As phases percorridas pela lingua em suas modificações
são como o reflexo exacto das revoluções politicas e moraes »
porque passara o espirito publico na provincia hispanica,
em Portugal e no Brazil.

Ainda temos mais as viagens e o commercio: – tatuagem,
Simun
etc.

Resta fallar do elemento grego.

Na formação do portuguez vulgar foi este elemento
etymologico em extremo insignificante.

Só no sec. XIV é que elle começa a entrar na lingua,
mas por intermedio do latim, que já posssuia certo numero
de palavras gregas (byrsa, buticula, cara, colla, … – bolsa,
botelha, cara, colla, … episcopus, apostolus, diaconus,
parabola, ecclesia
…)

Temos alguns nomes dessa derivação que hoje fazem
parte de lingua popular: – democracia, monarchia, economia,
agonia, harmonia, anarchia, melodia, gymnastica,
poema, politica, sophisma, tyrannia, despota

Nos seculos XV e XVI a corrente erudita deu entrada a
mais algumas palavras cujo numero recresceu desde o
XVIII, especialmente na terminologia scientifica. Hoje, na
medicina e nas sciencias naturaes, triumpha a nomenclatura
grega, principalmente por sua força formadora pelos
processos da derivação e composição (Lições 17ª e 18ª.)

Dos vocabulos de creação moderna, muitos também já
pertencem á linguagem popular: – telegrapho, telephone,
typographia, polytheama, cosmorana, necroterio, gazometro,
polytechnica, gramma
(peso), metro (medida de
extensão)…

São hoje em não pequeno numero os suffixos e prefixos
334gregos (particulas e termos), que entram na formação de
palavras portuguezas; mais de 80 raizes verbaes gregas
contém o nosso lexico; mais de 3 .000 vocabulos possuimos
actualmente derivados desse elemento historico, graças
ao direito de accrescimo que nos facultam os processos de
novas formações. Assim, p. ex., kosmos deu-nos – cosmico,
cosmogonia, cosmogonico, cosmographia, cosmologia,
cosmopolita, cosmorama, microcosmo; metro, –
metro, decametro, decimetro, millimetro, metrologia, metrologo,
metronomo, pirimetro, isoperimetro, diametro,
symetria, symetrico, semetrisar, symetricamente, asymetrico,
acrometro, gazometro, chronometro, hydrometro,
pentametro, pluviometro, thermometro, barometro, geometria,
trigonometria, hexametro, etc.; auto – autobrigraphia,
autobiographo, autobiographico, autochthone, autocracia,
autocrata, autocratico, autographo (– iar –, – ia,
– ico), automato, automatico, automotor, automotriz,
autonomia, autonomo, autoplastia (t. de cirurgia), autopsia,
– ar, etc…

13. – Em remate – O portuguez recebeu do latim a
tradição oral de expressões, idéas e imagens; transmittiu-a
ás gerações seguintes pela força conservadora, mas modificada,
e dilatada neologicamente, pela força revolucionaria.

E cumpre não esquecer a acção psychologica, cujo processo
muito tem avolumado o nosso lexico, e consiste na
transferencia do sentido do vocabulo (V. Lição 6ª).

As linguas não se fixam: « são rios que tendem sempre
a augmentar em caudaes á proporção que mais se alongam
da matriz. »335

Vigesima terceira lição
Caracter diferencial entre os vocabulos…

Caracter diferencial entre os vocabulos de
origem popular e os de formação erudita.
Duplas, fórmas divergente.

1.° – O nosso vocabulario compõe-se de tres camadas
de palavras – popular, estrangeira e erudita (Lic. 22).

São, por assim dizer, distinctas, a linguagem vulgar e
a erudita; mas a instrucção, que cada vez mais se vae
entranhando na classe popular, e a imprensa (que é a
lingua escripta), muito concorrem para que se vá apagando
pouco e pouco a linha que as estrema. Já vimos
que muitos vocabulos de formação erudita figuram hoje
no lexico popular (variola, applacar, pustula, blasphemar,
archanjo, telegramma, atheo, geographia
, …); certas
particulas formativas, latinas e gregas, são hoje vulgar
(ex – ex-chefe, ario – partidario, …)

O que acontece muitas vezes na linguagem popular é
o vocabulo mudar de sentido (Lic. 6ª) ou soffrer alguma
modificação – alarve, patife, murcido (cp. murcho), …
Beeito bieito bento Benedicto.

2.° – A’s vezes da mesma palavra latina derivam
duas ou mais portuguezas, umas de fundo classico e
outras de fundo popular. (pag...)

tableau Lat. | Form. pop. | Form. erud.
Nitidum | nedio | nitido
cumulus | combro | cumulo
colligere | colher | colligir
337

tableau Lat. | Form. pop. | Form. erud.
captare | catar | captar
plenus | cheio | pleno
impregnare | imprenhar | impregnar
cognatus | cunhado | cognato
especulum | espelho | especulo
stagnare | estancar | estagnar

3.° – Os vocabulos populares (infiltrados pelo ouvido)
são mais contrahidos porque moldaram-se nas fórmas
populares latinas, já regularmente contrahidas (frigdo
p. frigidus, anglo p. angulus, caldo p. calidus, poplo
p. populus, templo p. tempulum, …); e a sua formação
foi sempre presidida pelas tres leis geraes e fecundas
a que nos referimos na lição antecedente (mascar
= mast (i) care, obrar = op (e) rare; mãe = ma (t) er,
arêa = are (n) a, doar = do (t) are, …)

Os vocabulos de origem erudita, vasando-se directamente
no typo escripto latino, retomam a vogal atona
e a consoante media (mastigar, operar, arena, dotar…)

4. – A essas palavras, de origem commum e muitas
vezes de sentido diverso, deram os philologos os nomes
de fórmas divergentes ou duplas. Esta denominação é mal
cabida porque se as derivações são geralmente duplas,
tambem as têmos triplas e quadrupnlas, etc.: cavilha chavelha
cravelha clavicula, mancha malha magoa macula;
benzido bento beneito
(Canc. Vat.) Beento (Sec. XIV) Bieito
Vieito
(Canc. Vat.) Benedicto; cabedal cabedel (Act. dos
Apost. Sec. XV) coudel caudal capital

5. – São varias as causas das fórmas divergentes.

1.ª A degeneração phonetica, a que nos referimos ácima
e que ás vezes por tal fõrma modifica o vocabulo que de
todo perdemos o seu sentido etymologico. Foi o que p. ex.
succedeu com o verbo benzer, que fez-nos ir buscar a outra
fórma á lingua originaria – bemdizer (= benedicere) para
exprimir acção opposta a maldizer; artelho e artigo; arêa
e arena, bodega e botica, ladino e latino, etc…338

2.ª A adopção de uma palavra de lingua estrangeira,
mas da mesma origem que outra já existente no portuguez
e de derivação directa.

tableau Latim | F. port. | F. estr.
Crespus | Crespo | Crèpe (fr)
Domina | Dona | Dama (id)
Hospitalem | Hospital | Hotel (id.)
Alacrem | Alegre | Allegro (it)
Opera | Obra. id. | Opera (it)
Planus | Chão plano | Lhano (hesp)
Caballarium | Cavalleiro | Cavalheiro (fr)
Duos | Deus | Duo (it)

3.ª – A variação dialectal, que deriva uma fórma
popular de outra já existente no portuguez:

tableau Lat. | F. port.
Basium | Beijo beiço
Platus | Chato prato
Dominus | Dono dom
Santus | Santo são
Plaga | Chaga praga
Medulla | Moella miollo
Patrem | Padre pae

4ª – Renovação erudita, principalmente do sec. XV
em diante.

tableau F. pop. | F. erud. | Lat.
adro | atrio (S. XVI) | atrium
alvitre | arbitrio (XV) | arbitrium
amendoa | amygdala (XIX) | amydala
bramar | blasphemar (XIV) | blasphemare
confiança | confidencia | confidentia
delgado | delicado | delicatus
estreito | estricto | strictus
cobrar | coperar | cooperare
inteiro | integro | integrus

A’s vezes o mesmo typo latino dá duas e mais fórmas
populares: – corda coronha (= corona), chumbo plumo
prumo
(plumbus), mancha magoa malha (macnla)…

5ª – A deslocação do accento da palavra popular e o
imparisyllabismo da derivação latina: – polpa polypo,
339praça platéa (= platéa), … drago dragão (= draco draconen),
serpe (nom.) serpente (acc.) virgo virgem (acc.),
erro (nom.) error (accus.)…

6.ª – A mudança de genero: – tormento tormenta,
gigo giga, barco barca, cinto cinta
.…

6. – O proeesso da derivação divergente data das primeiras
phases da lingua, e muitas fórmas são hoje archaicas:
sages sabio saiente, esmar estimar (suspeitar
avaliar) tredo trahidor, fio fido, enseja insidia, cajom cajão
occasião, etc. denostos deostos doestos, emprir encher = l.
implere, etc…

7. – A onomastica tambem apresenta grande numero
de duplas:

Fagundo | de | facundo
Dulce | doce
Angelo | anjo
Benedicto | Bento

8.ª – Em algumas palavras derivadas transparece
ainda o processo de derivação divergente:

ameigar | mitigar
devastar | gastar
deplorar | chorar

9. – Temos ainda formas sub – duplas ou redivergentes,
de derivação secundaria: – Sanchico de Sancho, Paulino
de Paulo

A esta categoria pertencem as fórmas divergentes de
nomes gentilicos: – Beirão Beirense, Sergipano Sergipense
Lisboeta Lisbonense, Braguez Bracarense, … Brazìleìro
Braziliense, Anglo Inglez

10. – O latim já conhecia essas bifurcações vocabulares: – limpidus
liquidus, bellum duellum, columnba palumba, fel bilis
…, que
no portuguez constituem formas divergentes indirectas 1223. O Grego
tambem apresenta certo numero de duplas: – Kradia– Kardia (coração),
Kirnemi Kerannumi (misturar) etc.
2224340

11. – Em seguida, damos uma lista abreviada de algumas
fórmas divergentes, advertindo, porém, que muitissimas
vezes a derivação é apparente; houve apenas concurrencia
entre palavras latinas populares e eruditas: – Dobrar
= 1. barb. duplare; duplicar = 1. class. duplicare.

Tropa é do lat. barb. trupus, trupa (= rebanho; Si
enim in
troppo de jumentis, etc., Lex Allamannorum), e
não é fórma divergente de turba.

Coda = lat. pop. coda, cauda = 1. class. cauda; Siso
deriva de seso, e consequentemente não é dupla de senso =
l. sansus; pardo = l. pop. pardus (da côr de panthera –
pard), pallidus = l. class. pallidus), …; prisão não é
forma divergente, como se tem escripto, deprehensão, mas
deriva de presionem;… A’s vezes uma das palavras tira
origem no latim e a outra deriva de vocabulo já portuguez:
colheita vem de colher (colligido, escolheito), collecta de
collectar; bispado de bispo, episcopado do lat. episcopatus;
coser
, do lat. cosere, cosinhar de cosinha (lat. coquina;
l. pop. coquinare ?), …; ou ainda uma palavra é de
origem popular a outra de origem estrangeira.

Derivação erudita

tableau F. port. pop. | F. class. | Lat.
adro | atrio | Atrium
avrego abrego afrego | africo | africus
alegria | alacridade | alacritatem
Agosto | Augusto | angustus
ajndorio | adjutorio | adjutorium
acenar | assignar | assignare
arêa | arena | arena
alhear | allienar | allienare
allumiar | illuminar | illuminare
alvedrio alvitre | arbitrio | arbitrium
austinado | obstinado | obstinatns
amendoa | amygdala | amygdala
apagar | aplacar | aplacare

1225341

tableau F. port. pop. | F. class. | Lat.
anjeo anjo | Angelo | angelus
aprender | aprehender | aprehendere
artigo | artelho | articulus
aspeito | aspecto | aspectus
assemelhar | assimilar | assimilare
asmo | azimo | azimus
assobio | silvo sibillo | sibilum
assoprar | insuflar | iusuflare
avêsso | adverso | adversus
bainha | vagina | vagina
bodega | botica (int. franc.?) | apotheca
bolla bolha | bulla | bulla
bento (beeito etc.) | Benedicto | benedictus
bolbo | bulbo | bulbus
bostella | pustulla | pustulla
cabido | capitulo | capitulus
cadafalso | catafalco | catafalcus
cadeira | cathedra | cathedra
caldo | callido | callidus
cousa | causa | causa
carrear | carregar | carricare
cabedal | capital | capital
cantiga | cantico | canticus
caramunha | querimonia | querimenia
chamar (jamar Sec. XIV) | clamar | clamare
chão | plano | planus
chantar (arch.) | plantar | plantare
chanto (arch.) | pranto | planctus
chave | clave | clavis
cheio | pleno | plenus
chico (arch.) | exiguo | exiguus
chumbo | prumo plumo | plumbus
cem | cento | centum
chamma | flamma | flamma
chocarreiro | jograleiro | jocularius
chaga | praga | plaga
conchavo | conclave | conclave
cobrar | cooperar | cooperare
codea | crosta
coima | calumnia | calumnia
catar caçar | captar | captiare, captare
colher | colligir | colligire
colgar | cellecar | collocare
coalhar | coagular | coagulare

1226 2227 3228342

tableau F. port. pop. | F. class. | Lat.
comoro | cumulo | cumulus
contar | computar | computare
cunhado | cognato | cognatus
comprar | comparar | comparare
creto (ant.) | credito | creditns
chavelha cravelha cavilha | clavicula | clavicula
crasta | claustro | claustrum
cuidar | cogitar | cogitare
chapa | capa | capa
desenho | designio | designium
delgado | delicado | delicatus
dedo | digito | digitus
doar | dotar | dotare
doação | dotação | dotationem
direito | direito | directus
deão | decano | decanus
divida | debito | debitus
descer | descender | descendere
dizima | decima | decima
dobro | duplo | duplus duplum
dormidouro | dormitorio | dormitorius
eira | area | area
emprenhar | impregnar | impregnare
ensosso | insulso | insulsus
enxabido | insipido | insipidus
esburgar | expurgar | expurgare
escada | escala | scala
escutar | auscultar | auscultare
escuro | obscuro | obscurus
esgaravatar | escarificar | scarificare
espadua | espatula | spatula
estancar | estagnar | stagnare
extorcer | extorquir | extorquire
esvigar (arch.) | edificar | edificare
estreito | escricto | strictus
espelho | especulo | speculum
errada | errata | errata
estiar | estivar | stivare
erguer | erigir | erigere
febra | fibra | fibra
feira | feria | feria
feitura | factura | factura
fino, finto findo (Sec. XVI) | finito | finitus
frio | frigido | frigidus
fiuza | fiducia | fidutiæ
froco | floco | flocus

1229 2230343

tableau F. port. pap. | F. clss. | Lat.
funil. | fundibulo | fundibulum
frente. | fronte | frontem
gotto. | guttur | guttur
gola | gula | gula
geral | general | general
hombro | humero | humerus
herdeiro | hereditario | hereditarius
herege | heretico | hereticus
inerco (arch) | incredulo | incredulus
ilha | insua | insula
inxabido | insipido | insapidus
inteiro | integro | integrus
ladino | latino | latinus
ladainha | litania | litania
lande | glande | glandem
lavrar lobetar | laborar | lavorare
livrar | liberar | liberare
lembrar | memorar | me morare
leal | legal | legalem
ligeiro | aligero | aligeri
liar | ligar | ligare
limpo (lindo) | limpido | limpidus
logro | lucro | lucrum
moimento | monumento | monumentum
meolo | medulla | medulla
mister | ministerio | ministerium
molde | modulo | modulus
mosteiro | monasterio | monasterium
murcho | murcido | murcidus
marear | marcar | morcare
marchante | mercante | mercantem
mascar | mastigar | masticare
macho | masculo | masculus
mancha malha
magoa (mazela) | macula | macula
nevoa | nebula | nebula
nedio | nitido | nitidus
nalga | nadega
obrar | operar | operare
olho | oculo | oculus
olvidar | obliterar | obliterare
orago | oraculo | oraculum
orelha | auricula | auricula
orgão | organo | organum
partilha | particula | particula
polme | polpa

1231 2232 2233344

tableau F. port. pop. | F. class. | Lat.
polvo | polypo | polypus (do grego)
praça | platea | platea
papel | papyro | papyrus
pego | pelago | pelagus
palavra | parabola | parabola
pende (arch) | penitente | penitemtem
pellicata | pellicula | pellicula
peso | penso | pensum
pesar | pensar | pensare
povoação | população | populationem
praia | plaga | plaga
primeiro | primario | primarius
puchar | pulsar | pulsare
podre | putrido | putridus
precedencia | presidencia | presidentia
pousar | pausar | pausare
prêa preda | presa | presa
queimar | cremar | cremare
quedo | quieto | quietus
redondo (ant. rodondo) | rotundo | rotundus
ração | razão | rationem
regrar | regular | regulare
rezar | recitar | recitare
rotura | ruptura | ruptura
recobrar | recuperar | recuperare
raiar | radiar | radiare
rijo | rigido | rigitus
remissa | remessa | remissa
ruido | rugido | rugidus
Ralhar | rabular | rabulare
sanha | insania | insania
sangrento | sanguinolento | sanguinolentus
sarar | sanar | sanare
soldar | solidar | solidare
suor | sudor | sudor
solteiro | solitario | solitarius
senha | signo | signus
sello | sigillo | sigillus
selva | silva | silva
segredo | secreto | secretus
semblante | simulante | simulantem
silha (cilha) | cingulo
somma | summa | summa
somno | sonho | somnium
semblar | simular | simulare
sustancia | substancia | substantia

1234 2235345

tableau F. port. pop. | F. class. | Lat.
sobrar | superar | superare
serra | cerro | serra
tousar (ant.) | taxar | taxare
tudo | todo | totus
transe | transito | transitus
teia | tela | tela
taboa | tabola | tabola
terno | tenro | tenrus
tredor tredo | traidor | traditorem
vincilho (vincelho) | vinculo | vinculum
viagem | viatico | viaticum
vigia | vigilia | vigilia
vodo (ant.) | voto | votum

Derivação popular

tableau Alvedrio | alvitre | leixar (leixar Sec. XIV) deixar = laxare
Beijo | Beiço
cinto | Cinta | oyr (C.D. Din) | ouvir
crela | Querela | lomear | nomear
coresma | Quaresma | madre | mãe
diabo | Diacho | padre | pae
dono | Dom | polir | poir
gaiola | Charola | palomba | pomba
germano | germaho, mano, irmão | chantar | plantar
palacio | paço
loar (D.Din.) | louvar | medicina | meizinha
maldicta | Maleita | roxo | russo
santo | são

Elemento estrangeiro

Além dos citados (pg. 339, 2°):

tableau esquadro (exquadro) | square (ing.)
bannido | bandido (it.)
fabrica | forja (fr.)
bodega | botica (id. ?)
cantada | cantata (it.)
soberano | soprano (id.)
dous | duo (it.)
jurado (l. juratum) | jury (ing.)
mestre (magister) | maestro (it.)
plano chão | piano (it.)
tosto (l. tostum) | toast (ing.)
346

12. – As fórmas eruditas, é o que resulta do confronto,
raro supprimem as vogaes átonas – liberar (p. livrar =
lat. liberare), hereditario (p. herdeiro = lat. hereditarium),
etc.; conservam a consoante media, que cabe na
fórma popular – dotar (p. doar = 1. dotare), legal (p.
leal = l. legalem); desloca ás vezes o accento tonico latino
conservado sempre no vocabulo popular: platéa, renégo,
invólucro, décano, polypo
.

13. – Perderam-se muitas fórmas divergentes pelo archaisamento
cossario corsario (Sec. XVIII), giolho geolho
joelho, arcepelago
archipelago, etc.

Temos fórmas divergentes do árabe – zero cifra (zifr);
das linguas germanicas: – bando banho, baluarte boulevard
(este ultimo por influencia franceza), etc.347

Vigesima quarta lição
Da creação de palavras novas. – Hybridismos

Advertencia. – Esta lição é por assim dizer um
relancear de olhos pelas lições 6ª (16 seq.), 17, 18, 19, 22
e 45.

1. – As linguas estão em perpetua evolução –: equilibram-se
nas duas forças oppostas, – uma conservadora e
outra revolucionaria. Constituem a 1ª, a civilisação, o
respeito á tradição, o desenvolvimento litterario; a 2ª tem
por fundamento as alterações phoneticas e analogicas, o
neologismo. 1236

2. – Não bastava ao portuguez as expressões, idéas e
imagens recebidas do latim pela tradição oral; outras
idéas agitaram-se no espirito popular, e força foi augmentar
o vocabulario. O lexico está sempre em mobilidade: ora
registra palavras novas, ora apresenta – as sob novos aspectos.
(L. 19.ª)

3. – Muitos são os factores neologicos, os centros formadores
de palavras: a politica, a moda, o quartel, as
as officinas, a lavoura, … tudo concorre para opulentar
o vocabulario e renoval-o. “São tantos os centros de
neologismos quantos os grupos naturaes de pessoas e de
occupações.”349

4. – Dessa actividade incessante da linguagem dá prova
a formação erudita, que crêa um lexico novo e artificial
(de origem latina e grega) no proprio seio do lexico natural;
e a creação popular que importa termos novos das
linguas vivas, ou forma-os com elementos da lingua pelos
processos que lhe são peculiares. Chantar p. ex., foi
substituido na linguagem classica por plantar, do lat.
plantare; phonographo é de composição grega;… jockey
foi importado da lingua ingleza; florsinha, rabiscador, são
creações populares vernaculas.

5. – São tres, pois, as fontes das palavras novas. 1° as
linguas estrangeiras; 2° os processos da derivação e da
composição; 3° os neologismos de significações.

6. – Crear uma palavra é fazel-a expressão habitual
de uma idéa. “A palavra desenvolve-se quando o espirito
prende a ella um grupo mais ou menos extenso de imagens
ou de idéas.”

A creação de palavras novas funda-se na analogia e na
emphase. Um producto novo terá denominação formada
de um thema ou termos indicadores da materia de que é
elle feito (cafeina, cajurubeba); do nome do logar do producto
(paraty, aguardente feito em Paraty; Suruhy, farinha
feita em Suruhy, etc.); o nome do fabricante ou introductor
do producto, do inventor, etc. (V. – Lição 22ª).
– As crenças, crendices e superstições ou os costumes
tambem abrem largo espaço ás novas formações de palavras.
Caipora, tupy caa-pora, pequeno caboclo, que,
segundo a supersttção, vive nas florestas do sertão
(caa) malfazendo ás vezes, principalmente aos que
lhe negam tabaco, deu-nos caipora (individuo infeliz
nas emprezas, commettimentos, etc.), caiporismo encaiporar
encaiporisar; feitiço feiticera feiticeiro enfeitiçar
,
etc…

A creação de palavras novas marca ás vezes uma nova
época ou desenvolvimento historico. Assim, a palavra350christão, diz Renan, marca a data precisa em que a Egreja
de Jesus separa-se do judaismo.

7. – O determinante nem sempre exerce a sua funcção
especial porque condição necessaria para a formação de
substantivos, “é o esquecimento da significação etymologica.”
Qnaderno, grupo de quatro; luneta, pequena lua;
soldado, homem que recebe soldo, etc. não indicam etymologicamente
ao espirito as idéas em nosso parecer
essenciaes – de folhas de papel, instrumento visual, militar
ou homem de guerra, etc. 1237

8. – Na linguagem popular são curiosas as creações.
Encordoar é enfiar por chufas e motejos; desfructavel é o
individuo que se dá ao ridiculo: debicar é chufar; mofar;
massada – aborrecimento, importunação, etc.

A semeiotica é uma das fontes para a formação, não de
vocabulos novos, mas de novas significações: – Christo
é o Salvador, o Redemptor, o Nazareno. 2238 Mas a acção do
espirito popular, ao passo que modifica o sentido das palavras,
fórma outras derivadas, já subordinadas á nova signifação.
Imbecil (falto de forças) veiu a significar nescio,
e dahi os derivados imbecilitar (tornar estupido) imbecilidade
(toleima, necedade), etc.

9. – Colonia, magistrado, triumpho, fastos, facção,
aristocracia, democracia, demagogo, déspota, insurreição,
monarchia, seducção
, etc. … são do Sec. XIV;
companheiro (p. companho companhom), legitimo (p.
lidimo), ira (p. sanha), expansão, ponderação, obstaculo,
allivio, angustia, sagacidade, resplandecente, esplendido,
architecto, audacia, aurora, auxilio, ciume,
conjectura, crueldade
(p. crueza), desculpa, desordem,
maledicencia, transação, affavel, dificil, imaginário, incredulo

(p. incréo), doloroso, iracundo, nescio, magnanimo,
351posthumo, proprio, continuo, obstinado, superno, valoroso,
desejoso, negligente, rebelde, arguir, fulminar,
restituir, crìticar, castigar
, etc… são do declinar do
Sec. XV ao XVI, pertencem ao periodo chamado quinhentista,
no qual tambem se generalisou o emprego do
superlativo em issimo. Inflexão, infracção, alienar, retrogrado,
correccional, monoculo, undecimo, duodecìmo,
binoculo, assimilar, sinuosidade
, etc., são de introducção
mais recente; photographia photographo photographar,
escravismo, evoluir voluir volutir, verticalisar, telephone
telephonar telephonico, sociologia, altruismo altruista, altruìsmar

(cp. egoismar), subjectividade, assimilação, e
mais cêrca de mil vocabulos, são do Sec. XIX.

São principalmente do Sec. XVI ao XIX, os compostos
por nós citados a pags. 280 – altivolante, capribarbicornipe,
olhicerulea, levipede, ignivomo, fluclisonantes
, etc.

Finado (defunto), sagaz, atavio, falha (omissão
falta), arrefecer andrajo passamento sandice, bipede, queixume
delonga derradeiro fallecer lide, pristino, truculento,
vociferar, longiquo, energico, prematuro, probo,
fragor
, etc… são por assim dizer palavras novas,
neologismos por achaismos, porque no Sec. XVI eram
ellas consideradas archaicas, reprovadas ou de autoridade
equivoca.

10 – Hybridismos – Dá-se este nome ás palavras compostas
de termos tirados de linguas diversas:

Areometro | O 1° elemento é latino, o 2° grego
decimetro
| Idem
bigamo | Idem
socicologia | Idem
oleographia | Idem
aviceptologia | Idem
linguistica | Idem352

monoculo | 1° grego, o 2° latino
monomania | Idem
antinacional | Idem
antiacido | Idem

Esses productos barbaros de elementos latinos e gregos
muito afeiam a lingua, e são – na phrase de Latham –
um malum per se.

Ás vezes, porem, não ha evital-os, como, acontece
quando a lingua que nos dá o termo principal não possúe
o determinante, ou não o conhecemos, etc.: cipó-chumbo,
capim-melado.

8) Mas cipó e capim, de origem tupi, já são palavras
do lexico portuguez, assim como archi está tão popularisado
ou nacionalisado, que o cruzamento faz-se já mui
naturalmente, e os termos da composição adaptam-se
facilmente como se entre elles houvesse affinidade: –
archiministro, architrave, architolo.

11 – O hydridismo é pois um facto artificial ou natural,
reprovado ou admissivel, conforme é de formação
erudita ou popular, etc.353

Vigesima quinta lição
Etymologia do substantivo e do adjectivo.
Influencia dos casos na etymologia

a) Do substantivo

1 – Multiplas são as origens nos nossos substantivos, e
d’ahi a difficuldade muitas vezes de indicar-lhes com segurança
a etymologia.

Os nomes proprios derivam-se do hebraico, grego,
latim e germanico; todos elles foram a principio significativos,
que ainda temos abundantes exemplos no portuguez
– (V. Lição 7.ª pag.79) 1239

Os patronymicos teem tambem varias origens: os derivados
do latim formam-se geralmente do abl. plural: –
Paio, Paes, Pelagio (V. pg.); os do arabe, pela anteposição
da palavra ben, que significa filho: – Ben-i-Egas
– Viegas, mas que se encontra no hebraico – Benjamin
– filho da direita.355

Já vimos tambem (L. 22° etc.) que os nossos substantivos
originam-se geralmante do latim: que a technologia
scientifica deriva do grego; que terminologia artistica é
emprestada ás linguas vivas – maiormente ao italiano no
tocante a pintura e a musica.

2. – Os de origem latina formam-se do nominativo ou
do accusativo. O accento tonico indica a derivação. (V.
pags. 175 e 176).

A’s vezes teem dupla derivação:

ladro do nom. latro e ladrão do accus. latronem
erro – erro
e error – errorem
virgo – virgo e virgem – virnigem
etc. – etc.

Outras vezes conservram apenas o caso regimen, principalmente
nos nomes em io, onis: – religião (religionem),
lição (lectionem), … em us, utis: – virtude (virtutem).
saude (salutem).

Dos outros casos, além do sujeito e regimen, derivam
tambem alguns substantivos (V. pgs. 177, 178).

b) Do adjectivo

4. – Os adjectivos tambem tiram origem no nominativo
e accusativo (V. pgs. 179, 180).

5. – No latim eram quatro os pronomes demonstrativos.
Todos elles conserva o portuguez (hic, iste, ille,
ipse
).

Nem sempre, porém, passaram elles para o portuguez
na fórma simples. Quando os Romanos queriam indicar
mais claramente a idéa demonstrativa dos pronomes hic,
ille, iste
, antepunham-lhes a particula adverbial demonstrativa
ecce, ou o pronome hic. Dahi os pronomes populares
ecce iste, ecce ille, contrahidos regularmente em
ecciste eccil1e, hic iste hic ille, etc.

Este – 1. iste (fem. esta – ista; neutro isto istud).356

Já são commummente empregadas nos docs. dos Secs.
XIII e XIV as fórmas este esta, parallelas a iste ista, plural
istes.

Viterbo cita as variantes graphicas sta, sto, do Sec. XIV.

Os seus compostos – aqueste aquesto (ecc’iste, ecc’istum)
remontam tambem áquella época, e ainda persistiam no
Sec. XVI (Bern. Rib. 279, 280, etc. ant. canc).

Se por palavras pudera
Aquesto meu mal cantar

Comp. – est’outro

Esse, a. – Derivam-se de ipse, ipsa, e sua fórma
neutra isso de ipsum. Devemos, porém, advertir que o
p do grupo ps não soava na linguagem popular, o que
reduz phoneticamente esses adjectivos pronominaes a –
isse, issa, isso. Suetonio refere que o Imperador Claudio
multara um Senador por haver pronunciado isse p ipse.

Comp. – ess’outro

Aquelle, a 1240. – Do latim hic-ille, hic-illa, segundo a
opinião geral.

Parece-nos, porém, melhor seria derival-os das formas
populares contractas – ecce-ille, ecce-illa, de icce ille,
icce-illa
, que soavam ek-ille, ek-illa.

Comp. – aquell’outro

Adjectivos pronominaes possessivos

Todos os nossos possessivos são de origem latina.

Port. | Lat.
Meu mia minha | meus mea (meam)
teu tua | teus tua
seu sua | suus sua
nosso nossa | nostrum, a
vosso vossa | vostrum, a
seu sua | suus sua
357

Derivados geralmente dos pronomes pessoaes, são antes
adjectivos que pronomes.

Por motivo da degeneração phonetica os casos sujeito e
regimen assimilaram-se, e ficaram ambos com uma unica
fórma. Neste ponto é o francez mais rico do que nós comas
suas fórmas atonas e tonicas (mon, ton, son; mien, tien, sien).
Cp. Port. – ella é minha; fr. elle est à moi, e elle est
mienne
(Rac.)

Meu é dos primeiros docs. da lingua (meo; mê, mei,
ainda nos Açores, Alemtejo e Algarve). A fórma feminina
é que passou por varias e curiosas transformações:

1.° Mia (= hesp., prov., ital.) E’ do sec. XII (com mia
morte
. Canc. Rez; mia molher S. Ros.) a par da fórma
ma (ma molher, mas filias), que persistiu até o Sec. XV
(madama).

2.° Mha. E’ puramente desconformidade na graphia
(h = i; V. Phonetica).

3.° Miana, miona, (fem. de meono, fórma citada por
Viterbo, Eluc.) Sec. XII e XIII 1241

4.° Enha, de uso muito popular nos Secs. XV e XVI:
a enha esposa, enha mulher (G. Vic.), e correspondente
– segundo Schuchardt – ao portuguez de Cabo Verde
nha.

5.° Minha (Sec. XVI), correspondente á fórma minha
do port. de Diu, formado analogicamente do masc. minho.

Esta ultima fórma tem sido muito discutida. O professor
Diez é de opinião que ella está em connexão com
mim, e suppõe que o masc. meu não soffreu alteração por
estar protegido pelo e.

Estudemos a questão.

Os varios typos do pronome minha indicam diversas
influencias ?358

Mia é a fórma latina mea. Mhia é a mesma; o h representa
o i palatal. No Sec. XIV escreviam mheu, theu;
o h era intercalado para tonisar o pronome. Nho p. no
(em o) é do Sec. XII.

Ma corresponde ao francez ma, e nem é essa a unica semelhança
que em suas fórmas femininas apresentam os
pronomes das duas linguas. Ma = mia = lat. mea; e
temos mais ta e sa = tua, sua (Secs. XII – XIV), quando
ainda no francez popular eram meìe moie, miem. Meu
devia dar mea, mia; mê devia dar ma.

Minha. Sempre, em francez (mien, mienne), ital.
(miena = mia), hesp. mieña, incorrecção que tem por
fiadores Berceo e outros); inglez – mine, ali. die mine,
mein
, no dialecto indo-portuguez minh, a nasal apparece.

O phenomeno do imparissyllabismo é já conhecido;
o portuguez tinha duas fórmas para o possessivo fem.,
uma atona – mia, e outra tonica – meana.

O molhar-se o n era transformação muitissimo vulgar
nas primeiras phases da lingua, desde a Sec. XIII (extranho
extraneus, sobrinho, meiminho minimo, campanha,
ordinhar, determinhar, Cristinha
…), deixando todavia
muitas vezes de ser representado graphicamente (filo p.
filho, moler p. mulher, melor p. melhor, senora, camino,
penna
p. penha, etc.

O povo pronunciava mianha, mienha, d’onde minha,
f. correspondente á franceza mienne, hesp. mienã. 1242)

A foama vulgar enha, motejada por Gil Vicente, e que era de uso
desde o Sec. XIII aos que demoravam nas abas dos Pyrineos, os
quaes antepunham ao nome proprio Eu, Nã, é o mesmo phenomeno
de pathologia verbal que em S. Paulo reduziu Senhor, Senhora, a
nhõ nhã, e entre nós a seu, sá.
359

Ainda mais – No Lyonez temos la min, la sin; no
dialecto do Jorat (Vaud) os adj. possessivos tonicos são:
la meinã, la teinã, la seinã, a par das fórmas mais
antigas – la myonã, la tyonã, la xonã.

Pode-se tambem explicar o phenomeno, que não é
isolado, pela quéda do a de mia, e nasalisação do i
pela influencia da nasal inicial.

Nosso, vosso. – Passaram pelas formas intermediarias
nostro vostro, que persistiram até o Sec. XIV. A transformação
explica-se: 1° pela queda de consoante media
(nost-r-um, rost-r-um rosto, arat-r-um arado); 2° pela
assimilação do t ao s.

7. Adjectivos pron. Indefinidos

Algum. Segundo uns, é formado de algo e um (c p.
algorem) 1243; corresponde a aliqui. Outros buscam-lhe a
etymológia em aliquam; outros ainda em aliquis unus
(aliqu’uno aliquno al’ quno, algum).

Esta ultima opinião é a mais seguida.

E’ forma popular parallela a alguém: – algum disse
já que a verdadeira nobreza consiste na virtude
. Apezar
de etymologicamente oppostos, confunde-se com nenhum:
palavra arabe alguma se lhe entende (cam.); em
tempo
algum;…

Tem flexão de genero e numero.

Antes das contracções d’elles, dellas, sapprimiam muitas vezes o
pronome: – Em colera mil corpos derrubando, delles
mortos, delles mal feridos
(C. Real, Cerco de Diu).
360

F. archaicas: – agũ, aguã. (S. de Mir.), algũ,
alguã; algúo (Hist. de Ev. Res.: – fazer alguo negocio).

Cada. – Representa o latim quisque (hesp. cada, fr.
chasque chaque).

De derivação grega (kata), veiu-nos, porém, a palavra
por intermedio do latim medievo.

Notemos todavia que o emprego de cada é posterior
ao de cada um, ant. cadhun, cadun; arch . quiscadaun
= lat. quisque ad unum.

No Sec. XVI ainda cada um era considerado adjectivo:
cada um homem; e no Sec. XVII empregavam-no
ainda no plural: – tynha encarrego de dar cada umas
aos desembavgadores, ficaram cada um onde a morte o
tomou

Este emprego do verbo no plural tem exemplos em latim: – ubi
quisque vident, eunt obvium (Plant.), ubi quisque habeant, quod
suum est
. (Id.).

Cada qual é de formação portugueza.

Estavam tres a tres, e quatro a quatro.
Bem como a cada qual coubera em sorte.
(Cam.)

Tambem (como cada um) leva o verbo ao plural
quando a acção ou attributo é de todos:

Cada qual sobre o remo qne procura
contendam entre si, que o mais é erro.

Cada que é um antigo composto, de sentido identico a
cada vez que (Ord. Aff.; C. de D. Din.).

Cada vez que equivale a uma loc. adv. (= de cada vez
que
…)

Cada é simplesmente adjectivo.

Certo (1. p. certus = 1. class. quidam, que só ficou-nos
como subst. – um quidam, na linguagem vulgar e
galhofeira). – E’ somente adjectivo.361

Tem duplo sentido, conservado pela tradição latina, –
de resolvido, determinado, e convencido, de accordo com a
verdade
, Ex: – certo homem viu . .., ficamos certos nisto;
estou certo de que…, amigo certo
(verdadeiro).

Mesmo – Deriva-se do lat. metips’ mus, contr. regular
de metipsimus (contr. do sup. metipsissimus = ipsimusmel),
por intermedio das formas medessmo, medesmo, donde se
originou a forma meesmo, Sec. VX (pela queda regular
do d medio), e a fórma actual (mesmo) no Sec. XVI.

Havia mais uma fórma popular parallela a meesmo, que
se encontra em docs. do Sec. XIV e XV; nas ord. Aff.,
D. Duarte, etc. Era medès: – e que elles medeses pagarão
(Doc. das Salzedas de 1832).

Alem do sentido etymologico, ha muito que este adj. pron. é empregado
com sentido diverso, como p. ex. na phrase – amamos a mesma
mulher, em que mesma deve ser vertido em latim por eamdem e não,
por ipsam.

Mesmo, a, em logar de proprio, é de nobre estirpe e cunho classico,
de bom quilate emfim. A mesma natureza enamorada, escreveu o nisso
épico; elle mesmo disse = ispse dixit, de Cicero; nesse mesmo ia =
ipso illo die. No latim, ipse servia para indicar rigorosamente a personalidade,
a opposição entre dous individuos.

Não ha razão para refugarem alguns grammaticos esses modos de
dizer. Barbarismo, linguagem mascavada com sabor gallico, sim, é –
o auctor elle mesmo disse…, resvalo frequente dos menos sabedores
da lingua (l’auteur lui même).

Muito = l. multum.

Nenhum. E’ tambem de formação portugueza, pela juxtaposição
de nem + hum = l. nec – unus. Nemo unus =
ninguem, nenhuma pessoa.

Desses compostos morphicos, porém, herdamos do latim o processo
de formação: – nemo = ne hemo – – E assim formaram-se nemigálha
= nem migalha; nenhures em opposição a algures…, e mais modernamente
com o adverbio proclytico não (non): – nonnada nonada, não vinda.

F. archaicas: – nemguum, nengun, neun, nemú (Ined.
d’Alc. F. de Thomar, Canc. ined., …), e as atrophicas –
nhum nhua.362

Cp. ital. – nessuno neuno; hesp. ninguno nenguno,
f. arch, nesun (nisun) nesune.

Outro, ant. altro, de alter, accus. alterum.

Formou as locuções nm e outro, nem um nem outro.

F. arch. – outro e nenhum p. nenhum outro; combinação
de outro e outrem com o pron. indef. ninguem: –
Alli outrem ninguem me conhecera (Cam.); bem sei que outro
ninguem poude valer, – Ninguem outrem é fórma ainda
corrente, mas tambem do Sec. XVI: – de ninguem outrem
se poderão aceitar estas cousas (Ferr.).

Comb, com os pron. pess. nós, vós, e demonstrativos esse, aquelle.

Qualquer. – Poderiamos derival-o do pronome qual
e do adv. conj. quer, que serve para exprimir a generalisação
de um acto, tempo, acontecimento, etc. Corresponde
ao latim cumque (= quum que). Mas a fórma archaica
qualquizer prova que é esta a sua etymologia (qual quer
= quizer). 1244

Tem flexão de numero – quaesquer.

Fórma as locuções – qualquer que, equivalente ao latim
qualiscumque.

Tal – (lat. talis). Significa – igual, semelhante; tamanho,
nenhum
.

Tem plural – taes. – Vide Syntaxe.

Todo (= lat. totus). E’ variavel em gen. e nnmero. 1° E’ de
emprego antigo o pron. todo desacompanhado do artigo – todo homem,
todo mundo, em toda parte
: hoje ha regras a que estão adstrictos
os disciplinados (V. Syntaxe), posto que cada vez mais se vá
generalisando o emprega do artigo. Em todo o caso, a todo o tempo
a todo o momento, toda a natureza, em toda a nudez
… escreveu o
athleta do estylo C. Castello Branco; em toda parte, viveiro de todo
mal, pomo de toda discórdia
, … (Bern.) Todos dous, todos tres, …

2.° Dizem os nossos grammaticos era muito freqnente, entre os classicos,
o emprego de todos por tudo: – armadores e marinhagem tudo
da mesma terra (V. do Arcb,); as abobadas, pilares e paredes são tudo
cantaria (H. de S. Dom.)363

Cremos, de nós, não ha nesses exemplos resaibo sinonymico. Tudo
é como que um pronome resumidor, epilogador, synthetisador (ou como
melhor queiram chamar); é do gen. neutro; equivale a tudo isso.
Cp. na ultima phrase – as abobadas, pilares e parede são – tudo
(isso) – cantaria, e abobadas, pilares e paredes, tudo é cantaria.

Não negamos porém a vacillação no emprego entre todo e a sua fórma
divergente tudo – fizeram tudo o necessario, em todo e por todo, etc…
Um (hum) = lat. unus (adj. pron.)

O emprego do numeral com significação indeterminada, equivalente
a um certo, alguem, é de origem popular latina, e fonte tambem
classica (unum vidi mortuum afferri – Pl.) Por mais que resplandeça
um em virtudes (Arraes).

c) Dos numeraes

8 – Numero cardinaes. – E’ cópia dos Romanos o
uosso modo de enunciar e escrever os numeros. A differença
que entre elles existe é apenas phonetica.

um | unus
dous, arch. duos | duos
tres | tres
quatro | quatuor 1245
cinco | quinque 2246
seis | sex
sete | septem
oito | octus
nove | novem
dez | decen

Nas palavras de origem classica, adoptámos a fórma
latina – duo – decimo, duo – decuplo; septenario, quinquagenaria,
quinquenio, octacordo

De 11 a 20, excepto 16, 17, 18, 19 que se compõem
com dez, os numeraes portuguezes são expressos por uma
palavra simples:

onze | un (de) cim 3247
doze | duo (de) cim
364

treze | tre (de) cim
quatorze | quatuor (de) cim
quinze | quin (de) cim
dezesseis | sex decim; sedecim
dezesete | septem decim
dezoito | octo decim
dezenove | novem decim
vinte | viginti

De 11 a 15 os nossos numeraes indicam uma contracção
regular dos typos latinos, sujeitos á acção dissolvente, das
leis phoneticas, que transformou a desinencia cim em ze.
De 16 a 19, abandonando as formas syntheticas, seguiu o
portuguez outro modelo a que os Romanos davam preferencia
por ser mais claro, segundo refere Prisciano 1248:
decem et septem, decem et octo, decem et novem, (T.
Livio, Cic., Cesar, etc.), e em toda a numeração delle não
mais se apartou.

De 20 a 90 só temos a notar o atrophiamento do numeral
latino:

vinte | vi (g) inti
trinta | tri (g) inta
quarenta | quadra (g) inta
cincoenta | quinqu (g) inta
sessenta | sexa (g) inta
setenta | septua (g) inta
oitenta | octo (g) inta
noventa | nona (g) inta

Os Latinos diziam indifferentemente viginti tres e tres
et vigînti
, á semelhança do gothico (ing. twenty three ou
trhee and twenty; em all. sempre as unidades veem antes –
drei und zwanzig.

De 100 a 900 só é de notar a transformação muito natural,
e logica, da terminação gentt em centos (zentos).

cem (para diff. de cento) | centum
duzentos (dous centos) | ducenti
taezentos (tres centos) | trecenti
365

quatrocentos | quadrigenti
quinhentos | qningenti
seiscentos | sexcenti
setecentos | septingenti
oitocentos | octogenti
novecentos | nongenti

Quigenti deu qninhetos pela perda do g, que poz a nasal
em contacto com a vogal e.

Como em latim, os numeros cardinaes são invariaveis,
com excepção de um e dous (no lat. tambem tria p. tres.) e os
que exprimem centenas (ducenti, œ, a… duzentos, – as, …)

9 – Mil e seus multiplos correspondem exactamente
a fórmas latinas. Mille, declinavel, tinha um ablativo
archaico milli, e fazia no plural millia, donde derivou
o nosso subst. milhar.) 1249

Milhão, billião, etc. são de creação portugueza.

Numeraes ordinaes – Como em todas as linguas, os
ordinaes lembram os cardinaes correspondentes; mas no
portuguez elles representam formas importadas directamente
do latim.

Primo 2250 | primus
primeiro (primario) 3251 | primarius
segundo | secundus 4252
terceiro (terciario) | tertiarius 5253
quatro | quartus
366

quinto | quintus
sexto | sextus
setimo | septimus
oitavo | octavus
nono | nonus
decimo | decimus 1254

e assim por diante – undecimo, duodecimo, vigesimo
(arch. vicesimo), trigesimo (arch. tricesimo), centesimo,
millesimo
= lat. undecimus, duodecimus, vicesimus, tricesimus,
centesimus, millesimus
.

10. – Nos numeros compostos, ambos os elementos
tomam fórma ordinal: vigesimo segundo = lat. vicesimus
secundus
.

11. – Usavam os Latinos da fórma ordinal para as
datas do mez, do anno, as horas, 2255 duração de um
reinado, cargo, officio, etc., indicação dos seculos e de certos
prazos, successão de monarchas. Com todas essas regras
conformou-se o portuguez exclusive as tres primeiras
referentes ás datas do mez e anno, e ás horas; pois
empregamos a fórma ordinal, por excepção, sómente
para o 1° do mez (e tambem se emprega o cardinal),
e em linguagem ecclesiastica – horas de prima, terça,
nonas
.

Nem para todas as indicações de prazo, isto é, de espaço
de tempo dentro do qual ha se de fazer alguma cousa, emprega
o portuguez o ordinal.

Dizemos antes ou depois do 3° dia = tambem 3 dias antes
= lat. ante tertiam diem, etc., mas os Latinos diziam tertio
quoque die
= port. de tres em tres dias (fr. tous les
trois jours
, ing. every three days…). 3256

12. – Das fórmas distributivas latinas em anus-a, concernentes
367ás classes ou ordem dos legionarios 1257 primanus, a,
um, secundanus, tercianus, vicesimani
etc.), só nos restam
lembrança em alguns raros vocabulos, hoje já obsoletos –
terçã, quartã (febre –, que tem intermittencias de trez
ou de quatro dias) (= lat. febris tertiana, quartana).

13. – Multipicativos – Derivam-se todos das fórmas
latinas em plus (declinaveis), que tinham uma concurrente
em plex (duplus duplex, triplus triplex).

ant. s’implo (simples) | simplus
duplo | duplus
triplo | triplus
quadruplo | quadruplus
decuplo | decuplus
centuplo | centuplus
multiplo | multiplus

Da 2ª fórma temos simplice (arch.), duplice, triplice e
multiplice.

São de formação erudita, e correspondem aos de fundo
popular – dobro, tresdobro, cemdobro (cemdobrar =
centuplicar).

Ainda temos uma fórma pop. para multiplicativos – duas
vezes tanto, três –, quatro – . Responde á pergunta quantas
vezes
? e corresponde á latina - septies tantum etc.

A’ pergunta –em quantas partes? responde o latim no
ordinal, iterum (p. secundum), tertium, etc., Nós pelo cardinal
duas, tres.

14. – O adv. numeral sesqui (f. cont. de semis qui ?)
= mais uma ametade, só se emprega no portuguez em vocabulos
de fundo classico. Tambem em latim só uma vez
occorre empregado separadamente; era porém de uso
frequente ligado a uma outra palavra, indicadora de numero
ou quantidade e neste caso significava uma vez e
368meia. 1258 Ex:-sesquialtera (t. musica), sesquipedal, sesquihora.

Distributivos – Estes numeros são ao mesmo tempo
collectivos e analyticos, porque “decompõem a collecção,
o total, em tantas unidades quantas ellas cntêm” E’ latina
tambem a origem desses adjectivos, todos de fundo erudito.

Centenario, já pertence ao vocabulario popular.

Primario | Primarius
binario | binarius
septenario | septenarius
centenario | centenarius
sexagenario | sexagenarios
octogenario | octagenarius

A desinência ario – lat. arius (sign. que contem). Indica uma
classe, medida, compasso, intervallos iguaes, divisão da duração de
uma aria, (bin. tern. quat).

Dos ordinaes em um, temos ex. em primo, tercio (Cp.
terço…)

6. – Existem no portuguez fórmas numericas ou nomes
formados dos numeraes, que não devem ser alistados na
classe dos adjectivos. Neste numero estão – ametade,
dobro, cento
(centenar, centenario), milhão, centimo, e
triennio, quattriennio, dezena, vintena, trezena, quarentena,
centena
, da fórma neutra em a dos numeraes distributivos
latinos (centeni, œ a – em poesia em prosa post.
class. Cp. bini, terni) e com os compostos com avo – cincoentavo,
dezavo
, etc…

Bis é adv. numeral (do latim bis der. de duis de duo, como
bellum de duellum). Duas vezes, uma segunda vez.
369

Já faz parte do lexico o verbo bisar. Só, emprega-se com sentido
vocativo para pedir a actores a repetição de um passo: é
porém, de uso frequente como elemento de derivação – bipede, bigamo,
bifloro, biforme, bissecção, bifoliado, bifero, bilabiaceas
, …
bisneto, bissexual, bissexto, biceps, bifroute.

E’ mutto crescido o numero dos compostos com os adjectivos
numeraes: primicias primitivo, primogenito, primipara, … bimestre,
trimestre, semestre, quadrupede, sesquipede, trivio, quadrivio, decemviro,
triumviro, cen’uria, decúria
, … os nomes dos mezes Setembro,
Outubro, Novembro, Dezembro, e
os dias de semana, excepto sabbado
e domingo
.
370

Vigesima sexta lição
Etymologia do artigo e do pronome

1.° – Pronomes. – Vide lição 1 5ª (declin. dos pron.
pessoaes) e 25ª (adj. pronominaes).

Pronomes demonstrativos

2.° – Isto isso (fórma neut. lat . – istud, ipsum). São
fórmas neutras concurrentes com as archaicas portuguesas
esto, esso, que se archaisaram no periodo classico:
e con esto perco a esperança; porque fizeste esto? 1259 (esso
mesmo lhe fezerom
2260).

Nos antigos cancioneiros, Leal Cons. de D. Duarte, etc. é
de uso vulgar a fórma referida ou composta – aquisto,
que persistiu até o Sec. XVI: – em aquisto Jano ouvindo
(B. Rib). Nos antigos textos é frequente o emprego
de elle (ello) p. isto; solecismo que vecejou até o Sec.
XVI: – assi fosse elle verdade (Sá de Mir.) – Cp. fr.
si c’téait vrai; ing. if it was true, …

Aquillo – l. hic-illud – ecc-illud (ek-illo), arch.
aquello.

Indefinitos

3.° – Os pronomes indefinitos, além dos que já vimos na
lição antecedente (adj. pronominaes), são – alguem, cada
um, alguns, outrem, outros, nada, ninguem, qual, um, se
.371

Alguem (= lat aliquem – ailquem 1261). E’ invariavel.
Confundia-se nos primeiros tempos da lingua com o
adj. algum; do mesmo modo que na linguagem dos comicos,
aliquis aliquid eram algumas vezes usados por
aliqui aliquod.

Outrem (composto = alterum). No lat. pop., na b.
latinidade, já alterum superara alium.

C. – ninguem outrem, outrem ninguem (Camões).

Sign. – outro homem.

Quem quer. E’ de formação popular vernacula =
(prom. quem + quer. Cp. qualquer).

Quem quer que é equivalente do comp. lat. cuicumque.

Ninguem. Corresponde ao latim popular nequem, forma
que se encontra nas Inscrip. romanas do 2° Sec. da nossa
era, e que conseguiu obliterar o nom. nemo (= ne
homo
2262).

A fórma alongada é nem alguem: derival-o pois de
nenheme p. nec hem = nem homem é hypothese que de
todo rejeitamos. E bem assim a que dá outrem = outro
hem = outro homem.

Nos escriptos antigos ninguem tinha tambem o sentido de alguém,
equivalia a nenhum: – loucura é cuidar ninguém que…; he atrevimento
pedir
ninguem aquillo que deseja; 3263 ninguém outrem
(nenhum).

Emprega-se substantivamente para significar pessoa de nenhum
valimento: – é ninguem, um ninguem.

Nullo, a (= lat. nullus, a, um p. ne illus) . E’ de sentido
negativo pela etymologia; e –como lá vimos – ainda
que originariamente oppostos, confundia desde os primeiros
tempos a sua significação com a do pron. nenhum.
Deve-se porém advertir que em latim, nullus era considerado
372subst. = nemo (ninguem, nenhum) – sunt nulli
(Planto); beneficia properantius reddere: ipse ab nullo repertere
(Cie).

Se – Deriva-se do accus. se do pron. reflexivo latino
sui sibi se (sem nominativo), e cujos numeros confundem-se
sob a mesma fórma flexional.

E’ pois o mesmo pronome reflexivo portuguez.

Corresponde ao francez on (om, no Sec. XIII), cuja
origem claramente se percebe na fórma primaria hom,
contracçáo de homme; allemão man (contracção de mann-homem);
anglo-saxonio, inglez e dinamarquez – man 1264
– italiano, hespanhol, provençal - se.

Nos Secs. XV e XVI empregava-se tambem o substantivo
homem como pronome indefinido, nos mesmos
casos em que hoje empregamos se: – homem não sabe como
se valha contra a calumnia
(Barros); cuida homem que escolhe
(S. de M.) etc… Este uso ainda é vulgar em Portugal,
(anda homem a trote para ganhar capote); no Brasil dá-se
preferencia á palavra gente (a gente não sabe que hade
fazer
2265.

Com o Sec. XVI é que começou na linguagem classica
a verdadeira preponderancia do pron. indef. se, e a
quéda das suppletorias homem e gente.

A sua derivação do caso regimen não é para causar
estranheza. O inglez antigo (1250 – 1500) usava do caso
objectivo me, do pron. pess. Da 1ª pess. sing. (I) como
pronome indefinido correspondente a man, one, etc., e
ainda hoje na linguagem familiar e vulgar persiste o sollecismo 1266;
373 o portuguez tambem empregava cujo no sentido
de dono, senhor (sou cujo de quanto tendes 2267)

Si um objectivo e genitivo pronominaes podiam ser
sujeitos de uma oração, que muito fossemos buscar, e com
mais cabida e propriedade, o accus. de um pronome reflexivo
para exprimir o pronome sujeito da 3ª pessoa que
desejamos apresentar de modo vago, indeterminado, indefinito,
no sentido lato da palavra homem ?

Pronomes relativos

4). São: – que, quem, qual, cujo.

Que (= lat. qui, arch. quei, de qui quœ quod). Da
declinação latina, que era perfeita, herdamos o nom. –
que, o accus. quem. o gen. cujus.

Etymologicamente, pois, temos fórmas especiaes para o
sujeito, regimen directo, e indirecto. Quem, porém,
tornou-se pronome independente, e de uso mais geral,
como veremos. Neste ponto ainda é o francez mais
abastado, que conserva qui para o caso subjectivo, e que
para o caso objectivo, além de quoi.

Que apparece desde a formação da lingua, e não lhe
conhecemos variantes morphologicas, exceptuantes as
fórmas dialectaes. Assim, p. ex.. em S. Thomé – segnndo
o testemunho de Schuchardt –, é elle equivalente
a cu: – Padre nosso cu já no cjé = Padre nosso que estás
no céo.

Quem, arch. qui (qui ferir moller… F. de Gravão;
qui ffilhos ouver… S. Ros.).374

Deriva directamente do accus. lat. quem (de qui quœ
quod
. 1268)

Os classicos antigos empregavam-no tambem em refenencia a
animaes e cousas; e (o que não deixa de ter elegancia) em substituição
dos demonstrativos este, aquelle: – as boas arvores dão bom
fructo e as más como
quem são (H. Pinto); quem lhe dava ovelha,
quem um carneiro, qnem um novilho (Luc.); quem de vós não tem
peccado, este atire as pedras
. (Vieira).

O emprego de quem é tambem dos primeiros seculos da
lingua: – mha senhor, quem me vos guarda, guarda a
myn
(C. da Vat.) – quem se louva, in Deus se louve (R.
de S. B.); quem amar ho padre e ha madre mais que mi
(V. de S. Euphros.); porque no avia aquem leyxasse
ssua Requeza
(Id.).

Qual = pron. int. e relat. lat. qualis – quale, correlativo
de talis. 2269.

E’ invariavel em genero. Plural – quaes.

Form. port. – qualquer.

Eram varios os seus empregos até o Sec. XVII, como veremos na
syntaxe, entre os quaes o da substituição de alguns, alguém, de mui
agradavel effeito c muito para serem imitados pelos que prezam a
vernaculidade.

Qual do cavallo vôa, que não desce;
qual co’o cavallo em terra dando geme;
qual vermelhas das armas faz de brancas;
qual co’os penachos do elmo açouta as ancas.
(Camões, Lus. C. VI).

Cujo, arch. cuyo, cuyia – Sec. XIII; cuigo – sec. XV,
(= lat. cuios, cujus).

E’ pois dos 1os docs. da lingua escripta.

O gen. de qui quœ quod exprimia varias relações, e
desde o periodo classico começou a ser substituido pelo
ablativo regido da preposição de.375

Imperava tambem nas mesmas epocas o pron. interrogativo cujus,
a, um
(com uma fórma arch. quoj, tambem identica á arch. do pron.
relativo).

Cujus, pron. interr. poss., significava – de quem ? cujo ?;
cujus, genitivo, era mais empregado no sentido e pertencente a
quem, a que, de quem, de que, dos quaes
, sem idéa relacional de
posse. 1270

Da analogia das fórmas, resultou o duplo emprego de
cujo no portuguez antigo. D’ahi estas phrases que os grammaticos
condemnam: – Representam estes delineamentos ao
Senhor
, de cujo ha de ser o edificio (B. Dec.); Sant’Ignacio
Interciso
de cuja nação fosse não nos consta (D. Nunes,
Descr. de Port.), 2271 este sacerdote cujas eram estas filhas
(Ind. de Alc.) Um classico, a quem temos por contemporaneo,
escreveu: – Os Sás e Menezes cujos era de jus e
herdade a alcaiadaria
. (C. Castello Branco).

A phrase – este sacerdote cujas eram estas filhas, é correcta, e não
repugnaria ao ouvido dos menos lidos por classicos si mudassemos
apenas a collocação do pronome – este sacerdote cujas filhas eram
estas
. A phrase de Castello Branco, equivale a - os Sas e Menezes de
quem
(dos quaes) era de jus e herdade a alcaiadaria; si disséssemos
– cuja alcaiadaria era de jus e herdade, é claro que dariamos a entender
já lhes pertencia a alcaiadaria.

Deve pois este pronome, conforme a proposição, ser
considerado relativo ou possessivo.

O emprego da prep. de antes de cujo, sempre que o
subst. com elle concorda exprime relação restricta circumstancial
ou terminativa, data do Sec. XII (… de cuja vida,
Rib. Diss.) Esta construcção é hoje de rigor.376

Pronomes interrogativos

5. – São os mesmos relativos que, quem, qual.

Tal tambem se póde empregar interrogativamente: –
tal ha que assim proceda ?

Cujo, com funcção interrogativa é um archaismo. Era,
porém, de uso até o Sec. XVIII: – cujas são estas ricas
armas
? (J. de Barros); cuja é esta caveira ? (Vieira), e tinha
exemplo no latim – cujus pecus ? an Meliboei ? (Virg. En.)

Nota. – Sobre o pron. o, enclytico V. Lição 34:

Era muito usado na fórma lo claramente: – poz-lo, fez-las, ei-los,
no-los, vo-lo, vede-las, vo-lo
, que ainda conservamos posto que alterados
no modo de escrever (vol-o, vendel-as), e em alguns nomes de
jogos populares de Portugal – dou-che-lo-vivo, dou-che-lo-morto.

6. – Tratemos agora de duas palavras archaicas geralmente
consideradas pronomes, mas que mais devem ser
arroladas entre os adverbios supplementares.

Ende – Nos canc. e docs. dos Secs. XIII e XIV apparece
esta palavra, e a fórma encurtada en (de ulterior emprego),
que correspondem ao pronome francez en.

O primeiro que fez este reparo em lettra de fórma,
suppomos foi o nosso lexicographo Moraes. Desacertou,
porém, acreditando que essa particula adverbial equivale
sómente a d’elle, d’ella, d’elles, d’ellas.

e nom dom a mi os meus foros que ende ei de haver.
(Ind. de Alc.)

… molheres casadas… que andavam a preito nas audiências e
nossa côrte, em tal guisa que levaram ende maa fama.
(Id.)

… fará queixume aos que se ende queixarem.
(Id.)

… fará complimento de direito e justiça aos que ende se queixarem.
(Id.)

Pays de vós non ey nenhum ben
de vos amar não vos pes’en senhor.
(C. de Aff.)

E pero m’eu da falta non sey ren,
de quant’eu vi, madre, ey grã prazer en.
(C. de Vat.)

E pays end’as novas saber.
Tambem poss’en.
(Id.)
377

Ende = lat. inde: é particula adverbial equivalente a
d’ahi, d’alli, d’isso, d’elle ou d’ella, d’elles d’ellas. 1272

Dessa palavra só nos resta vestigio na locução em que
pese
= arch. ende que pese, ant. em que pés (pez), e é equivalente
a ainda que lhe pese, i e… que lhe cause pesar, a
seu pesar, despeito, a mal do seu gado. 2273

Por ende (mesmo em hesp.) = portanto, então, em consequencia
d’isso
. Tambem este sentido tinha em latim o
adverbio inde, como se pode verificar em Scheller, Gesner,
Freund e Facciolati.

Hi (i.y) – Correspondem ao francez y.

Não é pron. pessoal. Propriamente, hi, i, y, sign. ahi, alli
(onde); mas – por transferências – (como ende) então,
portanto
(por isso), e ainda nessa ansa, nesse caso. Todas
essas applicações são legados da lingua mãe 3274

Tantas coytas passey de la sazon
que vos eu vi, per bona fé,
que non posso i osmar a mayor qual é. 4275

Non ha hi quem me soccorra
(Ferr. ant.)

veño a vos señor
que me digades que farei eu y
(Trov. Cant.)

se nessa ha hi mudar-se hum triste estado.
(Chr. do Cond.)
378

Empregava-se com preposição – de i, de hi; para hi, i;
per hi, i; des hi, i, des i; d’ hi
e d’i.

De uso frequente nos primeiros seculos da lingua nas
nas
trovas e cantares, não o foi menos nos que se lhe seguiram
até o XV. A fórma preferida era i.

Qual a sua etymologia ?

Derivam-no alguns do lat. ibi, outros da adv. ahi. E’
este o nosso parecer. Cp . qui aqui.; e nos mesmos casos
em que se empregava hi, i, y, usamos nós na linguagem
familiar e vulgar dos adverbios ahi, aqui:

ahi estavamos nós quando elle chegou (nesse logar.)
disse – me elle que…, aqui eu redargui… (então.)
ahi o que se deve fazer é… (nesse caso).
ahi nada mais ha que fazer.

Nota Sum ibi traduz-se por aqui estou eu. Nesta phrase, e bem
assim em alli está elle (que tambem se diz), etc., o sentido é locativo
e o seu emprego é tão sómente para mais dar fórça á indicação da
pessoa. Equivalem a – eis-me aqui, aqui me tens; em mim, nelle, etc.
tens a prova presente – aqui mesmo – do que digo, etc. Ex.: –
Estás muito envelhecido. Aqui estou eu que com 80 annos ainda
não me branquejaram os cabellos.

E este modo de dizer é commum a outras muitas linguas.

Do artigo 1276

O artigo definito é uma voz demonstrativa em todas
as linguas, não só pela derivação como por suas funcções
e propriedades (grego ό δόγτος = este; all. der de dieser,
ing. the de that, que servia de artigo no. A. S. e vinha
prefixado á palavra, e ainda em muitos patois encontra-se
o emprego do pronome demonstrativo como artigo
ch’curé, ch’marichau = ce curé, ce marechal, por
le curé etc. (P. Picard.) ce = hicce. E’ equivalente enfraquecido
de um demonstrativo.379

No latim, o analytismo introduziu tambem o uso do
pronome ille, que depois transformou-se em ILLO (alteração
geral nas declinações masc.). Illo homo, illa muller,
illo caballo, illa ecclesia
, são no latim popular verdadeiras
fórmas de nominativo; e esse uso tornou-se frequente nos
melhores autores latinos, (Cic., Se., Plauto…) 1277

O demonstrativo latino, passou por varias evoluções –
el, elh, lo, la; plural els, elhs, li, los, las, e destas fórmas
esnocadas bracejaram as que deram origem aos artigos
das linguas neo-latinas: hesp. el, la, los, las; ital – el,
la, lo, le, gli
; fr. – el, il, la, li; le, la, les; valachio –
le, a, i, le (postposto ao subst.); prov. lo, la, il (li);
li, il (los), las; port. – el, lo, ho; o, a, os, as.

São varias as opiniões sobre a origem do nosso artigo
definito
, das quaes tres são mais seguidas. Só destas nos
occuparemos. Uns opinam que elle descende do grego ό
(m) e ή (fem.); outros são de parecer que deve-se
buscar a sua origem no demonstrativo latino hic, haec, hoc;
certo numero inclina-se á fonte que já deixamos apontada
como verdadeira (illo, a).

1.ª Regeitamos de todo a origem grega porque o
genio de uma lingua póde ser modificado por outras; mas
essas modificações não se podem estender mesmamente ao
caracter, e tão profundamente que consigam a implantação
de uma nova parte da oração.

O Grego desde os tempos mais remotos estanceou na
Italia, onde dominou a par do latim; á Grecia deveram os
Latinos os rudimentos de civilisação, copiosidade de vocabulos, 2278
a religião, a legislação. O estudo do grego era muito
mais usual – affirma Quintiliano – do que o do latim; e
no tempo de Catão saber grego era signal de boa educação.380

Tiberio Graccho discursava, e Flaminino versejava nessa
lingua; a primeira historia de Roma foi escripta em grego
por Fabio Pictor (Mommsen I 425 – 902); Cicero, perante
o senado de Syracusa, e Augusto em Alexandria,
fizeram allocuções em grego: as mulheres, – referem
Ovidio e Juvenal –, liam Menandro e outros escriptores
Gregos.

Ora, si apesar de toda essa legitima influencia da Grecia
sobre a intellectualidade romana, não conseguiram os Hellenos
introduzir na lingua latina o emprego do artigo, com
razão mais forte na peninsula hispanica onde a influencia
grega só se fez sentir nos usos e costumes.

Na linguagem não é ella reconhecida; este elemento
etymologico foi em extremo insignificante no lexico popular.
O predominio deste elemento só se manifestou na
technologia scientifica, no vocabulario erudito, isto é,
quando a lingua já estava formada, e já era geral o uso do
artigo em todos os idiomas romanos, inclusive o portuguez.

Em remate. O artigo definitivo, que tambem era conhecido
dos Celtas e dos Godos, não veiu da Greeia.

2°. – Estudemos agora a segunda hypothese.

Leoni e outros muitos, são de parecer que em Portugal
o artigo provém do ablativo hoc, hac, que mais tarde simplificou-se
em ho, ha, e finalmente fixou-se em o, a.

O principal esteio de argumentação de Leoni e seus
proselytos é a graphia ho, ha.

Sabemos que Plinio escreveu devia-se considerar os
pronomes hic, hœc, hoc, verdadeiros artigos sempre que
estivessem exercendo funcções de demonstrativos.

Lê-se em Egger de que nas escolas do Imperio do Occidente,
os grammaticos romanos empregavam hic, hœc, hoc,
para designação do genero dos nomes.

Mas se todas as outras linguas irmãs derivam o artigo
definito do demonstrativo lat. ille, illa, illud, porque o
381portuguez, dellas se desviando, foi buscar a sua muleta
grammatical ao ablativo hoc, hac, posto que em legitima
concurrencia com aquelle outro typo ?

O facto não seria novo, e se fosse verdadeiro não nos
causaria estranheza.

Mas o nosso artigo dirivou-se das fórmas illo, illa, illos,
illas
. São provas incontradictaveis do novo asserto, os
documentos historicos.

Nos escriptos dos secs. XII e XIII, isto é, nos primeiros
periodos da lingua, as fórmas articulares são ilo lo (por
juizo de
ilo rei, a los alcalddes, las vertudes, los santos),
a par das hodiernas o, a (o abate de Santo Martino, a maior
ajuda
, os omens, o fiel dixer,). Nas contracções ainda se
descobre a fórma actual, que foi das primitivas – dus
(dos), no, nus, nos, lus, (los). 1279 As fórmas contrahidas
dus, nus, lus, constituem simples variantes graphicas e
ainda no sec. XIV coexistiam as formas us e ous (o). 2280

no seculo XIV – persistem as fórmas o, a, além das
variantes citadas –us, ous, 3281. Apparece a fórma El-Rei
= ilo rei: – foram dizer a elrrey que
… (Livro de Linh.
D. Pedro), que persistiu até hoje.

no sec. XV temos as fórmas o, a, os, as,; ao, do, das,
na, por o
etc. 4282

no sec. XVI, isto é, no portuguez moderno, é que se
implantaram as fórmas ho, ha, cujo imperio estende-se
ao XVII; mas sempre a par da actual (o, a,). 5283382

A orthographia – como vimos na Lição Quinta – era
ainda muito irregular e vacillante; e a corrente erudita,
que tanto se manifestou nesta phase evolutiva da lingua,
cahiu em muita estultice pelo culto exagerado ao clacismo.
Predominava o gosto pelas antiguidades gregas e romanas;
e sem mais exame, talvez descobrissem no grego os
pergaminhos nobiliarios do nosso artigo definitivo. Mas
cumpre advertir que o abuso do emprego do h no sec.
XIV (introduzido pelos latinistas) e no XV, continuou
no periodo aureo (hinsidias, hestromento, higualdaçon,
husofructo, husarom
…)

D’onde se originou o h de hum, huma 1284 (que conservamos
em nenhum), he (ainda dos sec. XVII e XVIII), ao
passo que escreviam onrra, omem, oje, aver, etc… ?

Ainda mais. illo homo era forçosamente pronunciado
com um unico acento tonico, que recahia sobre o primeiro
o de homo. O accento secundario, em geral sobre a syllaba
inicial, deslocou-se para a 2ª lo, como acontece frequentemente
nos procliticos.

O h pois não é etymologico. O artigo procede em linha
recta do illo: prova-o mais a sua dupla formação (o homem,
eu vi-o
– V. Syntaxe.)

As contracções do artigo definito começaram no Sec. XII;
as primeiras empregadas foram as das preposições em
e de (nos, nus, dos deles, etc.) 2285

A contracção da preposição a e per (por) só appareceu
no fim do Sec. XIII, principio do XIV (ao, pelo,
pola
, etc.); 3286 mas costumavam tambem indical-a apenas
383aa, por o, per o. Muitas vezes, no mesmo documento,
deparam-se ambas as fórmas contrahidas e não. 1287 A
contracção com o artigo masc. era ó 2288 e ainda tinham
a fórma al = alo.

A prep. per, foi ferida de morte pela prep. por na lucta pela vida,
e com isso perdemos uma riqueza da nossa lingua: aquella empregaram-na
os antigos com o accus., esta com o dativo – já nom podedes
per
rem bem haver; a voos graças faço por as mercees que me
fizestes. 3289

9. – Artigo indefinito. – O artigo indefinito, como o
definito, tem por fim – diz F. Diez – a individualidade
de um objecto.

Resta accrescentar que o indefinito, ao contrario do
definito, só se emprega em referencia a cousas ou individuos
indeterminados. O artigo indefinito é um adjectivo
determinativo indefinito.

O nosso artigo indefinito é um, uma = lat. unus, –
a, que entre os Romanos significava um certo, algum,
alguem
(por transf.) E’ esta a razão porque tocou a
esse numeral o papel de artigo indefinito, em que alguns
Acreditam ver – e talvez com fundamento – vestigio da
palavra homo (homem).

Sïcut unus paterfamilias his de rebus loquor (Cic), est huic unus
servus violentissimus
(Quin.); ponite ante oculos unum quemque regem;
nemo de nobis unus excellat; unos sex dies
(Plaut.) D’ahi é qne
nos veio o modo de dizer – umas faces rosadas, uns cabellos calamistrados,
uns quinze dias, etc.

Emprega-se tambem o artigo indefinito, por extensão,
para designar um individuo como typo da espécie: –
um bom filho será bom pai. Neste sentido é que elle
se approxima do definito.384

Vigesima setima lição
Etymologia das fórmas verbaes…

Etymologia das fórmas verbaes. – Comparação
da conjugação latina com a portugueza. 1290

1. – A historia da conjugação portugueza mostra claramente
a lucta entre as duas forças oppostas, a que
por vezes nos hemos referido, e a que estão as linguas
sujeitas na sua formação.

Mostra-nos mais ainda a lucta entre a tradição das
fórmas syntheticas latinas, e o analytismo.

2. – Temos quatro conjugações.

A 1ª em ar, que corresponde á latina em are.

A 2ª em er, correspondente á latina em ēre e ĕre.

Nos derivados dos verbos em ĕre houve deslocação do
accento, que já remontava ao latim vulgar, porque a
par das fórmas proparoxytonas (criarere, gémere, fácere,
dicere, trémere, rúmpere
, …) creara as oxytons em
ere ire (currire gemire, facére, dicére…)

A 3ª em ir, que corresponde á latina em ire e ĕre.

A 4ª em or, que, como vimos á pag. 228 § 8, pertencia
á 2ª até o Sec . XV, e corresponde á latina em ĕre.

3. – No tocante ás flexões de tempo e modo, já notamos
o desapparecimento de fórmas simples (futuro), substituidos
por outras compostas ou periphrasticas.385

Perdemos mais o supino e o gerundio, mas em compensação
creámos o condicional.

Emfim, e isso ja resalta do que dissemos na 16ª lição,
apesar de todas as modificações porque passou, a conjugação
portugueza conservou prefeita analogia com a
latina.

Tempos simples

4. – Tempos simples são os que se fórmam pelo acrescentamento
de uma desinencia ao radical do verbo.

5. – Indicativo presente. – Não apresenta na sua
formação differença dos tempos correspondentes no
latim.

tableau amo-o | dev-o | applaud-o
ama-s | deve-s | applaude-s
ama | deve | applaude
ama-mos | deve-mos | applaudi-mos
ama-is | deve-eis | applaud-is
ama-m | deve-m | applaude-m

que correspondem a

tableau am-o | mone-o | audi-o
ama-s | mone-s | audi-s
amat | mone-t | audi-t
amã-mus | mone-mus | audi-mus
amã-tis | mone-tis | audi-tis
ama-nt | none-nt | audi-u-nt

A desinencia da 1ª pessou sing. é identica á latina em
todas as conjugações; a 2ª. conservou o s final caracteristico,
mas muda o i dos verbos latinos da 3ª. e 4ª.
conjug. em e; na 3ª pessoa deu-se em todos os tempos
a quéda do t final. 1291

O unico vestigio que nos restou desta caracteristica é a
forma est, que se encontra nos primeiros cancioneiros, etc:
386est a prazo passado (D. Din), est assi, est est
o mayrer ben, grave est a mi, etc.

Já dissemos que esta fórma era principalmente empregada
antes de vogal.

A 1ª. pessou do plural muda regularmente o u da
desinencia em o (mus = mos); mas no sec. XIII ainda as
fórmas eram verdadeiras reproducções – amamus vendemus.

Nas 2ªs pessoas do plural o t desinencial (ama-t-is)
cahiu, mas depois de haver abrandado em d (ama-d-es,
vale-d-es
). No Sec. XV é que começou a syncope do d,
que se tornou definitiva no XVI 1292 (soes, amayes, ouuis),
comquanto ainda as encontremos em Gil Vicente –
(olhade, dizedes, sodes, sabedes, deixades, etc.)

Conservamos ainda vestigios dessas formas em – ledes,
credes, vedes tendes, pondes
(V. pg. 217 – nota.)

A 3ª pessoa do plural é em m (am, em) = lat. nt (p.
nti); 2293 mas a nossa flexão já era a do latim popular.

Segundo Corssen (Uber Ausspr .), a articulação cons. final – nt,
tendia a cahir desde o periodo comprehendido entre a 1ª e 2ª guerra
punica, na linguagem popular e na poesia, ao passo que na linguagem
classica e na prosa predominaram as fórmas completas em – erunt.
No latim da decadencia, porém, dava-se a quéda do t, persistindo o
n, que se tornou final, e que por ser surdo, transformava-se muitas
vezes em m (fecerum, convenerum, dedicarum.)

Nos Foros do Castello Rodrigo (Port. mon. hist. leges) as fórmas
façan, eutren, den, etc, eram todavia concurrentes com as em nt: –
dent, facent, …

Em alguns verbos, o u (o) formando hiato com a vogal
do radical, deu em resultado o diphtongo ão: – va (d)
387unt = vaom, vão. Cp. – sermom, coroçon, oraçom, non,
galardon
, …

No Sec. XV é que começou a forma em ão.

6. – Ind. Imperfeito – Forma-se do modo seguinte:

tableau ama-va | devi-a | applaudi-a
ama-vas | devi-as | applaudi-as
ama-va | devi-a | applaudi-a
ama-va-mos | devi-a-mos | applaudi-a-mos
ama-ve-is | devi-e-is | applaudi-e-is
ama-va-m | devi-a-m | applaudi-a-m

que corresponde ao latim:

tableau ama-ba-m | mone-ba-m | audi-e-ba-m
– ba-s | bã-s | – – – s
– ba-t | ba-t | – – – t
– bã-mus | bã-mus | – – – mus
– bã-tis | bã-tis | – – – tis
– ba-nt | ba-n | – – – nt

Duas cousas são de notar neste tempo:

1.ª – A transformação da desinencia latina da 1ª pess.
sing. – bam em va, (1ª conj.)

No latim vulgar da decadencia já era frequente a
Apocope do m (su p. sum, carpere p. carperem, dice p.
dicem, etc), á imitação do que se praticava nas formações
nominaes, principalmente nos tempos de Cicero e Tito, e
ainda accrescentado depois do Sec. III da era christã.
– Quanto á permuta do b pelo v (que remonta ao latim
do 2° Seculo D. C. – miravili Favio, lavoratum, … e
tornou-se geral desde o 4°), vide lição 3.ª

2.° – A deslocação do accento primitivo latino na 1ª e
2ª pess. do plural (amávamos amabámus.)

Nos verbos de 2ª e 3ª conj. seguimos o typo do Imperfeito
da 3ª conj. lat. em i, desprezada porém a terminação
derivada; e por isso os da 2ª mudam a vogal
thematica em i (temia, vendia).

Ouvia – audi (e) (b) a (m), – s, –, mos, – eis, – m.

Nos primeiros docs. as fórmas dos verbos da 2ª conj.
eram em ades, i. e., mais encostadas ás latinas (ba-tis);
388queriades, faziades… A queda do d trouxe as fórmas
Queriais faziais, ainda frequentes nos docs. do XV.

7. – Pret. perfeito. – Formou-se tomando para typo
o dos perfeitos latinos em – avi, evi, ivi.

tableau amei | devi | applaudi
ama-ste | deve-ste | applaudi-ste
am-ou | deve-u | applaudi-u
amá-mos | deve-mos | applaudi-mos
ama-ste | deve-ste | applaudi-stes
ama-ram 1294 | deve-ram | applaudi-ram

que correspondem ás formas latinas.

tableau ama-v-i | mon-u-i | audi-v-i
ama-v-i-sti | mon-u-i-sti | audi-v-i-sti
ama-v-i-t | mon-u-i-t | audiv-i-t
ama-v-i-mus | mon-u-i-mus | audi-v-i-mus
ama-v-i-stis | mon-u-i-stis | audi-v-i-stis
ama-ve-runt | mon-u-i-runt | audi-v-e-runt

Dizem os grammaticos que amei é contracção de amado
hei, amaste
de amado has, etc. De feito, são estas as fórmas
correspondentes, e sabemos que no latim o participio
precedia o auxiliar; mas basta confrontar o paradigma
portuguez com o latino para nos convencermos de que a
nossa lingua aceitou o typo latino, e que as desviações
que apresenta são devidas ás regulares modificações
phonicas.

No latim ui e vi exprimem o thema do perf. da raiz fu e d’ahi –
ama fui = ama – hui, ama – ui, ama – vi.

Vi juntava-se, em regra, aos themas do pres. dos verbos derivados
das flexões – â, ê, î. para formar o perfeito amo amavi, amamus,
amavimus
.

Nos verbos de primeira conjugação (a – vi), deu-se a
quéda do v em todas as pessoas 2295, e d’ahi pela mudança
regular do diphthongo ai em ei 3296 ama (v) i = amei. A
389quéda do v medio arrastou a do i (e) 1297 e d’ahi amaste = ama
(v) (i) ali, amamos = ama (v) (i) mus, amastes, amaram.

Na terceira pessoa do sing. (amou – amavit) a terminação
it cahiu porque não soava na linguagem popular; o v
(principalmente por se tornar final) mudou para a vogal
u (amauit, arui, deseruit…); o diphthongo au transformou-se
em ou.

Os verbos da 2ª e 3ª conj. formaram o preterito analogicamente,
dando-se apenas na 1ª pessoa do sig. a
cantracção de ei em i – ouvi, applaudì. Formaram-se pois
os da 2ª das formas latinas não syncopadas, de accordo
com as regras da accentuação (Cp. audi-v-i - oudii
ouvi
.)

Nos verbos de 3ª conj. é de notar que os Latinos ajuntavam
simplesmente um i ao radical para a formação d’este
pretérito: – prehendo – eprhendi, prendi.

A 2ª pess. do sing. tinha no Sec. XII desinencia identica
á latina (fezista) –; no Sec. XV. a dental abrandou em
d, encostando-se no XVI de novo ao typo primitivo.
E’ o unico tempo que conservou a dental latina das 2as
pessoas – amastes, vendestes, applaudiste.

8. Mais que perfeito – Formou-se do tempo correspondente
em latim. O que dissemos com relação ao preterito,
explica as modificações phonicas porque passou.

tableau ama-ra | ama-v-era-m
amára-s | ama-v-era-s
amá-ra | ama-v-era-t
amára-mos | ama-v-era-mus
amá-re-is | ama-v-era-tis
amá-ra-m | ama-v-era-nt

E assim para as outras duas conjugações.

Houve deslocação do accento na 1ª e 2ª pessoas do
plural.390

Já são do Sec. XVI as fórmas – foreys, amáreys,
léreyes, ouvireys
.

9. – Futuro. A sua formação remonta aos tempos
historicos.

O latim tinha um futuro, que se conserva na fórma
e – ro, antigo e – so (= σ o); e outro primitivamente periphrastico,
composto de um thema verbal ou de uma
flexão nominal do verbo e do presente de fuo, que só se
empregava em composição. Fuo mudou-se em u-o, v-o; a
semivogal v, permutou em b, e assim formou-se o futuro
em bo na latinidade antiga.

Na epoca da decadencia, porém, as finaes latinas deixando
de ser pronunciadas, houve forçosa confusão de
fórmas, e impossivel era aos populares a distincção entre
o imperfeito amabit, amabam, e o futuro amabit amabo.
Para removerem esse embaraço, crearam os Romanos uma
nova fórma de futuro, composta com o infinito do verbo
e o presente de habere: – amare habeo, habeo
dicere, habeo ad te scribere
(Cic.), …

Este futuro periphrastico por fim alterou o classico, e
foi o adaptado por todas as linguas romanas, que conservaram
a inversão latina.

Amare habeo deu amar hei (assim como habeo amare
hei de amar), e pela fusão dos elementos, – amarei, amarás,
amará
, etc. Que a desinencia ainda conserva, porém,
fóros de palavra independente prova-o o facto de
poder separar-se do verbo: – escrever-te-hei, etc. (V.
pag . 218 e seg .)

10. – Condicional. Nada temos a accrescentar ao que
dissemos a pag. 219.

11. – Imperativo. As 2as pessoas (ama amae) formam-se
das correspondentes latinos (ama amate, mone
monete, audi audite
, … As 3as, de uma reproducção da
fórma do pres. do subjunctivo – ame elle, amem elles, e
bem assim amemos, applaudamos, etc.391

Quanto ás modificações porque passaram essas formas
até o Sec. XVI, V. pag. 220.

Conserva a 2a pess. pl. de alguns verbos, vestigio do
t latino: ponde tende, lêde. 1298

12. – Subjunctivo. Presente. E’ uma reproducção
do typo latino.

tableau 1ª conjugação | 2ª e 3ª conjugação | Port. | Lat. | Port. | Lat.
ame | ame-m | – a | a-m
ame-s | ame-s | – as | a-s
ame | ame-t | – a | a-t
ame-mus | ame-mus | – amos | a-mus
ame-is | ame-tis | – aes | a-tis
ame-m | am-ent | – am | a-nt.

As modificações unicas são a queda do m latino das
1as pessoas sing., do t final das 3as, e do t médio das
2as do plural. Todas são regulares, e a ellas já nos referimos
acima.

Nos derivados da flexão em e e i, dá-se ás vezes a
perda da vogal thematica (deva p. devea = l. debea-m,
vista
, p. vestia = l. vestia-m.

13 – S. imperfeito. – Forma-se do mais que perfeito
do subjunctivo latino (forma popular).

tableau Por. | Lat. pop. | Lat. class.
ama-sse | amassem | ama-v-issem
ama-sse-s | amasses | – – isse-s
ama-sse | amasset | – – isse-t ¤|
ama-sse-mos | amassemus | – – isse-mus
ama-sse-is | amasseis | – – isse-tis
ama-sse-m | amassent | – – isse-nt

No Sec. XVI ainda era frequente o emprego do mais que perfeito
do Indicativo pelo subj. pres. (Se eu fôra um dos beneméritos
– Vieira Serm), e no Soc. XV
o do Infidito pessoal pelo subjunctivo
(O Imperador desejara muito de ficardes na sua terra, Barros:)

O 1° emprego ainda é usado por alguns escriptores puritanos; do
2°, ha exemplos que entendo devem ser imitados: – trabalha, filho
meu
, por agradarem tuas obras a Deus (M. Pinto.)
392

14. Futuro. – São encontradas as opiniões quanto á
sua etymologia. Querem alguns grammaticos que elle se
forme da 2ª pessoa sing. do pret. perf. do Ind.; outros
opinam que do infinito; raros – e com mais cabimento –
derivam-no do futuro perfeito do subjunctivo latino.

tableau ama-r | ama-v-erim
ama-r-es | – – eri-s
ama-r | – – eri-t
ama-r mos | – – eri-mus
ama-r des | – – eri-tis
ama-re-m | – – eri-nt¤

Amares corresponde de feito a teres de amar, amarmos
a termos de amar, etc.; mas as differenças que apresentam
esses dous paradigmas desde que attendermos a
que – como já vimos - o v cahiu sempre, e bem assim
– o met da 1ª pess. do sing. e 3ª pess. de ambos os numeros,
perdas estas que arrastaram forçosamente a queda do i da
flexão, que d’outra fórma tornar-se-hia final. Assim explica-se
a semelhança que apresentam com o Infinito as
1ª e 3ª pess. sing. Ama (v) er (im), ama (v) er (it) = amaer
amar
.

As fórmas do futuro do subj. já se encontram em docs.
do Sec. XV (ouvirdes, fordes, amardes, lerdes.)

15. – Infinito. E’ de origem latina.

16. – Participios. Pouco mais temos que accrescentar
ao que dissemos na pg. 221 e seguintes. Sobre o
part. pass. em eito (alguns ainda muito frequente nos
textos do Sec. XVI) – escolheito, escorreito, correito, colheito,
recolheito, encolheito, cozeito, tolheito
, (= ido, typo
latino em ectus, collectus, etc.), Cp.– feito, leito peito treito
contreito
(G . V. III 251) maltreito, bieito (benedicto); feeito,
empleita, colheita
, etc…

Tempos compostos

17. – Na formação dos tempos compostos, emprega
o portuguez os auxiliares – ter, haver, ser e estar.393

O processo não era estranho ao genis da lingua; já era
conhecido dos Romanos, que, perdido o sentimento da declinação
e das flexões verbaes, tiveram, seguindo a tendencia
analytica, de empregar palavras auxiliares – preposições e
certos verbos de significação muito geral, para clareza da
phrase. D’ahi as fórmas – habeo dictum, habeam scriptum
a par das syntheticas – dixi, scripseram, habeas scriptum
p. scripseras, habeas instituta p. instituisti, redempta habet
p. redemit… 1299

Verbos passivos

18. – O portuguez regeitou de todo a fórma synthetica
do passivo latino, substituindo- a – pela composta do participio
passado e do verbo ser ou estar.

Esta mudança morphologica, porém, já era frequente
no latim popular: – hoc volo esse donatum (p. donari),
quod ei nostra largitate est concessum (p. conceditur), sum
amatus
(p. amor), sunt aspecta (aspectantur), est possessum
(posseditur), etc. E assim amatus sum ou fui, eram ou
fueram, ero, essem, esse.

Por outras palavras. A conjugação passiva latina era
expressa por varias fórmas simples: – amari, ser amado,
amor, sou amado, amabar, eu era amado, etc. Mas em
alguns tempos, como no perfeito e mais que perfeito do
Indicativo, empregaram os Romanos fórmas compostas do
participio passado do verbo principal e do auxiliar ser: –
amatus fuit. As linguas romanas adaptaram essas fórmas
analyticas, “que mais estavam em harmonia com o espirito
da lingua popular, e que de todo suplantaram as fórmas
simples”.

19. – Tinham mais os Latinos grande numero de verbos
activos intransitivos de fórma deponente (passiva), e de
394fórmas passivas de sentido activo: – reversus sum, profectus
sum
, …; me ultus sum (eu me sou vingado, eu
vinguei-me; fr. je me suis vengé).

Neste ultimo caso, o sujeito sendo ao mesmo tempo
autor e objecto da acção, o verbo reflexo latino assimilou-se
ao passivo.

20. – O processo apassivador dos verbos activos pela
juncção da enclise re nas terceiras pessoas e no Infinito impessoal
(cultiva-se a terra e a intelligencia), já era conhecido
dos Latinos, e já nos referimos á fórma periphrastica
(pronome se+ fórma verbal activa), cujos elementos fundiram-se
por fim. 1300

O portuguez absorveu na fórma activa todos os verbos
deponentes latinos, que já eram pela maior transitivos na
linguagem vulgar: – arbitrare, moderare, partire, … por
arbitrari, moderari, partiri, …

Os nossos classicos, porém, estendiam o emprego desta
fórma aos verbos neutros: – a avesinha se cahiu; ella se
morreu (B. Rib.), cahir-se, emagrecer-se, acontecer-se,
partir-se
(d’alli nos partiramos, Cam.) etc… Hoje só temos
esta liberdade quando o verbo neutro exprime expontaneidade
da acção: – vive-se, come-se, bebe-se, dorme-se, …

O latim procedia da mesma fórma com os verbos mixtos
(semi depoentes, neutro passivos; – ceno, prandeo, polo.
faziam cenatus sum, pransus sum, potus sum, …Cp. port.
bem comido, estar dormido.

21. – Os Latinos tinham tambem um outro modo de
exprimir que a acção era feita e soffrida pela mesma pessoa,
além da voz passiva. Empregavam o verbo na voz activa,
mas acompanhado de um pronome regimen (reftexivo da 3ª
395pessoa): – Virgo de cespite se levat (a virgem levanta-se
da relva). O portuguez, como as outras linguas congeneres,
adoptou esta construcção latina, e assim crearam-se os
nossos verbos reflexos pronominaes.

Si o verbo é transitivo, o pronome é regimen directo
(mover-se); si intransitivo, o pronome é regimen indirecto
(arrepender-se).

O desenvolvimemo analogico d’essa fórma no portuguez
antigo, deu em resultado uma serie de verbos que não são
propriamente reflexivos, mas simplesmente pronominaes,
porque o pronome nem fazia as funcções de regimen directo
nem de regimen indirecto (apoderar-se, partir-se,
morrer-se, deliberar-se
, etc).

22. – Já fizemos sentir em outra lição a grande influencia
da analogia na conjugação portugueza, e bem assim que as
irregularidades são devidas a uma lei de accentuação ou á
acção de certas lettras sobre as do radical.

Na conjugação latina o accento dos verbos deslocava-se
segundo a natureza da flexão que se juntava ao radical, e
este facto é de grande importancia.

No portuguez antigo eram em maior numero os verbos
de duplo radical (atono e tonico) hoje resumido pela acção
da analogia.

Por estreiteza de tempo e de espaço não damos aqui as regras relativas
aos verbos de radical monosyllabico ou polysyllabico.

23. – A acção flexional depende: 1° da presença de um
i ou e. – Neste caso a acção flexional cahe ora na vogal
diphthongada, ora na consoante que se modifica ou é syncopada,
e ás vezes sobre ambas.

D’ahi as transformações dos radicaes. Cp. audio, debeo;
hav
(radical de haver) – hei. etc.

2.° – Introducção de letras euphonicas: – Já nos referimos
a este facto, que obriga ás vezes esses verbos, por
motivos euphonicos, a dous radicaes.396

Vigesima oitava lição
Etymologia das palavras invariaveis

I. – Do adverbio

1 – Os nossos adverbios originam-se:

a) de um advervio latino simples: – já, onde, lá.

b) de particulas latinas: – assás (= ad satis), avante
(ab – ante).

c) de adjectivos: – alto, forte, baixo, certo, raro,
tarde
, etc…

d) de um adjectivo na terminação feminina e o suffixo
mente: – raramente. Por derivação.

e) de duas palavras portuguezas: – ante-hontem,
outr’ora, amanhã
.

2 – Das modificações adverbiaes a mais de notar é a
do s paragogico, mais frequente nas fórmas archaicas: –
entonces, antes, algures, …

Adverbios de tempo

3 – Vide lição 20.

Amanhã = Form. port.: – a + manhã (ad manè).

Antes, ante; ant em J. de Barros, Ined. d’Alc. etc.
Do latim ante.

Ate – 1. hactenus, d’onde a fórma port. hacté Formas
arch. atá, athá, attá, atáa (Liv. de Linh., Nob., Ord Aff.
e M., Ined., Azur.)

Agora = ac hora.397

Cedo = l. cito..

Hoje = I. hodiè (hoc die); port. arch. oy (S. Ros.),
oje; hesp. hoy; fr. aujourd’hui, arch. hoi hui, it. ogge.

Hontem = l. ante hodie, na opinião de alguns; de ad
noctem
, segundo outros (Cornu, etc.). E’ dos primeiros documentos
da lingua; port. arch. heri = l. heri. fr. hier, it.
iere, hesp. ayer.

Havia, porém, no port. a fórma oyte, ooyte (Doc. de
1743 = Eluc);a par de onte ontem.

Não será hontem de formação portugueza: ant’ou, ont’oy;
(ont p. ant – tambem no hesp,) ? O m epithesico, a nasalisação da
vogal final, é muito frequente no portuguez – (si sim, assi assim, etc.).
De resto, ad notem, hesp. anoche, não significam amanhã, mas ao
declinar do dia, perto da noite
.

Cp. mais – oge, ogè die = hodie; lat. – hesterno die ou simplesmente
hesterno = hontem, ANTEHAC em tempo passado, e nesse
mesmo sentido emprega-se hontem, ante – hontem, etc. Jam ante =
d’antes, anteriormente (Cic.)

= 1. jam.

jámais. – De e mais (Sign. propriamente nunca
mais
).

Logo = 1. loco (in loco).

Nunca = 1. nunquam. – F. arch. nuncas, nunqua.

Ogano, oganho = 1. hoc anno (este agora, agora).
Vem ogano mais portuguezmente (Eufr.) – Fr. Ant. uan.
oan ouan. E’fórma archaica.

Outr’ora – E’ de formação portugueza – outra hora
(d’antes).

Pós = 1. post. – Deu após, empós arch., depois.

Quando = l. quando.

Semper = 1. semper.

Tarde = 1. tarde.

Além das fórmas de creação vernacula já citadas, temos
– d’hora em diante, ante hontem, ha pouco, depois d’amanhã,
tresantehontem
, …

Além d’estes, temos mais – ainda, inda = 1. inde,
amanhã
(a + manhã), depois (de+ pois), então arch.
398entonce entonces, ant. entom (in + tunc) … e os obsoletos
crás = amanhã (G. Vic) = l. crás; aliquando
(f. lat.). asinha = depressa (l. agiliter ?) . Creio mais é
fórma ahreviada de agilsinha, 1301; desende desen desi de-y
= deinde, d’ahi, desde ahi, …

Adverbios de logar

4 – Perdeu o portuguez algumas das perguntas de logar
dos Latinos, que eram quatro. Assim unde tem sempre
a mesma fórma para o logar em que estamos, de que
viemos, e para onde vamos. Para exprimir essas differenças
somos obrigados a fazer preceder o adverbio onde da
prep. de (pergunta unda) ou a, para (pergunta quã)
(onde, d’onde, aonde para onde, por onde).

Aqui, ant. qui; hesp. aqui acá; it-qui; fr. îcî.

Diez deriva-o de ecce hic (ec’hic); outros da fórma
pleonastisa hac hic.

Tenho, porém, para mim, que este adverbio, e bem
assim alli, ahi, acá alá, formaram-se do adverbio latino
com a prep. a, do mesmo modo que de unde formou-se
onde, e depois aonde, 2302 etc. Nos classicos encontram-se as
fórmas – y i hi, té li, té qui, per hi e hi-vos d’hi, etc.

Em aquó, acujuso, acasuso (d’aquem, em baixo, em cima), é que
mais parece dar-se a influencia do demonstr. lat. – Mas notemos
que no port. havia as fórmas juss – ão, ante, (de baixo). e susão
suso
(de cima: acujuso pode pois ser corrupção de aquijuso (aqui
de baixo), acasuso, de aquisuso. (acásuso).

Ahi. – Corresponde ao latim ibi; deriva de hi, i,
d’onde as fórmas archaicas portuguezas – y ü hi ay.
Ahi = a + hi.399

D’ahi tem por etymologia, na opinião geral, o composto
latino deinde, a que corresponde. Mas força seria então
derivar ahi de inde. D’ahi é de creação porugueza; a fórma
que directamente se derivou de deinde é a arch. desende,
– ende (d’ahi).

Alli = l. illic, illi; port. ant. li. O e final tendeu
sempre a cahir (hic hi, nec ne, illic illi, Ter); o i inicial
transfórmou-se em a (cp. inter antre entre).

A’quem – Derivam-no os grammaticos de hinc. – Em
minha opinião é um adv. composto, de origem portugueza,
e de formação emphatica (a + adv. quem = para cá
d’esse logar. cp. adeante). Corresponde a a ende.

Alem – Deriva de alliunde, que ás vezes corresponde
a alibi. Cp. allende. (hesp.)

Ante, antes = l. ante antea. – O s da 2ª fòrma é
como que a caracteristica dos adverbios antigos. Em
composição – deante, adeante.

O esquecimento etymologico é que nos obrigou ás
fórmas actuaes – deante de, etc.

Ante com ante é loc. adv. antiga; de hora em ante
diziam ainda os do sec. passado por d’ora em deante, avante.

Avante = lat. pop. abante (ab + ante).

Acolá = 1. ecc’ illá (c), ou melhor de hac illà (illac)
Significa aquelle logar, propriamente ahi lá para indicar
logar mais remoto d’aquelle em que estamos.

no port. ant. era alá (hac alá, acolá) ?

Algures. – Querem geralmente que este adverbio se
origine de alicubi = aliquo ubi, ant. aliquobi, que ás vezes
vem reforçado por hic (hic alicubi, Cic). Parece-nos porem
mais acertada a etymologia al’ quoris (aliquis oris = alguma
região).

F. Arch. – algur

Alhur. alhures (arch). São varias as etymologias
apresentadas: – aliubi (= alio ubi), aliunde (= alio unde),
400mais acertadamente de aliors, aliorsum, ou de alioris (alü
+ oris).

Arriba = l. v. arriba (= ad. ripam).

Arredo, aredo, arch. arreo = l. v. à retrò (= para
traz, para longe): – arredo vá de nós o sestro agouro
(D. Fr. Man.).

Perdeu-se o adv. portuguez, ao passo que a phrase latina
vade retro é hoje popular 1303.

Alló, alò, arch. (= l. illo = illuc, para aquelle logar,
então): – alló hallara holgança (Canc. ger.), dizendo a
El-Rei tudo o que sobre este negocio
allò viera (Fern. Lopes.
Chron. de Guiné.)

, port. ant. qua; acá = para cá. Do lat. ecc’ hac,
d’onde ecá, cá (Cp. enomorar namorar, egreja greja, Ethiopicos
Tiopicos, etc.)

Cérca = 1. circa.

Dentro = de intro.

Ende, desende desen desi de – y, etc: = inde, deinde, V.
Lição 26.

Fóra = l. foras (foris).

, arch. alá 2304 = l . illac. Allá (para lá) oppõe-se a
acá – Cp. alli acolá aqui.

Longe = lat. longe.

Nenhures. De nec ubi, necorsum, conforme os grammaticos.
Em minha opinião de neoris (nec oris) opposto
a algures 3305.

Ondé = l. unde, port. arch. u, hu, – o mel vae vuscar-se
hu ha colmeias; non cries gallinhas hu raposa mora. Os
antigos tambem empregavam, como ainda hoje a gente
ignorante, aonde e adonde p. onde; e u hu no sentido de
aonde (Cp. fr. où: – où vas-tu ? aonde vás ?)401

U contrahiu-se ao adj. articular (ulo ula = onde o):
– ulas partes que damos á virtude; ullo ser e autoridade
de fidalgo
? (Szã Jl.do Arc.)

Adú = ad’onde:-se partiu ad’u viera.

Nos classicos (Lucena, etc.) encontra-se erradamente
onde p. d’ onde.

Deve-se empregar onde, aonde, d’onde, conforme o logar
a que nos referimos (onde estas ? d’onde vens ? aonde (para
onde) vás ?

Perto = 1. pertus.

Traz, (atraz, detras) = l. trans.

Suso, arch. = em cima. Do lat. susum p.– sursum (Pl.
Cat. etc.)

Adverbios de quantidade

5 – São quasi todos de origem latina.

Apenas = 1. poena (a + pence). Penè 1306.

Assás = l. adsatis. Tinha muitrs vezes sentido de
muito.

Bastante – do adj. – verbal.

Cerca = l. circa.

Como = 1. quomodo, pelas formas intermediarias quomo.
Co p. como geralmente na poesia.

Mais = 1. magis.

Meio = 1. medius. Sign. algum tanto.

Menos = 1. minus.

Mui muito = l. multum. No sec. XV empregavam
ambas a fórrnas para o sup. abs.; – gente de pé mui
muita sem conta (= muitissima).

F. arch. mult (Sec. XII. – XIII).

Nada = l. nata ? (filha, pequena; Res nata).

Pouco = 1. paucum.402

Quão = 1. quam. Emprega-se antes de adjectivo e
adverbios com sentido de – por tal modo ou tanto (quam
sem excusa
. Luc.; quão azinha em meu dano vos tomastes,
Cam.; camanho.

Quanto = 1. quantum.

Quasi = 1. quasi. F. arch. casi quage quagi.

Tão = l. tam . Corresponde a tanto; sign. a tal ponto,
em tanto modo. Empregado com muito representava o
superlativo absoluto (Sec. XIV): – porque tão muito
tarde d’esta vez… (Canc.)

Formas ant. tam tom.

Em composição com manho (= magno) deu tamanho.

Tanto – 1. tanium,

Compostos: – outrotanto, (alternm tantum) com,
tanto., no emtanto
…,

Formas arch. – adar – apenas, chus, plus – mais, …
que farte (– . fartim) – assás; tam- a- la- vez = algum
tanto, raro, etc.

Nota. – Os classicos empregavam frequentemente os
adverbios bem (bene), mal (male) para á maneira dos
Latinos, darem aos adjectivos força intensiva: o coração
bem mais largo que as praias do Oceano (Luc.), ete.
E ainda hoje dizemos com Souza – ficar mal ferido, bem
como – dei-lhe bem a entender, etc.

Adverbios de exclusão e designação

6. – De alguns já tratamos, como apenas; outros formam-se
por derivação – somente, unicamente.

1. Porem. arch. porende = 1. proinde.

Senão. De si+não (1. Sic non).

Sequer. E’ dos primieros does. – Significa propriamente
se quiser, ao menos.

= l. solus.

5.° Eis, port. arch. ex = l. ecce – Sec. XIII e XIV.
Com. – eis aqui, eis alli403

Adverbios de modo

7 – São em crescidissimo numero, que multiplos são os
modos de ser da materia ou do pensamento.

São adverbios de modo – assim (ant. assi), assim
assim, bem, mal, como
, e quasi todos os derivados, i. e.
formados de um adjectivo feminino e da terminação –
mente. Assim derivou de ad+sic ou de in+sic, segundo
Littré. 1307

O portuguez, regeitando as terminações adverbiaes
latinas em e e ter (certe, prudenter), recorreu á forma periphrastica
latina, mui frequente entre os escriptores do
Imperio – bona mente factum (Quint.), devota mente
tuentur.

A terminação mente pois é o ablativo latino do subst.
fem. mens mentis (espirito, entendimento, mente); mas
que os Latinos já empregavam no sentido de modo, maneira.

Cp.: Elle procedeu de boa mente; elle trabalha boamente.

Esta desinencia conserva ainda a idéa etymologica, e nem
perdeu sua vida propria e independência: não soffreu modificação
phonetica, e póde separar-se do adjectivo: – Elle
escreve
clara, concisa e elegantemente.

Não ha razão – a não ser a ignorancia – para não
empregarmos – maiormente (mormente), melhormente
(Camões, etc.), mesmamente, etc.

Alias = l. alias.

Adrede = acinte, propositalmente. Forma outro adj. de
modo – adredemente; com prep. – de adrede.

Acinte (assinte). – De caso pensado, mas com má intenção.
De acinte, acintemente (L. ad sciente, do verbo
404scio = saber, conhecer, ter noticias: ad scienter = sabidamente,
Ex. – quer fosse acinte, feito quer acaso (Eufr.);
assintes mus de pensado (Vieira). Siute; a sinte = a sabendas.
Cp. a-tento.

Alguns adverbios de modo derivam-se da fórma comparativa
do adjectivo: – antiquissimamente = muito antigamente.

Adverbios de interrogação e duvida

8 – Daremos os principaes:

1.° Porque = por+que = l. barb = per quee, per quod.

Como, ant quomo 1308 = lat. quomodo.

Quanto = l. quantum.

Quando = l. quando.

2.° Acaso = 1. a casu – Por acaso.

Porventura (por+ventura).

Talvez (tal+vez).

Quiça, arch. quesais, quiçais, quissá, quiçaes. Corresponao
fr. quisait ? ital. Chi sa ? – gall. quizaves, quezayes,
quisais, quixais
. E’ o latim pop. – quis sapit (quis sap.
pui sab, quiçá.)

Não. (= l. non) Esta particula nem sempre tem
força negativa; ás vezes significa porventura, acaso - a
duvida. 2309405

Adverbios de affirmação e negação

9. São de affirmação – sim (= 1. Sic, si); port. arch.
sic, ant. si; certo certamente, seguramente… – Tambem
= tão bem.

As Negativas dividem-se em simples e intensivas ou
reforçadas.

a) Negativa simples. E’ não = 1. non, tambem unica
neg. simples no latim

F. arch. – no num non.

Menus (minus), nada, nunca (1. nunquam)

Sem nos Sec. XIV e XV tinha força negativa, e
empregava-se pela neg. não, como se vê em mais de
um passo de Fern. Lopes (chron. G).

b) Negação intensiva: – Resultado d’esse principio
conservador a que se chama emphase, a negação intensiva
é facto vulgar em todas as linguas, maiormente nas
locuções populares.

Consiste o processo em substituir a idéa pela imagem; pluma
haud interest, non fili facere, non nauci facere, e assim flocus,
maucus, triobolum
, etc… Por fim a imagem desapparece; a expressão
deixa de ser figurada para se tornar abstracta: nihilum nuhil =
nada,
são compostos de ne + hilum, que significava « nem mesmo
um desses pontos negros que se encontram no extremo das favas ».
– Nihil igitur mors est, ad nos nequem pertinent hilum (Lucr.)

Para dizer que um homem nada vale, diz se que não
vale quatro vintens, meia pataca, uma castanha, etc.; que
é fraco – um banana; que é estúpido – um camello, um
tamanco, um burro… A figura perde-se, e a idéa
torna-se abstracta, como p. ex. em patife (riachosinho).

Seguimos pois o processo latino; e muitos são os
substantivos empregados para esse fim: – mica (arch.
mique– nem mique nem nada), que já no latim exprimia
negação – nullaque mica salis (Marc.); migalha, sombra,
polegada. um nickel, passo (nem passo se esquecia, G.
Vic.), ponto (hum ponto não esteve parado, id.), ponta
406(moças aprazeradas sem ponta de miolo), fumo (nem
fumo de cão ou de cadella), ceitil, fava, pingo (de vergonha,
etc.), gota (não lhe marra ella aqui gota, G.
Vic.), espaço (nenhum espaço dormia, B. Rib.), boia,
patavina, fumaça
, … além dos já archaisados – medra,
cornado, ren, al, ome
, … A fonte é inexhaurivel, e
acompanha sempre a corrente das idéas novas. 1310

Muitas vezes duplica-se a negativa para mais reforçal-a:
nem nique nem nada; nem eira nem beira, nem ramo
de figueira; nem chique, nem mique, nem nada
(G. Vic.)

Vejamos agora rapidamente os principaes processos do
reforço negativo. 2311

a) repetição similar: – não-não, nem-nem, nada-nada… Data do
Sec. XIII.

b) repetição dissimar: – nem-não, não-nem, não-nada, etc.

c) emprego de equivalentes pronominaes: – nenhum-nem,
outra-nenhum ou ninguém
, … Data do Sec. XIII

d) emprego de equivalentes adverbiaes: – nunca-nenhum, nem-nunca,
nunca jamais, nem-jamais, não-nunca
, … do Sec. XII.

e) emprego semeiotico da prep. sem:-sem tom nem som; sem
tirar nem por, sem tirte nem guarte.

f) reforço epithetico: – alma perdida, não vale um figo podre,
não ter onde cahir morto, etc. Do Sec. XIII.

g) da condicional negativa senão, e das equivalentes que e nego,
nega
. São archaicas: – não tem mais de dous vinteus; não se ame a
cousa pelo
que é; o emprego do que = senão é frequente nos clássicos,
principalmeute nos secs. XVII e XVIII.

h) de equivalentes interjectivas, diminutivas, e superlativas - senão
não; não bofé
; nem um bocadinho; etc…cousissima nenhuma.

i) do infinito pleonastico intensivo: – eu não canto para cantar;
nem que chova que chover, nem que vente que ventar.

j) depois de certas locuções – não se podia ter que lh’o não mostrasse;
nam tardou que logo nam tomasse.

k) com o verbo negar e outros, nas proposições dependentes: –
neguei que nunca lhe houvesse fallado.

l) negação intensiva seriaria, periodica, ou melhor comulativa: –
e não menos me maravilho daquelles que crem que nenhum homem
póde saber aquillo que não têm ser senão no segredo da eternal sabedoria
(G. Vicente.).
407

10. – Muitas particulas e locuções adverbiaes archaisaram-se
e obsoletaram-se, além das que já deixamos apontadas:
cras = hontem (1. cras), empero = certamente,
a la fé, bofé = a boa fé, adur = apenas, difficilmente;
chus = mais, er = aliás, tambe m, samicas = por ventura;
algorem, todioge, soncas = talvez, u = onde (gall. ulo ula),
ogano, essora, acorão, camanho e quamanho (quão manho)
= tamanho 1312, alhures, desende desen desi (contr-em de-y)
= lat. deinde 2313, nego = senão (G. Vic.), a osadas, a ousadas
= ousadamente 3314, nessora, logo essora, agora
estora, a deshora quando, adesora
= logo que (G. V.,
Mir., etc.) de vedro – outr’ora, a scìente (– l. a sciente,
á ìnveja
(lat. ad invìcem) no sentido de á porfia, á competencia,
de uso frequente nos classicos (andavam á inveja
de quem daria melhor mesa as do seu quarto, – Bar. dec.)
de ligeiro = facilmente, de maravilha = raramente, de publico,
de secreto, pran
, de plano, presentemente; de frecha
= directamente, sem detença, de chofre ou de entuviada,
de cote = todos os dias (1. quotidie 4315), a sabendas = com
conhecimento, acinte, etc.

11. – Este processo de formação adverbial é latino; e
ainda hoje temos grande cópia desses adverbios de modo:
– de leve, de feito, de certo, de espaço, de industria, de véras,
de rijo, de siso, de primeiro; em breve, em balde, em vão
,
408em fim, em cima; a miudo, á destra, á vez, á medida, a
porfia, a espaço, a vulto; com effeito, por ventura

12. – A’s vezes o nome vai para para o plural para
maior reforço ou mudança de sentido (ás tontas, ás furtadellas,
ás cegas, as occultas, a espaços, a vezes
…)

13. – No Sec. XIV é que começou o emprego dos
adjectivos em o com força adverbial, correspondentes
ao ablativo latino sem preposição: – certo, claro, manso,
passo… = de certo certamente, de manso mansamente, de
passo pausadamente
.

14. – Dos adjectivos uniformes em o menos vestigios
nos restam: – tarde, longe, suave, leve

15. – Na linguagem litteraria empregamos alguns adverbios
latinos: – maxime, grátis, retro, supra, infra,
item
.

Tambem formamos adverbios de modo do superlativo
organico: – deligentissìmamente.

Da preposição

1.° – A maior parte das nossas preposições simples
são de origem directa latina, e conservam as fórmas e
relações originarias: de = de, – em (in), entre (inter),
contra (contra), por (pro, per 1316), ante antes (ante), sem
(sinè), sobre (super), com (cum), etc.

Note-se que muitas preposições derivam-se de antigos
adverbios ou são preposições e adverbios conforme
a circumstancia é expressa só pela particula (adverbio) ou
pela particula seguida de complemento. As relações entre
estas partes do discurso são tão intimas, que a distincção
entre ellas não está na significação, mas no valor syntaxico
diverso com que indicam a mesma circumstancia de
logar, origem ou causa, tendencia ou apartamento.409

2.° – Muitas são as preposições formadas pela derivação
impropria;

a) de duas preposições simples 1317: – depois (de – post.),
deante (de antè), atrás (a – trans), após (ant. em pós, apos de)
perante, dentro (de intro), para (por a, per a), … Adeante,
desde (de ex de), até (a+té = hactenus), etc.

b) de substantivos e adjectivos: – apesar, a par…,

c) dos participios passados e das antigas fórmas em
ante, ente, inte dos participios presentes: – excepto, salvo,
junto, … tocante, referente, concernente

d) – de adverbios: – eis aqui, eis alli, … dentro de,
de fronte de, perto de

2. – As locuções prepositivas são muito portuguezas, e
formam-se, pela maior parte, de substantivos ou adjectivos
seguidos das preposições de, a, e bem assim de adverbios
e locuções adverviaes: – em face de, em virtude de, por
causa de, á fórça de, longe de, deante de, concernente a,
referente a

3. – Das preposições simples já existentes no latim, a
maior parte só occorre no processo da composição ou nas
palavras de creação artificial (extrafino, superfino). São
ellas – a ba abs, ad, ante, circum, (co, com), de des dis, e,
em (em) inter, es, ex, extra, in, intro, ob obs, per, pre, pro,
re, retro, sub, super, trans, tras tres, ultra
, etc.

D’estas, como se vê das listas dos prefixos, algumas
teem uma fórma concurrente popular: – entre inter, sob
soto
2318 sub so, pos, sobre super.410

Façamos agora algmas considerações muito per summa capita, porque
a contextura d’ellas mais pertence ao dominio da syntaxe.

1.° São varias as relações expressas por certas preposições; não podemos
pois classifical-as segundo as suas significações, nem tão pouco
de conformidade com as originarias.

O que, porém, se póde affirmar de modo geral, é as preposições
indicam relações de logar, e por extensão – as de tempo. Que o
emprego abstracto e metaphorico é resultado de um desenvolvimento
posterior. 1319

2.° – E’ muito para sentir haja o portuguez perdido a preposição per
(só conservada nas contracções com o antigo 2320), cujo emprego era
differente do que tinha a prep. por, que dupla tambem lhe era a origem.

Por = lat pro, e passou para o portuguez com a significação de
deante: – face por face (Ined. d’Alc); rosto por rosto (Barros, dec), …;
per = lat. per. Por isso empregaram os antigos per nas relações de
espaço, tempo, logar, meio, instrumento, etc., e por nas de causa,
preço
, etc. – per montes e vales, per obrigação, ., . polo amor de Dens,
combater
polo patria etc.

Ne periodo archaico, claro está, é que menos raro se encontra o emprego
correcto de per com accus., por com ablat., i. e., em suas naturaes
relações; ainda frequente nos documentos do Sec. XIV. 3321

Exemplifiquemos:

Pereceram per espada e per fome ataa que
sejam de todo consumidos (J. B. dec)
… da India per o rumo (Id.)
viveu per espaço de septenta annos (Id.)

Foram pregar a fé uns per Italia, per Grecia outros; outros per
Hespanha (Luc.).
per tempo eram enfermos, ataa que se reformaram com a natureza
da terra. (Azur. Chr. de G.)

per noites de hynverno se ouviam gemidos (F. Mendes Perego),

Tanto viver per nulha ren – (C. Vat.).

Por suas grandes partes e provada virtude (Szã, V. do arc.).

Por culpas, por feitos vergonhosos – (Cam.).

Mandou dar aviso… que trabalhassem por lhe tomar o galeão
(Bar. dec.).
411

A voos graças faço por as mercees que me fezestes (Fr. J. Claro).
A’s vezes – mas raro - se eucontra divergencia nos textos: – per
mar e per terra; por mar ou por terra (J. Bar. dec); assim como
tambem diziam – que o mesmo Affonso fosse per pessoa, que nós dizemos
em dessoa.

No baixo latim, tambem reinava a confnsão de per pro; per omnes
montes ac
pro illis locis; obligo per me et per meos heredes.

III Da conjuncção

1. – As conjuncções, quanto á origem, podem dividir-se
em duas categorias: – as de derivação latina –
e as de formação portugueza.

Estas, em geral, são antigas locuções conjunctivas cujos
elementos se acham juxtapostos: – portanto, senão,
outrosim
(ant. outrosi), todavia, postoque, entretanto, supposto
que, porque, afim de que, poisque
, etc.

2 – Estudemos a etymologia:

Como = 1. quamodo.

Ergo = 1. ergo. No Sec. XVI empregam de preferencia
a fórma contracta er.

E = lat. el, port. ant. et (Sec. XII – XIV.).

Logo = 1. loco (in loco.).

Mas = 1. magis (adv .).

Nem = 1. nec. ORA = 1. hora. OU = 1. aut.

Outrosim = outro que si, ant. outrosi., F. port. = lat.
alterum sic.

Porem, – port. arch. pero (Bar., Azur.). Do latim
popular per inde pro inde = part. ant. por ende (por
isso.)

Porque = 1. pop. per quœ, per quod. . Corresponde a
por causa de, para que, ao que.

Pois = 1. post.

Que = 1. que (quod).

Quando = l. quando.412

Tambem = l. vulgar tam benè.

Si (se) = l. si.

Fórmas populares archaicas – aque = eis que, l. ecce
(Ined. d’Alc.), sed (= lat. sed) - sed mays beenzen (In. de
Alc.
); nega (excepto, senão); sicaes (si quà, si casù) =
si acaso; – sicaes não foi morto (G. Vicente), , arch.
quá, car = porque (lned. d’Alc., Nob. D. Pedro, F. de
Thomar, etc.), que corresponde o latim quare; er =
tambem; manja (= neja), que se junta ao pronome pessoal
ainda hoje na linguagem do povo em Portugal, nanja
eu
, e que era frequente no Sec. XVI – nas fórmas nanjeu
nenjeu; pero, emperol, perol
– porém, ende (pg.), etc.

IV – Da interjeição

1. – As instinctivas ou naturaes (ai, hui…) e onomatopicas
(bum, traz, psiu), ainda mesmo as formadas pelo
reforço similar (zás trás, bum bum, tim tim, zum zum,
babau, grogoió
), não teem etimologia.

2. – As convencionaes tiram origem em substantivos,
adjectivos, verbos e adverbios, que bem espelhem a
emoção de que nos achamos possuidos, que represente
a synthese da proposição, e seja verdadeiro echo dos
nossos sentimentos naturaes (pag. 114, 22.)

3. – Apage e sus são de origem latina (l. apage =
άπαγε; adv. lat. sus)

Ay Deus ! ay tu ! ay me ! ave Maria !… são vestigios
do vocativo latino.

Arre e oxo originam-se do arabe: a 1ª de arrie =
caminha; a 2ª de eux. – Alah = praza a Allah 1322. Apre é
413corrupção de arre; e tambem ipra, irra muitos usados no
Sec. XVI.

4. – Fórmas archaicas, e antiquadas: – huhá (G. Vic.)
= cast. Huiha, hufá; hio = l. io (G. Vic.); ipra = apre
bofá = bofé, aramá eramá ieramá = em hora má, (id.),
muitieramá = muito em hora má, appello eu; vae-te a
reque
(corrupção do vade retro); maocha (em má hora),
horasus (hora sus, hoje diz-se – ora vamos ! para calar),
(estae), i. e. cala-te ! pára ! detem-te !: – Ta, Pedro,
embainha a espada
(Vieira Serm. XV, 7.), hou lá = holá,
mal peccado (de pezar: hoje ainda se diz – por meus
peccados
); guai (de pesar, sentimento) é forma vulgar de
ai, posto se encontre em Souza e outros. Que era expressão
de ignorancia popular provam os seguintes versos
de Gil Vic.:

Andava elle namorado
e por, má hora, dizer ai
dizia-lhe guai,
e por dizer-lhe minha senhora
chamava-lhe minha sinoga.

A precativa aqui d’El-Rei, e não ai ! que é d’El-Rei,
ou ak d’El-Rei, é essencialmente de formação portugueza 1323414

Vigesima nona lição
Da syntaxe em geral…

Da syntaxe em geral – Breves noções sobre a
estructura oracional do latim popular e do
latim culto. – Typos syntacticos divergentes
na lingua portugueza.

1 – Syntaxe é a parte da grammatica que ensina a
concordancia das palavras e orações; a boa eollucação
das palavras na proposição, e das proposições na phrase;
a correcção dos complementos.

Divide-se pois em syntaxe de palavras e de proposições;
é de concordancia quando rege palavras; de subordiuação,
regimen
ou de complemento, quando rege palavras ou os
membros de phrase subordinadas.

A concordancia das palavras e sua dependencia são
expressas no latim (e grego) pelos casos: em portuguez
por preposições e conjuncções. E’ esta a principal differença
entre as syntaxes do latim classico, do latim popular e
das linguas romanas; caracter ou differença que tambem se
apresenta na união das proposições do infinito e participio.

Para escrever-se de fundamento a historia de uma
lingua, ha-se-de mister conhecer a codificação das doutrinas
relativas á construcção, a syntaxe historica. 1324415

2 – E’ grande a differença da estructura oracional do
latim popular e do latim culto, e o facto explica-se historicamente.
No seculo V a. C. operava-se a evolução linguistica,
quando escriptores e traductores fizeram retroceder
e lingua a fórmas já então refugadas, ou introduziram
directamente grande numero de hellenismos. Os escriptores
que se lhes seguiram imitaram-os, e ao passo que a
lingua fallada seguia a sua marcha analytica, o latim classico
sustava a sua evolucão natural com a lingua escripta.

D’ahi o grapharem lettras, que não mais soavam na
pronuncia; d’ahi a linha divisoria estreme entre a lingua
escripta e a fallada, entre o latim classico e o popular, na
phonetica, no lexico, nas flexões, na syntaxe.

Com a quéda do Imperio romano, sobreveiu a destruição
da cultura litteraria, e consequentemente o predominio
da lingua vulgar. A lingua fallada era o latim vulgar,
pedestre,
castreuse, barbaro, e medieval, baixo; a lingua
classica de Cicero ou da Biblia de S. Jeronymo só era,
comprehendida pelo raros eruditos dessa época.

A principal differença na estructura oracional é pois a
tendencia cada vez mais caracterisada do latim popular
para o analytismo (ordem directa). A quéda e o enfraquecimento
das lettras finaes (ama p. amat, vivon p. vivunt,
lupo
p. lupus, poplo p. populus, templo p. templum,
etc…, e o descuramento das flexões nominaes e
verbaes, a tendencia do povo emfim para simplificar as
fòrmas e construcções, produziram essas alterações phoneticas
e grammaticais que constituem a differença essencial
entre o latim classico e o vulgar (e consequentemente
as linguas romanas), e originaram a necessidade das palavras
auxiliares (verbos, preposições e conjuncções) para
a necessaria clareza e precisão da linguagem. Ex.: – Caput
de aquilla, genera de ulmo
(Plinio), de Cœsare satis
dictum habeo; Romani Sales salsiorìs sunt quam illi Atticorum

(Cic.); Urbem quam parte captam, p rte dirutam
416habet (T. Livio), cum illum, ad tibi; Episcopi de regna
nostra; In presentia de judices, donabo ad conjux; templun
de marmore
(Virg.), restituit ad parentes (T. Livio);
amatum habui, copias quas habebat paratas, habiam etiam
dicere, habeo convenire
(Cic.), Romani sales salsiores
sunt quam illi Atliconem
(Cic.) 1325

Torna-se mais frequente o uso dos pronomes junto aos
verbos (il dedit, salvarai eo); o emprego abusivo do
anxiliar esse, como a obliterar a fórma passiva (est concessum
p. conceditur;esse donatum p. donari, etc.)

Com o prevalecer da ordem analytica, diminuem as
regras de concordancia. Mas a lingua latina culta de Cicero
já trazia em si esses germens da nossa construcção;
Quintiliano já reconhecia um modo natural e mais oratorio
do arranjo dos vocabulos; Plinio, commentando Virgilio,
para tornar mais claras certas passagens, põe-nas em ordem
analytica, indicando a modificação pelas palavras – ordo
est
. 2326

3. – Typos syntacticos divergentes. – Dàcse esta denominação
ás bifurcações syntaxicas, aos diversos modos
– mas analogos – de construcção, regencia e concordancia.

a) De construcção. –O portuguez, posto que lingua
analytica, mais conservou que as outras linguas romanas
a liberdade no arranjo syntaxico das palavras, privilegio
da construcão inversativa ou transpositiva.

Recebi hoje tres cartas juntas de V. S.
De V, S., tres cartas juntas recibi hoje.
Hoje recebi de V. S. tres cartas juntas.
Tres cartas de V. S. hoje recebi juntas.
Juntas recebi hoje tres cartas de V. S.

A syntaxe é a mesma em todos esses exemplos; e embora
destituido de flexões nominaes, o portuguez conservou,
417principalmente até–o Sec. XVI, muitas construcções
similares ás latinas, tão livres e variadas, tão ricas e harmoniosas.

O castello de Santarém aos Mouros o tolhy
(F. de Santarém.)

… mal as despendendo em custosas uyandas que bem acusar se
temperados foseem, poderiam
(D. Duarte, L. C.)

como a todos os triste acaece
(R. Rib.)

mays en pero direi vos huã ren
(C. Vat.)

descobril-a-ha a primeira vossa frota
(Camões.)

embarçação que o leve ás náos lhe pede
(Id.)

Em Centa indo D. Affonso atraz de um mouro
(M. Bern.)

b) De concordancia. – Ex. – a maioria dos homens
entende ou entendem; estamos convicto
ou convictos; o
primeiro e quarto rei
ou reis, etc.

c) De regencia. – São estes os typos syntacticos divergentes
de mais subida importancia:

Morrer a fome, morrer de fome
mandou ler, mandou que lesse
me, a mim
começar a escrever ou de escrever
pegar de penna ou na penna
arrancar a espada ou da espada
até casa, até a casa, até á casa
apaixonado pelas cousas da patria (R. L.) ou das
O seu amor ás almas (M. Bern .) ou pelas, para com
depos sua morte (Sec. XIV, S. Eufr.), ou depois de
que os frades huns outros sejam obediyntes (R. de S. B.) – uns aos outros
alçado por Rei em Portugal, alçado em Rei de Portugal (F. Lopes).

São varias as causas das bifurcações sintaxicas:

a) Typos similares originarios – igual a, igual de.

b) Synonymia de preposições: – cercado por, cercado
de.

c) Extensão crescente do infinito impessoal: – começou
fazer, de fazer, a fazer
.418

d) Vestigios da voz media: – comerum-se-a, comerum-s’silo
(Sec. XII); affirmar que, se affirmar que; morrer
morrer-se
(B. Rib), cahir cahir-se, etc.

e) Acção verbal dupla: – fallou todo, fallou de tudo.

f) Influencia estrangeira: – moro a rua de –, mora na
rua
.

g) Euphonia: – alçar por Reì, – em Rei.

k) Influencia articular e pronominal: – o que aconteceu,
que aconteceu
.

i) Elipse: – após elle, – d’elle.

j) Influencia da declinação organica: –… en cas sa
madre
(C. Vat.), em cas de sa madre; quem vos ouve,
mim ouve
(Sec. XIII), a mim ouve, ouve – me. 1327

r) Equivalencia de formas verbaes: – andar buscando,
a buscar; ser vindo (Sec. XIV) sem vir; em sendo,
sendo
.

1) Invariabilidade do participio passado: – regadas
tinha
(as flores), Cam., regado tinha.

m) Tendencia analytica: – dizem ser, dizem que é.

n) Mudança de categoria grammatical: – desde Março
meado
(Sec. XIV), desde o meado de Março.

o) Emphase: – de como o cavelleiro (R. Rib.)419

Trigesima lição
Syntaxe da proposição simples…

Syntaxe da proposição simples. – Especies de
proposição simples quanto á fórma e significação.
– Dos membros da proposição simples. 1328

1 – O proposição ou periodo grammatical divide-se em
simples e composto. 2329

2 – E’ simples quando contem uma unica affirmação.

A proposição compõe-se de termos essenciaes (sujeito
e predicado) e de termos accessorios, elementos syntaxicos
modificadores ou determinadores dos essenciaes.

3 – Aos termos modificadores do sujeito (adjectivo e
palavra ou expressão adjectiva) dá-se o nome de attributos;
aos do predicado objecto e complemento adverbial, conforme
são representados pelo substantivo, palavra ou expressão
de natureza substantiva, ou ainda pelo adverbio, e palavra
ou expressão adverbiada.

4 – O objecto põde ser directo ou indirecto, conforme
modifica immediatamente ou mediatamente o sentido do
predicado, i. e., sem ou com preposição: Deus recompensa
os justos; elle matou-se;… vivo do trabalho, preciso de ti…420

Em alguns casos, porém, o objecto directo é precedido de
preposição: – amo a Deus, arrancam das espadas (Vide
lição).

As variações pronominaes – me te se lhe nos vos lhes,
Empregam-se sem preposição quando exercem as funcções
de objecto indirecto, porque já a incluem em si e conservam
“a força synthetita dos dativos latinos”.

5. – O complemento adverbial não é necessario para o
perfeito sentido do elemento que elle modifica, e póde ser
substituido por outro termo accessorio: – comprei ha dias
um bom livro; elle escreve correctamente, elle escreve com
correcção.

6. – O sujeito é expresso por um substantivo, ou por
outra palavra ou expressão substantivada; o predicado é
representado simplesmente pelo verbo de predicação completa
(intransitivo) 1330 ou pelo de predicação incompleta
(transitivo), mas neste caso tambem pelos seus termos modificadores.

7. – Quanto á fórma, as proposições dividem-se em
completas e incompletas ou ellipticas.

Sob o ponto de vista da significação, em expositivas,
interrogativas, imperativas, optativas
.

Sob o da logica, em principaes e subordinadas.

8. – As relações, pois, das palavras na proposição simples
são – subjectivas, adjectivas (predicativas, attributivas,
objectivas
), adverbiais.421

Trigesima primeira lição
Syntaxe de proposições compostas…

Syntaxe de proposições compostas ou do periodo
composto – Coordenações – Subordinação
– Classificação das proposições.

1. – Proposição composta é a formada pela reunião de
duas ou mais proposições simples.

2 . – Essas proposições podem ettar em relação de coordenacão
ou de subordinação.

3. – No 1° caso estão as proposições, que, de igual categoria
intellectual ou força significativa, e por meio de simples
juxtaposição ou de conj. connectivas, concorrerem
para a formação do periodo composto: – o homem pensa,
falla e ri
. Neste exemplo ha tres proposições simples: as
primeiras estão ligadas intellectualmente; a terceira pela
conjuncção e.

4. – As proposições que concorrem para a formação de
uma proposição composta coordenada são sempre principaes.

5. – As coordenadas dividem-se – quanto á natureza
dos seus connectivos – em copulativas, adversativas, disjunctivas,
conclusivas
.

6. – As proposições coordenadas por mera justaposição
chamam-se asyndeticas; as ligadas por conjuncções connectivas
(e, mas, ou, logo, etc) syndeticas.

6. – Proposição composta por subordinação é aquella que
determina um dos seus termos, ou serve-lhe de complemento,
422tornando o sentido das orações simples dependente
do sentido das outras, e a elle subordinado.

7. – As proposições compostas por subordinação
podem ligar-se em relação puramente grammatical.

8. – A categoria das subordinadas depende da contextura
do periodo.

9. – Quanto ao connectivo, classificam-se as subordinadas
em conjunccionaes e relativas, conforme for elle
uma conjuncção, adjectivo ou pronome relativo.

10. – Com referencia á natureza, dividem-se em substantivas,
adjectivas
e adverbiaes, conforme representam
uma dessas tres categorias grammaticaes.

11. – Quanto á funcção, podem ser subjectivas, objectivas,
attributivas
, ou adverbiaes, conforme preenchem as
funcções de sujeito, objecto, attributo ou adjuncto adverbial.

Ex. – Noticiaram que elle morreu (i. e. a sua morte);
a mulher de pudor (i. e. a mulher pudica, pudenda, pudibunda);
chegou depois que sahimos (circumst. de tempo
= depois da nossa sahida).

As subordinadas adverbiaes podem exprimir diversas
circumstancias, de tempo, fim, logar, causa, consequencia,
comparação, conclusão
.

12. – As proposições subordinadas ainda são classificadas
por alguns grammaticos em completivas (que encerram
um complemento essencial para o sentido de
outra proposição); incidentes (as que se unem ao sujeito
ou attributo de uma outra proposição por um pronome
relativo, e podem ser explicativas ou terminativas); circumstanciaes
(as que exprimem circumstancia complementar
do sentido de outra proposição – de tempo modo, causa,
etc).423

Trigesima segunda lição
Regras de syntaxe relativas a cada um dos
membros da proposição

1. – Sugeito – O sugeito de uma proposição póde
ser expresso por um substantivo, pronome, por outra
qualquer palavra substantivada, ou ainda por uma outra
oração.

2. – Em regra, o verbo concorda com o sujeito em
numero e pessoa.

Com os collectivos o verbo emprega-se no singular: –
o exercito arabe não respirava de combates contra os
Godos.

Mas si o collectivo for partitivo e vier seguido de um
determinativo no plural, o verbo irá para o plural; - a
maior parte dos martyres subscreveram com o sangue o
testemunho de Christo.

Esta regra tem excepções, e no latim havia a mesma
liberdade: a maioria dos deputados votou contra o projecto.
(Vide lição 35)..

Quando os sujeitos são de pessoas differentes o verbo
vae para o plural e concorda com a que tem prioridade:
– Tu e o medico sois dos malandrinos; vós e eu temos o amor
da liberdade por invencivel como a morte.

Si o sujeito fôr expresso por palavras synonymas, ou
representantes de uma mesma idéa (paesso ou eousa), o
verbo (é claro) conserva-se no sing .: = Era um velho,
424a quem o tropego, o quasi morto dos membros, embargava
o caminhar
:

Estas e outras regras de concordancia já são muito
eommuns para que nellas nos demoremos.

Logar do sujeito – Desde os primeiros documentos que
regularmente se encontra o sujeito no principio da phrase;
mas numerossimos são os exemplos em contrario: – hum
ral home sey eu, tenho eu, vou eu
(c. vt.), se me a razão
tu dizes
(R. S. Bento); Haverá paz no tumulo ? Pára
o que ahi repousa
, sei eu que há na terra o esquecimento !
(A. Herc.), Sonhou um homem que via um ovo atado
na ponta do lençol
(M. Bern.)

A inversão do sujeito é ás vezes rigorosamente prescripta:

a) Nas orações incidentes, e com os verbos accrescentar,
contar, referir, perguntar, desejar, dizer, cuidar
, etc.

Perguntando certo sujeito a um guarda portão se seu amo estava
em casa, respondeu-lhe; – Não senhor. – Bem, acrescentou o outro
mas a que horas voltará ? – Não sei, replicou o malicioso criado,
quando meu amo manda dizer que não está em casa, ninguem póde
saber a que horas valtará.
(M. Bern. Hor.)

b) Quando a phrase começa por um atributo, regimen
directo ou circumstancial, adverbio ou conjuncção; e a
inversão era mais frequente no portugez antigo: – o maior
e mais certo motivo de ser amado
, é anticipar o seu amor
(Vieira), si a tanto me ajudar o engenho e arte (Cam.);
agora tu, Calliope, me ensina; onde nos estreitava cada vez
mais altiva oppressão
(L. Coelho).

No portuguez moderno é ampla a liberdade inversativa
quando a proposição começa por d’ahi, talvez, apenas

c) – Com os verbos no Imperativo, que só por emphase
se emprega claro quando é pronome: – daoede-vos por
mesura
(D. Din. Canc.); nembre – vos que eu sô o vosso
Rei almofacem
(Liv. Linh.); si queres que eu te ouça.
ouve-me tu primeiro.425

Ex. emphatico = tu mesmo faze isto; tu, que tens
de humano o gesto e o peito, a estas criancinhas
tem respeito
(Cam.).

d) – Com os verbos no subjunctivo, quando se supprime
a conjuncção: – quizesse elle, queira Deus, dissera o dono
do campo a seus criados
.…

Diz-se, porem, – Deus queira, Deus me livre. etc.

e) – Nas fórmas do Infinito, principalmente regido de preposição:
de mandar os criados e fazer-se a obra vae ainda
muito tempo. – Para m’irdes de estorvar, de mi fazerdes
mal ou bem
. (D . Din. Canc.), sem lhe lembrar casa nem
fazenda
(J. de Barros), por vos servir a tudo apparelhados
(Cam.).

f) Nas proposições completivas começando por que.
Era a inversão mais usada até o Sec. XVI.

g) – Nas proposições adverbiaes indicando circumstancia
de logar ou de tempo. No segundo caso é frequente
a deslocação inclitica:

por si el Rey achar em Tavilla sem dinheiro.
(G. de Rez.)

para acabar onde o ninguem visse.
(B. Rib.)

emquanto lhes o dia todo deu logar.
(F. Mor.)

São muitos, porem, os exemplos contradictorios.

Nas phrases interrogativas a inversão é mais de uso: –
Podermiades vos dizer hu ficou ? (L. Linh.).

Receava-se Mithridades dos toxicos ?

Mas o sujeito antepõe-se ao verbo quando o queremos
pôr em relevo: vós me perguntardes per vossa amada ?
(Cane D. Din.), vós quem sois ? (vos qui estis ?), eu faria
tal cousa
? (Egon’ isthuc facerem ?).

Phrases exclamativas ou vocativas. – Não ha regra
fixa: – Deus seja louvado ! louvado seja Deus. Mas
quando o sujeito exprime pessoa ou cousa pela qual
426fazemos votos propiciatorios, dá-se sempre a inversão: –
Viva a nação brazileira !

2 Verbo. – No latim o verbo, em regra, era final; mas
no da decadencia occupava muitas vezes o logar médio. Já
nos referimos ao facto do analytismo.

O portuguez adoptou a fórma analytica,

quando me mays forçava seu amor
(C. Vat.)

que nom queria bem outra molher senom mi
(Id.)

e se hum meenfestar esse prendam por enmigo e daquelles que
forom negos prendam outro
(F. da Guarda.)

quem me a vos levou tão longe
(B. Rib.)

Mas exemplos do verbo final são abundantes nos primeiros
documentos (Se. XIII a XVI):

cunucunda cousa seja (Sc. XIII)
(F. P.Rib. Diss .)

e nos de suso ditus en esta carta revoramus (Sec. XIII)
(Id.)

Aquel que casa fezer, ou vinha ou sa herdade onrrar
(F. da Guarda.)

incommende a nos ajudoyro ministrar
(R. de S. Bmto.)

do peccado da luxuria brevemente fallando
(D. Duarte, L.Cons.)

que já remediar hem nom pode
(Id.)

que chorando vossa mãi nasceis
(B. Rib.)

como a todos os tristes acaece
(Id.)

Nos tempos compostos, é o auxiliar, considerado verbo
da oração, que occupa o logar médio: – e fuy com gram
coyta dizer
(C. Vat.).

O participio póde ser inicial ou final: – abusado já tens,
já tens abusado
(V. lição 36).

3 – Regimes . – Os regimens podem ser directos ou
indirectos.427

a) Regimen directo. A construcção varia nos antigos
textos portuguezes: em latim quasi sempre o regimen directo
vem antes do verbo, de accôrdo com o uso das
linguas syntheticas.

Notemos as seguintes construcções:

1.° Regimen, verbo, sujeito: – Nos seus olhos via
eu

2.° Regimen, sujeito, verbo: – alguns mezes antes de
se partir
.

3.° Sujeito, regimen, verbo: – eu com carinho te
obrigo
. Mais frequente nas proposições relativas.

4.° Verbo, sujeito, regimen: – manda Theobaldo uma
carta
.

5.° Verbo, regimen, sujeito: – recebeu-o elle.

Estas ultimas construcções eram mais frequentes nas proposições
começantes por um adverbio ou complemento circumstancial, que
obrigava a inversão do sujeito. Depois da perda dos casos tenderam a
desapparecer porque traziam equivoco.

O pronome regimen tende sempre a aproximar-se do
verbo de modo a receber a sua acção mais directamente
que os outros elementos da proposição.

Em latim os pronomes procliticos me, te, se, collocavam-se
muitas vezes immediatamente antes do verbo; e o
mesmo acontecia no portuguez antigo. 1331

b) Regimen indirecto. – Estes regimens podem ser pronomes,
substantivos, infinitos, e nesta distincção cumpre
attentar quando se estuda o seu logar na phrase.

O regimen indirecto pronome depende do logar que
occupam as fórmas atonas do pronome; quanto ás tonicas,
seguem em geral a regra dos substantivos (V. licção 40.)
O regimen indirecto substantivo podia vir em qualquer
logar na phrase: tendeu, porem, sempre para collocar-se
428depois do verbo, quer immediatamente, quer após o
regimen directo. Muitos exemplos ainda lembram a antiga
liberdade; mas a regra começa a firmar-se.

O regimen indirecto infinito segue a mesma regrra do
substantivo, e desde os primeiros documentos que regularmente
o encontramos depois do verbo.

4. – Complementos. – Era immensa a liberdade, e
ainda hoje nos não repugna a inversão. No portuguez
antigo o complemento circumstancial vinha principalmente
no principio, prendendo assim o espirito do leitor ás circumstancias
antes de enunciar a acção.429

Trigesima terceira lição
Regras de syntaxe relativas ao substantivo
e ao adjectivo

a) Substantivo

1. – O substantivo em geral precede o adjectivo;
póde dar-se porém a inversão, excepto em certos casos
consagrados pelo uso, em que ella é inadmissivel,
ou muda totalmente o sentido do adj. epitheto: – codigo
civil, mão direita
máo signal e signal máo, novos
homens
e homens novos.

2. – Já nos referimos á mudança de significação conforme
muda o subst. de genero ou de numero: – madeiro
madeira, honra honras
(V. Lição).

3. – A construcção dos nomes concretos no plural
concordando com adjectivos ou substantivos (apposição)
no sing., não é para ser condemnada por estulta. Herdamo-la
do latim, temos fiança nos classicos portuguezes:
Arationes Campana et Leontina (Cic.), quantum et
duoetricesimum legiones
(T. L.). A phrase pois – as
grammaticas portugueza e franceza
, é tão correcta como
a – o quarto e quinto Affonso (Cam.)

4. – Os grammaticos condemnam erradamente a flexão
do plural dos nomes qnc exprimem producções naturaes,
dos antigos elementos, dos de virtudes e vicios. Mas
deve-se dizer – aguas de Caxambú, de Vichy, … (aquae
Sextiae
diziam os Latinos): aguas no sentido de enxurradas,
430correntes d’agua, mar, vislumbre; fogos no sentido
figurado, com referencia aos que se accendem para signaes
e aos chammados de artificio, etc., ou ainda com significação
de casas, chammas fugidias produzidas pelas emanações
do gaz hydrogeneo phosphorado, que tambem se
levantam nos logares paludosos, cemiterios, etc, (fogos
errantes, fátuos
); Ares p. clima, vento, patria, apparencia;
as novas ilhas vendo e os novos ares (Cam.), mal
cobertos contra os
agudos ares que assopravam; ares
patrios, de familia, de fadista; estranhar os ares. Suores,
tambem é de uso vulgar, e já o era tambem em latim: –
passar suores de morte (Luc.), estar em suores frios. –
Urinas, id., cereaes, etc., (V. Lição 14ª.)

Lat. – aconita, fabae, viciae, vites, sulphura, aranae, etc.

5 – Tambem teem plural, e não devem os grammaticos
regeital-o, os nomes designativos dos phenomenos metereologicos;
as chuvas, os ardores do estio, os rigores do
inverno, as trovoadas de verão, os ventos do sul
.

6. – Em latim os nomes abstractos eram empregados
no plural; e no portuguez antigo o uso era mais frequente
que hodiernamente: – esperanças, tres constancias. Como
que augmenta o gráo do sentimento ou faculdade. Outras
vezes exprime vicissitudes, alternativas e revezes, os lavores
do mundo, emfim, e as voltas da fortuna: – fami1iaridades,
amisades, temores, tristezas
. (V. Lição 14ª).

Além da tradição, temos para justificar esses pluraes,
a relação existente entre os nomes abstractos e concretos,
de regra muito incerta; o serem concresciveis os abstractos
(santidades, beatices, industriaes…, delicias, amores, saudades,
affectos…) etc; a convenção, que manda se diga
no plural – invenções, cogitações, etc.

Os collectivos teem plural em portuguez, e o seu emprego nas linguas
romanas é muito mais lato que no latim, principalmente na linguagem
classica: – exercitos, povos, gentes
431

O adjectivo em relação correlativa com um subs. collectivo
ou partitivo, vae ás vezes para o plural, construcção
esta mais geral no portuguez antigo, e o verbo tambem ia
para o plural: – gente cega nem os estimo nem me vão
movendo (Ferr.); começou a quebrantar o povo com diversos
gravames, tirando-lhes as forças para melhor os
dominar
, timidos e sujeitos; Logo todo o restante se partiu
da Lusitania
postos em fugida.

8. – O subs. apposto concorda com o principal em
genero e numero: – as musas, irmãs de Apollo; Atilla, o
flagello de Deus
.

O subst. fem. empregado epitheticamente em referencia
a um subst. masc. toma o genero deste na linguagem
vulgar: – és um besta, um trouxa, um banana, um bolas,
um maricas
, …

9 – O subst. póde substituir o adj.: – Sideris orasiderea,
e outras expressões como esta eram raras no
lat. classico; mas na lingua popular eram frequentes as
excepções, e por fim constituiram a regra: – poculum
aureum
, it bicchier d’oro, hesp., port. vaso de ouro.

E só empregamos o adj. em poesia, estylo elevado: –
licor aureo, estylo aureo, argenteas conchinhas, brônzea
cor, ferreo somno
, etc…

Dizemos, porém – aguas ferreas.

10 – Quando o nome qualificador é nome de cousa
inanimada, póde differir de genero e numero: – Tito, as
delicias
do genero humano.

11 – Apposição. – O nome commum de uma cousa,
quando tem por apposição a palavra que a distingue das
cousas semelhantes, vem unida a ella, em regra, pela preposição
de, que é puro expletivo (= que é, que se chama):
a cidade do Rio de Janeiro, o mez de Setembro.

E o povo diz - o drama da Morte moral, a comedia
da Torre em concurso.432

Os nomes monte e lago raro se empregam com a preposição
de. Este, só quando tem por complemento um nome
de cidade (lago de Genebra.)

Na linguagem vulgar diz-se: uma peste de mulher., um
diabo
de homem, o tratante do Joaquim.

Nestas phrases compostas por apposição ha uma especie
de ellipse.

O latim dizia simplesmente – ur bs Roma, Ciceronis
opera
. 1332

6) Do adjectivo

11 – O adjectivo concorda com o seu substantivo em
genero e numero: um bom livro. Empregado como attributo,
concorda tambem com o sujeito em genero e numero:
Deus é justo, etc.

12 – Muitos adjectivos no singular podem acompanhar
um nome, que cada um delles qualifica separadamente: –
as linguas franceza, ingleza, allemã.

Si o subst. está no sing. é mais correcto o emprego
repetido do artigo: – a lingua franceza, a ingleza e a
allemã.

Diz-se tambem: o 3°, 4° e 5° Seculos (ou o .3°, o 4 e o
5° Seculo
.)

13. – Quando o adjectivo refere-se a muitos nomes do
mesmo genero, vae para o plural desse genero; si os
substantivos forem de generos differentes, o adjectivo vae
para o plural do genero do ultimo, ou melhor para o
masculino.433

14. – Alguns comparativos e superlativos latinos passaram
para o portuguez sem a sua força gradativa: –
interior, exterior, intimo, extremo.

Os superlativos absolutos podem ser empregados substantivadamente,
e, á maneira da syntaxe latina, por superlativos
relativos: – O optimo de todos, o sapientissimo do
Instituto
. A 1ª construcção deve ser reprovada.

15. – Quando a comparação refere-se unicamente a
dous objectos, o latim emprega o comparativo: = minor
fratrum. As linguas romanas apartaram-se desta regra
sempre que o adjectivo vinha acompanhado forçosamente
do demonstrativo o (artigo), porque d’ahi resultaria a gradação
do superlativo: Cp. – terás louvores de mais sisudo
critico
; o mais novo dos dous irmãos (fr. le plus jeune des
deux frères
, ital. il piu giovane de due fratelli.)

16. – Depois dos relativos quão quanto. O superlativo
latino, que exprimia o mais alto gráo da possibilidade
(quam celerrime potuit), é representado em portuguez
pelo comparativo: – quanto mais depressa possivel. E o
mesmo dá-se no ital., fr. hesp., valachio.

B. lat. – quam citius poterit
quandocumque ego citius potuero

Emprega-se tambem o comparativo depois de outros
relativos (quando, onde, etc), e de certos verbos: – quando
o sol mais formoso se mostrou
(pulcherrime); depois do
pronome relativo: O filho que eu mais amava.

B. lat. – faciat exinde quidquid melius elegant.

17 – E’ frequente o emprego de muito com subst. (era
mui noute
, é muito verdade); e quando concorrem dous
subst. em relação attributiva, referindo-se a um unico
sujeito, indica-se a preeminencia de um sobre o outro por
meio da particula comparativa: – és mais philologo do
que X; és tão poeta como Z
:434

18 – Com os verbos ficar, ir, estar, parecer, etc., usa-se
do demonstr. o em vez de outro adjectivo tomado attributivamente:
Não fora Christo o que era, nem a esposa o que
devêra ser
(Vieira); ao feio nem por serem o deixam de ser
estimaveis se tem virtudes
(Lobo.)

Este o = ello (illud), e nao se deve confundir com o adj. art.

19 – O adjectivo que faz as vezes de adverbio é sempre
invariavel. E’ erro dizer-se: – a porta está meia
abeta p. meio aberta. No 1° caso sign. que a metade da
porta está aberta; no 2° que a porta está algum tanto
aberta. E assim devemos dizer: casas meio queimadas, etc.

O emprego dos adjectivos na fôrma masc. com força
adverbial data do Sec. XVI; no periodo ante classico
empregavam os adverbios em mente.

20 – Quando um substantivo refere-se a outro de genero
differente, o adjectivo concorda com o 2° – Cleopatra,
aquelle typo de belleza.

Os escriptores antigos faziam-no concordar com o primeiro
substantivo, e o povo ainda diz: – J. é um zebra,
um besta

21 – Nos adjectivos compostos por juxtaposição, só
o ultimo elemento toma flexão de plural: escola medico­cirurgica,
guerra franco-prussiana
.

22 – Os possessivos empregam-se geralmente antes
dos substantivos. Dá-se, porém, a inversão quando o
substantivo é precedido de um indefinito ou de demonstrativo:
alguns livros seus, um parente meu.

O possessivo era geralmente precedido do artigo:
o meu amigo; seja feita a tua vontade. Esta fórma é
hoje a mais usual, menos antes dos nomes de parentesco,
quando não se segue o nome proprio ou epitheto: – meu
pai: minha querida filha
.

O emprego do pron. pessoal pelo possessivo era raro
no latim, e considerado hellenismo; na linguagem archaica
435portugueza encontram-se alguns exemplos desta substituição,
hoje de todo condemnada:- senhor de mi; la
moller de mi
(G. Vic.), etc. No hesp. era esse emprego de
frequente uso (el cuerpo de mi), e bem assim no italiano e
no francez (un ami à moi).

Mas si o sujeito acha-se em relação de dependencia,
emprega-se o gen. do pessoal: – parte de mim = lat. pars
mei, por amor de ti
.

O dativo do pron. pessoal – quando se acha dependente
de um verbo – pode fazer as vezes do possessivo: –
si não me fosseis amigo, vejo-te o coração triste, quebrei-lhe
a cabeça
. Em lat. empregava-se o adj. mihi tibi, etc.

O possessivo pleonastico, consiste no emprego claro do
possuidor: - os seus feitos delle; dos Santos não me mato
em seus louvores
(S. de Mir.)

E’ o possessivo que fórma o pleonasmo.

O possessivo periphrastico fórma-se com os verbos ter e
haver (Com a sede que tenho de vingança, eq. a com a minha
sêde
). B. lat.: – de filio vestro quem habetis.

23. – Os demonstrativos este aquelle são ás vezes
substituidos pelo pronome o, o que bem indica a sua etymologia;
o demonstrativo articular faz tambem as vezes de
determinativo relativo:

Os grandes feitos que os Portuguezes obraram neste dia o Oriente
os diga. (Frei. Castr. II, 154).

Leis em favor dos reis se estabelecem,
as em favor do povo só perecem (Carn.)

24 – E a mesma propriedade teem os possessivos e os
demonstrativos: – Olha-me aqquelle assobiar (G. Vic.);
mandou Lopo Soares que neste ìr e vìr aos comprar andasse
sómente nm largantim
. (Bar. Dec. I.).

O demonstrativo concorda, como em latim, com o substantivo
que serve de attributo: – esta é a verdade. Mas si
o pronome refere-se a um enunciado anterior, em relação
436com um substantivo abstracto, por intermedio do verbo
ser, emprega-se a fórma neutra: – ìsto é verdade.

Os demonstrativos conservaram a relação latina.
Quanto á de hic e ille, deve-se observar: 1°, que se empregam
sem attenção á distancia mais proxima ou remota
do objecto grammatical, como se dava em latim; 2°, que
ambos a par, representam dous objectos indeterminados,
independentemente da idéa de proximidade ou afastamento:
esta e aquella parte; estes o gabam, aquelles o deprimem
(uns… outros…)

Os dous pronomes podem tambem referir-se (em iinguagem
vulgar) a uma unica idéa: – este é aquelle de
quem vos tenho fallado
. – Este modo de dizer é commum
ás outras linguas romanas: – cet homme est celui: ques l’è
coleî chè, este e aquello de quiem
.…, esto és accelo que, …
Lat. – hic est ille senex, cui verba data sunt.

Tem o portuguez um outro modo de exprimir o demonstrativo
iste; que é empregando aquelle ou simplesmente
o, a (ille): – direi sómente o em que pararam estas
coisas
(F. Mend.), determìnou de effectuar o para que alli
era vindo
.

Em latim is não podia substituir um subst. precedente,
porque bastava a relação de genitivo: – amîcitiae nomem
tollitur, propinqualis manet
; mas no latim vulgar da media
idade dizia-se – de vinea S. Eulalia ei de illa de S. Justi. 1333

O vulgo costuma antepôr o determinativo o ao demonstrativo
aquelle, para indicar pessoa de cujo nome não se
lembra (o aquelle), e do Sec. XV temos uma composição
identica, que é a expressão elle esse: –Bom jamvaz lhe
seria
elle esse (J . F . Eufros.).

25 – Quem transforma-se em o qual quando precedido
da conj. sem, simplesmente por euphonia; Esta transferencia
data propriamente do Sec. XVII ou declinar do
437XVI: esposo sem quem não quiz amor, escreveu Camões
(Lus. IV, 91).

Cujo, gozava no portuguez da propriedade de ser interrogativo,
como em latim: – cujas sam estas ricas armas ?
(Barr. Chron.1. Cl.) – V. pg.

Que emprega-se interrogativamente com ou sem artigo
conforme o sentido; Cp. – Que queres ? que lirros são
estes
? O que é grammatica ?

26 – Quanto aos indefinitos pouco mais temos a acrescentar
ao que dissemos na pag. Cp. – pessoa alguma,
homem, um (Sec. XIII), gente (= pron. se), etc.

37. – O emprego dos ordinnaes pelos cardeaes data
das primeiras epocas da lingua, e tornou-se mais frequente
no portuguez dos Secs. XV e XVI: – capitulo vinte, seculo
doze
, etc.

38. – As vezes emprega-se o adjectivo no plural para
exprimir a idéa substantivada: – superiores, inferiores,
infimos, intimos, nobres, posteros, maiores, menores, mortaes,
meus, teus
, etc.

A pratica já era latina.

39. – O adjectivo com sentido pessoal, tem nas linguas
romanas emprego mais extenso que em latim: –
homo doctus = o douto. O erudito, o sabio, o litterato,
etc.

Em latim, porém, também dizia-se – indocti discant,
sapiens

40. – Si o adjectivo exprime uma idéa abstracta, emprega-se
na fórma masc., correspondente ao neutro, e
sempre precedeu ao artigo: o bello, o sublime, o verdadeiro.
Com a palavra cousa (ant. rem) formam-se periphrasticas
desses neutros.

Artigo

40. – O demonstrativo articular emprega-se para determinar
restrictamente, individualisar, o subst. appelativo,
438proprio, verbal, ou para substantivar qualquer outra
parte do discurso, e ainda phrases, clausulas e sentenças:
o fico de D. Pedro I, o morra e vingue-se de Vieira, etc.

42. – O emprego do artigo é obrigatorio com os nomes
proprios no plural: - os Cesares; mas, como acontecia
em grego com os nomes de pessoas celebres, tambem
se usa delle no sing. para maior distincção do individuo e
que se não confunda com algum homonymo: – o Gama.
No sing., porém, excepto esse caso, é mais de uso o não
emprego do artigo: – Phrynéa, D. João VI, Pasteur, …
porque não ha receio de confusão com outro. Dizemos
o Pacheco, o Abilio, etc… mas é gallecismo, e erro, dizer-se
o Dante, o Christo, o Shakspeare, o Tasso.

E’ porém de rigor o emprego do artigo no sing. quando
o nome proprio tem sentido commum, como acontece
com os primores da estatuaria e pintura, Jupiter de
Phidias, o Christo de Rubens, a Venus de Milo, o Lacoonte
.

E’ tambem de rigor antes das obras primas nas lettras, ensinam
os grammaticos, – a Illiada, os Tamoyos, o Uruguay, o Paraizo
perdido
. Empregamos, porém, o artigo antes de qualquer titulo de
obra a que nos referimos, excepto quando fazemos citação.

43. – Ha nomes communs que regeitam o artigo por
terem sentido muito restricto a um ser ou objecto: – Deus.
Deve-se porém dizer, é claro, – o Deus de Israel, o Deus dos
Christãos
.

44. – O nomes dos dias da semana e dos mezes
empregam-se sem o demonstrativo; mas não assim os
adjectivos numeraes indicando horas (ás 3 horas).

45. – E’ tambem de rigor o demonstrativo antes dos
epithetos, alcunhas ou cognomentos: – o Tiradentes, o
Barba ruiva
; Platão, o dvino; D. Pedro, o justiceivo;
Tasso o louco sublime.

44. – Omitte-se em prop. geral depois da preposição:
está em casa, chegou de Pernambuco. Except. quando
439queremos determinar mais particularmente o logar já conhecido
e de que se trata, e com certos nomes locaes (estou
na casa
, i, e, na que desmoronou-se, etc.), cheguei da
Bahia, da Suissa
, etc. V. pgs.

47 . – Emprega-se com idéas genericas, em sentido
collectivo: – o homem é sujeito ao erro. Era esta a pratica
no grego; no lat. class. dizia-se simplesmente homo,
o popular empregava homo com os demonstrativos ille
ou hic.

Tambem com as idéas abstractas: – a sabedoria, o
odio
.

48. – Emprega-se o artigo quando na locução concorrem
dous substantivos, e o 2° exprime ds modo preciso
o fim do 1°: - o homem do leite (que vende leite), o vidro
do sal
, etc. Este emprego, porèm, é arbitrario, e dizemos
– garrafa de vinho, feira de gado, etc.

49. – Supprime-se o artigo quando o substantivo –
concreto ou abstracto – fórma com o verbo (ter, haver,
estar
, …) uma idéa unica: – ter sede, correr risco, ter
paciencia

Estas locuções, cuja idéa principal está encerrada no
substantivo, podem muitas vezes ser representadas por
um verbo que contenha a mesma idéa: – arriscar-se,
pacientar
.

50. – Omitte-se mais na apposição: – Deus padre,
todo poderoso; Blumenau, colonia allemã no Brasi1
.

Ainda, ás vezes, nas palavras negativas: – viola jamais
cantou feitos heroicos
.

Cp. a viola tambem nos canta amores.

51. – Pode-se empregar o determ. antes dos adj. poss.
e dos infinitos: – a tua mão (V. pg.)

O emprego, porém, é de rigor quando queremos affirmar
ou negar alguma couza com mais emphase ou vehemencia:
este é o meu livro e aquelle o teu; todos vós sois
meus filhos, mas falta-me aqui o
meu filho (Vieira).440

52 . – O artigo é tambem de rigor antes das palavras
senhor, Senhora, excepto quando nos dirigimos a alguem
sem que lhe pronunciemos o nome, titulo ou dignidade.

Mas omitte-se antes de titulos compostos com o gen. –
monsenhor, messer, madama, e tambem antes de Frei e de
Santo, mestre p. sabio, etc.

53. – Depois de todo, deve-se empregar o adj. art.
sempre no plural; no sing. é facultativo o seu emprego,
quando todo indica totalidade.

O ital. e hesp. regeitam o artigo quando representa o
sentido de quisque ou de omnis; no portuguez antigo escrevia-se
todo homem, toda mulher, todo animal, toda pessoa
que crê, todo logar, em toda villa
, etc. Quando todo correspondia
a inteiramente, á cousa em sua generalidade,
supprimia-se o artigo, cujo emprego era de rigor quando
todo se referia somente ao individuo, á totalidade das partes
integrantes: – gastou todo o cabedal, toda a parte, todo
o dia, toda a casa
, etc.

Cp. Todo o homem, todo homem. Neste ultimo caso melhor
é empregar o plural – todos os homens.

Nos classicos modernos o emprego do artigo é arbitrario
(Camillo, L. Coelho, Rab. da Silva, etc).

Para saber o emprego basta poder inverter a phrase sem
mudar de sentido: – todo o mundo = o mundo todo (totus
iste mundus
), todo o homem não é o mesmo que o homem
todo
; etc.

54 . – O artigo é de regra no superlativo relativo (excepto
quando ao adjectivo precedia um pronome): – as
minhas mais bellas illusões
.

Supprime-se geralmente quando o superlativo vem posposto
ao subst. já precedido do artigo ou acompanhado
de possessivo: sua idade mais feliz, seu filho mais velho,
os seus trabalhos mais notaveis
.

Si o subst., porém, vier precedido do indef. um, emprega-se
o artigo.441

55. – Tivemos uma fórma de partitivo até o Sec. XVI,
– empresta-me do azeite (V. Vic). dá-me do pão, etc.
Hoje empregamos as expressões um pouco, algum, etc.

56. – Quanto aos complementos dos adjectivos, só diremos
que alguns adjectivos (ebrio, consciente, pobre,
rico, digno, capaz, avido, cheio, vasio, certo
, etc.), e os
partitivos, unem-se aos seus complementos pela prep. de:
digno de louvores, isento de dissabores, incapaz de humildade,
… o ouro é o primeiro dos metaes, um dos soldados
(um d’entre os soldados; lat. – unus de militibus.)

Os participios formados com a prep. de, conservam-na
quando empregados adjectivamente: – ausentar-se de,
ausente de
.

Temos, porém, construcções divergentes: – fertil
(em, de), ignorante (em, de), rico (em de), suspeito (de, a),
etc.

Tambem é a prep. de a que une o adjectivo ao complemento
indicador da parte, qualidade, defeito, origem:
feio de corpo, mas bontio d’ alma; bem feito de corpo.

57 . – Entre um partitivo e o participio ou adjectivo que
o qualifica, de é expletivo, e não signal de complemento: –
no que elle diz ha alguma cousa de verdadeiro; nada teem
de assentado
.

58. – Outros adjectivos unem-se ao complemento pela
preposição a ou para (igual, prompto, fiel, acostumado,
analogo, anterior, attento, estranho, desagradavel, repugnante,
sensivel, inutil
, etc.)442

Trigesima quarta lição
Regras de syntaxe relativas ao pronome

1. – Pronomes pessoaes. – Os pronomes pessoaes em
relação adverbial vem sempre regidos de preposição depois
do Sec. XIII, (a ti, de ti; para ti).

Migo, tigo, sigo, empregavam-se sem a prep. com até
o Sec. XIV, posto que desde o XIII já concorressem a par
das fórmas pleonasticas comego, comigo, comtego, comtigo,
comsego comsigo: – poys seu mandad’ey migo, e sigo
medes dizia (dizia comsigo mesmo), poys tigo começar fui.

Si, porém, emprega-se sem preposição:

a) Depois da conj. que quando a esta precede um comparativo:
outros mayores que si; peyor que si, a mesma
estrella Venus se mostra maior que si mesma
(Vieira).

b) Depois do adj. outro: – após elle não ha outro si
(e tambem diziam outro mi), este que ahi está he outro si,
etc.

Estas phrases já estão archaisantes, e a construcçã6
moderna é – outro eu, maior que elle…; mas dizemos
superior a si (a mim, a ti), estar em si, sobre si, de si
mesmo
, etc…

No Sec. XVI supprimia-se ás vezes a prep. antes do
pronome: – quem me vos guarda, guarda myn (C. Vat.),
desprezarom mim, m’albergue cabo sy (id.), mim ouve
(R. S. Bento – ouve-me, i. e. a mim).

Em portuguez (hesp., e ital. ás vezes) o caso sujeito
do pronome pessoal, dependente do verbo ser, persiste
443em algumas expressões, que em outras linguas cedeu
espaço ao caso regimen: – fr. c’est moi, ing. it is me,
din. det er mig, all. er ist mir, port. sou eu (és tu, é
elle
), it. sono io .....; io uon sono te, s’io fossi lui, egli
é come me stesso
; fr. je ne suis toi, si j’étais lui…;
eu não sou tu, se eu fosse elle.

2. – Pron. pess. conjunctivo. – Para os dous casos
obliquos (accus. e dat.) as linguas romanas teem duas
fórmas pronominaes, uma absoluta e outra conjunctiva.

Emprega-se a 1ª (que é de rigor quando o pronome
acha-se dependente de preposição) quando se quer dar
realce á idéa pronominal; e consequentemente é nelle
que recahe o acento. Emprega-se a 2ª quando predomina
o accento do verbo. – Parece-me, parece a mim;
digo-vos, digo a vós, dei-lhe, dei a elle
.

Os pronomes conjunctivos só representam relação
objectiva ou predicativa, ainda mesmo com o verbo ser
(eu o sou). O, a, os, as, são verdadeiras fórmas de
accus., como prova o empregó do le no hesp. ant. e lo
no portuguez das primeiras phrases da lingua.

Notemos aqui as confusões da relação entre as fórmos
lhe (illi) e o (illo), ainda nas 1ªs decadas do periodo
classico; e a de ti por tu, etc., entre os quinhentistas
e seiscentistas: – mais forte que ti.

3. – Pronomes de reverencia. – Só empregamos o atuar
entre pessoas da mais estreita privança; o avosar
em discursos e escriptos, e na linguagem familiar em
alguns angulos de S. Paulo e de Portugal 1334

Com o pron. vós o verbo vae para o plural, mas o adjectivo
ou participio segue o genero e numero da pessoa aquem
nos dirigimos: – vois sois bom, boa, bons, estimados, a, os.444

No b. lat. dizia-se, mais de accordo com a restricção
grammatical. – vos estis inhonorati, como no grego modemo
(Grimm.)

Tambem em estylo elevado, na tribuna, na imprensa,
emprega-se nós por eu, ficando o adjectivo no sing. em
relação attributiva ou predicativa: – mestre é sermos
antes
breve que prolixo.

No portuguez são muitos os pronomes de reverencia –
Vossa Mercê, V . S., V. Ex., V. Em., V. Alteza, etc.;
o pronome pessoal correspondente é da 3ª pessoa por isso
dizemos você sabe, V. S. conhece.

Você é contração de vosmecê, f. já contracta de Vossa
Mercê
, como no hesp. usencia, de vuestra reverencia, useñorìa
e usia de vuestra señoria, vosencìa de V.Ex., tambem
já introduzida hoje em Portugal. – Relativamente ao pronome
de reverencia você, vide pg. 92.

4. – Pronome pess. pleonastico. – A’s vezes, posto
venha claro o sujeito, emprega-se pleonasticamente, junto
ao verbo, um pronome da 3ª pessoa em relação subjectiva:
seu pai delle, a mimme pesa, capa não a
tinha, ao doente não se lhe ha de fazer a vontade
(S. Mir.), linguagem daquella terra nam a sabiam (J.
B.), etc.

Destes ultimos exemplos, que consiste no emprego do
pronome conjunctivo em relação objectiva ou predicativa
quando a phrase começa pelo substantivo, – é
abundaute o portuguez moderno.

Este reforço já era usado na baixa latinidade: – ipsam
citatem restauramus eam, ipsas res volemus eas esse
donatas
1335.

As vezes a reduplicação dá mais clareza á expressão ou
mais vivacidade: – Mas se bem attentaes elle só trata de
445se consolar a si (Luc.); os cabellos que os trabalhos do
mundo lhe branquearam
(Bern.); outras, porém, torna
o estylo mais arrastado e é defeito: – Os padres lhe dizem
a elles as coisas da fé (Luc.), etc. Estas ultimas expressões,
que não tinham correspondentes em latim, porque
a funcção de illum era lembrar o regimen afastado, devem
ser rejeitadas.

Em relação adverbial, os nossos pronomes subst. originam um idiotismo
intensivo: – quem me anda a metter-te estas cousas na cabeça ?
Já nos referimos ao emprego do pronome pessoal pelo adjectivo
possessivo: – levou-me o livro, segure-me a braço.

Sobre a collocação dos pron. pessoaes vide lição 40:

5 – Pron. reflexivos – A concordancia é a mesma em
todas as linguas. Si o sujeito está na mesma phrase, emprega-se
o conj. si; – Elle faz isto por si mesmo; mas si o
sujeito está em outra phrase, o demonstrativo elle (o) com
sentido pronominal; elle disse-lhe que o tinha convidado
(qui se invitaverat), pediu-lhe que se sentasse com elle (ut
sederet secum
).

Este modo de faltar accentuou-se no latim da decadencia e na baixa
latinidade: – scripsi, ut illi (sibi ipsi) semen mitteretur (Petr.);
se venturum in imperium, quod olim fuerat illi (sibi) datum; inter
eos
(se) partiant.

Elle por se em relação objectiva é frequente nos 1°s documentos
do portuguez.

O emprego de comsigo, a si, por comnosco, a vós (fallo comsigo,
refiro-me a si
) é destempero de ignorancia que modernamente nos foi
importado de Portugal.

6 –Pronomes indefinitos – Um é adj. pronome indefinito,
e é de creação posterior ao demonstrativo o, a, a que
deram o nome de artigo definito.

Nos antigos textos contem sempre noção pronominal, e
ás vezes eomo observou o professor Diez, apenas valor
pleonastico (o homem é um animal).

Ha que obrigam o emprego d’este pronome;
as que só s palavras e emoregam no plural (umas bodas, umas
exequias
), e as que significam objectos que são sempre em
446numero de dous ou se usam em par (uns pés, uns sapatos,
umas luvas
).

Tambem se emprega antes dos nomes proprios
quando se quer designar a pessoa mui particularmente, ou
ainda exaltal-a; – como quando dizemos – um Mont’Alverne.
Neste caso é adjectivo.

A’s vezes encerra idéa de pessoa indeterminada e corresponde
a aliquis: ás vezes um diz o que não pensa (o
homem diz, diz-se).

Quando exprime identidade tem valor numeral: –
todos fallavam a uma voz.

E’ de bom emprego o pronome quem por uns:

Quem se affoga nas ondas encurvadas,
qeum bebe o mar e o deita juntamnte
(Lus I 92)

Outro. – É adj. pronominal. Neutro al: – não entendem
em al; o al não há de louvar
.

Quando refere relativamente um subst. a outro precedente,
e “ambos os substantivos devem estar entre si na
mesma relação que a idéa restringida com a idéa geral”;
a gula e os outros peccados; o amor e as outras offensas
d’alma
.

Um e outro – Empregam-se correlativamente, e neste
caso um põde ter plural (uns e outros). Um e outro = unus
et alter
; corresponde a uterque, nnus alterum, class. alter
alterum, alius alium
. – Outro…outro; um…um.

Todos esses modos de dizer teem typos correspondentes
no b. lat. – uno caput tenente in fozza et alio in palude;
calices duo, unum aureum et unum argenteum
. 1336

Certo – Correspnde a quidam, mas no latim havia o
ind. certus (certi homines).447

O emprego do pronome mui diverge do emprego do
adjectivo.

Alguem – Substitue – como tambem algnm-o ind.
um: – ponha Deus algum termo aos meus tormentos.
Prenderam-no julgando que era algum sedicioso.

Estes empregos tiram origem na tradição latina, que
do mesmo modo empregava aliquis, quidam, quisquam.

O pronome é ás vezes representado por substantivos,
que designam a pessoa ou cousa de modo ainda mais
vago e geral: – chegou onde nunca homem (ou pessoa)
nunca chegou; Lat. – accipit hominem nemo melius (Ter.
Eun. ap. Diez, G. R. S.)

Tal – (V. pgs.). Corresponde a quidam, e a nonnemo
(tal semêa que não colhe).

Serve tambem para designar pessoa que não existe; ou
cujo nome se quer occultar; junta-se aos nomes da pessoa
com sentido pejorativo – um tal Onofre; e aos pessoaes
fulano e sicrano (fulano de tal). Corresponde no primeiro
caso ao ille do b. latim.

Emprega-se com valor distributivo por uns… outros,
uns…uns
: – taes applaudiram taes reprovaram (v. pg.).

Quanto. – Perdemos a forma alequanto, a, (= l,
aliquantus): – alquanta gente (aliquot homines), alquantos
d’elles
; com força adverbial: – alquanto mais esforçado.

(Ined.)

São tambem de notar certas palavras que expnimem uma
idéa geral de numero; todo (todo homem, etc V. artigo), tanto
(tanto homem), quanto (tambem se refere a grandeza, e então a
relação é expressa pelo plural): – quanta miseria… quantos
filhos
, etc.

A formula latina necio quis, que serve para designar alguma cousa
de desconhecido, é peculiar a todas as linguas romanicas. Corresponde
ao port. – um não sei que; r. je ne sais quoi; hesp. no se
qué
; it. non so che.
448

Trigesima quinta lição
Regras de syntaxe relativas ao verbo…

Regras de syntaxe relativas ao verbo. –
Do emprego dos modos e tempos – Correspondencia
dos tempos dos verbos nas
proposições coordenadas e nas proposições
subordinadas.

1. – A funcção syntaxica do verbo deriva naturalmente
de sua propria natureza cathegorica. E’ por assim dizer o
elemento disciplinador da proposição, a synthese da
phrase.

2. – Voz activa – Os verbos transitivos exigem um
termo indicador do objecto directo e immediato da acção.
E’ o seu complemento directo. Ex.: – o sol abranda a
cera e endurece o barro.

Os verbos intransitivos exprimem uma acção cujo,
objecto directo se não indica; venho, corro.

Muitos verbos, no correr dos seculos, mudaram de
classe: – cahir, morrer, crescer, sahir.

Essas mudanças explicam-se:

1.° – Um verbo transitivo póde construir-se quasi
sempre intransitivamente (crêr, encontrar, esperar, consentir,
etc), mas o objecto vae para relação adverbial: –
Creio o que referes, creio no que referes.

2.° – O verbo intransitivo póde ter um complemento
directo, i. e., póde ter significação transitiva (trabalhar,
449gritar, chorar, calar, andar, correr, dansar, e todos os
que exprimem locomoção, etc). Dormir um sonno. Esta
faculdade era mais ampla no portuguez antigo.

3.° – Muitos verbos intransitivos empregam-se com
sign. trans., valor factitivo (descer, entrar, passar, cessar,
chegar
, etc).

O caso objecto póde ser acompanhado de preposição,
principalmente quando designa funcção pessoal: –
Amarás ao Senhor teu Deus, e ao proximo como a ti
mesmo
. E quando é expresso por formas verbaes: – comecei
a cuidar, começava de querer (B. Rib.),

Nas phrases, de construcção similar, – peguei da penna,
arrancam das espadas
, o de é particula de realce.

Alguns verbos transitivos recebem um complemento
duplo: – Nomearam-no professor; e o alçarão por Rey
(tambem em Rey.)

A’s vezes a dupla predicação é simplesmente emphatica
ou expletiva: – Os feitos que os Portuguezes obraram nesse
dia o oriente os diga
.

3 . – A voz passsiva exige um caso agente representado
pela prep. por ou de: – Esta terra foi ganhada pelos
mouros (Sec. XIV. L. de Linh.); sendo das mãos lascivas
maltratado
(Cam.)

A tendencia nominal do participio prefere a construcção
de, como se vê da historia da lingua: – E’ feito de asperodes,
he aborbotado
de escudos (Sec. XIII e XIV.)

A influencia da construcção latina (a, ab) não raro apparece
no portuguez até o Sec. XVII: – Era ensinada á
livros de historias
(B. Rib.).

4 – As fórmas da voz activa, em certos casos, substituem
as do passivo, e reciprocamente. Assim:

1° – activo pelo passivo, no infinito, participio presente
(facil de dizer; assi meixente os esprovamentos; Ined.
d’Alc.). Quasi todos os participios perderam a propriedade
transitiva.450

2° – Passivo pelo activo. – Esta construcção originou-se
da falta de uma fórma de participio activo; só
se dá com o participio: Com este feito que foi mui soado
por todas aquellas partes, ficaram os amigos e liados
d’ el-rei de Bintam mui quebrados
(Bar. Dec.). Muitas
cousas gostosas aos
lidos e curiosos (Pant. de Aveir.)

E ainda na linguagem actual, muitos são os exemplos;
uma politca dissimulada, nm homem sabido, reflectido,
previsto, presumido, mentido
, etc.

3° – O reflexo pelo passivo. – Já nos referimos a esta
construcção, que mais se tornou frequente depois do
Sec. XV.

Em França tambem dizia-se – La nature et utilité du regne de J.
C. ne se peut autrement comprendre; construcção que se desenvolveu
com a influencia italiana: – É do Sec. XVIII a phrase seguinte: Je
n’entretiendrai pas V.M. de toutes les sottises qui
se font et qui se
disent, et qui se lisent ou ne se lisent pas (d’Alembert.). E ainda
hoje – ce qui se dit, etc.

5 – Das pessoas e numeros. – Vide Lição 16; flexões
pronominaes e verbaes…

Conservamos muitos verbos impessoaes; perdemos
alguns; no sentido figurado emprega-se na 3ª pessoa do
plural, e tambem na 2ª (com valor factitivo) . – Troveja
a olympia sala; trovejam iras de Achilles; troveja, miseravel,
chove sobre nós tuas verrinas !

Em regra, no portuguez antigo e moderno, o verbo
concorda em numero e pessoa com o sujeito.

Notemos as principaes difficuldades:

a) Quando concorre mais de um sujeito de varias
pessoas, o verbo vae para o plural e concorda com a que
tiver prioridade; i, e.,

Si forem os sujeitos da 1ª e 2ª pessoa ou 3ª, o verbo
vae para a 1ª do plural: – Tu e eu estamos bons.

Si forem da 2ª e 3ª, vae para a 2ª do plural: – Tu e o
medico
sois dous sabidos.451

b) O verbo vae para o plural quando os sujeitos são
seriarios e do singular (syndetiea ou asyndeticamente): –
o ouro, a prata, o ferro, são metaes.

E’ frequente neste caso a anteposição do verbo: – São
os dous entes mais parecidos de natureza, o poeta e a
mulher namorada (Garrett.). 1337

c) Quando, porém, o sujeito seriario é representado por
um expoente geral, ou quando a sua correlatividade
funda-se num unico conceito, o verbo ordinariamente
fica no singular (V. pag…): – A gloria, a riqueza, a
formosura
, tudo é vaidade; O ouro, os diamantes e as perolas
tudo é terra e da terra.(Vieira).

d) Nos docs. do Sec. III ao XV, são frequentes as
anomaliar: – Ho monte grande escalnitado no qual nem
arvores nem mato aparece (Sec. XV); Seus olhos fontes
d’ agua parecia
(G. Vic.)

6 – Concordancia com os collectivos. – Em geral,
quando o sujeito de um verbo estava no singular exprimindo
idéa de collectividade, o portuguez antigo, fazendo
a concordancia com o sentido, levava o verbo para o
plural (gente, povo, etc. de que já demos alguns exemplos).

Porque, saindo a gente descuidada
cairão facilmente na cilada.
(Cam. Lus. 1 S.)

Mas;

A gente da cidade aquelle dia
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver sómente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes
(Id.) V. 831.

em que se nota o effeito da attracção.452

As outras linguas romauas eonservaram-se fieis a este
principio, que era latino: – prov. gens monteron; fr.
ant. gent estoient, corrent, la noblesse de Rome l’ont
elu
; etc.

Na lingua moderna ha dous casos principaes dignos de
nota:

a) O sujeito do verbo é um nome como – multidão,
recova, bando, porção
. Neste caso o verbo vae para o singular,
si a idéa mais se refere ao collectivo; para o plural,
se mais se refere ao complemento.

b) O sujeito do verbo é uma locução exprimindo quantidade:
muito, assás, pouco, a maior parte, etc. Em
geral depois dessas palavras emprega-se o plural: a maior
parte dos homens são
inclinados ao mal.

Ha excepções.

7 – A impersonalidade do sujeito fixava o verbo no
singular: – Se y a provas (F. de Gravão); ha homeus
que ainda depois de fallar são mudos
(Vieira).

Tempos

1. – Vide Lições 16 e 27.

a) O Presente – representa a acção como que feita
(presente) no momento em que se falla: Estás alegre;
Figuradamente emprega-se pelo passado e pelo futuro
(pouco remoto): – Moniz, lhes tem rosto, os aperta, e rechaça;
vou amanhã, volto já
;

Tanto vae o póte á fonte que afinal lá fica.

Emprega-se, o pres. pelo futuro quando a acção tem
de effectuar-se em epoca proxima, que quasi entesta com
o presente (vou logo); quando a acção futura começa no
momento em que se falla (elle está de volta dentro de 15
dias
); quando é indeterminado o tempo em que tencionamos
fazer a acção annunciada;… logo que poder, parto
para S. Paulo
.453

Emprega-se ainda pelo imperfeito e futuro do subjunctivo:
– Si adevinho, não cahia nessa; si fallas, arrependes-te.

b) Preterito – A principio era distincta a differença
entre o preterito definito (perfeito) e indefinito. Este indicava
um tempo menos remoto.

c) O futuro simples ou absoluto ennuncia a acção que
se deve fazer em tempo posterior ao que fallamos.

O futuro póde substituir o presente: – Quantos não estarão
agora arrependidos !

9. – “Uma acção determinada póde ser não só anterior
ou posterior ou contemporanea do momento em que
se falla, mas tambem de um acção qualquer presente,
passada ou futura, em relação ao momento em que se falla.
Quando dizemos: – elle tinha sahido quando eu fui, indicamos
que elle tinha sahido antes do momento em que
contamos o facto, e outrosim antes de um outro momento
que é aquelle em que fomos á sua casa. A acção indicada
pelo verbo elle tinha sahido é pois passada em relação
a uma outra acção passada.”

10. – Não temos todos esses tempos precisos; mas o
Imperfeito e o mais que perfeito, representam o presente
no passado
; assim como o condicional exprime o futuro
no passado
; e o futuro anterior - o passado em relação
ao futuro
.

a) Imperfeito indica uma acção contemporanea de outra
já passada. Devemos pois empregal-o sempre que quizermos
indicar circumstancias referentes a um facto passado.
Essa relação de circumstancias é ás vezes indicada
mui estreitamente; outras, porem, deixa de ser expressa
(Raiava o dia; Era renhida a peleja, …)

V. o que dissemos sobre o emprego do presente pelo possado e futuro.

O imperfeito póde ainda ser empregado simplesmente
como tempo do passado, sem relação entre essa acção
454passada e outra. Os factos são ennunciados apenas como
simultaneos, e não como successivos. 1338

Indica outrosim uma acção habitual (estudava todos
os dias).

b) O mais que perfeito e o preterito anterior exprimem
acção passada em relação ao tempo em que se falla, e ao
mesmo tempo que ella foi feita em epoca anterior a outra
igualmente feita. O preterito anterior é hoje de uso muito
menos frequente, e só em phrase subordinada (em relação
com o preterito) ou quando se quer mostrar que a
acção do verbo principal começou no momento preciso
em q»e a já era acabada a acção do verbo no preterito
anterior.

A significação do mais que perfeito é muito mais lata.

Não indica que a acção durava havia muito, nem que
acabava de começar. Quando dizemos: elle tinha fallado
quando eu entrei
, o mais que perfeito (tinha fallado) mostra
que a acção de fallar durava ainda no momento em que
que se deu outra acção passada (entrei).

c) O latim, para exprimir o futuro no passado, servia-se
do participio do futuro e do imperf. ou perf. do auxiliar
esse (ser): dicturus eram ou fui. A fórma portugueza
que corresponde perfeitamente á latina é a da condicional.

O condicional era pois na origem uma fórma temporal, o
verdadeiro futuro no passado, e como tal empregado nas
proposições subordinadas.»

Para suprimirmos a simultaneidade do futuro (para o
que não tinha tambem o latim tempo particular) empregamos
o futuro simples e o do conj. – irei quando
fordes.

10. – Para exprimirmos outras subdivisões do tempo,
temos ainda os tempos compostos, entre os quaes o do condicional,
455 que – como os simples – tambem conservam a
sua significação temporal nas proposições subordinadas.
No ex. soube que elle seria sacrificado antes que chegasse
o perdão
, a acção expressa pelo condicional é anterior á
indicada pelo verbo chegasse, que é futura em relação
á que se acha indicada pelo verbo soube, que está no
passado.

13. – O presente do subjunctivo corresponde 1° ao presente
do indicativo (espero que elle venha); 2° ao futuro
(espero que elle virá).

O imperfeito: 1° ao condicional presente (pensei que elle
viria); 2° ao mais que perfeito do Ind. (quem pegára então
de uma mulher errada, e a levára pela mão !).

14. – Dos tempos nominaes occupar-nos-hemos na
lição seguinte.

Dos modos

11. – Do imperativo. – O Imperativo negativo é representado
pelo conjunctivo. Este emprego remonta aos mais
antigos textos (não falles), e no latim já o subjunctivo
substitue o imperativo em todas as pessoas do plural e do
singular nas phrases negativas.

Deste emprego na fórma positiva temos exemplos em
alguns modos de dizer conservados pelo uso: Viva o
Brazil !
); mas, em regra, e com certas verbos, o subjunctivo
é precedido de que: – que elle parta !; que eu não
mais o encontre em meu caminho
.

Tambem o imperativo póde ser substituido pelo futuro
do Indicativo: – Honrarás pai e mãi; e ainda pelo infinito,
principalmente até o XVI século: – eia ! tudo apear,
á barca, chegar a Ella
(G. Vic.).

12. – Do condicional . – Corresponde no latim ao
subjunctivo como já explicamos.

13 – Do subjunctivo – Já vimos que se emprega pelo
Imperativo456

O subjunctivo, chamado de cortezia em latim, foi substituido
pelo condicional. – versus tuos audire velim (= eu
desejasse ouvir teus versos) = eu desejaria ouvir teus
versos
.

Correspondencia dos tempos

14 – Proposições coordenadas. – Já nos referimos ao
presente historico, isto é, á faculdade de poder-se representar
o passado e o futuro pelo presente.

No portuguez antigo, porém, a confusão dos tempos
nas proposições coordenadas são muitas, e muito de notar,
ainda mesmo no sec. XV e XVI.

15 – Proposições subordinadas – No portuguez antigo
era muito mais ampla a liberdade de concordancia dos
tempos nas proposições subordinadas.

10 – Proposições completivas – O modo depende
principalmente do sentido do verbo da proposição principal.

a) O verbo da subordinada vae para o Indicativo
quando o principal significa pensar, crêr, sentir, saber,
suppor. Parece-me que elle vem (virá); creio que elle
sabe, pensavas que elle disséra a verdade.

Mesmo na prop. principal negativa, interrogativa ou
dubitativa. Não creias que eu tenho (tenha) medo; crês
que eu não sei
? (saiba).

b) Si a principal exprime admiração, alegria, tristeza,
duvida, receio, surpreza, mando, etc, o verbo da subordinada
vae para o subjunctivo: – Receio que elle venha;
mando que vás
.

c) Nas proposições hypotheticas o verbo põe-se no
Indicativo quando exprime facto positivo, actual (si soffres,
a culpa não é tua); vae para o subjunctivo quando
significa duvida ou condição (não sei si te entregue este
livro; si tu
fôres eu escreverei.457

No port. ant. empregava-se de preferncia o mais que
perfeito do Indicativo.

As locuções conjunctivas identicas a si (com a condição
que, de, com tanto que, mas que
, etc.) levam sempre o verbo
para o conjunctivo: – comtanto que leias; mas que chegues
a tempo
.

4. – Nas proposiçóes concessivas, desiderativas e imprecativas,
o verbo da clausula principal vai para o
subjunctivo. Nas concessivas latinas quando nellas figuravam
um pronome como quisquis, qualiscumque, o latim
punha em geral o verbo no Indicativo, e dessa pratica
se encontram muitos exemplos no portuguez antigo.

Quando a proposição era annunciada por uma conjuncção,
o latim mudava de modo conforme o valor da
particula empregada (etsi, etiamsi, … Ind.; quamvis,
Subj.)

O portuguez seguiu mais ou menos as mesmas regras;
depois nota-se certa duvida quanto ás conjuncções; hoje
emprega-se o subjunctivo: – ainda que eu saiba; não
obstante saberes; quer queiras, quer não; posto que
venhas, não obstante teres, si bem que, comtanto que, ete.

5. – Proposições causaes. São em geral annunciadas por
– visto que, pois que, porque, attendendo a que, etc., que
desde o principio da lingua levam o verbo da proposição
subordinada para o Indicativo: – Visto que vens,
eu não vou.

Com algumas conjuncções póde elle ir tambem para o
Indicativo: – como elle está bom (esteja), como elle não entendeu
(entendesse), etc.

Com as proposições negativas annunciadas por não
que
(non quod, non quia), o portuguez empregou sempre
o subjunctivo, á imitação do latim: – Não que eu te queira
mal
.

6. – Proposições temporaes. – Nestas proposições a
syntaxe depende da conjuncção empregada. Assim: –
458com antes que, primeiro que, empregou o portuguez sempre
de preferencia o subjunctivo (antes que o seu peito a
ferir
chegues), com até que, de preferencia o Indicativo
quando se trata de um facto positivo e já realisado (até
que por fim acalmaram-se os ânimos
), e o subjuntivo
quando a acção é futura e hypothetica (até que cheguem as
noticias
); com – emquauto, entretanto, etc. tanto se
emprega um modo como outro (emquanto estiveres (estás)
ahi.

6. – Proposições relativas. – No latim empregava-se
o subjunctivo nas proposições relativas; no portuguez
tambem, sempre que a acção é representada como incerta
ou simplesmente possivel (Indica-me um caminho que vá
dar á villa
); mas quando a acção é certa, positiva, o verbo
da clausula subordinada vai para o Indicativo (Indica-me
o caminho que vae á villa
.) 1339

O que acabamos de dizer muito a traços largos basta para mostrar
que cada umas das fórmas verbaes não tem papel perfeitamente restricto,
funcção verdadeiramente especial. E essa discordancia entre o uso
syntaxico e a logica mais se nota nas correspondencias do subjunctivo.
Em regra, porém, emprega-se de preferencia o Indicativo quando
queremos exprimir a certeza absoluta da affirmação contida na proposição
relativa, independentemente do valor chronologico.

12. – Ha differença no emprego entre ser e estar.

O 1° serve de auxiliar da voz passiva; exprime uma qualidade
inherente ao sujeito, um estado que lhe é costumeiro:
o Brazil foi descoberto por P. A. Cabral, a neve é
branca; Placido é alegre.

O 2° significa uma qualidade occasional, um estado
transitorio: – a agua está fria; Fernandes está alegre.

O verbo ser exprime procedencia – este rapaz é de
Campinas
; o verbo estar a situação do sujeito, o logar
onde: – elle está em Campinas.459

A’s vezes, porém, é indifferente o emprego: é claro que,
está claro que. A idéa é então sempre a mesma.

Na linguagem poetica emprega-se tambem o verbo ser
por estar: eu era mudo e só; porem já cinco sóes eram
passados (p. estavam).460

Trigesima sexta lição
Regras de syntaxe relativas ás fórmas
nominaes do verbo

Infinito

1. – Já vimos que um infinito póde ser empregado
substantivadamente 1340, e que para isso basta fazel-o preceder
de um adj. determinativo (demonst., poss., art.):
O viver, os dizeres.

2. – O infinito portuguez tem a singularidade de poder
flexionar-se. 2341 D’ahi a sua divisão em pessoal e impessoal.
E’ pessoal o infinito:

1° quando a clausula do infinito póde ser substituida por
outra do indicativo ou do subjuntivo: – Virtude, sem trabalhares
e padeceres (sem que trabalhes e padeças), não
verás tu jamais com teus olhos
(Bern.)

2° quando é sujeito, attributo de um verbo ou complemento
de uma preposição. E’ muito proprio das mulheres
o sahir para verem e serem vistas
.

Cp. – Comprei esta pera para comeres, comprei esta pera para
comer. No 1° caso e Infinito pode ser substituido pelo subjunctivo
(para que comas) e refere-se á 2ª pess. do sing.; ao passo que no 2°
exemplo o infinito refere-se á 1ª (para eu comer).
461

Este grande elemento de clareza-o Inf. pessoal – não
se encontra nos primeiros docs. authenticos da lingua.
Seu emprego data do sec. XIII:

Conserva-se impessoal o infinito:

1. – Quando o verbo da clausula do infinito não pode
ser substituido por outro do Ind. ou Subj. – outros são
incredulos até
crêr (Vieira); applicadas a grangear com
trabalho (Sza. V. do Arc.); faltando-lhes valor e accordo
para se
defender ou morrer (Fr. –V. de Castro), etc.

2. – Com sujeitos identicos, raro nos classicos.

Cp. os seguintes exemplos. – Nam curees de mays
chorardes; não cures de te queixar (canc. Geral –);
o que se lhes não pode defender com artilharia por
trabalhar cobertos (Fr.), e folgarás de veres (Cam.),
vieram constrangidos a buscarem refugio (A. Herc.),
restricções de amor que impedem os filhos de Amor de
acharem (Garrett.); se queixavam de verem sahir á meia
noite
(R. da Silva); forçareis as pedras a vos fazer
a vontade (Ulys.), etc.

3. – O infinito pode fazer parte de proposições independentes,
exclamativas, optativas, deliberativas: – Mulher
muito grande é o teu bom
perseverar (G. Vic.);
Que fazer !

4. – Substitue o subjunctivo latino nas interrogações
indirectas. Lat. class. quid seriberem habebam; baixo
latim: – quid scribere non habebam (non habent quid Respondere,
S. Agost.) O portuguez muito desenvolveu esta
construcção: não tenho que responder, não sei que dizer,
etc.

5. – Já vimos que o infinito, por sua qualidade nominal,
pode ser sujeito e attributo. Pode ainda construir-se
1° em qualidade de complemento indirecto: depois de um
certo numero de preposições (a, para, por, de, etc.), e de
muitas locuções prepositivas (longe de, a menos, em logar,
á força de
, etc.)462

O latim empregava o supino ou o gerundio, modos que
– desde a decadência – foram substituidos palo infinito.
– 2° como complemento directo marcando o objecto da
acção
. Já era latina a faculdade de construir para esse
fim um infinito sem sujeito, depois de certos verbos que
exprimiam a idéa de vontade, poder, intenção, alegria, pejo.
Ire volo; quero ir.

Com muitos verbos construimos o infinito sem preposição
nem sujeito (temer, receiar, sentir, mostrar,
ver
…); mas essa construcção directa era muito mais
geral no portuguez antigo, que empregava o infinito em
muitos casos, em que hoje é elle precedido de preposições
ou substituido pelo subjunctivo.

6. – Os traductores introduziram na lingua portugueza
os primeiros vestigios das proposições do infinito, isto
é, proposições que serviam de complemento ao verbo,
e eonstruiam-se em latim com um verbo transitivo seguido
de um infinito, e de um nome no accus., sujeito
do infinito. No principio da lingua essa proposição era
substituida por outras precedidas de conjuncção, correspondentes
ás fórmas do baixo latim (Cp. l. class.
audio te dicere, b. lat. – audio quod tu dicis).

O emprego no XV sec. era muito mais livre do que
hoje; mas em muitos casos, quando o sujeito do infinito
é o relativo que, empregamos ainda a proposição
do infinito.

Além dessa fórma da proposição infinitiva, temos
outra, caracterisada pela circumstancia de ser o sujeito
regimen indirecto. Este emprego, de uso muito limitado,
já era conhecido dos Latinos (hoc comitibus scire factant).
Ex. eu o vi fazer os seus preparativos.

A proposição infinitiva refere-se sempre logicamente
a um sujeito, quando não o tem apparente. Este sujeito
pode ser determinado pelo contexto ou proposição geral:
(– muito soffri, para desejar a morte), ou indeterminado
463(para que uma nação prospere, é força civilisar o
rico tanto quanto o pobre. (V. H .)

7. – Para indicar o fim da acção, empregamos o
infinito: construcção regular no baixo latim, e excepcionalmente
empregada no latim pelo supino (pecus egit
altos
visere montes). Vou soccorrel-o; venho ao theatro
applaudir o genio.

8. – Podemos empregar o infinito pelo imperativo,
herança que nos veio do latim, e era mais usada dos
classicos portuguezes; alegrar que é chegada a hora;
sus, levantar dahi muito nas más horas; fugir, fugir do
infante que vos quer prender
.

Advertencias. – O dominio romano muito mais estendeu
o emprego nominal do infinito; sendo de notar em
portuguez os casos seguintes:

a) – Infinito articular - o beber, o comer, e no plural
os cantares, os dares e tomares.

Encontra-se nos primeiros documentos da lingua.

b) – Infinito preprosicional – Já de uso frequente no
baixo latim do 1° seculo (ad abitare, ad firmare), encontra-se
nos mais antigos textos do portuguez: – getar in
terra
pelo cegar (Sec. XII).

A’s vezes a euphonia, e certa força de attração morphica,
desvia o infinito do uso legitimo e natural: – galantes são
os poetas ! Todos vereis
queixar da malacia dos tempos. 1342

Participios

8 – O participio presente, hoje usado exclusivamente
como adjectivo, só admitte flexão de numero: homem ou
mulher amante, homens ou mulheres amantes. Esta propriedade
já era peculiar ao latim classico, e teve mais incremento
no latim barbaro. 2343464

Até o Sec. XV tinha funcção verbal com o complemento:
– Os desprezintes Deus caem no (R. S. Bento, In.
d’Acol.); filhantes inferno a saia, leixam o manto (In.); etc.

Conservamos vestigios dessa fórma nominal mas já sem
propriedade transitiva: – perlas imitantes á cór da aurora
(Cam.); assim como a aguia e o louro não sam dominadas,
senão
predominantes ao raio (Viera V, 481); e
assim – tirante esta clausula, tendente á paz, tocante a moral,
referente á lei, passante cincoenta, pertencente a nós,
durante o anno, ect. De obedecer fizemos obediente por
obedecente.

No sec . XV, é de notar a confusão do part. presente
com o gerundio e participio passado (homem bem parecente
de corpo), e tambem o seu emprego pelo adjectivo correspondente
em: – era o conhecente d’ aquelle Judêo; sabentes
per aquesta carreyra da obedeença; temente (temendo)
minha morte, rompente o alvor da manhã; acabante aquelle
feito.

9. – O gerundio (part. imp., que no port. substituiu o
part. pres. latino) é sempre invariavel. Quando vem precedido
da preposição em, indica que á 1ª acção segue-se immediatamente
outra: – Em chegando X, parto para Itú,
em fallando, em dizendo, em dormindo
, etc. 1344

Equivale a uma locução adverbial: – chegando (quando
chegar), amanhecendo (quando amanhecer), etc., e é vestigio
do gerundio latino em e, que mais se vulgarisou na
epoca da decadencia.

10. – O participio passado, no portuguez antigo, sempre
que vinha construido com o verbo ter (e ser) e – ainda
no Sec. XVI –, concordava com o sujeito do verbo em
genero e numero: – bom servidor e leal nos serviços que
lhe tinha
feitos (F. Lopes); e do Jordão a areia tinha
465vista (Cam.); votos que tinha feitos; quantas culpas tinham
commettidas (F. Mendes), etc. E qualquer que fosse a
ordem, o part. concordava com o seu complemento, conforme
a syntaxe latina, que com o auxiliar habeo tambem
dizia – habeo cognitam amicitiam = eu tenho conhecida a
amisade.

Mas desde a origem que houve tendencia para considerar-se
o part. passado apenas como fórma de um preterito
composto. Cognitum habeo = cognovi. Tenho conhecido
= conheci
. E mesmo nos textos antigos já se encontram
exemplos da invariabilidade do participio quando se apresentava
mais perto do verbo que do regimen: – maravilhas
que deixou
feito (Caminha), deixar-lhe queimado a cortina
(P. Per.), deixando descoberto 350 leguas (Barros)… etc.
A concordancia continuou, e é observada, quando o
participio segue o complemento: – não é preciso tenha as
cartas
escriptas.

A leitura dos textos mostra claramente a tendencia para
a suppressão da concordancia, que ficou retardada pela
influencia classica, adstricta á tradição latina.

Por sua natureza, o part. passado dos verbos intransitos
póde tomar significação activa, que – como em
latim – tornou-se extensiva a particicipios de verbos de
natureza transitiva: – homem applicado; aborrecido, calado,
confiado descrido, dissimulado, esquecido, divertido,
entendido, poupado, lido, perdido, sabido
, …

Sobre as fórmas em udo, as contractas, etc V. – Lições 16,
19, 27.

Sobre o participio attributo fallaremos adiante.

11. – Os participios do futuro – são hoje raros, e
usados como substantivos ou adjectivos. Já a elles nos referimos
nas lições 19 e 27.

Terminam 1° em ouro (oiro): – ascendedouro, escorregadouro,
idouro, regedoiro…, que se confundiram com
os em eira (casadoura casadeira). Ainda conservamos
466vestigios deste participio em duradouro, immorredouro,
morredouro, vindouro
(Sguardante nas cousas vijdoiras;
Leal Cons.).

2°. – em ando, endo. No docs. antigos, e mesmo do
Sec. XVII, estes participios tinham sign. do futuro: –
entre os desprezos d’esta expianda angustia (Fil. Elis); se
mostra pura e brilhante
á consolanda (Id.); oh ! adorandos
sempre e adorados !; culpandas armas; etc.

São participios da voz passiva latina, e apenas empregados
no portuguez em linguagem classica, principalmente
depois do Sec. XVI. Temos dessa origem – miserando,
horrendo; educando, doutorando, excerando, examinando
, etc.

3. – Os participios em undo (bundoo): – gemebundo,
moribundo
, etc. Quasi todas as palavras desta terminação
representam importações latinas. Este suftixo equivale
ao oso das bases nominaes.

O part. imper. e o aoristo (part. passado), quando não são empregados
como adjunctos attributivos, nem como elementos de formação - nos
tempos compostos da voz activa e da passiva, e nos verbos
frequentativos, formam clausulas participiaes absolutas, equivalentes
a outras do modo Indicativo e do Subjunctivo. Taes clausulas principaes,
bem como as que se formam com o participio aoristo, correspondem
exactamente aos absolutos latinos – (J. Rib. Gramm.
Port.).
467

Trigesima setima lição
Regras de syntaxe relativas ás palavras
invariaveis

Adverbios

1. – V. lições 11, 20 e 28.

2. – Alguns adverbios conservaram a regencia das palavras
donde derivam: – cegamente de affeições (Ined.),
dos meus póde vir seguramente (Barros), etc. .. e
tambem, ainda no Sec. XVI, um pouco de proveito,
assás de dinheiro (Barros).

Hoje essa construcção mais se applica aos adverbios
de modo: – parallelamente a; confiadamente em, etc.

3. – Quando concorrem dous ou mais adverbios; em
mente, só o ultimo toma geralmente a terminação: –
sabia, pia, e justamente. Mas podemos empregar em todos
a fórma completa, principalmente quando queremos precisar
bem o valor significativo de cada um delles: – vivamos
neste mundo sabiamente, piamente e justamente
.
(Vieira).

3. – Tambem são adverbios de modo – como, arch.
empero, e aosadas (aousadas), assim; – Razão é que façaes
como vos fazem (F. Mendes); mas a basta-lhe ser frade e
bem Narciso a oasadas (G. Vic.); etc.

4. – Assim emprega-se em phrases desiderativas: –
assim te eu veja feliz, assim me veja eu casar (Camões).

5. – O adverbio bem junta-se a outro adverbio ou a um
nome para lhe dar força augmentativa: – um menino pobre
468e bem mal reparado de roupa (Souza, V. Arc.), bem sabio,
bem notorio
.

Junto aos verbos e comparativos dá mais força á affirmação:
– Bem deu o Infante a entender a grande dignidade
que conhecia em seu irmão
(Azur. Chron. Guin.);
o coração bem mais largo que as praias do oceano.

Todos esses empregos teem exemplos em latim; e da
mesma fórma empregavam o adv. Mal: – mal doente, mal
ferido, mal vencido; sendo todos mal contentes (Vieira).

6. – A negação póde ser simples ou intensiva, a que
tambem se chama reforçada.

A simples é expressa pelo adverbio NÃO, nem, nada,
nenhum, ninguem, nunca
.

Nenhum, ninguem, nunca, empregam-se simplesmente
quando precedem o verbo; – nenhum sabe, ninguem veiu,
nunca trabalhas. Si, porém, vierem depois do verbo, exigem
o reforço: – não tenho nenhum, não vi ninguem, não trabalhas
nunca.

Jamais emprega-se por nunca, e tambem é sujeita nos
mesmos casos ao reforço da negativa principal não: – não
disse jamais, nunca jamais.

Sobre a negação intensiva – Vide pag. 406.

Quanto ao emprego de não sem força negativa –
pag. 405, nota 2ª.

Algum, no fim ou meio da phrase, equivale a nenhum: –
de modo algum consentirei; de guisa que fugiram todos,
sem curando de levar cousa alguma
(F . Lopes).

Pelo ultimo exemplo vemos ainda que a preposição –
por significar falta, carencia, privação – empregava-se
tambem com sentido negativo, junto dos verbos no gerundio
(Secs . XIV e XV).

7 – Comoquer, quantoquer, equivalentes a posto que, e quando-querque,
são fórmas archaicas:

… que te nembre como eu andei ant ty em verdade, e comoquer
agora pequei, nem sse percam porem alguns bêes, se os fige ante ty.
(Ined. d’Alc)
469

Porque o muito não é nada
Quando querque não é bom
(G. Vic.)

Por quantoquer que os membros sejam enfermos, e jaçam e mal
cheiram non son de Christo empuxados, nem desemparados d’elle
(Vida Monast.) 1345

7 – O adverbio colloca-se perto da palavra por elle
modificada: – elle mora longe; uma porta meio aberta.

8 – Certos adjectivos são empregados adverbialmente:
os de flexão de genero só na fórma masculina: muito
noute, muito
mais razões, fallar alto, vender barato, parede
meia, louvores justo devidos, plantas meio queimadas, faia
puro altiva (Cam.)

Preposições

9 – Vide lições – 11, 17, 20, 28.

10 – Em latim, as preposições não tinham a mesma
importancia que em portuguez. E a razão está em que hoje
ellas substituem os casos.

As preposições indicam relações adverbiaes de logar,
tempo, causa, meio, modo. Mas ás vezes só uma dellas
exprime muitas dessas relações, sinão todas. A verdade é
que a principio (e principalmente no latim) ellas exprimiam
relações de logar e, metaphoricamente, de tempo. « O emprego
abstracto e figurado é resultado de um desenvolvimento
posterior.»

Si tomarmos a prep. a, veremos que etymologicamente
corresponde á prep. latina ad (e ao dativo) 2346; e
todavia, por seus multiplos empregos, corresponde
tambem a apud e ás vezes a ab.

A regra é geral, mas não absoluta.470

a) Correspondendo ao lat. ad indica essencialmente
direcção, movimento, tendencia, para um logar ou objecto.

Com este sentido era mais livre o emprego de a no portuguez
antigo: – a mais da gente se tornou a suas casas
(Barros). Hoje diremos para, e em – manso aos humildes,
cruel
aos fortes, tambem em J. de Barros, – para com os:
Por analogia a preposição a indica tempo – d’aqui a
oito dias; a 5 de Fevereiro; a uma hora.

A o dia seguinte em amanhecendo, a o pôr do sol; esta
festa era
a os quatorze dias do 1° mez (Ined. d’Alc.). ao
primeiro romper da luz.

Lat. – ad diem, ad kalendas.

Por transferencia, i. e., figuradamente, pode-se indicar
a direcção ou tendencia moral: – incitar á colera.

Essas construcções generalisaram-se por tal fórma,
que em muitos casos a prep. a serve apenas para indicar o
infinito. Da antiga construcção temos exemplos com os
verbos chegar, etc.

A (de ad.) indica tambem logar onde, posição, situação:
estava em máo estado com outra a olhos e face
do mundo
(Szã. V. Arcb.); affrontava o exercito do povo
de Deus, não ausente senão de cara
a cara (Vieira). Tornamos
aos nossos que
á ponte de Jacob nos estavam esperando
(Pant. d’Av.); vivem á borda do Eufrates; assentando-se
comnosco o abbade
á mesa (Id.)

Por analogia em referenda ao tempo: – chegou á hora
(na).

Figuradamente neste sentido: – fiel ao conde; estar
á morte (perto da); criar aos peitos da esperança (Cam.)

Cp. – util ao paiz, conforme a lei, prestes a partir,
commum
a todos, promptos para o combate, etc.

Remonta-se a um adj. latino, ou segue-se a etymologia.

b) A preposição a, por uma extensão natural ainda indica
o modo: – chorar a potes, rir ás gargalhadas, beber
471aos goles, etc.; foi alevantado por rei ao costume de seus passados
(D. Nunes); porta lavrada á antiga: o instrumento,
o meio, e corresponde a com: – matar a bala, raspar á
navalha, apanhar á mão, etc.

c) A preposição a ainda indica o complemento terminativo
e objectivo, quando expresso por nome de pessoa
ou cousa personificada: – Dei um livro a Pedro; adoro
a Deus; obra mandada por Deus e muito acceita a elle; a
mais companhia eram mulheres moças, tangendo em seus
instrumentos e algumas meninas que cantavam
a elles (F.
Mendes).

11. – Não podemos demorar-nos em todas as preposições.
Faremos tão sómente algumas mais inevitaveis
considerações.

Com – Indica 1° Simultaneidade, companhia: – e no
quarto de prima nos deu uma trovoada
com grande força
de vento; qualquer que
se faz amigo do mundo, faz banco
roto
com Deus (Heitor Pinto).

2.° Modo – Pedir com bom modo, com despreso,
Póde-se ás vezes supprimir a preposição: – levar-te-hei
pelos atalhos da egualdade e entrando nelles andarás teu
passo largo
(Arraes).

3.° Meio, instrumento: – Os mesmos que os murmuram
com a boca, os approvam com o coração (Vieira); as cousas
arduas e lustrosas se alcançam
com trabalho e com fadiga
(Cam.) No lat. – cum saggita sancius, ferido com uma
setta, etc.

Contra – Empregava-se antigamente, á maneira latina,
para indicar situação fronteira: – cydade contra a terra
d’Israel
, p. defronte (Ined. d’Alc.); e ainda direcção: –
foram correndo contra o theatro (Ined. d’Acol.), viu descer
contra a praia um homem; e por analogia – começou de
se rir
contra elles (Azur.), a rainha disse contra Pedro de
Faria
. (F. Mend.) E todos esses empregos vieram pela
tradição latina.472

Hoje ainda conservamos vestigios dessas construcções:
mas a prep. contra mais significa opposição, etc.

De – Indica: 1° logar d’onde: – do porto amado nos
partimos
; procedencia – sou de S. Paulo; agua de poço;
a lei de Deus – Por an., o ponto de partida: – de hoje em
deante; passados dous dias
de sua chegada.

2°, posse – casa de João.

3°, modo, meio: – Toda a gente vinha de mulas 1347 (Ramos);
dizer de palavra (Vieira); ouvir de confissão;…
vivem de suas lavouras, agasalhar de palavras (Souza), etc.

4°, causa: – folgaram de o ver; de ciosos não correm
as mulheres com elles
; de appressado; de contente;
de dó delle.

5°, qualidade, materia: – homem de juizo, o vaso de
ouro.

6°, tempo em que: – de manhã; de dia; de verão;
de maré vasia.

7°, Extensão, medida de tempo, e, por transf., idade:
cêrca de 20 milhas, homem de 30 anos.

8°, emprego, serventia, fim: – moço de servir, carro
de aluguel, copo de agua, tinta de marcar.

9°, A’s vezes o emprego da prep. de é expletivo:
pobre de mim; o bom do João; deu-lhe de tanta pancada.
(G. Vic.)

Póde dar-se a ellipse da prep., o seu emprego emphatico
e partitivo: – per de; muito poderoso Senhor
per
de Deus Rei de Castella e de Liam (coron. Reys.
de Port.); e tomou das pedras (F. d’Alm., trad. do
Bibl.)

Em resumo, de, no tempo, indica: ponto de partida,
svccessão, duração, o momento da acção
; em sentido
figurado, indica: origem, causa, instrumento, meio, modo,
a materia
, e ainda, a quantidade e o preço.473

De corresponde ao genitivo possessivo ou subjectivo.
Já vimos que o gen. latino indicava uma relação de
propriedade, causa, conteudo, dependencia, reciprocidade,
etc., mas que essas relações podiam ser expressas
por de – de ipsas (ipsius) domus; ramos de illas arbores.
E essa construcção reagiu por fim sobre a dos nomes
proprios.

De tambem indica a pessoa ou cousa de que se
trata, equivale ao genitivo objectivo. – D’ahi as phrases
– medo da morte; desejo de viver; o amor de Deus.

De substitue o genitivo de qualidade. Os Latinos
empregavam um substantivo no genitivo, acompanhado
de um qualificativo qualquer epithetico, principalmente
com as palavras de significação geral – miles (soldado);
vir (homem), etc. Este genitivo entrou então em concurrencia
com o ablativo e deu no portuguez as phrases
um homem de grande valor, de grande cabeça.

De substitue outrosim o genitivo de apposição (Flumen
Rhodaní -
o rio (do) Rhodano); si passares o rio do
Jordom (Barros); o cabo que chamam de Catherina, etc.
(Id.). Ilha do Fayal…, e esses modos tão frequentes,
principalmente depois do Sec. XVI – que diabo de rapaz;
que estupido
de criado; ladrão do negro melro.

De precede o complemento dos adjectivos, indicando
varias relações, conforme o sentido do adjectivo: – desejoso
de, mas já dizemos contrario a, etc.

Annuncia o infinito, e este é, dos seus empregos, um
dos mais importantes e caracteristico, posto seguissemos
sempre de perto a syntaxe latina.

Em – Sign. propriamente - no interior de, dentro de, e
logar onde, sobre, no exterior: – em Roma, a cidade é
em campo, no chão, na mesa, pór joelho ou pé em terra, etc.
Tempo em que, duração: – no verão; em sahindo a
lua
; em sendo horas (vide Lição 36 gerundio); em dous
dias
.474

Ainda ha mais algumas significações concretas, e muitos
são os sentidos figurados desta preposição: – correr em
ajuda de alguem; gente religiosa em seu modo de crença
(Bar.); homens atrevidos em commetter (Id.); deram em
uma aldêa de pescadores (Id.); estar em odio; em
cidade; em fugida; em botão; em braza (estado occasional
ou permanente); em signal de; em figura de oval; ir em
pessoa; repartidos em tribus.

Notemos estas duas construcções em que em é hoje
substituido por para: – pondo a proa em atravessar
aquelle golphão
(Barros); apontando (com a outra máo) em
uma mulher (Souza); passando em Africa todo o poder
e nobreza deste reino
(Souza), andam de emenda em emenda
(S. Mir.); e assim; de porta em porta, de mão em mão, de
dia
em dia (l. barb. – de die in diem), etc.

Por – E’ dupla a sua origem – de per e de pro (Leia-se
o que escrevi na pg. 413).

1° A derivada de per, tinha a mesma fórma no portuguez
antigo e medio, e ainda no moderno indica logar
por onde, uma relação de logar
, e, no tempo, a duração,
o momento; no sentido figurado tem varios sentidos,
como p. ex.: o instrumento, o meio, o intermediario, o
modo
.

Foram pregar a fé uns per Italia, per Grecia outros (Luc.)

Passando alem de um rio per uma ponte (Bar.)

Teem muitos jejuns, per todo anno (Id.)

Viveu per espaço de setenta annos (Id.)

per morte de Synxermo se ouviam gemidos (F. Mendes).

per espaço de quinze leguas (Bar.); deitado no seu catre humilde
em cujo topo pendia o crucifixo que talvez por sessenta annos, tinha
visto a seus pés consumir-se na meditação, nas preces, e na penitencia,
aquella dilatada vida (Al. Her.)

Pereceram per espada e per fome (Ined. d’Alcob.)

Ordenou que o mesmo Affonso Lopes fosse per pessoa (Bar.)

Tambem empregavam a prep. per em relação relativa:
teem lingua per si; seriam 150 homens per todos.

Quando per significa transição, passagem, póde supprimir-se:
e esses foram-se sua via (Ined. d’Alcob.); me
475parti de Baçorá em companhia de um mouro alarve pera
me guiar ho caminho e atravessar ho deserto
.

Agora damos aqui em excerpto, e applicada á nossa lingua,
a opinião de um professor de Lyão.

O emprego de per, exprimindo causa, é de notar. O latim
considerava o autor da acção como origem d’ella e fazia
preceder o seu nome da preposição que indicava o ponto
de partida – ab. O portuguez antigo substituiu a prep. a
por de, que tambem indicava o ponto de partida. Ainda
temos certas phrases em que depois de certos verbos de
acção illimitada, o complemento de causa vem precedido
da preposição de: – estimado de todos, ornado de flores,
esgorovinhado
de somno.

Por fim prevaleceu a nova construcção, porque a causa
da acção já era considerada não mais como a origem, e sim
como o instrumento da acção.

E hoje, com todos os verbos passivos que indicam uma
acção instantanea ou de duração determinada, a prep. por
precede o complemento de causa, quer seja nome de homem
quer de cousa: – vencido por seus discursos.

Por ajunta-se a certas palavras invariaveis para formar
locuções: – por cima; por baixo; por deante; por trás, etc.

2.° Por, derivado do lat. pro, perdeu o seu sentido
originario (relação de logar), “e deu um verdadeiro typo
de prep. das linguas analyticas, despojada de todo valor
concreto, e só conservada para exprimir relação abstracta”.

Significa – troca, substituição (e dahi preço, etc), a
proporção, o favor, interesse, dedicação; o fim, a causa.

Dar um homem por si.

Esta herdade comprou Jacob por cem cordeiros (Ined. d’Alcob.)

Por amor d’elle; ser pelo Imperador; Apparelhado a pôr a vida
por tãm bom rei; por ente tãm sublime (Cam.).

Por dar seu parecer se poz deante; Por nos roubarem mais a seu
seguro (Cam.) Hoje emprega-se para.

Tambem indica convicção, opinião: – assim se houveram
por vencidos (Arraes); eu tenho por de grande
476estima qualquer lettra antiga (Souza); havendo por verdade
o que dizia (Cam.), etc.

Tambem indica apposição: – vi eu o senhor face por
face (I. d’Alc.); rosto por rosto; tantos por tantos, dia por
dia; hora por hora; arca por arca (Ramos, Souza,
Vieira, Couto, etc).

Para – A antiga fórma era pera, e indica: direcção,
inclinação: – espirito vivo
para tudo, (Bar.); sobre a tarde
declinamos
para a mão direita (Id.); logar para onde:
o mandou para Goa; vou para Paris –; fim: – (marearam
as velas
para embocarem o estreito; conveniencia, oppovtunidade
tempo
para navegar para tal parte (Bar.); referencia:
teve muita autoridade para os graves; teve para
si que era obrigado cumprir aquelle simulado juramento.
Id.), etc.

Depois, pos. Os antigos empregavam esta prep. por
detrás, para tras: – huã arvor que está depois a cidade de
Sichen
(Ined. d’Alcob.), cp. lat. post urbem Sichen. D’ahi
o emprego figurado indicando inferioridade, degradação:
– É apessoa depois de Fr. João.

Antigamente depois empregava-se sem a repetição
pleonastica da prep. de: – Depos mort de Rey Salamon
(Ined. d’Ale.).

Tambem empregavam depois nos casos em que hoje
usamos de após, em seguimento, etc.: – e foysse com sua
host
depois os filhos de Israel (In. d’Alc.), Saul vinha do
agro
depos seus bois (Id.); segui empós elles (Azur.) Cp.
venite post. me.

Sobre – Indica superioridade, e por extensão – excesso,
eminencia
; por transferencia, supuemacia, sobreexcellencia:
Em os quaes lugares cada hû quer ser sobre os
outros
(V. Monast); Remontae o pensamento sobre as
nuvens
, sobre o céo (Vieira). Fig. indica tambem proximidade:
estava sobre Goa, sobre os inimigos, sobre
a noite, sobre a manhã, sobre o inverno, etc.; e ainda a
477referencia, o assumpto, a contextura; Elle escreveu
sobre
phi1ologia; P. fallou sobre anatomia; logo inquiriram
sobre o nascimento; tomando conselho sobre o caminho
que dalli se fazia (F. Mendes).

Conjuncção

12. – As conjuncções dividem-se em conjuncções de
coordenação e de subordinação; as 1ªs ligam entre si duas ou
mais proposições independentes (e, mas logo, etc.); as 2as
ligam uma proposição accessoria á principal (pois que, etc.)

13. – Conjuncções de coordenação. – As proposições ou
palavras que se pretende unir podem ter ou não o mesmo
valor logico.

No 1° caso omitte-se ou não a conjuncção (que corresponde
ás latinas et, ac, atque, que).

Iam, cantavam, descuidosos, como avesinha ao sol na mata virgem.

Quando ha exclusão de idéas, uma das proposições é
forçosamente negativa e a outra positiva. Esta é precedida
de mas ou de senão, porem, etc: – Os imigos amar,
os maldizentes si non remaldizer
sed mays beenzer (In.
d’Alc.); A toda parte posso já ir segura senão só do meu
cuidado
(B. Rib.); Para tudo ha remedio senão para a
morte
(Prov. pop.).

Arch. – nega, nanja, emque, pero, perol, emperol.

Si a palavra indica uma alternativa, os dous termos vem
então ligados pela conjuncção ou: – o caso é, que ou haja
outra vida
, ou não, a mim me cumpre viver como se a houvera.

Tambem empregamos quer (principalmente com os
verbos do subjunctivo, e correspondente ao latim vel),
e agora, ora, já, quando.

Nao lhes escapando ninguém quer por terra quer pelo rio. –
Quer elle venha quer não.

Agora lhe perguntei pela gente
Agora pelos povos seus visinhos
(Cam.)
478

Amiudaram os combates, hora da parte da Almina, hora da
banda contraria.
(Souza.)

com palavras, com o exemplo de suas obras.
Maneamos com vigor os braços soltos
Quando estendido já, quando encurvados 1348

A conjuncção porque precede a proposição enunciadora
da razão ou causa de um facto. – no argumentar tinha
particular graça
porque tocava excellentemente o ponto
da difficuldade
(Souza).

Mas si a proposição exprime a consequencia de uma
outra já expressa, precede – a uma das conjuncções pois,
por isso, por conseguinte
, etc.: – Pois assim como naquelle
tempo se faziam os conselhos sem papel, também se poderão
fazer agora
(Vieira).

Conjuncções de subordinação. – No correr deste trabalho,
e principalmente na lição 35, já dissemos o que
ha de mais importante sobre o emprego das conjuncções
nas proposições subordinadas.

Remataremos pois esta lição com algumas breves
exemplificações.

Phrases comparativas: – O sol não só excede na luz a
cada uma das estrellas
, senão a todas incomparavelmente.
(Vieira); Assim como no echo, quando se bate entre
montes, o tom
é em uma parte e em outra a pancada; assim
nas adulações do lisongeiro o tom é em nossos louvores, mas
a pancada em seus interesses
. (H . Pinto).

Emque: – Emque peccasse algum’ora venha a piedosa
alçada (G. Vic.).

Comoquerque: – Alli lhe pugerõ nome o Bom Velho
Lidador, comoquerque ja ante se chamasse avia gram têpo
Lidador (Noh. Conde D. Pedro.)479

Aindaque: – A dispensação que se concede a um,
porque a pede, não se pode negar a outro aindaque a não
peça (Vieira).

Ca: – Melhor é calar ca de fallar.

Como: – Como se sobe com trabalho o aspero d’aquella
subida, fica uma terra chan (Bar. Dec.); Como isto
disse, a cabeça inclinando, consentiu no que disse Mavorte
(Cam.).

Tanto que: – Tantoque foi cortada esta arvore, as aves
voavam, e os outros animaes fugiram (Vieira).

Que: – E’ em portuguez a conjuncção por exeellencia,
pois representa varias particulas latinas (ut, ne, quin, quomìnus,
quód, quid
…), e é de emprego muito vulgar.

Emprega-se na comp. de outras conjuncções – postoque,
aindaque
, etc.

Por isso – que póde substituir outras conjuncções: –
como todo o bem deriva de Deus, e que o homem é nada por
si mesmo…; Para curar as lagrimas da sem-razão, que
remedio lhe havemos de dar
, que ellas não teem causa ?
(Vieira); Mormente que em nada tem a fortuna maior
imperio, que nas cousas da guerra
. (J. Fr.).

Si: – Concorre não sómente nas proposições subordinadas
indicando uma hypothese; mas tambem nas phrases
principaes a exprimir pesar, desejo – Si eu pudesse !480

Trigesima oitava lição
Syntaxe do verbo haver e do pronome se

1 – A syntaxe do verbo haver armou controversia que
ainda perdura. Uns explicam a discordancia declarando-a
idiotismo; outros descobrem uma ellipse de sujeito apropriado
ao caso (ha homens = o mundo ha homens).

E’ preciso notar que assim como confundiam o emprego
dos verbos ser e estar (era a folgar, por estava a folgar,
B. Rib.; fui na guerra por estive na guerra. Cam.),
tambem empregavam o verbo haver por ter, costume que
ainda persiste no povo (tem dias que não posso ler; no
museo
tem muitas cousas que não vi). Em latim já o verbo
habere significava ter; e passou tambem a empregar-se
por ser. 1349

Hoje a phrase – ha homens, haverá cavallos, etc., é um
facto grammatical. A regra de concordancia em numero
entre o verbo e o seu nominativo é universal: mas a peculiaridade
idiomatica do verbo haver, não é singular. Assim
do Grego, entre outras excepções, temos uma muito familiar,
quando o nominativo é de genero neutro: –
οί άνθρώποι άγαθοί έισι, os homens são bons; mas τά βιβγία
άλαθά ἔστιν, os livros é bom. E esta regra era geral para
todos os verbos e nominativos neutros.481

No grego ainda, si o verbo chamado substantivo precede
o seu nominativo, “de modo que o numero do sujeito fica
indeterminado quando se pronuncia o verbo”, este deve
ficar no singular, embora o nominativo seja masc. ou
fem. plural. E o mesmo acontece no francez: – Il est
(il y a) des hommes.

Do mesmo modo, a nossa construcção caracteristica e
individual, constitue uma peculiaridade ou idiotismo.

2 – Já tratamos do pronome se como apassivante,
indefinito, reflexivo e reciproco.

Já vimos tambem que se corresponde a hom homem
(alguem, pessoa, gente): – ca sem razom parece a aquelle
que é atormentado dar-lhe
hom outro tormento (D. Duarte.
Ord.), ca sem razom seria ao afflicto accrescemar hom
affliçom. (id.)

Tambem nos dialectos escandinavicos o pronome reflexivo
sik sig = lat. se, junta-se aos verbos, e fórma um
suffixo reflexo: – at falla = cahir, at fallask é a fórma
reflexa ou media. Sk, contracção do accus. sik, transformou-se
ainda em st e apassivava os verbos.

O pron. se póde, pois, ser substituido pela palavra
gente ou alguem: – onde a gente põe sua esperança; pela
1ª pessoa do plural: – deve-se amar ao proximo como a
nós mesmos (devemos amar); pela 3ª pessoa do plural:
diz-se que o errar é dos homens, (dizem que o errar).

Cp. ing. people say, we say, they say, one say.

Nas phrases – vive-se, come-se, dorme-se, etc., opinam
alguns que o se é sujeito, outros que a phrase é tão
passiva como as formadas com verbos transitivos: –
alugam-se casas, queimaram-se as cedras, (V. verbos,
Liç. 16.ª). Esta é a nossa opinião; a phrase vive-se é vestigio
da voz média passiva, e os antigos diziam estar bem vivido, bem
comido, bem dormido
.482

Trigesima nona lição
Da construcção…

Da construcção. – Ordem das palavras na
proposição simples, e das proposições simples
no periodo composto.

1. – Na conversação, parte-se geralmente de uma
noção já conhecida pelo interlocutor, para a desconhecida
que se lhe quer apresentar. A mesma idéa, pois, póde vir
a vezes no principio ou no fim da phrase.

2. – A construcção é logica quando a phrase caminha
parallela ao pensamento, quando as palavras succedem-se
na mesma ordem das idéas.

No grego e latim a syntaxe registra apenas para dous ou
tres casos a ordem da collocação das palavras, porque a sua
deslocação nada ou quasi nada influia no sentido e relações
dellas. Só attendiam á fórma grammatical dos vocabulos;
não seguiam de todo o ponto as regras de collocação porque
as flexões indicavam de prompto qual o papel syntaxico
da palavra na phrase. Em

Scipio delevit Carthaginem
Carthaginem delevit Scipio,
Delevit Sci’pio Carthaginem
1350

a construcção é diversa, e a syntaxe a mesma.483

3. – Não obstante ser lingua analytica, o portuguez
conserva todavia (como já vimos) certa liberdade no
arranjo syntactico das palavras, por tradição, costume
e harmonia, principalmente até o Sec. XVI. E esse afastar
da ordem analytica, essa liberdade de construcção, é uma
das suas muitas excellencias.

Depressa um pouco vim (Sec. XVI.), a que pelo ordinario
concebimento estava obrigada
(Arraes).

Nos classicos e nos escriptores de boa nota encontram-se
construcções similares ás latinas, tão livres e variadas, tão
ricas e harmoniosas (já citámos exemplos na lição 29);
mos o portuguez moderno por seu caracter ainda mais
analytico, obedece na ordem das palavras a regras relativamente
fixas: 1° sujeito, 2° verbo, 3° attributo, complemento
do attributo, etc.

Esta construcção ou ordem directa, analytica, é chamada
syntactica e tambem logica.

4. – Não podendo mudar a ordem das palavras, o escriptor
muda a das ideias, antes de traduzil-as em palavras.
Tomemos para exemplo a phrase citada – Scipio delevit
Carthaginem
.

Não podendo, como em latim, alterar a ordem dos elementos
prepositivos conservando a mesma syntaxe, apresentamos
(dando um outro gyro á phrase) Scipião e
Carthago como sujeito ou como regimen do verbo, conforme
queremos tornar saliente uma ou outra dessas idéas. E,
conforme tambem tivermos concebido e apresentado de um
modo ou de outro a idéa da victoria de Carthago, o verbo
estará na voz activa ou na passiva: – Scipi o conquistou
Carthago; Carthago foi conquistada por Scipião; Carthago,
conquistou – a Scipião
. 1351

5. – Em maioria, os factos da syntaxe de uma lingua
484dependem directa ou indirectamente, como consequencia
natural, da propria natureza do lexico e somente do lexico.

E’ esta tambem a opiniáo de Tobler (Rom. XI p. 455):

“Esse asserto torna-se ainda mais exacto e geral quando
circumscripto exclusivamente ás diversas modalidades da
estructura vocabular.

E é isso, com effeito, o que a philologia historica e
comparada nos mostra, desde o monosyllabismo, que é a
negação da syntaxe, até o perfeito flexionismo, que faculta
a mais alta e variada complexidade constructiva.”

6. – E’ claro, em face do que acabamos de referir, que
o portuguez muito perdeu da liberdade quasi illimitada do
latim classico; mas que – todavia – ainda lhe resta grande
e boa liberdade na pratica da inversão.

Das linguas neo-latinas é a franceza a que mais se
conserva adstricta ás regras do analytismo.

No tocante a separação dos elementos da phrase estreitamente
ligados pelo sentido, aponta-lhe o prof. Diez,
além da causa hereditaria (o genio da lingua latina), mais
duas. Uma, o terem sido os primeiros documentos dos
novos idiomas, composições poeticas; outra, a imitação
do estylo latino, que lhes servia de modelo.

Resultado necessario da applicação de uma ordem mais
livre, diz o celebre romanista, foi o triumpho do principio
logico sobre o grammatical: a construcção fica dependente
da intelligencia e do bom senso do leitor, e não mais se
opera segundo as estrictas conveniencias grammaticaes.

7 – A regra ordena a collocação do subst. em relação attributiva,
depois do subst. principal, mas a faculdade inversativa
é grande, mórmente no estylo erguido, alcandorado:

Cessem do sabio Grego, e do Troiano
as navegações grandes que fizeram
Calle-se de Alexandre, e de Trajano
a fama das victorias que tiveram.
(Cam.)

do peccado da luxaria brevemente fallando.485

8. – Adjectivo. – 1.° A significação de muitos adjectivos
é determinada pelo logar que elles occupam na proposição,
e este facto era extranho ao latim. No sentido proprio occupa
o logar que especialmente lhe convem; no figurado é proclytico:
pallida; morte; cego desejo; agro-doce;
(Liç. XI).

O exemplo de certo é curioso; noticia certa, (certa noticia).
Proprio antes do substantivo conserva a significação originaria;
depois, toma sentido desconhecido no latim, de –
purus, mundus; casa propria (propria casa). Só, antes do
art. indef. = unus; depois = singulus (um homem só; um
só momento
).

2.° Quando attributo, o adjectivo colloca-se de preferencia
em latim antes do verbo sum, e muitos exemplos se
encontram dessa construcção no portuguez antigo.

3.° Temos, porém, regras mais ou menos restrictas.Vem
antes mais ou menos rigorosamente:

a) – Quando, de pequena extensão, o sentido nada contem
de caracteristico;

b) – Quando o substantivo é nome proprio: – o sublime
Tasso; o divino Platão
; Mas segue-o quando queremos
chamar a attenção para o nome: = Affonso o sabio; Frederico
o grande; Albuquerque terrivel; Castro forte.

c) – Quando designa qualidade que pertence essencialmente
ao substantivo.

d) – Quando o adjectivo exprime certas relações externas
(só em estylo poetico): – o brasileo solo; a forte
gente
.

4.° – Vem depois: a) – Quando o adjectivo acha-se na
dependencia de outras palavras, e seguido de um complemento
ou acompanhado de adv., cede quasi sempre o 1°
logar ao substantivo: – homem ambicioso de glorias.

b) – Em regra, quando os adjectivos referem-se ao
mesmo nome, este deve ser expresso em 1° logar: – uma
estrada areenta, fragosa, declive
.486

Na phrase – eu amo a boa musica italiana, bóa é o
epitheto, musica italiana é uma expressão composta, designativa
de um genero particular de musica. Id. formoso
ginete alazão
. Nestes casos o subst. toma logar intermediario.

c) – Quando o adjectivo indica uma qualidade caracteristica
do substantivo, e como que a quer pôr em evidencia:
o imperio romano; a guerra civi1.

5.° – Ha muitos adjectivos que não podem preceder os
substantivos. Neste caso estão alguns participios passados,
que não podem ser proclyticos por haverem conservado
vestigio do valor verbal. Antigamente, porém, vinham
esses part. pass. de preferencia antes do substantivo,
como hoje acontece com os part. presentes.

6.° – A collocação do adjectivo epitheto era livre entre
os antigos, quer concorressem muitos adjectivos referentes
ao mesmo substantivo, quer viesse o adj. acompanhado
de complemento: – somos filhos da nova Jerusalém e
celeste.

A verdade é que o logar do attributo é arbitrario ainda
hoje, e parece que nessa collocação influe o accento tonico
oratorio, que recahe no adjectivo posposto ao subs. – cavallo
preto
; quando se dá a inversão, como, p. ex., no
caso em que o adjectivo exprime uma qualidade particular
ou distinctiva do substantivo, o accento, recahindo no adjectivo,
dá-lhe á significação mais vigor, mais energia: –
horrivel crime; infausta noticia.

7.° Os nomes de numero seguem a syntaxe antiga, com
ligeiras modificações, como p. ex. na maior liberdade que
havia na inversão: – o nove capitulo por capitulo nove.

Empregamos na successão, ordem, tanto o ordinal
como o cardinal (seculo 14 ou 14°, Luiz II ou II 0), e este
de preferencia, excepto quando o numero vem antes, que
então deve ser ordinario. Podemos empregar os cardinaes
por que esses adjectivos são determinativos, e como tambem
487que qualificam os nomes: – diz-se Luiz XIV como se diz
Pedro o Cru.

Excep. Pedro 2°; Affonso 1°; Napoleão 3°; (os numeros
simples, emfim), etc.

8. – O artigo vem sempre antes do substantivo ou adjectivo
que determina.

Nas phrases D. Henrique o Navegador; todo o dia;
ambos
os livros, etc., a ordem do determinativo não é
devida a previlegio seu, mas á liberdade que teem o substantivo
e adjectivo proclitico. Como observa o professor Diez,
elle só se prende á idéa que deve determinar.

Todavia o artigo póde ser separado do nome por um
adverbio ou expressão adverbial: – a sempre senhora
minha
.

9. – Participio e verbo auxiliar – Nos tempos periphrasticos
a ordem regular é – 1° o auxiliar e depois o
participio, mas a inversão faz-se commummente: – todos
chegados haviam; pois que chegado era; a dama que
Visto elle já tinha
, etc.

E a mesma liberdade existiu em todos os tempos
com relação ao infinito; ouvir não quis; vir não poude.

10. – Attributo do regimen. O regimem póde vir perto
do attributo ou delle separado por uma ou mais palavras.

1.° O attributo póde preceder ou seguir immediatamente
o regimen;

a) – verbo + attributo+ regimen,

b) – verbo + regimen + attributo.

A 2ª ordem é hoje mais usual; a 1ª era mais frequente
no portuguez antigo.

2.° O attributo póde vir separado do regimen por
varias palavras, e geralmente neste caso o verbo occupa
logar intermediado.

a) – Attributo + verbo + regimen.

b) – Regimen + verbo + attributo.488

A 1ª ordem era frequente no latim; a 2ª – a inversa
– é hoje a mais usada.

Esta ordem, que traz o attributo separado do regimen,
a regularmente empregada quando o regimen
é pronome; mas se o regimem fôr um nome, deve
ficar perto do seu attributo.

11. – O pronome pessoal póde vir antes ou depois do
verbo, ás vezes de rigor, como nas pessoas do imperativo,
outras para maior elegancia ou energia da phrase:
d’aqui me vem a mim o parecer.

O pessoal conjunctivo deve vir immediatamente ligado
ao verbo, afim de que receba a sua acção antes dos
outros membros da proposição. Desde os primeiros
tempos da lingua, porém; que elle se pode separar, como
tambem acontecia no hespanhol antigo: - se me tu não
vales, m’o não consentiu elle, onde a ninguem visse
. (Vide
lição 40).

12. – Com os verbos dizer, replicar, responder, retorquir,
etc., nas citações e phrases incidentes, o sujeito
deve vir depois do verbo.

13. – São em geral construidas na ordem inversa,
as proposições que começam por um adverbio, e no
portuguez antigo tambem as que começavam por um
attributo, regimem directo, indirecto ou circumstancial
e ainda por uma conjuncção.

14. – O complemento circumstancial (de tempo, logar,
etc.), que hoje mais se colloca depois do verbo, occupava
varios logares da phrase no portuguez, conforme
a conveniencia do sentido, mas vinha particularmente no
principio.

15. – Tambem, como no latim, tinha o portuguez
antigo mais liberdade na collocação do adverbio, quer
fosse de logar, de tempo ou de modo.

Em regra, sempre se collocava perto da palavra que
elle modificava; mas nos primeiros tempos nota-se certa
489tendencia para collocal-o no começo da phrase, principalmente
os de modo.

16. – Da ordem das proposições simples no periodo.
– As subordinadas collocam-se na ordem de dependencia
em que estão da principal; as coordenadas –
conforme o sentido e a successão de idéas que se quer
manifestar.490

Quadragesima lição
Collocação dos pronomes pessoaes

1° – Os pronomes podem ser encliticos, mesocliticos e
procliticos.

A sua collocação depende de ser elle sujeito ou objecto;
e muitas vezes mais lhe determina o logar, a harmonia, o
ouvido, a emphase.

2° – Pronome sujeito. – Colloca-se em geral antes do
verbo, excepto os casos acima apontados:

a qual cousa se a tu ouvires;
(R. S. Bento)

se me a razão tu dizes
(Id.)

Tudo isso sois vós, ou é vós tudo isso.
(Castilho)

E’ enclitico:

a) – Com o imperativo dos verbos, quer a phrase seja
affirmativa, quer negativa: – chama tu; não chames tu. Só
se emprega o pronome para dar mais vigor á phrase,
emphase.

b) – Quando a phrase começa por um participio: –
cansado eu de escrever; acabando elle de fallar.

c) – Nas phrases interrogativas: – Que estudam elles
agora ? – Mas si a phrase começar pelo verbo, temos
modernamente liberdade de inversão: – estudam elles
agora ?; elles estudam agora ?

d) – Com os verbos no subjunctivo quando se supprime
a conjuncção: – Si elle quizesse vir; quizesse elle vir.

e) – Com verbos no infinito: – Procederes (tu) assim é
cahires no peccado da preguiça.

Nota. – Nos tempos compostos o pronome sujeito vem
antes do auxiliar ou entre o auxiliar e o participio.491

3.° – Pronome objecto – Tambem a sua collocação
está sujeita a regras.

a) – Com o infinito pessoal o pronome objecto antepõe-se
sempre: – amares-me-tu (Cp. – para tu me amares.)

b) – Nas phrases imperativas o pronome objecto é enclitico
nas phrases negativas, e isso desde os primeiros
tempos da lingua: – chama-o; não o chames.

c) – Quando concorrem dous pronomes regimens, o que
está em relação de dativo deve preceder ao outro em
relacão accusativa: – Elle m’o deu.

Por muyto mal que me lh’eu menti (D. Din.)

d) – Nos tempos compostos colloca-se o pronome antes
do auxiliar, ou entre o auxiliar e o participio: – Nós o
temos visto, tinha-o visto, temol-o visto
.

E’ proclitico:

a) – Depois de qualquer adverbio de negação, de tempo,
logar, quantidade e modo, quando a phrase começa por
elle:

Elle não me diz
nunca me esqueço.
sempre te estimei
nos encontraremos
muito me agrada
bem me parece.

b) – Com as fórmas do futuro e do condicional,
quando vem claro o pronome sujeito: – eu te lembrarei
(= lembrar-te hei) tu lhe dirás) = dir-lhe-as) elle me lembraria
(= lembrar-me-hia).

No futuro anterior ou condicional composto, precede-o
sempre o auxiliar: – elle me terá dito, me teria dito
(= ter-me-hia, ter-me-ha dito .)

Nota – Nas 2as, formas os pronomes são mesocliticos,
e só se empregam com futuro do indicativo, condicional,
ou na interrogativa.

c) Nas orações de gerundio, quando a phrase começa
pela particula em: – em me fallando (= fallando-me).492

d) – Com verbos no subjunctivo: – si me visses;
quando elles
te procurarem; sei que me estimas; Principalmente
precedido de que.

e) – com o verbo no infinito: - sem o ler. Mas
tambem - sem lel-o.

Quando concorrem dous verbos do infinito, é grande
a liberdade de collocação:

sem nos poder conter
sem poder conter-nos
sem poder-nos conter

4 – Não se deve começar uma oração pelo pronome
em relação objectiva (me parece, te disse, lhe fallei). O
povo (no Brazil) conserva-se, porem afferrado ás fórmas
procliticas, que ainda são correntes no hesp. e no ital.
(me voy, me ne vado), e eram dos primeiros documentos
da lingua portugueza, que moldou-as pela syntaxe latina 1352.

O emprego proclitico do pronome, a par da fórma
enclitica, data do sec. XII.; No XIV é manifesta a preferencia
pelas fórmas procliticas (quando em relação
adverbial ou conjunctiva), e que mais se accentua e
torna-se geral, uniforme, no XV.

5 – No latim barbaro a preferencia é pela posposição do
pronome obliquo: – non calumniemus vos; quos me dedisti;
dedit uno servo et tornavit
illo; concedimus tibi, placuit nobis;
etc. 2353

Mas que o povo portuguez mais se affeiçoou á anteposição,
provam-no os seus dizeres, proverbios, juras, precações
e imprecações: – O demo te leve; o diabo te carregue;
Deus
te ouça; Deus te ajude; máos raios te partam;
Deus
me livre, etc. 3354493

Quadragesima primeira lição
Das notações syntacticas. – Pontuação. –
Emprego de lettras maiusculas.

1. – Notações syntacticas – Dá-se esta denominação
aos signaes de que nos servimos na escripta para mais
aclarar o sentido da phrase, e indicar ao leitor não somente
as varias pausas necessarias, senão tambem os varios
passos emocionaes ou de movimento psychico.

Umas referem-se ao sentido da phrase; outras indicam
a intensão, o sentimento de que se acha possuido o escriptor
Aquellas são objectivas; estas, subjectivas.

2 – As 1as constituem propriamente os signaes de pontuação:
virgula, o ponto e virgula, os dous pontos e o
ponto (final).

Virgula. – Emprega-se a virgula:

Para separar os termos e orações de igual especie, não
ligados por conjuncção:

O raciocinio, a palavra articulada, a crença em um Deus, são as
qualidades que distinguem o homem do bruto.

Tudo isto que vemos com os nossos olhos é aquelle espirito sublime,
grande, ardente, immenso. (Vieira).

A virtude risonha acompanha-nos a toda a parte, amolda-se aos
tempos, e cinge-se ás occurrencias. (Rab. da Silva).

Depois, vem outra epoca da vida em que a felicidade é mentira,
mais ainda é felicidade, posto que já é eivada de vaga inquietação,
de ambições desregradas, de especulações mesquinhas e outras contradictorias
(A. Herc.)

Para separar as palavras em apostrophe, ou as apposições:

Boas lettras, senhor, não são baixeza.494

Para separar orações intercaladas: 1355

A vida, dizia Socrates, só deve ser a meditação da morte.

Para separar proposições de gerundio e participio, e
outras circumstancias pouco extensas, principalmente si
precedem verbo:

Espedaçando as lanças, tudo atroam.

Chegada a epoca, mostrou que lhe não podiam negar a fé, o amor,
o esforço, e arte.

Para separar adverbios e locuções adverbiaes da sentença
com força conjunctiva, quando por ellas começam as
sentenças:

Assim, lembra-te sempre de que a morte pisa com o pé igual o
palacio do rei e a choça do pobre.

Para separar, no meio da phrase, as conjuncções conclusivas
e a adversativa porém:

Quiz o fado, porém, que Camões definhasse á mingua, só, desamparado
dos amigos, do rei, da patria.

Para indicar a ellipse do verbo, quando se dá a figura
zeugma, e ainda na inversão asyntactica:

A grita se levanta ao céo, da gente.

O ponto e virgula separa as proposições extensas
coordenadas, as enumerações mais amplas, principalmente
quando já estão divididas por virgulas:

O dito arabe foi desmentido; mas a resposta gastou oito seculos a
escrever-se: Pelaio entalhou com a espada a primeira palavra della
no Serros das Asturias; a ultima gravaram-na Fernando e Isabel com
pelouros de suas bombardas, nos panos das muralhas da formosa Granada;
e a esta escriptura estampada em alcantis de montanhas, em
campos de batalha, nos portaes e torres dos templos, nos lanços dos
muros das cidades e castellos, accrescentou no fim a mão da Providencia;
«assim para todo o sempre. »
495

Os dous pontos empregam-se antes de uma citação,
enumeração, explicação ou conclusão:

Não se farta a cobiça com a riqueza:
mais arde o fogo quando tem mais lenha
(Cam. – Ecl. 13.)

Diz o proverbio popular: Quem falla, semêa; quem ouve recolhe.

Dos meninos é proprio o aprender; dos mancebos o emprehender,
dos varões o comprehender; dos velhos o reprehender.

O ponto final emprega-se no fim da phrase, sempre que
o sentido estiver completo.

O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

3. – As notações subjectivas ou psychicas são as reticencias,
o ponto de interrogação e o de exclamação.

A reticencia indica subita suspensão do pensamento, e
ainda tibieza, duvida ou refolho:

não vos atalho mover o passo a longes territórios… mas não; fica.

O ponto de interrogação é empregado no fim das phrases
interrogativas:

Homem, que es tu perante a face do Senhor ?

O ponto de admiração, no fim de uma phrase exclamativa:

Oh immatura morte, que a ninguem
de quantos vida teem, já mais perdoas !

4 – Ha outros signaes ainda, simples auxiliares, que
servem apenas para maior clareza da escripta. São – as
aspas, o hyperbato, a alinea, o parenthesis, o travessão, etc.

As aspas indicam uma citacão textual. Escreve-se este
signal ao começar e fechar a citação.

“Se amas a vida – disse um sabio – não desperdices o tempo,
que é o estofo, de que ella é feita”.
496

A alinea. – O seu nome está dizendo o que é (á
linha
):

Quanto ao desenvolvimento da expressão, o estylo póde classificar-se
do seguinte modo:

conciso
preciso
desenvolvido
prolixo.

O parenthesis serve para encerrar palavras ou phrases
de sentido independente ao periodo. O parenthesis não
deve ser extenso, nem empregado frequentemente, «como
fazem os que não sabem achar logar conveniente para as
idéas. »

Perseverar no erro (depois de conhecel-o e nelle ter cabido) é fazer
do erro porfia, com descredito do juizo.

O travessão indica maior pausa que a virgula, que
chamamos a attenção do leitor para o que se segue, e, nos
dialogos, á entrada de cada interlocutor.

Elmano, lê- me os teus versos.
– Melhor sorte me dê Deus !
Tremo d’isso ! – E porque tremes ?
– Porque podes ler-me os teus.

(O hyphen é um traço horisontal que serve para separar
syllabas no fim da linha, etc.)

5 – Nos primeiros mss. o unico signal de que usavam era o ponto
(colo); nos Cancioneiros, a pontuação deve ser considerada antes
como indicativa de inflexões ou accidentes da musica por que eram notadas
as cantigas, de que como logica d’incisos grammaticaes; pois
“ afóra pontos fallecem-lhe todos os outros signaes orthographicos
actualmente em uso”. 1356

No Sec. XVI muito descuravam os copistas da pontuação, que já
consistia no coma (dous pontos), colo (ponto), vergas e virgulas.
C. Michaelis confessa a difficuldade que muitas vezes encontrou para
comprehender immediatamente o pensamento do autor, pelo máo ou
nenhum pontuado.
497

6 – Emprego de lettras maiusculas. – São usadas
nos seguintes casos:

No começo de um periodo, e no de uma phrase que se
segue a um ponto final, de interrogação ou admiração.
Nem sempre, porém, se emprega depois do interrogativo,
principalmente quando não é para obter resposta, mas para
dar mais força ao pensamento, para exprimir emoção
violenta:

Como ? da gente illustre Portugueza
ha de haver quem refuse o patrio Marte ?

Para começar uma citação, que neste caso é precedida
por dous pontos:

S. Paulo disse: Quem ama ao proximo cumpre a lei.

Nos nomes proprios, pronomes de reverencia, titulos
nobiliarchicos;

João; Vossa Senhoria; o Visconde do Rio Branco.

Nos nomes de composições litterarias e artisticas,
jornaes, etc.:

AI lliada; os Lusiadas; a Noute é uma das telas de Pedro Americo;
o Jornal do Commercio.

Como inicial dos nomes de cousas personnificadas: –
a Arte, e das adjectivações consagradas pelo uso ou convenção:
Creador Pae Omnipotente (com referencia a
Deus); Fidelissimo (id. aos Reis de Portugal), etc.

Nos nomes dos edificios notaveis, repartições publicas,
etc.: – o Pantheon, o Museu Nacional, a Casa da
Moeda
.

Mas hoje já se escreve com muito mais liberdade quanto ao emprego
de maiusculas (alfandega da côrte, thesouro nacional – o que
póde dar logar a equivoco –, o barão de Macahubas, etc.

O começar cada verso por lettra maiuscula não é hoje
de rigor.498

Quadragesima segunda lição
Figuras de syntaxe – Particulas do realce

1. – A syntaxe emprega varias figuras para maior
clareza do pensamento ou harmonia da phrase, para maior
energia da expressão ou colorido.

2. – As principaes figuras de syntaxe (de construcção
ou grammatica) são:

a) Elipse. – E’ a suppresão de uma ou mais palavras
necessarias á perfeita construcção da phrase, que todavia
conserva sentido claro.

A ellipse tanto omitte o sujeito, o verbo e o attributo,
como todos elles ao mesmo tempo, os varios complementos,
preposições, conjuncções, etc.

Redobrae (vós) com mãos piedosas
Esmolas que milagrosas
Recobrareis feitas rosas
Nos campos do eterno abril
(Cast.)

Bemaventurados (são) os pobres de espirito.
Era um velho (dotado) de semblante severo.
(Nos) Somos (alumnos) do Collegio Menezes Vieira.
Irei (no) domingo; (por) sessenta annos vi-a consumir-se na meditação;
peço-te (que) me escrevas, etc.

A ellipse é devida á impaciencia do espirito humano, á
sua imaginação arrebatada, ao desejo de chegar com rapidez
á solução do raciocinio (Lat. Coelho).

A ellipse é um dos resultados da lei de menor acção.
A do verbo é frequente em todos os periodos da lingua.499

Occorre principalmente:

a) Nas phrases intimativas:

Aos infieis, Senhor, aos infieis
E não a mim que creio o que podeis.
(Camões)

b) Nas exclamações; – No mar tanta tormenta e tanto
damno
(Id.)

c) No começo das interlocuções:

Qual em cabello: Oh ! doce e amado esposo
Sem quem não quiz amor que viver possa.
(Id.)

d) Nas locuções populares: – commigo não; máo máo,
etc. Tambem é vestigio da tradição latina – nihil ad me;
di meliora
(deut).

e) Nas construcções participaes: – Passados alguns
annos
. É vestigio do ablativo absoluto latino 1357: Em penedos
os ossos se fizeram; Mostrou-se affavel com os povos,
com os soldados liberal
.

Pleonasmo. – E’o emprego de palavras superftuas na
apparencia, mas que servem para dar mais força ao pensamento:
Importa-lhe a um homem passar ás Indias;
Ouvir com os ouvidos; vêr com os olhos
, etc.

O pleonasmo oppõe-se á ellipse. E’ figura que em nada
altera a construcção grammatical.

Inversão. – E’ inverter a ordem, consagrada pelo uso,
dos termos da proposição ou dos membros da phrase;
para evitar ambigudade ou dissonancias, para tornar a
expressão mais energica ou graciosa.

Anastrophe . – Consiste na inversão das palavras correlativas.

Hyperbato. – E’ tambem uma especie de inversão, que
transpõe expressões e pensamentos, geralmente para harmonia
500do tecido da phrase: – Nas tormentas da maledicencia
o mais tranquillo e abrigado porto é o silencio
.

E’ tão frequente no portuguez como a ellipse.

D’ahi a graciosa brevidade da nossa lingua, e a sua harmonia.

Hypallage. – E’ a figura que muda a construcção invertendo
a correlação das idéas.

Enallage. – Consiste em mudar os modos e tempos
dos verbos (vou p. irei, fôra p. fosse, amára p. amaria,
chega
p. chegou, …)

As narrações mais ganham em colorido, quando se emprega
o presente pelo passado.

Syllepse. – Esta figura faz a palavra concordar, não
com o seu correlativo, mas com a idéa que elle comprehende.
“A palavra deixa então de responder ás
regras grammaticaes, para responder ao novo pensamento.”
E’ incorrecção a que ninguem hoje se abalançaria,
mas de que temos exemplos no portuguez antigo.
(Essa gente, eu os vi bradando; e o povo apedrejaram…)

3. – Temos ainda algumas figuras, a que chamam de
dicção ou de palavras propriamente ditas:

Repetição. – Para dar mais energia á phrase, repete-se
uma ou mais palavras. – Ai ! coitado de ti’ ! ah
triste, triste !; Tu, só tu, puro amor; Já não me ouves ?
não te hei de ver ?; No mar tanta tormenta e tanto dano,
tantas vezes a morte apercebendo (Cam:); O ouro a terra
o cria, a terra o tem
(A. Ferr.)

Reduplicação. – E’ a repetição, não de palavras, mas
de idéas: – quedou-se mudo, e não articulou palavra.

Pode dar-se pela synonymia ou quasi synonymia: –
Era fogo, era raio, era corisco (V. do Arc.).

Anaphora. – E’ a repetição de uma ou mais palavras
no principio dos diversos membros de um periodo.

Antistrophe . – E’ o contrario da palavra. Sirva de
exemplo esta passagem de Bourd: – O universo é dominado
501pelo espirito do mundo; o homem julga segundo o
espirito do mundo; procede e governa-se de accôrdo
com o espirito do mundo; até estimaria servir a Deus conforme
o espirito do mundo
.

Disjuncção. – Subtracção das particulas subjunctivas,
e com isso o estylo ganha em rapidez e melhor destaca os
objectos – vim, vi, venci. Está tudo contente, alegre tudo;
eu só, só pensativo, triste, e mudo
. (Cam. Ecl.)

Antanaclase. – E’ a repetição na phrase, de uma
mesma palavra tomada em diversa accepção: – Formosa
virgem
clara, inda mais clara que a luz ante quem foge a
noite escura; Com
pena te lavro a pena.

Si as palavras formam opposição, a figura chama-se
antimetathese.

Paronomasia. – E’ a approximação de palavras de som
quasi identico, mas cujo sentido differe, ou trocado
feito pelas varias mudanças de sentido: – E o peior é que
não só se vê em nós a meninice, que é defeito da idade, senão
as meninices, que o são do juizo; Dos meninos é proprio o
aprender; dos mancebos o emprehender; dos varões o comprehender,
mas dos velhos o reprehender
.

4. – Particulas de realce – A’s vezes acompanham
esporadicamente o objecto directo, certas particulas
– sem significação nem função grammatical – a que
chamam alguns grammaticos – de realce, outros –
expletivas. Ex. Quasi que me perdi; em começando a
chover; deixa-os lá fallar; cumpri o meu dever; arrancou
das espadas
.

Em sabe fazel-as, disse-as boas, as não é particula de realce,
como erradamente se tem escripto. Em outro logar já lhe explicamos
a origem.

O professor F. Barreto, visto haver exemplos de objecto directo
acompanhado de preposição não expletiva (nem elle entende a nós, nem
nós a elle
), diz que melhor, fôra empregar a denominação objecto directo
sporadicamente preposicional
, que comprehende os casos expletivos
e não expletivos.
502

Quadragesima terceira lição
Dos vicios de linguagem

1. – Chamam-se vicios de linguagem as anomalias da
lingua, devidas á ignorancia popular, ao deleixo do escriptor
subalterno, e ás vezes ao pedantismo classico.

Comprehendem os barbarismos e os solecismos.

Barbarismos são os vicios lexicologicos: consistem no
emprego excusado de palavras e phrases estranhas á lingua,
sem a quéda e o geito das nossas « com que querem conviver »;
em dar á palavra emprego differente do que
realmente tem; em articular e accentuar erradamente os
vocabulos. Ex.: – buoquet, comité, … taciturno (empregado
por triste), carrinhos (em vez de carrilhos), confeccionar
por fazer, organisar, pégada por pegáda, etc.

Os solecismos (barbarismos de phrases) consistem no
emprego de construcções viciosas, contra a indole da
lingua. São pois vicios syntacticos: – tu sois, para tu,
houveram homens
, etc.

2. – São principaes vicios de construcção:

Amphibologia ou ambiguidade. E’ a construcção a que
se póde dar duplo sentido: ama o povo o bom rei, a aguia
matou a pomba no seu ninho
.

Obscuridade. – E’ a falta de clareza, pelas muitas
ellipses ou hyperbatos exagerados: – Certo é que quaesquer
hitorias muito melhor se entendem, se perfeitamente e bem
ordenadas, que o sendo por outra maneira
.503

A certas as quaes cartas ou os quaes sermões de sancta
auctoridade do vedro, ou novo Testamento, non é senon muy
dereyta carreyra da vida humana
.

3. – Os barbarismos tomam as denominações de hellenismos,
latinismos, germanismos, hebraismos, etc. conforme
a sua origem.

Do sec. XII ao XIV é a época dos latinismos entrados na
lingua naturalmente; do V ao XII é o dos germanismos;
do VII ao XIII é o dos semiticismos; no XII germinam os
gallecismos; No XV recomeça o imperio dos latinismos,
que se estende ao XVI, notavel ainda pelos hespanholismos
e italianismos, etc. Hoje temos de tudo isso a mascavar a
lingua; mas os principaes barbarismos, não só porque mais
avultam em numero, senão tambem porque mais a afeiam,
são os gallicismos.

4. – Temos gallicismos lexicos e syntaxicos.

a) São gallecismos lexicos: – bouquet, soirée, negligé,
fauteuil, comité, toilette, boudoir, coquette, desolado,
nuança, petimetre, plateau, bello espirito, (p. engraçado,
chistoso), chefe d’obra (obra prima), grande mundo (sociedade
selecta, elevada), guardar o leito (estar de cama),
deboche (dissolução, desmancho de costumes, devassidão,
corrupção), etc.

A era dos gallicismos data do Sec. XII; mas é principalmente
da época de D. João IV que o portuguez começou a
modificar-se sob esta influencia no lexico e na syntaxe
(tacha, vianda, trampear – tromper – quitar, esguardo,
apres – ensembra, jalne-amarello
…)

Alguns gallicismos, condemnados – por S. Luiz, N. de
Leão, Tullio, etc., não o devem ser. Adiar, activar,
annuidade, barricada, felicitações
(porq. se temos
felicitar, lat. felicitare = tornar feliz, Donato ?), inabalável,
inconcebivel, regressar (l. regredior, regressus), rotina
(dim. de rota, ant. ruto, lat. rupta), etc. Tambem não
devemos condemnar trenó = fr. treneau, porque não
504exprime exactamente o mesmo que trilho, gorra ou seléa;
Tartufo
(que é um neol. por ficção litteraria), nem os
modos usuaes de fallar – cahi das nuvens, perdi a cabeça,
etc. porque representam figuras communs a todas as linguas. 1358

Ha gallicismos hoje correntes, – cache-nez, abat-jour
(que chamaria – quebra luz), banal, fatigante, etc.

b) São gallecismos de construcção: – fazer um passeio;
a festa terá logar; partil
ho das suas opiniões; rapaz de má
conducta
, etc., e enxertos que devemos regeitar.

Tambem ha construcções para as quaes achamos injustas
a condemnação de barbaras, como p. ex.: sem ti
não alcançaria este lugar; o que ha de ruim, etc.

5 – Quando os vicios oppoem-se á harmonia da phrase
ou euphonia, chamam-se vicios de harmonia. – Os principaes
são – a cacophonia, o echo, o hiato, a collisão.

Cacophato é o vicio resultante da concurrencia de
syllabas formando um vocabulo inconveniente, ou torpe:
alma minha, a tua opinião como as concebo, tens-me já
dado
amor bastantes penas, por cada vez, a faca d’ella, …

Echo é a dissonancia resultante da repetição das
mesmas syllabas: – o seu estado inspira cuidado; um ente
independente.

Hiato é a dissonancia produzida pela successão de
vogaes, principalmente abertas: – á aula.

Collisão é o vicio resultante da repetição de certas
consoantes (r e s finaes).505

Quadragesima quarta lição
Anomalias grammaticaes – Idiotismos – Dialectos –
Provincialismos – Brasileirismos

1. – Anomalias grammaticaes. – São factos da linguagem
insubordinados ás leis grammaticaes.

Podem ser phonicas, morphologicas e syntacticas.

a) O l inicial latino persistiu no portuguez, ou permutou
– raras vezes – em r e n; e todavia – como acontecia
ao medio, mesmo em latim, o l inicial latino transformou-se
em d: – deixar, ant. leixar, lat. lasciare;
dimite
(limite), … O grupo pl latino foi substituido na
linguagem popular pelo grupo portuguez ch: – plorare =
chorar, pluvia = chuva, plenus = cheio, . . .. mas, por influencia
hespanhola, planus deu lhano (por – chano, chão,
chaneza
p. lhaneza, etc.)

b) – A palavra carrilho = meio, caminho, adulterou-se
em carrinho na phrase vulgar – comer a dous
carrinhos; malandrim corrompe-se em malandro; cinca
alarga-se em cincada.

A semantica 1359 pois, é tambem origem de anomalias
grammaticaes.

c) – São mais raras as anomalias syntacticas, e ás
principaes já nos temos referido: – eu parece-me, ter p.
haver (tem muitos homens incapazes do bem), o pronome
506sujeito proclitico, nas phrases interrogativas: –
tu queres comer ?; começar a sentença pelo pronome
apassivador se: = se contam cousas do arco da velha, etc.

2. – Idiotismo. – Dá-se este nome (do grego idiotismos
= modo de fallar trivial, vulgar) ás dicções, aos
factos grammaticaes, peculiares a uma lingua, mas que
muitas vezes reagem á analyse.

Os idiotismos germinam de preferencia na linguagem
familiar e popular; mas – como pondera Longino –
dão elegancia e energia ao discurso, e delles se aproveitaram
com vantagem escriptores classicos e de boa nota.

Os idiotismos são phrases construidas contra a etymologia
e a syntaxe natural da lingua, e cuja significação é, em
regra, arbitraria e convencional.

Os idiotismos convencionaes coincidem em varias
linguas: – schöne Fraue, a pretty woman, bonita mulher
é o mesmo que femina formosa, apesar da inversão dos
termos; there are birds, il est – il y a – des oiseaux, ha
passaros
, tem em outras linguas equivalentes logicos. How
do you do = comment vous portez vous = como estaes
?

Ha, porém, differenças idiomaticas que só podemos
verter para outra lingua por meio de um equivalente periphrastico;
ha palavras cuja traducção exacta é impossivel,
como p. ex. – all. ahnen, verbo, e o subst. derivado
ahnung; ing. home; port. saudade, etc. 1360

São idiotismos vernaculos - o infinito pessoal, a propriedade
singular do verbo haver, varias transposições
arbitrarias, o emprego do adj. art. antes do adj. poss.
(a minha casa), que tambem era de uso no hesp. do Seculo
507XVII, e nas outras linguas romanas – il mia favella; le
mien cheval
, etc.

3. – Dialectos. – Dialecto é a lingua peculiar a uma
provincia, cidade ou estado, alterada do idioma d’onde
procede – na pronuncia, na accentuação, desinencias, no
lexico, na syntaxe.

A’s vezes o dialecto conserva fórmas mais primitivas que
a lingua classica, e muitas outras o seu vocabulario excede
ao desta em riqueza 1361

Varias são as causas concurrentes para as differenciações
dialectaes, – o clima, os grandes cataclismas das raças e
sociedades, o gráo de cultura litteraria.

São tres os dialectos portuguez – gallego, – o indo­portuguez,
o suajo.

O gallego representa uma phase evolutiva do portuguez
antigo. No seculo XII havia em Portugal duas linguas
identicas no fundo - o galleziano fallado ao norte do
Mondego, e o aravio, ao sul. Estes dous dialectos, que
mais differençavam na phonetica, “foram gradualmente a
fundir-se á medida que se estabelecia a unidade do territorio
portuguez”.

O gallego ficou estacionario; ao passo que o portuguez
seguiu o seu desenvolvimento natural. 2362

Vou âs vecinas romaxes,
Vou ôs pobos, vou âs feiras,
E de cote ven meus ollos
Rapazas garridas n’elas
Vexo mocinãs que teñem
Dentes que parecen pelras,
Meixelas como craveles
E dourada cabeleira,
Bermellos labios, y-ús ollos
Que tolo a un santo volveran
508

O africano e o indo-portuguez datão do Sec. XV, e são
fallados em Ceylão, Diu, S.Thomé, Cochim, etc. O ultimo
tende a desapparecer ante a supremacia do governo inglez.

No portuguez de S. Thomé é de notar a queda do r
(jadim, stoia, bendê, bendedô… = jardim, historia, vender,
vendedor); a sua permuta pelo l (luá, pledê, calo =
rua, perder, caro); os vestigios da antiga pronuncia
(Sec. XII, ainda conservada na Galliza) – notchi noite,
negocho negocio; as formas syncopadas nìno menino,
poçon povoação, etc.

Formam o plural em i, mas geralmente pela anteposição
pronominal: – inem moço = elles moço (moços).

Especimen

Padê nosso cu sá no cjé, santificado seja vosso nome, venha nosso
vosso lêno, seja feta vossa vontade achi na tela cu mo no cjé, pom nosso
dji cada djá non da hodje, podoá nom dji tudo djivida cu nom câ lê,
achi cumô nom cá podoá nosso devedô, nom dessa nom quiê ni tentaçon,
mas livla nom de tudo mali. Amen Jigú.

No portuguez de Cochim, são muitas as corrupções phoneticas:
e p. a (ainde, noves), i p. e (canri, grandi),
na p. em (na todo logar), o p. a (madrinha, miserio), etc.

Formam o preterito com ja (quem ja fala = falou), o
imperativo com vae (vai nos faze); empregam o presente
pelo imperfeito e futuro (quilai 1363 te bote – botavas; que
dia vosse
te parti = partirás), etc.

Formam o plural pela reduplicação:-senhor senhor =
senhores.

Especimen

Bom dia, senhô, quilai tem saude ? – Tem bom, muito mercê. –
Vambos nos vai pesca hoje ? Vambos vai. – Quem já fala ? – Ante
tarde ja foi dos manchu nosso jente, cada manchu ja pega sinco peixi.

Si nos vai, nos lo pegue peixi. 2364 – Nos pode vai justo sinco hora –
Vosse més (você mesmo) compre isca, eu lo faze pronto cordo. –
Vosse podi impesta por mi um anzol ?
509

O portuguez de Diu, tambem apresenta muitas modificações
phoneticas: v. gr. – a troca do e pelo a (lavanta),
a quéda das molhadas, das vogaes e consoantes medias
(imbrui embrulho, quião quinhão), meu, os vossos, su
seu, outr, corp, sempr (omissão da vogal final).

Especimen

Eu já comeu, já fez, etc. Eu had vai.

Mais logo que vêo est os filh que já gastou tud quant tinh com
mulher de má vid, log já mandou matá cabrit gord. Então su pai já
fallou: Filh, os sempr tem junt de mim e tud de min é de ós.

O portuguez de Ceylão é muito mais correcto na pronuncia
e construcção. Basta confrontar o especimen acima
com o seguinte:

Mas este teu filho quem já desperdiça tua fazenda com mundanas
quando já vi, tu já mata por elle o vaccinha gourda. E elle já falla
por elle, Filho, vosse sempre tem com mi, e todas as minhas cousas; tem
vossas. 1365

O portuguez fallado no Brazil diverge do fallado em
Portugal, não só, e mui principalmente, na pronuncia, mas
tambem em algumas transferencias de significação, facto
este a que já nos referimos em outro logar (babado, que no
Brazil tambem sign. fólhos de vestido, fazenda – propriedade
rural, xacara – casa de campo, muqueca – guisado
de peixe, etc .)

O vocabulario é o mesmo, mais opulentado com o
elemento tupy-guarani, e mais alguns termos africanos.
Devemos, porém, attender ás inevitaveis idisyoncracias
mentaes.

Na pronuncia a differença consiste principalmente em
mais fazermos soar as vogaes, no accentuarmos syllabas
subordinadas, e ainda não estarmos tão sob a lei da menor
acção. Influencia climaterica. Pronunciamos pápel, bórdo,
510impérador, corôa, pelotão, … o Portuguez pâpel, bordo,
imp’rador, cr’oa, p’lotão
, etc. E’ tambem muito commum
a troca do e pelo i: – mi deixi minino, que em Port. pron.
sempre menino, etc.

Differenças syntaxicas importantes são raras, e apenas
na linguagem vulgar: – fui na casa, estava na janella; o
emprego do pronome sujeito pelo objecto – vi elle, e tambem
vi-lhe, isto é para mim ler.

4. – Provincialismos 1366 . – São particularidades locaes
no modo de fallar uma mesma lingua dentro do mesmo
paiz, mais ou menos accentuadas na pronuncia, vocabulario
e phraseologia.

As circumstancias que concorrem para o enfranquecimento
dos laços politicos e sociaes, ou para o enfraquecimento
de um povo, augmentam o numero das discordancias
no seio da lingua geral (Whitney).

Mais. Na mesma cidade o homem culto pronuncia de
modo mui differente do analphabeto.

Já S. Rosa de Viterbo notára no Elucidario que, em
innumeraveis dos nossos antigos documentos variava a
escripta á proporção que variava a pronuncia, a qual
muitas vezes até em cada provincia discordava: – S. Cibrão,
S. Cipriano, S. Cibriam, S. Cydram
p. S. Cypriano;
Sanho ane, Sanoanne, Sonoane, S. Oan, S. Jam, S. Jom
,
p. S. João, etc.

Os Madeirenses pron: – máoo, bâoa, p. máo, boa,
trocam o e grave accentuado antes de articulação chiante
ou molhada por a grave: – pâjo, p. pêjo, tânho; e o e
agudo antes das mesmas articulações em ei: – meicha =
mécha; hireige = herege; seige = sége, etc.

Em alguns logares de Portugal mudam ê e ei em ai: –
Baijo; meu báim.511

Os Minhotos trocam o b p. v e o v p. b; pron. om
nasal onde nós dizemos ão: – fizerom, razom, e dão ao
diphthongo ou o som de ão: – são = sou.

Tambem os Beirenses trocam o b por v reciprocamente;
dizem non, som, etc., (fórmas mais proximas do typo latino
nom, sum, etc.); terminam os verbos archaicamente
em ari, êri, iri (amari, beberi, etc.), 1367 e dão ao z um som
de x: – dixe, dixere, que em outras provindas se pronuncia
com o som g – digere, etc.

Nestes modos de fallar ha uma certa harmonia com o
prisco escrever, que muitas vezes é mais etymologico e
harmonioso, como succede nas fórmas antiquadas – terribil,
amabil
, etc.

Os do Algarve e Alemtejo mudam o diphthongo eu em
ei: – mei pai; a molhada lh simplifica-se na liquida l: – eu
dicele
(e assim pronunciavam os nossos maiores); o ei dos
pret. em i: – almoci: etc.; dizem – pidir, midir, etc.
Trocam o z por g – digia, fagia, vigitar, e dizem –
fuge, pacencia, home, canairo, preguntar, precurar, leixar,
dixe, trouve, ao redol
(= ao redor), etc.

Os Conimbrenses pronunciam: – aialma, aiaula, setiora,
novóra, fruita, astrever-se
, etc.

Em Lisboa onde, como espirituosamente observou
um escriptor Portuguez, “hadex ver como franzem o
narix á cuxta do Gallego, e como não handem perceber ou
imaginar que sam ellex quem extá no erro”, pronunciam
– cravão, cravoeiro, cravalho, crapinteiro, menza, auga,
augadeiro, todódia
, etc.

Tambem em Extremadura notam-se as mesmas indesculpaveis
incorrecções, questães, grões, affliçães, etc.

Os da Beira, onde se pron.: – non (= não), som
(= sou), hai (= ha), e trocam o diphthongo ou em oi:
512oivir, oivido, coive, etc.; são, todavia, os unicos que
pronunciam com verdade o ch, cujo som confundimos, e
confundem os de Lisboa, com o de x. E’ assim que elles
dize tchapéo, tchave, tchá, e nunca xapéo, etc. As articulações
ch e x não tinham o mesmo valor, e nessas variedades
e distincções de som está muito a belleza e perfeição
das linguas.

Todos esses vicios, porém, são devidos á tradição, e a
sua persistencia á falta de cultivo intellectual.

No Brazil são mais de notar os provincialismos do
Ceará, Rio Grande do Sul, Goyaz e S. Paulo.

Nesta ultima provincia as syllabas soam todas ellas
largas, abertas; a falla é descansada e como que cadenciada,
a molhada lh não sôa na pronuncia – teiado, miio,
fiio
p. telhado, milho, filho, etc.

5 – Brasileirismos 1368. – São termos e modos de fallar
peculiares aos Brasileiros, e muitissimos d’elles desconhecidos
em Portugal, o que não é para admirar porque o
mesmo acontece aqui de provincia para provincia.

Os termos que seguem são brasileirismos e modos de
dizer proprios a cada provincia.

Arrelia – birra.

Amojada – No norte diz-se, e com cabimento, que a
rez está amojada quando está prestes a parir; estado que
tambem se conhece pelo amojo, rigidez das têtas.

Aluá – bebida feita com agua, assucar e farinha de milho torrada.

Aipim – mandioca (Rio de Janeiro).

Arapúca – armadilha de varinhas para apanhar passarinhos.

Atirar – é a acção que faz o dansante nas dansas populares,
para tirar quem o substitua.513

Atapú – buzio que serve de trombeta ao jangadeiro
para chamar freguezes ao peixe.

Amolar – enfadar alguem com importunidades, palavras
de ôca d’orna, etc.

Amolador – homem enfadonho.

Batuque / Jongo dansa de negros (voe. afr.)

Boquinha – beijo.

Bocaina – lugar estreitado entre serras ou cabeços.

Baião – dansa popular.

Bebida – bebedouro (Ceará).

Barbicacho – cordão com borla, preso ao chapéo para
que o vento o não leve (Rio Grande).

Banzeiro – (alem da signf. propria) – individuo meditabundo.

Brado e corado – homem sem medo, destemido.

Bala / Onça / Topetudo – homem valente, destemido.

Cauim – vinho de mandioca.

Ciscar – estorcer-se no chão após um golpe, pancada, etc.

Chiquerador – tira de couro torcida presa á extremidade
de um páo. Instrumento de castigo. No Rio de Janeiro
e Minas dá-se-lhe o nome de relho.

Cuia – vasilha feita de cabaça partida ao meio, e tirado
o miolo.

Combuca – vasilha feita de uma cabacinha furada, onde
se toma matte.

Capeta – duende (Ceará), demonio.

Chibio – garoto, bregeiro (Norte).

Capim – herva para pasto do gado (voc. tupy).

Coivára – pequenas fogueiras para queimar os galhos
etc ., que escaparam ao fogo geral.

Cuchilar – dormitar sentado ou de pé.514

Cangote – cachaço.

Carapina – carpinteiro.

Caçulo, a – ultimo-genito.

Calundú – amúo, arrufo.

Chilenas – esporas enormes de ferro ou prata, com
grandes rosetas.

Calunga – boneco (Pernambuco). / rato pequeno, murganho (Bahia)

Camondongo – (id. Rio de Janeiro)

Campeão – cavallo em que o vaqueiro campêa (Ceará).

Cavallairano – homem que negocia em cavallos (Ceará).

Cangaceiro – individuo que blasona de valente, sem
ter bullas para isso.

Cabra – filho de mulato e negra ou vice-versa. No
Norte dá-se este nome aos que andam descalços, ou uns
aos outros na conversa familiar.

Cangações – cacarécos (no Norte.)

Catinga – transpiração fetida dos sovacos, bodum,
especialmente dos negros; mato pouco espesso mas garranchoso.
(Ind.) D’ahi vem chamar-se rez catingueira á que
se esconde nas catingas.

Caruára – bezerro enfezado, doente.

Chimango – que pertence ao partido liberal (ao Norte)

Carcará – caranguejo: – que pertence ao partido
conservador (Ind.)

Croá – abobora vermelha (Ceará).

Coirama – botas curtas de couro branco.

Caipira – sertanejo.

Caipora – (tupi caa – pora) 1°, pequeno caboclo bravo,
que vive nas florestas do sertão, malfazendo ás vezes,
principalmente quando lhe negam fumo (superst. pop.);
2°, luz fátua que apparece nos matos; 3°, homem infeliz
nos seus commettimentos.

Caiporismo – infelicidade, insuccesso nas emprezas.515

Chapelina – chapéo usado pelas mulheres sertanejas em
algumas provincias do Norte.

Comadre – mulher do povo, que parteja a gente pobre
e escravas.

Caritó – pequena prateleira que se põe a um canto
(Ceará, etc.)

Cangapé – ponta-pé que faz cahir quem o leva.

Cargueiro animal de carga, e, por extensão, o homem
que o tange.

Caco – tabaco em pó, fabricado e usado pelo povo
(Ceará). Em Minas dá-se-lhe simplesmente o nome de pó.

Desabusado – homem corajoso, pouco soffredor de injurias.

Desfructavel – individuo que se dá ao ridiculo.

Desfructar alguem – metter alguem a ridiculo.

Debicar – chufar, mofar, fazer com que alguem enfie.

Debique – chufa, mofa.

Dadeira – mulher adultera.

Destabacado – destemido.

Encartado – galhofeiro, jovial.

Exquisito – extravagante, que move a riso.

Embiratanha – planta de embira.

Enxamear – encher os vãos das paredes feitas com taipas,
de pedaços de páo e barro.

Encordoar. Encalistrar – amuar-se ou enfiar por motivo de chufas ou
gracejos, tambem se emprega activamente.

Fadista / Findinga – prostituta, barregan.

Fuxicar – amarrotar, enxovalhar (roupa, etc.)

Farofa – carne mexida com farinha.

Fabrica – (Ceará) rapaz que ajuda o vaqueiro na estancia.

Fachina – soldado em serviço fóra do quartel.

Famanaz – (ao Norte) muito afamado.

Flato – ataque de nervos.516

Goraca – cinta de couro que se fecha com dous botões
grandes ou moedas de ouro ou prata, com uma bolsa.

Girimum – (ao Norte) abobora. (Ind.).

Geraes – logares ermos (N.) „Perdi-me nesses Geraes”

Gereré – rede pescaria.

Giráo – leito de varas sobre forquilhas; tambem serve
para moquear carne, guardar louça, etc.

Graucá / Gaujci – caranguego.

Garapa – caldo de canna moida no engenho.

Isqueiro – pequeno tubo de metal ou ponta de chifre
com tampa de porongo ou metal, que serve para guardar
isca a que pegam fogo com fuzil e pederneira para accender
cigarro.

Igacaba – talha grande para agua (Norte.)

Igarvana – homem navegador.

Ipueiras – logares que no inverno se enchem d’agua,
conservando-a por tempo dilatado.

Jacá – cesto comprido com tampo, feito de taquaras.

Jandahira – abelha.

Muxinga – açoute (voe. afr.)

Muxingueiro – o que açouta.

Mungangas – momos.

Muxoxo – estalo com os labios em signal de desprezo.

Mulambo – farrapo, andrajo.

Mascate – antigamente mercador estrangeiro; hoje o
que vende fazenda pela rua.

Mascatear – vender fazendas pela rua.

Mandinga – feitiço.

Muquiar – preparar certo guisado.

Muquem – logar onde se muquia.

Manjo – jogo do tempo será; Maria mocangueiro.

Macachêra – mandioca doce (Norte) a que no Rio de
Janeiro dão o nome de aipim.517

Mocambinho – (Norte) habitação feita no mato por negros
fugitivos.

Mocambos – vastas moutas no sertão onde se esconde o
gado.

Maldictas - sezões, maleitas, febres de crescimento.

Mocotó – mão de vacca.

Muxiba – pelles de carne magra.

Matuto – sertanejo, homem atoleimado.

Massada – cousa que causa fastio, aborrecimento.

Nonhô, ã 1369 / Yoyô, yayá – mancebo, senhor moço,
senhora moça.

Ordenança – além da significação propria, designa a
praça que acompanha e está á disposição dos Ministros,
Presidentes de Provincias, e outras autoridades.

Obrigação – familia (como vai a obrigação ?)

Presiganga – náo que serve de prisão.

Pequira – cavallo pequeno.

Pagé – adevinho; homem que livra de feitiços e encantamentos
(Ind.)

Poncho (ponche) – especie de cobertor quasi redondo
com uma abertura e gola no centro por onde passa a
cabeça. Serve para resguardar o cavalleiro do frio e da
chuva. Sendo de linho (por causa do pó nos dias de grande
calma) chama-se palla.

Pacova – banana (Pernambuco.)

Pião – homem que amansa cavallo e burros chucros
(bravos).

Passoca – carne secca pilada com farinha e cebolas.

Puxado – aposentos feitos depois de construido o predio.

Paspalhão – papalvo, fatuo.

Pereba (pareba) – qualquer erupção cutanea, feridinha
com puz, sarninha.

Pipoca – milho arrebentado ao calor do fogo.518

Quindins – requebros, melindres.

Quitute – iguaria exquisita e appetitosa.

Quitanda 1370 – mercado volante de hortaliça, etc.

Quitandeiro – o que vende quitanda.

Quicé – (Norte) faca pequena.

Quilombo – lugar onde se refugiam e reunem negros
fugidos.

Quilombóla – negro que se acolhe ao quilombo.

Quimanga – cabaço em que se guarda comida.

Rebenque – chicote curto de couro trançado, e com uma
ou mais pontas de sola ou couro trançado.

Réve – vasilha de barro que não vasa pelos póros.

Samburá – cesto de cipó de boca apertada em que o
pescador guarda o peixe. No Rio de Janeiro é uma especie
de cesta com alça.

Senzala – habitação de negros nas fazendas.
Sipoada – vergastada (com cipó).

Sura – ave sem pennas na cauda.

Samba (sambar) – festa popular no interior na qual dança-se,
bebe-se, e canta-se á viola; ir a samba, divertir-se
nella.

Taba – aldeia (voc. tupy).

Tapera – estancia abandonada – lugar ermo.

Trapiche – casa onde se guardam generos de embarque
e onde carregam e descarregam navios.

Tala – chicote pequeno com uma ponta larga de sola.

Tijuco – barro de estrada, pegajoso (voc. tupy).

Tupinambaba – maçame de linhas e anzóes.

Teméro – temerario.

Tirador – peça de couro que se prende á cintura para
facilitar o serviço do laço, e não estragar a roupa.519

Tombador – (terreno) desigual, cheio de borracaes.

Tauçú – pedra furada presa a uma corda para servir de
ancora ás canôas.

Torém – instrumento e dansa popular. 1371

Urú – bolsa de palha de palmeira buruty ou carnahuba.
(id. ave).

Varjota – vargem pequena.

Vigario – homem astuto.

Xingar – chamar nomes a alguem.

Xingamento – descompostura de palavras.

Xeripá – chales com que os camponezes no Rio Grande
cingem a cintura.

Xenxem – cousa desprezivel. Dava-se este nome a
uma moeda hoje sem valor.

Tambem são de notar as mudanças phonicas; assim é
que no Pará diz-se Labisonhos p. lobis-homem: geralmente
em todo Brasil a gente illetrada diz Vosmecê p. vossa
merçê
; pronunciam quarar por corar, i. é, enxugar a
a roupa ao sol depois de ensaboada quarador o logar
grammado onde se estende a roupa a corar cadê p. que é
de.

Nada tem entre o povo mais denominações do que a
aguardente: – é a bixa, a teimosa, a branca, as sete virtudes,
a pilóia, etc., por beber um trago de aguardente dizem
tomar um codório, matar o bicho.

Vejamos agora alguns modos de dizer do povo:

Levar tabóca, ou de taboa, na cuia – não conseguir o
intento; não obter despacho favoravel á pretenção.520

Tomar chá com alguem – mofar de.

Subir a serra / Dar cavaco – enfiar

Vêr-se em assado, em apuros – achar-se em apertos.

Homem ralado do mundo – experimentado.

Ter uns biquinhos – dividas de pouca monta.

Andar de ponta com alguem – estar picado, estimulado.

Entrosar – importunar; querer parecer o que não é.

Bater a bota, esticar a canella – morrer.

Crescer para cima de alguem – dirigir-se para alguem
ameaçando-o.

Estar de venta inchanda – zangado.

Querer ensebar alguém, embaçal-o – querer illudil-o.

Dar as dedicas – empregar os meios convenientes
(Ceará).

No Ceará é expressão muito vulgar – para esse tanto,
ex.: – “Não julgar que se fallasse n’esse tanto”, (a este
respeito), uma razão para esse tanto, etc.”

Advertimos que estes modos de fallar são apenas
ostensivos na conversação familiar, e alguns só na da
plebe, e que nunca se encontram em nossos escriptores, a
não ser, execusado era accrescentar, os que o uso sanccionou
e são necessarios, como sura, giráo, ordenança,
etc.

Outrosim, é muito de notar a tendencia que tem o
povo para dar a cousas ou profissões nomes que lhes não
cabem, mas que todavia persistem, vendo-se a classe culta
muitas vezes obrigada a sanccional-a:

Belchior – adello.

Maxambomba – antiga ferro-via urbana.

Barata – mulher pobre, que usa capona, i. é capa
ampla e longa que cobre tambem a cabeça.

Bispo – vehiculo publico, victoria pequena virada por
um animal.521

Bond – ferro-carril suburbano e urbano; além de
denominações de certas molestias epidemicas, taes como:
– zamperina, porka, lanceiros, etc. Quasi todas essas denominações,
porém, coincidem com um facto politico
ou social que lhes deu origem . São neologismos historicos.

Já dissemos – é o povo que representa as forças livres
e espontaneas da humanidade.522

Quadragesima quinta lição
Alterações lexicas syntacticas. – Archaismos
e neologismos

1. – Já vimos que as linguas transformam-se no correr
dos tempos não só na phonologia, mas tambem no lexico
e na syntaxe.

Esta evolução já ficou claramente explicada.

As alterações, pois, podem ser phonicas, lexicas e syntacticas.

Alterações phonicas. – Já as estudamos.

Alterações léxicas. – Tambem já vimos nas lições passadas
(29, etc.) quaes ellas são, e quaes as suas causas.

Alterações syntacticas. – O confronto dos exemplos
com que quarteamos as lições 29, 33, 34 e 35 basta para
fazer-nos sentir a diferença de construcção nos diversos
periodos de lingua.

O optimo de todos
direi somente o em qué pararam estas cousas.
determinou de
O
Castello de Santarem aos Mouros o tolhy.
estamos convicto ou convictos
as cousas que elles tinham feitos.
morrer á fome, de fome
até á casa, até casa, até a casa
começou fazer, de fazer, a fazer
en cas sa madre, en cas de sa madre
regada tinha as flores; regado tinha, etc.
desde Março meado, desde o meado de Março

2 – Para o desenvolvimento da lingua e para o seu
continuo evolucionar, muito concorrem duas forças conhecidas
pelos nomes de archaismos e neologismos.523

3 – Archaismos. – São palavras que se perdem na
solução de continuidade, mas cujo desapparecimento, como
nos seres organicos, concorre para o desenvolvimento
da linguagem.

Acontece – diz Whitney – como nos seres organizados
nos quaes a eliminação faz parte do desenvolvimento
tanto quanto á assimilação.

As causas da morte das palavras podem-se reduzir a
quatro:

1 Perda da idéa ou do objecto expresso pela palavra:
– algazil, escamel, behetria, bucellario

2 A synonymia, o neologismo: – agro (campo),
emprir (encher), lidimo (legitimo), punçante (pungente), ..…

3.° – O uso, a ignorancia dos escriptores, o pedantismo
litterario: – pelliceiro, empegar, medicinar, sorvar, .…

4.° – O dar-se á palavra, por transferencia, sentido
obsceno, ou ser considerada – por effeito de idisyoncracia
mental – termo vulgar, chulo: – feder, tresandar,
rabo
, …

Os archaismos podem ser:

Proprios, isto é, termos inteiramente mortos, e sem
esperança de resurreição, a não ser em docs. historicos:
bayanca, cabiscol, soforar, julgajul, bulhom, …

A. de sentido. – São palavras que, conservando a
fórma integral originaria, perderam certo e determinado
sentido. Ex.: – fazenda significando sentimento ou estado
d’alma; mesura – generosidade, torto – injuria, damno,
arraial, aguadeiro, caldeira, esmolar, manhas, …

Mesura seria, senhor,
de vos amercear de mi.
Cauc. Vant.

Da minha senhor que eu servi
sempre que mays c’ami amey,
veed amigos que tort’ey.
(Id).
524

A. flexionaes. – São as terminações verbaes ades,
edes, odes
(Sec. xiii, xiv), os participios em udo
(Sec. XV), etc.

A. phonicos. – São innumeros – abisso abysmo,
boveda abobada, tredor traidor.

A. orthographicos. – Constituem archaismos orthographicos
o emprego de om p. ão, de l ou ll p. lh
(melor muller alleo), de dous f iniciaes ou r medio
(ffalsas onrra), etc.

A. syntaxicos. – Destes são mais importantes o emprego
de certos verbos sem preposição: – começar dar
testimunho, entrou casa de, casou a filha de
; do gerundio
precedido da prep. em, equivalente a - no tempo em
que
: – em sendo abbadessa ouve um filho (Liv. Linh.);
certas inversões arrojadas, etc.

4. – Os neologismos são novos meios de exprimir o
pensamento, e de enriquecer a lingua dando outrosim varias
accepções a cada uma das palavras.

Formam-se da combinação dos proprios elementos, ou
da importação grega, latina ou de qualquer outra lingua.

Os 1os são intrinsecos, os 2os – extrinsecos. D’estes
assás nos temos occupado; d’aquelles basta ler o que escrevemos
sobre os dous grandes processos de formação.

Temos ainda o que chamaremos – neologismos por
archaismos
, facto curioso no desenvolvimento das linguas,
e que consiste no resurgir em epoca mais ou menos remota,
de palavras condemnadas ao esquecimento. Entre as 128
palavras citadas por D. Nunes como antiquadas, figuram
finado p. morto, sagaz, atroar, atavio, arrefecer,
algures
…; nas apontadas por F. Freire acham-se arroladas
andrajo, adrede, passamento, sandice, bipede, bipartido,
queixumes, delonga, derradeiro, pristino, vociferar,
longiquo
, etc…

Os neologismos vicejaram em todas as epocas da vida;
525mas a sua influencia mais se tomou manifesta no Sec. X,
e accrescentada nos dous seguintes.

No sec. XV a fonte principal dos neologismos extrinsecos
era o latim, no XVI – o francez, nos seguintes – o hespanhol,
italiano e a influencia greco-latina.

“O archaismo vale principalmente como tradição litteraria,
como correctivo ao neologismo, e, em summa, como
material expressivo e representativo do espirito e da fórma
das composições antigas.” 1372

As linguas estão sujeitas ás duas forças da conservação
e revolução, de que nos falla Darmstater; o neologismo
será um dia archaismo, disse Littré.526

Quadragesima sexta lição
Syntaxe e estylo

1. – O estylo é « a feitura caracteristica que dá ao dizer
de cada um o modo especial, porque elle concebe, ordena
e exprime os seus pensamentos.»

“Tudo o que se diz fallando ou escrevendo, consta de
pensamentos, concebidos sob certas fórmas ou figuras,
expressadas por palavras, ordenadas em phrases, e estas
distribuidas em clausulas.

A syntaxe é, pois, o processo geral, e o estylo o processo
individual.

2. – A estylistica é a arte de bem escrever; para o
escriptor, a palavra é um symbolo que se modifica á força
inventiva da imaginação, transformando-se numa verdadeira
suggestão de imagens. 1373

E a perfeita comprehensão da natureza das palavras
exige uma fórma qualquer figurativa. 2374

Este caracter extrema forçosamente á phraseologia artistica
da phraseologia grammatical; a estylistica da syntaxe
commum, sem todavia excluir as muitas modalidades
de dependência a que estão sujeitos os dous processos.

3. – Em geral, póde-se affirmar, ha sempre connexão
estreita e fatal entre as producções litterarias e a indole
especifica das linguas que lhes servem de instrumento. E’
a correlação do apparelho e da funcção. E’ força, pois,
527distinguir no estudo scientifico do estylo duas ordens de
factores importantes: – a influencia do caracter e das
normas tradicionaes da lingua; do meio sociologico sobre o
escriptor, e da reacção por este exercida, tendente á producção
de novos effeitos psychologicos, e á acquisição, para
os seus trabalhos, do cunho de originalidade. No 1° caso a
estylistica é objectiva, no 2° é subjectiva.

3. – Em seu periodo embryonario (Sec. XII-XIV) a
estylistica portugueza é sinceramente objectiva. A pobreza
do lexico e o cunho vocabular uniforme pelos effeitos phoneticos
regionaes, a construcção da phrase simples indecisa
na sua inversão, o agrupamento inconsciente do periodo,
as formulas officiaes da diplomatica e da agiologia, a
tyrannia da métrica convencional, – além de outras causas
talvez –, imprimiram nos escriptos d’essa época uma feição
caracteristica, singular, de homogeneidade total. E’ rigorosamente
uma litteratura anonyma, que, na prosa e na
poesia – como se vê dos Cancioneiros e docs. recolhidos
por Fr. F. de S. Boaventura –, a psychologia geral
daquelles tempos via-se tolhida pela tradição, que impunha
uma fórma monotypica.

4. – Todavia, esses documentos deram resultados, que
já por si constituem perfeição de estylo, e de que se aproveitou
a estylistica subjectiva. Foi o emprego de termos
populares – que poupa a energia do leitor ou ouvinte, e o
emprego de pouco crescido numero de vocabulos – que
poupa o esforço mental.

E’ o que Spencer denomina – economia da attenção,
uma das modalidades do grande principio do minimo esforço,
que, com a emphase, domina a maior parte dos factos
da vida e evolução da linguagem.

Menina e moça me levaram de casa de meu pai pera longes terras:
qual fosse então a causa d’aquella minha levada, era pequena não na
soube. Agora não lhe ponho outra, senão parece havia de ser o que
depois foi.
(Bern. Rib.)
528

Estavas, linda Ignez, posta em socego,
de teus annos colhendo o doce fruito,
Naquelle engano de alma ledo e cego
Que a fortuna não deixa durar muito;
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuitos,
Aos montes ensinando e ás hervinhas
O nome, que no peito escripto tinhas
(Camões.)

5. – Outra vantagem é o emprego dos termos concretos
de preferencia aos abstractos, e d’ahi tambem o
emprego dos tropos 1375 e onomatopéas, que – materialisando
as cousas abstractas – facilita a sua immediata comprehensão.
Exemplos destes processos offerecem-nos os proloquios
e annexins populares, cheios de vida e de energia.

Tirar sardinha com a mão do gato.
Não se pescam trutas a bragas enxutas.
Miguel, Miguel, não tens abelhas e vendes mel.

Já dizia Rodrigues Lobo (Côrte na Aldeia) «ha metaphoras
e translações tão usadas e proprias, que parecem
nascidas com a mesma lingua, que como adagios
andam pegadas a ella. »

6. – Outro elemento do estylo objectivo são as onomatopéas,
a principio directas, depois ostentando sem
as palavras, só pela cadencia e som, a imagem que se
pretende pintar. E as vozes onomatopaicas constituem
grande riqueza da nossa lingua.

O louvar com cymbalos bem retinintes; o louvar com cymbalos
de alegre resonancia. Tudo quanto tem folego, louve ao Senhor.
(Psalmo 150 – 5 – 6)

De terras e povos fazendo uma dansa vindo cantando com doce
harmonia estas palavras de grande alegria, vivamos cantando com
tanta bonança.
(J. B. – Clarim).

Os vastos campos, c’o baque longe, e roncos ribombaram.
(F. Elysio. – Ober.)
529

Lhe embebe o ferro pela aberta boca
Na hastea, que os fere, os dentes retiniram
(Id. G. Pun.)

Brama e rebrama em échos o estampido,
Por ôcas furnas reboantes brenhas,
Crêras que cada tronco estala e escacha
(Id.)

A plumbea pela mata, o brado espanta
Ferido o mar retumba e assovia 1376
(Camões)

escarcéos e escarceos, rebentam, bramam,
alvejam, troam
: o intimo do abysmo
sobe á flôr, desce a espuma ao fundo inquieto
(Id.)

Rue a raivosa rustica torrente
(Bocage)

Secca a terra apparece, nella é tudo
Informe, e rude, e solitario, e mudo.
(Macedo)

Exemplo magnifico é este em que Camões descreve
as cadenciadas e monotonas pancadas do pente e pedaes
do tear:

Quando em face ao tear rojaes cantando
de cá lá, de lá cá, por entre os fios
do alvo ordume a lisa lançadeira,
E dos pedaes ao compassado toque
O pente acode, e vos condensa o panno.

7. – Alliteração e assonancia – A alliteração é instinctiva
e popular; della encontramos exemplos nos
primeiros docs. da lingua.

cheguei chegar
(C. Vat.)

disse – m’a mi meu amigo
(Id.)

são e salvo, feio e forte, berliques e berloques:

Padre Santo san Gião
Que vem e vae com os que vão
(G. Vic.)

E’ mui frequente a alliteração dos nomes proprios nas
canções antigas: – Martim Morxa, Lopo Lecas, etc.
(C. Vat.).530

São exemplos de assonancia:

a Sevilha el rey servir (C. Vat.)

domar potros porém poucos
Não levantes lebre que outro leve
Si não fores castocauto
Cesteiro que faz um cesto faz um cento

8. – Elemento tambem objectivo do estylo é a tendencia
sempre crescente para a construcção analytica
(Secs. xviii – xix), que nos poupa fadiga mental, mas
nem sempre se presta aos etfeitos estheticos.

9 – Não nos demoraremos nas qualidades essenciaes
das palavras, das phrases e clausulas.

As palavras devem ser vernaculas, ter por fiadores os
que bem escrevem e fallam a lingua, ser empregadas com
propriedade, clareza e conveniencia (relativamente á contextura
do assumpto – elevadas, familiares, communs
plebéas ou chulas).

São qualidades essenciaes das phrases e clausulas - a
correcção, pureza, isto é, que na combinação das partes e
arranjo geral sigam o genio da lingua ou uso dos melhores
escriptores 1377; clareza (e para isso é mister, além de vocabulos
nitidos e bem cabidos, claros, e syntaxe correcta –
precisão, ordem 2378, unidade), emphase, harmonia.

Estudo necessario para que se forme o estylo é tambem,
alem do vocabulario completo, e syntaxe correcta, a da synonymia,
e a leitura joeirada dos classicos antigos e modernos.

10 – O estylo classifica-se, quanto ao desenvolvimento
dos pensamentos e expressão, em – conciso, preciso, desenvolvido,
prolixo
.

Quanto á qualidade e gráo de ornato, em simples, temperado
e sublime.531

O estylo simples subdivide-se em simples, natural (que
á simplicidade da expressão, junta a dos pensamentos),
familiar. E’ o estylo preferido nos livros didacticos, de
narrativas vulgares, etc…

Estylo simples. – E’ doutrina certa entre os antigos grammaticos
e rhetoricos, assim gregos como latinos, que a principalissima qualidade,
que deve ter qualquer escriptor, é a pureza da linguagem em
que escreve. Sem propriedade no fallar perde muito qualquer obra
litteraria d’aquelle solido merecimento, que depende não do juizo do
povo ignorante, mas da sentença da critica judiciosa. Esta propriedade
consiste em usar d’aquelles vocabulos, d’aquellas phrases e idiotismos,
que constituem o distinctivo e indole legitima do idioma em que se
escreve.
(J. FreireReflexões sobre a lingua portugueza.)

Estylo natural – Quando ás vezes ponho diante dos olhos os
muitos e grandes trabalhos e infortunios, que por mim passaram, começados
no principio da minha primeira idade, e continuados pela
maior parte e melhor tempo da minha vida; acho que com muita
razão me posso queixar da ventura, que parece que tomou por particular
tenção e empreza sua, perseguir-me e maltratar-me, como se
isso lhe houvera de ser materia de grande nome e gloria; porque
vejo que não contente de me pôr na minha patria, logo no começo da
minha mocidade, em tal estado que n’elle vivi sempre em miserias e
em pobreza, e não sem alguns sobresaltos e perigos de vida, me quiz
tambem levar ás partes da India, onde em lugar de remedio que eu ia
buscar a ellas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os
perigos.
(Fernão Mendes PintoPeregrinação .)

A naturalidade não póde vir desacompanhada de talento,
de imaginação, e grande sensibilidade. Si assim
não fôr cahe na puerilidade e chateza.

Estylo familiar. – Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem com
isso se contentam; e andam buscando palavras mui exquisitas, que
por termos mui escuros significam o que querem dizer. Como um
que se queixava da sua dama, que, de ciosa, andava inquirindo os escrutinios
do seu pensamento
. E outro a um barbeiro disse, que lhe
rubricára a parede com a sangria
.
(F. R. LoboCôrte na Aldéa.)

O genero temperado divide-se em estylo apurado,
elegante, espirituoso
.

O estylo apurado mais se eleva pela propriedade e bom
cunho das palavras, pela sua correcta e elegante collocação,
do que pelo excesso de colorido, de ornatos, etc.532

De muitos Santos lêmos, que o começaram a ser ainda no berço.
Assim madrugou neste menino a inclinação ás cousas da Religião e
da Igreja. Inda não tinha idade para entender e discernir, já assistia
a uma missa com tanto siso, e com tanta quietação, que dava que
fallar aos que o viam, mostrando na applicação, que não ignorava de
tado o que alli via e ouvia.
(SouzaV. do Arcb.)

O estylo elegante é o que mais apresenta a phrase rendilhada,
colorida, o periodo boleado, harmonico, etc.
Quando o assumpto não comporta o peso dos ornatos, por
muito ricos para o caso, ou muito multiplicados, o estylo
degenera, e longe de ser belleza é um defeito.

A aurora é o riso do céo, a alegria dos campos, a respiração das
flôres, a harmonia das aves, a vida e alento do mundo. Começa a
sahir e a crescer o sol, eis o gesto do mundo e a composição da
mesma natureza toda mudada; o céo accende-se; os campos seccam-se;
as flôres murcham-se; as aves emmudecem; os animaes
buscam as covas; os homens as sombras. E se Deus não cortára a
carreira ao sol, fervera e abrazára-se a terra, arderam as plantas, seccaram-se
os rios, sumiram-se as fontes; e foram verdadeiros e não fabulosos
os incendios de Phaetonte.
(Vieira – 1, 251).

O estylo espirituoso (faceto, etc. 1379, em que o escriptor
deve sempre conservar delicadeza e finura do sentimento,
para que o sal attico não degenere em sal de cozinha.

Fossem lá á rainha Anna que deixasse entrar no seu gabinete
quatro calças de couro sem creação nem instrucção, e não mais senão
só porque este sabia jogar nos fundos, aquelle tinha boas tretas para
o canvassing (manejo) de umas eleições, o outro era figura importante
no Freemasson’s-hall ! (loja maçonica).

Já se vê que em nada d’isto ha a minima allusão ao feliz systema
que nas rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em
Portugal.
(GarretViagens na minha terra.)

O estylo temperado é o estylo proprio do sentimento,
é o mais empregado em poesia, historia, romance.533

O energico. Exige talento, gosto, e estudo, porque
muito depende do bom cabimento do termo, que vá immediatamente
gravar a idéa no pensamento. E para isso
são tambem precisos o jogo delicado das antintheses, e a
concisão, a graciosa e emphatica brevidade.

Eu vos mando, filho, com esse soccorro a Diu, que pelos avisos
que tenho, hoje estará cercado de multidão de Turcos; pelo que toca
a vossa pessoa, não fico com cuidado, porque por cada pedra daquella
fortaleza arriscarei um filho. Encommendo-vos que tenhaes lembranças
daquelles, de quem vindes, que para a linhagem são vossos
avós, e para as obras são vossos exemplos; fazei por merecer o appellido
que herdastes, acoroando-vos que o nascimento em todos é igual,
as obras fazem os homens differentes; e lembro-vos que o que víer
mais honrado, esse será meu filho. Esta é a bençam que nos deixaram
nossos maiores; morrer gloriosamente pela lei, pelo rei, e pela patria.
Eu vos ponho no caminho da honra; em vós está agora oganhal-a.
(J. FreireVida de D. João de Castro.)

O vehemente – é o irrumpir de um vulcão, cujas materias
incandescentes recalcara por tempo dilatado. Mil
idéas atravessam ao mesmo tempo o cerebro do orador,
dominam-lhe o sentimento, – a paixão, a ira, etc.; e d’ahi
essas phrases desligadas, o apostrophe, a interrogação e
exclamação, a prosopopéa, a repetição, a ellipse, a metaphora,
etc…

Crescerá com a nossa paciencia o seu atrevimento. Depois de commettido
o maior delicto, qual não terão por leve ? Quem duvidará ser
offensor onde se não vingam injurias ? Acabemos pois de despertar
d’este mortal lethargo; mettamos até aos cotovellos os braços no
sangue d’estes crueis tyrannos; n’este veneno banhemos os alfanges;
porque percam com as vidas a gloria de tão grandes insultos.
(J. FriereVida de D. João de Castro.)

No estylo magnifico ou sublime a pompa das imagens,
a louçania das palavras, a elevação dos pensamentos, a
pujança das figuras em criterioso dominio, a harmonia do
tecido da phrase e da contextura do periodo, eis o que
constitue este estylo, de que é excellente exemplo o trecho
de Herculano citado a pgs. 495.

11 – « Todas estas classificações são boas debaixo do
ponto de vista a que olham; mas insufficientes para caracterisar
534todos os estylos. Dous ou mais escriptores
escrevem, por exemplo, em estylo simples e conciso, e
todavia não deixa cada um d’elles de ter um estylo tão
individual como a sua physionomia. Serão simples e
concisos; mas um será obscuro, outro claro; um profundo
outro superficial; um original, outro vulgar, etc. Assim
designar o estylo de cada um delles pelas qualificações de
simples e conciso não é caracterisar-lhes o estylo; porque
não é indicar a feição caracteristica, que distingue esse
escriptor d’outro tambem simples e conciso. »

12 – Os estylos litterarios são pois muitos; mas no
portuguez podemos perfeitamente distinguir tres categorias
que bem espelham as transições.

1°. – O estylo classico, creado no sec. XVI artificialmente
pela cultura latina.

2°. – O estylogo gongorico, caracterisado pelas turgidas
metaphoras, empolado de phrase, antitheses desvairadas,
hyperboles disparatadas, pelo fraldoso arrastar da
phrase, etc…

« Não o nascer se não nascer sabiamente, é o que faz viver
para todos: a sabedoria do nascimento dá universalidade á vida, bem é
universal o que é sciente, que as sciencias tratão de universaes, e quem
nasce entre sabios, por isso mesmo nasce sabiamente. »

« Affonso e Beatriz gerão em Pedro sua imagem, e semelhança,
Pedro o é de seus pais; este foi ditoso em que teve pais, de que
mereceu ser filho, aquelles em ter um filho, de que mereceram ser
pais: de um, e outro é a felicidade, e a sorte, dos pais, porque se
representam em tão bom filho, do filho, porque é imagem de seus pais. »
(Fr. H. de Noronha – Exemplar Poetico) 1623.

Donde começarei ? Briareu eburno
De cem braços de plectros, de um custodio
Virrei te doto; abre em Dorio turno
As pestanas, vê o Sol deste episodio;
Vossa Excellencia é o Sol; pelo coturno
O abração tantos braços: eu neste odio
Rasgo para cantar, e as cordas plenas
Dizendo vão Menezes, e Mecenas.
F. J. da Costa (O Imencu dos
Menezes e Castro
) 1740.
535

3. – O estylo contemporaneo, que influenciado pela
escola romantica, afastou-se do classico no arrevesado da
phrase, nos periodos estirados, nas inversões á latina, etc.
Esta escola foi iniciada em Portugal por A. Herculano,
Garrett, Castilhos, Rebello da Silva, Latino Coelho,
Mendes Leal, Castello Branco, … e tem produzido em
prosa e verso uma serie de escriptores de mui subido
merito.

Entre nós são escriptores correctissimos J. M. Velho da
Silva, Carlos de Laet, Aureliano Pimentel, B. de Paranapiacaba,
Machado de Assis, Luiz de Castro, Muniz Barreto,
José Banifacio, Bellegarde, …

13 – A estylistica teve pois a sua evolução.

No fim do Sec. XIV é que apparece pela primeira vez um exemplo
concreto, na rude descripção da batalha do Salado; no XVI Sá de
Miranda influencia no meio objectivo pela cópia de seus dizeres
populares, ao passo que, ao envez, o objectivo influe em A. Ferreira pela
tradição da autoridade classica.

No declinar desse seculo começa a prosa abstracta; mas o estylo
affectado e campanudo dos seiscentistas afeia os escriptos.

No Sec. XVII nota-se a influencia hespanhola, do que nos dá
prova sobeja o estylo de Rod. Lobo, sem individualidade, todo de convenção.
D. Francisco M. de Mello subordina a sua individualidade
ao que elle chama resuscitar o grave estylo de nossos antepassados;
Fr. Luiz de Souza e Freire de Andrade escrevem adstrictos a uma rhetorica
convencional: Bocage dá ao estylo mais harmonia pela continuidade
dos epithetos regularmente repetidos – diz o Sr. Th. Braga –;
Filinto Elysio – é o grande artista das riquezas da construcção portugueza.

« … a velha querela de purismo
e peregrinismo phraseologico deixa de ter razão de ser e
se resolve numa verdadeira logomachia, que só apraz
intelligencias ociosas e vasias de doutrina. »

« Que um escriptor original contemporaneo, influenciado
por um meio physico social particular, deva vasar seus
pensamentos e suas emoções conforme os modelos de um
convencionalismo classico e de certa bitola academica
(sempre apoiada na rotina da imitação, e procurando
mais o figurativo do que o expressivo), isto, affirmamol-o,
536é uma exigencia que só póde partir de uma critica erronea
ou apaixonada. »

« Neste caso estão os frequentes reparos que os criticos
de Portugal fazem de certas differenciações do fallar e
escrever brazileiro, onde o que mais se lamenta é a
nossa indocilidade para com « a tyrannia de Lobato ». »

« Mas é claro que, por exemplo, José de Alencar não
poderia, sem maximo ridiculo, escrever a sua bellissima
Iracema na feição pesada e grossa do quinhentismo classico,
que tão de perto trescala ao fragmento da Cava e
á canção de Guesto Ansures. »

« As pequenas modificações synthaxicas (que outras não
são), com que variamos e originalisamos a lingua de
nossos maiores, tem em seu favor, além das causas naturaes
que a sciencia descobre e aponta, a vantagem de
uma suavidade maior em varios sentidos. » 1380

E’ pelo estylo – diz Taine – que se julga um autor: o
estylo representa o que no homem ha de verdadeiro e
predominante.537

11 Em lat. columba, gen. gall.; palumba (= palumbes, palumbus)
= pombo trocaz. Em port. temos o adj. columbino e colombino.

21 Esta divisão da grammatica é a mais vasta e geral. Outra,
que tambem aceitamos, e mais determinada, é a seguinte – phonologia,
lexicologia, morphologia, morphologia analytica, syntaxe
.

31 V. Pacheco Junior – Revista Brazileira. 1° vol. 122.

41 Caso curioso de reforço vocalico, á maneira do guna sansk.,
é a forma dialectal de Beira – ai aula, ai augua, etc.

51 Cane. Vat., Ined. d'Alle., L. Cons., etc.

62 E como a voz é a emissão dos sons vocaes, segue-se que
não póde haver syllaba sem vogal.

73 Por excusado não nos referimos á sua constituição em
monosyllabos, dissyllabos, etc.

84 Ayer – Gramm.

91 E’ este o meio graphico aconselhado por A. Garrett; geralmente,
porem, emprega-se o accento agudo, e antigamente
representavam-no por um h (alahude).

102 H = til (macho = mão, cristaho = christão, …) F.da Guarda,
Ined. Port. Nestes ultimos – doc. 409 – o til não é representado;
maao, sayoes.

111 Sobre a deslocação do accento tonico nas palavras de origem
latina, é muito para ser comultado o que escreveu o Dr: Alfredo
Gomes.

121 G. Paris – Acc. 107.

132 Excep. martyr, homem, virgem, etc; e principalmente
nas palavras de origem não latina – ambar, aljofar, … e em voz livre
nasal – iman, orphão, orphã.

143 Excep. quasi, tribu.

154 Estes adjectivos seguem a regra latina por motivo das
desinencias, que são: aco, aro, cola, fero, fluo, frago, fugo, geno, gero,
ico, ido, imo, iplo, loquo, nubo, paro, pede, pelo, sono, ubo, uplo, volo,
vomo, voro
.

161 Em latim as palavras eram somente paroxytonas e proparoxytonas.

172 Sobre a origem e o historico da enclise, vide – Lameira
de Andrade, Vestigios da declinação latina, pags. 56, 57 – 1886

181 Pacheco Junior. – ProsodiaQuantidade e accento. – Ph.,
pg. 116.

192 Idem.

201 Pacheco Junior – 73, 75.

212 Sotaque é propriamente – um dito ou apodo vulgar ; hoje,
porém, é empregado extensivamente para significar o accento particular
a uma provincia, a peculiar modulação, etc.

221 Estas regras são excerptadas da Prosodia de Pacheco Junior,
(Phon.)

231 Não admitto vocalisação das consoantes, posto todos os
philologos se esteiem nessa theoria. A queda da consoante trouxe
o inevitavel alongamento da vogal, que a principio era representada
por um nasal ou pela reduplicação da vogal. Qualquer que seja o
grupo pt, ct, lt, etc., (preceito – preceptus, direito – directus, etc.)
deu-se sempre a quéda da 1ª consoante e o alongamento da vogal
precedente. – Pacheco Junior (Grammatica historica).

241 Esta minha opinião foi publicada em 1871; os professores
Fausto Barreto, Alfredo Gomes e outros aceitaram – n’a; em uma
obra deste anno, impressa na Europa por Brunot, é este tambem da
minha opinião. – Pacheco Junior.

251 Cp. francez – i cinq ; it. cinque, hesp. cinco.

262 Dahi o som brando em todas as linguas neo-latinas, – fr. nation ;
it. nazione ; hesp. nacion, etc.

271 Lat. pop. wantos. Lê-se nas actas Sanct, – chiroteas quaes
vulgo
wantos vocant.

281 Docs. Secos XIII e XIV – parava, peravaa, perabola.

292 Estas e outras amostras ainda perduram na linguagem inculta
de Portugal.

301 Porque, já vimos, ti soava ç.

311 Em docs. do sec. XII, como p, ex. no Foral de Evora, encontra-se
aflar – achar, etc.

321 Era o proceso seguido no seculo XIV (cambhar, sabha),
á maneira do ombriano e provençal. Os Bretões, os Celtas, os
Bascos e os Iberos tambem possuem esta molhada.

332 E esta é a pronuncia provençalesca e parisiense do ll (= lh).

Para maior explanação sobre as molhadas LH e NH ; V. Pacheco
Junior – Revista Brazileira.

341 Para estudo mais desenvolvido, e maior copia de exemplo –
cons. Pacheco Junior – Phonologia, Gramm. historica,
Revista Brasileira
, 2.° vol.

351 Do grego metaplásmus, do v. metaplásso, transformar.

Esta lição é extrahida da phonologia de Pacheco Junior
(cap. IV).

361 Gr. metathesis, transposição. Tambem se póde: dar a de
uma syllaba.

372 Gr. anastrophe, reviramento, volta.

383 Temos tambem litania, ant. lidania.

391 Cumpre tambem notar a prothese regional.

402 Addição ou replicação.

411 Dá-se tambem o nome de diastole (gr. diastole de diastelloa
dilatar) ao alongamento particular da vogal ou syllaba breve pel,
addição de uma consoante.

421 gr. synairesis, contracção.

432 gr. krasis, mistura.

441 Para maior desenvolvimento do ponto V. – Pacheco Junior
Est. da ling. vern